Aninho de merda

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Hoje, aos 30 de dezembro de 2015, como já está se tornando uma tradição, lanço o meu balanço de fim de ano. Depois de lido o texto de hoje de Luiz Antonio Simas no Dia, difícil não concordar com as suas observações: embora os absolutismos das redes nos levem a crer no contrário, é claro que foi um ano de vitória e realizações, para alguns, e um aninho de merda, para outros. Infelizmente, me enquadro na segunda categoria. Na verdade, para todo mundo que participa de movimentos sociais, há pouco a comemorar.

O ano começou com a polícia do Beto Richa destruindo os professores no Paraná, e terminou com a polícia do Alckmin massacrando os estudantes em São Paulo. Embora o movimento dos secundaristas naquele estado já possa ser considerado vitorioso e um dos pontos altos do ano, com ocupações, organização horizontalizada, autogestão e a Ubes sendo posta para correr, as cenas de violência e de repressão deixaram claro que, como sempre, no Brasil, a população será tratada como inimiga pelos governos e elites, mesmo que esse povo no caso seja composto de estudantes reivindicando, ora bolas, o direito de ter escola e de estudar. Aqui não se aprende nada. Essa é a mensagem.

No Rio, a repressão aos movimentos oriundos de 2013 segue pela via da judicialização. Processos surrealistas pendem ainda contra mais de vinte ativistas na cidade. Na verdade, essas pessoas não estão sendo processadas por atos de vandalismo ou pela morte do cinegrafista: elas estão sendo processadas pois pressionaram, e muito, pela abertura da caixa preta do transporte público, na forma de movimentos como o Ocupa Câmara. Todo mundo sabe que, o dia em que essa caixa for aberta, a sujeirada que vai sair daí não poupará ninguém. A máfia dos transportes é a única explicação para o alto custo e a baixíssima eficiência desse serviço no nosso estado. Os longos períodos gastos com locomoção, os altos preços das passagens e as dificuldades de mobilidade são fatores que tornam a vida da população do Rio quase insuportável. Mudar esse quadro, tirando o controle sobre a mobilidade urbana das famílias Barata da vida, e devolvendo-o ao povo, seria um fato altamente transformador da dinâmica da cidade, no sentido de um imenso salto de qualidade de vida e na direção da construção de uma cidade para os seres humanos, e não uma cidade do capital.

Também pesa nesses processos o pavor que o poder público tem de que as Olimpíadas se tornem palco de protestos, como foi a Copa. Mais uma vez, a demofobia brasileira em ação. Os ativistas do Rio, enfim, não estão sendo processados pelos seus erros, mas sim pelos seus acertos, e o Poder Judiciário está se prestando ao pouco nobre papel de ser instrumentalizado pela repressão dos governos Cabral-Paes-Pezão (que apelidinho de bandido pé de chulé, o deste último!). A única coisa pior do que ver seus amigos angustiados respondendo a processos, sem muito exagero, kafkianos, é você ser um deles, e ser o seu que está na reta.

Sem nenhuma novidade, também, mas com muita tristeza, a polícia militar fluminense encerrou o seu ano com diversas matanças, inclusive matando uma criança no natal, na Cidade de Deus. Mas o crime mais chocante de 2015 foi, sem dúvida, o fuzilamento de cinco jovens em Madureira. Eles vinham da comemoração de primeiro salário de um deles, foram encurralados em um carro e fuzilados com mais de cem tiros. Não houve resistência. Não houve, na verdade, sequer abordagem por parte dos policiais. Eles simplesmente atiraram. Desnecessário dizer que todas as vítimas das histórias acima eram negras. E segue, no seu ritmo de sempre, o genocídio do negro no Brasil. Sem surpresa, mas com muita justa indignação.

O quadro amplo da política nacional não poderia estar mais desalentador. Assistimos ao espetáculo deprimente de ver um bandido psicopata como um Eduardo Cunha, o homem do Collor na Telerj e dono de contas milionárias na Suíça, além de ocupar o terceiro posto de maior relevo no comando do país, ser transformado em herói pelos ingênuos (e os nem tão ingênuos assim) do combate à corrupção. Eu não defendo o PT, por razões que já expus por aqui à exaustão, e não vou repetir. Mas acho ainda assim triste a ingenuidade com que muita gente boa cai no conto de fadas político-partidário eleitoreiro de que o PT é a causa e a fonte da corrupção e de todos os problemas do país. A mudança não virá de cima, nunca. Virá de baixo. Da organização popular, do horizontalismo e do empoderamento das pessoas comuns, que se sentem distantes e não representadas pelo esquemão. No mais, teimo ainda em dizer, as forças que se opõem ao PT no “grande quadro” são muito piores do que ele. Dizer isso não é elogiar o PT, é falar mal, e muito mal, do restante da classe dirigente do país, que sempre primou por uma completa indiferença social. Nada disso, todavia, me motiva o suficiente para participar de atos pró Dilma. Me motiva, no entanto, ainda menos a participação em atos “anti” (e a única chance de uma panela mudar alguma coisa é se você acertar ela bem forte na cabeça de alguém que mereça).

Para fechar, nós, militantes do Rio de Janeiro, perdemos nosso querido Presidente, neste dezembro. Morador de rua e militante onipresente (sempre me surpreendi como ele, com acesso zero à internet, sabia de tudo nestes tempos em que nada se marca off-line: não se deve subestimar a boa e velha circulação de informações boca a boca, presencial e precária), manifestante-símbolo de todas as ocupações, morreu, não apenas devido aos seus muitos e graves problemas de saúde. Morreu também devido ao descaso do serviço público, onde, por um erro de diagnóstico, deram-lhe uma injeção de glicose, achando que ele estava bêbado. Só que ele não bebia, por ser diabético. Muita tristeza. Mais indignação. Tive a honra de conhecer essa figura, grande, generosa, inusitada, um verdadeiro gentleman nas sarjetas, e não poderia terminar o meu ano sem registrar mais uma homenagem, além do seu enterro, que foi um ato lindo, e do Mais amor, menos capital, que foi igualmente lindo e a ele dedicado. Presidente, presente!!!!!! E foooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooda-se!!!!!!!

Bem, queridos, foi assim. Embora por convicções astronômicas eu nunca tenha entendido todo o reboliço devido à passagem do planeta por um ponto escolhido aleatoriamente do seu movimento de translação, desejo um bom ano novo para todos.

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Aninho de merda

  1. Equívoco Humano

    Sempre as críticas ao governo é com ressalvas, parece que está difícil de enxergar que a origem dos recursos é 99% do executivo. Pois é ele que controla o orçamento e das empresas públicas. Ah mas o PT não é o único executivo, realmente, não é, mas é o maior deles. Então a maior fonte de recurso para a corrupção hoje é via PT e aparentemente o partido não tem sido modesto. Pois estão aparecendo nomes em todas investigações, inclusive nos Zelotes. Não que o Eduardo Cunha seja um herói, é um crápula, assim como todos os outros. Entre petralhas, tucanos e demais afiliações a única coisa que não existem são santos.

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