Mais amor

Já faz tempo, eu sei. Não foi por desinteresse nem falta do que dizer. Só sei que parti numa viagem para dentro. Precisava disso. E nesses mergulhos profundos, cada vez mais percebo a necessidade de respeitar o outro. Te parece clichê? Antes fosse só isso. Respeitar o outro é, em alguma medida, respeitar a si mesmo também.

Não consigo achar graça de vídeos exaustivamente compartilhados nas redes sociais em que as pessoas têm suas imagens reproduzidas a serviço da ridicularização.

Não entendo a excessiva preocupação com a roupa, o cabelo, o corpo e a sexualidade alheias. Tanta energia gasta na vida e nas redes sociais para criticar o comprimento das saias, os cortes de cabelo e suas multicores, as tatuagens. Para tomar conta do desejo e do gozo do outro. Para enquadrar as pessoas em clausuras nas quais elas não querem nem devem ficar. Para nos padronizar.

Certas opiniões deveriam ser guardadas apenas para seus próprios pensadores até que elas se reformulassem em algo mais complexo e mais digno de serem comunicadas. Dizer que prefere chocolate amargo a chocolate ao leite eu diria que é um comentário inocente. Não ofende ninguém. Fazer galhofas sobre a forma como outras pessoas se vestem, entre outras questões, não é inocente. É perverso, é rude, é a tentativa de hierarquizar a partir de si mesmo como referência. É arrogante. Não se trata de simples questão de gosto, como alguns querem fazer crer.

Da risadinha sarcástica ao comentário jocoso, o que se faz, muitas vezes sem perceber, é legitimar a estratificação das pessoas, separando-as em seres aceitáveis e seres não aceitáveis. A partir daí, toda sorte de violência pode ter origem. Aos aceitáveis, carinho e admiração. Aos inaceitáveis, que Baumann trata por “ambivalentes”, o escárnio, a ofensa, a agressão, o assassinato. É assim que se dá risada do idoso negro sem dentes dançando bêbado. É assim que se jogam pedras em praticantes de religiões de matriz africana. É assim que se espancam prostitutas. É assim que se pratica estupro corretivo contra lésbicas. É assim que se assassinam estudantes gays e nordestinos.

A ideia de que tudo não passa de mera piada consolida um pensamento separatista em que se ri do outro por ele ser diferente de mim. Se nos entendêssemos parte de uma coletividade, veríamos que não haveria espaço para nos pensar separados uns dos outros, mesmo daqueles que são – ainda bem! – diferentes de nós. Mais amor, por favor.

mais_amor

Imagem extraída do site Bons Pensamentos.

 

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