Mais um dia para sentir vergonha de ser homem

menina

Escrever às vezes é tudo que nos resta quando a noite fica longa demais, amarga demais. Eu queria, egoisticamente, não ter sabido o que eu soube. Não ter lido o que eu li. Ver, eu não vi (acredito no relato das companheiras). Acho que ninguém deveria ver. O horror, o velho horror, mais uma vez, chega-nos pelas portas e pelas janelas, forçando as frestas, afrouxando as dobradiças. É da natureza do horror entrar assim…

Não tenho muitas palavras para falar sobre as notícias da última barbárie vinda, dessa vez, do Rio de Janeiro (poderia ser de qualquer lugar). Uma revolta absoluta, a náusea até o enjoo? Tudo isso é pouco. Só consigo pensar em formas de mandar solidariedade a essa pobre menina. O certo a fazer, nesse caso, antes de tudo, é o que a família pediu: não divulgar o vídeo (não consigo imaginar o que levaria alguém a fazer isso, mas enfim…), não divulgar dados a respeito dela (nome, moradia etc.). Na verdade, a não ser que você seja alguém que tenha algo de concreto para contribuir com o andamento da investigação ou para o acompanhamento e apoio da vítima, você não tem nada que saber essas coisas mesmo.

Para além de uma certa curiosidade mórbida, que eu não consigo entender, embora saiba que é comum, tenho visto variadas reações ao ocorrido na internet. É verdade que esse tipo de violência extrema tem a capacidade de abalar até as nossas convicções mais profundas. Mas, por exemplo, a despeito de todo o ódio que sinto neste momento, continuo sendo contra a pena de morte, antes de tudo por ser uma medida que, no nosso país, só ia aumentar o número de negros e pobres mortos (ou alguém tem alguma dúvida sobre quem seriam os condenados a essa pena?). O código penal francês, muito mais draconiano que o nosso (só para começar, eles têm prisão perpétua), em um caso como esse, daria 20 anos de prisão para os envolvidos (estupro é 15 anos, com agravantes – no caso, por ser coletivo – vai para 20). Mas o endurecimento das penas nos remeteria ao mesmo problema já apontado: quem seriam os punidos por sentenças mais duras? Para quem acha exagero, basta lembrar do filho do Eike Batista, livre, leve, solto e de Ferrari por aí. Não. Penas mais duras não são solução para nada, pelo menos não enquanto tivermos uma justiça não cega para as cores (e menos ainda para diferenças econômicas).

O que tem que mudar é a cultura do estupro. Porque sim, estupro não é doença, é cultura. Vivemos em uma sociedade doente, na qual o estupro é relativizado, suavizado, justificado, quando não incentivado. As formas pelas quais essa desgraça se dá são as mais variadas. Essa semana tivemos, por exemplo, a recepção do sr. Alexandre Frota no ministério da educação para debater “propostas” para o ensino. Mais do que pela sua carreira cinematográfica, Alexandre atingiu projeção nacional por confessar, em um programa televisivo de mau gosto (diz-se: politicamente incorreto; leia-se: divulgador de discriminação contra minorias), ter estuprado uma mãe de santo. Ora, que mensagem poderia ser mais nociva para a sociedade do que essa: o marginal confessa um crime em cadeia nacional, fica por isso mesmo (“foi só uma brincadeirinha”, ele justificou) e, pasmem, essa pessoa é chamada para discutir educação em nível ministerial! Além de não ter credencial nenhuma para discutir educação (ou o que quer que seja), trata-se de um criminoso confesso e um estuprador convicto. O lugar dele é na prisão, junto com os trinta monstros que imolaram a menina essa semana, no mesmo dia em que esse crápula era recebido com pompas no ministério.

Sim, essa semana, parecemos ter descido a profundidades inéditas do fundo do poço. Sim, nós vivemos no inferno, tão enterrados nele que a maior parte do tempo nem nos damos mais conta. No entanto, as formas básicas de se mudar essa cultura não são tão difíceis de se imaginar quanto pode parecer: basta ouvir as principais interessadas, ou seja, as mulheres – explicando assim parece fácil, né?, então por que não fazemos todos? Quem sofre isso tudo na pele, todos os dias, é quem sabe onde o calo aperta: é necessário deixar bem claro que a culpa nunca, em nenhuma hipótese ou circunstância,  é da vítima; é necessário não se omitir em casos de violência, e denunciar sempre nos canais adequados; é necessário combater todas as manifestações de discriminação e inferiorização, mesmo as pequenas e aparentemente “inofensivas” (como se alguma coisa no mundo fosse isso), como piadinhas e etc.; é necessário educar os homens para o respeito, para a empatia e para que não se tornem criminosos.

Há muitas outras. A lista de proposições e de reclamações vindas dos movimentos sociais legítimos de representação das mulheres é, com toda justeza, interminável. Basta procurar. E é um sinal grave e profundo da doença dessa sociedade ter que lembrar de coisas tão óbvias. Ter que fazer campanhas inacreditáveis como “eu não mereço ser estuprada” ou ensinar as pessoas que não é legal puxar mulher pelo braço no carnaval. Em algum lugar, falhamos miseravelmente enquanto espécie para chegarmos a esse ponto.

Propostas para acabar com a cultura do estupro:

– Antes de tudo, como já dito, é só seguir as recomendações das próprias mulheres, como por exemplo, educar os homens a não estuprar, ao invés de educar a mulher a como se comportar (o que, convenhamos, faz todo sentido).

– Fechar todos os templos onde se propaga a misoginia, a homofobia ou qualquer discurso discriminatório: liberdade religiosa não pode ser confundida com discurso do ódio. Nenhum líder, de nenhuma religião, tem o direito de ser um elemento deseducador para a sociedade.

– Prisão imediata para todos que fazem ou já fizeram apologia do estupro. Isso inclui Jair Bolsonaro, Rafinha Bastos, Danilo Gentili, o não menos odioso Alexandre Frota e merdas quejandas.

– Prisão imediata também para todos os homens que curtiram, comentaram, compartilharam e ou ridicularizaram, apoiaram ou de qualquer forma que seja se locupletaram com o vídeo postado no Twitter.

Também já há um protesto marcado para essa semana. O que posso fazer, à distância, é ajudar na divulgação: https://www.facebook.com/events/1752031391678244/

 

Termino, neste dia cheio de dor, manifestando minha solidariedade à vítima, à família e a todas as outras mulheres de todas as outras histórias que já aconteceram e que, infelizmente, tornarão a acontecer. Vi, entre as várias manifestações emocionantes de solidariedade, uma militante feminista pedindo para que orássemos por essa menina. Não sou pessoa de crenças e de religião. Mas na minha impotência, na frustração, na revolta, termino citando um dos trechos mais belos e fortes da literatura brasileira:

 

“Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria: como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo uma criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.”

– Clarice Lispector, do conto Legião Estrangeira.

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