Teatro não é lugar de entretenimento

Eu sei, eu sei, com esse título me coloquei em dissonância até com o Brecht meu mais queridão pensador do Teatro. Ele dizia que o teatro tem de fazer pensar mas também tem de entreter. Bem, ele dizia também que o espectador devia poder fumar para pensar melhor mas, com o tempo, as coisas sofrem revisões, é inevitável. Entretanto não vou polemizar o Brecht em uma croniqueta, que eu não sou tão besta assim. Nem iria pretender desdizer o que o Bertold disse e seus milhares de críticos e fãs corroboram. Eu converso muito com ele e acho que ele também mudou muito de opinião ao longo da vida – e por isso o amo. Um dia escrevo uma tese de doutorado sobre estas coisas, se kronos me permitir.

A questão que eu gostaria de trazer à cena é a seguinte. Quem estudou alguma coisa da história do teatro sabe. O Teatro pode ser chamado um mas são vários, sua transformação de meios, modos e finalidades se dá em ciclos ( já sei que é controverso, mas me deem o benefício da dúvida). Toda a indústria do entretenimento bebeu dele. Tudo que foi acumulado em 20 séculos de história do teatro ocidental foi e é reproduzido pela indústria dos produtos. Do cara que encara diretamente a câmera ( fazendo aparte para a platéia) aos efeitos especiais ( deus ex-machina). Do herói virtuoso que cumpre um destino inexorável e cuja falha trágica coloca em desgraça, para melhor nos ensinar uma ética humanista à farsa que mostra o vilania em plena ação exitosa para ser ridicularizada estava tudo desenhado e estruturado antes que Pathé ligasse a primeira câmera. Todo o campo do audiovisual só recicla continua e industrialmente aquilo que o teatro já havia criado, proposto, testado. A indústria audiovisual é filha do teatro e é jovem. Até aqui nenhuma novidade. Ela introduziu, entretanto, uma grande novidade. Até ela surgir, apenas reis e grandes senhores podiam ter para si, no espaço privado de sua preferência, o prazer da fruição de espetáculos teatrais. Os espetáculos destinados a eles eram diversos dos que iam às praças públicas, destinados àqueles que não tinham acesso aos palácios. Há períodos em que isto se transforma, para citar um exemplo, como na Inglaterra de Elizabeth que, ao possibilitar a alfabetização de jovens camponeses, tornou possível o Globe Theatre e Shakespeare, com suas platéias de 2000 espectadores atravessando o rio para irem ao teatro. A indústria do entretenimento cultural, neste sentido, democratizou o acesso a camadas muito mais amplas da população. Democratizou ou poderia ter democratizado. Ocorre que a indústria cultural reproduz a produção direcionada às diversas classes, nichos ou castas sociais, chamem como quiserem. Como no esfacelamento da Grécia, como durante o declínio do Império Romano, cresce um gênero de dramaturgia especialmente voltada ao excitamento dos sentidos, voltado para promover o excitamento dos sentidos, a requerer nenhuma reflexão ou esforço de natureza chamada intelectual. Pensem nas grandes batalhas navais ou na arena de sacrifício dos cristãos da velha Roma e tentem relevar minha argumentação apressada e imprecisa. Sim, o Teatro ali mais que espelhava a vida, ele levava às últimas consequências o que havia se tornada a vida e, assim, reproduzia a essência daquele modo de vida. A indústria cultural do entretenimento, no final das contas, faz coisa muito diferente ? ( Aqui gostaria e deveria falar sobre como os meios de comunicação social, isto é , concessões públicas de canais de comunicação, por esta mesma razão, devem ter uma gestão democrática, mas vou deixar para outro dia).

O ponto a que queria chegar é este. Ao Teatro sobrou como elemento distintivo, de sempre e não importando a que gênero dos ” teatros” estamos nos referindo, a presença física. É necessário que pessoas de carne e osso se reúnam em um mesmo lugar para que o fenômeno aconteça. Teatro é lugar onde se vai para ver, é o significado da palavra grega Theatron. Ver os atores, ver o espetáculo, ver os demais espectadores. Teatro é um lugar de entreolhar-se. Quando se pede que desliguem os celulares, então, é como se fosse a própria Terra nua! Considerando a existência de baladas, raves, espetáculos esportivos, festas populares, shows em estádios, caçada de pokemons, alguns lugares onde se pode, inclusive, fumar e beber, não vejo sentido um teatro para entreter.

Eu acho que todos nós que frequentamos teatros podíamos reivindicar a fusão do Teatro à Àgora ( ela morreu mas não tem importância, ressuscitamento é o nome do meio do Teatro).

Ou um lugar onde se vai para ouvir, ver, falar e trocar ideias não está fazendo falta?

Primavera nos dentes

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