A recatada do Jaburu

recatada

Desligou o telefone e anunciou no escritório:

– Consegui!

Rapidamente os companheiros de escritório cercaram-lhe. Meireles foi incisivo:

– Batata?

– Batatíssima! Batatíssima! Pelo menos, eu acho. Quase tudo certo.

– Melhor tomar cuidado, fazia bom alvitre o amigo Moreira.

– Qual? Que nada! É perfeita demais, um colosso! E mais, o marido anda preocupado com outra. Na idade dele, não há de dar conta de tamanha formosura!

Todos se entreolharam, uns franziram a testa de inveja, outros fingiram pouca importância. Ainda que preocupados com a crise na empresa, achavam tempo para devaneios em braços jovens, mesmo que pertencessem a outro.

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Nos jardins e palácios era sempre cortejada. Alvo de olhares. Coisa de fotógrafo de celebridade, entende? Isso também não depunha contra ela. Bela era uma mulher discreta. Saía pouco pela vizinhança, mas quando saía… Sempre havia alguém para comentar algo da moça de maneira elogiosa. Especialmente as senhoras de plantão nas janelas do bairro.

– É muito moça.

– Moça mesmo.

– O marido não dá conta, já passou da idade.

– Já foi brasa, hoje não passa de cinzas.

– Um verdadeiro jaburu!

– Mas, pelo menos, ela é do lar.

– Melhor que tantas outras que acham que podem sair por aí fazendo o que querem!

– E como! Há quem diga que um dia elas vão querer mandar!

– Nunca! Por isso é que ela é um primor!

– Deus te ouça! Já vou, meu marido chegou.

– Tchau, querida!

Não que os vizinhos também não lhe reparassem os dotes:

– Austera!

– Deslumbrante!

– Dócil e mansa, não é mesmo?

– Calma lá. Pelos olhos é quietinha assim só da boca pra fora. Deve arder em labaredas de fogo na cama.

E por esses e tantos outros comentários, que Bela virou desejo no bairro, no mercado e, claro, no escritório. Frequentava as colunas sociais das gazetas. Até mesmo os folhetins ordinários. Ou recortes de revistas. Das mais lidas às mais vendidas.

Era mulher de gente graúda na firma. Diziam que seria o próximo chefe. Quem poderia ter certeza? Mas, isso em nada parecia mudar a veneta do Nascimento, o que era motivo de preocupação para os mais próximos:

– Rapaz, vou-lhe ser franco, tira isso da cabeça, repetia Moreira tentando pôr panos quentes em um escândalo que ainda não ocorrera.

Nascimento dava de ombros e não se constrangia:

– Como essa mulher me resiste, Fraga?

– Essa é diferente, rapaz, é do lar.

– Mas são dessas de que mais gosto! Essa é séria para chuchu e além disso é um colosso!

Finalmente, Nascimento teve resultados em seus flertes. Bela devolvia alguns sorrisos. Parecia ceder à tentação. Foi pelo telefone mesmo que o negócio aconteceu. No escritório quando desligou o telefone e anunciava o êxito descrito no começo deste conto.

Suspirava por entre as divisórias:

– Ah, aquele encanto! Uma sensação, um mimo! Colosso de mulher! E daquelas direitas, sabe? Bem direitas!

Meireles pregava moderação:

– Nascimento, abre teu olho. Mulher direita é família. Não trai.

– Você é besta, não sabe? São essas as que mais mudam de lado! E além do mais ela é a cara da mulher das notas de dinheiro!

– Cara da República? Nunca reparei…

Meireles olhava a nota e, subitamente, passou a sentir igual desejo. Era isso. Estava descoberto o segredo. Não havia de ser outra a razão! Todos a desejavam por isso. Talvez não fosse, mas é melhor ficar como se essa resposta fosse suficiente.

Nascimento, com ar vitorioso, comunicava o êxito obtido. Enfim marcara o encontro.

– Há de ser no final de semana. Nunca tem ninguém por aqui no final de semana.

Mas não naquele final de semana. Não sabia porque cargas d’água acontecera. Mas era questão de honra, já estava marcado, não havia como recuar.

A pequena sala era modesta, mas arrumada. Mulher direita não se leva a qualquer pocilga, pensava Nascimento. Era, por assim dizer, um gabinete. Ele arrumou-se, perfumou-se e tentou deixar tudo arrumado.

Antes do almoço, conforme o combinado, a campainha tocava. Era ela.

– Bela, Bela. Entre, entre.

Ela entrou. Segurou a bolsa contra o peito. Nascimento olhou para aquele espetáculo de formas. Viu tão somente as belas canelas torneadas, pois o vestido ia-lhe abaixo do joelho. De certa forma, ela parecia incomodada com algo.

– Nascimento, não sei…

– Ora, pequena, dúvidas agora?

– Não sei mesmo se é isso. Fico constrangida, nunca fiz isso.

– Não se culpe, estou para fazer tudo dar certo e sair com tranquilidade. Não há nada a temer. Confia, é batata.

– É que não nos falávamos por tanto tempo… Nossos lados…

– Esqueça lados, isso hoje já não importa mais.

Olhava a silhueta hipnotizante de Bela. Era como a figura na nota de dinheiro. O frescor da juventude tirava-lhe por completo qualquer sombra de culpa. Ela coloca a bolsa no sofá, fecha os olhos, como quem se entrega a um sacrifício e diz:

– Que seja rápido, pois meu marido está lá fora esperando.

– Que negócio é esse, mulher? Teu marido lá fora? Ele sabe? Isso pode vazar, melhor então não fazer… Melhor, entende? Não sei se quero mais.

Nascimento percebeu que era ela quem tinha muito a temer naquele momento.

Bela recolhe a bolsa, estende a mão, olha fulminantemente para Nascimento:

– O dinheiro, por favor. Meu marido sempre cobrou caro. Não se esqueça de, quando perguntado, dizer sim.

Bela virou-se, saiu pela porta, virou no corredor à direita e sua imagem sumiu enquanto a porta lentamente se fechava.

Nascimento prostrou-se no sofá. Chorou.

Mas, pela família brasileira, no momento crucial, ele disse sim.

 

FIM

 

Esta farsa em ato contínuo é inspirada livremente na produção de Nelson Rodrigues, gênio da literatura e da dramaturgia nacional (que votaria sim, que estaria ao lado da família, que diria boas da pátria, que seria machista, que constataria os vira-latas, mas que talvez assumisse na lata um ou outro golpe do qual se o acusasse).

Essa é uma obra de ficção, todos os personagens são falsos e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

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Categorias: Verso & Prosa | 1 Comentário

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