Cassandras

 

Kassandra-por-Vanessa-Soares-8

Não vou falar sobre impeachment, Dilma e Temer. Já fiz isso muito e cansei. E agora, ao que tudo indica, é tarde. Avisei várias vezes neste mesmo blog que uma coisa é ter direitos duramente adquiridos atacados pelo PT e pela Dilma, mesmo com ela aderindo ao programa de austeridade, como tentou de última hora. O PMDB e o PSDB serão muito mais agressivos, tanto nos cortes do ajuste, como no cancelamento de direitos trabalhistas históricos, como as reformas da previdência e da CLT que se anunciam já deixam claro. Avisei isso como uma Cassandra, e fui chamado por uns de petralha, e por outros de governista, por causa disso. Mas, como disse, deixa, por enquanto pelo menos, para lá. Vou contar minha ida ao teatro recente, em Brasília, que, mesmo sendo menos importante, pelo menos foi mais divertida.

É impressionante como comigo até uma simples ida ao teatro se torna uma aventura extravagante. Fui ver uma peça do Festival Internacional de Teatro de Brasília. Um grupo de SC, que faz apresentações em espaços não convencionais, estava montando a história de Cassandra (sim, a mesma do parágrafo de abertura deste texto) em uma boate de strip-tease no centro da cidade. Como não tinha ingresso (claro), cheguei com duas horas de antecedência para conseguir um na fila de desistências. Como ainda sou relativamente novo por aqui, não dimensionei que o local, o tal do Setor Comercial Sul, é o coração da crackolândia da cidade. Sem exagero, não passei nem cinco minutos sem que alguém muito detonado não viesse me pedir algo (geralmente cigarro). A área era tão degradada, que até os cachorros pareciam usar crack (sem sacanagem, tinha um que estava muito doido, se masturbando em uma mureta dessas que dá em jardim). Fazia até os lugares mais inóspitos do centro do Rio parecerem a Avenida Champs-Élysées.

Claro que tinha como piorar. Quando faltava “só” uma hora para o começo do espetáculo, chegou um sujeito e se juntou a mim na fila de espera. Um desequilibrado que começou a despejar sobre mim as suas experiências de encontros com discos voadores. Ele me contou histórias mirabolantes de OVNIs que mergulhavam na água e besteiras quejandas. O auge foi quando ele me confessou achar muito estranho que, apesar de ter visto discos voadores dezenas de vezes, ele nunca conseguira avistar nenhum alienígena nas janelas das naves. Minha cara de desespero, de tedio e a minha digitação frenética no celular não o intimidaram, e eu passei 50 longos minutos ouvindo toda a sorte de baboseira. Quase disse uma hora que ele estava na fila errada, que aquela era a fila do teatro, que a fila do crack ficava na esquina seguinte. Na verdade, meu desespero era tamanho que se ele pedisse, eu ia lá comprar uma pedra para ele me deixar em paz. Mas não. O maluco queria ir ao teatro mesmo.

Depois disso tudo, eu já estava pensando: melhor essa peça valer muito a pena, porque depois de duas horas dando pinta na crackolândia e aturando papo furado de disco voador, só o que me faltava era encarar teatro ruim pela frente. Mas de cara já tive a primeira surpresa desagradável da noite: a apresentação foi realizada em inglês, e até agora não entendi o que o espetáculo ganhou com isso. E essa não foi a única opção equivocada tomada pelo grupo. Escolheram uma abordagem cômica para contar a história de Cassandra, o que, evidentemente, pode ser válido. Mas me soou um tanto estranho colocarem uma Cassandra apaixonada pelo seu estuprador (Agamenon), ainda mais vindo de uma companhia que na sua apresentação diz “tratar temas contemporâneos”. Em uma época com tantas iniciativas de denúncias coletivas de violência contra a mulher, certamente não seria esse o recorte que eu escolheria.

A peça teve seu ponto alto quando Cassandra começa a reclamar dos autores gregos, como Eurípedes, todos homens, que a chamam de maluca. Ela tira um livro da bolsa (anunciando ser “As Troianas”), finge que vai começar a ler e começa a recitar de “The Winner Takes It All” do Abba. Eu acharia mais genial se ela de fato introduzisse o texto grego nessa cena, para debochar que fosse, mas enfim, funcionou bem desse jeito também. Fora isso, a peça se sustentou em uma imensidão bastante previsível de piadas sobre sexo (nada contra, só acho que é possível diversificar) e no inglês macarrônico, que tirou boas risadas da plateia, mas que, para mim, esconde uma certa falta do que dizer. O perdeu definitivamente a montagem foi texto, fraco e preguiçoso, que desperdiçou a ótima ideia do cabaré o excelente material que é a história de Cassandra.

Porque Cassandra é uma poderosa metáfora, dessas que são fundadoras da cultura ocidental. Sua capacidade de ver as desgraças que se aproximam, conjugada à sua incapacidade de mudar o curso dos eventos, tornam-na a própria imagem da impotência. Os seus gritos e os lamentos das troianas ecoaram pelos corredores do tempo, sem exageros, da Antiguidade até os nossos dias. Temos o direito de modernizá-la, é claro, e de fazermos o que quisermos com ela. Como metáfora fundadora, ela pertence a todos, e é legítimo se apropriar das suas tragédias para levantar questões que na Grécia sequer eram cogitados. Mas essa história tão potente está acima da capacidade de manejo dos envolvidos nessa produção quase infeliz que assisti, na quarta, no dia do impeachment de Dilma Rousseff. Em suma, trataram-se de ambições demasiadamente grandes para a capacidade do autor do texto.

E é justamente daí que vem a minha última (juro) reclamação. É claro que não existe uma lei exigindo isso, mas é uma tradição que peças teatrais dialoguem com o momento histórico. É essa capacidade do teatro, de responder ao que acontece no exato instante, na rua, que o torna infinitamente superior a artes menores como o cinema (brincadeirinha). Raramente vi bons espetáculos que não inserissem algum comentário sobre os acontecimentos da ordem do dia. Não que eu esperasse ouvir um “fora Temer”, mas achei muito estranho um grupo de teatro deixar um momento histórico como o que vivemos passar em branco.

No mais, que semaninha…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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