Ainda uma vez PT

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Eu tinha jurado a mim mesmo não escrever mais sobre PT. Antes de tudo, porque fiquei farto de dialogar com a vesânia. Qualquer texto que você produza sobre o PT, contra ou a favor, será enxovalhado. Existe um limite para o que eu posso tolerar de insultos escritos com erros imperdoáveis de português. E, também, qualquer coisa que você escreva sobre o PT se tornará um “sucesso instantâneo”, pois será lido, compartilhado, debatido, insultado, aclamado… Creio que a segunda razão me cansou mais do que a primeira. Me recuso a obter os 15 minutos de fama que me cabem em cima de uma disputa da qual me sinto a cada dia mais distante (e justo eu, que sempre odiei aqueles “polemicistas” retardados e inúteis sem nada de importante para dizer, tipo Olavos, Mainardis e que-tais). Optei, com e sem trocadilho, pelo silêncio, já faz um tempo. Não é para menos.

No entanto, acompanhei com muita tristeza as comemorações, via jornais da Globo (coisa que também não fazia há muito), da direita histérica e alucinada em relação a tal prisão do Lula. O PT é indefensável, e eu esperei muito mais de um presidente vindo do movimento operário, mas os que querem tomar o lugar deles são muito piores. Comecei a escrever este texto na minha primeira sexta-feira em Brasília. A primeira sexta de uma vida indiscutivelmente nova. Não estava aqui nem há uma semana, mas parecia que uma década se passara. Foram dias de muitas intensidades. Enquanto William Waack se deleitava no Jornal da Globo, minha filha dormia no seu quarto. A mãe aproveitou que agora há um pai na cidade, me deixou cuidando da cria e foi a uma festa. Justo, após esses anos todos. Minha filha se encontrava no território dos sonhos. Sonhava, quem sabe, com algum personagem das historinhas que ela consome, com algum amiguinho da escola, ou com qualquer outra coisa mais etérea com que crianças de seis anos sonhem. Ela, pura e inocente, dormia o sono dos anjos e não desconfiava que o mundo estava desmoronando (em todos os sentidos). Pensei nela, olhei para o futuro e senti um ligeiro arrepio. Só as crianças e os tolos podem estar tranquilos em um momento como este. Olho para a frente e não vejo nada de bom saindo desse circo. E não demorou muito para que minhas expectativas ruins se concretizarem.

Previsivelmente, as viúvas de ditadura começaram a sair dos seus armários. Não que eu acredite que haja um golpe a vista. Quero crer que não há nenhum militar neste momento disposto a enlamear a própria farda em benefício do Aécio Neves. Mas é sempre preocupante, em um país com o nosso histórico, quando formadores de opinião começam a abertamente defender o imponderável.

No entanto, como poderia eu ir às ruas defender uma Dilma que se calou (no mínimo) frente ao arbítrio da polícia e dos desgovernos cariocas e fluminenses? Que deixou amigos meus (sim, amigos) sofrerem prisões completamente injustas e passar por processos farsescos à beira do kafkiano? Que conviveu (ou será “coniveu”) com as piores remoções desde os tempos em nada saudosos de ditadura? Que tipo de incentivo teria eu para defender tal governo, seja escrevendo, seja me manifestando? Reconhecer os avanços sociais não é defesa, por si só. Assim como reconhecer que a Lava a Jato foi uma operação política e partidariamente enviesada desde o seu começo, por valorizar certas delações em detrimento de outras, também não. A diferença de tratamento que o PT sofre por parte do judiciário e da imprensa é evidente para além de qualquer questionamento, o que só reforça o argumento clássico petista da perseguição política.

Apesar de avanços sociais inquestionáveis (a realidade nos traz dados, brigar com os dados é brigar com a realidade, e brigar com a realidade produz análises ruins), como disse Walace Cestari neste mesmo blog há poucos dias, em texto que assino embaixo e me deixou com pouco a acrescentar, essa luta já não é mais minha há muito tempo. Foi pela violência das suas polícias que fui arrastado, aos trancos e barrancos, para o lado da Vila Autódromo, da Aldeia Maracanã, da Favela da Telerj, da Favela do Metrô. Para o lado do Rafael Braga, da Sininho, da Eloisa Sammy e de tantos outros. Para o lado da Mariana Santos de cabeça quebrada por cassetetes (e de tantos outros e outras, midiativistas ou não) a mando imediato, é claro, do governo do estado, mas no mínimo com a conivência silenciosa de um governo federal para o qual não interessava em nada, naquela hora, o povo na rua. Então, não me culpem pela surdez em relação aos seus apelos. Culpem a si mesmos. Quem jogou a própria história no lixo foram vocês. Mas acreditar que o Brasil entrará para o reino da ética via Aécio Neves, ou que a faxina da corrupção virá do Eduardo Cunha, é acreditar que é possível limpar o chão com merda.

E aqui entramos no ponto nevrálgico do momento em que vivemos. Prefiro falar dele por meio de uma história na verdade muito triste. Um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros foi um veemente apoiador da ditadura militar: Nelson Rodrigues. Este é um fato que os seus biógrafos e admiradores tendem a minorar. Diz uma anedota da época que, uma vez, perguntaram ao Hélio Pellegrino se ele achava que Nelson aderiria aos militares, ao que ele teria respondido que seriam os próprios militares que adeririam ao Nelson Rodrigues, de tão reacionário que ele era. No entanto, a medida que o regime endureceu, o seu filho, Nelsinho, foi tomando uma direção bem diferente. Ele entrou para o MR-8 e, com o passar dos anos, foi subindo cada na hierarquia da organização, chegando a participar de uma ação em que um oficial do exército morreu. Nelson, por seu lado, começou a perceber os abusos do regime e passou a usar sua influência para ajudar pais a localizarem filhos. Também, às vezes, quando sabia da iminência da prisão de filho de algum conhecido, ligava para a família para avisar que aquela pessoa faria melhor em desaparecer (e rápido). Alguém, nesse período, chegou a se referir a ele como “agente duplo do bem”.

A acreditar na biografia de Ruy Castro, em um encontro com Médici (que também era um fanático por futebol e requisitara uma ida a um estádio com Nelson), Nelson pedira ao ditador que, caso seu filho (que àquela altura se tornara um “terrorista” conhecido e procurado) fosse preso, ele garantisse que os serviços de repressão “pegassem leve” com ele. O problema é que pouco depois Augusto Boal foi preso, e todo mundo soube que ele estava sendo barbaramente torturado no Dops de São Paulo. Nesse ponto, Nelson se indispôs com o regime, escrevendo em favor de Boal em um jornal carioca. E os militares não se esqueceram disso, assim como não esqueceram o oficial morto, quando capturaram Nelsinho em 1972. Justo Nelson, que ajudara a localizar os filhos de tantos, demorou mais de duas semanas para descobrir se o seu próprio estava vivo ou morto. Localizou-o em uma cela, em estado deplorável, com marcas evidentes de tortura, como os fêmures a mostra acima das canelas, de tantos chutes que levara. Mas o calvário estava mal começando. Depois disso, Nelson, cada vez mais velho e doente, só pode vê-lo em visitas a presídios, sempre diferentes, pois que ele era frequentemente transferido, parando inclusive em Ilha Grande. Foi condenado a mais de 70 anos de prisão (no fim, ficou “apenas” oito anos preso), e quando as discussões da Anistia, Nelsinho fez parte de um grupo de mais ou menos 20 presos políticos que o regime não queria liberar de jeito nenhum. Acabaram soltando-o, em um gesto de “generosidade” do regime, mais ou menos equivalente ao de Mussolini libertando um Gramsci doente e a poucos dias de morrer para que ele não falecesse no seu cárcere. Porém, tarde demais. A doença de Nelson evoluíra, e ele morreu no hospital delirando um dia após a libertação de Nelsinho. Nelson Rodrigues morria após quase vinte anos sem ver o filho em liberdade.

Moral da história: nunca apoie ditaduras, por mais reacionário e conservador que você seja, pois alguém sempre paga um preço alto por isso, e, às vezes, quem paga esse preço pode ser o seu próprio filho. Caro Merval Pereira, lembre-se do seu desafortunado colega antes de escrever a próxima coluna asneirenta no Globo sonhando acordado com golpes militares: ditaduras desenvolvem vida própria. Ditaduras não conhecem limites. E ditaduras bicam os olhos até mesmo dos seus mais fervorosos defensores.

Moral da história dois: precisamos de uma mudança de sistema, não de governo. A única maneira de me fazer ir a algum dos atos marcados para os próximos dias seria alguém colocar uma arma na cabeça da minha filha e dizer: “você tem que escolher: ou vai no ato contra a Dilma, ou no a favor da Dilma”. Nesse caso, eu me tornaria um fervoroso defensor da Dilma Rousseff, pois não gosto nem de estar no mesmo planeta que o pessoal do outro lado, quanto mais no mesmo ato. Como felizmente isso não vai acontecer, posso ir para a cozinha, passar meu café e acender meu cigarro com tranquilidade.

 

Fontes para Nelson:

O anjo pornográfico. Ruy Castro

Teatro do Pequeno Gesto. Folhetim especial Nelson Rodrigues. N. 29, 2010

A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari

 

 

 

 

 

 

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Categorias: Política, Sociedade | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Ainda uma vez PT

  1. Antonio Leon

    Olá, ao cumprimentá-los, colhemos a oportunidade para informar nosso novo email (antonioleon.consultor@gmail.com), face desativação do email em tela, a partir do dia 20/03.

    Atenciosamente,

    ANTONIO LEON adeleon@ig.com.br 51 – 9828.2908-Vivo-whatsapp 51 – 9464.3738-Claro 51 – 8181.8083-Tim 51 – 8650.5622-Oi

  2. Equivoco Humano

    Ficar calado se revelou uma escolha certa…

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