Parem de me conduzir coercitivamente a querer o Lula lá de novo, por favor. Obrigada. De nada.

Foi começar esse rififi e blablablá dos últimos dias e fui atingida por um tsunami de memórias de infância. Todas ligadas aos meus primeiros contatos com temas políticos.

As mais remotas devidas à minha avó que me contava histórias de sua vida no tempo da ditadura Vargas. Só mais tarde vim a saber que ela entendia pouco ou nada da Política e parecia apenas ter prazer em dividir o espanto que sentia diante do mistério: o que animava os homens a toda esta brigaiada? Pelo quê brigavam eles? Porque não se juntavam todos pelo bem de todos ? Ótima contadora de histórias, suas narrativas fragmentadas faziam pouco sentido para uma menina recém alfabetizada mas inspiravam filmes imaginários na cabecinha de vento que sobrevivem até hoje.

Um deles: o racionamento da gasolina e o estoque clandestino (e ilegal) mantido por meu avô para fazer rodar os táxis de sua frota que iam a Minas Gerais levar ricaços da cidade para apostar nos cassinos durante a II Guerra Mundial.

Outro: Ela, com apenas 9 anos, tirando neve da calçada e varrendo toda a casa antes que os demais acordassem, sonâmbula, com sua camisola de feltro e mangas compridas.

O preferido: sua mãe, escondida no porão por uma semana fugindo da perseguição de sabe-se-lá-quem ( ela não sabia). Sabia que era operária da fábrica de tecidos e tinha havido uma greve, outra coisa misteriosa, sobre a qual só sabia me dar notícia de mulheres gritando e indo em grupos, com seus vestidos pretos, brigar com a polícia.

As histórias mais divertidas eram narradas em dupla com minha mãe e interrompidas pelas escaramuças entre as duas, sempre disputando alguma coisa, nem que fosse apenas as suas versões sobre modos e polidez.

“ – Sua mãe dava muito trabalho…

– Eu ?!

– Sua tia A., não, essa era boazinha.

– Eu não sou é sonsa.

– Não fala assim, olha a boca suja, olha a menina…

– Sonsa ??! Que é que tem, mãe ? A senhora também, viu.

– Não seja mal educada…

– Quem me educou foi a senhora, a culpa não é minha.

– Lavei sua boca com sabão quantas vezes ? Não adiantou porque você é teimosa.

– A senhora parece boba.

– Olha o respeito, olha a menina.

– Chega, mãe, não provoque”

Como se dizia naquele tempo, “ o gênio das duas não combinavam” e nunca viriam a combinar. Mas nos anais do tribunal materno constava uma punição injusta e desmedida que marcaram para sempre seu juízo sobre a mãe: arbitrária e castradora.

A versão do episódio pela minha mãe. Lá ia ela, menina, pela calçada, toda empoderada no domínio do alfabeto adquirido há pouco, lendo tudo que vinha pela frente, inclusive a pixação em letras vermelhas no muro branco: “ Votaram no Dutra? Come polenta seus filhos da pu..” e mais não leu porque seu pé falseou no meio fio, a perna inteira foi se esfolando na pedra até que rolou no calçamento mas nem teve tempo de chorar, colhida pelos tabefes de minha vó: “ Menina não fala palavrão! Limpa essa boca, menina, vai lavar com sabão!”.

A versão da minha avó: Tanto meus tios quanto meu avô usavam ternos de linho que ela tinha de lavar, passar e engomar – com ferro a carvão. Se saía de casa era por necessidade, um médico, buscar uma roupa na costureira, tomar uma injeção na farmácia, ir tratar de algum assunto na escola dos filhos. Não podia andar pela rua como tartaruga a esperar xeretice de menina. Minha mãe era muito xereta, custava a obedecer, modos de menina, menina boazinha, mesmo, daquelas que dá gosto à mãe nunca teve.

E daí ? Dizia a filha da minha avó. Não sou é sonsa !

Filmes antigos que só passam na minha cabeça feitos de outros que as duas, cada uma ao seu modo, tinha vivido.

Minha avó se foi há quase 40 anos e deixou em mim marcas de doçura, flexibilidade e resiliência. Minha mãe segue firme e forte a caminho das 8 décadas de vida, recordando e reinterpretando o que viveu, como convém a quem não está morto. Sempre ativa, sempre combativa.

Quem tem memória pode pensar e quem sai aos seus não degenera. Nunca fui “lulista” pela simples razão de não gostar do aspecto fulanizador da política. Eu gosto é da História, do embate diário, dos misteriosos caminhos pelos quais segue a Humanidade em eterno conflito com suas necessidades objetivas e subjetivas. Como animal político gosto de estudar e interpretar os grandes jogos que têm definido os destinos da Humanidade sobre a Terra. Guardo para mim e uns poucos amigos próximos minhas impressões sobre os atores políticos que conduzem a vida nacional porque entendo que é suficiente falarmos de suas ações na esfera pública e política para entender quais são seus valores éticos de base.

Estou tranquila e acho que está favorável para o Brasil dar um grande salto ético e político neste momento. Para isto penso que o melhor é Dilma continuar onde está. Mas é necessário também que o Judiciário se torne imparcial no encaminhamento desta que embora pareça “ a maior faxina da história de corrupção do país” não me faz esquecer que de “ operações” e “ caça aos corruptos” este inferno está cheio. Não é a primeira “faxina” que assisto e temo que não seja a última.

Até agora, sou sincera, a única mudança que conseguiram obter no meu espírito foi reavaliar minhas críticas ao ex-presidente Lula e a minha conclusão, bem, acho que todo mundo entendeu.

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