O ouro é dela e ninguém tasca

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Nesses primeiros dias de jogos olímpicos no Rio de Janeiro, uma mulher, negra, da Cidade de Deus e gay assumida conquistou a primeira medalha de ouro do país nesta edição dos jogos. Um feito, sem dúvida. Mas a sequencia de eventos foi por demais desconcertante. Surpreendente foi ver as mais variadas nuances políticas e ideológicas se apropriarem, para os seus devidos fins, da linda vitória de Rafaela Silva no judô. Foi curioso, e ao mesmo tempo constrangedor, ver até mesmo discípulos do Bolsonaro se apropriarem da vitória de Rafaela para venderem a sua, muito entre aspas, “ideologia”. Mas, se pensarmos bem, de certa forma, nada de novo.

Esportes, assim como tudo mais na vida, não têm nada de neutro. Os seus (bons) resultados podem ser arrastados de um lado para outro para justificar praticamente tudo. Hitler tentou usá-los para demonstrar a supremacia ariana. Esbarrou nos negros atletas americanos iniciando a sua organização política para se emancipar do sistema apartheidista das leis Jim Crow e se deu muito mal (30 anos depois, os Panteras Negras viriam a brilhar em olimpíadas, de uma maneira ainda mais política, organizada e emocionante, mas no mesmo sentido).

Como dizia a alta malandragem das escolas cariocas da década de 1980, agora parece que querem “tarrar” a medalha da Rafaela, atribuindo-a ao Brasil, às Forças Aramadas, à meritocracia, ou a qualquer outra coisa. Mas, de todas as apropriações estapafúrdias, a pior foi a feita pelo discurso da meritocracia. Entre memes equivocados de facebook e observações do Galvão Bueno sobre a “capacidade de inclusão social do esporte”, todos fingem ignorar que igualdade de condições não existe. Ayn Rand é um produto da cultura anglo-saxã que por lá mesmo pouco se aplica. Aqui, serve menos ainda. A mobilidade social, via esporte ou qualquer outra via, é uma ilusão de vitrine do capitalismo. É uma porta estreita pela qual poucos passam. Ainda assim, não faltaram comentários sobre como a moça, coitada, não necessitou de incentivos do Estado, esse Leviatã, para lavar para casa o seu ouro.

Vi postes lembrando que Rafaela foi militar da Marinha, entre as várias coisas que ela, como qualquer ser humano, em sua vida multifacetada, foi. E praticamente atribuindo a sua vitória aos supostos incentivos que ela teria recebido dessa Instituição. É sério isso? A Marinha sempre foi a mais aristocrática e racista das Forças Armadas. Não é à toa que foi de lá que veio a maior insurreição militar da história do Brasil, a Revolta da Chibata.

Porém, e isso é o mais perturbador, as loas acabaram quando veio a público que ela, além de gay, sustenta uma relação afetiva com uma menina há três anos. Aí os seus problemas começaram. De heroína da Marinha e da livre iniciativa, os bolsocomentários das redes sociais adquiriram contornos de uma agressividade singular. Claro. Esperável. Infeliz e contraditório como só o Brasil consegue ser. Pobre? Ok, se a pessoa ganha uma medalha nas olimpíadas. Negra? Ainda vai, se isso servir ao discurso de que com esforço pessoal chegaremos lá. Lésbica? Aí já é demais! Manda a mina rápido para a crucificação antes que ela sirva de exemplo para outras mulheres. De heroína nacional a “Geni e o Zepelim” em menos de 24 horas. Isso deve ser um recorde olímpico.

 

Rafaela Silva já pode processar todo mundo (inclusive a mim) pelo sequestro moral da sua história, se é que isso existe. As lições mais importantes de Rafaela têm pouco a ver com judô. Elas nos mostram o quanto ainda temos que evoluir como sociedade. O quanto somos racistas, machistas e homofóbicos.

 

O duvidoso legado para a cidade

 

Meu problema com essas olimpíadas em si não se diferencia em nada do problema com a copa do mundo. Além das remoções que muito sofrimento já trouxeram para a população, o que vai ficar para a cidade? Até agora ganhamos a inflação mais galopante do país e dos últimos tempos. Também, recebemos uma imensidade de obras superfaturadas e coladas a cuspe (tanto que muitas despencaram antes da estreia). Elas servirão para alguma coisa? O prognóstico não é animador. Vi recentemente uma série de fotos mostrando o abandono de estádios e estruturas de cidades olímpicas em outros países. São chocantes as imagens de Pequim e Atenas, por exemplo, em que você vê estádios majestosos e vilas olímpicas completamente abandonados. Parques aquáticos imensos e vazios (no Rio, imagino aquelas piscinas se tornando repositórios de mosquitos – a dengue agradece). Eram estruturas faraônicas demais, ou então redundantes, de manutenção cara para estruturas desnecessárias, e que portanto não foram incorporadas à vida orgânica das cidades onde estão instaladas. Sua construção só pode ser justificada pela corrupção e/ou beneficiamento do setor de construção e do capital (até agora, o único que saiu de fato vitorioso dessa história toda).

No mais, vejo muitos amigos se divertindo acompanhando os jogos. Por vocação e formação, tenho poucas inclinações para policiamentos. Como se diz por aí, “Boa noite pra quem é de boa noite, e bom dia pra quem é de bom dia”. Divirtam-se. Eu não consigo. A alegria do militante é o futuro.

 

 

 

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