O insulto ao estrume

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Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

– A flor e a náusea

Escrevo, finalmente, após quase uma semana, sobre o show de horrores que foi a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Escrevo sob a ordem da náusea e do desespero, mais do que por qualquer outro motivo. Não, eu não sou do PT. Não, eu não voto no PT (aliás, votos são uma fortuna que a minha cornucópia distribui com cada vez mais parcimônia). E, principalmente, eu não tenho nenhum compromisso com o PT. Mas também não tenho estômago.

Não retiro nenhuma das críticas que já escrevi nesse blog, algumas com muito mais repercussão do que eu poderia imaginar que teriam. Eu não perdoo o PT pelas alianças com agronegócio em detrimento das populações indígenas, ribeirinhas, da floresta, da agricultura familiar, dos apelos de todo espectro progressista da sociedade etc. Eu não perdoo o PT por ter fechado os olhos (ou talvez até ter apoiado em algum gabinete) a enorme repressão aos movimentos sociais que se organizaram de dois a três anos para cá. Por não ter interferido, ou sequer se sensibilizado, com as prisões kafkianas de militantes na cidade do Rio de Janeiro (o suprassumo delas sendo a de Rafael Braga, que nem militante era, nem em manifestação estava, e ainda assim já está amargando para lá de dois anos de prisão – muito descaradamente, nesse caso, pelos “crimes” de ser preto e pobre). Em um gesto que só demonstra a má vontade desse governo de dialogar com a esquerda, para cúmulo da injúria Dilma, em pleno processo de impeachment, me sanciona aquela lei antiterrorismo que se tornará uma carta na manga de qualquer direita mais alucinada que o normal do país que venha a sucedê-la, com ou sem golpe.

Porém, eu tenho um órgão chamado estômago, e ele foi testado até o limite último domingo pelo espetáculo de hipocrisia e conservadorismo com que aquela velhacaria que chamamos constrangedoramente de câmara dos deputados realizou aquela “performance”. Não, não foi agora que o horror começou. Já está difícil de tolerar há pelo menos um mês. Tivemos aí no meio do caminho, talvez como show de abertura para o espetáculo principal, a apresentação “Jana e a serpente”, onde vimos uma advogada despejando impropérios em uma espécie de transe (ou seriam passos de uma dança meticulosamente estudada?). Essa também se lança como uma forte candidata a ovo de cobra (olha a ofidiometáfora aí de novo).

Eu quero acreditar que a baixa comemoração dos chamados “coxinhas” no próprio domingo deveu-se ao fato de que muitos apoiadores desse impeachment têm o mínimo suficiente de bom-senso para se constranger ante aquela cena. O que foi aquele desfile de corruptos velhos de guerra (por exemplo, Paulo Maluf, para ficar apenas no mais descarado) pregando a moralidade, a probidade administrativa e o respeito ao bem público? Em que planeta será que aquelas pessoas vivem? Será que elas pensam que ninguém leu nenhum jornal nos últimos 40 anos?

Mas a coisa só piora. Nunca vi tanta gente invocar o termo “família”. Tanto, que é forçoso abrir a reflexão sobre o que será que eles entendem por esse termo. E, para tanto, uma malfadada reportagem de uma pestilenta publicação cujo nome me recuso a reproduzir mais uma vez é de excelente ajuda. Na dita matéria (se é que aquilo ainda merece qualquer resquício de respeito jornalístico), a dita publicação se apressa a eleger a mulher de Michel Temer (hoje, pelo menos, ainda vice-presidente) como primeira-dama. O título da bizarria era “Bela, recatada e do lar”. Não há problema algum em ser isso, o problema é a imposição de um padrão, assim como não há nenhum exagero em localizar aí um contraste proposital entre a figura de Dilma, que não atende aos padrões de beleza que a própria revista cansa de estabelecer como únicos, que foi guerrilheira e que hoje é presidente, com um outro modelo de mulher, esse teoricamente o “certo”, representado pela menina.

A família que aquelas pessoas idealizam é a base dessa sociedade racista e escravocrata, que saiu da escravidão plena para o regime da precarização e do assalariamento aviltante. A família e a sociedade cujo saudosismo eles sentem é a patriarcal, com mulheres submetidas (que “sabem o seu lugar”, como a sra. Temer) e empregadas disponíveis para estupro em quartos dos fundos. Não há perdão para isso. Não tem arrego. Mas só fomos de mal a pior nesse domingo. Pela ordem da votação, estabelecida por mister Cunha, o Rio de Janeiro ficou entre os últimos estados a se manifestarem. Aí qualquer limite do razoável foi ultrapassado, quando da fala do sr. Jair Bolsonazi, em pleno congresso nacional (a esta altura, já podemos chamá-lo de congresso sem-nocional), fez uma elegia a um dos piores torturadores e assassinos que esse país já teve (e que, entre outros feitos, torturou a própria presidente da república). Não há contemporização possível com tortura (ou com a sua apologia, seja esta feita sob qualquer desculpa ou disfarce). Estamos diante de uma corja de assassinos. De covardes, porque espancar e estuprar pessoas amarradas e indefesas, são coisas que só os mais pusilânimes dos covardes podem fazer – não vou nem falar em termos de direitos humanos, que esses vermes simplesmente nem entendem essa linguagem. Quero insultá-los com algo que eles pelo menos reconheçam como um insulto! Sim, Bolsocorja, você e todos os seus apoiadores são um bando de frouxos e de covardes, que só atacam em maior número, que só batem com a ampla e irrestrita proteção do Estado, que espancam pessoas em cárceres ou amarradas em postes sem a menor capacidade de defesa. Chamar os apoiadores de Bolsonaro de “jumentos” é um insulto aos quadrúpedes. CHAMAR BOLSONARO DE “MERDA” É UM INSULTO AO ESTRUME. E, nesse ponto, eu dou todo o meu apoio e toda a minha solidariedade à Dilma. Tem que haver limites.

Mas tem mais. Sim, porque no Brasil de hoje, ao que tudo indica, o poço não tem fundo. Foi impressionante ver que a bancada evangélica votou em peso a favor do impeachment. Os deputados mais ausentes, mais processados, mais picaretas e mais bandidos de todos. Fora o aspecto evidentemente obscurantista da qualidade desse voto. É claro que a generalização é a prima-irmã do preconceito, e é tacanho e aviltante deduzir que todos os praticantes da religião evangélica são fanáticos prontos às maiores insanidades em nome das suas nomenclaturas (que são muitas). Mas também, por outro lado, é fato que nenhuma religião tem uma atuação tão organizada e nociva nos dias de hoje. São eles os principais opositores das pautas LGBT, de direitos humanos, da mulher entre outras. Eles são a grande caução do bloqueio a leis de aborto, pesquisas científicas, eutanásia e etc.

Fora isso, você não vê ninguém de outras religiões tacando pedra em criança do candomblé no meio da rua, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro. Você não vê católicos ou espíritas invadindo terreiros e depredando objetos de culto. Você não vê traficantes ateus expulsando terreiros e mães de santo de favelas. É claro que há alguma coisa errada com essas pessoas, e eu quero gente que apedreja crianças pelas ruas bem longe do poder. Isso sem falar na picaretagem e no enriquecimento imoral das lideranças dessas seitas. Nessas horas, tenho muita dó de ser ateu. Queria acreditar na existência do inferno, no qual esses loucos tanto falam, porque é para lá que eles iriam, sem escala e sem direito a sursis.

Ao que tudo indica, tudo que há de pior na Via Láctea se juntou, no congresso nacional, no dia 17 de abril do ano do nosso senhor de 2016, para derrubar Dilma Rousseff. Alguma coisa essa pessoa deve estar fazendo de certo. O ponto central aqui é que o governo do PT não está sendo empurrado ladeira abaixo por forças progressistas ou à esquerda dele. Ele está sendo empurrado pelos mesmos de sempre. E os mesmos de sempre são o que há de pior. Na verdade, o PT não está nem mesmo sendo empurrado por forças que vão, como tanto se promete, acabar com a corrupção desse país, e blá e blá e blá, a não ser que alguém seja ingênuo o suficiente para acreditar que um processo de impeachment puxado por um dos políticos mais medíocres que já passaram por aquela Casa e corrupto de longa data (leia-se desde os tempos do Fernando Collor) tem alguma boa intenção de fato. Trata-se, inquestionavelmente, de um recuo, e eu tenho muito medo do que pode aparecer nesse vácuo.

Não quero referendar o discurso do medo tão caro ao PT dos dias de hoje. Foi com a plataforma do medo em relação ao ajuste que Dilma se reelegeu. Uma vez que ela assumiu, a oposição já começou a cavar esse impeachment desde o primeiro segundo de governo, e os seus defensores, em reação, plantaram um discurso de medo de um golpe militar do qual, graças a Montesquieu, não vejo o menor sinal no horizonte. Estamos fartos de medo, mas não se trata definitivamente de comprar um pacote de discurso que não me convence ou comove (assim como não acredito no papo da “guinada à esquerda”, que não virá). Trata-se, apenas, da constatação, nauseada e realista, de que a escória da terra se reuniu para recuperar o que “é seu de direito”. Uma vez que alguma daquelas bundas sente naquela cadeira, só o pior vai acontecer.

O Brasil se tornou um país realmente “chato” para comediantes sem talento que não sabem fazer humor com inteligência, que só sabem repetir preconceitos ancestrais dos tempos das sesmarias. As pessoas não estão mais dispostas a aguentar serem humilhadas. E nem espancadas. E nem mortas. E isso, é claro, é um avanço. Será que os tão criticados ministérios – criticados sob a desculpa esfarrapada do gasto público – criados pelo PT para cuidar das questões de igualdade de raça e gênero não têm algo a ver com tal transformação? É claro que, antes de tudo, esses avanços se devem ao protagonismo dos próprios interessados e dos respectivos e legítimos movimentos sociais que os representam. Mas ainda acho que a reflexão é válida. Estamos à beira de um termidor sem revolução. A reação conservadora será horrível, e apontada para todos os lados. Lembrem-se quantos votos foram justificados na base da oposição ao “kit gay” (sic) e a um suposto incentivo do governo à mudança de sexo das crianças na escola (sic). Teve até um desinfeliz a usar o filósofo (sic) Olavo de Carvalho, o subintelectual mais medíocre desse país, para se justificar. Não façamos ilusões. Tempos difíceis se anunciam.

Para mim, a pauta mais importante ainda é a das ruas. Se eu estivesse no Rio de Janeiro, estaria vivendo e respirando a ocupação das escolas 24 horas por dia. Acho que é daí que vem um futuro. Melhor, espero, do que essa “merda fóssil de agora” (comecei com Drummond, encerro com Maiakovski). As verdadeiras transformações não virão do governo, mas muito menos desse congresso plutocrata, conservador, hipócrita e corrupto até a raiz da medula óssea. O PT não vai fazer uma guinada à esquerda (não é preciso muito mais do que ter ouvido o discurso do José Guimarães para saber isso). Espero, quando muito, que o PT tire algum proveito da dura lição que foram as traições, por exemplo, da bancada ruralista, e se desembeste, pelo menos, de algum dos seus aliados intoleráveis. Mas não boto fé. Entretanto, sou uma pessoa muito mais de dúvidas do que de certeza. Embora não me paute pela histeria do “antigolpe”, e muito menos pela histeria do jornal nacional, fico na dúvida se não é muito esquerdismo deixar ir tão fácil assim o poder de volta para o lugar de onde ele nunca saiu (acho que até Lênin ficaria perplexo se tivesse que analisar o Brasil de hoje).

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