Não vai ser golpe

fiespuño

O governo do PT acabou. Ruiu sobre suas próprias bases e é uma simples questão de tempo o seu fim. Não há, contudo, motivo para comemorações: a crise política e econômica, aliadas ao discurso de “herança maldita”, abrirá portas para medidas sufocantes para a classe trabalhadora.

Por outro lado, sempre é bom ressaltar, não há motivo algum para lamentações: o PT cai por suas próprias pernas, por sua incompetência em implementar todas as medidas necessárias ao grande capital e por sua traição ao fazer tantas concessões para aplicá-las.

Enquanto a economia mundial crescia, as políticas petistas foram extremamente úteis ao capital, endividando os trabalhadores e a máquina pública, trazendo altíssimos lucros a financistas e industriais, cooptando as lideranças sindicais e desmobilizando a luta da classe trabalhadora. O PT aprisionou a luta de classes nas instituições.

Entretanto, todos sabíamos que tudo aquilo que se oferecia como ganho social tinha prazo de validade, meros paliativos que não alteravam qualquer estrutura do sistema de exploração. Então, esse período passou, a crise chegou e as políticas conciliatórias e populistas passaram a não atender mais aos anseios de quem sustentava o partido no poder.

Marcham pelas ruas indecisos cordões. De um lado, as vias enchem-se de uma pequena-burguesia acéfala que repete o que a mídia lhe diz. A corrupção é o mote escolhido para agrupar a ingenuidade de muitos na porta da Fiesp, a instituição que quer o fim da CLT. O pato lhes representa de forma autêntica.

De outro, manifestantes saem para defender a “democracia” diante de um golpe. Ora, companheiros, o Estado democrático burguês e suas instituições nada têm de autêntico. Os princípios democráticos burgueses são apenas um fetiche da própria burguesia. A institucionalidade é sempre defendida com muito mais afinco pelos reformistas do que pelos próprios burgueses.

Lula e o PT mais uma vez apostaram no caminho institucional, nas alianças e concessões – alguém esperava algo diferente? Dilma cometeu suicídio politico ao nomear Lula ministro, claramente para fugir da perseguição política imposta pelo juiz Sérgio Moro, o grampeador geral da república.

O grande capital não respeita instituições. Mais: utiliza-se delas para legitimar suas vontades. Assim, o judiciário brasileiro passa por cima de qualquer legalidade, espetacularizando suas ações e fazendo crer que, para destruir o PT, vale qualquer coisa. Os fins justificam os meios, dizem os olhos de ódio em verde e amarelo que desfilam por aí.

Com as instituições tomadas pela necessidade de derrubar o governo, a mídia cumpre o papel de acelerar o processo, julgar e definir a pauta do país. A articulação entre mídia, Legislativo e Judiciário, todos a serviço do grande capital, não deixa dúvida sobre os próximos capítulos da novela rocambolesca, sobre a republiqueta em que se transformou o Brasil.

O governo – e muita gente de valor embarca nessa – agarra-se no resultado eleitoral para garantir sua legitimidade. Ora, Collor também teve mais votos na urna que Lula em 89, mas não foi impedimento para que as bandeiras vermelhas fossem agitadas pelo impeachment à época. Fora qualquer um é direito legítimo de todos, lembremo-nos.

O fato é que o PT é minoria no Congresso e na sociedade. Suas constantes traições aos trabalhadores, sua postura de capitulação sucessiva afastou-lhe de sua própria base eleitoral. A política econômica austera, contrariando suas promessas eleitorais fez o PT órfão de si mesmo. Hoje, paga o pato (olha ele aí de novo) por suas opções e corrupções.

Um golpe só ocorre quando uma minoria derruba um governo representativo da maioria. Quando ocorre o contrário, a maioria toma o governo da minoria, há revolução. E, nesse caso, estejam certos, não há nenhum dos dois. O governo não é maioria e tampouco há no Congresso ou nas organizações partidárias nenhuma representação da vontade desta maioria.

O circo montado serve à manutenção do status quo, presta-se à abertura de um caminho mais livre e justificado para a subtração de direitos e garantias dos trabalhadores. Tudo com a cara democrática, via legalidade.

É risível pensar em uma comissão de impeachment repleta de acusados de corrupção. É emblemático ver Paulo Maluf no processo de julgamento da presidenta! Se isso serve para desabonar a comissão, nunca é demais lembrar que o deputado será um defensor de Dilma e votará contra o impeachment. Foi isso que o PT se tornou. A guerrilheira contra a ditadura precisa da ajuda do candidato a presidência daquela mesma ditadura. O poder é absolutamente paradoxal.

Só há uma saída para os trabalhadores: organização e luta. Derrubar as lideranças sindicais acomodadas e cooptadas pela luta institucional. Organizar a resistência contra os ataques que surgirão em nome da gestão da crise. União para desfazer o que já foi feito e o que há de vir.

Porque o golpe, companheiros, esse já foi dado. Foi dado pelo PT ao trair os trabalhadores, ao garantir o lucro dos rentistas, ao desmantelar as representações sindicais, ao aprovar a lei antiterrorismo, ao reprimir violentamente os movimentos sociais, ao implantar a política econômica de Levy e companhia, ao buscar de todo jeito vender sua alma para quem nem sequer a queria comprar.

As portas foram abertas pelo próprio PT. O golpe já foi dado. Agora, eles já entraram em nosso jardim. Nossas flores já foram pisadas. Não adianta o arrependimento, não soa bem a falsidade de buscar agora uma imagem de esquerda. Trabalhadores, resistamos! Contra as instituições, contra a hegemonia partidária, contra o capital. Precisamos refundar um país.

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Categorias: Política | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Não vai ser golpe

  1. Simone Freire

    Gosto muito como Cestari expressa seu pensamento. Precisamos deixar a hipocrisia de lado e lidarmos com a realidade dos fatos. Vamos colocar um basta de tanto desrespeito e articulações vindas de todos os lados. Precisamos nos perceber como cidadãos participantes e atuantes, entender o que é uma docracia de verdade, não nos deixar manipular ou de certa forma, fingir que nada está acontecendo. A hora é essa! Precisamos nos posicionar… Não pode haver hegemonia partidária e sim ideais sólidos e visibilidade política. Creio que podemos começar de novo sim… Temos tudo pra isso… O povo é forte, é “resiliente” e principalmente, somos brasileiros… Pensem nisso!

  2. Eduardo Felipe

    Fica de consolo o desenvolvimento social. Que o país volte a crescer.

  3. Equivoco Humano

    Parabéns, belos escritos, é extremamente triste saber que nada presta em termos de política e que não existe mal menor. Esta é a nossa realidade as pessoas que chegaram para limpar a política, só queriam limpar cofres…Mais triste é saber que o banquete será servido para velhos lobos e urubus de nossa política.

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