O que aconteceria se…

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Já passava das dez da noite. Peguei o maço de cigarros que estava no braço do sofá. Vazio. Passo a mão no controle remoto, pressiono o botão para pausar o filme. Um suspiro. Decido ir lá fora comprar cigarros.

Resignado, não me importo com a roupa que trajava, calço apenas os sapatos, recolho a carteira e as chaves. Em poucos instantes ganho a rua. Caminho pelas calçadas escuras, devido a falhas na iluminação pública. O bar que vende os cigarros fica a duas ruas de casa.

Corto caminho por uma pequena viela que liga ambas as vias. Na esquina, um grupo de rapazes compartilham um cigarro de maconha. Passo por eles, sem que nenhum nem sequer olhe para mim.

Um homem de barba espessa caminha em direção contrária a minha naquela pequena viela. Parece carregar uma garrafa que lembra alguma de cerveja, mas não dá para saber ao certo na penumbra que cai sobre o local. Continuo no mesmo passo, na mesma calçada. O homem que cruza meu caminho passa por mim sem me notar.

Viro a esquina, avisto o bar ao longe. Um boteco daqueles mais ordinários, típicos das esquinas da cidade. Algumas mesas na calçada mostram sorrisos e produzem certa gritaria que rompe o silêncio da noite. Uma churrasqueira metálica cria uma atmosfera nebulosa que brinda um ar misterioso ao botequim.

Subo o degrau de mármore que dá acesso ao bar, de azulejos até o teto. No centro da parede, de frente para a entrada, uma imagem de São Jorge em um pequeno altar iluminado por luzes de néon. O balcão, repleto de garrafas e copos, é ocupado por inúmeros homens.

Toco de leve o ombro de um deles, ele olha para mim. Faço um gesto de positivo, levantando o polegar com a mão direita fechada. Ele acena com a cabeça, chega para o lado e abre um espaço para que eu possa chegar ao balcão. Depois disso, volta-se aos amigos e continua sua conversa.

Chamo o balconista e lhe peço a marca dos cigarros. Em breves instantes, ele coloca o maço diante de mim e recolhe a nota de dez que deixei sobre o tampo de vidro. Recebo algumas moedas de troco, agradeço, viro as costas, vou embora.

No caminho de volta, passo por vários senhores que se reuniam para fechar a conta do bar. Peço licença a um deles para que eu possa passar e prontamente sou atendido, com um breve pedido de desculpas. Aceno com a cabeça e sigo meu caminho.

Abro o pacote de cigarros, retiro um deles e levo à boca. Um homem surge em minha frente e impede-me a passagem. Levanto meu olhar, o sujeito mostra-me um cigarro. Pergunta-me se tenho fogo. Tiro meu isqueiro, acendo-lhe o cigarro, aproveito e acendo o meu. Ele me agradece, balanço a cabeça positivamente em resposta, sigo novamente pelo caminho.

Cruzo com alguns catadores de latinhas que se aproximavam do bar. Eles baixam a cabeça, param em torno de um poste com uma lata de lixo e recolhem algumas latas que havia no chão. Sou invisível a eles. Dobro a esquina de minha rua.

Um homem com a camisa repousada no ombro vem atrás de mim. Parece mais rápido. Vou chegando ao portão de minha casa. O homem continua andando em passos firmes e ligeiros. Abro o portão. Ele passa por mim, mexendo em seu celular, sem prestar qualquer atenção à minha existência. Abro a porta de casa, sento-me no sofá. Aperto o botão do controle remoto e termino de ver o filme.

Essa história não tem conflito. Não tem clímax. Não tem preocupação com a indumentária dos personagens. Não tem medo. Não tem desconfiança dos transeuntes. Não tem assédio. Não tem violência. Não tem culpa, nem tem vítima. Mas essa história só é assim porque sou homem.

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Categorias: Reflexões | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “O que aconteceria se…

  1. Excelente. Eu só conseguia pensar em quantas vezes me imaginei tendo q combater um possível agressor todas as vezes em q fiz um trajeto semelhante, o q sentia toda vez q um homem passava por mim, ou qnd um carro com os vidros escuros desacelerava na lombada…

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