A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.

Bandido tem de morrer e quanto antes melhor, menos despesa pra gente, menos lixo no mundo. Mas eles não tinham sido julgados, fulano… Se estava na cadeia é porque devia alguma coisa. E por acaso não tem bandido na polícia, fulano, não tem flagrante forjado, você sabe melhor que eu… Mas aqueles lá, não, era bandido mesmo… Assassino frio é bandido, né? É tudo bicho ruim, cortaram cabeça… É contra a lei cortar cabeça, né ? Não zoa, é contra lei e contra Deus, é gente muito ruim, não merece viver, tem que matar mesmo. Ok, me diga uma coisa,fulano, se você fosse polícia e pegasse um desses caras numa esquina, você matava? Claro que matava. Fulano, tenho uma péssima notícia para você. Para mim? Matar é contra a lei de Deus e dos homens, você é um bandido.

O cara é um paulistano mas podia ser potiguar ou goiano. Podia se curitibano ou soteropolitano. Como diz minha amiga, cearense nascida nos cafundós que trabalha como balconista mas quer mesmo é ser enfermeira, é tudo brasileiro e Deus é o mesmo. Seu irmão foi morto a tiros pelas costas por causa de uma discussão besta na beira do açude. O filho do dono do açude não foi, nem será preso. Meu amigo alagoano me explicou como funciona. O pai chega na delegacia e vai logo declarando. Foi mesmo o filho que fez a besteira mas não adianta prender, o moleque é ruim da cabeça, o pai está mandando ele embora por uns tempos. Acontece que o morto e o assassino também tinham uns acertos de contas, diz o pai, e diz mais, vai fazer um desagravo para a família. O filho dele fica por sua conta, pronto. Mas a minha amiga diz que o sobrinho, que assistiu a morte do pai aos 8 anos de idade, já prometeu. Assim que crescer vai caçar e matar o assassino. Ela mesma podia ter encomendado a morte por 300 reais mas não acredita que cadeia ou assassinato resolva alguma coisa. Tragédia grega.

O cara me deixou chateada. Por onde começar a falar de Justiça com alguém que pensa que o sinônimo de justiça é vingança? Se quer civilizar um homem comece pela sua avó, já dizia minha avó. Minha avó achava que a consciência é forjada apenas pela tradição e esta muda muito devagar.  No caso do cidadão que defende as chacinas produzidas pela PM não restaria chance alguma. Sua avó passou a vida debaixo do mandonismo do pai e do marido que lhe ensinaram a lei do cangaço, do mais forte, do “quem pode mais chora menos” e do “ isso aí só bala resolve”. Descende de gente que traz gravada na memória e na pele que a vida é uma coisa que tem por sentido a disputa, a porrada como meio e o triunfo como fim. Gente que acorda cedo e trabalha, vê televisão exausta, cria os filhos sonhando que eles não levem a mesma vida enfadonha, vai no estádio ver futebol e quando está no pico do tédio, da raiva ou do nojo, enche a cara para esquecer. Essa é sua Cultura. São eles dignos de viver porque honestos e cumpridores dos deveres, comem e dormem do seu trabalho suado, dentro da lei de Deus e dos homens, dentro da conformidade, isto é, da Cultura na qual foram criados. Vagabundo não merece viver mas a noção de vagabundo é fluida como água. Segundo sua Cultura os vencedores merecem tudo, inclusive o perdão pelos seus crimes e trapaças. Para os perdedores, na prática, resta a Lei do Cão e às vezes a sensação exasperante de fazer tudo dentro das regras e levar a pior. Mas neste caso a Cultura lhes autoriza, ao menos, sonhar com a vingança como prêmio de consolação. Confusamente reconhecem a instituição judiciária como luxo para rico ficar mais rico, uma instituição que, como os bandidos, ferra demais os pobres ao mesmo tempo que a querem como braço armado de suas vendetas pessoais. Neste ambiente cultural humanismo, direitos humanos e coisas que tais só podem mesmo ser entendidas como um pixo no muro – palavra inútil que emporcalha a paisagem, Neste ambiente cultural o assassinato de quem se odeia ou teme vai parecer tão natural como a crença em Deus. Não há falta de Cultura. Cultura fundada na violência  e na lei do mais forte também é Cultura. Os prazos das mudanças culturais operam na chave do tempo mítico, a família pode ajudar ou atrapalhar mas detém poder apenas até o limite da fragilidade cognitiva, material e emocional do indivíduo. A família reproduz mais ou menos a cultura de onde está inserida mas não tem mais poder que tudo que lhe é externo, para o bem e para o mal.   

Livre associação, acabei me lembrando de uns causos do meu tempo de educadora no terceiro setor. A expressão “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” que andava na boca dos adolescentes por causa do personagem Chaves, parece que saiu de moda. No começo dos anos 2000 fiquei confusa ao ver jovens de 14 anos aplicarem o bordão em improvisações de teatro enquanto me perguntava: mas eles leram a Orestéia ??! Foi assim que tomei o primeiro contato com o Chaves, o seriado mexicano exibido na TV brasileira. O bordão era dele.

Nesta época dava aulas para adolescentes em “situação de risco social” e ouvia como resposta à minha provocação, de como pensavam que seria uma tragédia grega transposta para os dias de hoje, muitas narrativas de suas vivências nas favelas e bairros populares. Com apenas uma década e meia de vida tinham se defrontado com violência radical, ao vivo e a cores, mais vezes que eu, em quase quatro décadas bem vividas.

Não sei se fui capaz de ensinar-lhes algo mas aprendi muito. Tinha aquele sentimento arrogante de pena ao ver que contavam com um repertório cultural escasso, não nego, mas acabava por me encantar com suas capacidades de criar o máximo com o mínimo disponível. Sua aversão às normas cultas da língua, percebia aos poucos, não era aversão, mas simples medo de nunca chegarem a dominá-las. Eu também não as domino, confessava. E descobria que bastava lhes convencer que era apenas um jogo para se tornarem exímios caçadores de palavras e brincantes do texto escrito. Eu, a princípio convicta de que os devia alimentar de saberes, ao final concluía que o melhor seria estar atenta e regar seu desenvolvimento com o que pudesse, já que podia fazer tão pouco por eles.

Na maioria dos casos o curso não era a sua primeira escolha ou de seus pais. A maioria ia parar lá ao não conseguirem inscrição nos cursos profissionalizantes. A instituição era vinculada a uma corporação, funcionava com verba de renúncia fiscal para projetos Culturais mas usava a maior parte da verba da alínea “Cultura” para ministrar cursos de treinamento para adolescentes candidatos potenciais aos seus postos de trabalho. Eram cursos profissionalizantes lato sensu, muito mais programas de treinamento de práticas e regras da própria empresa do que qualquer outra coisa. Quem iria questionar? Seus frequentadores e pais só enxergavam a possível vaga de emprego e como desejavam qualquer uma, por mais mal paga que fosse, qualquer coisa estava valendo como “educação”. Não conseguindo matrícula, os responsáveis ponderavam – melhor que nada, melhor que ficar na rua em má companhia ou em casa fazendo bobagem – vai lá fazer essa coisa de artes, meu filho.

Era previsto trabalharmos conteúdos de literatura e teatro. Mais difícil que a alfabetização incompleta – cansei de ver meninos de 14 anos que não conseguiam ler uma matéria de jornal, apesar de frequentarem a escola desde os 7 anos de idade – era lidar com as expectativas iniciais. Havia os que iam logo avisando serem avessos a “ aparecer”, afirmando orgulhosa disposição para o destino de trabalhadores “de verdade” e seu desprezo por “frescuras” e “loucuras” da “ arte”. Outros, no extremo oposto, se declaravam dispostos a tudo para alcançar a mais alta ambição artística que podiam conceber : aparecer na TV Globo. Eram adolescentes com fantasias juvenis, enfim.

Ótimo, eu lhes dizia, então temos por aqui gente disposta a trabalhar para organizar a bagunça daqueles ali quando enlouquecerem com frescuras, não ? Eles riam. Mas espero também, eu continuava, que estejam todos animados a lerem muitos textos e estudá-los. O espanto. Estudar teatro era isso ?

Eles achavam que, em arte, era tudo improviso e dom de Deus. E que a arte maior era o que passava na TV. Novelas e filmes eram melhor que teatro, não eram ? Poucos percebiam que os filmes estrangeiros na TV eram dublados. Muitos menos, ainda, se davam conta de quantos profissionais diferentes eram necessários para fazer uma televisão funcionar. Passado o choque das revelações vinha a tarefa de decepcioná-los gentilmente. Meu objetivo era menos ensinar-lhes “artes” que despertá-los para coisas interessantes, quem sabe até para maneiras mais férteis de empregar o tempo que dedicavam a assistir televisão.

Dava certo, às vezes. Muitos tomaram gosto pela leitura, outros a aprimoraram. Nos encontrávamos duas vezes por semana ao longo de apenas 4 meses mas, de leitura em leitura, jogo em jogo teatral, do exercício à conversa, vazava para dentro dos nossos jogos de faz -de -conta o real de seus cotidianos, repletos de problemas subjetivos e materiais. Todo o deficit de um sistema de ensino tão burocrático quanto indiferente aos afetos se revelando bem na minha frente. Tudo que a Cultura de um país excludente, fundado sobre a exploração dos mais fracos pelos mais fortes podia produzir, se reproduzindo sobre aqueles corpos e mentes. Muitas revelações me chocavam ainda mais pela constatação de que não havia espaço para eles pensarem e falarem sobre suas inquietações mais profundas em casa, na escola, na igreja ou na rua. Sobretudo os meninos, treinados desde o berço para aguentarem porrada sem reclamar e lutarem por um território onde pudessem mandar. Eis o sonho generalizado. Um espaço para mandar. Nem que fosse apenas uma casa ou um barraco com uma mulher dentro, que lhes daria filhos e a certeza de valer alguma coisa, pelo menos para eles, a família. Assim como as meninas que, em contraparte, sonhavam com o amor incondicional quando parissem. O amor romântico para muitas parecia, senão inacessível, improvável mas ter um bebê, isto sim, era a garantia do amor incondicional. Esses moloques são uns toscos, Professora. Meu pai fugiu quando minha mãe engravidou, Profe. Homem só quer aproveitar da gente, minha mãe sempre diz, o que a senhora acha?

Foi uma experiência cheia de momentos emocionantes e imprevisíveis. Guardo vivo na memória um princípio de cisma religioso que se instalou em uma das turmas. Já então alguns garotos e garotas acrescentavam, ao se apresentarem, a identificação religiosa – sem que lhes fosse perguntado. Foi assim que se identificou um grupo, sentados lado a lado em um canto da roda – evangélicos- o que provocou também a declaração de fé, no canto oposto, dos umbandistas. Havia troca de olhares desconfiados seguidos de risinhos e boquinhas torcidas desde o primeiro instante.Após a rodada de apresentação ficou claro que o desprezo era mútuo. Perguntei se sabiam o que era mito de origem. Não sabiam. Expliquei a diferença entre o tempo histórico e o tempo mítico. Gostaram da coisa. Um garoto sabia o princípio do Velho Testamento de cor, uma menina narrou um mito africano. E o mito de origem dos gregos, conheciam? Fomos ao mapa mundi procurar a Grécia. Desenhada uma linha do tempo em papel kraft na parede, a conversa fluiu. Os mitos gregos e africanos tinham muito mais a ver com o terror – gênero preferido por 9 entre 10 adolescentes naquela época. Um deus que paria filhos em suas próprias coxas e os devorava, UAU ! Um deus punido por seus pares por roubar o fogo e entregar aos homens, quéquéissso??? Existem, existiram, sim ou não, como eu dizia, eram questões de fé que não vinham ao caso mas como no campo da Cultura simpatia é quase amor… lá fomos ler trechos de tragédias clássicas e falar dos conflitos de amor, ódio, paixão, desrazão e orgulho que garantiram a sobrevivência destas antiquíssimas histórias.

O planejamento pedagógico vinha de cima mas fazíamos limonadas a vontade. Recordando estas aulas há uma década e meia, me peguei questionando como ou se ainda seriam possíveis. Pelo que ouço dos colegas professores, a necessidade de dar conta de conteúdos extensos e uma burocracia feroz fazem da sala de aula uma linha de montagem mais sem graça do que sempre. A onipresença dos celulares com seus infinitos bate-papos mais o acesso instantâneo à web em qualquer aparelho de baixo custo, talvez tenha esvaziado algo que servia de isca e encantamento para o trabalho pedagógico. Trechos de filmes, livros, fotos e gravuras, às vezes significavam o primeiro contato daqueles jovens com obras do chamado mundo das artes e da cultura. Fora dali tinham pouco ou nenhum acesso a ela. A curiosidade incitava, a dificuldade de acesso fisgava, a concentração não era desviada pela vibração de qualquer eletrônico. Agora, pelo que dizem, sabem que tudo está à mão e tudo pode ficar para depois. A procrastinação, esporte nacional de prestígio transversal a todas as classes sociais brasileiras, encontrou o solo mais fértil de sempre. Todas as coisas estão ao alcance de um clic, o que equivale a dizer que podem esperar até o fim do próximo chat, da próxima selfie, do próximo clipe, da próxima série, do próximo game. No tempo que melhor apetecer a cada um. A sociedade virtualizada tem precedência sobre a real, dizem meus colegas professores e divertir-se é a ordem. Diversão sem qualquer esforço. É só pesquisar o ranking das palavra mais consultadas nos motores de pesquisa para ver, me disseram. Especulo. A educação pode muito mas a Cultura, hem, a Cultura….

Recordando aqueles anos, me recordei também daqueles dias. Da atmosfera, dos modos, do cotidiano, do gênero de passatempo e lazeres mais ou menos comuns para quem podia ter algum lazer e passatempo. Íamos ao cinema, aos museus, ao teatro como sempre, jogar bilhar, houve uma moda de dardos ao alvo, já nos trancávamos em casa a ver pilhas de filmes emprestados da locadora mais próxima mas raramente sozinhos. Viajar era um prazer mas ficar em hotéis era muito caro. Os carros não eram mais os do tempo do Collor, os moços se empolgavam com os importados. Começavam a voltar à moda os sapatos bico fino e salto alto, os tênis de nova tecnologia passavam a substituir os sapatos esportivos. Os computadores entravam de vez para o cotidiano doméstico. Havia a internet discada, todo mundo tinha um endereço de email. Havia muitos novos pequenos hábitos de consumo agora. Consumir era igual a viver, a sociedade se confundia com o mercado então nada mais natural que o mercado cuidasse de tudo. Comprar planos de saúde, mandar os filhos à escola particular, instalar cercas eletrificadas nos muros, contratar seguranças uniformizados para as portarias, preferir a vida em condomínio a uma boa casa com jardim, de cara para a rua, era o novo normal. Em cidades minúsculas com terra baratíssima a classe média se enfiava em prédios mais altos que a igreja matriz bem ao lado. O desejo de viver dentro de uma bolha triunfava. Uma bolha nem tão apartada dos pobres assim, diga-se de passagem. Mas uma bolha que ao menos garantia saneamento básico, transporte e outros itens diferenciados. Que garantia diversões e sonhos diferenciados. Afinal, tínhamos sempre alguma chance real ou imaginária de escalar até uma daquelas outras bolhas sobre nossas cabeças. Era natural não debater como esta Cultura de apartheid era esquisita. Que apartheid? Responderia em uníssono a classe média não engajada na discussão política, caso alguém ousasse assim classificar aquele modo de vida tradicional, agora sedimentado de vez. Que horror. Temos é corrupção – sempre ela, essa maldita. Quantos haviam sido pegos com a boca na botija, tinha adiantado o quê ? O dinheiro era a medida de todas as coisas mais do que nunca. O fim das ilusões, o fim da História. O processo de judicialização da vida avançava como jamais, ser querelante virou moda. Law and order. Problema agora se resolve é na Justiça. Discute, não. Mete um processo. Quero a minha parte em dinheiro. Não discuto, não converso, não peço desculpa – pago – prefiro. Apartheid onde? Haveria os que garantiam que estávamos todos lascados, de qualquer modo, pobres e remediados. Mesmo nós, os que saídos das prestigiadas Universidades Públicas esperavam encontrar mais facilidades para triunfar no mercado de trabalho, olha aí, ainda tínhamos de ralar muito para encontrar meios de vida e renda. Não tínhamos de nos esforçar muito para vencer concursos públicos e alcançar os melhores salários, sendo filhos de pais sem capital ? E mesmo os mais abonados entre nós, não tinham de usar a rede de relações e até mesmo o patrimônio de pais e parentes, ao querer constituir negócio próprio? Quantos de nós, cansados de bater a cabeça ou avistando oportunidades melhores não tinham tomado o rumo do aeroporto? Temporária ou definitivamente – quem sabe. O Brasil era cansativo. Depois de toda aquela euforia da redemocratização, quanto tempo até conseguir frear a inflação… e a corrupção, sempre ela… e os pobres e miseráveis… há tanto tempo fazem parte da paisagem. Bem, estavam lá desde sempre, já eram parte da paisagem, não eram? Era difícil. Era preciso ter espiritualidade para suportar. A espiritualidade sempre foi parte importante da nossa Cultura, e como dizem todas as religiões, pobres sempre haverá entre vós . Para vencer a pobreza é preciso fé, comprometimento individual com seu crescimento. As Igrejas ajudam mas se a pessoa não tiver fé, ah, vai se abduzida por toda essa violência, não há dúvida. A religião agora era onipresente nas madrugadas da TV. E não é que ajudava os mais pobres? Claro que sim. Ajudava o sujeito a se organizar, parar de beber, convencia o marido a não bater na mulher, convencia a mulher que é melhor ser doce e carinhosa ao invés de uma megera rabugenta, mantinha os adolescentes ocupados, orando, trabalhando para a Igreja. A violência era o mal da década e tudo para fugir dela era válido. Alguns de nós até escorregavam no abuso de drogas para segurar a barra da violência simbólica. Era ridículo mas era válido. No cinema ou na TV a violência tinha virado tema preferencial, só superado pelos temas do adultério e do amor romântico. Quem ditava qual era a moda, qual era a onda, qual era a pauta, mostrava o drama da violência, a tragédia da violência, Hollywood fazia da violência uma coisa cult. A violência é, como a religião, uma coisa complicada. Há muitas explicações e muitos modos de ver o mesmo Deus que, afinal, é um só. Aqui, pelo menos não tinha violência religiosa. E nossa violência também nada tinha a ver com os salários ou o desemprego. Muito menos com o consumismo.

A cultura do consumismo se infiltrou cada vez mais pesadamente na vida cotidiana da classe média, a partir dos anos 90, e se encontrava reprimida para a maioria da população por simples falta de meios. A ideologia do indivíduo que é feliz porque consome e consome para ser feliz já era a parte estruturante do tecido da Cultura mas do sonho ao real, apenas uma minoria conseguia ir além do desejo. Então veio o governo Lula. De repente aqueles garotos e garotas com perspectivas nulas ou lentíssimas de melhoria da renda – e apenas se contassem com a sorte de famílias estruturadas ou, no mínimo, mães e pais decididos a tudo sacrificarem por eles – sentiram que podiam dar o salto e passar à próxima bolha. Trabalhando no telemarketing, podiam frequentar uma faculdade subsidiada no contra turno. Podiam sonhar, ao perceberem que alguns até mesmo teriam chance de chegar às bolhas mais altas, sempre inacessíveis aos filhos do trabalhador brasileiro da base da pirâmide. Os pais ganhavam um pouco melhor. De repente faltavam pedreiros e os mais habilidosos montavam equipes e passavam a trabalhar por conta. Euforia. Da faxina se saltava para a massagem estética, da recepção se podia chegar a envergar um terninho no tribunal. Virar doutor e doutora advogada, o sonho impossível agora ao alcance do carnê de crediário. Euforia. Pressa, muita pressa. Vamos virar o jogo. Afinal a empregada podia ter um armário na cozinha novinho, não aquele de portas caídas que a patroa dispensou, louça nova no banheiro, como aquelas que passou a vida limpando. Descobríamos que não estávamos fadados a viver em bolhas diferentes de consumo para sempre. Cada um com seus problemas mas todo muito podendo ter as coisas que sonhou. Éramos enfim o futuro que parecia ter desistido de chegar. Agora sim, ia chegar, glamuroso como uma viagem a Miami. Eufórico como uma liquidação da blackfriday.

Por estes anos, vivi algum tempo fora. O Brasil desabrochava para o mundo esfuziante como esta alegria que nos contaminava por dentro. Aquele fetiche brasuca de namorar gringos e gringas para conseguir um green card ia se invertendo. Moços do leste europeu me imploravam para lhes apresentar garotas brasileiras. Lindas ! E ainda por cima, vivendo no Brasil, ah, o Brasil… que sonho o Brasil. Vinha de visita e reparava – era só impressão ou a média da estatura da juventude negra e periférica tinha aumentado? Seria mais ingestão de proteínas ? Que a população como um todo tinha engordado saltava aos olhos.

O Lula não inventou, e nem poderia porque já estava inventada, a euforia consumista. Euforia consumista, aliás, é pleonasmo. Consumismo é comprar euforia em forma de cacarecos mais ou menos caros. Nem tudo que é consumo é euforia. Alguns objetos do desejo são úteis. Quem lava roupa no tanque ganha mais que euforia ou status ao comprar uma máquina de lavar. Quem nunca teve luz elétrica em casa ganha mais que uma lâmpada acesa. Quem viu a mãe morrer na sua frente porque não havia um carro para levá-la ao hospital, deseja mais do que conforto ao adquirir um automóvel.

O governo Lula  no aspecto cultural, colocou abaixo algumas catracas seletivas demais e os efeitos colaterais foram muitos. Uma certa “ mudança comportamental” dos pobres e muitos pobres não se explica apenas pela oportunidade de virar consumidores. A maioria não chegou nem sequer a virar consumista, não passaram de consumidores do básico – ao qual não tinham acesso ou garantia antes.  Ainda que fosse verdade ( o que discordo) que a chamada “ nova classe média” ou “ nova classe trabalhadora” tivesse se mostrado mais interessada em consumir do que outra coisa, alguém diga com sinceridade : quem forjou o modelo para ela se espelhar? A sociedade brasileira, nascida sob o signo da violência, tendo o Estado desde sempre como perpetrador das maiores violências, tem como eixo fundamental de sua Cultura da violência proteger de todas formas possíveis a acumulação de patrimônio privado. Este modela, desde a base nossa Cultura, da ética subjetiva ao conjunto das leis . Um acumulado de terras, casas, apartamentos, carros, dinheiro, moeda, ouro, pedras preciosas, ações, o acúmulo, qualquer acúmulo de riquezas, é o legado mais precioso que um pai pode deixar aos seus descendentes. O patrimônio e as posses trazem prestígio e alvará para quase tudo. Sobretudo se for ” riqueza velha” daquelas que nem se consegue investigar bem as origens. Prestígio intelectual, só se corroborado por um diploma materializado na parede e acompanhado de uma conta gorda no banco. Por acaso pode valer o quê uma pessoa sem dinheiro ? Se é artista talentoso, se é jogador habilidoso, se é descendente de famoso tem de ser rico, ora, cirurgião, engenheiro, arquiteto bom que não tem dinheiro, onde já se viu? A riqueza traz em si o condão de chancelar talentos, imaginar competências várias, mesmo onde eventualmente só haja resultado de sorte ou jogos de poder e violência. A Cultura também fez de nós uns generosos em elogios e afetos, pródigos mesmo. Nossa Cultura reproduz o amor pela prodigalidade em todos os setores da vida. Numa sociedade de classes com uma das piores distribuições de renda do planeta qualquer pessoa em situação de rua tem na ponta da língua a definição do Brasil : um país rico, riquíssimo ! O consumismo foi só a cereja do bolo.

O consumismo é autoritário. Ele instala a ordem do consumo como única meta, única saída, único valor. Consuma ou morra, tenha coisas ou inexista, ostente posses ou cubra-se de vergonha. E seu caráter autoritário só tende a agigantar-se em uma sociedade em que os meios de comunicação de massa estão em poder de meia dúzia de donos de empresas que, desta forma, ditam quais os objetos, os valores, gostos, músicas, ideias, notícias, personalidades tem valor de consumo – quais devem ser apreciadas e consumidas, quais devem ser descartadas. A mídia de massa  dita para a massa o que é Top no ranking e o quê não vale nada. Quem deve ser exaltado, quem pode ser humilhado. Na sempre monotônica e autoritária propagação do consumismo o topo da pirâmide de renda é a meta e a ordem primeira, em caso de impossibilidade de alcançá-la, é mimetizá-la. Almejar ter cara de rico, cabelo de rico, se vestir como rico, ter cacarecos de rico, são os mandamentos inscritos no regulamento do Partido Único da Mídia que o divulga dia e noite. Partido único que tem também o poder- político -de tornar invisível objetos, valores, gostos, músicas, ideias, notícias e pessoas que não alimentem a ideologia de triunfar e fazer fortuna. E não é possível estar desalinhado com o Partido Único da Mídia, no Brasil sem temer sanções tão violentas quanto aquelas que o Estado é capaz de produzir. Aos desafetos relevantes a Mídia de massa pode neutralizar partindo para a guerra frontal pela demonização, incitamento ao repúdio, pelo ridículo, pelo escárnio, pelo deboche, se a invisibilidade não bastar. O MST que o diga.

A mídia de massas no Brasil, tanto a eletrônica, quanto a escrita, graças a todas as manobras ilegais que fez ao longo dos últimos 30 anos para continuar operando de forma diversa do que diz a Constituição, conseguiu firmar-se como uma espécie de preposto do Olimpo. Seus donos que operam empresas que servem à venda de cacarecos em primeiro lugar, nos intervalos entre os filmes publicitários produzem anestésicos em forma de diversão. Mas também criam lendas, mitos e dramas a serviço da Cultura clássica brasileira. Elevam simples mortais à condição de semi-deuses. Como Zeus são capazes de acorrentar um Titã à beira do penhasco e ordenar que abutres lhe devorem o fígado, dia após dia, e ainda escarrar na cara de quem ouse levantar a voz para protestar que, com ou sem Prometeu, o Olimpo é que é o problema. Então não é surpresa que este Olimpo se empenhe em retratar Prometeu como um ladrão asqueroso. Omitindo inclusive que todos os Titãs gostavam muito dele antes dele ter roubado da pira dos deuses uma fagulha, além de ter trazido à cena Pandora que, como se viu, nada fez para evitar que a caixa preta fosse aberta. Francamente !

E é claro que nem dá pra começar a conversar de forma leve com quem, educado por esta mídia de massa e pela tradição cultural brasileira, grita :” bandido bom é bandido morto!”. Se eu fosse capaz de lhes explicar que os bandidos que vendem anestesia para as durezas de suas vidas, adestraram sua língua a dizer estas orações de maldizer – que não explicam nada e não resolvem nada – apenas para que eles possam continuar como prepostos dos deuses no Olimpo… seria eu mesma um Prometeu.

Mas sou uma reles mortal que rasteja lutando para não perder a fagulha que lhe cabe neste vale de trevas. Às vezes penso que felizes são os Titãs e deuses do Olimpo. Às vezes penso que são os abutres com sua dieta de fígado fresco. Às vezes penso que felizes são os urubus satisfeitos com sua dieta de carniça. Mas na maior parte do tempo penso que talvez sejamos apenas uma nação de gente triste encenando uma velha tragédia. E que, na tragédia brasileira, minha vocação para coriféia é que me desgraça. E como dói, às vezes, não ter um reles tábua onde encenar outras paixões. 

oresteia

Oresteia de Ésquilo

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Categorias: Cultura, Mídia, Reflexões, Sociedade, Verso & Prosa | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.

  1. Marcelo

    Pessoal, texto riquíssimo. Posso fazer um comentario de minha impressão?Sugiro mais objetividade se quise ter mais visibilidade e mais acessos à sua informacão. Mas se for como desabafo, que seja. Em comunicação há consenso que depois de 3 minutos o ouvidor pára de prestar atenção e, além disto, corre- se o risco de se perder na exposição do tema. É apenas minha opinião. Ok. Abs ao Moa e Aline!

  2. Olá, Marcelo, consensos não são bem vindos, leu o subtítulo ? Brincadeira. Agradeço ter se dado o trabalho de sugerir que eu melhore. Confesso, nem desabafo, nem busca de mais acessos. Às vezes sinto que tenho algo de relevante a dizer e procuro conter minha digressiva natureza, às vezes é só uma garrafa atirada ao mar descrevendo a paisagem da minha ilha. Saber que alguém a encontrou já compensa o trabalho, grata pela visita e delicadeza da observação.

  3. Republicou isso em REBLOGADOR.

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