Filhos

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Estou com dois livros de literatura infantil escritos, e um terceiro a caminho. Este último, atendendo a milhares de pedidos, será baseado nas falas da minha própria filha, muitas que “viralizaram” na internet. Ainda não encontrei quem os publique, embora até mesmo os meus críticos mais severos (além de diversas pessoas da área, como ilustradores e etc.) tenham aprovado as redações finais dos dois já prontos e os tenham considerado muito bons. Como se diz por aí, na casa do ferreiro se morre empalado, ou qualquer coisa do gênero, pois mesmo trabalhando no mercado editorial desde os remotos tempos do Fernando Henrique Cardoso, de quem deus salve a memória, pois dos governos não sou eu que tenho saudades, não consigo arranjar cristão (ou muçulmano, ou judeu, ou hare hare) que os publique (embora o meu livro “para adultos”, que ainda está em processo, já tenha encontrado interessados em publicar – ironias).

Esse aspecto da literatura, a infantil, surgiu para mim bem por acaso, a partir da enorme realização que experimentei na paternidade. Antes disso, foi uma área pela qual eu nunca sofrera o menor interesse. Assim como nunca o sofrera pela própria paternidade. A paixão completamente irracional e devoradora que sinto pela minha pequena cria veio como uma surpresa para mim. A minha melhor surpresa, que não demorou nada a emergir: nunca esquecerei da ultrassonografia dos três meses, da qual já saí perdidamente apaixonado por aquele pequeno serzinho, que, por rolar de um lado para o outro do útero da mãe (que nesse ponto do desenvolvimento embrionário ainda é grande como um salão de baile), tornou o trabalho do médico quase impossível, pois que ele teve que “perseguir” a danada de um lado para outro da barriga. Parecia que ela estava, pilantrinha, de sacanagem com a gente, não querendo se deixar revelar. Foi a partir desse impulso, dessa realização, dessa “vibe pai” que escrevo o texto de hoje (que não é, de nenhuma maneira, para crianças). Vou deixar as desgraças do mundo descansarem em paz ao menos por uma semana e escrever sobre outro assunto que me cativa, ao mesmo tempo em que me apavora, que é o do amor absoluto. Vamos ao texto:

 

Filhos. Nós sempre os sabemos, da mesma maneira misteriosa como a galinha, clarissemente, sabe o ovo. Sem minha filha, eu seria uma pessoa muito desesperada e muito diferente. Diferente para pior. Os filhos são o nosso grande mistério. O assustador mistério do tempo. Filho não é para ter com qualquer um. Às vezes, é mais seguro ter a partir de um amor de uma noite. Melhor que ter com marido escroto que bate. Não a regras familiares tradicionais que excluem (a solteira, o gay, a lésbica)! Modelos só trazem infelicidades…

Como pequena obra minha para o mundo, crio-a para a independência, para ser livre. Eu e a mãe a fizemos para que ela seja o que quiser. Nós, juntos, a criamos para a potência. Me afastei de muita gente por causa da minha filha. Quando descobrimos que ela seria uma “ela”, ouvi de “amigos” a “piada” “vai passar de consumidor para fornecedor”. Nunca topei muito piadas machistas, mas essa, além do alto grau de deselegância, não consegue sequer ter um mínimo de graça. Graças a Darwin nunca mais vi essas pessoas. Não quero minha filha criada perto de gente assim. Quero minha filha criada no meu gueto, onde todo mundo é socialista, machismo é mal visto, racismo é inadmissível e onde amigos gays e de todos os tipos transitam com naturalidade.

Na verdade, sinto-me confortável por ter uma meninazinha. Nunca respondi muito ao estereotipo do homem brasileiro. Futebol me entedia mortalmente. A graça de assistir a uma corrida de Fórmula 1 permanece até hoje um grande mistério para mim. Aliás, carros de maneira geral nunca me interessaram. Não entendo nada de marcas, modelos e mecânicas (embora eu entenda um pouco a física envolvida) e voluntariamente abdiquei de dirigir. Sou formado em Letras, com o agravante da graduação ser em francês. Fiz canto coral por anos. Creio que todo o meu lado “matcho” foi despertado por uma grande paixão por boxe, que eu pratico e acompanho… Não sei como seria ter um menininho. Claro que iria amá-lo do mesmo jeito, mas não posso falar a priori de uma experiência que não tenho. Mas ele certamente treinaria boxe comigo, assim que a idade permitisse, assim como minha filha irá fazê-lo (nesse mundo ginocida, faria mais questão de treinar a menina em artes marciais do que o menino).

Filhos são surpresas o ano inteiro. Cada dia uma novidade. Um desenvolvimento novo, ao qual babamos por acompanhar, uma nova conquista, uma frase louca ou doce. A minha me encanta pela inteligência, pela sagacidade e pela capacidade de me zoar. Ficou famosa a história quando ela me disse que não estava me chamado de burro, “eu só estou dizendo que você não tem um cérebro muito bom, porque ele não vê grandes ideias”. Ou quando, ao comer uma banana, eu fui sacaneá-la perguntando “Tá boa essa bananinha, Bananinha?”, ao que ela, prontamente, respondeu, “Sim senhor, Senhor Bananinho”. Poucos dias depois encontrei uma amiga na rua, que lera a história na internet, e me chamou de “Sr. Bananinho”. Ganhou meu coração para sempre.

Conheço muitas mulheres que optaram por não ter filhos, o que é razoável e compreensível, embora na nossa sociedade patriarcal e machista isso seja mal visto, por mais que seja uma besteira. Homens com a mesma postura não sofrem a mesma discriminação (é incrível como homem pode tudo, não é mesmo?). Minha experiência pessoal, no entanto, me diz é sempre melhor tê-los. A minha filha me tornou melhor. Minha filha me tornou mais generoso só de a saber. Umedeceu-me a secura e me ensinou a querer o futuro. Tento ser o melhor para ela, e ela, sem dúvida, é o melhor de mim. Recomendo.

 

 

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