O que é isso companheiro?

(FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA)

FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Assisti pela tevê a todo o espetáculo que fizeram contra você. Um aparato de guerra foi montado para lhe levar a depoimento. Uma festa para as cameras, uma delícia para as manchetes.

Vi também que isso despertou as reações apaixonadas das mais diversas tribos espectadoras da vida política nacional. E, como o que está na moda é o maniqueísmo superficial, milhões de pessoas escolheram um lado e centenas delas degladiaram-se diante de simbólicos cenários criados pelas operações policiais.

Ouvi seus brados irritados que afirmavam que a jararaca não estaria morta. Aplausos e gritos. Havia algo de passado que, de repente, parecia ter-lhe voltado aos olhos. Pena que já é tarde, pena que isso foi esquecido em tantos outros bons momentos. Pena que essa garra seja apenas uma defesa de si mesmo. Pena que você tenha virado um fantasma daquilo que já foi em um passado distante.

Seus milhões de apoiadores denunciam a parcialidade da Justiça. Com razão, inclusive. Mas, vamos nos lembrar que, se o PT não inventou a corrupção, tampouco a Justiça e a polícia são parciais apenas na atualidade. Contra os negros pobres da favela, isso é de longa data. Mas seus olhos estavam fechados para isso.

Há muito poderia ter-se investigado crimes de governos anteriores, mas isso não foi prioridade quando você sentou-se na cadeira. Naquele momento, você preferiu jogar o jogo que lhe parecia favorável. Aliás, o fato de que outros tenham sido corruptos não abona comportamento idêntico, apenas mostra a necessidade de afirmar que outros são tão sujos neste jogo quanto você e seu partido.

Até porque, sabemos bem disso, companheiro, a corrupção não é propriedade de qualquer sigla, mas uma necessidade imperiosa do sistema, que só funciona movido a favores, compensações e vantagens. Vocês estiveram à frente do processo, mas se recusaram a modificá-lo em suas estruturas. Preferiram se enturmar com o establishment. Hoje percebem que a festa em que achavam ser anfitriões não lhes considerava mais que penetras de ocasião.

Sabemos, por isso mesmo, companheiro, que toda essa balbúrdia não se trata de corrupção. As panelas não se batem por honestidade – se o fosse, eles as bateriam em suas próprias cabeças –, mas por ódio de classe, raça e pela manutenção de privilégios e status.

Nesse ponto, serei acusado pelos seus de hipócrita por reconhecer os “avanços sociais” que seu governo promoveu. Quero lembrar que intervencionismo estatal está longe de ser justiça social. Na crise, a inclusão dos trabalhadores no sistema alimentou principalmente financistas e industriais, sem ganhos significativos para a mudança dos pilares que sustentam a exploração.

Nenhuma luta ideológica foi posta em cena. Prova disso é que a classe C que ascendeu em seu governo hoje ajuda a bater panelas contra a sua própria estrela. Dizia Paulo Freire (odiado pela culta classe inculta) que, sem uma educação libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor. Os discursos estão aí para provar a verdade da frase.

Vejo nas suas palavras o desejo de contar com os companheiros de luta. Mas, ora, porque agora, companheiro, depois de nos virar tantas vezes as costas? Por que não pedir ajuda a quem lhe eram bons e necessários apoiadores, como Maluf e Collor? Tá ruim, por que não chama a Kátia Abreu? Onde está Levy e o empresariado, esses aliados tão importantes do projeto nacional que você tentou levar adiante?

Quer dizer que você descobriu agora que a mídia é um câncer e que a Globo é manipuladora? Mas por que você resistiu tanto a fazer uma lei de mídias quando teve a chance? Por que naquele momento não ouviu a voz daqueles que hoje você convoca para estar a seu lado?

No momento em que os companheiros de siglas de luta precisaram dos seus para impedir a cláusula de barreira e manter a pouca voz que têm como ativa, você e os seus não estiveram a nosso lado, não nos deram chance, nem voz. Mas agora você nos quer defendendo nas ruas uma jararaca que tentou nos envenenar.

Agora você quer as ruas, companheiro? Mas não foram vocês que criminalizaram as manifestações? Ir às ruas, como, se somos vândalos e terroristas? Você pede para que esqueçamos a Força Nacional especialmente destinada a agredir-nos na Copa do Mundo? O silêncio que vinha do Planalto a cada massacre das polícias estaduais comandadas por seus aliados é inesquecível, acredite. E nossos tantos companheiros perseguidos, onde esteve a solidariedade para com eles?

Sei que é ilegal o constrangimento de sua condução coercitiva. Mas como vocês gostam das comparações, vamos lá: não é igualmente abusrda a prisão de alguém por porte de um desinfetante? Onde está o companheirismo para com Rafael Braga? Onde esteve a intervenção de apoio do governo aos companheiros vítimas de um processo kafikano que ainda se arrasta pela Justiça? Por que não mandar também esses processos serem enfiados em algum orifício judicial?

Desculpe, companheiro, mas essa sua briga já não é mais minha há muito tempo. Essa é a briga dos adminstradores do sistema. E, qualquer que seja o resultado, será sempre uma derrota. Neste jogo, só temos a perder. Nem que seja a ilusão que muitos tinham com relação a sua sigla.

Esta é a briga pelo chicote do feitor, não por nossa liberdade. E, companheiro, acredite, sua chicotada não doeu menos que a de nenhum outro.

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