Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra

Acabei de assistir a um vídeo no Youtube que me deixou bastante impressionada, pois se propunha a esclarecer rapidamente o que seria a ideologia de gênero. Bem realizado do ponto de vista da atratividade a ser exercida sobre o público, o material, no entanto, degringola a emitir falsos conceitos sobre o que seria a chamada ideologia de gênero. Nesse contexto, quem aceita os pressupostos por ele defendidos como verdade, tenderia imediatamente a rechaçar a ideologia, julgando já conhecê-la o suficiente para isso. Em linhas gerais, a produção afirmava que, ao levar tal teoria para a escola, meninos e meninas seriam despojados de sua identidade, tornando-se seres confusos em relação a si mesmos, ocasionando o fim da família.

O que pretendo aqui é expor didaticamente quais seriam as bases que alicerçam a ideologia de gênero, segundo entendimento que tenho acompanhado de seus defensores.

Estariam os seres humanos submetidos, quanto à questão dos gêneros, a quatro norteadores: sexo biológico, orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero.

O sexo biológico, como muitos já sabem, é definido no momento da fecundação. Todo óvulo possui um cromossomo X. Os espermatozoides podem conter cromossomos X ou Y. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo X, o bebê será XX, do sexo feminino. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo Y, o bebê será XY, do sexo masculino. A partir de então, cada um deles formará seu aparelho genital. Palmas para quem diz que nascemos homem e mulher. Faz sentido.

Mas os seres humanos são complexos e há muito mais a definir e identificar as pessoas do que ter nascido com piupiu ou com perereca. Quanto à orientação sexual não se trata puramente de uma escolha, mas de uma inclinação motivada pelo desejo sexual e pelo bem-estar, o que envolve questões de ordem afetiva e sexual.  Temos aí pessoas homossexuais, heterossexuais, bissexuais. O que se traz entre as pernas não é suficiente para determinar a atração por outras pessoas.

A identidade sexual e a identidade de gênero se mesclam para mim e têm a ver com a maneira como as pessoas veem a si mesmas e na maneira como a sociedade as encara. Na parte da autoimagem, está incluída a capacidade de as pessoas reconhecerem-se pertencentes a determinado grupo, com determinadas características. As pessoas podem ser cisgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero são correlacionadas ao sexo do nascimento), transgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero não são correlacionadas ao sexo do nascimento). O que pode causar certo estranhamento é entender que o transgênero não é necessariamente homossexual. Apelemos para a ficção: que tal assistir a Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar? Travestis podem sentir-se como homens ou como mulheres, tratando-se, para el@s, de uma questão variável. Os transexuais identificam-se com o gênero oposto ao do sexo com que nasceram e, na maioria dos relatos, consideram-se no corpo errado. Para entender melhor a questão, que tal assistir ao documentário “Meu Eu Secreto – Histórias de Crianças Trans“? Já @ cartunista Laerte defende que a ideologia de gênero mesmo é a que se pratica amplamente nas escolas hoje, confundindo as pessoas e acirrando diferenças, no momento em que se baseia em um binarismo que não dá conta da complexidade da existência humana (veja entrevista).

Já quanto à forma como a sociedade enxerga as pessoas, definindo-lhes previamente papéis e comportamentos sociais, impondo expectativas e limitações, isso sim tem a ver com construção social.  Salve Simone de Beauvoir, tão citada quanto incompreendida! Quando se espera, por exemplo, que uma menina seja sempre delicada, goste de rosa, não seja aplicada aos esportes e goste de brincar de bonecas, ou quando se espera que o menino seja grosseiro, deteste rosa, seja bom esportista e goste de brincar de carrinhos, tudo isso está envolvido na questão da identidade de gênero, que é por demais limitadora, enquadrando as pessoas em papéis, sem que elas se deem conta das múltiplas possibilidades de realização. Rumando à vida adulta, a concepção de que a mulher precisa se dar o respeito, falar baixo, resguardar-se sexualmente, chorar, e a de que o homem precisa ser espeitado apenas por ser homem, falar alto, aproveitar as oportunidades sexuais que se lhe apresentam Aqui não se está falando de sexualidade, ok, mas de expectativas geradas por parcelas consideráveis da sociedade por conta da identidade. Para entender de forma bem simples, sugiro o anúncio intitulado “Corra como uma menina”.

Não tenho talento para desenhar, mas alguém já o fez por mim. Que bom! Está aqui o resumo de todo esse papo aqui de cima.

Para continuar clique em Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra, publicado originalmente no blogue Feminagem.

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