A dança dos hipócritas

JDCOXINHA

A praça é do povo. O céu é do condor. E o momento, dos oportunistas. Dancinhas, slogans, panos verdes e amarelos, sorrisos de dentes brancos perfeitos que não escondem a espuma do ódio que lhes salta pelos cantos da boca. Tudo certo. No pensamento, o deserto. Tudo certo. Como dois e dois são cinco.

A oportunidade aos oportunistas foi dada pelo próprio PT. Que reage. Quer cair atirando. Como se já não estivesse tudo decidido, tudo formatado, sentenciado e acordado. Chora o PT sobre o leite que derramou. E acusa, como se isso lhe fizesse mais honesto. E grita, como se já não tivesse tido a oportunidade de fazer o que fala. E esperneia, movido apenas pelo medo de ser alijado do poder.

De fato tem razão quando diz que a justiça é parcial e persegue apenas alguns. Mas… Só agora, PT? E os 23 companheiros perseguidos há tanto tempo? Será que na década de noventa era diferente? Ou a prisão preventiva do Lula é mais absurda do que a prisão infinda do Rafael Braga?

Tem razão também quando diz que a Globo (metonímia disfêmica para mídia) é parcial e calhorda. Mas já não tinha sido em 89 contra o próprio PT? Não tem razão para reclamar. Afinal, foram os únicos a ter a oportunidade de modificar tal quadro. Porém, negaram-se. Estiveram ao lado da ordem, do capital e da possibilidade de eternização de um projeto de poder que nem próprio é.

Em nome disso, o PT assassinou a esquerda, roubando-nos a denominação e a imagem e deixando que a imprensa fizesse uma dicotomia que jamais existiu. Rá rá rá. Marx e Hegel. O Grouxo, talvez. De tanta estupidez – muitas vezes defendida por valorosos companheiros – fomos reduzidos a estereótipos pela propaganda oficial. Enterrados sobre o esterco dos discursos acéfalos. Isso sim é culpa do PT.

A política eterna de concessões ao capital e de contradições de si mesmo, aliadas à falta de vergonha na cara em negar o estereótipo “esquerdista” que lhe colavam, trouxeram a pior consequência de todas, aquela que hoje passeia com a camisa da CBF pelas ruas. O PT abriu as portas do tártaro ideológico e soltou um sem-número de bestas atávicas que gritam imbecilidades ao ar livre.

Não que não haja direitos da direita. Óbvio que há. A rua é para todos. Inclusive para a mais oportunista e assanhadinha cara da direita. Que, claro, não tem a menor vergonha em pegar carona com os amigos fascistas, intervencionistas ou quaisquer outros. A direita brasileira nunca teve caráter nem pudores.

E um batalhão da abobada classe média toma os espaços públicos para defender os interesses privados. Gritam contra a corrupção como um pano branco estendido sobre a lama. Como se a corrupção fosse exclusiva de um grupo ou partido. Como se sonegar impostos não fosse desviar dinheiro público da mesma forma. Como se realmente o problema fosse a corrupção.

Pois sim, não é a corrupção nosso mal! Não é apontar o dedo (sujo) para quem “roubou” que irá “limpar” o país. Isso justifica o surto idiota de “contra-ataque” petista: mostrar que Aécio e a tucanada são tão sujos quanto quaisquer outros. Ora, são todos tão porcos e encardidos quanto aqueles que chafurdam nas manifestações alopradas. Ou mesmo os que escrevem nos blogues, para não me excluir. Ou os que os leem, que seja.

Sim. A corrupção faz parte do sistema, seja lícita ou ilícita. 150% de juros bancários não é corrupção? Doação “legal” de milhões de reais para uma campanha política não é corrupção? A formação de um Congresso que só chega até ali por campanhas milionárias e comprometidas não é corrupção?

A falta de ética incomoda-me muito menos que a hipocrisia. Porque, entendendo tudo isso, posar como arauto da ética é vergonhoso, mesquinho, abjeto. A hipocrisia é mais odiável que qualquer outro defeito que tenham os que caminham sem rumo pelas ruas.

A festa da mídia está pronta. Os tolos já ocupam seus lugares estratégicos. Os oportunistas já manobram. Os ingênuos compartilham as idiotices. Os iludidos ainda defendem o indefensável. Correntes de cores diferentes prometem passear pelas ruas. Não pode haver simpatia com quaisquer delas.

O inimigo de meu inimigo não é necessariamente meu amigo, pelo contrário. Matemática não rima com política. Se o governo entreguista e corrupto é inimigo da classe trabalhadora, não serão os paneleiros a nos salvar. Olho vivo, pois eles venceram e o sinal está fechado para nós. Não podemos, em momento algum, imaginar que nas ruas estão os indignados, quando tão somente passeiam os indignos.

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