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Vladimir Safatle, se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria um paraíso!


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O mesmo vale para o Português… Informe-se e compre um dicionário!

Essa semana, deparei com uma publicação no Facebook com o título “Vladimir Safatle: Governo Alckmin é autista”. Doeu na alma! O título do texto do douto em Filosofia, além de lamentável, é triste e revoltante porque retrata a ignorância e falta de empatia por pessoas que precisam brigar todos os dias por mais respeito, contra o preconceito e a discriminação!

Pra quem não sabe, sou militante da causa autista e tenho um filho autista. O uso da palavra autista no sentido pejorativo ou mesmo com a intenção de ofender vem se espalhando como erva daninha na mídia, na política e entre os ditos intelectuais.

Só para que o leitor tenha alguma noção, elenquei alguns dos tristes episódios e seus autores:

  • Em 2000, sob o título ‘Autismo’, um editorial destaca a fala do então advogado-geral da União, Gilmar Mendes: “Os juízes estão anestesiados; o autismo é um mal complicado do Poder Judiciário.”. (Jornal da Tarde, 12/7/2000).
  • Em 2005, o título “Governo e Congresso têm comportamento autista, afirma Lessa”, trouxe uma longa entrevista concedida por Renato Lessa, na época professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).(Rafael Cariello, Folha de S.Paulo, 15/5/2005).
  • Em 2011, “Para sociólogo, Ana de Hollanda é “meio autista“. O sociólogo é Emir Sader que estava prestes a presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa e Ana de Hollanda era a ministra. (manchete para Ilustríssima, Folha de S.Paulo, 27/2/2011, p.1)
  • Em 2011, o colunista Leonardo Attuch, criticando Emir Sader diz que o sociólogo “poderia ser enquadrado na categoria” de autista e mais adiante diz que Emir, por não perceber a nova realidade, dá sinal de ter autismo. (Leonardo Attuch, IstoÉ, ano 35, n. 2156, 9/3/2011, p.47).
  • Em 2013, o título do editorial do jornal O Globo era “O autismo da política de comércio exterior”. (Editorial O Globo, 26/02/2013)
  • Em 2014, o diplomata Paulo Roberto de Almeida publica em seu blog “Um governo autista, que acha que o mundo está errado, só ele está certo… – Mansueto Almeida” e em seguida “Existe alguma novidade econômica, ou de simples pensamento econômico, vindo do governo. O governo, ou a governanta, é autista, autossuficiente e satisfeito consigo mesmo. Tem o contentamento dos beatos, dos simples, dos ingênuos, dos ignorantes…” (Diplomatizzando – 07/07/2014)
  • Em 2014, o senador Roberto Requião, pmdbista candidato ao governo do Paraná, numa tentativa de desqualificar Beto Richa, afirmou que o psdbista era autista e conduzia um governo autista durante um debate na RPV TV (repetidora da Globo) (30/09/2014)
  • Em 2015, Clei Moraes, Analista, Articulista e Redator, Consultor em Comunicação e Relações Governamentais, Assessor Parlamentar como ele se apresenta, publica com o seguinte título “Cleptocracia autista: O governo Dilma acabou”. (OPublikador, 08/02/2015)
  • Em 2015, o senador (PSB-AP) João Capiberibe dá uma entrevista a Veja onde afirma “Se o povo bater às portas do Congresso, aí todo mundo atua. Se não bater, vai ficar no autismo de hoje.” (site Veja , O Brasil vive uma cleptocracia – 17/03/2015)
  • Em 2015, Vladimir Safatle, filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo, colunista da Folha de São Paulo e do site Carta Capital, publica um texto de crítica ao governador de São Paulo Geraldo Alckmin com o título “Governo autista”. (Folha de São Paulo – 28/04/2015)

Chamar alguém ou um governo de autista com a intenção de dizer que ele está alheio a realidade ou que só vê o que quer ou que está ensimesmado é de uma ignorância gritante, e só traz mais angústia e sofrimento pra quem vive as dificuldades da inclusão no país das injustiças sociais. Quando a intenção é o insulto ou o escárnio, a revolta é inevitável!

Para princípio de conversa, o ensimesmamento não é o único sintoma do autismo, há outros muito significativos que só, e somente só, em conjunto, caracterizam a necessidade de investigação para diagnóstico de autismo. Além disso, autismo é um transtorno de espectro muito amplo e que não determina a personalidade, ou seja, cada autista é único, como qualquer outro indivíduo, mesmo que tenham os mesmos sintomas ou reajam da mesma forma numa ou noutra situação. Autistas não são robôs ou robotizados, não são formatados, como muitos pensam!

Mas o que é o autismo?

É uma forma particular de se situar no mundo e, portanto, de se construir uma realidade para si mesmo.

A partir do último Manual de Saúde Mental – DSM-5, todos os distúrbios do autismo, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA.

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Uma das características do autismo bastante marcante é não conseguir mentir, ao contrário, o autista é muito sincero. A mentira depende do entendimento da subjetividade, e como autistas têm dificuldade em lidar com subjetividade, não mentem! Além disso, não entende duplos sentidos e entende as coisas ao “pé da letra”. Essa sinceridade, por vezes extremada, em geral, está relacionada ao fato dele não entender certas convenções sociais ditadas pela sociedade neurotípica. O fato de não entender duplos sentidos, por exemplo, faz com que frequentemente seja vítima de bullying e nem perceba, ao ponto de rir junto com quem está debochando dele mesmo.

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Pelos menos 3 mitos sobre o autismo corroboram para o uso pejorativo do termo autista.

  • Autistas não interagem e não se comunicam com outras pessoas.
  • Autistas vivem num mundo particular.
  • Autistas não são capazes de demonstrar emoções.

Isso não está nem perto da verdade! Autistas, mesmo os clássicos, quando amados, acompanhados e sob tratamento, conseguem interagir socialmente. São capazes de se comunicar, ainda que sejam autistas não-verbais. E são capazes de demonstrar emoções. A questão é que a forma como o fazem pode não ser a convencional.

É daí que vem o título! Se Safatle soubesse o que é autismo, saberia que se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria governado por alguém incapaz de mentir, incapaz de desonestidade, incapaz de jogar sujo e capaz de ser extremamente sincero! Seria o paraíso!

Assim como Safatle, Clei Moraes, no blog O Publikador, comete a infelicidade de dizer que o governo Dilma é uma cleptocracia autista! O sujeito qualifica o governo, que ele chama de cleptocracia (segundo ele, estado governado por ladrões), como autista! Ignorância! Vergonha Alheia! Duas coisas não poderiam ser mais antagônicas que um ladrão e um autista! Sr. Clei Moraes pediu desculpas nos comentários do seu texto com a justificativa de que o uso foi “licença retórica e gramatical”, ou seja, a liberdade de expressar criativamente sua ideia convicta! O que pra mim quer dizer que ele escreveu porque quis e que se danem os autistas! Safatle e Clei Moraes são capacitistas, assim como todos os outros citados nesse texto, ofenderam, de uma só vez, dois milhões de brasileiros autistas. Triste! Como eu gostaria que o Brasil fosse governado por alguém incapaz de mentir, de ludibriar…

O uso pejorativo do termo autista só reforça o capacitismo arraigado na nossa sociedade, ou seja, ela (a sociedade) se orienta pelo dominante, aquele que tem capacidade, relegando aos deficientes o plano da inferioridade. E essa orientação está nas teorias, nas práticas, nas ações do dia a dia, de forma preconceituosa e na contramão da inclusão social.

Para, além disso, tratar o autismo como uma deficiência e incapacidade é de um reducionismo absurdo! É ignorar que possa haver outra forma de ver o mundo! Para muitos, inclusive médicos, o autismo é exatamente isso, e o tratamento não só passa por ajudar o autista a se comunicar conosco, os neurotípicos, como também entender sua forma de ver as coisas, entender seu mundo particular. O tratamento ideal para um autista seria então a troca! Mas numa sociedade preconceituosa e injusta, um autista só encontra sofrimento, angústia e ansiedade, o que lhe faz cada vez menos aceitar o contato.

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O leitor um pouco mais situado sobre a causa autista deve estar se perguntando por que uso o termo autista e não pessoa com autismo, principalmente por estar criticando capacitistas. Tenho lido muitos textos sobre capacitismo e sobre defesa da reapropriação linguística de termos definidores de minorias. É o que estou fazendo nesse texto! Estou me reapropriando do termo para reforçá-lo como característica de um ser humano e não como sua deficiência. Enquanto nós, autistas e familiares, continuarmos a ver e sentir o termo autista como algo negativo, estaremos reforçando essa ideia na sociedade. Precisamos nos reapropriar da palavra para redefinir o que é ser autista, porque ninguém está autista. A reapropriação amplia, na sociedade, a discussão e corrobora para seu esclarecimento. E uma sociedade consciente da necessidade de inclusão, é uma sociedade preparada para lidar com nossos anjos azuis!

Dedico esse texto ao meu Anjo Azul, que nesses dias, ao conseguir entender o que era luto e o motivo pelo qual professores de sua escola estavam de preto, fez o seguinte comentário num tom de revolta, porém cheio de inocência:

– Tem que respeitar os professores! Educação é uma coisa boa. Vamos falar com o governador do Paraná. Temos que dizer pra ele não bater nos professores. Bater é errado.

Meu filho, tenho muito orgulho de você!

 

Para saber mais sobre autismo:

Os autismos

O autismo em tradução

Revista Autismo

Lagarta vira Pupa

Mundo Azul

Autismo e Realidade

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Inês Etienne Romeu, presente! (Mulher forte, viveu pra denunciar seus algozes da ditadura. E venceu!)


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Inês Etienne Romeu, presente!

Inês Etienne Romeu morreu ontem, 27 de abril de 2015. Morrer dormindo… Foi o que o destino lhe reservou, talvez para compensá-la da dor e do horror que sofreu em vida!

51 anos e 26 dias depois do Golpe militar de 64, e 7 dias antes de completar 44 anos de sua prisão que ocorreu em 5 de maio de 71, morre a única sobrevivente da Casa da Morte. Inês foi uma testemunha importantíssima não só para denunciar os crimes hediondos que aconteceram nesse aparelho de tortura e extermínio do governo militar, mas, principalmente, porque seu relato trazia nomes e apelidos de seus algozes com detalhes de suas aparências físicas que ajudou muito no reconhecimento, além de esclarecer o desaparecimento de 9 presos políticos e trazer a suas famílias ao menos o alento de poder chorar suas mortes.

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Casa da Morte em Petrópolis

Inês foi presa pelo delegado Fleury, em São Paulo, por uma suposta participação no sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, operação realizada pela VPR, meses antes, sob o comando de Lamarca. Espancada e torturada no pau de arara, inventou que tinha um encontro com um integrante da organização em Cascadura para escapar das torturas. Ao chegar ao “ponto”, Inês se joga a frente de um ônibus numa tentativa de suicídio por não suportar imaginar as torturas que ainda estariam por vir. Foi arrastada pelo ônibus, mas sobreviveu. Depois de passar por 3 hospitais, o Hospital da Vila Militar, o Carlos Chagas e o do Exército, foi levada para a Casa da Morte em Petrópolis, onde ficou até agosto de 71. Foi torturada psicologicamente com ameaças a sua família; obrigada a fazer serviços, nua, enquanto era humilhada e ouvia obscenidades; foi espancada; recebeu choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos e nos seios e foi estuprada. Durante esse período tentou suicídio mais 3 vezes. Não delatou nenhum companheiro. Sua morte chegou a ser anunciada, o que levou sua família a enviar uma carta ao comandante do I Exército, general Sylvio Frota, pedindo a entrega de seu corpo. Em julho, na tentativa de voltar a ter alguma comunicabilidade, aceitou ser infiltrada e fornecer informações ao Exército. Foi filmada contando dinheiro e assinando um documento onde se comprometia a passar informações sobre organizações de guerrilha e que dizia, para o caso de fuga ou de traição, que sua irmã participava de atividades políticas de guerrilha, o que era mentira, obviamente. Devolvida à família, em agosto, pesando 20 quilos a menos que seu peso normal, Inês passou a escrever tudo que conseguia lembrar sobre o tempo em que esteve presa e torturada. Sua família e advogados, para evitar seu assassinato, já que ela não pretendia se infiltrar de fato e delatar nenhum camarada e vivia ameaçada de morte por militares, optaram por entregá-la oficialmente a justiça, retirando-a das mãos do CIEx (Centro de Informação do Exército). Foi condenada à prisão perpétua e transferida para o presídio Talavera Bruce em novembro de 1971.

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Dr. Amílcar Lobo

Inês foi a última a ser libertada, entre todos os presos políticos, em 1979, após a Lei da Anistia. Daí em diante, passou a vida lutando para denunciar os crimes cometidos nos porões da ditadura militar. Graças a Inês, o monstruoso médico Amílcar Lobo (Dr. Carneiro), responsável por manter vivos os presos políticos torturados na Casa da Morte, com a exclusiva intenção de continuarem a serem torturados, foi denunciado e teve seu registro cassado no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Inês fez questão de ir pessoalmente ao consultório dele. Inês, ainda presa, conseguiu enviar uma mensagem aos militantes asilados no Chile, de que o cabo Anselmo era um infiltrado. Testemunhou sobre o assassinato, na Casa da Morte, de Carlos Alberto Soares de Freitas, Mariano Joaquim da Silva, Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, Heleny Ferreira Telles Guariba, Walter Ribeiro Novaes e Paulo de Tarso Celestino da Silva. Etienne também citou Ivan Mota Dias, José Raimundo da Costa e o deputado Rubens Paiva, mas esses 3 últimos a Comissão Nacional da Verdade não conseguiu mais provas de suas passagens pela Casa da Morte. Foi também Inês que identificou a casa em Petrópolis que servia de aparelho para tortura e extermínio.

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Inês x Paulo Malhães

Em 2012, em entrevista, o tenente-coronel Paulo Malhães, o Doutor Pablo, resolveu quebrar o silêncio e revelou o funcionamento do aparelho clandestino de Petrópolis, conhecido como Casa da Morte, em que podem ter sido executados pelo menos 22 presos políticos de acordo com as investigações da CNV. Ele afirmou que foi responsável por toda a organização do lugar que era chamado de casa de conveniência. Malhães não deu detalhes das torturas e nem das mortes, mas afirmou que Inês foi liberada por um erro dos agentes que acreditaram que ela havia mudado de lado ou como disse se tornado uma RX. Também revelou que esse não era o único aparelho com esse fim. Quando perguntado sobre se e como os presos políticos eram mortos, respondeu:

“Se ele deu depoimento, mas a estrutura não caiu, ele pode ter sofrido as consequências.”

Alegou que nem todos os desaparecidos morreram no período de em que estavam presos, porém sem oferecer provas disso:

“Na lista dos desaparecidos tem RX. E muita gente morreu em combate. Desaparecido é um termo forçado. Em combate, tudo pode acontecer. E você não vai achar desaparecido nunca.”

Essa alegação de Malhães vai de encontro do depoimento de Inês à OAB, que foi formalizado em 1981, quando ela afirma que algumas mortes eram armadas como se ocorressem em combate.

Mais tarde, Malhães, em relato feito à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, disse com uma frieza assustadora e sem aparente arrependimento:

“Jamais se enterra um cara que você matou. Se matar um cara, não enterro. Há outra solução para mandar ele embora. Se jogar no rio, por exemplo, corre. Como ali, saindo de Petrópolis, onde tem uma porção de pontes, perto de Itaipava. Não (jogar) com muita pedra. O peso (do saco) tem que ser proporcional ao peso do adversário, para que ele não afunde, nem suba. Por isso, não acredito que, em sã consciência, alguém ainda pense em achar um corpo.”

“É um estudo de anatomia. Todo mundo que mergulha na água, fica na água, quando morre tende a subir. Incha e enche de gás. Então, de qualquer maneira, você tem que abrir a barriga, quer queira, quer não. É o primeiro princípio. Depois, o resto, é mais fácil. Vai inteiro.”

Em 2003, Inês sofreu um misterioso “acidente” em sua casa que até hoje não foi esclarecido. Aguardava um marceneiro para reparo em sua casa, segundo disse o porteiro do prédio. O homem magro com uma maleta chegou e passou cerca de 45 minutos no apartamento. Inês foi encontrada, no dia seguinte, agonizando e ensanguentada. Segundo os médicos da Santa Casa da Misericórdia, sofreu traumatismo craniano por golpes múltiplos diversos. O marceneiro nunca foi encontrado. A polícia encerrou o caso como acidente doméstico (!!). E Inês ficou com graves sequelas na fala e nos movimentos. Nem esse episódio impediu Inês de continuar! Por conta dessas sequelas, não pode dar seu depoimento na CNV mas participou de reuniões onde ajudou a identificar 6 torturadores da Casa da Morte, em que 4 deles eram do gabinete do ministro da guerra, Orlando Geisel, irmão do presidente Ernesto Geisel, coincidentemente (será?).

Nenhum torturador foi preso ou condenado por seus crimes no Brasil. As Forças Armadas não colaboraram e não reconhecem, até hoje, as violações contra os direitos humanos que ocorreram em suas instalações, inclusive se negando a disponibilizar os arquivos do período do governo militar, alegando que foram destruídos.

Em 2009, Inês recebeu o Prêmio de Direitos Humanos, na categoria “Direito à Memória e à Verdade”, outorgado pelo governo brasileiro.

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Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte, em 2014, durante audiência da Comissão Nacional da Verdade sobre o centro clandestino de tortura. (Foto:Tânia Rêgo)

 

InêsEtienne Romeu, mulher de muita coragem e força, sofreu com as barbáries da ditadura militar e ainda assim não delatou seus companheiros e escapou de ser assassinada várias vezes. Ela venceu seus algozes! Resistiu!

Descanse em paz, camarada!

*Depoimento de Inês Etienne Romeu à OAB

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Van Gogh – da vida turbulenta à turbulência cósmica!


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Vincent Van Gogh

O texto de hoje me é muito caro e, de antemão, aviso ao leitor que não sou expert em artes, mas apenas uma grande admiradora do genial Van Gogh.

Conheci o Impressionismo ainda muito jovem. Era criança quando uma professora, a quem admirava muito, D. Jocimara, pediu-me uma pesquisa sobre a vida e a obra de Manet. Fiquei tão fascinada que comecei a ler tudo que falasse sobre Impressionismo. Foi assim que Vincent Van Gogh entrou na minha vida pra ficar! Nem vou falar aqui sobre Romantismo e Realismo tendo em vista que, além de não querer me estender demais e acabar por fugir do meu objetivo, estou ansiosa pra falar do grande gênio!

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Manet

Em meados do século XIX, Manet apresenta seu novo quadro “Almoço na relva”, e foi um verdadeiro escândalo. O quadro se tratava de um piquenique, um evento cotidiano, ao invés de um momento histórico, ou religioso, ou mitológico, que era o que a academia esperava. As pinceladas eram livres e esboçadas, e o pintor tinha uma preocupação muito maior com as luzes e as sombras do que com os detalhes. Manet ganhou a simpatia dos pintores mais jovens por romper com as regras rígidas de retratar com perfeição e detalhes realísticos. E esses jovens, entre eles Monet, Renoir e Degas, encantados com a ousadia de Manet, seguiram seus passos e começaram a pintar a vida cotidiana ou a natureza, e saíram dos estúdios para pintar ao ar livre. Alguns anos depois, fizeram sua primeira exposição e Monet (não confundir com Manet) apresentou seu quadro chamado “Impressão: Alvorecer”. Um crítico de arte, inconformado com a nova forma de pintar, apelidou o grupo, em tom pejorativo, de Os Impressionistas, em alusão ao quadro de Monet. Entre as críticas que receberam, eram chamados de preguiçosos que não queriam terminar seus quadros ou mesmo de incapazes. Mas os pintores, se utilizando da mesma ironia, mas também porque concluíram que era um bom nome, dois anos depois fizeram nova exposição e se autointitularam Impressionistas. É necessário que eu explique, ainda que de forma leiga, como se dava a pincelada dos artistas impressionistas. No desejo de reproduzir as cores como são reproduzidas na natureza, os impressionistas, se queriam representar o verde, por exemplo, não se utilizavam de uma pincelada de verde, mas davam duas pinceladas bem próximas, uma azul e outra amarela, a fim de que a mistura das duas cores se fizesse em nossos sentidos, em nossa mente. Importante dizer também que o Impressionismo não é um contraponto ao Realismo, e sim que nasceu, cresceu e se definiu dentro do Realismo.

Van Gogh

Autorretrato com chapéu de feltro – Van Gogh

Em 30 de março de 1853, nos Países Baixos, nasceu Vincent Van Gogh, filho do pastor calvinista Theodorus e de Anna Cornelia Carbentus. Vincent teve uma vida marcada por fracassos em todos os aspectos da vida que eram importantes na época. Não conseguia manter sua subsistência, se relacionou de forma turbulenta com sua família e tinha muitas dificuldades de sociabilidade. Vincent teve mais dois irmãos e três irmãs, mas só conseguiu estabelecer uma relação mais profunda com seu irmão mais novo, Theodorus Van Gogh. O jovem Vincent começou a trabalhar para um comerciante de arte indicado por um tio, mas, na época, só se interessava por estudos religiosos, foi demitido. O rapaz trabalhou ainda numa livraria, trabalho que durou pouquíssimo tempo, tentou entrar para a faculdade de Teologia, mas fracassou, depois tentou a Escola Missionária Protestante onde também fracassou e, em 1879, começou a trabalhar como missionário em uma comunidade pobre de mineiros, na Bélgica. Em 1880, Vincent que demonstrava muito gosto pelas artes, foi incentivado por seu irmão Theo, com quem trocava cartas com bastante regularidade, a seguir os estudos de pintura. É então quando o genial Van Gogh começa a surgir! Esse jovem pintor carrega consigo os momentos que passou entre os camponeses durante o trabalho de missionário nas minas de carvão. Graças a esses momentos, carrega consigo uma forte empatia e solidariedade pela vida humilde dos camponeses e o ápice do seu trabalho nesse período é o quadro “Os comedores de batata”.

Os comedores de batatas

Os comedores de batata

Sua vida foi de agruras, decepções e desgraças e, com certeza, isso influenciou na sua arte! Van Gogh foi influenciado também, e muito diretamente, pelo Impressionismo e pelo Japonismo. Esse último, ele conheceu na França através de gravuras de Hokusai e Hiroshigue. Aqui vale uma digressão para os nerds que amam cultura japonesa, Hokusai é o precursor dos mangás como nós os conhecemos. Na primeira metade do século XIX, Hokusai fez um conjunto de obras com 15 volumes chamados Hokusai Manga que representa os primeiros passos para as “histórias em quadrinhos” no Japão.

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A Grande Onda – Hokusai

Mas voltando a Van Gogh… Entre as  mais de 800 pinturas que Van Gogh nos deixou, uma é especialmente impressionante, “A Noite Estrelada”! Esse quadro foi pintado enquanto Vincent estava internado no asilo Saint-Rémy-de-Provence por problemas psicológicos sérios que o levavam a apatia e depressão. É também, durante essa internação que Van Gogh rompe com o Impressionismo e desenvolve um estilo próprio onde prevalecem as cores primárias, principalmente o amarelo, e a bidimensionalidade. Inicia-se a fase Pós-Impressionismo. Mas o que há de tão especial nesse quadro? Vários elementos do quadro nos remetem a própria história de vida do pintor. O campanário da igreja se sobressai em meio às casas da pequena aldeia de Saint-Rémy, possivelmente, uma marca de sua crença religiosa, sua espiritualidade exacerbada. Há quem chame atenção também para a coincidência de que há onze estrelas no céu e em Gênesis 37: 9 está escrito “Depois teve outro sonho e o contou aos seus irmãos: Tive outro sonho, e desta vez o sol, a lua e onze estrelas se curvavam diante de mim”. A sensação de isolamento também é uma característica marcante do quadro. Mas o que mais me chama a atenção, e também de alguns cientistas, são as nuvens espiraladas e a turbulência na luminosidade das estrelas. Presença, nesse quadro, que me faz pensar na própria vida turbulenta do pintor.

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A Noite Estrelada – Van Gogh

Nesse ponto, Van Gogh, Matemática e Física se encontram de forma surpreendente e como você nunca imaginou!

Turbulência, para um cientista físico ou matemático, é um fenômeno que ocorre na água quando um navio aciona a hélice ou no ar durante o voo de uma aeronave. (Essa turbulência, da qual estou falando, é autossemelhante, ou seja, um turbilhão maior transfere energia em cascata para turbilhões menores e assim sucessivamente em outras escalas menores, o que nos lembra dum texto recente meu sobre Fractais – parte 1 e parte 2). Durante a viagem do telescópio Hubble, cientistas observaram o fenômeno da turbulência em nuvens de poeira estelar e gás e lembraram-se do quadro “A Noite Estrelada” de Van Gogh. O quadro virou objeto de pesquisa, foi digitalizado e analisado pelo modelo matemático de Kolmogorov, cientista russo que estudou o fenômeno. Descrevendo o modelo de forma simplificada, o cálculo avalia a chance de cada ponto, ou pincelada, ter o mesmo brilho ou luz. Pois bem, é nesse ponto que nós nos impressionamos! Os efeitos de luminosidade que Van Gogh dava às suas obras continham cálculos exatos e uma precisão que só é encontrada na natureza! Analisando outras obras, os cientistas perceberam que Van Gogh só conseguiu atingir esse traço de genialidade sob o efeito da crise mental. E na minha mente sã passam as seguintes perguntas:

Existe loucura ou se trata de uma percepção maior da natureza e dos fenômenos naturais? Loucura ou genialidade?

Talvez sejamos detentos da nossa própria sanidade… Talvez a loucura seja o espaço para criar e ser livre…

 “O que sou eu aos olhos da maioria das pessoas? Uma não entidade, ou um homem excêntrico e desagradável – alguém que não tem e nunca terá posição na vida, em suma, o menor dos menores. Muito bem, mesmo que isso fosse verdade, devo querer que o meu trabalho mostre o que vai no coração de um homem excêntrico e desse joão-ninguém.” – Carta de Vincent ao irmão Theo (21 de julho de 1882).

Mas a humanidade ainda não estava pronta pra isso!

 

*Van Gogh se suicidou, tendo vendido apenas um quadro em toda sua vida. Após sua morte, seus quadros passaram a valer uma fortuna e estão, desde então, entre as obras mais caras já avaliadas.

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3,1415926… FELIZ DIA DO Pi!!

 

14 de março de 2015, nerds e geeks do mundo inteiro que se ligam em ciências naturais e tecnologia estão comemorando o Dia do Pi!

Mas porque esse número é tão fascinante, especialmente, para os matemáticos?

Pi é a constante mais antiga de que temos conhecimento, e até hoje é fonte de pesquisas em diversas áreas. A história do Pi remonta há aproximadamente 4000 anos atrás. Mesmo que você não seja muito fã da matemática, deve lembrar-se dele dos tempos de escola. Ele é obtido a partir do valor da razão entre a circunferência de qualquer círculo e seu diâmetro. Muitas pessoas acham que precisamos dele pra calcular a circunferência do círculo, mas isso não é verdade. Erathostenes c. 250 AC, calculou a circunferência da Terra sem precisar de Pi. No entanto, ainda que não precisemos dele, ele estará lá. Não é o círculo que define Pi! Talvez seja o contrário, Pi é que define o círculo!

Mas porque a data de 14 de março?

A data foi criada por Larry Shaw, responsável pelo museu Exploratorium. Nos Estados Unidos as datas são escritas com o mês antes do dia, ou seja, hoje é dia 3/14, que lembra 3,14, uma aproximação de Pi com duas casas decimais. Esse ano a data é ainda mais simbólica para os amantes desse número mágico pois 3/14/15 é uma aproximação de Pi com quatro casas decimais, e isso só voltará a acontecer daqui a cem anos.

E pra que serve o Pi?

Ele aparece no universo e na nossa vida muito mais do que pensamos. E não se trata só de círculos. Por exemplo, na rota de todos os rios curvos que deságuam no mar, a sinuosidade desses rios mede aproximadamente 3,14. Um objeto redondo, independente de seu tamanho, tem sempre a mesma proporção entre o comprimento de sua circunferência e seu diâmetro, o pi, que ajuda  a calcular desde a quantidade de leite em pó em uma lata circular à quantidade de ar em uma bola. Os geólogos usam para calcular a área de um terreno que está num relevo curvo. Um pneu de carro tem, aproximadamente, 60 cm de diâmetro, e se multiplicarmos esse valor por pi chegamos ao valor aproximado de 1,88 m, que é a distância média que o carro vai andar a cada volta completa da roda. A força que a Terra exerce sobre a Lua e o seu movimento de rotação também têm relação com o Pi. Também aparece em cálculos probabilísticos. Em tecnologia, o Pi pode ser usado no desenvolvimento de hardware, mais especificamente, testando a rapidez do processamento e a capacidade de executar várias atividades ao mesmo tempo.

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Olha o Pi!!

Nem todo mundo sabe, mas há muita matemática na música. O vídeo abaixo apresenta a canção do músico Michael Blake. Ele compôs usando a sequência dos algarismos do Pi.

É comum entre os apaixonados pelo Pi a disputa por quem consegue memorizar mais casas decimais dessa constante. Abaixo um vídeo, com uma canção composta pra piano. O compositor explica no vídeo que fez a música para ajuda-lo a memorizar a sequência que aparece na tela enquanto ele toca.

14 de março também é o dia que nasceu Albert Einstein, físico-teórico alemão de origem judaica, e que usou o pi em sua fórmula que diz respeito ao espaço curvo na Teoria da Relatividade. Teoria que é um dos pilares da Física Moderna!

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Albert Einstein

“Se a minha teoria da relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão, e a França, que sou cidadão do mundo. Mas se eu estiver errado, a França sustentará que sou alemão, e a Alemanha garantirá que sou judeu.”

Einstein era a favor do socialismo e escreveu suas ideias num ensaio intitulado “Por que o socialismo?”. Escrito para o lançamento da revista Monthly Review, foi publicado em maio de 1949.

“A anarquia econômica da sociedade capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira fonte dos males.” pensamento mais do que comprovado com o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki  pelos USA, maior potência capitalista no mundo. Na construção das bombas havia muito das teorias e estudos de Einstein, fato que ele lamentou ao longo de sua vida.

“A vida de um indivíduo só faz sentido se ajuda a tornar a vida das demais criaturas mais nobre e mais bela.”

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Karl Marx

E por falar em socialismo…  Karl Marx, também alemão e de origem judaica como Einstein, morreu em 14 de março de 1883, e foi idealizador de uma sociedade com uma distribuição de renda justa e equilibrada. Escreveu “O capital”, uma de suas obras mais importante, que analisa a sociedade capitalista desde a economia até cultura e filosofia passando por questões sobre a sociedade e a política.

“Na manufatura e no artesanato, o trabalhador utiliza a ferramenta; na fábrica, ele é um servo da máquina.”

Numa síntese do que é o comunismo, Marx disse “Reunião de homens livres trabalhando com meios de produção comuns e, dependendo, a partir de um plano combinado, suas numerosas forças individuais como uma única e mesma força de trabalho social.”.

Einstein e Marx colocam o homem diante de complexidades e infinitudes que podem ser comparadas a grandiosidade de Pi!

Feliz dia do Pi!!

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Hoje é dia de comer pizza ou torta (“pie” em inglês)! 🙂

*Este texto foi publicado às 9:26 em comemoração ao dia do Pi, já que a constante representada com 7 casas decimais é 3,1415926…

* No dia 14 de março, todos os apaixonados por Pi costumam comemorar com pizzas e tortas (“pie” em inglês). A escolha também tem a ver com o formato circular.

pi-pie

🙂

 

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Quando a poesia morre, a vida se esvai…


Solidão

Esvaída…

DIAS AMARGOS

Tem dias que o melhor seria

que não levantássemos da cama…

Nem tanto os dias de Neruda,

nem laranjas, nem a morte,

mas o amargo da falta de sorte.

 

Preferia uma laranja azeda

do que o gosto amargo do jiló,

ou até a morte sobre a mesa

no velório de um homem só.

 

Preferia o azedo do amor mal resolvido,

ao amargo da solidão.

Preferia a paz que vem com a morte

a viver nessa dor de imensidão…

 

ESVAÍDA

Não tenho rosto.

Sou todos

e não sou nenhum…

 

Palidez dá o tom da pele.

A morte me veste

a veste que cala a voz…

 

Músculos enrijecidos,

nem azul, nem rubra,

a cor do meu vestido

é a cor da culpa.

 

Olhos arregalados

olham para o vazio.

Enfim tudo acabado!

Meu corpo é frio…

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Dia Nacional do Samba!


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Samba nos Arcos da Lapa – Heitor dos Prazeres

COMO TUDO COMEÇOU…

2 de dezembro é o Dia Nacional do Samba!

E como não sou ruim da cabeça ou doente do pé, vim fazer minha homenagem…

Ao contrário do que grandes poetas desse gênero musical disseram, o samba não nasceu, exclusivamente, na Bahia… Eu sei, eu sei… Já tem gente quicando e aos berros! Muita hora nessa calma! Eu explico…

Em termos de registro histórico escrito, uma das primeiras referências encontradas por pesquisadores e folcloristas da palavra samba, foi na edição de fevereiro de 1838 da revista pernambucana O Carapuceiro. Um texto do Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama falando contra o que ele chamava de “samba d’almocreve”. Mas daí pensar que o samba nasceu a partir de um registro escrito… Não, certamente que não!

Rugendas-Lundu-Umbigada

Umbigada – Pintura de Rugendas

O fato é que no século XIX, samba definia vários tipos de músicas e danças ensinadas e praticadas pelos escravos, desde o Maranhão até São Paulo. Para entender melhor, basta que você imagine que o samba era o sobrenome de uma família de manifestações culturais, entre elas: o tambor de mina e o tambor de crioula do Maranhão; o milidô do Piauí; o bambelô do Rio Grande do Norte; o samba de roda e o bate-baú da Bahia; o jongo do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro; o samba rural e o samba de lenço de São Paulo; o partido alto e o lundu do Rio de Janeiro. Conclusão? Nesse período não há uma definição clara, como gênero musical, do que era samba propriamente dito. Mas havia entre essas manifestações muitas coisas em comum como, por exemplo, o uso da palavra semba que é a umbigada  que se dá naquele que vai lhe substituir no centro da roda e apresentar sua dança. A tal umbigada veio das rodas de batuque de Luanda e outros distritos de Angola. Para os estudiosos está claro que a palavra samba é uma corruptela do termo semba, e se definiu como gênero musical urbano, herdeiro do lundu e da modinha e imbuído dos ritmos africanos, no início do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente na Cidade Nova e no Estácio (cariocas podem festejar! Rsrs).

Mas o que é da Bahia está guardado e, até o fim desse texto, dar-lhe-ei tal reconhecimento.

Mas antes de falar do Rio de Janeiro, vale uma observação… A palavra samba tem origem em Angola, mas para muitos estudiosos do tema é difícil estabelecer um consenso quando se trata de seu significado. No idioma umbundo, língua banta falada pelos ovibundos, semba é uma dança onde os bailarinos se aproximam e se afastam; em quimbundo, língua banta falada pelos ambundos, é a umbigada da qual já tratamos.

Voltando ao anos de 1900 e pouquinho…

Em 1913, Alfredo Carlos Brício gravou o samba, “Em casa de baiana” e em 1914, Baiano gravou “A viola está magoada”, este último, tornou-se versador da Deixa Falar alguns anos mais tarde. Porém ambas as gravações não fizeram sucesso. Então, em 1917, nos pagodes da casa da Tia Ciata, antiga rua Visconde de Itaúna nº 117, na Praça Onze , surgiu o samba “Pelo Telefone”, reconhecido como o primeiro samba gravado em disco. Você deve estar se perguntando: mas se não foi o primeiro, como pode ter tal reconhecimento? Acontece que “Pelo Telefone” foi justamente o marco que definiu samba como gênero musical urbano. Daí vem a tamanha importância dessa composição!

Além disso, a composição tem em suas raízes uma polêmica quanto a sua autoria…

O tema de “Pelo Telefone” foi baseado numa campanha criada pelo jornalista Irineu Marinho em 1913, através do jornal A Noite, contra o chefe de polícia do Distrito Federal, que na época era o Rio de Janeiro. A campanha acusava a polícia de ser conivente com os jogos ilegais que eram praticados em cassinos e nas esquinas de um certo subúrbio. As confusões e discussões por conta da campanha ganharam as ruas e terminaram se tornando tema de partido-alto na casa de Tia Ciata. A nata do samba frequentava os pagodes da Tia Ciata: João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino, Sinhô e outros. Em 1916, Donga mudou a letra com a ajuda de Mauro de Almeida, o Peru dos pés frios, e registrou a propriedade intelectual do samba, através de sua partitura para piano, na Biblioteca Nacional. E então se deu a barafunda, e uma cisão entre os bambas foi inevitável! Entre um acusa daqui e outro reclama de lá, o samba chegou a ter várias paródias…

A confusão entre eles tomou várias proporções…

Sinhô em 1918 compôs o samba “Quem são eles”, numa provocação aos baianos que frequentavam a casa da Tia Ciata…

Mas recebeu o troco… Donga compôs “Fica calmo que aparece” como resposta. Hilário Jovino compôs “Não és tão falado assim”, mas a resposta mais famosa foi a de Pixinguinha com “Já te digo”.

Apesar de ser reconhecido como primeiro samba, “Pelo Telefone” era ainda um samba amaxixado, muito adequado para salões, mas essa qualidade de samba não atendia bem a necessidade processional dos blocos e cordões que desfilavam nos carnavais. Ismael Silva, muitos anos mais tarde, definiu muito bem esse contexto:

O samba da época não permitia aos grupos populares caminhar pela rua, de acordo com o que se vê hoje em dia. O estilo não dava para caminhar e dançar o samba. Eu comecei a notar que havia essa coisa. O samba era assim: “tan tan tantan tan tan tantan”. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Então nós começamos a fazer um samba assim: “bum bumpaticubumprogurundum”

Mas Sinhô, o Rei do Samba, não gostou nadinha dessa história de modernidade e deu um depoimento em 1930 sobre a evolução do samba com muita indignação:

A evolução do samba? Com franqueza, não sei se o que ora se observa devemos chamar de evolução. Reparem bem nas músicas deste ano. Os seus autores, querendo introduzir lhes novidades, ou embelezá-las, fogem por completo do ritmo do samba. O samba, meu caro amigo, tem sua toada e não se pode fugir dela. Os modernistas, porém, escrevem umas coisas muito parecidas com a marcha e dizem que é samba. E lá vem sempre a mesma coisa: “Mulher, Mulher, Nossa Senhora da Penha, Nosso Senhor do Bonfim, Vou deixar, A malandragem eu deixei.” Enfim não fogem disso.

DEIXA FALAR

Nos anos 20, o cenário do carnaval carioca era composto pelo desfile das Grandes Sociedades Carnavalescas compostas pela elite carioca com desfiles na Av. Rio Branco; pelos Ranchos, que eram compostos por membros das camadas populares e desfilavam, ao som da marcha-rancho, como “Abre-alas” e “Bandeira Branca”; e pelos Cordões. Os dois últimos desfilavam pelas ruas dos bairros cariocas e na Praça Onze.

bide deixa falar 2 - Cópia

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Armando Marçal

Em 1928, surgiu a Deixa Falar, primeira escola de samba do Rio de Janeiro, apesar de nunca ter chegado a ser uma escola de samba como concebemos hoje. Ela se autointitulava escola porque ficava perto de uma escola pública do bairro e também porque Ismael Silva achava que seu grupo formaria professores do samba. O nome “Deixa falar” vinha de uma frase que ele gostava e repetia: “Deixa falar, nós também somos mestres. Somos uma escola de samba!”. Deixa falar foi primeiramente um bloco e depois passou a rancho, mas, quatro carnavais depois de seu surgimento, foi extinto. Em 1931, se fundiu a outro bloco, também extinto, o União da Cores, formando a União do Estácio de Sá.

Apesar de um fim triste, de ter participado apenas de quatro carnavais e de nunca ter sido uma escola de samba de fato, o Deixa Falar é reconhecido, tanto por sambistas quanto por pesquisadores do tema, como a primeira escola de samba. E é muito justo que seja assim, já que foram seus membros que inventaram essa designação, como eu já disse, que criaram o surdo (quem inventou o instrumento foi Bide, um dos fundadores do Deixa Falar, com latas de manteiga encouradas), que servia como marcação para o fim da apresentação do versador (um solista que improvisava numa segunda parte do samba) e a volta do coro durante o desfile, além de introduzirem a cuíca no samba.

Bom, mas e a Bahia?

Você se lembra do pagode na casa da Tia Ciata? Pois bem, um dos frequentadores era Hilário Jovino que esteve envolvido no entrevero sobre a autoria da composição de “Pelo Telefone”. Além disso, Hilário, que uns dizem ser pernambucano mas passou a vida na Bahia, e outros dizem que era baiano mesmo, quando chegou ao Rio foi participar de um rancho que saía no Dia de Reis no Morro da Conceição, mas logo se desentendeu com a turma que organizava. Resolveu fundar seu próprio rancho, mas optou por fazer algo diferente… Seu rancho foi o primeiro a sair no carnaval! O Rei de Ouros! Essa história mudou o cenário do carnaval carioca e é precursora da história das escolas de samba. Acho que podemos dizer que cariocas e baianos estiveram presente no nascimento do samba como gênero musical urbano, não é mesmo?

Outro dado importante: o Dia Nacional do Samba foi criado por iniciativa de um vereador baiano, Luis Monteiro da Costa, para homenagear Ary Barroso, que já havia composto “Na Baixa do Sapateiro”, mas nunca havia visitado o estado. Dia 2 de dezembro de 1940, foi a primeira vez que o compositor visitou Salvador.

Graças a Bahia, a comemoração e homenagem ao Samba se espalhou pelo país!

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Do Infinito aos Fractais! (Ou Matematicalizando a vida! Parte II)


O senhor vá ver… como no mundo cabe mundo.

(“Grande Sertão: Veredas” João Guimarães Rosa)

infinito e fractal

O infinito…

O infinito… Lembremo-nos do início dessa história pra que possamos prosseguir… O homem, quando se depara com o que há de mais certo na vida, a morte, se sente atordoado e angustiado pela pergunta que lhe toma os pensamentos “Quanto tempo ainda tenho?”. E inicia sua busca pela imortalidade… A Epopeia de Gilgamesh!!

A imortalidade se tornou algo tão precioso e perseguido que chegou a ser vista como uma maldição. Uma tentativa do homem de fé de seguir adiante sem se preocupar com a tal pergunta que o atormentava.

Mas em seu âmago, o que o homem queria era que sua vida não tivesse fim, uma vida sem limites que a definissem, que seu tempo de existência fosse infinito! Infinitus! É aqui que imortalidade e infinito se encontram…

O conceito de infinito foi alvo de discussão intensa dentro da matemática. Demócrito, Zenão, Aristóteles, Arquimedes, Galileu, Bolzano, Dedekind, Cantor, Weierstrass, Poincaré, Hilbert, Borel, Russel, Robinson, etc, são alguns dos matemáticos que se dedicaram a este assunto. Para nós, meros mortais (não resisti) interessados nos fractais, só nos interessa entender o que é o infinito potencial e o infinito atual. O infinito potencial, conhecemos desde crianças e nem nos damos conta de sua infinidade no dia a dia. Observando o conjunto dos números naturais, por exemplo: se escolhermos um número natural é sempre possível fixar outro número natural maior que esse, e assim sucessivamente. É o que chamamos infinito potencial. E podemos ir além… Se observarmos o conjunto dos números naturais pares, que também é um conjunto infinito, teremos a impressão de que esse conjunto é menor que o primeiro, no entanto é possível estabelecer uma relação biunívoca entre os dois, ou seja, o conjunto dos números naturais pares é contável, enumerável, e, portanto, pasmem, tem o mesmo “tamanho” do conjunto dos naturais, que inclui os pares e os ímpares! Mas isso ainda fica mais interessante…

Pela geometria euclidiana, sabemos que uma reta possui infinitos pontos. Mas, diferentemente do conjunto dos números naturais que é infinito, porém discreto, a reta é infinita e contínua. Ora, se é contínua, entre um ponto e o seguinte há uma infinidade de pontos que formam também um segmento contínuo, infinitamente divisível em outros segmentos contínuos que, por sua vez, também são infinitamente divisíveis e assim sucessivamente num processo que é infinito. Como não conseguimos seguir adiante até o infinito, temos então o infinito atual. O infinito em si! Para muitos o próprio Deus!

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Conjunto de Cantor

Euclides, citado muitas vezes como o pai da geometria, acreditava que todas as formas da natureza podiam ser representadas por formas geométricas simples. A geometria euclidiana tem como característica um espaço imutável e simétrico. As construções humanas se servem, na maioria das vezes, dessa geometria, como a construção de prédios, objetos industriais e outros do dia a dia. Na natureza, ainda é possível usarmos a geometria euclidiana como no caso da esfera representando a forma aproximada dos planetas, a elipse representando as órbitas e a parábola representando a trajetória de um projétil, mas quando observamos o mundo a nossa volta percebemos formas bem mais complexas.

Mandelbrot, matemático mundialmente famoso por sua genialidade e seu estudo em fractais, aliás, grande responsável pela divulgação dos fractais, disse:

“Nuvens não são esferas, montanhas não são cones, continentes não são círculos, troncos de árvores não são suaves e nem o relâmpago viaja em linha reta”

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O pai da geometria fractal

Mandelbrot iniciou uma de suas pesquisas pela seguinte pergunta: Quanto mede o litoral da Grã-Bretanha? E a resposta que encontrou foi: depende da escala utilizada para fazer a medição. Não é difícil entender que quanto menor a escala mais próxima estará da exatidão. Porém, pra que se tenha o valor exato, a escala tenderia a zero o que seria inviável, pois a extensão tenderia ao infinito… O infinito…

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Detalhe da Curva de Von Koch

 

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Curva de Von Koch

Na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, alguns matemáticos criaram objetos que ficaram conhecidos como monstros matemáticos: Curva de Peano, Triângulo de Sierpinski, a Curva de Von Kock, Conjunto de Cantor, Curva de Hilbert.

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Triângulo de Sierpinski

Em 1978, Mandelbrot, preparando uma obra sobre os monstros matemáticos, que eram chamados assim por estarem além do nosso domínio, lhes deu o nome de FRACTAIS, e passou a ser chamado de Pai dos Fractais.

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Sequencia do Conjunto de Mandelbrot

Mas o que são fractais?

Deriva da palavra latina fractus  que significa quebrado. A ideia do nome é justamente para ressaltar a natureza fragmentada e irregular dessas formas.

Na definição de Mandelbrot:

“Um fractal é um conjunto matemático ou objeto concreto que é irregular ou fragmentado em todas as escalas …

Uma definição simples e de fácil entendimento é que os fractais são formas geométricas que repetem sua estrutura em escalas cada vez menores, apresentando autossimilaridade, dimensão fractal e complexidade infinita, ou seja, ele mantém sua forma estrutural mesmo que ampliado inúmeras vezes.

Esponja de Menger

Esponja de Menger

A geometria fractal está ao nosso redor, no nosso dia a dia e não nos damos conta disso! Basta observar a estrutura de árvores e flores, dos micro-organismos, das montanhas, de vários cristais e a descontinuidade das rochas. Ela está nas nuvens, nos movimentos dos rios, nas galáxias e sistemas climáticos. Está em nossos pulmões, vasos sanguíneos e até no ritmo do coração. Existem estudos, na física, na biologia e outras áreas das ciências naturais, sobre a estrutura fractal estar intimamente ligada a dissipação de energia. Vale lembrar que ter uma natureza fractal não significa ser um fractal. As coisas naturais que exibem estrutura semelhante a um fractal, possuem dimensões limitadas!

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Essa geometria permite a representação de elementos naturais e irregulares, mas também tem aplicação em tecnologias como nas antenas fractais que são utilizadas em telefonia celular e transmissão wireless. É utilizada na computação gráfica para criação de cenários naturais, geração de efeitos especiais como explosões e lavas de vulcões. E é aplicada na economia no estudo da variação dos preços nas bolsas de valores.

antena de celular fractal

Antena de celular

Uma pequena curiosidade nerd! Falando de computação gráfica… Loren Carpenter (um dos co-fundadores da Pixar, e que se aposentou no início de 2014), trabalhava na Computer Services da Boeing, em Seattle, e estudava matemática e ciência da Computação na Universidade de Washington, no início da década de 70. Durante um projeto de computação gráfica, na elaboração de paisagens 3D, para ajudar a visualizar como aviões ficam durante o voo, Carpenter e outros engenheiros estavam frustrados com as técnicas de animação existente que não lhes dava a possibilidade de fazer um cenário montanhoso de forma que parecesse real.Mas, Loren Carpenter, encontrou, em 1978, um livro que mudaria sua vida, o trabalho publicado de Benoit Mandelbrot: “ Objetos Fractais, Formas, Acaso e Dimensão” . No livro, Mandelbrot dizia que se pode criar um fractal pegando uma figura e partindo-a em pedaços, repetidas vezes. Em 3 dias, Carpenter estava usando o que aprendeu para construir cenários gráficos para a publicidade da Boeing. Mais tarde foi convidado a trabalhar na divisão de computação gráfica da Lucasfilm onde criou a paisagem do planeta Genesis para o filme “Jornada nas estrelas II, A Ira de Khan”. Foi a primeira sequência criada por computador em um filme futurista.

A matemática está na economia do seu país, nas relações de trabalho, no comércio, nas construções e na arte. Mas principalmente, e o mais fantástico, é que a matemática está na natureza de cada ser, nos fenômenos físicos e químicos de cada célula do seu corpo. A matemática está em cada batida do seu coração, em cada contração muscular de cada movimento que você faz. A matemática está em tudo, em cada segundo da vida e da morte de todas as coisas! Onipresente, onisciente e onipotente!

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Ilha de Julia

“A geometria fractal não é apenas um capítulo da matemática, mas que ajuda qualquer pessoa a ver o mesmo mundo de forma diferente.” (Mandelbrot – The Fractal Geometry of Nature)

PS: Esse texto é dedicado a Anderson Ulisses, o Poeta, meu companheiro, incentivador, exemplo de obstinação e, acima de tudo, minha grande inspiração!

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Da Imortalidade ao Infinito! E além… (ou Matematicalizando a vida! Parte I)


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Houve um tempo em que não existia o tempo. O tempo sabido, conhecido! Mas ele estava intrínseco no dia a dia de cada ser… A vida seguia um ciclo: todos os seres nasciam, cresciam, reproduziam-se e morriam; mas nenhum ser se importava com o início ou o fim das coisas. Nem mesmo havia percepção disso! A vida era só viver, e ponto! Um dia o homem contemplando a natureza ao seu redor, se distanciando da posição de existente e passando a um observador da existência, percebe que a morte, apesar de inerente à vida, é o ponto final, é a interrupção do processo. E que coisa alguma escapa desse fim… O medo invade seus pensamentos, pois nesse momento, quando deixa de ignorar a questão do tempo como vivente, ele sai da posição de observador e volta à condição de existente. E uma pergunta lhe atordoa, lhe angustia “Quanto tempo ainda tenho?”.

O homem, certo do limite de seu tempo, começa uma busca incessante por dar sentido a sua vida! Assim, encarando-a como concessão de uma divindade, surgem as crenças e mitos. O homem de fé! Mas também é daí que surge o pensamento científico. O homem cria, formula, reformula, e um pensamento, uma teorização vai completando, ou se sobrepondo, a outra, dando uma ideia de infinitude ao entendimento dos processos de transformação da natureza. E quanto mais o homem desperta para o conhecimento, mais há coisas inexplicáveis, que nesse, ou naquele tempo, não se aplicam à razão e suas teorias. Os milagres! É nesse ponto que o pensamento científico se reencontra com a fé! Inicia-se uma busca pelo eterno, pela imortalidade! Ainda que, essa imortalidade, esteja em suas descobertas, em suas aventuras, em suas conquistas, em seu legado e não na extensão do seu tempo de vida! A linguagem e a matemática, as questões filosóficas, as teorias físicas, tudo era o pensamento do homem se transformando e reescrevendo a vida conforme seu tempo. O pensamento é a única coisa, dentre todas as coisas no universo, que não tem fim, que vence a morte, que é infinito!

infinito

Infinito… Em que pensa o homem quando ouve esta palavra? Como concretizar o infinito? São números enormes, incalculáveis? Uma criança vai responder que é a quantidade de grãos de areia da praia. Um homem pode comparar o infinito a um céu imenso, que nunca termina… Cada um de nós pensará em algo diferente, pois não é possível conceituar o infinito com base em nenhuma experiência sensível. A matemática é a ciência que melhor consegue se aprofundar na conceituação do infinito. Não se sabe exatamente quando o homem iniciou sua tentativa de conceitua-lo, mas foram as especulações de pensadores gregos sobre a infinidade do espaço, sobre a multiplicidade dos mundos, que sustentaram o interesse por ele e colaboraram na história da evolução deste conceito. Zenão de Eleia, sec. V a.c., mostrou que se o conceito de contínuo e de infinita divisão for aplicado ao movimento de qualquer corpo, então o movimento não existe. Zenão expôs a sua argumentação com base em quatro situações hipotéticas, que foram chamadas de paradoxos de Zenão. Os paradoxos de Zenão foram tão desnorteantes para os gregos que a matemática na Grécia foi tomada pelo horror ao movimento e pelo horror ao infinito e, ambos, deveriam ser evitados sempre que possível. Os paradoxos de Zenão (O paradoxo do estádio, Aquiles e a tartaruga, A seta voadora e As fileiras em movimento) estavam intimamente relacionados com as teorias sobre a natureza do espaço e do tempo daquela época! Óbvio que Zenão sabia que Aquiles podia alcançar a tartaruga, que um corredor pode percorrer o estádio e que uma seta em voo se move, mas ele queria demonstrar as consequências paradoxais de encarar o tempo e o espaço como constituídos por uma sucessão infinita de pontos e instantes individuais consecutivos como as contas de um colar. Segundo Bertrand Russel (1872-1970), foi Georg Cantor (1845-1918) quem trouxe luz aos paradoxos de Zenão com a Teoria dos Conjuntos Infinitos, pois ele trata os conjuntos infinitos de pontos no espaço, assim como acontecimentos no tempo, como todos completos, e não simplesmente como coleções de pontos ou sucessões de instantes individuais.

A percepção do infinito é algo considerado extremamente difícil, justamente pela falta de experiência sensível, como já disse. A Matemática e as Artes se relacionam desde a Antiguidade, mas, sobre o infinito, um artista se sobressai: M.C. Escher (1898-1972). O trabalho desse artista pode ser dividido em três partes: ciclos sem fim, preenchimento de superfícies e limites. Por um ciclo entende-se que podemos sempre voltar ao início e fica implícita a noção de infinito.

Quadro - Queda de agua

Queda de agua (1961)

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Subindo e descendo (1960)

Por preenchimento de superfície entende-se que ocorreu um conflito entre duas e três dimensões, sugerindo um processo ilimitado.

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Mãos desenhando-se (1948)

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Répteis (1943)

Na fase que chamamos limites, Escher passa a considerar não apenas as translações isométricas, mas também as semelhanças, sucessivamente cada vez menores, para preencher o plano até o limite permitido pela sua visão.

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Cada vez mais pequeno (1956)

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Limite circular III (1959)

Nessas duas últimas gravuras, Escher tenta alcançar o limite do infinitamente pequeno e do infinitamente grande. Na prática, Escher chega ao fim das suas possibilidades, pois alguns fatores o limitam como: a fronteira física do papel, a agudeza do instrumento que usa, a segurança da sua mão e a capacidade visual.

Mas o que vemos pela geometria das gravuras de Escher é que a percepção de infinito está implícita no estudo dos objetos fractais, pois estes são obtidos no limite de um processo de construção que se repete sucessivamente e nos levam a intuir o infinito.

Ahh, o infinito e os fractais… Qual a relação entre eles? O que são fractais? Pra que servem?

Bom, você terá que ler meu texto da semana que vem pra saber… Até!

Esse texto é dedicado a minha amiga-irmã, Roberta Greco Rodrigues, com quem tantas vezes viajei pelo mundo do infinito, e com quem compartilho o amor à matemática!

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A história de uma Maria.


Maria que é Maria não sente dor. Quer dizer, sentir ela sente, mas a dor não se cria! Ela nasceu mulher, mas a bichinha é mais macha que 10 cabras.

Maria não chora. Chorar atrasa o serviço, atrasa a vida, e Maria não tem tempo. Quer dizer, ter tempo ela tem, pros filhos dos outros, pra família dos outros…

Seus filhos quem cuida é outra Maria, a vizinha, e marido ela não tem, mandou embora à vassourada na primeira bordoada que ele lhe deu.

Maria sacoleja em trem lotado. Pega três conduções pra chegar no trabalho. Maria é retirante, é suburbana, é favelada. Maria é da periferia…

Ela tem três filhos, uma menina e dois meninos. A filha também é Maria. ”É que na famia é assim, nasceu muié, tem que chamá Maria, só Maria! I num tem revorta não! Nascê Maria é sina de quem vai vivê na faxina, de quem vai vivê na capina!”

Maria diz que não tem sonhos. “Sonhá faz os pé perdê o chão!”. É que Maria, que nunca estudou, é escolada em mundo-cão!

Mas o que Maria queria mesmo é que os filhos estudassem, fizessem faculdade. “Já pensou, seu moço, meus fio tudo virando Dotô?”

Maria foi criança triste. Criança escrava, criança explorada, criança violentada, criança de vida amarga… Mas Maria não se amargou! Meteu o pé na estrada! Não aceitou o que o destino lhe reservou!

Maria que é Maria não vive só de tristeza embora sejam poucas suas certezas. Suas pequenas alegrias se passam no dia a dia, aquelas que ninguém vê, só Maria.

Teto pra morar, água na torneira, arroz com feijão na mesa, mas feliz mesmo ela fica quando lhe sobra um pouco pra comprar a sobremesa. “É qui doci na boca di criança vira farra, vira festa! I num tem coisa mió nesse mundo, que vê meus fio sorrino!”

Mas “alegria de pobre dura pouco”, diz a boca do povo!

É que a casa de Maria ficava num terreno ocupado desde que veio pra cidade. “Agora o sinhô vê bem, num tinha ninguém aqui quando chegamo. Tava que era só mato e abandono. E agora vem uns home aí, e diz que tudo isso aqui tem dono? Mas então dondi qui ele tava qui nóis num vimo?”

Maria que não sente dor, que não tem tempo, que não chora, que saculeja, que não tem sonho, agora é também Maria esquecida, Maria perdida, sem ter pra onde ir.

Mas Maria que não sente dor, Maria das pequenas alegrias, Maria que não estudou, que  é mais macha que 10 cabras, sempre teve a vida amarga mas nunca se amargou! E lá foi Maria de novo… Meteu o pé na estrada e não aceitou o que o destino novamente lhe reservou!

Com muito custo, que pra pobre tudo é difícil, encontrou de novo um canto. Outro canto pra ocupar… “Fazê o quê, seu moço? Alugué é muito caro, e meus fio tem que comê! Saco vazio num para di pé! Como é qui vamo trabaiá?”

Maria que é Maria não espera deitada. Não espera deitada a sorte. Não espera deitada o trabalho. Não espera deitada nem a morte! Quando a dita cuja veio, ela estava de pé e a maldita fulana teve que esperar acabar o serviço, porque Maria não deixa o serviço pela metade nem no dia de morrer.

No dia que a danada veio lhe ceifar a vida, Maria disse à filha “Não precisa de caxão, me enterra na terra mermo, pelo menos dispois de morta vou tê meu pedaço de chão”.

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Futebol também é coisa de mulher! (ou Ave Puma!)


drogba Costa do Marfin

Drogba Costa do Marfin

Hoje o texto é pra mulherada!

Futebol, apesar do machismo que ainda acompanha o esporte, também é coisa de mulher! Verdade que ainda estamos tímidas no quesito discussão, mas isso também tem a ver com o machismo, afinal se um homem “erra” um palpite gera apenas um debate, um desacordo, uma divergência, mas quando a mulher erra aí o “buraco é mais embaixo”. Ser chamada de burra é o mais bonitinho que se pode esperar dos machos de plantão!

A nossa aparência, na hora da torcida, também gera reações absurdamente machistas. Se a torcedora usar camisa de time, shorts, chinelos e mostrar pouca vaidade por muitos será chamada de sapata, numa atitude totalmente sexista, lesbofóbica, preconceituosa. Mas se a moça, em questão, subir no salto, se maquiar, mostrar toda sua vaidade e preocupação com a aparência, então é de Maria Chuteira pra baixo. O que se pode esperar de uma sociedade patriarcal, num esporte dito masculino? É assim: o campo é dos machos, mas a mulherada está no melhor estilo “uh uh, vamos invadir!”.

Eu não acompanho futebol só na Copa. Sou torcedora ferrenha e desde os meus tenros cinco ou seis anos de idade, talvez antes, vai saber… Mas há quem o faça, e não condeno ou julgo por isso. Copa do Mundo, realmente, tem seus encantos, e que são incomparáveis aos torneios nacionais e estaduais.

Xabi Alonso Espanha

Xabi Alonso Espanha

E de encanto a mulherada entende, os homens gostando ou não! Nas redes sociais já virou mania a torcida feminina escolhendo os “melhores” em campo que, nesse caso, pode significar qualidade técnica ou não. Entre reclamações de um passe  mal feito, de uma marcação ruim, de uma defesa vazada, de um jogo na retranca e de um juiz ladrão, estão as reclamações de que os shorts dos jogadores aumentaram de tamanho. Mas há ainda aquelas que andam reverenciando a famosa marca alemã de material esportivo, Puma. Nem sempre os homens entendem o alvoroço. Então vai aqui uma explicação próxima do universo masculino (e machista)!. Machada, vocês manjam garota camiseta molhada? Então é isso! A mulherada vai à loucura!

Lugano Uruguai

Lugano Uruguai

Mas voltando ao futebol… Entre uma conversa e outra, me dei conta de que algumas amigas, apesar de adorarem futebol – e não só pelos encantos do qual falei acima – ficam muitas vezes perdidas com todo o futebolês das narrações e comentários. O machismo ainda intensifica essa dificuldade, porque perguntar pro namorado, irmão ou amigo, o que significa isso ou aquilo, pode gerar uma série de piadas intermináveis e que, provavelmente, durará gerações. História pra ser contada em várias festas e reuniões familiares! História pra servir de deboche em vários churrascos e encontros com amigos! Assim não dá! Tudo tem limite!

US Citta di Palermo Unveils New Players Mauricio Pinilla and Kamil Glik

Pinilla Chile

Mediante essa constatação, reuni algumas palavras ou expressões do jargão futebolístico, numa atitude solidária com minhas companheiras e afins à paixão nacional!

EXPRESSÕES:

Acréscimo – tempo de jogo após os 45 ou 90 minutos.

Alambrado – tela de arame (aramado) que separa a torcida do campo.

Arrumar a casa – recompor a equipe após uma forte investida do adversário.

Artilheiro – jogador que tem o maior número de gols marcados.

Banheira – pode ser impedimento, mas também pode ser o jogador que está adiantado, podendo estar impedido ou não.

Boca do gol- a frente da meta ou gol.

Bola na rede – gol marcado

Bola quadrada – passe mal feito ou ruim.

Cá e lá, lá e cá – jogo dinâmico, bem movimentado, disputado.

Carrinho – tentativa de desarme, quando o jogador se atira com ambos os pés na frente, de lado ou por trás no adversário.

Catimba – sistema antidesportivo que tenta levar vantagem e irritar os oponentes por meio de simulações de contusão, reclamações e demora na reposição da bola em jogo, com o objetivo de tumultuar a partida ou ganhar tempo.

Cavar um pênalti ou uma falta – simular falta ou pênalti.

Cera – demora em repor a bola em jogo para ganhar tempo.

Jogar na retranca – partida jogada defensivamente.

Onde a coruja dorme –  no ângulo entre a trave e o travessão.

Segurar o jogo – coibir a indisciplina. (juiz)

Tapete-verde – gramado

Tranco – empurrão que o jogador aplica no adversário para tomar-lhe a bola.

Travessão – trave que limita a parte superior da meta ou gol.

Trivela – chute com efeito dado com a parte da frente externa do pé.

Valorizar a posse da bola – segurar a bola para fazer o tempo passar, num resultado positivo.

Chapéu

Chapéu

DRIBLES:

Balão (balãozinho) – o jogador lança a bola em trajetória curva, bem acentuada, sobre o adversário e, deslocando-se rapidamente, volta a dominá-la adiante no chão. Também pode ser chamado de chapéu.

Chapéu – O jogador projeta a bola por cima de seu oponente e a retoma sem que ela caia no chão.

Caneta -A tradicional caneta ocorre quando o jogador consegue passar a bola por entre as pernas de um adversário, recuperando-a logo depois.

Drible da vaca (meia-lua) – Quando o jogador lança a bola por um lado do adversário e a recupera pelo outro.

Elástico – praticado pelos mais habilidosos com a bola nos pés, o drible inventado por Rivelino consiste em movimentar a bola (de leve) para um lado, e, com rapidez, puxá-la para o outro, entortando o adversário.

Pedalada – quando a bola está parada, ou se movimentando lentamente, e o jogador usa a ginga de pernas (como se estivesse pedalando uma bicicleta, por isso, o nome) para ludibriar o oponente, que fica sem saber qual será o lance seguinte.

OUTROS:

Cama-de-gato – esse termo é usado para definir uma falta cometida durante uma disputa de bola pelo alto, em que o jogador simula que vai saltar e, com o corpo, desequilibra o adversário que saltou sempre pelas costas. É considerada uma conduta maldosa e desleal, devendo sempre ser punida, geralmente com o cartão amarelo.

Gol de bicicleta – É quando em um lance o jogador fica em posição horizontal e acerta na bola com os dois pés suspensos, de costas para o chão.

Gol Olímpico – O gol olímpico é o gol marcado direto de uma cobrança de escanteio.

Cavalo paraguaio – clubes que disparam na tabela de classificação no início da competição, mas depois não conseguem manter o ritmo e terminam o campeonato em classificação intermediária, ou até rebaixados para divisão inferior.

Brazil v Mexico: Group A - FIFA Confederations Cup Brazil 2013

Hulk Brasil

Bom, e pra encerrar, antes que digam que estou objetificando os homens, esclareço: objetificar, ou coisificar como preferem alguns, é considerar alguém como coisa e destituí-lo de outros valores, os valores humanos. É pensar em estereótipos e fetiches. Transformar pessoas em adereços. É ditar comportamentos e classificar o ser humano conforme se afine ou não aos padrões esperados. É colocar alguém em posição de inferioridade e, ainda, de passividade. Não é isso que está sendo posto em questão. Ainda que entenda que beleza é algo relativo e guiado por cultura, moda, consumismo e tantos outros ismos, a admiração dessa beleza masculina, nos campos de futebol, é guiada por gostos pessoais e que nem de longe lembram o que os homens fazem com as mulheres há séculos! As torcedoras, mulheres suspirantes, estão apenas reivindicando seu direito a expressar sua admiração às belezas naturais dos países participantes da Copa!

Que a bola role e que vença o melhor!

Lavezzi Argentina

Lavezzi Argentina

Categorias: Cultura, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , | 5 Comentários

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