Ruim com ela, pior sem ela

Amanhã as flores voltarão a crescer

Amanhã as flores voltarão a crescer

O domingo nasce alvissareiro. Afinal, hoje termina a corrupção no Brasil. Ou, por outro lado, o país reafirmará seu compromisso irrestrito com a democracia. No mundo das farsas, o conto de fadas está na mente de milhões de incautos. Tudo com ampla cobertura da mídia imparcial e responsável. Como há gente desinteressadamente preocupada com a nação! Como há dias melhores no futuro deste país!

Em pleno domingo, aqueles que não trabalham nem às segundas, nem às sextas reúnem-se pela preocupação coletiva e tentam dar à república uma solução de seus insolúveis problemas. Esse forte compromisso social é representado pelo impedimento do mandato da presidenta Dilma Roussef. Às ruas escolher um lado! Vamos celebrar a estupidez institucional.

Não há a menor dúvida de que o processo de impeachment é de um mau-caratismo sem tamanho. Quem o propõe não tem a menor legitimidade para fazê-lo, constrangendo qualquer conceito de ética e moralidade que se possa estabelecer. Evidencia-se uma luta pelo poder político da forma mais suja que a institucionalidade permite, com interesses particulares – especialmente em preservar suas corrupções – à frente de qualquer noção coletiva que a política possa representar.

Como sabemos, a legalidade é mero fetiche nas mãos dos interesses burgueses e não há o menor compromisso com alguma denúncia consistente ou mesmo motivação real para se levar a cabo um processo como esse. Denuncia-se a má gestão, a crise e uma série de desgovernos como fatos para um processo que nasce marcado pela vergonha. Nem mesmo os grandes barões internacionais do capital conseguiram comprar e defender as razões do golpe paraguaio que se quer dar.

É de se esperar, inclusive, que, caso haja qualquer problema com as contas do processo, o presidente da casa, impoluto defensor da moralidade, suspenda a votação ou coloque-a indefinidas vezes para repetir-se, até que o resultado seja aquele de seu agrado. Cada movimento como esse torna tudo mais instável e transforma em circo aquilo que o mundo esperava ser feito com discrição.

É fato que o capital internacional preocupa-se com os caminhos que o Brasil toma. Parece que não há grupo ou setor no país que seja capaz de implementar as medidas restritivas à população sem que haja uma enorme convulsão social. Ainda que todos as forças políticas nacionais acenem para sua capacidade de cumprir tais programas, não há quem apareça com um pingo de legitimidade para impô-las com um mínimo de aceitação. É uma sinuca de bico em que o capital necessita retirar direitos e aumentar a “austeridade”, mas deve manter o país governável para não prejudicar sua inserção na ciranda econômica mundial.

Hoje, o golpe paraguaio brasileiro já não é mais bem visto internacionalmente. Enxergam que houve exagero nos temperos pelo modo como foi assado o pato. A imprensa nacional virou chacota dos meios de comunicação mundial e já não goza de qualquer respeito por ninguém entre seus pares. O concerto que reafinaria a orquestra, de repente, transformou-se em uma ópera bufa, carnavalizada, que expôs a narrativa de uma mulher vítima de ladrões e malfeitores que querem retirá-la do poder. Nada pior do que uma história em que traidores saem vencedores e na qual se vitimiza a protagonista.

Do outro lado, um desesperado partido que se apega às velhas práticas que outrora já condenara e que briga a todo custo para se manter no poder, reafirmando-se como ainda capaz de aplicar o mesmo remédio amargo que seus opostiores alegam serem os únicos com capacidade para fazê-lo.

Indubitavelmente, o PT mostra apenas que tentou tornar-se um dos outros e aplicou, quando teve oportunidade, a cartilha de interesses dos poderosos, seja na relação com os movimentos sociais, seja na condução da política econômica. A cada passo para a direita – e olha que foi quase uma maratona percorrida pelo partido da estrela nessa direção! – mais próximo ficava do beco sem saída em que acabou se metendo. O intruso da festa não poderia mais escolher a música que embalava o baile.

Em 2002,  a carta aos brasileiros já anunciava a guinada que o PT assumia para ter nas mãos a presidência. Boa parte da esquerda esqueceu-se de seus princípios de luta e ajudou a construir a farsa das migalhas sociais em troca de um requintado sistema de exploração. Aos que denunciavam ou protestavam, a mesma truculência que tantos outros dispensaram.

Se o PT hoje sofre com a traição de seus aliados, sabe bem dimensionar a dor que infligiu quando ele próprio traiu a classe trabalhadora. Quem escolheu o caminho dos conchavos foi o próprio partido, que hoje tenta encontrar nas ruas alguma legitimidade para a única coisa que considera democrática no país: o resultado das eleições.

E é nessa lógica tosca, de lutar para manter migalhas e de fingir que democracia resume-se ao apertar de uma tecla verde, que milhões vão para as ruas gritar que não vai ter golpe. Do outro lado, armados com panelas, os outros milhões de ingênuos que acham que a corrupção é coisa da estrela e que bradam contra a perda de seus privilégios.

Desde 2013, a rua é o caminho. A serventia da casa, por assim dizer. Não para defender a institucionalidade que nada tem a nos oferecer senão sofrimento e restrição. Não para bradar por um conto de fadas que serve apenas aos interesses dos poderosos.

A luta está em nosso cotidiano. Categorias em greve, escolas ocupadas. Falta cair a ficha de mais gente. Boa, por sinal. Precisamos de unidade em um compromisso realmente de esquerda, de defesa dos direitos dos trabalhadores. Devemos exigir o pão e não aceitar mais as migalhas. Preciamos de conquistas. E só há vitória para quem luta. Ainda que com toda a luta, a situação pareça piorar por enquanto.

Amanhã, as pessoas não se abraçarão e entoarão cânticos unidas para comemorar o fim da corrupção ou a lição da democracia. As flores não se abrirão por conta do voto pelo povo que darão os nobres representantes de si mesmos no Congresso. Independentemente do que ocorra hoje é a luta o único caminho, pois os dois lados seguirão os rumos que não nos interessam. Por isso, não devemos recuar: se está ruim com nossa luta, será pior sem ela.

 

* Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.

* Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.

* Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.

* Referendo popular para todas as nomeações do STF.

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