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O Conto do Mendigo – a dramaturgia transversa de M.Hink


 

 

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Há 16 anos, quando ainda era vivo, M. Hinke escreveu um texto dirigido pela saudosa Lala Schneider, primeira-dama do teatro paranaense, para o Festival de Teatro de Curitiba. Nascia de maneira irresponsável O Conto do Mendigo, ainda sem seu despretensioso subtítulo O Manual Prático de Bazófias, Fanfarronices, Patifarias e Demais Coisas Anárquicas.

O livro passou a infância e boa parte da adolescência adormecido numa gaveta, pois o autor era obrigado a ocupar a maior parte do seu tempo contando histórias para sobreviver. A despeito dos protestos de amigos que exigiam conhecer este ilustríssimo morador de rua, o Mendigo, sempre com artigo definido e M maiúsculo, só ganharia notoriedade muitos anos depois quando a Chiado Editora de Portugal o despertou com um beijo à moda principesca.

Lala sempre cobrou a publicação da peça, mas o autor, ocupado em ganhar a vida honestamente, tarefa que exige muita criatividade, dedicação e invencionice, sempre postergava esta empresa. O Mendigo, entretanto, ser historicamente marginalizado, insistia em não abandonar a companhia do seu criador. Lala, lá de cima, sentada em alguma bela nuvem, apontou seu dedo na direção do autor e, dando uma de suas inconfundíveis e deliciosas gargalhadas, gritou: “que se faça livro!” E a obra se fez.

Senhores, leitores, deliciem-se com estes pequenos aperitivos literários das aventuras do Mendigo espertalhão.


A moça, que na verdade fora moça nos tempos da avó de Judas, buscou desagravar o insulto recebido pelo indiscreto sacerdote pela via mais célere e, portanto, menos burocrática e corrupta da justiça dos homens: simplesmente enfiando a mão na cara de dom abade. O primeiro bofetão, indefensável, entrou que foi ligeiro, encontrando na face do religioso o prazeroso ressarcimento que a mulher buscava ao ser tratada por aquilo que muitos imaginavam que ela era, mas que na realidade era para ser só para seu amante, o falcatrueiro sacristão. O sacerdote, apesar de cristão, não era Jesus, e, portanto, não ofereceu a segunda bochecha para reafirmar sua fé. O sacristão, aturdido, tentava servir de barreira entre a companheira endiabrada e o sovado abade, o qual se esquivava não apenas dos vitupérios lançados pela ofendida, que doíam na alma, mas não no corpo, como também de novas investidas, chutes e pontapés, estes sim, que deixavam equimoses na carne; mas não no espírito. A vitória, momentânea, daquele impensável feminismo radical deixara o superior atordoado.


O MENDIGO:

Bom dia, autoridade! O que lhe traz por estas bandas?

SOLDADO: (azedume)

Bom dia só se for para os outros, porque para mim e para você não está nada bom! Esta praça está sob tutela militar e não pode ficar sendo frequentada por civis!

O MENDIGO:

Está certo, patrão! Simpatizo com a sua ocupação! Acoimar, coagir, obrigar, prender, supliciar! Invejável! (aplaude)

SOLDADO: (envaidecido)

Não precisa me bajular!

O MENDIGO:

É doce e honroso morrer pela pátria! (consigo) Embora o poeta que escreveu esta latinidade não tenha experimentado tal destino açucarado!


Vocês podem acompanhar muito mais dessas deliciosas aventuras pelo site mhinke.com e marcando sua presença no lançamento do livro, no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no dia 25 de junho às 19h.

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Quando começamos a defender a morte, ao invés da vida.


*Por Mariângela Marques

Do ponto de vista de uma internacionalista de formação e atuação, observando a banalização dos crimes de eugenia e limpeza social que nunca foram pautados como deveriam, crimes que muitos disseram preferir esquecer. Mas como esquecer se ele se prolifera há mais de um século?

Três adolescentes esfaquearam um médico de 55 anos de idade para roubarem a bicicleta. O crime ocorreu na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, e como consequência do esfaqueamento, o médico morreu. Ele morreu no hospital.

Em menos de 24 horas foi a vez de uma mulher de 31 anos,, em São Conrado, levar facadas nas pernas, com cortes superficiais. Ela pegou um táxi até uma UPA, mas não quis esperar atendimento. Ela passa bem.

Três dias depois noticiaram que uma chilena amante do Rio,  estudante, paisagista conhecida na sua cidade de origem, foi esfaqueada quando, passeando de bicicleta, na Glória, algum rapaz anunciou o assalto. Ela também passa bem.

Esse casos se assemelham por um motivo: a morte.

Não porque o primeiro morreu ou a segunda e terceira poderiam ter morrido, mas porque os brasileiros, mais especificamente os fluminenses e, apertando um pouquinho mais, os cariocas, estão declarando-se favoráveis à morte de quem comete crimes como os acima citados. Não estariam eles, os defensores da morte dos criminosos, também cometendo um crime?

Vejamos.

Nas redes sociais, assim como nos jornais de maior circulação, o perfil dos crimes que são manchetes de capa é específico, Zona Sul, chamariz turístico do Rio de Janeiro, levando seus leitores à defesa inconteste de punição exemplar aos praticantes de tais crimes, só vermos como o caso do falecido médico foi noticiado: esfaqueado por supostos menores.

Supostos menores exatamente no momento em que o Brasil parou, de novo, para discutir redução da maioridade penal!

Esses ataques apresentam a face mais cruel do país que, em 13 de maio de 1888, aboliu a escravidão, mas não aboliu a servidão. Os supostos menores são negros, moradores de favelas, devem ser punidos, se possível, com a morte, mas e o Thor Batista? Parece-me que ele foi absolvido… e ninguém falou disso, só protestou contra os crimes cometidos pelos pobres, que na dimensão das perdas reais no Brasil, nem se compara com os roubos das licitações públicas, licitações, essas, superfaturadas desde antes do Collor.

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Mas para que falar de algo mais complexo se a bola da vez é acabar com o crime?

Para acabar com o crime é necessário muita coisa, inclusive aceitarmos que somos gentrificadores, seres abomináveis que desconhecemos os discursos de ódio naturalizados em nossas defesas esbravejantes, tais como os crimes de ódio cometidos na limpeza social do Rio de Janeiro de Pereira Passos, Lacerda e Eduardo Paes, ou então a limpeza social cometida pelo holocausto brasileiro contra nordestinos, tem também a limpeza social manicomial.

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Não estão satisfeitos?

Temos a naturalização do crime de ódio da eugenia, assim como o crime de ódio julgado no Tribunal de Nuremberg contra o nazifascismo, mais especificamente o nazismo, um tribunal que deixou de lado a origem radical da eugenia do Reich, ou seja, o fascismo de Mussolini; ou a limpeza étnica praticada por Israel; os crimes de soberania cometidos pelos Estados Unidos da América… isso tudo pode, só não pode mexer com o meu lar?

Façam-me o favor!

O perfil do ódio contra o crime no Brasil é declaradamente de limpeza social: volta dos mercenários, punição extrema sem respeitar os direitos humanos, levar para casa o preto pobre que foi preso ao poste como negro pronto para o açoite. Justiceiros da Zona Sul, salve a minha integridade torpe enquanto grito “Fora PT”, compro passagens para morar em Miami e viro as costas para a desigualdade social por mim perpetuada… infelizmente, justiceiros, eu sou incapaz de reconhecer o fosso social que insisto em manter.

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Não, realmente, pedir proteção redobrada à minha vida, não importando o resultado desta defesa, não importando o assassinato dos meninos da Candelária, não importando as mortes nas favelas cariocas e da baixada fluminense, não importando a proliferação do tráfico de drogas e armas não é crime porque sou livre para pedir isso, mas o conteúdo do meu pedido, sim, é criminoso.

Está na hora de mudar o foco: a vida não deve ser banalizada; a maconha que eu consumo deve ser legalizada; a falta de perspectiva desses “criminosos” deve ser avaliada… quando banalizamos a vida do outro, banalizamos a nossa própria vida.

E para quem tiver curiosidade, o Brasil, em 2002, promulgou o Decreto n. 4.388, Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, que declara em seu Artigo 5o

 Crimes da Competência do Tribunal

1. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto. Nos termos do presente Estatuto, o Tribunal terá competência para julgar os seguintes crimes:

a) O crime de genocídio;

b) Crimes contra a humanidade;

c) Crimes de guerra;

d) O crime de agressão.

Mas enquanto o capitalismo brasileiro continuar sendo desconhecido internacionalmente, enquanto não houver deflagração de guerra, enquanto ajustes fiscais forem prioritários para as organizações internacionais financeiras, direitos humanos serão, realmente, acessório de alardes xenófobos.

Eis a nossa realidade.

 

Tristan Mari

Mariângela Marques

Mariângela Marques publicou como convidada do Transversos, pela primeira vez, em 15/04/2014, e é, atualmente, colunista do blog FeminAGEM.

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Poeta, novamente, convidado: a arte de Marco Dantas


É, mais uma vez, prazeroso publicar nosso velho conhecido Marquinho, de tantas lutas e jornadas. Pra quem quiser relembrar ou conhecer, é só clicar aqui.

 

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IDEIAS SUTIS

Ainda comungo daquelas ideias sutis:

Sentir o vento no rosto, rir e ser feliz

 

Reviso os livros sem deixar resquício

Ouço vozes que relembram o rebuliço

Para o passado não desconstruir o futuro,

Escrevo o presente e alço o que há de puro

Inconsciente ou não, sou amante da revolução

A arte eleva e me leva junto de seu coração

As palavras justas ecoam até o entardecer

Não quero repressão, nem permissão, quero você

 

Ainda comungo daquelas ideias sutis:

Sentir o vento no rosto, rir e ser feliz

 

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“Olá, moçada.

Sou Marco Dantas, carioca, funcionário público, bacharel em Letras, flamenguista e pai do Lucca.

Estou participando do II Concurso Literário Ler Uerj na categoria Poesia, com o poema “Ideias Sutis”.

A votação vai de 01/04 até 01/05 no site do Ler Uerj

https://leruerj.wordpress.com/concurso-literario/votacao/

Quem quiser e puder passar e votar em meu poema, ficarei super contente!

Estou usando o codinome M Devil.

Obrigado aos que já votaram e aos que votarão e um forte abraço!”

 

 

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Coisa de pobre


Sou pobre, moro no beco, pego busão cheio, suo, faço churrasco ouvindo samba, minha mãe é hipertensa e diabética, meu pai é pedreiro e rala pesado pra ela fazer seus exames no laboratório pago porque no posto demora meses. E exijo que sejamos tratados da melhor maneira possível, seja de camiseta colada ou laçarote na cabeça, e sabe o porquê? Porque meu pai assenta seu porcelanato, minha tia limpa sua casa pra ficar brilhando e cheirando bem, minha prima cozinha sua comida, lava suas roupas, e eu, madame, estudo na universidade pública com seu filho, e não tive que pedir licença pro senhorzinho pra entrar, você vai abrir a revista e ver meu nome lá, não no noticiário policial, mas na página de ciência e tecnologia, arte, do lado dos meus irmãos que estão invadindo, como baratas, que a senhora tem tanto nojo, a sua praia. A gente limpa, veste e alimenta a cara do brazil fachada, cenário de novela, do qual a madame se sente dona, proprietária legítima. Somos os pilares que sustentam isso tudo, somos o mal necessário que agora não tá entrando só pela porta de trás, conviva com isso e durma de olho aberto, porque a revolução é sorrateira e não vai passar na rede bobo.

 

Michele Flores

Michele Flores

 

 

Não sei que dizer de mim, mas os meus por si só me dizem. É o capiau, bicho que gosta tanto do mato que se confunde com ele, nele sou o sabor primitivo da linguagem sertaneja, o MC da zona oeste, com quem sou ritmo e poesia, as crianças daqui da rua jogando bola até amanhã. Se carece de nome, sou Flores, substantivo próprio e comum do que quiser florescer.

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Sobre banhos e abraços


Por Juscelino Bezerra*

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Ando me sentindo limpo demais. O excesso de banhos com sabonetes e shampoos, os desodorantes, os hidratantes e as pastas de dente me fazem menos humano.   O perfume da moda nos deixa simetricamente inodoros, e vamos por aí, de desodor assinado, impersonalizadamente  com grife,  dentes branquíssimos  gritando, visual limpíssimo, excluindo aqueles que são os outros, sem falar daqueles mais outros ainda que nos são invisíveis, que já são, por vacuidade, ignorados.  Mas às ruas das cidades, estamos expostos demais. Nelas, existe um outro cheiro vindo de algum lugar, que sorrateiramente  vai nos agredindo, ao ponto de querer nos tocar. Com o olfato treinado por algoritmos higienizantes, tenho medo da aparência deturpada por esse meu olhar discriminatório. Noutro dia, numa padaria, um mendigo que vive pelas redondezas, sorridente e simpático, ao perceber o meu olhar sobre ele, lá da calçada me pediu comida. Voltei até o caixa para lhe comprar um salgado, sem ao menos perguntar o que gostaria de comer, quando ele adentrou a padaria dizendo que preferia pão com presunto e que isto sairia até mais barato que o salgado. Em meu conflito e apesar de disposto a interagir, minimamente, pedi a moça do caixa que trocasse uma nota de dez reais para oferecer ao pobre coitado a metade daquele valor, logo imaginando que aquela situação geraria um paradoxo: Como se aproximar e entregar o dinheiro sem ter que o tocar? A pele encardida, endurecida, escurecida, me induzia um mau cheiro que a drogaria, ao lado da padaria, me disse através da protagonista branca  de cabelos alisados na novela do canal top da  televisão, que aquele mau cheiro, eu não poderia suportar, e me disse também que não há decência em quem escolhe viver nas ruas a trabalhar dignamente para ser alguém e vencer na vida como ela venceu. Horas antes, quando matava o tempo percorrendo a timeline do facebook, tinha assistido, pela metade, um vídeo onde um homem aparentemente de classe média, talvez em São Paulo, numa calçada movimentada, abordava de forma tranquila os passantes que se dirigiam provavelmente aos seus trabalhos. Ele os abordava e  lhes pedia abraços, sendo piamente ignorado por pessoas aparentemente limpas e bem vestidas; em contraponto, ele  recebia  a recíproca demasiadamente humana de abraços afetuosos dos sem teto.

Éramos mais humanos quando não tomávamos banhos. Os macacos se abraçam mais do que nós, os outros bichos se tocam mais do que os seres ditos humanos. Os tais cosméticos que o tal programa de tv me convenceu a comprar vêm acompanhados de insipientes efeitos colaterais: somos impulsionados ao não contato com estranhos que não usam produtos  limpadores de corpo. Nessa sociedade camuflada de cheiros, de aparência limpa, as pessoas se esquivam da solidariedade e da coletividade, ao passo que constroem propositadamente os seres invisíveis, mas  estes seres, invisíveis,  não são inodoros, e o cheiro também tem mãos, tem boca e nos tateia.  Imagino agora uma cena: eu que não sou mendigo, nem morador de rua, e ando padronizado de alguma caricatura razoavelmente aceita, aceita até demais para um nordestino que mora no sudeste, esbarro, enquanto caminho distraído na larga calçada do Copacabana Palace, com Carla de Sousa e Santos, personagem do conto A bela e a fera ou A ferida grande demais, da Clarice Lispector. Carla, com sua pele trigueira e com seu marido “self made man” que através de muito trabalho ascendeu socialmente, ela, momentos antes de seu insight ao encontrar o mendigo da ferida grande demais,  saindo do salão de beleza, indo ao encontro do carro estacionado, chofer ao volante,  me vê recostado ao seu carro enquanto faço uma ligação pelo celular, tocando com o meu jeans sujo à pintura metalizada e encerada do seu carro que acabou de sair do lava jato. Ela desvia o itinerário e finge não ver o seu carro,  e,  por entre os dentes,   com uma vontade enorme de cuspir de nojo dessa criatura sem finesse  que sou eu, simplesmente porque o  meu tênis surrado caminha pelas ruas da cidade em que ela não pisa. Esta coisa de não caminhar pelas ruas da cidade não faz bem às pessoas. No último documentário do Silvio Tendler, “Privatizações: A distopia do Capital”, alguém comenta e eu concordo que moramos não apenas numa casa, vivemos e moramos nas cidades.  O bom seria se todos os contatos neste lugar que vivemos fosse uma forma de comunhão, e não que a maioria deles fosse um desvio de algo que pretendemos ignorar.  Vou fazer campanha para que a humanidade passe a tomar menos banho.

*Juscelino Bezerra:  alencarino  morando no Rio de Janeiro há quinze anos, professor de matemática, fotógrafo apaixonado por arquivos analógicos encontrados (photo trouvée),  e mais um par de coisas que ainda vou descobrir pelos próximos anos e outras encarnações. Mantenho um blog de fotografia, www.coisadeacender.blogspot.com com imagens que parecem reais e outras imagens.

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CRIME VERMELHO


por Marcio Barros

O que está passando? Por que hoje existe tamanha falta de respeito e ruptura da tênue linha da amizade e do ódio? Hoje é quase um crime fora do papel constitucional apoiar o PT.

Jovens com menos de 30 anos, apoiando a volta da ditadura e da direita no poder!

Em uma visão pessoal, de acordo com minha vaga lembrança, vejo que o crime não está em apoiar esse ou aquele partido e sim na completa falta de bom senso histórico. Dizem que, no tempo em que o Brasil está sendo governado pelo PT, o país afundou em uma lama sem precedentes. Eu concordo que muitas coisas estão erradas como a supervalorização dos estádios para a Copa do mundo e o uso descabelado do dinheiro público. Muitos projetos e leis aprovados por nossa presidente Dilma não cabem no momento, mas me pergunto: se ainda estivéssemos na era FHC, teríamos tantas escolas, universidades, escolas técnicas etc… um país sem educação não pode chegar a lugar nenhum!

Nem todos os professores votarão na presidente atual, mas boa parte sim e isso é no mínimo curioso!

A inflação estaria controlada?

Conseguiríamos sair da miséria?

Eu passei dentro de uma sala de aula, o mandato do então presidente João Figueiredo, de uma certa maneira, alheio ao que estava acontecendo lá fora dos muros do colégio. A medida que ia crescendo minha geração, íamos nos dando conta de que algumas coisas tinham um preço bastante alto. A economia estava estabilizada a troco de amordaças, torturas, mortes inexplicáveis. Era um toma La da cá e cale-se.

O Sr. FHC teve também o seu mensalão, 200 mil votos comprados no segundo mandato, do caso FURNAS, da venda da PETROBRAS, da VALE DO RIO DOCE, do ministro Arminio Fraga elevando os juros de 37% a 45%… Para não me alongar muito, o fato que sim o governo passado, teve uma gestão com feitos que foram seguidos no governo Lula e Dilma, mas também tiveram bastantes casos de corrupção ativa e passiva.

Estou de acordo que o governo petista tem que mudar em muitos aspectos, mas não posso presenciar o desejo juvenil de retroceder e ficar calado. Me chamam de comunista e que não tenho o direito de opinar politicamente sobre o Brasil, quando estou fora vivendo na Europa. Uma prova cabal de desespero contra argumentos históricos de uma história recente. O que me preocupa é o uso banal da palavra, COMUNISMO.

Sabe-se lá que ideias tem essa juventude que aí está, que nunca ouviu se quer falarem de neoliberalismo e joga palavras ao vento taxando partidários, simpatizantes e qualquer pessoal que declare votar no PT de comunista. Viver em outro país não é tarefa nada fácil para qualquer nacionalidade.

Alguém que decide deixar toda uma vida, amigos, parentes, familiares, trabalho… para tentar algo novo e desconhecido bem longe de casa, no mínimo, merece o título de ¨louco¨.

A vida no exterior tem seus prós e contras. Discriminação racial, injustiça, fome, miséria, medo, difamação, entre outros. Preconceitos praticados também por brasileiros para com o brasileiro, revelando uma total falta de conhecimento político e social de um país repleto de casos de imigração e emigração.

Ao sair do meu país, não assinei nenhum documento dizendo que não poderia mais voltar ou opinar politicamente em nada do país!

Se não tenho mais o direito de ser brasileiro por viver fora, que direito nacional terei?

Ahh, o de votar!

Um pouco contraditório não acham?

Tenho que votar, mas não posso abrir a boca porque parte de população direitista me condena!

Tenho que votar e esquecer quais são as comparações entre os governos FHC e LULA!

Sou obrigado a votar e aceitar que jovens desinformados e sedentos por tirar o PT do governo me digam que não posso votar na Dilma!

Sinto muito por não estar na minha terra, não ver meus familiares, minha mãe, amigos, meu Botafogo, meu irmão. Mas não aceitarei que, mesmo depois de toda a covardia e desaparecimentos de pessoas na ditadura, alguém que nunca perdeu um Pai ou um primo, tio, filho, amigo… me diga que tenho que me calar e não difundir minha ideologia e meus pensamentos. Tal atitude revela a falta total de coerência ao defender uma ditadura militar no país. Mais que reformas políticas o Brasil precisa de uma reforma mental da juventude que já não se interessa pela própria história, tirando assim, suas conclusões baseadas em relatos nem sempre verídicos inseridos nas redes sociais. Pior seria se nesse momento de apelo a um novo golpe ou intervenção, chamem como quiserem; os militares estivessem de verdade no poder. Ai meus amigos, nem eu e nem vocês, estaríamos discutindo sobre política ou partidos corruptos. Por que ou não teríamos computadores e nada que facilitara a comunicação tao rápida, como acontece com as redes sociais no atual momento.

Me parece completamente louvável que defenda suas idéias, partidos, ideologias etc… Mas tente antes de qualquer coisa, saber em quem vota e principalmente o porque do seu voto.

As pilantragens virão à toná independentemente do partido envolvido! Hoje o Brasil está fora do mapa mundial da pobreza e nós, brasileiros no exterior, temos os mesmos direitos e deveres que os que estão em solo pátrio. Podemos escrever, opinar e dizer o partido com que mais temos afinidades, seja por que motivo for. Não deixaremos de ser brasileiros por termos cruzado uma fronteira, um oceano, muito pelo contrario! Amamos cada dia mais o nosso Brasil!

Somos aproximadamente 500 mil brasileiros fora do país, número suficiente para mudar uma eleição. Não somos comunistas e crime vermelho cometeram os da ditadura nos seus áureos tempos!

Não tente denegrir minha imagem, só porque não concordo com as suas ideias. Não tente desmerecer minha vida por não viver no Brasil, porque queiram vocês ou não serei sempre brasileiro e com orgulho. Una eleição não vale sacrificar amizades que tiveram os seus motivos para irem viver em outro país.

Hoje mais que por mudanças, essas pessoas cegas pelo ódio político antipetista, esquecem que por falta de candidatos melhores, votamos não nesse ou naquele partido, nesse ou naquele candidato… votamos em quem pode nos levar a cama com a consciência mais tranquila. Viva o povo brasileiro!

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100 dias nas Filipinas – Parte II


por Andressa Maxnuck

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Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkok e que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividi a narrativa em duas publicações: previamente a esta foi publicada uma Parte I.

OCIDENTE/ORIENTE

De fato a globalização fez milagres no sentido da homogeneização de hábitos e de gostos entre povos. Mas ser uma brasileira na Europa é bastante diferente de ser uma sul-americana no Sudeste Asiático. Pra começar, eu era a mulher mais alta do país – do topo dos meus reles 1,67m (era frequentemente indagada se no Brasil todo mundo era alto como eu – adorava!). Em segundo lugar, o português é absolutamente estranho aos ouvidos filipinos: certa vez me perguntaram em um café se eu era italiana. Ao responder que era brasileira, a moça, quase tendo descoberto a roda, disse: “ah, então isso que você tá falando é espanhol!” Na verdade, fiquei até feliz com o reconhecimento aproximado – em geral, as pessoas me ouviam falando e me miravam com o olhar mais exótico do mundo (pra quem acha absurdo/improvável que não se possa confundir português com italiano ou com espanhol, experimente distinguir tagalog de coreano ou de mandarim).

Outra questão é que, visualmente, você é ocidental. Peruanos, noruegueses, franceses: todos estão no mesmo saco. Se você não é oriental, você é ocidental – e, por tabela, rico. Em Manila, não tinha quase qualquer problema em ter “a cara da riqueza” – ao contrário, os filipinos são dos melhores povos que já conheci e sempre me tratavam de forma carinhosa, educada, cooperativa. Mas, quando ia pro circuito turístico, virava praticamente representante do Fundo Monetário Internacional: preço dobrado, assédio, gorjeta. Eu, que sempre fui turista-de-terceiro-mundo, não gostei muito dessa valorização repentina.

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Propaganda de creme clareador

PADRÕES ESTÉTICOS

Nas Filipinas – e, no Sudeste Asiático em geral, segundo descobri – há uma obsessão por clareamento da pele (penso que na mesma proporção da fissura sul-americana por pele bronzeada): são hidratantes, sabonetes, cremes para o rosto, sessões em salões de beleza. Conforme observei quanto à língua (que a verossimilhança com acento do inglês norte-americano tendia a ter implicações de classe econômica), há uma aparente divisão entre tom de pele e estrato social: os de pele mais clara costumam ser mais privilegiados, os de pele mais escura, menos – como sói ser, aliás, em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. Atores, modelos, apresentadores costumam ter a pele mais branca, ditando o padrão de beleza. Achava inusitado, porque penso que a pele mestiça é o que torna os filipinos – e também os tailandeses – mais bonitos aos meus olhos em comparação com outros asiáticos, mas, enfim: devo ter lido muito sobre o Mito das Três Raças, do Darcy.

Para evitar a exposição aos raios solares usa-se, corriqueiramente, guarda-chuva nas atividades ao ar livre. Tentei comprar um guarda-sol oriental, pra ficar com pinta de local, mas não encontrei em lugar nenhum: talvez se trate de uma invenção ocidental para a nossa ideia romântica de Oriente. No mais, sem renegar minhas origens, quando ia à praia/piscina investia, como de costume, na melanina, e ficava estatelada qual uma cobra sob o sol do meio dia – enquanto na areia/clube ficava todo mundo embaixo da barraca, de manga comprida e de sundown.

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Os filipinos se protegem sob a sombra de um guarda-chuva

SALÃO DE BELEZA

Passados poucos dias no país, achei que já era tempo de recobrar a dignidade e decidi realizar atos de higiene e de estética. Cheguei ao salão filipino e encontrei no cardápio de depilação: Brazilian Wax. Que se tratava, nada mais, nada menos, de deixar a bichinha 100% calva. Dá um especial sentimento de patriotismo ser nacional de um país que é conhecido internacionalmente por design de virilha.

A manicure/pedicure pinoy (*filipina) tem algumas diferenças, quais sejam: – elas não fazem as “mãos” e os “pés” por etapas (primeiro cutícula, depois base, depois esmalte dos dois membros, em cada uma das etapas): elas fazem uma mão inteira, depois a outra mão inteira, o pé direito inteiro, depois o esquerdo inteiro; – elas não usam pauzinho de laranjeira: as manicures têm as unhas dos dedos polegares maiores pra fazer a limpeza do excesso de esmalte!!; – rola uma massagem e um estalar de dedos no processo (maravilhoso).

MASSAGEM

Definitivamente a melhor coisa da Ásia é o acesso – seja em termos de possibilidade econômica, seja em termos de disponibilidade a cada esquina – à massagem. Isso é muito, muito maravilhoso. Me sentia totalmente Akeem (Eddie Murphy) em Um Príncipe em Nova York (“Coming to America”, em inglês – meu filme preferido, aliás, conquanto eu ame muito o Kubrick e o Truffaut), como uma monarca cercada de cuidados. Milhares de lojas de massagem pela cidade inteira. Massagem com óleo, sem óleo, sueca, tailandesa, corpo inteiro, só os pés. Tudo isso pela bagatela de 250 pesos filipinos (o correspondente a R$12, mais ou menos). Eu ia toda semana e ficava mais feliz ainda ao pensar que acabara de me proporcionar o nirvana ao custo de uma garrafa de meio litro de Skol. Deus não é brasileiro coisíssima nenhuma: Deus é filipino, tem olhos puxados e fala tagalog.

SERVIÇOS

Nunca fui tão bem tratada na vida. Como mencionei acima, os filipinos são muito queridos, muito amáveis. Quando há uma relação de consumo então, essa educação e solicitude se exacerbam. Até São Paulo virou paradigma baixo nível.

Eram situações como: 1) adentrava a padaria de manhã e era saudada com um “bom dia” sorridente pelo padeiro, pelo caixa, pelo faxineiro, pelo segurança; 2) passava na porta do restaurante aonde havia almoçado dez horas antes e era saudada pelos garçons; 3) saía do banheiro público e ouvia um “obrigada, senhora, volte sempre!”; 4) tomei um capuccino na cafeteria e a atendente me perguntou “senhora, esse vai ser seu pedido nas próximas vezes, pra eu memorizar?”. Isso é inimaginável no Rio de Janeiro, aonde você tem de implorar de joelhos por um chopp para aqueles tradicionais garçons mal-humorados – o que costumamos achar a marca da descontração carioca.

CINEMA

A indústria cinematográfica norte-americana é dominante nas Filipinas: os filmes, com áudio inglês, não costumam ter legenda em tagalog. O cardápio costuma ter aqueles roteiros com explosão de Casa Branca, drones, 7a Frota, silos nucleares e o diabo-a-quatro. Um sexo-drogas-porrada-no-México do Oliver Stone é o máximo de indie movie que consegui encontrar. Tentei ver um filme filipino, mas ele não tinha legendas em inglês.

Diante da velha história de mexicanos, negros, vietnamitas, árabes and so on retratados no cinema como vilões, achei que, estando no Sudeste Asiático, testemunharia um sentimento de solidariedade filipina ao verem, mais uma vez, orientais como terroristas. Pois, não: no filme pirotécnico a que assisti, a plateia vibrava a cada virada do governo norte-americano – especialmente quando o agente estado-unidense virava-se pro norte-coreano e o coagia com um “speak English, man!”. Realmente não entendi nada. Quer dizer, entendi uma coisa: ganham os EUA quatro vezes – com a renda do cinema, com a reafirmação do hegemon, com o marketing do terror e com a cooptação de mais aliados.

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Filmes em cartaz nas salas do cinema Glorietta

SEGURANÇA

Me sentia muito segura em Manila – e não só no Leblon, Makati, onde morava, mas também em Madureira, Quezon City, onde trabalhava. Aliás, é muito raro eu não me sentir segura fora do Rio.

Mas algumas situações me chamavam a atenção. Primeiramente, não era comum eu vislumbrar agentes de segurança pública: via-se muito segurança privada. Além disso, o tamanho dos trabucos que os seguranças carregavam era de impressionar o dono-do-morro – sobretudo em um contexto, ao menos visual, de paz (penso que isso tem muito a ver com o soft power americano no país, e com a decorrente incorporação do sentimento de “estamos sendo atacados” estado-unidense).

Outra coisa curiosa era a revista na entrada de qualquer centro comercial ou shopping center: detectores de metal e abertura de bolsas. Juro que nunca me passou pela cabeça alguma ameaça de ataque terrorista – mas eles devem lá saber o que fazem. Não me opunha a abrir a minha bolsa para conferência, mas era, com frequência, dispensada pelo segurança. Devia ser a minha cara de ocidental.

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Revista na entrada do Mall of Asia, o maior shopping da Asia

De tudo o que vivi e relatei, pude me certificar de que mudar de país não é apenas fazer uma transferência geográfica e apertar a tecla SAP. É reaprender a viver. Aprender a cortar com garfo e colher. Descobrir qual o caminho do metrô. Aonde consertam sapato. Como se chama água oxigenada.

É viver intensamente momentos que, normalmente, são automatizados: a ida pro trabalho, pro supermercado, a leitura do cardápio. É se impressionar com a pobreza alheia, depois de ter-se acostumado com a miséria na porta da sua casa, na sua própria cidade.

É receber estímulos visuais e psicológicos 24 horas por dia, 7 dias por semana.

metro manila

Produção cinematográfica filipino-britânica: Metro Manila, de Sean Ellis.

ilo ilo

Embora seja uma produção cingapurense, Ilo Ilo (nome de uma província das Filipinas) retrata uma situação muito comum, a das filipinas que migram para trabalhar como empregadas domésticas em outros países

 

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100 dias nas Filipinas – Parte I


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por Andressa Maxnuck

Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkoke que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividirei a narrativa em duas publicações; segue-se, a esta, uma Parte II.

MAPA-MUNDI

As Filipinas são um arquipélago no Sudeste Asiático composto de mais de 7.000 ilhas, localizado entre o Mar das Filipinas e o Mar da China Meridional. Esse território nada contíguo é dividido em três grupos principais de ilhas: Luzon (no norte), Visayas (no centro) e Mindanao (no sul). Eu morei por alguns meses na capital, Manila, uma das cidades mais populosas do mundo (as Filipinas têm quase 100 milhões de habitantes), dividindo-me entre a vizinhança de Makati City, onde residia (aka o Leblon de Manoel Carlos filipino), e a de Quezon City (aka Madureira pinay – adjetivo que se refere a quem tem ascendência filipina), ambas na grande região de Metro Manila.

LÍNGUA

As Filipinas estiveram sob a influência espanhola por quase 4 séculos e foram um território estadunidense por 50 anos. Assim, pode-se concluir que todos os habitantes falam espanhol correntemente, certo? Não: os filipinos são fluentes em inglês e do espanhol herdaram apenas os nomes próprios, as placas de ruas e as denominações de alguns objetos. O tagalog (ou filipino) e o inglês são as duas línguas oficiais do país (dentre cerca de 80 idiomas falados no arquipélago).

Percebi que um dos indicadores sociais por lá era, justamente, o sotaque do inglês: quanto maior a verossimilhança com o acento norte-americano, maior a possibilidade de a pessoa pertencer a uma classe econômica privilegiada. Desse modo, desenvolvi (de início, de forma inconsciente; depois, ao me dar conta, voluntariamente) o meu próprio sotaque de inglês – algo próximo do acento do Borat – o que provavelmente deixava os pilipinos imaginando que eu vinha de um lugar muito underground.

 

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

COMIDA

Eu sempre fui fã da gastronomia como esporte radical; assim, não me assustei com a imersão na cozinha asiática. A comida filipina, em especial, não é das mais saborosas – me lembrou muito meus elaborados jantares, preparados sob a égide de receitas de Paulo Tiefenthaler, do Larica Total (“cozinha de guerrilha”). Mas, estando cercada de tantas boas cuisines internationales, me diverti muito: fui a restaurante indiano, cingapurense, persa, tailandês, japonês. Muitas vezes pedia a comida sem fazer ideia do que vinha, de propósito, só pra ter a surpresa.

No entanto, confesso que de vez em quando era brabo. Um dia recebi peixe frito com arroz para o meu café da manhã e, em outro, pensei ter pedido uma simples salada de manga com caranguejo desfiado e foi-me servido um primo do sarapatel. Quando descobri um fast food francês quase chorei de emoção por poder comer uma salada pela primeira vez, após um mês.

Além disso, sempre achei que não tinha frescura de comer qualquer bicho esquisito, legume exótico ou comida folclórica. Até o dia em que fui conhecer Binondo, a primeira Chinatown do mundo (localizada em Manila), quando encontrei a fronteira que separa homens de crianças. E bati em retirada para o McDonald’s.

A propósito, a primeira comida estragada na Ásia a gente nunca esquece.

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Lechon kawali: um dos pratos da cozinha filipina, de influência espanhola.

BEBIDA

Na linha das experiências gustativas, tive a oportunidade de tomar o pior refrigerante do mundo: Sarsi. Feito de salsaparrilha e vendido apenas no Sudeste Asiático, sua fábrica foi comprada pela Coca-Cola – evidentemente que toda essa informação eu só obtive após ter ingerido 10ml da gasosa, buscando no Wikipedia, instigada por saber de que era feito aquele líquido repugnante.

VESTUÁRIO

A despeito da larga influência ocidental, em um aspecto os filipinos mantêm tanto a sua tradição quanto a coerência com o clima dos trópicos: quando se trata de vestimenta formal. Nada de terno calorento, à la inglesa – nos compromissos oficiais os homens filipinos usam o barong tagalog. Homens pinoy sapateando – com louvor – na cabeça do macaquismo praticado pelos demais países periféricos.

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baralong tagalog masculino

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Binondo, a primeira Chinatown do mundo

 

ESPORTE

O esporte nacional é o basquete – o que me causou muita impressão, uma vez que a estatura média da população é de cerca de 1,55m. Há quadras de basquete por todos os lados (há a conveniência de elas serem menores e, assim, poderem ser mais numerosas e abrigarem mais filipinos, que são muitos). Segue-se, nessa preferência, o boxe inglês, certamente reflexo do soft power americano. De futebol, nem sinal.

Contemporaneamente, parece que os filipinos elegeram a corrida como atividade física preferida. Ao cair da noite (não sei se isso se relaciona com a obsessão nacional por uma pele clara, o que contarei posteriormente), saem pessoas de todos os cantos pra correr nas praças e calçadas.

RELIGIÃO

Os Filipinos são de uma religiosidade que nunca vi: sejam católicos (cerca de 80 por cento), sejam muçulmanos (aproximadamente 10 por cento), todos se dedicam com a maior honestidade de propósito à metafísica.

Certa vez, fazendo as unhas, em um dado momento todos no salão de beleza pararam suas atividades para fazer uma prece, acompanhados pela transmissão no rádio. No feriado da Páscoa – que lá começa naquinta-feira -, todo o comércio e serviços fecham as portas por 2 dias, período em que as pessoas se dirigem às igrejas ou às casas de seus familiares, no interior. Eu mesma me senti compelida a participar: fui à Penha local, Quiapo, e fiz a Visita Iglesia – uma peregrinação nas igrejas próximas. Pessoas acompanham em caravanas levando cruzes; outros se autoflagelam; uns poucos, mais radicais, se crucificam (ressalva: a prática é desencorajada pelo catolicismo e proibida a não-Filipinos). De impressionar a massa de católicos-não-praticantes brasileiros.

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

RELATIVISMO CULTURAL

Sei que diferença cultural é algo a se respeitar. Mas confesso que não me senti confortável nas algumas oportunidades – até então inéditas na minha vida – em que me deparei com mulheres usando niqab, aquele pano preto que cobre as mulheres da cabeça aos pés, deixando, apenas, uma fenda para os olhos. Há um considerável fluxo de muçulmanos no país, seja de nacionais – as filipinas muçulmanas são mais adeptas do hijab, véu que cobre apenas os cabelos e pescoço -, seja de estrangeiros – o país tornou-se um inegável hub de turismo e de negócios no Sudeste Asiático. Imagino que seja a mesma consternação que a visão de uma mulata semi-nua sambando na Sapucaí deve causar aos mais conservadores visitando o Rio. Mas, ainda assim, sinto-me bem mais à vontade com popozudas de shortinho, habitués aqui do purgatório da beleza e do caos.

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Filipina muçulmana usando hijab

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Moça, provavelmente estrangeira, usando niqab

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRANSPORTE

Há muitos meios de transporte nas Filipinas. A grande dificuldade é conseguir circular no trânsito enlouquecedor. Sim, amigos: há congestionamentos piores do que os de São Paulo.

O meio de transporte mais conhecido – e exclusivo desse país – são os Jeepneys. Afora terem a tarifa mais barata dentre as demais opções, eles param em qualquer lugar para embarque e desembarque. Além disso, essa gambiarra automotiva – os jeepneys são os Jeeps usados pelas tropas americanas durante a II Guerra Mundial “alongados” – é um charme. Dentro dele cabem 20 passageiros filipinos – o correspondente a 8 brasileiros, no máximo.

Outro modal são os Trycicles (do gênero dos pedicabs ou rickshaws). Gente, esse é o melhor meio de transporte do mundo: quando eu descobri que eu poderia usá-los pra chegar no meu trabalho em Quezon City/Madureira (eles não circulam em Makati City), eu fiquei realizada!

Houve ainda um dia em que eu tomei outra condução em direção ao trabalho: uma carona na moto do MMDA officer – o correspondente ao nosso Guarda Municipal. Foi só emoção no transporte filipino, rs.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

ESTRANHEZAS

É aquele lance da relatividade cultural: as coisas são certas ou erradas dependendo do lugar aonde você está. Aparentemente, nas Filipinas arroto e flatulência em público não só não são inadequados, como, às vezes pensava, são endossados. Por outro lado, percebi um certo desconforto com espreguiçamento ou bocejo na rua. Vai entender.

Banda cult filipina – Ang Bandang Shirley

 

Imagens de pinturas de Juan Luna, o herói das artes plásticas filipinas:

https://www.google.com.br/search?q=juan+luna+paintings&espv=2&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=WrPFU-v8IY7gsASExoGwAw&sqi=2&ved=0CBsQsAQ&biw=1366&bih=643

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50 horas em Hong Kong


*Por Andressa Maxnuck

 

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Hong Kong é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China que foi colônia britânica até cerca de 15 anos atrás. Isso era tudo o que eu tinha de informação do lugar até decidir conhecê-lo. E foi suficiente para ensejar dois equívocos cruciais, descobertos assim que aterrissei: 1) em Hong Kong não se fala mandarim – ensaiei à exaustão a pronúncia de Ni Hao (“olá”, em mandarim), querendo parecer simpática, para depois descobrir que deveria ter dito “Ha Lo” (“olá”, em cantonês), caso tivesse querido ser compreendida. Foi como saudar um espanhol em catalão; 2) em Hong Kong não se fala inglês – esqueça que HK esteve sob influência inglesa até 1997: é tão difícil achar alguém pra te dar informações na língua inglesa quanto encontrar uma agulha no palheiro.

Trata-se de um exemplo impressionante de urbis moderna e populosa. Conhecida como a “cidade global da Ásia”, abriga uma infinidade de arranha-céus, de letreiros luminosos, múltiplos serviços, diversidade étnica. Esqueça Nova York como referência de pós-modernidade, babe. E pra prover morada pra essa gente toda, teve-se de construir muitos, mas muitos edifícios, com centenas de apartamentos cada um – em um dado momento tentei fazer uma conta rápida pra descobrir quantas pessoas moravam em um balança-mas-não-cai que avistei e penso que passava das 3.000 pessoas.

 

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Ao mesmo tempo, há muita beleza natural e amplitude. HK consiste de 18 distritos administrativos, espraiados por 3 ilhas principais: Ilha de Hong Kong, Kowloon e Novos Territórios. Em Lantau, uma das ilhas, por exemplo, está o Tian Tan Buddha, a maior estátua de Buda sentado ao ar livre da Ásia, simbolizando justamente a relação harmoniosa entre o homem e a natureza – o que faz muito sentido, considerando que a estátua fica no topo de uma montanha e que o teleférico que leva os visitantes até lá passa pelo meio do mar e da relva.

 

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No mesmo lugar fica o Po Lin Monastery, o maior templo budista de Hong Kong. HK, aliás, é o principal centro de budismo da China: há cerca de 360 templos budistas nessa região administrativa, o mesmo número de igrejas que há em Salvador. Ou seja, foi quase como passar o fim de semana na Bahia.

 

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A contumaz orientação budista não significa, contudo, que se trate de um povo dócil e comedido (a propósito, na qualidade de budista, estou careca de dizer que budismo não é sinônimo de passividade): os honcongueses e-m-p-u-r-r-a-m quando vc está no caminho deles, não importando se é um rapaz de seus 20 ou uma senhora de seus 90 anos (esse último exemplo não é fortuito – eu realmente presenciei essa situação). Além disso, os honcongueses (em geral, os mais idosos) gritam em ambientes públicos qual a molecada soltando pipa no subúrbio carioca.

Na linha budista-não-é-passivo, no sábado à noite fui para Lan Kwai Fong, região de bares e boates, me jogar na night life da ilha. Tudo ótimo: boas cervejas, gente animada, música legal. Aí você fica feliz que está em um lugar exótico, passeando, o mundo ficando odara e bebe pra cacete. E depois, na hora de voltar pra casa, se dá conta de que está, nada mais, nada menos, do que na China. Agora tente chegar no seu hotel lendo os letreiros das ruas em cantonês, darling: 40 minutos dando voltas no quarteirão.

Ah: lembre-se também, nesse momento, que em Hong Kong usa-se a mão inglesa no trânsito e tente não ser atropelada durante esse ínterim.

Comer na ilha tampouco é das coisas mais simples do mundo. Como disse acima, letreiros e afins costumam estar redigidos em cantonês e as habilidades da população com a língua inglesa são limitadas. E claro, como eu gosto de tudo sempre mais difícil, quis comer em um restaurante underground, que nenhum turista jamais visitou. Tive até sorte, porque o cardápio tinha fotos das iguarias. Óbvio que não temi pelo uso do hashi, porque eu sou descolada e sei usar os talheres orientais há anos: isto é, isso até chegar o meu momento de desossar um ganso com palitinho.

Não, não vi gente comendo cachorro. Em compensação, vi todos os tipos de animais expostos no açougue – cabeça de porco, ganso, arraia, entre outros.

Um passeio que me recomendaram muito foi o Symphony of Lights, o maior espetáculo permanente de som e luz do mundo: todos os dias, às 20hs, há uma coreografia de música e luz projetada sobre os edifícios que ficam ao longo da orla de Tsim Sha Tsui. Pra falar a verdade, constatei que a virada do ano em Copacabana bota esse showzinho no chinelo. Assim que, passados alguns minutos de projeção, fui dar uma volta pela Avenue of the Stars, um tributo ao cinema feito em Hong Kong. Tietei a estátua do Bruce Lee e botei minha mãozinha sobre o espaço na calçada reservado ao Jackie Chan, claro.

 

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Por último, uma dica para os futuros visitantes da Ásia: privacidade é um conceito ocidental. Lembre-se sempre disso quando for usar o banheiro.

Amor à Flor da Pele (Fa Yeung Nin Wa ou花樣年華), obra-prima de Wong Kar-Wai, diretor pertencente ao movimento chamado de “Segunda Nova Onda” do cinema de Hong Kong e ganhador do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes, de 1997.

http://www.youtube.com/watch?v=Z51LB7ls6q8

 

 

 

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A BOLA (Texto do convidado Marcio Moreira Barros)


Sendo Agildo rapaz erguido do alto de seus 1,90m, braços fortes com músculos impressionantes, bíceps cuidadosamente desenhados diariamente na academia, coxas e pernas resistentes como cimento, moldadas para o futebol, aquela pelada da rapaziada do Aterro do Flamengo prometia. Tinha de tudo: garçons,  gerentes, caixas, faxineiros e às vezes os donos de bares e restaurantes, não só do Flamengo, como de quase toda a cidade. Tinha gente que vinha de Copacabana,  Leblon,  Ipanema, Caxias, Osvaldo cruz …

Agildo adorava aquele evento e quase todos os dias estava ali para uma partida. Os amigos, festejavam sua chegada com alvoroço e gritaria. Era ele quem trazia debaixo do braço a mais querida e admirável da noite.

A bola.

Essa menina que todos queriam pegar,  beijar, comer em campo diante de todos, humilhar o amigo adversário  passando diante dele com formosa maestria.  A bola, esse objeto redondo de camadas de couro de vaca, costurada a mão com linha de pelo de cabra, em um trançado que somente as Funcionárias da Associação de Fazedores Oficiais de Bola de Couro Profissional (FAFOBCP) – preferi traduzir a sigla, uma vez que seria impossível por dedução acertar o significado da mesma em questão.  Voltando, ela redonda, sexy, travessa e teimosa, vinha agarrada no sovaco do Agildo que imediatamente a deixava em liberdade libertina, andando de amigo em amigo sem nenhum pudor. Ousava se esfrearr nas pernas de qualquer um que quisesse chutar.  Masoquismo seria elogio para essa doida. Agildo, já aquecido, passava vaidosamente óleo hidratante nas pernas. Para alcançar os tornozelos,  tinha que flexionar os joelhos e tal atitude fazia com que sua bunda empinasse um pouco, desvelando os suspiros da mulherada que ia assistir à pelada. Tinha a mulher do garçom, a do padeiro,  do gerente até mesmo as que estavam ali, porque trabalhavam no local atendendo ao público na rua, umas até aceitavam explicar melhor o que faziam dentro dos motéis da localidade, caso a dúvida ainda fosse grande. Trabalho duro o dessas meninas que atendem ao publico às tantas da noite. Para colocar uma sigla, ficaremos com SACN, Serviços de Atendimento ao Cliente Noturno.

Formava o time Zé Caolho, que é de bom tom esclarecer que tinha o apelido pela boa mira e não por estrabismo ou  ausência de boa visão em um dos globos oculares em si. Zé Caolho na lateral direita, na esquerda Cabecinha, um cearense do bar Tripózio. No meio campo, Pandeirinho, Gaguinho e Luisinho. Na defesa, Raspa-tudo, Trancoso,  Filé de Borboleta e Amarildo. No gol, Galo Cego, e no ataque Agildo e Mula Manca. A pelada mal começava e já tinha tomado de letra um gol do time adversário formado por trombadinhas, digo, garotos do Flamengo.

Agildo indignado com o resultado inicial, literalmente pega a bola coloca no centro de campo e passa para Zé Caolho que com visão de águia lança para Mula Manca, que chuta de primeira, pegando na veia um foguete contra o gol do oponente. 1 a 1. O meninos confabulam no centro de campo e dão o passe inicial para o seguimento da partida. Um tal de Azedo dribla de forma humilhante todo o time de Agildo,  passando por Luisinho,  levando a bola por baixo das pernas de Zé Caolho, que inutilmente tentou fechá-las em um tempo de atraso, junto aos gritos de “iiiiiiiih, vai deixar?” que sai das meninas do atendimento noturno. Passava por Trancoso, que quase quebra a coluna girando para a direita, enquanto Azedo ia pela esquerda. Frente a Galo Cego dá aquela paradinha e chuta apontando a direita. Galo Cego salta para o mesmo lado e a bola redonda como a cabeça do cearense morre nos fundos da rede desempatando a partida. Agildo no alto dos seus 1,90m, recolhe a bola e choroso ostentando seus músculos para quem quisesse ver, termina a partida alegando que a bola era sua e nunca mais souberam de Agildo e nem da sua bola.

 

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