Arquivo do autor:Aline Silva

Sobre Aline Silva

Carioca da clara, não tenho a cor do pecado, não carrego o samba no pé, nem sinal do doce balanço a caminho do mar. Mangueirense e flamenguista, apartidária com inclinações à esquerda, gosto do surdo um, mas meu coração vibra mesmo, contraditoriamente, é com metal e com as letras poéticas e melódicas de Zeca, Chico, Yuka e Siba. Também vibro por formação e gosto com a literatura do Velho Graça, de Clarice, de Mia Couto e com os escritos dos amigos. Não gosto de literatura alegre. Não gosto de filme alegre. Não gosto de música alegre. Para mim, a arte tem de doer para ser bonita. De argumentos racionais e ações nem tanto, tenho facilidade para o riso, para as lágrimas e para os arrepios. Acredito em Deus, mas duvido que ele exista (assim com pronome em minúscula mesmo, porque não aceito esse mito judaico-cristão fabricador de culpas e flagelos). Mas que São Jorge matou o dragão, ah, isso é verdade!!!

A rede


 

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Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

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Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra


Acabei de assistir a um vídeo no Youtube que me deixou bastante impressionada, pois se propunha a esclarecer rapidamente o que seria a ideologia de gênero. Bem realizado do ponto de vista da atratividade a ser exercida sobre o público, o material, no entanto, degringola a emitir falsos conceitos sobre o que seria a chamada ideologia de gênero. Nesse contexto, quem aceita os pressupostos por ele defendidos como verdade, tenderia imediatamente a rechaçar a ideologia, julgando já conhecê-la o suficiente para isso. Em linhas gerais, a produção afirmava que, ao levar tal teoria para a escola, meninos e meninas seriam despojados de sua identidade, tornando-se seres confusos em relação a si mesmos, ocasionando o fim da família.

O que pretendo aqui é expor didaticamente quais seriam as bases que alicerçam a ideologia de gênero, segundo entendimento que tenho acompanhado de seus defensores.

Estariam os seres humanos submetidos, quanto à questão dos gêneros, a quatro norteadores: sexo biológico, orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero.

O sexo biológico, como muitos já sabem, é definido no momento da fecundação. Todo óvulo possui um cromossomo X. Os espermatozoides podem conter cromossomos X ou Y. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo X, o bebê será XX, do sexo feminino. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo Y, o bebê será XY, do sexo masculino. A partir de então, cada um deles formará seu aparelho genital. Palmas para quem diz que nascemos homem e mulher. Faz sentido.

Mas os seres humanos são complexos e há muito mais a definir e identificar as pessoas do que ter nascido com piupiu ou com perereca. Quanto à orientação sexual não se trata puramente de uma escolha, mas de uma inclinação motivada pelo desejo sexual e pelo bem-estar, o que envolve questões de ordem afetiva e sexual.  Temos aí pessoas homossexuais, heterossexuais, bissexuais. O que se traz entre as pernas não é suficiente para determinar a atração por outras pessoas.

A identidade sexual e a identidade de gênero se mesclam para mim e têm a ver com a maneira como as pessoas veem a si mesmas e na maneira como a sociedade as encara. Na parte da autoimagem, está incluída a capacidade de as pessoas reconhecerem-se pertencentes a determinado grupo, com determinadas características. As pessoas podem ser cisgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero são correlacionadas ao sexo do nascimento), transgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero não são correlacionadas ao sexo do nascimento). O que pode causar certo estranhamento é entender que o transgênero não é necessariamente homossexual. Apelemos para a ficção: que tal assistir a Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar? Travestis podem sentir-se como homens ou como mulheres, tratando-se, para el@s, de uma questão variável. Os transexuais identificam-se com o gênero oposto ao do sexo com que nasceram e, na maioria dos relatos, consideram-se no corpo errado. Para entender melhor a questão, que tal assistir ao documentário “Meu Eu Secreto – Histórias de Crianças Trans“? Já @ cartunista Laerte defende que a ideologia de gênero mesmo é a que se pratica amplamente nas escolas hoje, confundindo as pessoas e acirrando diferenças, no momento em que se baseia em um binarismo que não dá conta da complexidade da existência humana (veja entrevista).

Já quanto à forma como a sociedade enxerga as pessoas, definindo-lhes previamente papéis e comportamentos sociais, impondo expectativas e limitações, isso sim tem a ver com construção social.  Salve Simone de Beauvoir, tão citada quanto incompreendida! Quando se espera, por exemplo, que uma menina seja sempre delicada, goste de rosa, não seja aplicada aos esportes e goste de brincar de bonecas, ou quando se espera que o menino seja grosseiro, deteste rosa, seja bom esportista e goste de brincar de carrinhos, tudo isso está envolvido na questão da identidade de gênero, que é por demais limitadora, enquadrando as pessoas em papéis, sem que elas se deem conta das múltiplas possibilidades de realização. Rumando à vida adulta, a concepção de que a mulher precisa se dar o respeito, falar baixo, resguardar-se sexualmente, chorar, e a de que o homem precisa ser espeitado apenas por ser homem, falar alto, aproveitar as oportunidades sexuais que se lhe apresentam Aqui não se está falando de sexualidade, ok, mas de expectativas geradas por parcelas consideráveis da sociedade por conta da identidade. Para entender de forma bem simples, sugiro o anúncio intitulado “Corra como uma menina”.

Não tenho talento para desenhar, mas alguém já o fez por mim. Que bom! Está aqui o resumo de todo esse papo aqui de cima.

Para continuar clique em Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra, publicado originalmente no blogue Feminagem.

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Curtas


 

Aí nesse papo de polivalência no mercado profissional, você descobre que o cerne não é valorizar as suas muitas habilidades, e sim fazer você trabalhar desempenhando as funções de muitas pessoas.

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Aí vc está olhando as publicações da rede social e aparece a foto de um homem bonito na barra lateral direita, com os dizeres “Quero namorar”. Desconcentra, gente. Onde é que posso escrever “Problema seu”.

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Aí na notícia que fala do pastor acusado de abusar sexualmente do enteado de 5 anos, alguns comentários tratam de acusar a mulher de exposição da intimidade da família; outros, o defendem, chamando a atenção para a tendência pecadora de todo ser humano. Como diria uma grande amiga: na moral, pecado de cu é rola!

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Aí o discurso do lado-de-lá: O Rio está em crise blá-blá-blá, os servidores têm de ser compreensivos blá-blá-blá, os professores têm de retornar às salas sem salário blá-blá-blá, a justiça considerou a greve abusiva. Aí o discurso do lado-de-cá: sem segurança, sem limpeza, sem merenda, os terceirizados não recebem há cinco meses, sem blá-blá-blá.

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Aí eu conversava com um representante de determinado sindicato. Não tenho nada contra sindicatos – registre-se. Aí eu discordava dele e da forma como empurraram o fim da greve para a base sem consulta prévia em assembleia. Aí ele se tornava mais verborrágico e dizia que, como representante da classe, ele estava autorizado a tomar certas decisões e assumia as consequências dela, inclusive de ser considerado pelego. Aí eu disse que ele não estava autorizado não, que aquilo era um modelo antiquado de gestão, em que não se supõe a real participação dos representados, muito típico dos nossos políticos, por exemplo, que se acham donos das cidades, dos estados, da federação. Aí ele já tinha me chamado de meu amor umas três vezes. Aí eu disse meu amor não. Meu nome é Aline.

 

polivalente

Imagem do site Efetividade

 

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Mais amor


Já faz tempo, eu sei. Não foi por desinteresse nem falta do que dizer. Só sei que parti numa viagem para dentro. Precisava disso. E nesses mergulhos profundos, cada vez mais percebo a necessidade de respeitar o outro. Te parece clichê? Antes fosse só isso. Respeitar o outro é, em alguma medida, respeitar a si mesmo também.

Não consigo achar graça de vídeos exaustivamente compartilhados nas redes sociais em que as pessoas têm suas imagens reproduzidas a serviço da ridicularização.

Não entendo a excessiva preocupação com a roupa, o cabelo, o corpo e a sexualidade alheias. Tanta energia gasta na vida e nas redes sociais para criticar o comprimento das saias, os cortes de cabelo e suas multicores, as tatuagens. Para tomar conta do desejo e do gozo do outro. Para enquadrar as pessoas em clausuras nas quais elas não querem nem devem ficar. Para nos padronizar.

Certas opiniões deveriam ser guardadas apenas para seus próprios pensadores até que elas se reformulassem em algo mais complexo e mais digno de serem comunicadas. Dizer que prefere chocolate amargo a chocolate ao leite eu diria que é um comentário inocente. Não ofende ninguém. Fazer galhofas sobre a forma como outras pessoas se vestem, entre outras questões, não é inocente. É perverso, é rude, é a tentativa de hierarquizar a partir de si mesmo como referência. É arrogante. Não se trata de simples questão de gosto, como alguns querem fazer crer.

Da risadinha sarcástica ao comentário jocoso, o que se faz, muitas vezes sem perceber, é legitimar a estratificação das pessoas, separando-as em seres aceitáveis e seres não aceitáveis. A partir daí, toda sorte de violência pode ter origem. Aos aceitáveis, carinho e admiração. Aos inaceitáveis, que Baumann trata por “ambivalentes”, o escárnio, a ofensa, a agressão, o assassinato. É assim que se dá risada do idoso negro sem dentes dançando bêbado. É assim que se jogam pedras em praticantes de religiões de matriz africana. É assim que se espancam prostitutas. É assim que se pratica estupro corretivo contra lésbicas. É assim que se assassinam estudantes gays e nordestinos.

A ideia de que tudo não passa de mera piada consolida um pensamento separatista em que se ri do outro por ele ser diferente de mim. Se nos entendêssemos parte de uma coletividade, veríamos que não haveria espaço para nos pensar separados uns dos outros, mesmo daqueles que são – ainda bem! – diferentes de nós. Mais amor, por favor.

mais_amor

Imagem extraída do site Bons Pensamentos.

 

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Valeu, Zumbi!


transversos

Xangô

Perspectiva diacrônica

Estima-se que 35 mil pessoas habitavam o mais conhecido dos quilombos, o de Palmares, nos limites de Alagoas e Pernambuco, entre 1624 e 1654.  Abrigava mais de 10 comunidades de diversas etnias, protegidas por estratégias militares sofisticadas que chegaram a evitar por mais de 100 anos a invasão colonizadora, tanto portuguesa quanto holandesa. Constituía-se em espaço de resistência, reverenciando a cultura ancestral, organizando-se socialmente, abrigando negros fugidos, negros libertos e brancos pobres foragidos da justiça.

Seu primeiro líder, Ganga Zumba,  tornou-se notório por ter assinado um tratado de paz com o governador-geral da capitania de Pernambuco Pedro de Almeida. Há mudanças na visão dos historiadores quanto ao papel do líder negro nos quilombos: de manipulado ou traidor a conciliador, que buscava no tratado uma forma de garantir a preservação das comunidades.  O tratado prometia “união, bom tratamento e terra”.

Uma das condições do acordo era a de…

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Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente


Da primeira vez,  eu devia ter uns 7, 8 anos. Ele, uns 17. Trabalhava no bar frequentado pelo meu pai. Tínhamos uma conta lá e eu precisava comprar muitas coisas fiado. Vivia me elogiando, dizendo o quanto eu era bonita e que iria se casar comigo. Eu dizia: mas eu não quero casar com você. Ele insistia. Dizia que o que importava era o que ele queria, que ia casar e ponto. Falava isso na frente de muita gente. Falava isso na frente do meu pai. Eu chorava. As pessoas em redor me chamavam de boba. Ele só estava brincando.

Aos 9, 10, o marido de uma tia tentou me beijar. Eu estava sentada no sofá da minha casa vendo sessão de desenho animado. Algum tempo depois contei para a minha avó. Ela implorou silêncio. Disse que meu pai matava um.

Episódios pontuais antes dos 13. Um homem num carro se aproximou. Pensei que queria informação. Estava se masturbando. Vi algo brilhar no banco do carona. Corri. Até hoje não sei se era uma arma, uma faca. Outra rua, outra história? Um homem num carro se aproximou. Pediu informação. Depois ofereceu carona, insistiu de novo, falou uma terceira. Corri. Com o tempo, isso se tornou um hábito quando carros paravam.

Na época da faculdade, voltei do shopping de táxi com alguns amigos e amigas. Rachando a conta, valia a pena. Eu ficaria por último. Achei pedante ficar no banco de trás. Fiquei ao lado do motorista. Ele perguntou se eu não queria fazer um programa com ele. Gelei. Me infantilizei: que isso, moço? Sou disso não. Ele insistiu. Perguntou minha idade. Menti: 17. Ah, tá. Dimenor. Dimenor dá problema. Antes de sair aos prantos, ouvi: viu como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Dava aula em Acari de manhã muito cedo. Seguia a R. Costa Lobo para pegar o metrô em Triagem. Rua deserta. Um cara passou a mão no meu peito. Não reagi.  Tive medo de apanhar.

E as cantadas grosseiras? As línguas obscenas antes da menarca, numa época em que tomar sorvete de casquinha era deixar o doce escorrer pelos dedos. Puxões de cabelo na balada, beliscões nos braços. Os comentários sobre meus seios, minha boca, minha bunda, minha vulva. A coragem de andar sozinha substituída pelo medo de andar no escuro.

Aos 9 anos, ouvi que era muito madura para minha idade. Aos 10, que era muito madura para minha idade. Aos 11, 12, 13, muito madura. Aos 14, muito…

No carro do amigo de uma amiga, acompanhado dela e do namorado, o cara passou a mão na minha perna quando trocava de marcha. Falei: não te dei essa intimidade. Que isso, benzinho? Não gostou?  Tinha aceitado a carona por insistência da amiga. Iríamos a uma festa de rua em Pilares ou Del Castilho. Ele estava desviando o caminho: Rodovia Washington Luís. A amiga aos beijos com o namorado. Ocupada demais para perceber. Falei com ela, reclamei com ele, que resolveu voltar. Eu estava sem grana. Na altura de Quintino, ela resolve descer para dormir na casa do namorado. Paralisei. Segui com ele. Me senti sem escolha. Na Marechal Rondon, imbicou o carro para um motel. Tentei abrir a porta e o vidro. Tudo travado. Gritei, esperneei. Ele deu meia volta e me levou para uma rua deserta. Eu chorava, gritava, dizia que queria ir embora. E ele continuava tentando me convencer a mudar de ideia. Por fim, me deixou em casa. Ouvi uma frase já conhecida: tá vendo como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Fonte: Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente , no blogue FeminAGEM.

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A quantas perdas você sobreviveu?


Os amigos de infância já não o são, os da adolescência a vida distanciou. Na maturidade, sobram grupos por quem se nutre imenso carinho, mas são demais as angústias dessa vida. Rastros revelam diferenças. No fundo, o caminho é solitário, único e inescapável.

Por quantas separações você já passou? Dor dilacerante, insônia, medo. A impressão de ter esquecido a porta aberta. Era preciso se proteger. Era preciso ter certeza de que estava seguro. Ninguém está. Nunca está. Nem com as trancas a postos.

A mãe doente, o pai doente, o hospital constante. Vai-não-vai-foi. Nem tempo de adeus. Teriam aprendido a conviver melhor se eles estivessem aqui. Mais uma ficção das relações. Mais uma forma de tentar exercitar o controle sobre o que não se controla.

O filho perdido, a dor, o vazio, os sonhos desfeitos. O filho nascido, o prazer e a dor, os sonhos… desfeitos? Trajetória ímpar. Pessoa única. Qualquer previsão será falha. Você amaria seu filho ou sua filha da mesma maneira se ele não torcesse para o seu time do coração, não gostasse do mesmo estilo musical que você, se ele subvertesse o que você concebe como ordem, se ele fosse dependente químico?

No fundo, em cada uma dessas situações, há um projeto não concluído, mas um projeto idealizado para a vida e também para a morte do outro. No segundo caso, o projeto é adiar tanto quanto impossível.

Tenho aprendido a renomear perdas. Se todas as transformações por que passamos ao longo da vida forem entendidas como perdas, seremos apenas portadores de um buraco jamais preenchido, fadados a uma vida de tristezas profundas.

Prefiro ficar com o verso camoniano adaptado do poema Sete anos de pastor: Mais faria se não fosse para tão longos amores tão curta a vida.

transformacao

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Era uma coisa tão fácil*


FeminAGEM

Coração partido Imagem extraída do site Pintura que Fala.

Na primeira vez em que aquilo aconteceu, ela estava só. A notícia veio fria, pesada. O coração não bate mais. Um arrepio lhe percorreu todo o corpo. Em casa, exausta das lágrimas, mal teve tempo de ir ao banheiro. Jatos lhe saíam do estômago.

Levava uma vida normal. Trabalhava, estudava, flanava. Culpou-se por esforços excessivos que julgou ter feito. Buscava pistas que não a eximissem da responsabilidade. Cobrou-se, puniu-se. Sentiu vergonha. Era uma coisa tão fácil.

Agora aquele não mais ser jazia dentro dela. Confusão dos sentidos. Queria acordar disso tudo; na verdade, nem dormia. Os médicos disseram para levar uma vida normal. O corpo reagiria. Como interromper a mão que afaga a barriga oca? Sem dores físicas, restava esperar. Não havia esperança. Alma em frangalhos.

Foi assistida na rede pública. Ficou no andar das mulheres que viviam em risco. Risco de…

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Hoje eu não quero falar


nelson sargento

Hoje eu não quero falar de facas. Nem de fardas. Quero a alegria fumegante do café fresquinho com dedos de prosa. Bolo saindo do forno, flores e visita.

Não quero falar de Roger Waters, nem de Gil e Caetano. Quero a coerência e a incoerência, que nos mostra humanos, supremos, mesquinhos.

Não quero falar de Cristiano Araújo nem da boliviana Maribel Laura Tancara Nina. Muito menos dos valores atribuídos às vidas, bem como às mortes e suas notícias pela grande mídia.

Não quero falar de Boechat, Malafaia, rolas. Quero o sangue correndo nas veias, aquecendo o corpo, as bocas em brasa, o sexo

Não quero falar dos livros que já li e dos que pretendo ler. Quero a brisa no rosto, as mãos dadas no parque.

Não quero falar de aquisições e perdas, compras e roubos. Quero ouvir mais sobre o crescimento da intimidade entre as pessoas. E da cumplicidade, e da solidariedade.

Não quero falar sobre os abusos cometidos sob efeito de drogas. Quero a viagem maneira, o alargar de horizontes, a transcendência possível, a socialização feliz.

Não quero falar de abandono, nem de supressão de direitos, crimes ou redução da maioridade penal. Quero olhar o menino na esquina e imaginá-lo saudável, amado e amoroso, capaz de grandes feitos. Queria de volta o dia 26 de maio, onde as meninas do Piauí eram só meninas no Piauí.

Não quero falar de nada que me tire a paz. Que sei tênue, que sei transitória, mas, que, no momento, me inunda com força insuspeita.

 

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Jesus, esse vândalo!


A atualidade desse texto publicado no ano passado me trouxe o desejo de republicá-lo. O sagrado para alguns pode ser relacionado à representação de seus mártires. Numa sociedade homofóbica, os assassinados por motivos de orientação sexual também tem o martírio no sangue jorrado. Representar a crucificação é forma de aproximar esse caráter divino das agruras e delícias diárias, é forma de escancarar a tortura a que são submetidos diariamente.

transversos

Mesmo com a redução de fiéis, o Brasil é o maior país católico do mundo: 64,6% da população, o que equivale a 123 milhões de pessoas.

Nas missas, fala-se insistentemente da mãe que perdeu seu filho condenado de forma terrível, do sofrimento que foi impingido a ele, das zombarias quando lhe deram vinagre em vez de água para lhe matar a sede, além da insistente proliferação de cenas da tortura, as chamadas estações da via sacra.

Imagem Via sacra: reprodução do trajeto seguido por Jesus carregando a cruz do Pretório ao Calvário

O menino recém-nascido foi colocado numa manjedoura, rodeado por animais. Sabe o que é manjedoura, né? Aquele cestinho bonitinho dos presépios? Não! Manjedoura vem do italiano mangiare. Era o recipiente onde era depositada a comida dos animais. Tivesse nascido hoje na cidade grande, a criança poderia ser aninhada num pote de ração para cães de grande porte. Isso…

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