Arquivo do autor:Anderson Ulisses

Maioridade penal: vamos falar sério; já há MUITA violência!


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Fonte: blogue Acid Black Nerd.

 

O tema MAIORIDADE PENAL tem sido discutido de forma constante e apaixonada no país; afinal, envolve, muito diretamente o bem-estar de todos e sua sensação de segurança, interferindo na própria autonomia do ir e vir, tantas vezes. É preciso conseguir romper a barreira das paixões e discutir o tema lucidamente.

Então, sem palhaçadinha, vamos começar por reconhecer que os níveis de violência, em nossa sociedade são preocupantes a todos, e sem indícios palpáveis de redução no horizonte. E a violência, em última instância, instaura a ruptura total da perspectiva futura, tornando os níveis de previsibilidade deste futuro desesperadoramente baixos. Isso se traduz em angústias e paranoias de alcance social muito amplo, o que leva uma sociedade ao enlouquecimento, fácil, fácil.

Logo, a discussão mais do que séria, definidora de, no mínimo, toda uma geração de país, não pode ficar aa sorte dos ventos de afetados arroubos ideológicos, de todo parciais.

É de evidência cristalina o quanto a criminalidade se capilariza e finca raízes em nossa juventude. Onde há mais ausência do Estado tal processo configura-se, reativamente a essa desassistência, endêmico. De fato, falta perspectiva de forma tal que qualquer efêmero protagonismo pode soar atraente. Mas, estruturalmente, as perspectivas de violência direta e indireta, afetam as mais distintas camadas e classes sociais. No caso mais destacado de arregimentação, o tráfico, suas perspectivas de lucro rápido e “fácil” cooptam jovens de cima a baixo, não se justificando, verdadeiramente, distinções tendenciosas midiáticas quanto a pobres e de classe média, envolvidos com a atividade.

Óbvio que isso tudo é um grande, enorme resumo de uma situação pra lá de complexa. O fato é que o quantitativo de juventude comprometida já é certamente mais do que a sensação de tolerável. Não tem qualquer mínimo cabimento, por bom senso básico e necessário, que criemos condições para que todo esse quadro se agrave ainda mais, empurrando o problema pra baixo do tapete. Não cabe encobri-lo ainda mais com cortinas de fumaça espessa. É preciso ter coragem de dissipar toda a densa neblina e botar todos os dedos necessários nas feridas mais do que expostas.

Não podemos nos cegar ao tanto de jovens entre 16 e 18 já total e umbilicalmente comprometidos com o crime, em seus muitos formatos. Como também de outras faixas de idade. Esse número, até como reflexo da sociedade em que vivemos, é mais do que chamativo. Precisamos de medidas que revertam isso, contundentemente, não que remendem ainda mais, não enxergando o quadro caótico que já há aí.

Portanto, já passa da hora de dizer, em alto e bom tom, NÃO aa redução da maioridade penal, porque, ao contrário do que diria aquele grande pensador contemporâneo, pior do que está pode ficar sim. Se nossa resposta como sociedade a todo este quadro for aumentar as taxas de encarceramento e, consequentemente, o aprofundamento no crime de parcelas ainda maiores da sociedade, com enfoque especial aas punições de camadas mais pobres, isso não poderá trazer quaisquer ganhos.

O Estado não pode fazer as vezes do vingador justiceiro. Não se pode nivelar a indignação individual de quem é vitimizado pela violência, em que nível for, aí incluída qualquer reação mesmo as compreensíveis e justificáveis em âmbito pessoal ao papel do Estado.

É fácil. Se tivesse talento pra isto, desenharia. Mas, na impossibilidade do desenvolvimento parapictórico, é simplesinho de entender. As cadeias são, em regra, abaixo de qualquer nível mínimo de humanidade. “Ah! sem esse papinho de diretos humanos pra bandido…”. Direitos humanos são para a sociedade e para o Estado, para que não se façam, a si mesmos, bandidos. O princípio generalizado de punir e castigar, ao invés de regenerar e ressocializar, só pode piorar tudo. Não adianta discutir superficialmente a situação com base em idealizações de nossa sociedade. Quem sai da prisão tende a sair pior, mais profissionalizado ainda no crime. As prisões neste país são máquinas de triturar gente. O que está em jogo é simplesmente se aumentamos o contingente de matéria-prima nessas fábricas ou, se reconhecendo a gravidade da atual situação, tiramos a máscara da hipocrisia e lidamos com isso com medidas de longo prazo, porém eficazes, longe do imediatismo sensacionalista midiático e social que reinam.

As prisões não têm perspectiva de melhora. Preso não vota. E boa parte de seus familiares, oriundos que são de setores discriminados socialmente, não tem sequer reconhecimento real de cidadania. As prisões são como são como reflexo do desprezo humano e da negativa prévia de reversão da situação criminal em si.

maioridade penal

Pronto. Nem precisa mais desenhar.

Em outras palavras, você que vociferante e babão dono da verdade enche o peito pra defender a redução da maioridade penal saiba que isso, inevitavelmente, aumentará ainda mais sua aflição paranoica com violência, até o ponto do autoenjaulamento, como condição de bem-estar. Reduzir a idade penal, em nosso contexto, é necessariamente precocizar a entrada no mundo da criminalidade para muitos.

Não há opções fáceis. Viver em sociedade implica reconhecer tal sociedade ao seu redor, com seu vasto conjunto de especificidades e vicissitudes. Não imponha seu tacanho egocentrismo como punição a toda a sociedade. Enfim, o que tô a dizer afeta o “cidadão de bem”, o cidadão de mal” e, sobretudo, quem sequer sabe o que seja cidadania…

Ao invés de cogitar reduzir a idade penal, deveríamos estar a discutir como fazer para que as instituições para menores infratores não sejam mais pré-vestibulares do crime, como assistir de Estado quem hoje está aa margem deste, como reduzir o fosso social brasileiro. Mas isso tudo não interessa, né? Não é problema seu, certo? É muita pequenez em torno do tema da maioridade.

O debate sobre a maioridade penal não pode se converter distorcidamente em minoridade social.

 

 

 

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Dia do trabalhador: aproveite enquanto ainda dá…


No Brasil, ainda fará sentido, em algum tempo, celebrar o 1º de maio como Dia do Trabalhador?! Afinal, podemos vir a regredir quase um século na legislação trabalhista no país. Um pouco mais de recuo nas leis e no tempo, alcançamos a escravidão… Então, ser trabalhador com uma jornada de trabalho minimamente decente será considerado luxo, assim como férias remuneradas, 13º trabalho, recolhimento de FGTS e, claro, dignidade.

ctps

1º de maio é uma data que abrange todo o planeta Terra. E não por acaso. Ano de 1886, greve geral no aa época forte movimento sindical norte-americano, iniciada em 1º de maio. Em Chicago, coração do operariado do país, dezenas e dezenas de milhares protestaram, reivindicando condições de trabalho mais dignas, o que incluía redução da jornada de trabalho. Em 03 de maio, a polícia já matara três manifestantes. No dia seguinte, num 4 de maio, como continuidade das lutas iniciadas em 1º de maio e contra os assassinatos e repressão dos dias anteriores, seguiu-se um protesto ainda maior. Foi um movimento vigorosíssimo.  Então, no epicentro operário norte-americano a polícia, em defesa dos interesses do poderoso patronato, abriu fogo. Dezenas e dezenas e dezenas de feridos, mais de dez mortos. Os oito tomados por líderes do movimento presos. Destes, cinco foram condenados aa morte e outros três aa prisão perpétua. Três anos depois, no Congresso na 2ª Internacional Socialista, em Paris, se iniciaria a jornada de lutas pelo reconhecimento do 1º de maio como dia internacional de luta dos trabalhadores, em referência aaquele início de jornadas de lutas, em Chicago.

os-martires-de-chicago-1 Até hoje, tal data é ignorada oficialmente nos EUA (também no Canadá), sendo o Labour Day lembrado na primeira segunda-feira de setembro.

E é sempre bom e necessário lembrar: o dia é do Trabalhador; não do trabalho!

É impressionante que, mais de um século após esses acontecimentos, no Brasil, ponto nevrálgico do capitalismo na América Latina, estejamos aas voltas com o fantasma da terceirização em larga escala como parâmetro de organização do mundo do trabalho brasileiro para o séc. XXI. Não deve ser aa toa que, por vezes, na Europa, relações de precarização de trabalho são chamadas de “brasileiração”. Já não é fácil ser trabalhador neste país. O PL 4330/04, atualmente, no Senado,  PLC 30/2015, pode tornar ser trabalhador, mesmo da forma que hoje conhecemos, situação de privilégio.

É o sanguinário neoliberalismo, versão mais selvagem e ainda menos escrupulosa do velho e nada bom liberalismo, a revogar suas concessões de tempos de Guerra Fria, num mundo hoje, infelizmente, sem contraponto socialista. É hora de retomar os anéis que ficaram esquecidos por aí, pensa o velho capital.

Coincidente e ironicamente, o 1º de maio aqui é o dia seguinte ao limite da declaração de imposto de “renda”, afinal, no Brasil, trabalhador tem renda e não vencimentos. Muito menos salário, coisa do Império Romulano (descendentes que são dos mal humorados vulcanos); sim, porque salário é coisa doutro mundo, em que pese o leão a remeter aa antiga Roma e seus coliseus, permanente metáfora dos que assistem a injustiças e opressões como cúmplices, em silêncio ou intoxicados de pão e circo.

Sou um homem de grande fé, convicta e resoluta. A historicidade é minha fé! Me choca cotidianamente que as pessoas não se deem conta que, não fossem as lutas dos trabalhadores viveríamos num mundo ainda mais infernal, sem qualquer direito, a não ser o de, no dia seguinte, trabalharmos (semi)escravizados para enriquecer alguém que nos daria migalhas defectíveis. Me espanta que a maioria não se dê conta de que o capitalismo existe cotidianamente em concretude muito dura e árdua. Ele existe nos patrões, nas legislações, no judiciário, nas “verdades” que pairam (aí, obviamente, incluída a mídia). Existe em nós! De tanta mais-valia, cada vez, menos valemos.

trabalho

Foto de Lewis Hine.

 

“Os quebradores de pedras (II)”, por Gustave Courbet: a arte naturalista há mais de um século retratava a precariedade do mundo do trabalho.

 

Claro que, em meio aa sanha de revogação de direitos do mundo do capital, a repressão há de ser enérgica, afinal, aí o capitalismo existe tenazmente, nu, cru e cruel. Por isso, não me sinto surpreso, embora me sinta chocado, com o nível de truculência aos trabalhadores em educação do Paraná, nesta semana, sob o comando do governador do PSDB Beto Richa, senão Hitler. As imagens falam mais do que é possível dizer por palavras. Centenas de feridos. Agora, no Paraná. Em 2013, no Rio de Janeiro. Recentemente, em São Paulo, em Pernambuco… Nos espaços em que for necessário, pra garantir a violência do roubo de direitos dos trabalhadores, haverá a violência que se fizer necessária. Não tenhamos ilusões. Isso sem falar no fato de que, no fim das contas, são reles professores. Quem liga?!

prof paraná 10

Desculpo-me com os retratados pela divulgação não autorizada, mas necessária, de suas imagens.

Discurso padrão de nossa mídia "oficial".

Discurso padrão de nossa mídia “oficial”. Não é necessário explicar mais, né?

No fim das contas, ainda se trata da mesma questão e das mesmas atitudes de maio de 1886. É preciso enxergar com historicidade.

Em que pesem todos os muitos pesares, VIVA OS TRABALHADORES! E VIVAM OS TRABALHADORES!

 

Não há vagas (Ferreira Gullar)

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

 

P.S.: enquanto isso, o 1º de maio ontem em Havana. Que ditadura é essa, hein?!

P GRANMA

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Fechando abril: Brasil descoberto & Tardios aromas de libertação


Desde que iniciei minha trajetória transversa no ano da graça de nosso Senhor de 2013 d.C., sempre me deixo arrebatar pelo mês de abril, como já deixei bem registrado em pelo menos quatro textos pregressos: Apertos, aberturas, abris…  e Perfumes de abril!, diretamente e 23 e Revoluções, Involuções, Florações…, indiretamente. Abril exala poesia! Há nele muitos afetos dispersos no ar. E suas datas datas, tantas efemérides que me são caras: a deusa Bastet (das únicas três divindades toleradas por meu ateísmo, junto com São Judas e Mestre Yoda), nascimento e morte de Shakespeare, morte de Cervantes, nascimento de Max Planck, a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, o assassinato da camarada Olga Benário e, claro, a lírica Revolução dos Cravos.

É difícil continuar a escrever sobre este tema sem me fazer repetitivo. A começar por o nome abril remetendo aa abertura, já que fora um dia o mês de início do ano. Na realidade dura cotidiana, aberturas e fechamentos, vide o dia da mentira, ressignificado no Brasil como dia do início da ditadura militar maldita que perseguiu, assassinou, estuprou, mutilou, torturou… É uma pena que abril não abra cabeças, não literalmente, afinal, DE FORMA ALGUMA, considero a tortura como método. Isso cabe aos débeis mentais ou filhosdaputa apologistas de crimes que são e que reivindicam o ABSURDO!

Mas, tentando não ser repetitivo e seguindo, pelo faro poético, o rastro volátil dos aromas de abril, tratemos dos temas anunciados ao título. Comecemos pelo tal “descobrimento” do Brasil. Até onde sei, a própria expressão, hoje em dia, comumente, é problematizada nas aulas de História, segundo vários pontos de vista e gradações de criticidade: “a chegada dos portugueses”, “a ocupação…”, “a invasão do Brasil” (este eu sou bem contra. Só os índios têm legitimidade para usá-lo, e, como disse semana passada, o Brasil não tem direito de assumir a vitimização e martírio indígenas), etc, etc… A questão aí é desconstruir a ideia de que o Brasil seja uma descoberta da colonização, pelo fato de que aqui já havia civilizações. Claro que podemos reproblematizar isso, sem perder o viés crítico, ponderando que Brasil tal qual concebemos é um conceito que, de fato, só faz sentido após a chegada dos colonizadores portugueses aqui. Então se trataria, talvez, dalgo mais profundo, como uma “invenção” mesmo do que seja Brasil.

descobrimentoDa forma como vejo toda essa história, o Brasil tem tido sucessivas redescobrimentos e não falo aí de “descobrir” equivalente a “encontrar”, “achar”, mas sim de se desvelar o que antes estava “encoberto”. Nesse sentido, estamos inda a nos descobrir um tanto. Ao que tudo indica, o Brasil, nos últimos anos, foi, então, “descoberto” por uma parte do mundo, só que ainda há tanto Brasil e brasilidade a se descobrir. Tem um baita Brasilzão encoberto de todo, desconhecido e silenciado que sequer descobriu a si próprio, quanto mais que pode reivindicar status de país e ir além!

brasil descoberto

Nesse descobrimento por vir, uma das coisas, dentre tantas, que precisamos nos questionar é quem somos afinal e como queremos nos apresentar e definir ao mundo e a nós mesmos. Aqui passo a tratar duma questão que, na verdade, não é reflexão original minha, mas emprestada da cara professora doutora Vanise Medeiros, da UFF, com quem tive o prazer de estudar Análise do Discurso na Pós. Tal reflexão passa, decisivamente, por essa área em que não sou especialista, mas da qual gosto de muita coisa por tantos interessantismos que tem. E, afinal, este texto já vinha, em algum nível, tratando mesmo de Análise do Discurso. Claro que aqui não me valerei de nenhuma terminologia mais específica da área.

Ocorre que é muito curiosa a forma pela qual nos denominamos: “brasileiros”. Ora, há, na língua uma série de sufixos formadores dos chamados “adjetivos gentílicos”, aqueles que indicam origem, nacionalidade, regionalidade, etc. Os mais comuns, em língua portuguesa, são “-ano”, “-ês” e “-ense”, como em:

– haitiano, marciano, kryptoniano;

– finlandês, escocês, cantonês;

– niteroiense, parisiense, canadense;

Além destes, há outras formações muito comuns aos gentílicos em português:

– argentino, filipino, novaiorquino;

– germânico, babilônico,asiático;

– catalão, alemão, afegão;

– europeu, eritreu, hebreu;

– egípcio, coríntio, fenício.

A referência aa origem pode até ser feita ainda por redução vocabular ou pela manutenção da forma da palavra quando o país ou região apresenta forma de feição adjetiva, como, respectivamente, em:

–  belga, grego, árabe, persa, russo, cazaque, curdo, croata;

– tcheco, basco, bósnio, armênio.

Isso só pra falar dos principais processos de indicação de nacionalidade/origem. Ainda há os reduzidos: afro, braso, hispano, etc. Agora, origem com “-eiro” é algo pra lá de exótico! Esse sufixo forma, em geral,  ocupação, profissão, atividade. Há muitos outros gentílicos referentes ao Brasil quase desconhecidos das pessoas em geral: brasileiro, brasiliano, brasilense, brasílico, brasiliense, brasílio, brasilês, brasilista. Não confundir nenhum desses com “brasilianista”, aquele que estuda o Brasil. Muita gente também não sabe que boa parte desses nomes já designou nossa nacionalidade. No séc. XIX, quando, após a independência, essa discussão se tornou mais presente muitos foram os nomes usados pra designar o habitante/nascido aqui. Já fomos, por exemplo, brasilenses e brasilienses, muito antes de Brasília. Já fomos brasilianos. Essa discussão, com trocadilho e tudo, apaixonou setores da sociedade em tempos de Romantismo. Por fim, após a república especialmente, cada vez mais passou a prevalecer a forma “brasileiro”. Não há gentílicos em “-eiro”. “Mineiro”, de fato, é, antes, uma designação de afazer, de profissão, de ocupação, já que o nome do estado advém da designação de “Minas Gerais do Império” e, por metonímia, toda a circunvizinhança passou a ser assim denominada. “Brasileiro” vem de onde então? Vejam que curioso, “brasileiro” era a denominação do comerciante de pau-brasil. Ou seja, adotamos por nome de nossa nacionalidade a primeira e mais simbólica forma de exploração de nosso próprio país. Ainda damos prosseguimento aa colonização em nós mesmos. Carregamos decalcada e recalcadamente a expropriação. Em idiomas muito próximos, nosso sufixo de nacionalidade atribuído é o que corresponde ao português –ano. Brazilian e não Braziler, brasileño em vez de brasilero, brasilien no lugar de brasilieur.

Outro dia, em outro texto, falo da nossa bandeira, um episódio aa parte de nossa conturbada identidade.

 

Isso tudo passa por identidade, uma discussão na qual ainda temos muito o que “descobrir” sobre o Brasil. Tal debate de identidade começou, mais intensamente, há quase 200 anos e ainda tem muitos de seus aspectos encobertos. Imagine quem iniciou tal aventura há menos de meio século. Essa é a situação de nossos irmãos colonizados em língua portuguesa no resto do mundo. Este ano, Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe celebram jovens 40 anos de independência. Guiné-Bissau não consta dessa lista por ter conquistado tal libertação em 1973, graças aas contundentes ações do PAICG (Partido Africano para Independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, tendo por uma de suas principais lideranças o poeta guineense-caboverdiano Amílcar Cabral, assassinado em 1973), embora Portugal só a tenha reconhecido em 1974, após os Cravos de abril. E o Timor Leste também não figura aí, mas por razões contrárias, tendo caído nas garras da Indonésia, logo após se libertar de Portugal, situação da qual só se livraria em 2002, após muitas mortes, torturas e prisões, inclusive de quem falasse português no país. Mas, de todo modo, isso tudo dá uma dimensão bem abrangente aa Revolução dos Cravos, com efeitos d’além mar.

40 anos de libertação 2

Da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

 

O que levou todas esses povos aa libertação foi a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, pondo fim a décadas de tardio e persistente governo fascista em Portugal. Os ecos da Grândola percorreram quilômetros sem fim, exalando aromas de abril pelo mundo de língua portuguesa. É verdade que, nos países africanos, todo esse processo foi muito pouco lírico. Especialmente em Angola e Moçambique, seguiram-se guerras civis, pelo próprio controle e direção dos países, que, além de muito extensas, dizimaram brutalmente suas populações. Até hoje, Moçambique tem minas terrestres ativas, com uma das maiores populações de amputados do mundo, em termos absolutos e relativos. Em Moçambique, a profissão de sapador, (des)instalador de minas, ainda mobiliza muita gente. Uma tristeza total.

[Banda de roque angolana.]

Estes países estão a definir suas identidades como fizéramos antes. Poderíamos estar a contribuir muito mais com eles. Poderíamos a nos sentir muito mais próximos e identificados a eles. Poderíamos ser bons irmãos mais velhos, com as boas e más lições de nossa história. Espero que todos esses países, com dinâmicas societárias bem diversas e todos marcados pela diversidade cultural, o que inclui dezenas de outras línguas, além do português, não trilhem o caminho de extinção das culturas e línguas nativas que aqui singramos. Hoje, um importante cerne da discussão de diversidade cultural passa pelo continente africano, subsaariano especialmente, entre o cosmopolitismo das línguas europeias e a especificidade das expressões culturais nativas várias autênticas e genuínas. E o século XXI há de ser decisivo aa África em seu desenvolvimento social. Até metade deste século, por exemplo, Angola e Moçambique já serão nações de língua portuguesa majoritária. Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau vivem um concreto, real e dinâmico bilinguismo em seus cotidianos.

Identidades nacionais são duma complexidade vastíssima. Quase 200 anos após a independência, ainda temos tanto de Brasil a descobrir, em natural multiplicidade de sentidos. O que não dizer então desses jovens países lusofalantes? Espera-se que Portugal reconheça a enorme dívida histórico-social que tem com todas essas nações também e possa lhes oferecer parceria, com respeito aa sua diversidade. Que possamos nos irmanar e identificar com nossos países caçulas e revigorar aromas de abril, não só em cravos, mas em todo vigor do que flore em suas terras.

Celebração pela Revolução dos Cravos nas ruas de Luanda, capital de Angola. Só em números oficiais, após a Revolução dos Cravos, foram libertados 85 presos políticos em Angola.

Celebração pela Revolução dos Cravos nas ruas de Luanda, capital de Angola. Só em números oficiais, após a Revolução dos Cravos, foram libertados 85 presos políticos em Angola.

Independências:

  • Angola: 11/11/75
  • Cabo Verde: 05/07/75
  • Guiné-Bissau: 24/09/73
  • Moçambique: 25/06/75
  • São Tome e Príncipe: 12/07/75
  • Timor Leste: 28/11/75 (de Portugal), 20/05/2002 (fim da ocupação indonésia)
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Índio não é gente!


19 de abril: Dia do Índio. E daí? Quem liga pra isso? Por que ainda tem índio neste país? Já não bastam todos os demais problemas sérios? Índio não é nada, não serve pra nada, é menos que bicho! Índio não é brasileiro, não é de lugar nenhum. Arranquem esses parasitas das terras onde se amontoam. Índio é um mal, uma vergonha nacional! Índio é lixo ambulante! Índio não é gente! Cuspam nos índios, limpem os pés neles, acabem logo com todos eles, em nome da decência, do bom senso, do progresso do país, da civilização, de Deus.

Ninguém liga pra índio! Essa é a mais crua verdade. O tal Dia do Índio foi instituído, vejam só, pelo populista e ditatorial governo Vargas. Ano após ano, homenagear essa data é caracterizar as crianças de patéticas caricaturas de supostos indígenas, a emitir uma vocalização entrecortada por palmadas na boca. Sequer está em jogo alguma etnia, cultura ou nação indígena em especial. Pra quê? Índio é tudo igual, tudo a mesma porcaria mesmo, afinal.

E assim segue o país saltando levemente de sua amnésia com relação aos indígenas uma vez por ano. No mais, sobra ainda um resquício de visão romântica dos habitantes originais da terra, visão construída em deletéria idealização pela arte brasileira do séc. XIX e ainda hoje persistente. Tal idealização só serviu pra afastar o índio verdadeiro ainda mais de qualquer perspectiva real de coexistência com o resto do país, que sequer os reconhece como brasileiros efetivamente, em ironia que atropela o intento idealizador romântico insistente.

 

Enquanto continuam a ser romantizados, idealizados, o genocídio sem fim de suas culturas e corpos segue incessante. Aliás, matar índio é um dos grandes elos de continuidade entre o Brasil colônia e o Brasil independente. Atribuir isso aos portugueses tão somente é ingênuo e dum cinismo calhorda.

Fonte: censo IBGE, 2010.

O Brasil, junto com os EUA, é o país do globo que mais exterminou sua população nativa. No início do séc. XVI, a população indígena estimada no país era de 5 milhões de pessoas. Hoje, segundo o censo mais recente do IBGE, são um pouquinho mais do que 800 mil. Um decréscimo de quase 7 vezes! Ao mesmo tempo, em fins do séc. XVI, a população geral do Brasil rondava por volta de 8 milhões. Hoje, esse número aumentou em 23 vezes, atingindo 191 milhões, segundo a mesma fonte. É uma chacina secular e com a mais ampla cumplicidade social possível. Muitas barbaridades da colonização e, depois dela também, foram perpetradas por portugueses, claro, mas também por brasileiros, por luso-brasileiros e braso-portugueses. A vitimização histórica em torno dos índios, reivindicando o martírio deles como de todo o país, não passa de dissimulado e enojante cinismo de um Estado e de uma população que os ignoram, de todo, como seres até hoje. Os dados sobre línguas nativas são alarmantes, num nível só comparável, de fato, ao visto nos EUA. No início da colonização, elas eram estimadas em mais de 500; hoje são cerca de 170; até o fim do século, podem ser metade. Segundo a Associação Internacional de Linguística (SIL)[1], dezenas de línguas brasileiras estão em extinção, com exíguas possibilidades de alcançarem o fim deste século. Muitas delas têm apenas poucas centenas de falantes, quando não menos de uma centena. Na comunidade linguística nacional e internacional paira a percepção velada, por vezes, explicitada de que é necessário descrever essas línguas o mais rápido possível, pois, em pouco tempo, esse será o único rastro humano e cultural de tantos povos. Muitos jovens índios têm vergonha de falar sua língua nativa, o que é o auge do processo de extinção cultural: de chorar! É muito triste e cruel!

dia do indio 3

No Brasil, o racismo anti-indígena é tão estrutural e enraizado que fez até do negro homem branco. Sim, racismo! Costumamos pensar nele só em relação aos negros, mas, quanto aos índios, ele é tão naturalizado que soa normal. É asqueroso!

“Eles vivem na floresta amazônica, sem contato com o homem branco…”

13/08/2013, Jornal “Hoje”, Rede Globo

Em pleno século XXI, ainda nos referimos aos índios como seres que se contrapõem ao homem branco. Que preço historicamente caro eles pagaram por não se “civilizarem”, até hoje.

A violência do preconceito racial anti-indígena é grotesca demais. Vejamos mais alguns exemplos:

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É mal mesmo! A começar pela indistinção entre o adjetivo “mau” e o advérbio “mal”. Só o comentário linguístico seria indício de tendência preconceituosa. Além disso, por que associar os indígenas a isso, apontando pra perspectiva de ridicularização deles?

dia do indio

Enojante! Muito preconceito numa mensagem só: linguístico e racial anti-indígena! De onde se tirou que índios falem assim? Quais, de quais nações? Caso alguns falem português assim, o que há de ridículo nisso, a partir da língua nativa dos que o façam? Possivelmente há em sua língua motivações a isso. Mas, sobretudo, é curioso ver que os mesmos apatetados que, linguisticamente, consideram tal uso alvo de ridicularização falam coisas como “Deixa ela entrar”, tão fora da língua padrão, quanto o que criticam e pelo mesmo princípio geral, diga-se de passagem.

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A proliferação da desinformação imbecil! Como assim não se deve  usar “para mim”. ÓBVIO que sim! Antes de verbo, inclusive. Aliás, pra mim explicar tudo isso está a ser bem constrangedor. É duro. O “pra mim” ali atrás é um adjunto adverbial o qual, em escrita rigorosa, deveria estar separado por vírgula, mas que pode aparecer sem ela, em formatos menos formais.

Será que a esta altura este texto já virou um… “programa de índio”?!

Agora, pense… já ouviu falar de crime de racismo contra índios?! Pois é… é que índio não é gente mesmo, no Brasil!

Se chegou a este ponto do texto, te convido aa leitura dum texto anterior meu sobre o tema: Amána.

Mas, voltando aa questão cultural, só pra desfazer o mito de que índio é tudo igual, abaixo um mapa de famílias linguísticas indígenas. Atenção! Não é de línguas não, mas de famílias linguísticas.

indigenas- familias linguisticas

Note que tupi-guarani não é uma língua, mas sim um grupo de línguas, ou seja, uma família linguística, assim como há a família latina, a germânica, etc…

[A canção, do Midnight Oil, é, originalmente, sobre indígenas australianos, mas vale para os de todo o globo. LInda montagem de imagens!]

Os livros de história, em geral, não tratam disto, mas a violência linguístico-cultural, fora a física, claro, empreendida sobre os povos nativos brasileiros é do nível da atrocidade mais bárbara possível. É comum em nossa história que índios tenham tido línguas (o órgão mesmo) cortadas, olhos furados, dentre outras formas de covardíssima tortura pelo simples fato de falarem sua língua. Desses, destaca-se o estupro de mulheres indígenas, prática das mais comuns na nossa história. Pasmem, até a primeira metade do século XX, tal conjunto de práticas ainda existiu. Ora, na mesma primeira metade desse século, minha avó materna, índia, foi aprisionada no interior de MG e feita escrava.

Muita gente desconhece, mas, até o século XVIII, o Brasil não falava português, aa exceção de uma pequena elite colonial. A língua, chamada inclusive de “geral”, era o NHENGATU, o qual teve seu uso tornado CRIME pelo famigerado decreto do Marquês de Pombal, no ano de 1757. A partir daí, o português se alastraria pelo país. Para maiores informações, sugiro, dentre tantas outras possibilidades: http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ12_9.htm.

dia do indio 4Enfim, espero que este texto sirva pra convencer da existência de um brutal racismo anti-indígena e dissuadir da continuidade dessa prática vista como natural, mas que, na verdade, reforça toda uma lógica de genocídio físico e cultural colossal e sem igual em nossa história. É verdade que os índios são dizimados cotidianamente no país por disputa de terras, contra latifundiários, fazendeiros, com vista grossa dos governos seguidamente, mas também com o aval e anuência de todos que proliferam o círculo de segregação racial contra indígenas, por meio de valores, atos e falas. Tanta gente que se acha defensor da causa de minorias propagando racismo anti-indígena. Não seja racista!

[A canção, muito boa por sinal, é de uma banda indígena mexicana que canta em língua nativa, o tsotsil, falada principalmente na região de Chiapas. O México não trucidou seus nativos no mesmo nível que nós.]

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GENTE! Seres com o pleno direito humano de ser!

P.S.: está em pauta no Congresso uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), a 215, que transfere do Executivo para o Legislativo o poder de demarcação sobre terras indígenas. Várias nações indígenas têm protestado unificadamente quanto a isso, até porque sabem que, a partir daí, a demarcação de suas terras ficará a mercê de lobbies, interesses casuísticos e comprometimentos com financiadores privados de campanhas.

[1] Ver dados em http://www.ethnologue.com/country/BR/languages e http://www-01.sil.org/americas/brasil/SILling.html.

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Governo Dilma: muito a TEMER!


"Diga-me com quem andas..."

“Diga-me com quem andas…”

Há três semanas, eu dizia aqui nesta mesma coluna que o governo havia sumido e tava tudo sem rumo. Muito infelizmente, era ainda mais real e concreto do que então supunha. A aprovação da PL da Terceirização, o Projeto de Lei 4330/04, do ex-de-putado Sandro Mabel, posto em votação por sua  excelentíssima indignidade Eduardo Cunha, é uma pá de cal nos direitos dos trabalhadores e em tudo que se construiu a esse respeito durante o século XX. Mais que isso, é a demonstração cabal de que o PT e seu governo, de fato, não são amparo aa esquerda e, com a comprovação de todo o ataque conservador que vêm sofrendo desde antes do início deste mandato, sequer aa direita.

O resultado da votação no plenário da Câmara dos Deputados, nesta semana, foi uma derrota múltipla: perdem os trabalhadores, o PT/Governo Dilma, a história das lutas e conquistas trabalhistas do séc. XX, a perspectiva mais aa esquerda no país. Óbvio que, pusilanimemente, do outro lado, ganham a truculência midiática oficial, a direitalha, os golpistas de plantão e a tiracolo, o projeto neoliberal e, claro, o PMDB.

O PMDB, em esplendor, foi o grande vitorioso de toda esta história. O grande aliado privilegiado do governo Dilma iniciou sua vocação de algoz desse mesmo governo. Na mesma semana, não bastasse, Michel Temer assume a coordenação política do governo, acumulando, além desta, a vice e seu evidente posto de cacique da fugaz legenda em questão.

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Se confirmada essa derrota, novos tempos estarão abertos no mundo do trabalho brasileiro: um trabalhador terceirizado, em média, trabalha três horas a mais semanais, recebendo 30% a menos, em situação de clara instabilidade empregatícia. A economia para patrões e empresariado é acachapante. Já se tem um bode expiatório, previsível por sinal, a pagar a conta da crise: o trabalhador. As projeções tímidas apontam para 3 vezes mais terceirizados no país em 5 anos,  a partir da aprovação da lei. Isso sem falar na velha cantilena de contratação por OS (“organizações sociais”) no serviço público, naturalmente vitaminadas, como intento, caso essa lei seja aprovada. [Parênteses, ou melhor, colchetes: os coxinhas, sanguessugas do Estado, já se deram conta das consequências disso pra seus anseios meritocráticos?] Sem exageros, é o fim do mundo do trabalho como o conhecemos.
É nesse mundo do trabalho que nós mesmos e nossos filhos viverão?!

Caso seja aprovado, tal projeto é um ataque mais duro mesmo do que a famigerada reforma da previdência de Lula e supera, pasmem, mesmo os mais hediondos ataques de FHC ao mundo do trabalho!

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Isso era motivo pra greve geral! Motivo pra luta sem tréguas! Lindo seria se, num marco como esse, o governo finalmente se aliasse ao lado certo da contenda. Mas, ao que tudo indica, as lutas de esquerda e em prol do trabalhador no país estão paralisadas entre o adesismo dum lado e a inércia doutro. A esquerda hoje crítica, com razão, ao governo Dilma, entrou numa lógica tão defensivista que tem tido dificuldades sérias para lidar com um governo que apresenta inegáveis e sérias contradições quanto aas perspectivas de interesse dos trabalhadores.

Agora, claro, que não dá pra, nessa análise toda, eximir o próprio governo Dilma de responsabilidade por toda essa história. Muito pelo contrário. Na verdade, não tivesse o mais do que errático governo afrouxado tanto e tanto a porteira de fragilizações ao mundo do trabalho e de concessões indecentes e descaradas aas elites gestoras e aos tais 300 picaretas (no mínimo!) que Lula denunciara há duas décadas, não haveria sequer contexto pra tamanha ousadia. Hoje, a base de Dilma são os tais picaretas, chafurdantes na lama que lhes nutre e que servem de base, pilar e assento ao governo. Está a se iniciar, na prática, o governo peemedebista no Brasil?! É possível, na prática, sim. É irônico e ridículo, quase beirando o nonsense, mas o fato é que o PT montou um governo de centro, em equilibrismo dificílimo, pra não mexer em dois fios de cabelo das classes dominantes e dar ao povo trabalhador conquistas sim, porém muito pequenas se comparadas ao que as elites deveriam ceder e que, na prática, foi nada. Essas mesmas elites intocáveis agora tentam derrubar um governo que aplica a própria política econômica delas. Agora, pioradamente, a própria base do governo lhe puxa o tapete e mostra quem manda na Casa da Mãe Joana, vulga Dilma. O governo é refém, em sequestro autoimposto, de seus próprios passos. Não há vitimização e discurso coitadista que possa relativizar isso, mesmo nas mais elaboradas e cínicas chantagens que possam ser elaboradas. Não a nenhum golpismo! Nem pelo governo Dilma em si, mas pela institucionalidade na qual, mal ou bem, está assentada, minimamente, a possibilidade de transformação, ainda que tão somente como campo de partida para disputas. Contudo, é muito difícil ser mais realista do que o rei. Não dá pra passar a mão na cabeça dum governo que não cria as condições mínimas de solidariedade na luta, a qual por sinal, inexiste. Que o PT esteja na rua pra lutar pelos trabalhadores e pelo país, sem terceirizar a militância, muito preferível a qualquer crença num eventual hesitoso e vacilante “Veta, Dilma” . Que se faça história, ao invés das vexatórias historinhas que se vêm construindo, ainda que sob incontestável manto midiático de hipocrisia e dissimulação enojantes!

Já se começou até a se terceirizar hamster e esquilo por rato, em óbvia intenção enganadora da população!

Hoje, claramente, o PMDB terceirizou o governo Dilma! E o lucro, obviamente, é todo neoliberal!

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Assembleia de deus


Tum, tum, tum… o som ecoa oco e estridente. Contagia o ambiente…

assembleia de deus

Quórum alcançado, eis que se inicia  a sessão. Retirado de sua aposentadoria no Tártaro, afinal tempo lhe sobra, mesmo não sendo Thor, Cronos bate o martelo.

Decisões importantes hão de ser tomadas. Desde que o trio absolutista monoteísta tomou de assalto boa parte do planeta e lhes impôs insana credulidade, as coisas vão de mal a pior. Ancestrais deidades e atualidades juntos pelo bem comum.

Posseidon pede a palavra, porém, antes de balbuciar qualquer som, o abalador de terras é interrompido pela concorrencial Iemanjá. Mesmo não se tratando de pré-olimpianos, se segue um duelo de Titãs: tormentosa relação.

12 deuses olímpicos, 12 titãs, 12 trabalhos, 12 estações da cruz de Cristo: a perfeição do 12, a base matemática perfeita a nos perseguir desde as crenças.

12 deuses olímpicos, 12 titãs, 12 trabalhos de Hércules, 12 estações da cruz de Cristo, 12 meses: a perfeição do 12, uma das mais perfeitas bases matemáticas, portanto um padrão estrutural e natural,  a nos perseguir desde as crenças.

Como, em terra de cego, quem tem um olho é Odin, o Pai de Todos tenta se fazer ouvir, inutilmente, pois que Bastet, gatíssima, adentra a sala, sob olhar de todos e o pleno despeito de Afrodite, que já iniciou a guerra das guerras por tal sentimento. Tão distinta de sua “caçula”, a amável Vênus.

Anúbis, com seu faro para calamidades, observa toda a situação com desprezo. Titânia parece não se dar conta do que se passa. Loki ri de tudo isso.

Ganesh, sem rumo em meio a toda a divinal balbúrdia pede uma mãozinha a sua compatriota Shiva. Hércules, mesmo com seus doze trabalhos de homérico empenho, assiste a tudo de longe. Não possui  credenciais suficientes para participar do evento.

Agora, Hefestos reivindica a presença na pauta de debates da situação dos deuses especiais, outrora deficientes, mais outroramente ainda aleijados; enfim paraolímpicos, digo, segundo o modismo ridiculamente convencionado, “paralímpicos” (?!) . O olímpico tonitruante irrompe o salão, acompanhado de sua esposa Hera, de olhar bovino. Canalizam atenções, até Tupã pleitear seu espaço, acusando Zeus de usurpador.

Os gregos a acusar os romanos de plágio, os celtas indiferentes, ameríndios a disputar com africanos a legitimidade na América, os nórdicos frios, os hindus em frenesi… E tantos mais…

Em delírios sublimes, Baco adentra o espaço, sob olhares de reprovação de Huracán. Ogum, Ares e Marte observam a tudo com admiração e sorrisos de canto de boca. Nem Calíope consegue atenção ou Varuna, ordem. Sequer Gilgamesh sabe o que fazer. Enquanto Marduk chora um lago incomensurável de lágrimas sem fim, Buda já se impacienta.

E assim seguem perdidos, sem livro sagrado, esquecidos, tomados por reles “mitologia”. A Bíblia, o Corão e o Torá instituíram a palavra que os solapou para sempre. Esses deuses novidadeiros e monopolistas não se assembleiam, não toleram, não vivem coletividades. E o deus que, malandramente, se chama Deus ainda se fez homem- muito menos humano do que as divindades pregressas- para tudo dominar, zombou de Hades e retornou soberbo, a dar vazão a aberrações, desmandos e absurdos tantos: totalitarismo, assassinatos, perseguições, genocídios, hipocrisia social e muito mais, inclusive a Assembleia de Deus e congêneres, por exemplo, meu Deus.

E celebremos…

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O X da questão


Carxs e queridxs leitorxs, hoje, escrevo aqui um texto que há muito venho pensando, em termos tanto profissionais quanto amplamente humanos, sociais e políticos em si.

Trata-se do, assim chamado, tratamento não binário, para lidar com masculino e feminino na língua portuguesa. Me empenharei em não ser professoral. Não é o que pretendo de modo algum, até por reconhecer as melhores intenções, em geral, nos adeptos dessa suposta solução.

linguagem binaria

Antes de prosseguir, nem quero entrar no mérito da escolha pela forma mais conhecida dessa escrita, representada, no português, pelo X. Nem sei se compreendo exatamente a origem desse X. Seria um símbolo universal de incógnita? A letra que representa o sexo feminino por excelência, por sua composição cromossomial? Bem, seria justo se pensarmos que o sexo feminino, biologicamente, é o básico do homo sapiens sapiens. Mas, isso tudo, por ora, é digressão. Vamos ao que nos propomos mais diretamente.

Como diria o linguista Jack, vamos, então, por partes. Em primeiríssimo lugar, há de se perceber que a proposição toma, em grande parte, gênero linguístico por gênero sociológico, quando não biológico. Para cada uma dessas áreas, gênero significa algo bem diferente. Na biologia, grosso modo, é sinônimo de sexo mesmo, na Sociologia, diz respeito aos papéis representados junto a uma dada comunidade humana. Assim, sexo e gênero não necessariamente convergiriam, embora, sobretudo em nossas representações societárias atuais arquetípicas e estereotípicas, coincidam muitas vezes. Mais que isso, a não coincidência tende a ser motivação de rotulações e processos vários de exclusão no seio dessas sociedades, os quais, sabemos, podem assumir manifestações e roupagens humanamente bastante perversas.

xxy

Já o gênero gramatical é algo bastante dissociado das perspectivas acima. Em primeiro lugar, os próprios nomes “masculino” e “feminino” correspondem a uma escolha bastante arbitrária pra categorização dual que herdamos da gramática grega, desde o séc. II a.C.. Ora, é só pensar em toda a sorte de objetos e coisas em geral categorizados como masculino ou como feminino. E pensar também em como isso muda de língua pra língua. Mesmo algumas categorizações que parecem muito universais mudam. Pra nós, parece quase que natural “sol” ser masculino e “lua”, feminino. Em alemão, é o contrário. Poderíamos chamar os gêneros gramaticais do que quiséssemos: gênero 1 e gênero 2, gênero básico e gênero modificado, gênero zero e gênero marcado, etc. Isso pra pensarmos apenas em dois gêneros. Numa mesma língua, o gênero pode mudar ao longo do tempo. “Mar”, até o séc. XVII era feminino em português, como até hoje atestam formas como “maré”, “maresia”, etc.

[Interessante filme argentino sobre ser homem, ser mulher, ser ambos e ser nenhum dos dois.]

[Neste texto, a palavra “gramatical” não se relaciona ao sentido senso comum de “certo” ou “errado”, “uso permitido ou proibido”; pelo contrário, diz respeito ao próprio funcionamento das línguas em escala bastante generalizada e sistemática, atestado em seus usos “reais”, espontâneos e cotidianos.]

Há línguas, como o inglês, que apresentam, na prática, gênero único e o masculino e o feminino são formados por outros processos; neste caso, anexando-se, por exemplo, palavras suplementares, “policeman”, policewoman”. A língua hitita, já morta, apresentava um único gênero para todas suas palavras. Muitos dizem então que, em hitita só havia gênero masculino. Ora, é claro que tal afirmativa só faz sentido dentro de uma tradição terminológica de base grega que enxerga “masculino” e “feminino” como demandas naturais do gênero linguístico. Tampouco, isso nos informa sobre a sociedade hitita e seus níveis de machismo e opressão aa mulher. Pensar assim é bastante reducionista. Fosse desse jeito, as sociedades de língua inglesa seriam paraísos da igualdade de direitos entre os seres, segundo o parâmetro do sexo ou do gênero (sociológico, por favor!).

A língua dyirbal, falada na Austrália, categoriza seu mundo em quatro gêneros distintos. O linguista George Lakoff, “pai do cognitivismo” atribuiu a esses gêneros a designação “fogo, água, ar e terra”, o que, obviamente, é uma classificação feita de fora, segundo algum juízo pré-concebido. A partir daí, ele compôs a obra de título aparentemente polêmico, um dos pilares do Cognitivismo e grande obra da história da Linguística, “Women, fire and dangerous things”, em alusão ao fato de que, na língua dyirbal, estes elementos partilham o mesmo gênero.

Sempre lembro de que “mulherão” é gênero masculino. Em outras línguas, há exemplos vários que atestam o descolamento de gênero linguístico e sexo biológico. Em alemão, “menina” é gênero neutro, por exemplo. Gênero gramatical, decididamente não é, nem em alusão, sexo biológico e tampouco gênero sociológico.

Agora, uma questão outra é a compreensão que muita gente tem manifestado quanto isso, considerando que o uso de formas masculinas é indício de opressão na língua. Poderia desenvolver aqui que a categorização de gênero ocorre em nível morfológico e este é um extrato da língua a qual o falante não tem acesso consciente. Confesso que terei dificuldades de falar disso de forma simples, sem ficar professoral; então vou me deter apenas nessa premissa, sem a desenvolver. O masculino, em português, tem papel duplo: refere-se ao gênero masculino e é o gênero geral também. Portanto, “companheiros” inclui “companheiras”, o que não impede, claro, ninguém, por estilo ou por demarcação de posição/ênfase de falar “companheiros e companheiras”. Mas, lembremos. Gênero linguístico não é sexo!

A questão pra mim mais delicada de toda esta história é a que estabelece uma contraditoriedade entre intenção e efeito, sobretudo em perspectiva histórica. Como já disse, sei das boas intenções da proposta, bastante ingênua em termos estritamente linguísticos, de “não binarismo”. Ocorre que, sem querer, tal proposição é profundamente conservadora. Um dos maiores paradigmas do papel opressor, discriminatório da língua, ao longo de toda a história sempre foi o da logicização da própria língua. Aliás, isso é o que está no cerne da herança de estudos de linguagem na Grécia Clássica, derivada da abordagem filosófica. É graças a essa perspectiva logicizante que a língua tornou-se esse colosso opressor a devastar outras culturas ou membros de sua própria cultura, a partir de um raciocínio simplista e simplificador que a língua é reflexo do pensamento e se estruturaria nas mesmas categorias básicas. A língua não designa a realidade; ela é um sistema simbólico (na verdade, de signos, mas simplifiquemos) que constrói representações para dada realidade. É da não compreensão disso que vem toda a parafernália de “certo” e “errado”. É daí que vem toda a exclusão social feita a partir do critério do uso linguístico. É daí que vem o massacrar brutal de povos, sociedades inteiras ao longo de nossa história. Eu desconheço uma única aplicação logicizante aa língua que tenha caráter revolucionário, transformador. Seja na Antiguidade, na Idade Média, no Renascimento, no século XX, o ímpeto de aprisionar a linguagem, tão variada e multifacetável quanto o ser humano, a categorias estanques, limitadas e demarcadas acopladas ao pensamento “tangível” sobre o mundo exterior criou um lastro interminável de desgraceiras pras línguas e seus falantes. Impor logicização aa língua sempre é tirá-la de seu curso real/natural do uso de seus falantes.

A proposta e abordagem em questão são tão inerentemente conservadoras que transbordam esse conservadorismo imanente. É só constatar que, agregadamente, a ideia em questão traz um valor indissociável de prevalência da escrita sobre a fala, reconfigurando um quadro de se lidar com a língua de 100 anos atrás, e jogando por terra todo o combate ao elitismo, preconceitos linguísticos, dogmatismos e exclusão social que estão inerentemente associados aa suposta prevalência da escrita sobre a fala. Mais do que isso, é a corroboração e aval a todos os procedimentos de tiranização e brutalidade cultural e física perpetrados no passado e no presente contra populações ágrafas, em todo o globo. Aqui no Brasil mesmo, cotidianamente, essas sociedades vêm sendo exterminadas com silêncio e cumplicidade da sociedade omissa, em posturas que apregoam a primazia da escrita sobre a fala, por exemplo. Em outras palavras, com boas intenções, acaba-se por reforçar os parâmetros mais maximizados de preconceito linguístico que há e, por que não dizer, do respeito cultural ao direito humano mais básico, o de se expressar.

No fim das contas, a proposta de uma linguagem de designação supostamente não binária, é como, bem mal comparando, condenar nazistas a penas em campos de concentração.

Obviamente, a língua pertence a todos, inclusive aos que não a usam articuladamente por alguma limitação de ordem física. Isso faz com que todos sintam-se, com justeza, a poder falar sobre a língua. Contudo, a quem a estuda, não é possível apenas se furtar diante de certas discussões e demandas. A língua real não é regulada por gramáticas. Estas apenas dão conta de uma ínfima fração de língua chamada língua padrão, um uso idealizado e que não é efetivamente praticado no dia a dia de uso linguístico espontâneo. Não é dessa língua padrão que estamos falando, mas sim daquela cujo funcionamento não pode ser “decidido” ou legislado por ninguém, do próprio funcionamento do sistema linguístico que não pode (no sentido da possibilidade mesmo e não no da permissão), simplesmente, ser objeto de decisões/deliberações pessoais ou coletivas. Tentar fazê-lo, além de artificial, é, inevitavelmente, ato dos mais insensíveis autoritarismos, como temos muitos exemplos ao longo da História.

É claro que a língua é um elemento cultural e social muitíssimo potente, aliás, possivelmente, o mais constitutivo e basilar de todos. Logo, a relação língua e sociedade há de ser um tanto complexa, em uma dialética incessante e bastante difundida.

Há, nesse mesmo campo de questões de língua que dizem respeito aa morfologia, questões bastante candentes, como, por exemplo, por que determinadas designações no feminino carregam carga pejorativa e depreciativa? Ora, “vagabunda”, “safada”, “malandra”, “vadia” não são meramente as formas femininas para “vagabundo”, “safado”, “malandro”, “vadio”. Nem mesmo em Portugal, “puta” é simplesmente o feminino de “puto”, menino, garoto, jovem. É claro que esse exemplo bem simples mais do que demonstra a complexidade da interação língua e sociedade. Ora, o que está aí em jogo não é a morfologização de feminino em “a”, mas a leitura social a ela aplicada, nesses casos. Propostas como a discutida neste texto buscam uma intervenção quanto a questões como essa, mas, por todas as razões aqui apresentadas, por um viés muito equivocado.

A relação língua e sociedade é das mais complexas que há por se lidar e transborda ideologia, inclusive, em acepção menos saliente de explicitação bastante direta de ideias do que, cotidianamente, estamos acostumados a pensar. Dificilmente, as ideologias de uma sociedade surgem transparentemente numa língua, pois que são fincadas em níveis muito distintos (de profundidade e visibilidade, inclusive) e num trabalho de escavação cultural de séculos, por vezes, milênios.

Espero ter conseguido pontuar algumas questões importantes para o diálogo, no que diz respeito aa linguagem, na discussão social de gênero. Tentei ser não academicista e expor a questão da forma mais simples e menos técnica possível. Não se trata de poder ou não poder, muito menos de certo ou errado. Nem reconheço tais categorias e isso aqui é um papo sério, de adulto e de ser humano. Espero que todos que leiam este texto possam encontrar aqui algo pra refletir.

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Apertem os cintos, o governo sumiu…


Ao menos é o que parece. Pela esquerda, pela direita, por onde se olhe. O governo encolheu, desapareceu, escafedeu-se carcomido pela enxurrada de denúncias cínicas da mídia feroz e babenta, pela vociferante, ingrata e rancorosa dita classe média, pela base achacadora (GOMES, Cid “Educar é amor”, deseducado, mas sincero e, pela primeira vez, certeiro, EX-[e foi tarde]ministro da Educação) e fisiológica, pelo gradual abandono das sempre voláteis elites empresariais que já lhe foram base e sustentáculo.

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Refugiado nas profundezas do pré-sal, órfão de sua popularidade, hoje mais escassa do que o volume dos reservatórios de São Paulo, refém de seu outrora ingênuo e vão moralismo político, desarvorado de sua arrogância, encurralado por aqueles a quem tentou encher de mimos.

Diga-se de passagem que os governos do PT sequer despentearam uma única mexa de cabelos das classes dominantes.

O projeto de agradar a gregos e a baianos parece que tá dando água. Antônio Ermírio de Moraes, recém-ex-paladino pró-Lula é hoje dos cruéis algozes de Dilma, os banqueiros, vide Itaú e Santander, já não confiam seus hipermegalucros aa liderança do governo petista. Sequer a indicação, muito aa direita, de Joaquim Levy parece ter apaziguado ânimos financeiros e especulativos. Em meio a tudo isso, vem a Petrobras, estatal cada vez menos pública, oferecida de bandeja, a pretexto de “salvação”. Fala-se dissimulada e seletivamente  em corrupção como não fosse esta sistêmica. Não há capitalismo sem corrupção! Seria como uma floresta sem árvores, uma ave sem penas. Desde meus primeiros textos no blogue, bato nesta tecla. E o pacote anticorrupção, hein?! E a grande qualificação e denúncia do debate é o alarmante volume de corrupção tucana deixada para trás, embaixo do tapete. E não bastasse tudo isso, ainda me vem o tal de FHC, canastrão e matreiro, dizer que a corrupção na Petrobras é uma jovenzinha?! De ex-presidente a piadista.

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Lata d’água na cabeça, lá vai a Dilma… isolada, excluída, em ironia- dirá seu séquito político. Até o PAC afundou nas águas turvas da enchente de crise e dilúvio de golpes desferidos de toda parte. São as águas de março? E que promessa de vida poderá haver nos golpistas corações? Isso tudo pelas opções de possibilidades- não confundir com possibilidades de opções- feitas há muito pelo PT.

Falou-se que Lula teria aconselhado Dilma, logo após a CoxaFolia, “Se não não há verba, use o verbo.”. A frase condiz com o seu estilo sagaz. Só que Dilma não tá pra conversa. “Dilma Bolada”: de chiste a profecia.

Sabemos que, acuado pela mídia e pela coxinhice em fúria vitaminada elitistamente, a conta de toda essa fanfarra tende a ser cobrada dos trabalhadores. Que bom seria se esses virassem esse jogo, uma indigna pantomima de Fla-Flu. E antes que, tresloucadamente, se vire a mesa e, batendo pezinho e panelas, se encerre o jogo. Isso sem falar, claro, nos afagos já anunciados pelo encurralado governo aos mimados golpistas. Realmente, tá com muita cara de que vai sobrar, pra variar, pro trabalhador.

coxinha

Quem dera o governo Dilma fosse de esquerda, como bradam seus histéricos opositores. Quem dera fosse benéfico aos trabalhadores como tentam fazer crer seus quixotescos apoiadores, defensores de uma política e rumos para o governo que ninguém, no seio desse mesmo governo, defende.

Sem rumos, esse governo (assim como seus opositores) é ainda mais preocupante. E o descontrole desse voo diz respeito não só ao nosso país, mas a, no mínimo, toda a América Latina.

 

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Forever and ever…


O título aí de cima repete o último verso da última faixa, a soberba canção High hopes, do até então último álbum do Pink Floyd, The Division Bell, de 1994. É de um verso da mesma canção que se batizou o surpreendentemente novo álbum do Pink Floyd: The endless river.

Seu lançamento foi em 10 de novembro último. Queria ter podido escrever sobre o álbum antes, mas estava a passar pelo meu recesso transversista forçado. No entanto, em meio a isso, esse álbum foi um grande companheiro de apreciação artística e pra produção intelectual nesse período.

endless river

É o 15º álbum de estúdio, de canções inéditas do Pink Floyd- lembrando que a banda, felizmente, só tem coletâneas oficias, fora as centenas de bootlegs feitos há décadas pelos fãs e já incorporados na mitologia da banda. Ele entrou em minha vida no dia 12 de novembro. Afinal, ser floydiano é das minhas marcas mais identitárias.

[In celebration of the comet- The coming of Kohoutek é um dos mais famosos bootlegs da história floydiana, quase tão célebre quanto alguns álbuns oficiais menos cotados.]

Eis um álbum  bastante despretensioso, a ser ouvido com a alma. Não vai se encontrar nele nenhum pré-hit que possa reapresentar os ares icônicos de tantas canções da história floydiana. É um álbum intimista. Sua base, quase toda instrumental, foi composta, fundamentalmente por Richard Wright, o tecladista falecido em 2008. David Gilmour deu suas mexidas aqui e ali no arranjo, instrumentação, afinal, ele e Wright eram os dois grandes gênios da musicalidade da banda e grandes parceiros neste sentido. O efeito final parece de um álbum solo de Richard Wright, tocado pelo Pink Floyd, o que soa uma bela e sensível homenagem, feita com o próprio legado de Rick. Mais que isso, é emocionante pensar que quem está a tocar no álbum é o próprio Richard Wright, com sua maestria instrumental, em canções engavetadas, sobras de The division bell e outros dispersos, todos lapidados por Gilmour.

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Wright e Gilmour: sempre parceiros.

Uma característica que chama muita atenção no trabalho é a profunda continuidade das músicas. A passagem de uma a outra é tão discreta. O álbum pode quase que ser ouvido como uma única grande canção, semi-interminável, em diálogo com seu próprio título. Esse álbum não é o ponto final da carreira do Pink Floyd, é reticências…

Destaco, de antemão, mais uma participação de Stephen Hawking nos vocais- na verdade, mais uma fala incidental- de canções do Pink Floyd- a primeira vez foi em Keep talking, faixa de The division bell. Agora, a canção Talkin’ Hawkin’, uma pequena quebra no percurso instrumental das faixas. A temática é a mesma da canção anterior, a comunicação humana, justamente proferida por um sujeito que, em princípio, teria nessa comunicação uma retumbante privação, mas, como sabemos, sua condição é de ruptura com essa suposta limitação. A canção em si é uma multihomenagem: a Hawking, a própria história da banda, numa polissemia de citações e símbolos.

Se o álbum é quase todo instrumental, resgatando, aliás, uma grande tradição da banda nos anos 60 e 70, alguns de seus títulos dizem muito, como que num longo diálogo, com o próprio Wright talvez. A faixa de abertura traz o mais que sugestivo título Things left unsaid. Aliás, a sequência de abertura, as três primeiras canções, é, a um só tempo, vigorosa e pungente. A partir da faixa Sum eclode um instrumental mais visceral, com guitarras mais cortantes, sempre com o teclado a sustentar harmonicamente em sonoridades crescentes, em loops vertiginosos. Uma satisfatória surpresa é a presença da bateria em primeiro plano instrumental, em algumas faixas, também relembrando outros tempos floydianos, como se ouve entre 69 e 74, principalmente. Aliás, no álbum todo há ecos que dialogam com outras sonoridades ao longo da carreira floydiana. Na faixa Skins, por exemplo, a bateria é pulsante, trazendo aa tona, a esta altura dos acontecimentos, o músico mais esquecido pelos próprios fãs da banda, Nick Mason.

Após essa subsequência, vem Anisina, uma canção que parece evocar o devir que o álbum sugere continuamente. A breve faixa seguinte, The lost Art of conversation, retoma o subtema do diálogo humano e suas limitações. Aí se inicia uma subsequência de canções muito curtas, algo inusual na história da banda, e amenas, como que um passeio em calmas águas, sem correntezas abruptas, o que se quebra logo nas cordas vorazes de Allons-y (1), faixa que faz jus ao melhor do Floyd, inclusive, em sua desconstrução rítmica, ao fim da música e passagem para Autumn 68- um diálogo tardio com a lírica Summer 68, do álbum Atom Heart Mother, de 1970? De todo modo, Autumn 68 é um interstício para se retomar o vigor das guitarras em Allons-y (2). E eis que chegamos à belíssima Talkin’ Hawkin’, já devidamente apresentada.

Eis que vem a subsequência final, adentrada por Calling, uma verdadeira chamada, uma convocação, conclamação, mais uma vez ao diálogo, aa presença. O arranjo de fundo dessa canção é algo tão belo, pura moldura sonora. Mas, nesse trajeto final, destaco com gosto Eyes to Pearls, uma música que parece traduzir a espera por um próximo movimento, pelo que virá, uma faixa inteira prestes a desaguar, sem que seu fluxo encontre, por fim, vazão. A canção soa a contenção, brilhantemente dedilhada. Talvez seja um preâmbulo para Surfacing que, como sugere o título, é um desabrochar de melodia em tempo e espaço, multidirecional, a se expandir, como que no próprio percurso sem fim a que o álbum inteiro nos convida. Afinal, pra quem criou o conceito de som quadrifônico, perceptível tactilmente, romper em tempo e espaço em melodia e harmonia não é tão desafiante.

Por fim, a canção Louder than words, intitulada sob a égide do profícuo subtema que atravessa todo o álbum. Uma canção com letra, composta por Gilmour e sua esposa Polly Samson, já devidamente incorporada aa história e aas honrarias floydianas. Visível e audivelmente, uma música criada para tons grandiosos, destoando até do curso do álbum. Porém compreensível. Era necessária uma canção que desse vazão, com letra, aos diálogos, despedidas e homenagens espalhadas e sugeridas por todo o caminho musical percorrido. De certa forma, é o amálgama de todo o álbum.

[Este clipe é uma lindura aa parte! Emocionante!]

[…]

It’s louder than words

The sum of our parts

The beat of our hearts

is louder then words

…………………………….

Louder than words

This thing they call soul

Is there with a pulse

Louder than words

[…]

São 17 faixas, 17 epifanias em melodia e harmonia. Há ainda mais do que falei, mas, sobretudo há muito pra se sentir. É um álbum muito franca e claramente sobre sentimentos, numa das mais belas e singelas homenagens que já vi e ouvi uma banda fazer a um de seus integrantes.

Afora tudo isso, em tempos de mp3 e youtube e consequente pulverização do próprio conceito de álbum, é animador ter em mãos algo que rema contra a maré, num belo trabalho de composição de imagens, de qualidade gráfica e do material que abriga o disco, resgatando o prazer de se ter um disco em mãos, com seu encarte, enfim, com a própria personalidade do álbum.

Se é verdade que “viagem” é algo que, plurissignificativamente, define a carreira do Pink Floyd, este álbum aponta para um viajar que se perpetua indefinidamente, num rio sem fim, tempo a fluir liberto, em tempos de, enfim, afetividades.

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Tudo puta


Eva, Pandora, Lilith… desde o alvorecer desgraçando a humanidade.

Bruxas, satanazes, sacerdotisas malditas.

 

Desde o início do sempre que nos lembramos.

Mulher é a parte ruim da buceta.

Mulher é um bicho que mesmo sangrando todo mês não morre.

Se mulher não tivesse buceta, não merecia nem bom dia.

 

 

Veladamente interdito ou explicitamente vociferado.

Mulher no volante: perigo constante.

Vestida assim, parece vadia.

Isso não é coisa de mulher.

Mulher, tirando a mãe, é tudo vaca.

Uma dama na sociedade, uma puta na cama.

 

Verdades construídas universais, por homens e por mulheres.

 

Dupla ou tripla jornada de trabalho.

Salários mais baixos.

Criminalização do aborto.

Feminismo é falta de pau.

 

 

Direitos não direitos; indecentes, na verdade.

 

MAS, PORÉM, ENTRETANTO, CONTUDO…

Uma flor pelo seu dia!

Parabéns por ser mulher!

Vamos jantar fora hoje?

Hoje é seu dia!

Ah, amor, deixa eu te ajudar com as coisas de casa.

FELIZ Dia da Mulher!

 

Entre o naturalizado desvalor e a hipocrisia cotidiana disfarçada em gentileza e candura, repousa um dos grandes flagelos da história da humanidade. Uma barbárie de sub-humanização, um misocídio ora silencioso, ora explosivo, datado do início dos tempos que nos foi, editadamente, concedido saber.

O Dia Internacional da Mulher, construído nas lutas da emancipação feminina, só faz sentido na Luta! E nada tem a ver com felicidade, a não ser aquela por vir.

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Menos cínico seria que fosse Dia das Putas. Ao menos, estas têm um valor, literalmente. Simples assim. Hoje, sem grandes reflexões profundas históricas, políticas ou filosóficas, nem mesmo linguísticas.

No mais, “Dia da Mulher” é o caralho! Ou, pelo trocadilho, claro, a buceta!

P.S.: Peço licença sincera pra remeter a meu texto de um ano atrás, o qual diz tudo em que ainda acredito: Não bastam flores! (E basta de espinhos…).

P.S2: Boas vindas ao blogue Feminagem, no ar a partir deste domingo, 08/03, nascido filho, ou pelo menos enteado, deste blogue, orgulhosamente com a participação da Aline, da Ana e da Andrea, nossas colunistíssimas! :)!

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