Sobre aquilo que falávamos quando estávamos vivos

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Meu amor, eu tenho tanto, tanto a te dizer

Não vou lembrar aqui a pessoa incrível que você foi – isso todo mundo sabe

Não vou falar sobre a educação pública, na qual você sempre acreditou e pela qual lutou, com tenacidade e coerência. Eram tantas as tuas qualidades… Não vou falar da tua irritante paixão pelo Flamengo, que nunca disse nada para alguém que odeia futebol como eu. O futebol, aliás, era das poucas paixões que não tivemos em comum, creio. Pelo menos você também não tinha saco para aquelas corridas bobas de carrinhos. Fórmula 1 que chamam, eu acho. Por outro lado, o samba que eu amo, também não era muito a tua praia. Fazem 25 anos precisos que te conheci. Seriam as nossas bodas de prata, salvo engano. Um quarto de século, 25 anos me dão pouca inclinação para falar bobagens

 

Não, Anderson, eu preciso de outras coisas

Você mesmo uma vez me disse que eu era uma amizade que te definia

Então aqui vai: falar de você é descrever quem eu sou

Falar de mim é contar quem você foi

 

E pensar que a morte para nós foi engraçada, quer dizer, não, a morte nunca é engraçada

Mas conosco ela fez esforços circenses para se tornar uma piada cósmica de mau gosto

A quantidade de amigos que você perdeu, os que eu perdi, os que perdemos em comum

Tínhamos as nossas listas da morte e víamos com pavor e perplexidade o aumento dos nossos cemitérios

Não havia como este não seu um assunto recorrente entre nós

Mas a morte é uma senhora vetusta, porém doidivana e cheia de caprichos

Que por fim instalou você na minha lista

O que será que isso quer dizer?

Que eu sou o próximo?

Ou que eu viverei até mesmo muito mais do que gostaria?

 

Atravessamos esse Brasil de carona sem dinheiro sem cartão de banco em uma época em que celulares sequer existiam

Juntos, éramos tão fortes, não éramos?

Juntos, éramos tão corajosos

 

Você não imagina como a sua morte me pegou de surpresa

Eu estava em uma cidade-buraco poeirenta em fronteira de estados perdida no mapa como tantas que conhecemos

À noite, já sabendo da notícia e arrasado, acabei parando dentro de uma van cheia de gente bêbada

Com umas meninas muito doidas dançando em pé com o veículo em movimento de porta aberta – alguém aí falou em segurança no trânsito?

Acabei parando em um forró com pessoas que eu nunca havia visto na vida – é impressionante como mesmo depois de morto você continua me levando a lugares inacreditáveis – lembra do Piauí?

Isso é poder, meu amigo, isso é para poucos

 

Tenho certeza que você teria adorado essa história – quase ouço seu riso

Tenho certeza que, a título de cerimonial, você teria considerado tais exéquias bastante satisfatórias – mas você jamais saberá disso

Tenho certeza de que isso te comoveria mais do que rezas, orações e todo esse caralho a quatro com asa que nunca significou porra nenhuma nem para mim nem para você (“caralho a quatro com asa”, linda expressão que você cunhou em alguma reunião de CA perdida no tempo, lembra?)

Sim, me despedi de você da forma como vivemos mesmo:

Fechando bar depois de bar deixando para trás um lastro de latas de cerveja e guimbas de cigarro e muitas gargalhadas, sim, comemoramos as escassas vitórias e as não menos majestosas derrotas

 

 

É lindo ver como você era querido, são tantas homenagens, tanta gente devastada

Você conseguiu enlutar metade do Rio de Janeiro, bem literalmente

Agora andam te chamando de “gigante gentil”, acredita?

Se você tivesse recebido esse epiteto vivo, e fossem outros tempos, eu te zoaria de “gigante meio veado”, é certo – a troça de lado a lado sempre fez parte integrante da nossa relação – deem-me licença de eu caçoar do meu amigo morto, por favor

 

Mas agora, falando sério, por que você me deixou sozinho nessa escuridão?

Custava ter me esperado? Por que essa pressa? O que eu faço agora?

Eu sei que essa estúpida bola de barro não te mereceu, mas eu mereci

Para quem eu vou ligar a qualquer hora da madrugada?

Quem vai me ligar?

Você se manda assim de repente e cá fico eu nessa terra ainda mais triste e muito mais só

Você sabe muito bem que nesse mundo de injustiças

a felicidade é uma indecência a que nenhum dos dois nos permitimos

 

Pelo menos resta a honra de o ter chamado de amigo, o que já não é pouco,

Mas falta muito para preencher o vazio do teu abraço

Pelo menos você escapou do naufrágio do envelhecimento

 

Eu só sei que já sinto saudades imensas das nossas conversas que passavam do Egito para Marte em velocidade extraordinária

Eu só sei que em tempos de emburrecimento coletivo, de escolas sem partido, de candidatos fascistas

O brilho da tua inteligência se apagou em um céu desesperado por luzes

Eu só sei que não te verei mais aos sábados ou domingos

Eu não te verei mais na Tijuca, eu não te verei mais na lapa nem em Santa

Quem sabe no centro do rio, quem sabe no nada…

 

.

.

.

 

Após uma longa e dolorosa pausa, me despeço de você, pela vez derradeira

Daqui a pouco tenho que sair, estou mudando de apartamento, tenho que pagar aparelho dental para filha

Enfim, esse prosaico cotidiano que alguma hora vai me engolir de novo e me tirar desse transe

O mesmo cotidiano que nos enlouquece, por paradoxo, também nos salva do horror

Você está sendo enterrado hoje, e eu nem poderei estar com você, porque estou longe, no coração do poder desse país amaldiçoado que te tratou tão mal, por ser negro, por ser grande, por ser delicado, por ser militante

Não se perde alguém como você impunemente

Eu queria ter te dito muitas dessas coisas enquanto você estava vivo. Morto, nada disso te ajuda

Que fique pelo menos essa lição para os vivos: a vida passa como um rato na sala. Respeite quem te respeita, ame quem te ama e entregue o resto para o diabo porque ele sabe o que fazer

 

 

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Categorias: Sociedade | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Sobre aquilo que falávamos quando estávamos vivos

  1. DANIELLA OLIVEIRA

    Coisa linda Paulo! Em uma parte do texto, tb ouvi a gargalhada dele. Ô saudade esquisita!

  2. Tania Lopes

    Quanto amor nessa amizade, você o descreveu tão bem, que conforme eu ia lendo ia vendo meu amigo que tive o prazer e honra de conhecer na UERJ, no tempo em que ele fez o mestrado e doutorado. Lembrei dele me encarnando por ser Botafoguense (rsrsrs), me pedindo para salvar ele depois do horário de atendimento. Mas a morte faz parte da vida e ela nunca avisa quando vai chegar e quem ela escolheu para levar. Como sou espírita, acredito que ele tenha cumprido a missão dele, por mais que isso possa parecer um paradoxo, mas todos nós temos o nosso tempo nessa terra e o dele findou, hoje temos que aceitar e viver as boas lembranças, porque só assim a dor da perda poderá virar uma grande saudade. Obrigada por ter me permitido ler esse texto que muito me emocionou. Um grande abraço Tania (ex-funcionária da UERJ).

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