Paris vs. Mariana

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Sempre vi a atuação dos midiativistas (em um sentido amplo, que vai desde os responsáveis pelas mídias alternativas até os “pitacólogos” de facebook) como um certo trabalho de formiguinha. Lutamos contra uma grande mídia corporativa, que tem, já na largada, o acesso a uma porção da população infinitamente maior do que o nosso alcance individual (vai ver o que significa em termos práticos um mero ponto de audiência de um programa qualquer de televisão). Minha briga, portanto, não é contra os desinformados, mas contra os “desinformantes”. Pretendo, dentro dos limites muito estreitos do que é possível alcançar escrevendo em um blog, dar a contranota a todas as besteiras que vejo e leio nos grandes jornais. Não foi bem o que me aconteceu essa semana.

Fiquei bastante constrangido com o clima que se estabeleceu de cobranças em relação a quem, de uma maneira ou de outra, se solidarizou com os atentados em paris. Achei muito engraçado, para não dizer lamentável, que no meio da polêmica “defensores de Mariana” versus “defensores de Paris”, os atentados do Estado Islâmico, no mesmo dia, em Beirute, tenham passado completamente em branco.

Já fiz muitas análises por aqui sobre a situação no Oriente Médio, e vou acabar me repetindo, mas há um ponto central ao qual vou logo voltar: torcer pelo EI não é torcer pelos oprimidos contra os opressores, pela simples razão que o EI não luta pela emancipação de ninguém. O califado que eles defendem é uma sociedade conduzida por sultões e nababos, na qual mulher não pode ir à escola. Vamos ver mais ou menos o que isso significa.

Existe um lugar no mundo chamado Vaziristão. É uma província do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Lá, a Arábia Saudita instalou, décadas atrás, escolas para ensinar a versão fundamentalista tarada do Islã pregada pelo país, que é o wahabismo (é parte da política externa saudita a exportação da sua interpretação do Corão). Muitos afegãos, no período da invasão soviética, cruzaram a fronteira para se refugiar no Vaziristão, estudaram nessas escolas e voltaram loucos e radicais para o seu país de origem. Assim surgiu o Talibã (em língua pusthu, Talibã significa “estudante”). Coisa de dois anos atrás, nessa mesma província, agora semicontrolada por islamitas radicais, estes últimos proibiram as meninas da região de estudar. Elas frequentavam escolas separadas dos meninos, é claro. Mas nem isso era o bastante. Vários pais razoáveis ignoraram a proibição e continuaram mandando suas filhas para as escolas. Então, uma bomba foi colocada em uma delas. Resultado: 40 corpos de meninas entre 6 e 10 anos de idade, e as escolas depois disso fecharam porque ninguém quer mandar a sua filha para a morte, mesmo que isso signifique mantê-la ignorante em casa (eu postei essa história quando aconteceu). Além do Talibã, também foi daí que surgiu a Al Qaeda e, como desdobramento desta, o EI. E, para mim, terrorismo é isso. A imposição, aterrorizando a população civil, das suas próprias crenças, por mais insensatas que elas sejam.

Não há uma definição em leis internacionais clara do que seja terrorismo. Isso é útil para todos, pois é possível assim colocar mais ou menos quem você quiser debaixo desse tampo. Quando dos atentados de 11 de setembro, Putin estava às voltas com a primeira Guerra da Chechênia. Até então, ele era muito criticado internacionalmente pelas atrocidades cometidas pelo exército Russo na região. Depois dos atentados, ele pegou carona no discurso da “guerra contra o terror”, colocou-se como aliado do ocidente nessa luta, declarou que os chechenos eram os seus terroristas domésticos e voilà, nem mais uma palavra contra ele.

O que consterna, no entanto, é que os grupos em tela, além de formados intelectualmente no fundamentalismo saudita, como visto acima, foram treinados e armados (ao menos inicialmente) pelos EUA e aliados ocidentais. A função do Talibã no Afeganistão, como todos sabem, era promover o “Vietnam Soviético”. E para isso foram regiamente financiados pelos governos Reagan. A função atual dos radicais, na Síria, era derrubar o regime do Assad. Assad, um xiita, governa um país de maioria sunita, e é um dos poucos aliados que Rússia e Irã têm no mundo. Há nessa guerra um forte componente de intervenção ocidental na disputa por influência na região, no caso, antes de tudo, para enfraquecer a Rússia, impedir que ela tenha acesso ao porto de Tartus naquele país e isolá-la (e ao Irã) ainda mais no cenário internacional.

Por outro lado, é claro que, além dos atentados, a reação francesa está sendo a pior possível. François Hollande é um presidente fraco que foi presenteado com uma crise internacional aguda, para a qual ele está dando uma resposta militar fácil. Qualquer semelhança com o Bush Filho não é mera coincidência. Ele vai usar esses atentados e a “necessidade” de defesa para mostrar algum serviço e ter alguma chance de se reeleger no futuro. Agora é tarde. A estupidez virá de todos os nortes. A França, assim como os EUA, tem esse sistema de uma única recondução, para o cargo de presidente da república, há muito mais tempo do que o Brasil. Mesmo assim, poucos não se reelegem (de memória, só lembro do Lionel Jospin, na quinta república, a não se reeleger, e o Bush Pai, nos EUA).

Porém, acima de tudo, o que interessa saber sobre o Estado Islâmico é que o mundo que eles pretendem construir é um pesadelo também para a maioria dos muçulmanos. Difícil imaginar que a maioria dos árabes do norte de África, que moram em países em geral razoavelmente secularizados, não sintam um desconforto tremendo ao pensar em retornar a uma sociedade quase sem a participação da mulher na vida pública. Se é impossível ignorar a influência da intervenção estrangeira ocidental na região, ao custo de fazer uma análise ruim, também é impossível ignorar isso: os atentados do EI não têm nada a ver com as lutas, digamos, anticoloniais dos argelinos contra a França. Eles têm um forte componente de rejeição ao que a França representa de melhor, e não de pior, por exemplo, liberdade religiosa e direitos das mulheres.

Voltando ao Brasil, o que aconteceu em Mariana, evidentemente, não tem nada a ver com terrorismo. Tem a ver apenas com capitalismo, em sua forma plena. Foi apenas mais um caso de “teoria da firma”. A firma busca maximizar o lucro. O lucro é a receita menos a despesa. Ou você minimiza a despesa ou máxima o lucro, reza a boa lição de microeconomia. Estou sendo irônico, é claro, mas é nessa brecha que acontecem muitos dos piores desastres do capitalismo.

Minha briga é com os meios de comunicação, porque estes sim sofrem de sensibilidade seletiva. Essa seletividade normalmente reflete grandes interesses por trás, mas, às vezes, é fruto apenas do simples racismo, o que leva, de fato, a que eventos na África não tenham nunca a repercussão do que se passa na Europa. Quanto às pessoas, meu objetivo é preencher estas lacunas, romper este cerco, e não recriminá-las por colocar uma bandeira da França no perfil. Ou por nunca terem ouvido falar do Vaziristão.

 

 

 

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