O evangelho segundo Michel Temer

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A minha desvinculação do PT é muito antiga. Antes da eleição de Lula para presidente, eu (e muitos outros) já víamos que aquele projeto, naqueles moldes, estava dando água. Foi uma mistura de alianças indefensáveis (como a chapa Garotinho com Benedita da Silva para governo do Rio de Janeiro) e concessões (consolidadas na forma da carta ao povo brasileiro) que me levaram, precocemente, a enxergar os limites da capacidade de transformação da sociedade daquele projeto.

No entanto, apesar de ter mantido distanciamentos e críticas todos esses anos, eu nunca tive dúvidas acerca de um ponto: a única saída aceitável para o impasse em que fomos metidos seria pela esquerda. Qualquer retorno da “velha elite Justo Veríssimo” significaria um retrocesso enorme. E devido a essa certeza, assim como a uma grande irritação conta a histeria conservadora de direita que assola o país há quase uma década, quantas vezes não me flagrei defendendo um governo que na verdade eu sou contra… É hora, no entanto, de admitir: a realidade do governo Temer está se mostrando aquém do além das minhas previsões mais pessimistas. E sinistras.

Corrupto, esse governo é de cima a baixo, e possivelmente muito pior do que o PT jamais poderia ser. Mas não precisava deixar isso tão claro, montando o ministério mais criminoso que se tem notícia na história republicana (sete indicados na lava jato, e o próprio presidente agora é inelegível). A extinção da Controladoria Geral da União é a garantia de roubalheiras em níveis nunca vistos (e que, aliás, não serão vistas, sem o órgão e com a conivência silenciosa da imprensa). Todo o espetáculo armado não passou de um circo, tanto de mídia quanto de judiciário. Isso nunca teve nada a ver com corrupção. E isso não podia estar mais claro do que está agora. Depois da extinção, pelo Temer, da CGU, para você que bateu panela, só resta fazer o disse meu amigo Ernesto Xavier: “Encaminhe-se até a cozinha lentamente de cabeça baixa. Pegue a panela e a acolher de pau. Peça desculpas a elas”.

A política externa do José Serra é uma repetição quase automática da PEB nos tempos de FHC. Abandonamos a prioridade às relações sul-sul, viramos as costas mais uma vez para a América Latina em busca de acordos de livre comércio com países que se industrializaram 150 anos antes da gente, com um olho cobiçoso por uma entrada na OCDE. Isso é bom? Vejam o que aconteceu com o México depois da entrada na Nafta e no clube dos ricos e tirem as suas próprias conclusões. Voltaremos  a ser o gigante bobo do continente, seguindo a observação perspicaz de uma diplomata venezuelana.

A ponte para o futuro não passa de um programa de ajuste recessivo, como qualquer estudante de economia de segundo período sabe. Vai baixar a inflação, mas ao custo de um desemprego brutal, e como os cortes de gastos são direcionados criteriosamente na direção dos mais pobres (para juiz não faltou aumento, é evidente), ao invés da política de distribuição de renda, como a que vinha sendo realizada, mesmo entre erros e acertos, teremos uma política antidistributiva, do tipo que retira dinheiro da saúde, da educação e dos programas sociais em benefício do rentismo. Com a alta dos juros, que, eu presumo, se seguirá, isso significará dinheiro saindo da população em geral e migrando para o sistema financeiro. É bom para os bancos, portanto, ruim para as pessoas. Seus efeitos já se fazem sentir por todos os lados. Na UnB, onde dou aula, muitos  alunos já estão trancando seus cursos. Sem as bolsas e os programas de assistência, eles não têm dinheiro para pagar passagem para ir à faculdade. Simples assim. É muito triste de se ver. E não adianta me dizer que a Dilma estava fazendo a mesma coisa. Ajuste capitaneado por um governo do PMDB, assim como pelo PSDB, dói muito mais. Podem escrever o que estou dizendo. O PT, apesar de tudo, ainda depende de alguma base sindical e tem que prestar contas em alguma medida. Ou pelo menos negociar. Já esses outros caras, eles não têm compromisso nenhum com classe trabalhadora. A ponte para o futuro: algo me diz que eu vou dormir embaixo dela.

A escolha de Fátima Pelaes para a Secretaria de Políticas para Mulheres ultrapassa os limites do escárnio. Afogada em denúncias de corrupção, não consigo imaginar mulher menos de acordo com as atuais pautas feministas: além de evangélica, é contra o aborto mesmo em casos de estupro. Uma catástrofe! Essa indicação, como já veremos, só pode estar de acordo com o projeto de recuo em todas as frentes do campo social. A propalada reforma e extinção de ministérios e secretarias, essa, não se realizará. Não é da natureza do Michel Temer extinguir cargos. Não é quem ele é. E tampouco está no DNA do PMDB atitudes de enxague da máquina pública. Só serão extintos os que não se coadunarem a pauta ultraconservadora que se está implementando (como a Secadi, que acabou de ir para o saco). Os cortes são amparados, no plano discursivo, pela justificativa do equilíbrio das contas públicas, mas, na prática, o que se corta obedece a uma lógica que nada tem de contábil, mas sim de uma opção política.

A influência da religião neste governo levou o jornal El Pais a falar em “República evangélica”. É claro que a bancada evangélica cresceu em espaço e atuação também nos governos petistas, chegando ao ponto de um pastor, e um dos mais medíocres, assumir a presidência da comissão de direitos humanos da Câmara, em choque frontal com as reivindicações dos movimentos sociais. Mas, agora, a situação está rumando para um redimensionamento inaceitável. Além de Pelaes, Temer quase entregou o Ministério da Ciência para um pastor da universal, homem de confiança do bispo Edir Macedo, Marcos Pereira. Diante da reação negativa, recuou, e o bispo teve “que se contentar” com o Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior. A bancada faturou ainda o Ministério do Trabalho e a liderança do governo na Câmara. Isso é o ovo da serpente.

Pessoas que tomam decisões irracionais baseadas em um livro preconceituoso e idiota escrito há quase dois mil anos não podem ter o poder político de definir como os habitantes do século XXI devem viver as suas vidas. Eu moro confortavelmente no século XXI, eu quero fazer aborto, usar drogas e dar a bunda e não quero nenhum pastor vigarista e que não paga imposto, de uma religião opressora e completamente retardada,  no centro do poder criando leis e tomando decisões para encher o saco. Mas, infelizmente, este movimento está em perfeita sincronia com a grande ofensiva conservadora que surgiu no lastro do PT.

A nossa elite política e econômica é patriarcal, branca e escravocrata. Ela só transita bem em um mundo de negros subservientes que abrem portas e mulheres que conhecem o seu lugar. Qualquer cenário diferente desse lhe é hostil e alienígena, e os cortes criteriosos de secretarias e ministérios voltados para o empoderamento de minorias são a prova irrefutável de qual projeto para o país está sendo desenhado. O pior de todos: o de sempre. Aquele que fez aniversário de 500 anos há pouco tempo.

É claro que muitas dessas desgraças devem-se a atuação do próprio PT. É impossível ver o partido recosturar alianças com PMDB, de olho nas eleições municipais, e não pensar: “bem-feito. Mereceram”. Ou ainda: “não aprenderam nem entenderam nada”. Eu não acredito mais em política parlamentar. Nunca acreditei muito, na verdade. Via-a no máximo como uma arena a ser disputada,  mas sem prioridade. Mas agora acredito menos ainda. Acredito muito mais no Black Bloc que protege um manifestante com seu escudo. Acredito na molecada que está ocupando as escolas, dando aula para muito professor. Acredito nos movimente sociais autônomos. Acredito nas mulheres. Acredito nos negros. Acredito nos índios. É daí que virá a força motora das transformações mais profundas e significativas que precisamos, que queremos. E que, depois de 500 anos, merecemos.

 

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Categorias: Sociedade | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “O evangelho segundo Michel Temer

  1. Equivoco Humano

    Quando um pretenso intelectual diz que a biblia é um livro preconceituoso taxa que a elite econômica é “branca, escravocrata e patriarcal”, fica bem claro que o Livro e o Intelectualóide não são muito diferentes. Cravar rótulos é mais fácil que demonstrar. Assim como fica difícil demonstrar que alguém possa superar os níveis de corrupção do governo petista, com esta queda do PIB e com o déficit fiscal maquiado por pedaladas fiscais. Não que eu duvide da capacidade do Temer e da subgangue atual, que fazia parte da gangue anterior, mas porque ainda existem pessoas que criticam e a até a mídia golpista tem colaborado,vazando gravações da lava-jato. A única coisa que realmente parou foi a choradeira pelos vazamentos, hoje 100% dos brasileiros apoiam vazamentos, hoje 100% dos brasileiros não querem freios no Sérgio Moro, O que eu não consigo entender é qual acerto existe em políticas de distribuição de renda, que gera 12 milhões de desempregados, não vejo qual é a vantagem do aparelhamento do Estado, afinal nunca deu certo em lugar nenhum. Porém algumas coisas são ridículas: o uso de drogas não é crime, mas o tráfico cobra vidas de muitas crianças e pessoas. Dar a bunda fique a vontade, ninguém pode te impedir disso. Aborto? Se a vida começa na concepção, como já provou a ciência, apelo ao ser humano pela vida do feto. Afinal a vagina não é um portal mágico que concede vida, do contrário cesarianas seriam impossíveis.
    Mas concordamos que o Estado é laico e igrejas deveriam pagar impostos.

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