A noite mais amarga

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E o genocídio do negro no Brasil segue no seu ritmo de sempre.

Quando temos filhos, nós criamos ilusões. Passamos filmes inteiros em nossas mentes. Antecipamos a realização de todas as suas potencialidades. Vislumbramos para eles um destino pleno, doce e feliz. Quando a minha nasceu, por exemplo, meu sonho era que ela seria astrônoma. Postei várias fotos no finado Orkut de berçários de estrelas, como os Pilares da Criação, que ilustram este texto (o que também foi a minha forma de anunciar ao universo que a minha estrelinha havia nascido). Enfim, nós projetamos neles tudo que temos de melhor e as nossas esperanças em relação ao futuro. Filhos são a nossa ilusão de continuidade. Isso tudo foi tirado de cinco famílias, em mais uma chacina cometida pela polícia do Rio de Janeiro.

Ao que parece, os cinco jovens haviam saído para comemorar o primeiro salário de um deles. Eu lembro da minha comemoração de primeiro salário. Foi na Lapa, e eu voltei para casa vivo. Privilégios de ser branco no Brasil: voltar para casa vivo. Como disse o historiador Luiz Antonio Simas, “o problema da PM não é ter dado errado. É ter dado certo.” Eu sempre disse que a polícia do Rio de Janeiro não tem nada de despreparada. Ela é muito bem preparada para cumprir o seu papel: manter a estrutura de classes da sociedade mais desigual do planeta. É pelo medo dela, e só por isso, que as pessoas inclusive não estão agora, neste momento de extrema revolta, quebrando tudo. Porque a fuzilaria de cinco crianças indefesas e inocentes em um carro, com mais de cem tiros, era motivo legítimo, justo e razoável para uma revolta colocar essa cidade em chamas. Eu não aguento mais notícias de negros sendo mortos. Ninguém aguenta.

Nunca é demais lembrar que esse crime também é fruto de uma política de segurança centrada em uma guerra às drogas que só beneficia os traficantes. Não falo, evidentemente, do pobre coitado do varejista, que acaba, em regra, preso ou morto. Falo do Aécio Neves, por exemplo, que teve um helicóptero cheio de cocaína apreendido, mas sequer foi investigado. Ninguém prende os grandes traficantes desse país, assim como ninguém dá tiro no consumidor que mora no Alto Leblon. Os mortos a tiro, no Brasil, têm cor e endereço certos: são negros e periféricos (infelizmente, nos dois sentidos que a palavra tem, uma vez que são vistos como “desimportantes” pelo poder público).

Não eram criminosos, como a Globo, sendo a Globo, tentou caracterizar no Jornal Nacional. Eram jovens trabalhadores, cheios de sonhos e projetos. Eles tinham nome: Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo de Souza, os dois de apenas 16 anos, Cleiton Corrêa de Souza, Wilton Junior e Wesley Castro Rodrigues. Cinco famílias foram jogadas pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro na noite mais amarga. Cinco pais não abraçarão mais seus filhos. Cinco mães terão que viver para sempre com a dor que nunca passa. Isso não pode ficar assim. Esse crime não pode se tornar apenas mais uma estatística.

 

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Enquanto isso, em São Paulo, a polícia do Geraldo Alckmin bate em estudantes que querem o direito de estudar, em uma verdadeira aula de truculência e autoritarismo nazifascista.

 

 

 

 

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