Arquivo do mês: março 2017

Dia de honrar as memórias de luta


A menina, aos 4 anos de idade, era um modelo de criança obediente. Obediente, mesmo, um doce! A mãe nunca cansou de testemunhar. Eram tempos de disciplina rigorosa e crença nas virtudes do castigo físico mas a menina nunca tomou uma palmada, que se lembre. Sim, a mãe dizia, era sensível demais, isso era. Desde bebê chorava muito mas não se podia reclamar de mais nada. Não lembrava sequer de lhe mostrar o chinelo. A menina não precisava de ameaças. Era um modelo de obediência e doçura.

Então aconteceu o inesperado. A mãe teve de sair e deixou a menina sob cuidados da empregada da casa do avós. Antes olhou-a nos olhos, como sempre fazia e disse : ” Não posso te levar mas eu volto antes de anoitecer. Na hora do seu banho estarei aqui.” A menina passou a tarde brincando com a moça, de quem gostava muito, aliás. No final da tarde, a avó resolveu adiantar o expediente e mandou colocar a menina no banho. A moça tentou mas a menina, delicada, informou-lhe. Não posso, tenho de esperar minha mãe. A avó explicou que na ausência da mãe era ela que mandava mas a menina repetiu. Não vou.

A avó mandou a moça levar a menina para o andar de cima do sobrado, brincar no quarto de costuras, bem ao lado do banheiro. Lá tentaram convencer a menina que era preciso tomar um banho para vestir uma blusa nova, mais bonita. Nada feito. Chamaram a tia. Mais do mesmo. Perderam a paciência. Abraçaram a menina ignorando protestos e suas tentativas de escapar do colo. Mostraram a banheira de louça, a opção entre a ducha e a imersão, ofereceram perfume. Não, teimou a menina, não vou. Resolveram tirar suas roupas de qualquer jeito e seus gritos ecoaram nas paredes. O estardalhaço trouxe o avô até a porta, camisa social e gravata como sempre, mãos finas, gestos controlados, fala pausada. O mesmo homem que retirava do pesado cofre do escritório balas e pirulitos que distribuía com um sorriso de satisfação mas que com um simples olhar fazia os pais das crianças se calarem.

As mulheres já haviam desistido de forçar a menina ao banho e tornavam a vesti-la quando o avô veio saber o que se passava. Três mulheres para dar banho em uma menina e não conseguem. Zombou. Ordenou que fizessem o que tinha de ser feito. Recomeçaram a operação, recomeçou a gritaria. A menina agora se debatia desesperada, ensurdecida pelos próprios gritos. O avô ameaçou. Sabe aquela régua de madeira do escritório? É para corrigir criança desobediente. A menina repetiu. Não quero, não vou. Vá buscar a régua, moça. A moça foi, com lágrimas nos olhos, a menina viu. A régua foi trazida e sacudida frente ao rosto da menina, enquanto as mulheres tornavam a despi-la entre pontapés e socos que não conseguiam conter. Mergulhada na água com sabão deslizava, sem deixar de chutar e gritar. O avô pediu que abrissem passagem e segurando a menina por um braço, desceu uma pancada certeira na bunda. A menina parou de gritar. Olhou nos olhos do avô, como sempre fazia, e tentou retirar a régua de sua mão. Tomou mais uma pancada, e outra e outra, e outra, sem deixar de chutar e espalmar a água da banheira tentando acertar nos olhos do avô. Quase sufocava no próprio choro, mas com as mãos imobilizadas, ainda tentava morder a mão que a espancava. Não demorou tanto assim para o avô parar e retroceder, assustado. Nunca antes alguém tinha visto o avô assim, testemunharam mais tarde as mulheres. Assustado. Mandou que vestissem a menina. A moça abraçou a menina e depois secou seu corpo, molhando o próprio rosto com lágrimas.

Não demorou muito e a mãe chegou. O avô, entre perplexo e envergonhado, justificou à mãe os vergões na bunda da menina: ela parecia endemoniada . A mãe não estava contente, a menina sabia ler o rosto da mãe contrariado mas a ouviu dizer que não tinha importância. Entendia as razões do avô mas entendia também as da menina. Ela era obediente. Não, disse o avô. Ela é determinada. Tem opinião. Ela tem caráter. 

E foi assim que a menina passou a contar com atenção especial do avô. E foi assim que a menina aprendeu que a Justiça não é algo natural e que a única luta que se perde é aquela que se abandona.

Hoje, 31 de março de 2017, haverá manifestações contra a terceirização e o fim da previdência social brasileira que, se concretizadas, jogariam no lixo séculos de lutas dos trabalhadores por mais justiça social. Seria uma grave injustiça com a memória de todos que lutaram e de todos que morreram pelo direito dos trabalhadores terem uma vida digna das riquezas acumuladas pelo trabalho humano, que estas medidas se concretizassem.

A riqueza acumulada pelo trabalho de séculos, geração após geração de seres humanos não pode servir para proporcionar luxo a 1% dos seres humanos e tormento sem fim para os 99% .  Este país, cheio de riquezas naturais e patrimônios construídos pelo trabalho de gerações e mais gerações de escravos ou quase escravos, não pode mais ser um paraíso para novas gerações de escravocratas e exploradores sem consciência social, estes inimigos da justiça social.

Neste dia de luta me lembrei – a memória é uma coisa engraçada-  deste causo da minha infância e fiquei me perguntando. A coragem será uma questão de inteligência ? A Justiça eu sei que é. Meu avô me ensinou.

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Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

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