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Sobre aquilo que falávamos quando estávamos vivos


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Meu amor, eu tenho tanto, tanto a te dizer

Não vou lembrar aqui a pessoa incrível que você foi – isso todo mundo sabe

Não vou falar sobre a educação pública, na qual você sempre acreditou e pela qual lutou, com tenacidade e coerência. Eram tantas as tuas qualidades… Não vou falar da tua irritante paixão pelo Flamengo, que nunca disse nada para alguém que odeia futebol como eu. O futebol, aliás, era das poucas paixões que não tivemos em comum, creio. Pelo menos você também não tinha saco para aquelas corridas bobas de carrinhos. Fórmula 1 que chamam, eu acho. Por outro lado, o samba que eu amo, também não era muito a tua praia. Fazem 25 anos precisos que te conheci. Seriam as nossas bodas de prata, salvo engano. Um quarto de século, 25 anos me dão pouca inclinação para falar bobagens

 

Não, Anderson, eu preciso de outras coisas

Você mesmo uma vez me disse que eu era uma amizade que te definia

Então aqui vai: falar de você é descrever quem eu sou

Falar de mim é contar quem você foi

 

E pensar que a morte para nós foi engraçada, quer dizer, não, a morte nunca é engraçada

Mas conosco ela fez esforços circenses para se tornar uma piada cósmica de mau gosto

A quantidade de amigos que você perdeu, os que eu perdi, os que perdemos em comum

Tínhamos as nossas listas da morte e víamos com pavor e perplexidade o aumento dos nossos cemitérios

Não havia como este não seu um assunto recorrente entre nós

Mas a morte é uma senhora vetusta, porém doidivana e cheia de caprichos

Que por fim instalou você na minha lista

O que será que isso quer dizer?

Que eu sou o próximo?

Ou que eu viverei até mesmo muito mais do que gostaria?

 

Atravessamos esse Brasil de carona sem dinheiro sem cartão de banco em uma época em que celulares sequer existiam

Juntos, éramos tão fortes, não éramos?

Juntos, éramos tão corajosos

 

Você não imagina como a sua morte me pegou de surpresa

Eu estava em uma cidade-buraco poeirenta em fronteira de estados perdida no mapa como tantas que conhecemos

À noite, já sabendo da notícia e arrasado, acabei parando dentro de uma van cheia de gente bêbada

Com umas meninas muito doidas dançando em pé com o veículo em movimento de porta aberta – alguém aí falou em segurança no trânsito?

Acabei parando em um forró com pessoas que eu nunca havia visto na vida – é impressionante como mesmo depois de morto você continua me levando a lugares inacreditáveis – lembra do Piauí?

Isso é poder, meu amigo, isso é para poucos

 

Tenho certeza que você teria adorado essa história – quase ouço seu riso

Tenho certeza que, a título de cerimonial, você teria considerado tais exéquias bastante satisfatórias – mas você jamais saberá disso

Tenho certeza de que isso te comoveria mais do que rezas, orações e todo esse caralho a quatro com asa que nunca significou porra nenhuma nem para mim nem para você (“caralho a quatro com asa”, linda expressão que você cunhou em alguma reunião de CA perdida no tempo, lembra?)

Sim, me despedi de você da forma como vivemos mesmo:

Fechando bar depois de bar deixando para trás um lastro de latas de cerveja e guimbas de cigarro e muitas gargalhadas, sim, comemoramos as escassas vitórias e as não menos majestosas derrotas

 

 

É lindo ver como você era querido, são tantas homenagens, tanta gente devastada

Você conseguiu enlutar metade do Rio de Janeiro, bem literalmente

Agora andam te chamando de “gigante gentil”, acredita?

Se você tivesse recebido esse epiteto vivo, e fossem outros tempos, eu te zoaria de “gigante meio veado”, é certo – a troça de lado a lado sempre fez parte integrante da nossa relação – deem-me licença de eu caçoar do meu amigo morto, por favor

 

Mas agora, falando sério, por que você me deixou sozinho nessa escuridão?

Custava ter me esperado? Por que essa pressa? O que eu faço agora?

Eu sei que essa estúpida bola de barro não te mereceu, mas eu mereci

Para quem eu vou ligar a qualquer hora da madrugada?

Quem vai me ligar?

Você se manda assim de repente e cá fico eu nessa terra ainda mais triste e muito mais só

Você sabe muito bem que nesse mundo de injustiças

a felicidade é uma indecência a que nenhum dos dois nos permitimos

 

Pelo menos resta a honra de o ter chamado de amigo, o que já não é pouco,

Mas falta muito para preencher o vazio do teu abraço

Pelo menos você escapou do naufrágio do envelhecimento

 

Eu só sei que já sinto saudades imensas das nossas conversas que passavam do Egito para Marte em velocidade extraordinária

Eu só sei que em tempos de emburrecimento coletivo, de escolas sem partido, de candidatos fascistas

O brilho da tua inteligência se apagou em um céu desesperado por luzes

Eu só sei que não te verei mais aos sábados ou domingos

Eu não te verei mais na Tijuca, eu não te verei mais na lapa nem em Santa

Quem sabe no centro do rio, quem sabe no nada…

 

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Após uma longa e dolorosa pausa, me despeço de você, pela vez derradeira

Daqui a pouco tenho que sair, estou mudando de apartamento, tenho que pagar aparelho dental para filha

Enfim, esse prosaico cotidiano que alguma hora vai me engolir de novo e me tirar desse transe

O mesmo cotidiano que nos enlouquece, por paradoxo, também nos salva do horror

Você está sendo enterrado hoje, e eu nem poderei estar com você, porque estou longe, no coração do poder desse país amaldiçoado que te tratou tão mal, por ser negro, por ser grande, por ser delicado, por ser militante

Não se perde alguém como você impunemente

Eu queria ter te dito muitas dessas coisas enquanto você estava vivo. Morto, nada disso te ajuda

Que fique pelo menos essa lição para os vivos: a vida passa como um rato na sala. Respeite quem te respeita, ame quem te ama e entregue o resto para o diabo porque ele sabe o que fazer

 

 

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Cassandras


 

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Não vou falar sobre impeachment, Dilma e Temer. Já fiz isso muito e cansei. E agora, ao que tudo indica, é tarde. Avisei várias vezes neste mesmo blog que uma coisa é ter direitos duramente adquiridos atacados pelo PT e pela Dilma, mesmo com ela aderindo ao programa de austeridade, como tentou de última hora. O PMDB e o PSDB serão muito mais agressivos, tanto nos cortes do ajuste, como no cancelamento de direitos trabalhistas históricos, como as reformas da previdência e da CLT que se anunciam já deixam claro. Avisei isso como uma Cassandra, e fui chamado por uns de petralha, e por outros de governista, por causa disso. Mas, como disse, deixa, por enquanto pelo menos, para lá. Vou contar minha ida ao teatro recente, em Brasília, que, mesmo sendo menos importante, pelo menos foi mais divertida.

É impressionante como comigo até uma simples ida ao teatro se torna uma aventura extravagante. Fui ver uma peça do Festival Internacional de Teatro de Brasília. Um grupo de SC, que faz apresentações em espaços não convencionais, estava montando a história de Cassandra (sim, a mesma do parágrafo de abertura deste texto) em uma boate de strip-tease no centro da cidade. Como não tinha ingresso (claro), cheguei com duas horas de antecedência para conseguir um na fila de desistências. Como ainda sou relativamente novo por aqui, não dimensionei que o local, o tal do Setor Comercial Sul, é o coração da crackolândia da cidade. Sem exagero, não passei nem cinco minutos sem que alguém muito detonado não viesse me pedir algo (geralmente cigarro). A área era tão degradada, que até os cachorros pareciam usar crack (sem sacanagem, tinha um que estava muito doido, se masturbando em uma mureta dessas que dá em jardim). Fazia até os lugares mais inóspitos do centro do Rio parecerem a Avenida Champs-Élysées.

Claro que tinha como piorar. Quando faltava “só” uma hora para o começo do espetáculo, chegou um sujeito e se juntou a mim na fila de espera. Um desequilibrado que começou a despejar sobre mim as suas experiências de encontros com discos voadores. Ele me contou histórias mirabolantes de OVNIs que mergulhavam na água e besteiras quejandas. O auge foi quando ele me confessou achar muito estranho que, apesar de ter visto discos voadores dezenas de vezes, ele nunca conseguira avistar nenhum alienígena nas janelas das naves. Minha cara de desespero, de tedio e a minha digitação frenética no celular não o intimidaram, e eu passei 50 longos minutos ouvindo toda a sorte de baboseira. Quase disse uma hora que ele estava na fila errada, que aquela era a fila do teatro, que a fila do crack ficava na esquina seguinte. Na verdade, meu desespero era tamanho que se ele pedisse, eu ia lá comprar uma pedra para ele me deixar em paz. Mas não. O maluco queria ir ao teatro mesmo.

Depois disso tudo, eu já estava pensando: melhor essa peça valer muito a pena, porque depois de duas horas dando pinta na crackolândia e aturando papo furado de disco voador, só o que me faltava era encarar teatro ruim pela frente. Mas de cara já tive a primeira surpresa desagradável da noite: a apresentação foi realizada em inglês, e até agora não entendi o que o espetáculo ganhou com isso. E essa não foi a única opção equivocada tomada pelo grupo. Escolheram uma abordagem cômica para contar a história de Cassandra, o que, evidentemente, pode ser válido. Mas me soou um tanto estranho colocarem uma Cassandra apaixonada pelo seu estuprador (Agamenon), ainda mais vindo de uma companhia que na sua apresentação diz “tratar temas contemporâneos”. Em uma época com tantas iniciativas de denúncias coletivas de violência contra a mulher, certamente não seria esse o recorte que eu escolheria.

A peça teve seu ponto alto quando Cassandra começa a reclamar dos autores gregos, como Eurípedes, todos homens, que a chamam de maluca. Ela tira um livro da bolsa (anunciando ser “As Troianas”), finge que vai começar a ler e começa a recitar de “The Winner Takes It All” do Abba. Eu acharia mais genial se ela de fato introduzisse o texto grego nessa cena, para debochar que fosse, mas enfim, funcionou bem desse jeito também. Fora isso, a peça se sustentou em uma imensidão bastante previsível de piadas sobre sexo (nada contra, só acho que é possível diversificar) e no inglês macarrônico, que tirou boas risadas da plateia, mas que, para mim, esconde uma certa falta do que dizer. O perdeu definitivamente a montagem foi texto, fraco e preguiçoso, que desperdiçou a ótima ideia do cabaré o excelente material que é a história de Cassandra.

Porque Cassandra é uma poderosa metáfora, dessas que são fundadoras da cultura ocidental. Sua capacidade de ver as desgraças que se aproximam, conjugada à sua incapacidade de mudar o curso dos eventos, tornam-na a própria imagem da impotência. Os seus gritos e os lamentos das troianas ecoaram pelos corredores do tempo, sem exageros, da Antiguidade até os nossos dias. Temos o direito de modernizá-la, é claro, e de fazermos o que quisermos com ela. Como metáfora fundadora, ela pertence a todos, e é legítimo se apropriar das suas tragédias para levantar questões que na Grécia sequer eram cogitados. Mas essa história tão potente está acima da capacidade de manejo dos envolvidos nessa produção quase infeliz que assisti, na quarta, no dia do impeachment de Dilma Rousseff. Em suma, trataram-se de ambições demasiadamente grandes para a capacidade do autor do texto.

E é justamente daí que vem a minha última (juro) reclamação. É claro que não existe uma lei exigindo isso, mas é uma tradição que peças teatrais dialoguem com o momento histórico. É essa capacidade do teatro, de responder ao que acontece no exato instante, na rua, que o torna infinitamente superior a artes menores como o cinema (brincadeirinha). Raramente vi bons espetáculos que não inserissem algum comentário sobre os acontecimentos da ordem do dia. Não que eu esperasse ouvir um “fora Temer”, mas achei muito estranho um grupo de teatro deixar um momento histórico como o que vivemos passar em branco.

No mais, que semaninha…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O ouro é dela e ninguém tasca


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Nesses primeiros dias de jogos olímpicos no Rio de Janeiro, uma mulher, negra, da Cidade de Deus e gay assumida conquistou a primeira medalha de ouro do país nesta edição dos jogos. Um feito, sem dúvida. Mas a sequencia de eventos foi por demais desconcertante. Surpreendente foi ver as mais variadas nuances políticas e ideológicas se apropriarem, para os seus devidos fins, da linda vitória de Rafaela Silva no judô. Foi curioso, e ao mesmo tempo constrangedor, ver até mesmo discípulos do Bolsonaro se apropriarem da vitória de Rafaela para venderem a sua, muito entre aspas, “ideologia”. Mas, se pensarmos bem, de certa forma, nada de novo.

Esportes, assim como tudo mais na vida, não têm nada de neutro. Os seus (bons) resultados podem ser arrastados de um lado para outro para justificar praticamente tudo. Hitler tentou usá-los para demonstrar a supremacia ariana. Esbarrou nos negros atletas americanos iniciando a sua organização política para se emancipar do sistema apartheidista das leis Jim Crow e se deu muito mal (30 anos depois, os Panteras Negras viriam a brilhar em olimpíadas, de uma maneira ainda mais política, organizada e emocionante, mas no mesmo sentido).

Como dizia a alta malandragem das escolas cariocas da década de 1980, agora parece que querem “tarrar” a medalha da Rafaela, atribuindo-a ao Brasil, às Forças Aramadas, à meritocracia, ou a qualquer outra coisa. Mas, de todas as apropriações estapafúrdias, a pior foi a feita pelo discurso da meritocracia. Entre memes equivocados de facebook e observações do Galvão Bueno sobre a “capacidade de inclusão social do esporte”, todos fingem ignorar que igualdade de condições não existe. Ayn Rand é um produto da cultura anglo-saxã que por lá mesmo pouco se aplica. Aqui, serve menos ainda. A mobilidade social, via esporte ou qualquer outra via, é uma ilusão de vitrine do capitalismo. É uma porta estreita pela qual poucos passam. Ainda assim, não faltaram comentários sobre como a moça, coitada, não necessitou de incentivos do Estado, esse Leviatã, para lavar para casa o seu ouro.

Vi postes lembrando que Rafaela foi militar da Marinha, entre as várias coisas que ela, como qualquer ser humano, em sua vida multifacetada, foi. E praticamente atribuindo a sua vitória aos supostos incentivos que ela teria recebido dessa Instituição. É sério isso? A Marinha sempre foi a mais aristocrática e racista das Forças Armadas. Não é à toa que foi de lá que veio a maior insurreição militar da história do Brasil, a Revolta da Chibata.

Porém, e isso é o mais perturbador, as loas acabaram quando veio a público que ela, além de gay, sustenta uma relação afetiva com uma menina há três anos. Aí os seus problemas começaram. De heroína da Marinha e da livre iniciativa, os bolsocomentários das redes sociais adquiriram contornos de uma agressividade singular. Claro. Esperável. Infeliz e contraditório como só o Brasil consegue ser. Pobre? Ok, se a pessoa ganha uma medalha nas olimpíadas. Negra? Ainda vai, se isso servir ao discurso de que com esforço pessoal chegaremos lá. Lésbica? Aí já é demais! Manda a mina rápido para a crucificação antes que ela sirva de exemplo para outras mulheres. De heroína nacional a “Geni e o Zepelim” em menos de 24 horas. Isso deve ser um recorde olímpico.

 

Rafaela Silva já pode processar todo mundo (inclusive a mim) pelo sequestro moral da sua história, se é que isso existe. As lições mais importantes de Rafaela têm pouco a ver com judô. Elas nos mostram o quanto ainda temos que evoluir como sociedade. O quanto somos racistas, machistas e homofóbicos.

 

O duvidoso legado para a cidade

 

Meu problema com essas olimpíadas em si não se diferencia em nada do problema com a copa do mundo. Além das remoções que muito sofrimento já trouxeram para a população, o que vai ficar para a cidade? Até agora ganhamos a inflação mais galopante do país e dos últimos tempos. Também, recebemos uma imensidade de obras superfaturadas e coladas a cuspe (tanto que muitas despencaram antes da estreia). Elas servirão para alguma coisa? O prognóstico não é animador. Vi recentemente uma série de fotos mostrando o abandono de estádios e estruturas de cidades olímpicas em outros países. São chocantes as imagens de Pequim e Atenas, por exemplo, em que você vê estádios majestosos e vilas olímpicas completamente abandonados. Parques aquáticos imensos e vazios (no Rio, imagino aquelas piscinas se tornando repositórios de mosquitos – a dengue agradece). Eram estruturas faraônicas demais, ou então redundantes, de manutenção cara para estruturas desnecessárias, e que portanto não foram incorporadas à vida orgânica das cidades onde estão instaladas. Sua construção só pode ser justificada pela corrupção e/ou beneficiamento do setor de construção e do capital (até agora, o único que saiu de fato vitorioso dessa história toda).

No mais, vejo muitos amigos se divertindo acompanhando os jogos. Por vocação e formação, tenho poucas inclinações para policiamentos. Como se diz por aí, “Boa noite pra quem é de boa noite, e bom dia pra quem é de bom dia”. Divirtam-se. Eu não consigo. A alegria do militante é o futuro.

 

 

 

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Homens que entendem de prostituição


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Aviso, de antemão, que o texto é pesado. Se você quer continuar em um jardim cor de rosas, melhor pular para o próximo post, abrir uma foto de gatinhos ou qualquer coisa que o valha. Este último mês uma acalorada discussão em torno do projeto de lei que regulamentaria a profissão de prostituta (conhecido como Gabriela Leite) tomou conta de redes e fóruns dos movimentos sociais e, acredito, não sem razão. O projeto levantou uma discussão que há muito deve ser levantada sim, e levantou na paralela muitas outras problemáticas. Acho um tanto desconfortável escrever sobre este tema. Abordar o assunto prostituição sem cair em moralismos ou respostas estereotipadas não é nada fácil, mas vamos em frente.

Gostaria de começar me colocando no lugar da minha geração: a de homens beneficiários da revolução sexual e, especialmente, da liberação sexual feminina. Nunca paguei por sexo na vida. Não precisei e nunca me interessei. Mas, mesmo assim, a prostituição me “atravessou o caminho” muitas vezes. E nem sempre de maneira suave. Morei muitos anos nas imediações da Lapa, e só de lá eu teria umas boas centenas de histórias para contar. Mas vou me reter em duas, por demais exemplares, e de fora da minha Lapa querida. Ambas, como se verá, serão centrais para a argumentação a respeito do PL Gabriela Leite.

A primeira deu-se há mais ou menos 20 anos. Eu ia às vezes beber uma cerveja em um bar na Praça Mauá (eu faço todo o meu planejamento em botequim). Ele era daqueles bares antigos, com bancos estilo tamborete, altos, de frente para um balcão. Como estávamos na Mauá, área de marinheiros, havia uma tosca folha de caderno com uma cotação “Real – Dólar – Euro” escrita à mão colada na parede. Eu, jovem e tolo, achava esse ambiente divertido até que uma noite, algo aconteceu para mudar a minha opinião. Estava eu em um desses tamboretes, dois ou três lugares depois, havia uma outra alma dessas também afeitas à solidão. O cara devia ter uns dez anos a mais do que eu e também só estava tomando a sua cerveja sozinho em paz, quando de repente ouvimos gritos e algazarra vindos da rua. Em frente ao bar, um homem enorme estava espancando uma prostituta. Eu me levantei e me dirigi para fora. Para minha surpresa, o meu involuntário companheiro tomou a mesma medida. Para surpresa maior ainda, quase de imediato todos os garçons, umas poucas prostitutas que estavam lá dentro também e uma velhinhas com cara de moradoras da Gamboa se atiraram em cima da gente, bloqueando nosso caminho, dizendo coisas do tipo “não façam nada / ele é o dono da rua / ele vai matar vocês”. Com a confusão, o cara percebeu o movimento dentro do bar, tirou uma arma e direcionou-a mais ou menos na minha direção. Saí para beber uma cerveja e terminei testemunhando um espancamento, com duas velhotas cada uma agarrada em um dos meus braços implorando para eu não me envolver e uma arma apontada, ainda que um tanto vagamente, para a minha cara. Pelo menos, com a confusão, o espancamento parou e a prostituta fugiu. Ninguém precisou falar nada: só pelo corte de cabelo dava para perceber que o agressor era um policial.

Cena dois. Dez anos atrás. Ilha do Algodoal. Eu fiz uma viagem a trabalho pelo norte e aproveitei um fim de semana livre para ir conhecer a tal ilha. Muito bem recomendada. Me disseram ser um paraíso. Até era. Mas, à noite, a região mudou muito de figura. Tomando uma cerveja no único bar local (eu estava viajando sozinho) me aparece uma senhora me oferecendo a filha, que não podia ter mais do que 11 anos de jeito nenhum. Além de ter sido colocado naquela criança uma espécie de vestidinho, ao que tudo indica com o objetivo de torná-la sedutora, ela havia sido pesadamente maquiada (e muito mal maquiada), o que só acrescentava ainda mais horror à cena geral. Eu ia começar a fazer um discurso, mas lembrei de onde eu estava. Lembrei que estava sozinho, em uma terra cujos códigos desconheço, à beira do Atlântico e à margem do Amazonas. Lembrei que não havia avisado que eu iria a Algodoal, e que, portanto, ninguém no mundo sabia que eu estava ali. Naquela terra de pistoleiros, não consegui imaginar situação melhor para uma pessoa “ser desaparecida”. Então, limitei-me a declinar da oferta de cara feia e não fiz nada. Acho que um pouco da minha covardia se explica, nesse caso, pelo que estava acontecendo no Pará naquele exato momento. Isso não tem nada a ver com o tema prostituição, mas creio que vale lembrar uma outra história. Resumindo muito, como disse, estava viajando a trabalho. Comecei meu périplo por Boa Vista, em Roraima, e lá, fiquei sabendo que em Belém, uma menina, por uma contravenção estúpida qualquer, havia sido colocada em uma cela com vários homens. É claro que ela foi muito estuprada. Eu via os noticiários de televisão e jornal, e nada do episódio ser noticiado. Na etapa seguinte da viagem, segui para Manaus, me perguntando se essa notícia terrível chegaria ao sudeste. Quando fui para Belém, a notícia estava finalmente circulando em cadeia nacional, passando inclusive no JN. Eu estava em Belém, pouco antes de embarcar para a Ilha do Algodoal, quando até o Arnaldo Jabour falava sobre o assunto em suas croniquetas. Na época, perguntei para os professores paraenses com quem estava trabalhando o que eles achavam daquilo, e normalmente a resposta era algo do tipo: “ah, esse tipo de coisa acontece aqui o tempo todo!”, ou então, “ah, aqui acontece coisa muito pior!” (não tive coragem de perguntar o que poderia ser pior). Enfim, todo o episódio reforçou  a percepção de que eu estava em uma terra de ninguém.

Como falar sobre o assunto sem essas bases? O auge da discussão acerca do PL se deu em um debate, tenso do início ao fim, na Fiocruz. Neste, duas palestrantes se posicionaram a favor do PL, e duas contra. A fala de Eloisa Samy, vinculada ao grupo das feministas radicais, foi a mais esclarecedora sobre as limitações do projeto. Trata-se de uma lei exígua (não são nem dez artigos) e vaga, que não estabelece por exemplo quem garantiria e qual o regime dos direitos trabalhistas dessas profissionais (CLT, autônomo, temporário?). Não se trata em absoluto de deslegitimar um projeto elaborado pelas próprias prostitutas. Muito pelo contrário. Por mim, não há um único senador ou deputado federal que eu não trocaria, feliz, por uma profissional do sexo. Troque o nosso Congresso Nacional por uma Convenção das Putas e nós, de certeza, estaríamos todos melhor arranjados. Elas sabem mais do que eles do que o país precisa. Trata-se apenas de criticar as deficiências do projeto.

Uma lei sobre prostituição que não crie mecanismos de punição para policiais proxenetas  e abusadores é uma lei sem dentes. Uma lei sobre prostituição que não encare o fato de que a maioria das pessoas entra na profissão ainda menor de idade, e não crie nenhum mecanismo para evitar o tipo de cena que presenciei no Pará, é uma lei sem alma. Ignorar isso é brigar com a realidade, e quem briga com a realidade sempre perde. Eu já odiei muito aquela mãe. Por anos, eu a condenei a penas severas em tribunais imaginários. Hoje, ao lembrar dessa história, eu só vejo dor. Para chegar a esse ponto, aquela pessoa deve ter provado cada uma das misérias dessa terra e experimentado todos os sofrimentos dessa vida (o mesmo, infelizmente, diga-se da sua filha). Enquanto houver a pressão da fome, fica um pouco deslocado falar em prostituição como empoderamento do feminino.

A lei também não lida com diversas outras questões levantadas pela realidade, por exemplo, a da violência sexual. A maioria das pessoas, creio, nem sequer entende que uma prostitua pode, sim, ser estuprada. Assim como não entendem prostitutas também se apaixonam, têm sentimentos românticos, depositam grandes expectativas em projetos de casamento e de maternidade, assim como a maioria das mulheres deposita,  uma vez que no patriarcado tais projeções são fortemente inoculadas nelas desde pequenas. Da mesma maneira, estão elas sujeitas a todas as formas de violência a que qualquer mulher está.

Para concluir, eu diria que qualquer projeto de regulamentação da prostituição enfrentaria tremenda resistência de um Congresso avassaladoramente hipócrita e conservador (se é que a justaposição desses adjetivos não é uma redundância). Então, por que se desgastar para aprovar uma lei ruim que não resolve nada ao invés de lutar por uma lei que, ao menos, funcione?

Eloisa enfrentou o tema com destreza e escapou das armadilhas do moralismo, sempre a espreita quando o assunto é prostituição. Ela limitou sua argumentação aos aspectos jurídicos e demonstrou de maneira convincente que o PL não atende às necessidades reais das principais interessadas, não importando de onde tenha vindo o projeto. Por isso, está sofrendo agora, entre outros ataques, acusações de ser transfóbica. Acho sempre lamentável ver alguém ser desqualificado em um debate com acusações aviltantes, seja por razões políticas ou meras picuinhas pessoais. Já passei por isso e, neste ponto, me solidarizo inteiramente com ela.

 

 

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O evangelho segundo Michel Temer


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A minha desvinculação do PT é muito antiga. Antes da eleição de Lula para presidente, eu (e muitos outros) já víamos que aquele projeto, naqueles moldes, estava dando água. Foi uma mistura de alianças indefensáveis (como a chapa Garotinho com Benedita da Silva para governo do Rio de Janeiro) e concessões (consolidadas na forma da carta ao povo brasileiro) que me levaram, precocemente, a enxergar os limites da capacidade de transformação da sociedade daquele projeto.

No entanto, apesar de ter mantido distanciamentos e críticas todos esses anos, eu nunca tive dúvidas acerca de um ponto: a única saída aceitável para o impasse em que fomos metidos seria pela esquerda. Qualquer retorno da “velha elite Justo Veríssimo” significaria um retrocesso enorme. E devido a essa certeza, assim como a uma grande irritação conta a histeria conservadora de direita que assola o país há quase uma década, quantas vezes não me flagrei defendendo um governo que na verdade eu sou contra… É hora, no entanto, de admitir: a realidade do governo Temer está se mostrando aquém do além das minhas previsões mais pessimistas. E sinistras.

Corrupto, esse governo é de cima a baixo, e possivelmente muito pior do que o PT jamais poderia ser. Mas não precisava deixar isso tão claro, montando o ministério mais criminoso que se tem notícia na história republicana (sete indicados na lava jato, e o próprio presidente agora é inelegível). A extinção da Controladoria Geral da União é a garantia de roubalheiras em níveis nunca vistos (e que, aliás, não serão vistas, sem o órgão e com a conivência silenciosa da imprensa). Todo o espetáculo armado não passou de um circo, tanto de mídia quanto de judiciário. Isso nunca teve nada a ver com corrupção. E isso não podia estar mais claro do que está agora. Depois da extinção, pelo Temer, da CGU, para você que bateu panela, só resta fazer o disse meu amigo Ernesto Xavier: “Encaminhe-se até a cozinha lentamente de cabeça baixa. Pegue a panela e a acolher de pau. Peça desculpas a elas”.

A política externa do José Serra é uma repetição quase automática da PEB nos tempos de FHC. Abandonamos a prioridade às relações sul-sul, viramos as costas mais uma vez para a América Latina em busca de acordos de livre comércio com países que se industrializaram 150 anos antes da gente, com um olho cobiçoso por uma entrada na OCDE. Isso é bom? Vejam o que aconteceu com o México depois da entrada na Nafta e no clube dos ricos e tirem as suas próprias conclusões. Voltaremos  a ser o gigante bobo do continente, seguindo a observação perspicaz de uma diplomata venezuelana.

A ponte para o futuro não passa de um programa de ajuste recessivo, como qualquer estudante de economia de segundo período sabe. Vai baixar a inflação, mas ao custo de um desemprego brutal, e como os cortes de gastos são direcionados criteriosamente na direção dos mais pobres (para juiz não faltou aumento, é evidente), ao invés da política de distribuição de renda, como a que vinha sendo realizada, mesmo entre erros e acertos, teremos uma política antidistributiva, do tipo que retira dinheiro da saúde, da educação e dos programas sociais em benefício do rentismo. Com a alta dos juros, que, eu presumo, se seguirá, isso significará dinheiro saindo da população em geral e migrando para o sistema financeiro. É bom para os bancos, portanto, ruim para as pessoas. Seus efeitos já se fazem sentir por todos os lados. Na UnB, onde dou aula, muitos  alunos já estão trancando seus cursos. Sem as bolsas e os programas de assistência, eles não têm dinheiro para pagar passagem para ir à faculdade. Simples assim. É muito triste de se ver. E não adianta me dizer que a Dilma estava fazendo a mesma coisa. Ajuste capitaneado por um governo do PMDB, assim como pelo PSDB, dói muito mais. Podem escrever o que estou dizendo. O PT, apesar de tudo, ainda depende de alguma base sindical e tem que prestar contas em alguma medida. Ou pelo menos negociar. Já esses outros caras, eles não têm compromisso nenhum com classe trabalhadora. A ponte para o futuro: algo me diz que eu vou dormir embaixo dela.

A escolha de Fátima Pelaes para a Secretaria de Políticas para Mulheres ultrapassa os limites do escárnio. Afogada em denúncias de corrupção, não consigo imaginar mulher menos de acordo com as atuais pautas feministas: além de evangélica, é contra o aborto mesmo em casos de estupro. Uma catástrofe! Essa indicação, como já veremos, só pode estar de acordo com o projeto de recuo em todas as frentes do campo social. A propalada reforma e extinção de ministérios e secretarias, essa, não se realizará. Não é da natureza do Michel Temer extinguir cargos. Não é quem ele é. E tampouco está no DNA do PMDB atitudes de enxague da máquina pública. Só serão extintos os que não se coadunarem a pauta ultraconservadora que se está implementando (como a Secadi, que acabou de ir para o saco). Os cortes são amparados, no plano discursivo, pela justificativa do equilíbrio das contas públicas, mas, na prática, o que se corta obedece a uma lógica que nada tem de contábil, mas sim de uma opção política.

A influência da religião neste governo levou o jornal El Pais a falar em “República evangélica”. É claro que a bancada evangélica cresceu em espaço e atuação também nos governos petistas, chegando ao ponto de um pastor, e um dos mais medíocres, assumir a presidência da comissão de direitos humanos da Câmara, em choque frontal com as reivindicações dos movimentos sociais. Mas, agora, a situação está rumando para um redimensionamento inaceitável. Além de Pelaes, Temer quase entregou o Ministério da Ciência para um pastor da universal, homem de confiança do bispo Edir Macedo, Marcos Pereira. Diante da reação negativa, recuou, e o bispo teve “que se contentar” com o Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior. A bancada faturou ainda o Ministério do Trabalho e a liderança do governo na Câmara. Isso é o ovo da serpente.

Pessoas que tomam decisões irracionais baseadas em um livro preconceituoso e idiota escrito há quase dois mil anos não podem ter o poder político de definir como os habitantes do século XXI devem viver as suas vidas. Eu moro confortavelmente no século XXI, eu quero fazer aborto, usar drogas e dar a bunda e não quero nenhum pastor vigarista e que não paga imposto, de uma religião opressora e completamente retardada,  no centro do poder criando leis e tomando decisões para encher o saco. Mas, infelizmente, este movimento está em perfeita sincronia com a grande ofensiva conservadora que surgiu no lastro do PT.

A nossa elite política e econômica é patriarcal, branca e escravocrata. Ela só transita bem em um mundo de negros subservientes que abrem portas e mulheres que conhecem o seu lugar. Qualquer cenário diferente desse lhe é hostil e alienígena, e os cortes criteriosos de secretarias e ministérios voltados para o empoderamento de minorias são a prova irrefutável de qual projeto para o país está sendo desenhado. O pior de todos: o de sempre. Aquele que fez aniversário de 500 anos há pouco tempo.

É claro que muitas dessas desgraças devem-se a atuação do próprio PT. É impossível ver o partido recosturar alianças com PMDB, de olho nas eleições municipais, e não pensar: “bem-feito. Mereceram”. Ou ainda: “não aprenderam nem entenderam nada”. Eu não acredito mais em política parlamentar. Nunca acreditei muito, na verdade. Via-a no máximo como uma arena a ser disputada,  mas sem prioridade. Mas agora acredito menos ainda. Acredito muito mais no Black Bloc que protege um manifestante com seu escudo. Acredito na molecada que está ocupando as escolas, dando aula para muito professor. Acredito nos movimente sociais autônomos. Acredito nas mulheres. Acredito nos negros. Acredito nos índios. É daí que virá a força motora das transformações mais profundas e significativas que precisamos, que queremos. E que, depois de 500 anos, merecemos.

 

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Mais um dia para sentir vergonha de ser homem


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Escrever às vezes é tudo que nos resta quando a noite fica longa demais, amarga demais. Eu queria, egoisticamente, não ter sabido o que eu soube. Não ter lido o que eu li. Ver, eu não vi (acredito no relato das companheiras). Acho que ninguém deveria ver. O horror, o velho horror, mais uma vez, chega-nos pelas portas e pelas janelas, forçando as frestas, afrouxando as dobradiças. É da natureza do horror entrar assim…

Não tenho muitas palavras para falar sobre as notícias da última barbárie vinda, dessa vez, do Rio de Janeiro (poderia ser de qualquer lugar). Uma revolta absoluta, a náusea até o enjoo? Tudo isso é pouco. Só consigo pensar em formas de mandar solidariedade a essa pobre menina. O certo a fazer, nesse caso, antes de tudo, é o que a família pediu: não divulgar o vídeo (não consigo imaginar o que levaria alguém a fazer isso, mas enfim…), não divulgar dados a respeito dela (nome, moradia etc.). Na verdade, a não ser que você seja alguém que tenha algo de concreto para contribuir com o andamento da investigação ou para o acompanhamento e apoio da vítima, você não tem nada que saber essas coisas mesmo.

Para além de uma certa curiosidade mórbida, que eu não consigo entender, embora saiba que é comum, tenho visto variadas reações ao ocorrido na internet. É verdade que esse tipo de violência extrema tem a capacidade de abalar até as nossas convicções mais profundas. Mas, por exemplo, a despeito de todo o ódio que sinto neste momento, continuo sendo contra a pena de morte, antes de tudo por ser uma medida que, no nosso país, só ia aumentar o número de negros e pobres mortos (ou alguém tem alguma dúvida sobre quem seriam os condenados a essa pena?). O código penal francês, muito mais draconiano que o nosso (só para começar, eles têm prisão perpétua), em um caso como esse, daria 20 anos de prisão para os envolvidos (estupro é 15 anos, com agravantes – no caso, por ser coletivo – vai para 20). Mas o endurecimento das penas nos remeteria ao mesmo problema já apontado: quem seriam os punidos por sentenças mais duras? Para quem acha exagero, basta lembrar do filho do Eike Batista, livre, leve, solto e de Ferrari por aí. Não. Penas mais duras não são solução para nada, pelo menos não enquanto tivermos uma justiça não cega para as cores (e menos ainda para diferenças econômicas).

O que tem que mudar é a cultura do estupro. Porque sim, estupro não é doença, é cultura. Vivemos em uma sociedade doente, na qual o estupro é relativizado, suavizado, justificado, quando não incentivado. As formas pelas quais essa desgraça se dá são as mais variadas. Essa semana tivemos, por exemplo, a recepção do sr. Alexandre Frota no ministério da educação para debater “propostas” para o ensino. Mais do que pela sua carreira cinematográfica, Alexandre atingiu projeção nacional por confessar, em um programa televisivo de mau gosto (diz-se: politicamente incorreto; leia-se: divulgador de discriminação contra minorias), ter estuprado uma mãe de santo. Ora, que mensagem poderia ser mais nociva para a sociedade do que essa: o marginal confessa um crime em cadeia nacional, fica por isso mesmo (“foi só uma brincadeirinha”, ele justificou) e, pasmem, essa pessoa é chamada para discutir educação em nível ministerial! Além de não ter credencial nenhuma para discutir educação (ou o que quer que seja), trata-se de um criminoso confesso e um estuprador convicto. O lugar dele é na prisão, junto com os trinta monstros que imolaram a menina essa semana, no mesmo dia em que esse crápula era recebido com pompas no ministério.

Sim, essa semana, parecemos ter descido a profundidades inéditas do fundo do poço. Sim, nós vivemos no inferno, tão enterrados nele que a maior parte do tempo nem nos damos mais conta. No entanto, as formas básicas de se mudar essa cultura não são tão difíceis de se imaginar quanto pode parecer: basta ouvir as principais interessadas, ou seja, as mulheres – explicando assim parece fácil, né?, então por que não fazemos todos? Quem sofre isso tudo na pele, todos os dias, é quem sabe onde o calo aperta: é necessário deixar bem claro que a culpa nunca, em nenhuma hipótese ou circunstância,  é da vítima; é necessário não se omitir em casos de violência, e denunciar sempre nos canais adequados; é necessário combater todas as manifestações de discriminação e inferiorização, mesmo as pequenas e aparentemente “inofensivas” (como se alguma coisa no mundo fosse isso), como piadinhas e etc.; é necessário educar os homens para o respeito, para a empatia e para que não se tornem criminosos.

Há muitas outras. A lista de proposições e de reclamações vindas dos movimentos sociais legítimos de representação das mulheres é, com toda justeza, interminável. Basta procurar. E é um sinal grave e profundo da doença dessa sociedade ter que lembrar de coisas tão óbvias. Ter que fazer campanhas inacreditáveis como “eu não mereço ser estuprada” ou ensinar as pessoas que não é legal puxar mulher pelo braço no carnaval. Em algum lugar, falhamos miseravelmente enquanto espécie para chegarmos a esse ponto.

Propostas para acabar com a cultura do estupro:

– Antes de tudo, como já dito, é só seguir as recomendações das próprias mulheres, como por exemplo, educar os homens a não estuprar, ao invés de educar a mulher a como se comportar (o que, convenhamos, faz todo sentido).

– Fechar todos os templos onde se propaga a misoginia, a homofobia ou qualquer discurso discriminatório: liberdade religiosa não pode ser confundida com discurso do ódio. Nenhum líder, de nenhuma religião, tem o direito de ser um elemento deseducador para a sociedade.

– Prisão imediata para todos que fazem ou já fizeram apologia do estupro. Isso inclui Jair Bolsonaro, Rafinha Bastos, Danilo Gentili, o não menos odioso Alexandre Frota e merdas quejandas.

– Prisão imediata também para todos os homens que curtiram, comentaram, compartilharam e ou ridicularizaram, apoiaram ou de qualquer forma que seja se locupletaram com o vídeo postado no Twitter.

Também já há um protesto marcado para essa semana. O que posso fazer, à distância, é ajudar na divulgação: https://www.facebook.com/events/1752031391678244/

 

Termino, neste dia cheio de dor, manifestando minha solidariedade à vítima, à família e a todas as outras mulheres de todas as outras histórias que já aconteceram e que, infelizmente, tornarão a acontecer. Vi, entre as várias manifestações emocionantes de solidariedade, uma militante feminista pedindo para que orássemos por essa menina. Não sou pessoa de crenças e de religião. Mas na minha impotência, na frustração, na revolta, termino citando um dos trechos mais belos e fortes da literatura brasileira:

 

“Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria: como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo uma criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.”

– Clarice Lispector, do conto Legião Estrangeira.

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O insulto ao estrume


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Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

– A flor e a náusea

Escrevo, finalmente, após quase uma semana, sobre o show de horrores que foi a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Escrevo sob a ordem da náusea e do desespero, mais do que por qualquer outro motivo. Não, eu não sou do PT. Não, eu não voto no PT (aliás, votos são uma fortuna que a minha cornucópia distribui com cada vez mais parcimônia). E, principalmente, eu não tenho nenhum compromisso com o PT. Mas também não tenho estômago.

Não retiro nenhuma das críticas que já escrevi nesse blog, algumas com muito mais repercussão do que eu poderia imaginar que teriam. Eu não perdoo o PT pelas alianças com agronegócio em detrimento das populações indígenas, ribeirinhas, da floresta, da agricultura familiar, dos apelos de todo espectro progressista da sociedade etc. Eu não perdoo o PT por ter fechado os olhos (ou talvez até ter apoiado em algum gabinete) a enorme repressão aos movimentos sociais que se organizaram de dois a três anos para cá. Por não ter interferido, ou sequer se sensibilizado, com as prisões kafkianas de militantes na cidade do Rio de Janeiro (o suprassumo delas sendo a de Rafael Braga, que nem militante era, nem em manifestação estava, e ainda assim já está amargando para lá de dois anos de prisão – muito descaradamente, nesse caso, pelos “crimes” de ser preto e pobre). Em um gesto que só demonstra a má vontade desse governo de dialogar com a esquerda, para cúmulo da injúria Dilma, em pleno processo de impeachment, me sanciona aquela lei antiterrorismo que se tornará uma carta na manga de qualquer direita mais alucinada que o normal do país que venha a sucedê-la, com ou sem golpe.

Porém, eu tenho um órgão chamado estômago, e ele foi testado até o limite último domingo pelo espetáculo de hipocrisia e conservadorismo com que aquela velhacaria que chamamos constrangedoramente de câmara dos deputados realizou aquela “performance”. Não, não foi agora que o horror começou. Já está difícil de tolerar há pelo menos um mês. Tivemos aí no meio do caminho, talvez como show de abertura para o espetáculo principal, a apresentação “Jana e a serpente”, onde vimos uma advogada despejando impropérios em uma espécie de transe (ou seriam passos de uma dança meticulosamente estudada?). Essa também se lança como uma forte candidata a ovo de cobra (olha a ofidiometáfora aí de novo).

Eu quero acreditar que a baixa comemoração dos chamados “coxinhas” no próprio domingo deveu-se ao fato de que muitos apoiadores desse impeachment têm o mínimo suficiente de bom-senso para se constranger ante aquela cena. O que foi aquele desfile de corruptos velhos de guerra (por exemplo, Paulo Maluf, para ficar apenas no mais descarado) pregando a moralidade, a probidade administrativa e o respeito ao bem público? Em que planeta será que aquelas pessoas vivem? Será que elas pensam que ninguém leu nenhum jornal nos últimos 40 anos?

Mas a coisa só piora. Nunca vi tanta gente invocar o termo “família”. Tanto, que é forçoso abrir a reflexão sobre o que será que eles entendem por esse termo. E, para tanto, uma malfadada reportagem de uma pestilenta publicação cujo nome me recuso a reproduzir mais uma vez é de excelente ajuda. Na dita matéria (se é que aquilo ainda merece qualquer resquício de respeito jornalístico), a dita publicação se apressa a eleger a mulher de Michel Temer (hoje, pelo menos, ainda vice-presidente) como primeira-dama. O título da bizarria era “Bela, recatada e do lar”. Não há problema algum em ser isso, o problema é a imposição de um padrão, assim como não há nenhum exagero em localizar aí um contraste proposital entre a figura de Dilma, que não atende aos padrões de beleza que a própria revista cansa de estabelecer como únicos, que foi guerrilheira e que hoje é presidente, com um outro modelo de mulher, esse teoricamente o “certo”, representado pela menina.

A família que aquelas pessoas idealizam é a base dessa sociedade racista e escravocrata, que saiu da escravidão plena para o regime da precarização e do assalariamento aviltante. A família e a sociedade cujo saudosismo eles sentem é a patriarcal, com mulheres submetidas (que “sabem o seu lugar”, como a sra. Temer) e empregadas disponíveis para estupro em quartos dos fundos. Não há perdão para isso. Não tem arrego. Mas só fomos de mal a pior nesse domingo. Pela ordem da votação, estabelecida por mister Cunha, o Rio de Janeiro ficou entre os últimos estados a se manifestarem. Aí qualquer limite do razoável foi ultrapassado, quando da fala do sr. Jair Bolsonazi, em pleno congresso nacional (a esta altura, já podemos chamá-lo de congresso sem-nocional), fez uma elegia a um dos piores torturadores e assassinos que esse país já teve (e que, entre outros feitos, torturou a própria presidente da república). Não há contemporização possível com tortura (ou com a sua apologia, seja esta feita sob qualquer desculpa ou disfarce). Estamos diante de uma corja de assassinos. De covardes, porque espancar e estuprar pessoas amarradas e indefesas, são coisas que só os mais pusilânimes dos covardes podem fazer – não vou nem falar em termos de direitos humanos, que esses vermes simplesmente nem entendem essa linguagem. Quero insultá-los com algo que eles pelo menos reconheçam como um insulto! Sim, Bolsocorja, você e todos os seus apoiadores são um bando de frouxos e de covardes, que só atacam em maior número, que só batem com a ampla e irrestrita proteção do Estado, que espancam pessoas em cárceres ou amarradas em postes sem a menor capacidade de defesa. Chamar os apoiadores de Bolsonaro de “jumentos” é um insulto aos quadrúpedes. CHAMAR BOLSONARO DE “MERDA” É UM INSULTO AO ESTRUME. E, nesse ponto, eu dou todo o meu apoio e toda a minha solidariedade à Dilma. Tem que haver limites.

Mas tem mais. Sim, porque no Brasil de hoje, ao que tudo indica, o poço não tem fundo. Foi impressionante ver que a bancada evangélica votou em peso a favor do impeachment. Os deputados mais ausentes, mais processados, mais picaretas e mais bandidos de todos. Fora o aspecto evidentemente obscurantista da qualidade desse voto. É claro que a generalização é a prima-irmã do preconceito, e é tacanho e aviltante deduzir que todos os praticantes da religião evangélica são fanáticos prontos às maiores insanidades em nome das suas nomenclaturas (que são muitas). Mas também, por outro lado, é fato que nenhuma religião tem uma atuação tão organizada e nociva nos dias de hoje. São eles os principais opositores das pautas LGBT, de direitos humanos, da mulher entre outras. Eles são a grande caução do bloqueio a leis de aborto, pesquisas científicas, eutanásia e etc.

Fora isso, você não vê ninguém de outras religiões tacando pedra em criança do candomblé no meio da rua, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro. Você não vê católicos ou espíritas invadindo terreiros e depredando objetos de culto. Você não vê traficantes ateus expulsando terreiros e mães de santo de favelas. É claro que há alguma coisa errada com essas pessoas, e eu quero gente que apedreja crianças pelas ruas bem longe do poder. Isso sem falar na picaretagem e no enriquecimento imoral das lideranças dessas seitas. Nessas horas, tenho muita dó de ser ateu. Queria acreditar na existência do inferno, no qual esses loucos tanto falam, porque é para lá que eles iriam, sem escala e sem direito a sursis.

Ao que tudo indica, tudo que há de pior na Via Láctea se juntou, no congresso nacional, no dia 17 de abril do ano do nosso senhor de 2016, para derrubar Dilma Rousseff. Alguma coisa essa pessoa deve estar fazendo de certo. O ponto central aqui é que o governo do PT não está sendo empurrado ladeira abaixo por forças progressistas ou à esquerda dele. Ele está sendo empurrado pelos mesmos de sempre. E os mesmos de sempre são o que há de pior. Na verdade, o PT não está nem mesmo sendo empurrado por forças que vão, como tanto se promete, acabar com a corrupção desse país, e blá e blá e blá, a não ser que alguém seja ingênuo o suficiente para acreditar que um processo de impeachment puxado por um dos políticos mais medíocres que já passaram por aquela Casa e corrupto de longa data (leia-se desde os tempos do Fernando Collor) tem alguma boa intenção de fato. Trata-se, inquestionavelmente, de um recuo, e eu tenho muito medo do que pode aparecer nesse vácuo.

Não quero referendar o discurso do medo tão caro ao PT dos dias de hoje. Foi com a plataforma do medo em relação ao ajuste que Dilma se reelegeu. Uma vez que ela assumiu, a oposição já começou a cavar esse impeachment desde o primeiro segundo de governo, e os seus defensores, em reação, plantaram um discurso de medo de um golpe militar do qual, graças a Montesquieu, não vejo o menor sinal no horizonte. Estamos fartos de medo, mas não se trata definitivamente de comprar um pacote de discurso que não me convence ou comove (assim como não acredito no papo da “guinada à esquerda”, que não virá). Trata-se, apenas, da constatação, nauseada e realista, de que a escória da terra se reuniu para recuperar o que “é seu de direito”. Uma vez que alguma daquelas bundas sente naquela cadeira, só o pior vai acontecer.

O Brasil se tornou um país realmente “chato” para comediantes sem talento que não sabem fazer humor com inteligência, que só sabem repetir preconceitos ancestrais dos tempos das sesmarias. As pessoas não estão mais dispostas a aguentar serem humilhadas. E nem espancadas. E nem mortas. E isso, é claro, é um avanço. Será que os tão criticados ministérios – criticados sob a desculpa esfarrapada do gasto público – criados pelo PT para cuidar das questões de igualdade de raça e gênero não têm algo a ver com tal transformação? É claro que, antes de tudo, esses avanços se devem ao protagonismo dos próprios interessados e dos respectivos e legítimos movimentos sociais que os representam. Mas ainda acho que a reflexão é válida. Estamos à beira de um termidor sem revolução. A reação conservadora será horrível, e apontada para todos os lados. Lembrem-se quantos votos foram justificados na base da oposição ao “kit gay” (sic) e a um suposto incentivo do governo à mudança de sexo das crianças na escola (sic). Teve até um desinfeliz a usar o filósofo (sic) Olavo de Carvalho, o subintelectual mais medíocre desse país, para se justificar. Não façamos ilusões. Tempos difíceis se anunciam.

Para mim, a pauta mais importante ainda é a das ruas. Se eu estivesse no Rio de Janeiro, estaria vivendo e respirando a ocupação das escolas 24 horas por dia. Acho que é daí que vem um futuro. Melhor, espero, do que essa “merda fóssil de agora” (comecei com Drummond, encerro com Maiakovski). As verdadeiras transformações não virão do governo, mas muito menos desse congresso plutocrata, conservador, hipócrita e corrupto até a raiz da medula óssea. O PT não vai fazer uma guinada à esquerda (não é preciso muito mais do que ter ouvido o discurso do José Guimarães para saber isso). Espero, quando muito, que o PT tire algum proveito da dura lição que foram as traições, por exemplo, da bancada ruralista, e se desembeste, pelo menos, de algum dos seus aliados intoleráveis. Mas não boto fé. Entretanto, sou uma pessoa muito mais de dúvidas do que de certeza. Embora não me paute pela histeria do “antigolpe”, e muito menos pela histeria do jornal nacional, fico na dúvida se não é muito esquerdismo deixar ir tão fácil assim o poder de volta para o lugar de onde ele nunca saiu (acho que até Lênin ficaria perplexo se tivesse que analisar o Brasil de hoje).

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Ainda uma vez PT


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Eu tinha jurado a mim mesmo não escrever mais sobre PT. Antes de tudo, porque fiquei farto de dialogar com a vesânia. Qualquer texto que você produza sobre o PT, contra ou a favor, será enxovalhado. Existe um limite para o que eu posso tolerar de insultos escritos com erros imperdoáveis de português. E, também, qualquer coisa que você escreva sobre o PT se tornará um “sucesso instantâneo”, pois será lido, compartilhado, debatido, insultado, aclamado… Creio que a segunda razão me cansou mais do que a primeira. Me recuso a obter os 15 minutos de fama que me cabem em cima de uma disputa da qual me sinto a cada dia mais distante (e justo eu, que sempre odiei aqueles “polemicistas” retardados e inúteis sem nada de importante para dizer, tipo Olavos, Mainardis e que-tais). Optei, com e sem trocadilho, pelo silêncio, já faz um tempo. Não é para menos.

No entanto, acompanhei com muita tristeza as comemorações, via jornais da Globo (coisa que também não fazia há muito), da direita histérica e alucinada em relação a tal prisão do Lula. O PT é indefensável, e eu esperei muito mais de um presidente vindo do movimento operário, mas os que querem tomar o lugar deles são muito piores. Comecei a escrever este texto na minha primeira sexta-feira em Brasília. A primeira sexta de uma vida indiscutivelmente nova. Não estava aqui nem há uma semana, mas parecia que uma década se passara. Foram dias de muitas intensidades. Enquanto William Waack se deleitava no Jornal da Globo, minha filha dormia no seu quarto. A mãe aproveitou que agora há um pai na cidade, me deixou cuidando da cria e foi a uma festa. Justo, após esses anos todos. Minha filha se encontrava no território dos sonhos. Sonhava, quem sabe, com algum personagem das historinhas que ela consome, com algum amiguinho da escola, ou com qualquer outra coisa mais etérea com que crianças de seis anos sonhem. Ela, pura e inocente, dormia o sono dos anjos e não desconfiava que o mundo estava desmoronando (em todos os sentidos). Pensei nela, olhei para o futuro e senti um ligeiro arrepio. Só as crianças e os tolos podem estar tranquilos em um momento como este. Olho para a frente e não vejo nada de bom saindo desse circo. E não demorou muito para que minhas expectativas ruins se concretizarem.

Previsivelmente, as viúvas de ditadura começaram a sair dos seus armários. Não que eu acredite que haja um golpe a vista. Quero crer que não há nenhum militar neste momento disposto a enlamear a própria farda em benefício do Aécio Neves. Mas é sempre preocupante, em um país com o nosso histórico, quando formadores de opinião começam a abertamente defender o imponderável.

No entanto, como poderia eu ir às ruas defender uma Dilma que se calou (no mínimo) frente ao arbítrio da polícia e dos desgovernos cariocas e fluminenses? Que deixou amigos meus (sim, amigos) sofrerem prisões completamente injustas e passar por processos farsescos à beira do kafkiano? Que conviveu (ou será “coniveu”) com as piores remoções desde os tempos em nada saudosos de ditadura? Que tipo de incentivo teria eu para defender tal governo, seja escrevendo, seja me manifestando? Reconhecer os avanços sociais não é defesa, por si só. Assim como reconhecer que a Lava a Jato foi uma operação política e partidariamente enviesada desde o seu começo, por valorizar certas delações em detrimento de outras, também não. A diferença de tratamento que o PT sofre por parte do judiciário e da imprensa é evidente para além de qualquer questionamento, o que só reforça o argumento clássico petista da perseguição política.

Apesar de avanços sociais inquestionáveis (a realidade nos traz dados, brigar com os dados é brigar com a realidade, e brigar com a realidade produz análises ruins), como disse Walace Cestari neste mesmo blog há poucos dias, em texto que assino embaixo e me deixou com pouco a acrescentar, essa luta já não é mais minha há muito tempo. Foi pela violência das suas polícias que fui arrastado, aos trancos e barrancos, para o lado da Vila Autódromo, da Aldeia Maracanã, da Favela da Telerj, da Favela do Metrô. Para o lado do Rafael Braga, da Sininho, da Eloisa Sammy e de tantos outros. Para o lado da Mariana Santos de cabeça quebrada por cassetetes (e de tantos outros e outras, midiativistas ou não) a mando imediato, é claro, do governo do estado, mas no mínimo com a conivência silenciosa de um governo federal para o qual não interessava em nada, naquela hora, o povo na rua. Então, não me culpem pela surdez em relação aos seus apelos. Culpem a si mesmos. Quem jogou a própria história no lixo foram vocês. Mas acreditar que o Brasil entrará para o reino da ética via Aécio Neves, ou que a faxina da corrupção virá do Eduardo Cunha, é acreditar que é possível limpar o chão com merda.

E aqui entramos no ponto nevrálgico do momento em que vivemos. Prefiro falar dele por meio de uma história na verdade muito triste. Um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros foi um veemente apoiador da ditadura militar: Nelson Rodrigues. Este é um fato que os seus biógrafos e admiradores tendem a minorar. Diz uma anedota da época que, uma vez, perguntaram ao Hélio Pellegrino se ele achava que Nelson aderiria aos militares, ao que ele teria respondido que seriam os próprios militares que adeririam ao Nelson Rodrigues, de tão reacionário que ele era. No entanto, a medida que o regime endureceu, o seu filho, Nelsinho, foi tomando uma direção bem diferente. Ele entrou para o MR-8 e, com o passar dos anos, foi subindo cada na hierarquia da organização, chegando a participar de uma ação em que um oficial do exército morreu. Nelson, por seu lado, começou a perceber os abusos do regime e passou a usar sua influência para ajudar pais a localizarem filhos. Também, às vezes, quando sabia da iminência da prisão de filho de algum conhecido, ligava para a família para avisar que aquela pessoa faria melhor em desaparecer (e rápido). Alguém, nesse período, chegou a se referir a ele como “agente duplo do bem”.

A acreditar na biografia de Ruy Castro, em um encontro com Médici (que também era um fanático por futebol e requisitara uma ida a um estádio com Nelson), Nelson pedira ao ditador que, caso seu filho (que àquela altura se tornara um “terrorista” conhecido e procurado) fosse preso, ele garantisse que os serviços de repressão “pegassem leve” com ele. O problema é que pouco depois Augusto Boal foi preso, e todo mundo soube que ele estava sendo barbaramente torturado no Dops de São Paulo. Nesse ponto, Nelson se indispôs com o regime, escrevendo em favor de Boal em um jornal carioca. E os militares não se esqueceram disso, assim como não esqueceram o oficial morto, quando capturaram Nelsinho em 1972. Justo Nelson, que ajudara a localizar os filhos de tantos, demorou mais de duas semanas para descobrir se o seu próprio estava vivo ou morto. Localizou-o em uma cela, em estado deplorável, com marcas evidentes de tortura, como os fêmures a mostra acima das canelas, de tantos chutes que levara. Mas o calvário estava mal começando. Depois disso, Nelson, cada vez mais velho e doente, só pode vê-lo em visitas a presídios, sempre diferentes, pois que ele era frequentemente transferido, parando inclusive em Ilha Grande. Foi condenado a mais de 70 anos de prisão (no fim, ficou “apenas” oito anos preso), e quando as discussões da Anistia, Nelsinho fez parte de um grupo de mais ou menos 20 presos políticos que o regime não queria liberar de jeito nenhum. Acabaram soltando-o, em um gesto de “generosidade” do regime, mais ou menos equivalente ao de Mussolini libertando um Gramsci doente e a poucos dias de morrer para que ele não falecesse no seu cárcere. Porém, tarde demais. A doença de Nelson evoluíra, e ele morreu no hospital delirando um dia após a libertação de Nelsinho. Nelson Rodrigues morria após quase vinte anos sem ver o filho em liberdade.

Moral da história: nunca apoie ditaduras, por mais reacionário e conservador que você seja, pois alguém sempre paga um preço alto por isso, e, às vezes, quem paga esse preço pode ser o seu próprio filho. Caro Merval Pereira, lembre-se do seu desafortunado colega antes de escrever a próxima coluna asneirenta no Globo sonhando acordado com golpes militares: ditaduras desenvolvem vida própria. Ditaduras não conhecem limites. E ditaduras bicam os olhos até mesmo dos seus mais fervorosos defensores.

Moral da história dois: precisamos de uma mudança de sistema, não de governo. A única maneira de me fazer ir a algum dos atos marcados para os próximos dias seria alguém colocar uma arma na cabeça da minha filha e dizer: “você tem que escolher: ou vai no ato contra a Dilma, ou no a favor da Dilma”. Nesse caso, eu me tornaria um fervoroso defensor da Dilma Rousseff, pois não gosto nem de estar no mesmo planeta que o pessoal do outro lado, quanto mais no mesmo ato. Como felizmente isso não vai acontecer, posso ir para a cozinha, passar meu café e acender meu cigarro com tranquilidade.

 

Fontes para Nelson:

O anjo pornográfico. Ruy Castro

Teatro do Pequeno Gesto. Folhetim especial Nelson Rodrigues. N. 29, 2010

A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari

 

 

 

 

 

 

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Filhos


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Estou com dois livros de literatura infantil escritos, e um terceiro a caminho. Este último, atendendo a milhares de pedidos, será baseado nas falas da minha própria filha, muitas que “viralizaram” na internet. Ainda não encontrei quem os publique, embora até mesmo os meus críticos mais severos (além de diversas pessoas da área, como ilustradores e etc.) tenham aprovado as redações finais dos dois já prontos e os tenham considerado muito bons. Como se diz por aí, na casa do ferreiro se morre empalado, ou qualquer coisa do gênero, pois mesmo trabalhando no mercado editorial desde os remotos tempos do Fernando Henrique Cardoso, de quem deus salve a memória, pois dos governos não sou eu que tenho saudades, não consigo arranjar cristão (ou muçulmano, ou judeu, ou hare hare) que os publique (embora o meu livro “para adultos”, que ainda está em processo, já tenha encontrado interessados em publicar – ironias).

Esse aspecto da literatura, a infantil, surgiu para mim bem por acaso, a partir da enorme realização que experimentei na paternidade. Antes disso, foi uma área pela qual eu nunca sofrera o menor interesse. Assim como nunca o sofrera pela própria paternidade. A paixão completamente irracional e devoradora que sinto pela minha pequena cria veio como uma surpresa para mim. A minha melhor surpresa, que não demorou nada a emergir: nunca esquecerei da ultrassonografia dos três meses, da qual já saí perdidamente apaixonado por aquele pequeno serzinho, que, por rolar de um lado para o outro do útero da mãe (que nesse ponto do desenvolvimento embrionário ainda é grande como um salão de baile), tornou o trabalho do médico quase impossível, pois que ele teve que “perseguir” a danada de um lado para outro da barriga. Parecia que ela estava, pilantrinha, de sacanagem com a gente, não querendo se deixar revelar. Foi a partir desse impulso, dessa realização, dessa “vibe pai” que escrevo o texto de hoje (que não é, de nenhuma maneira, para crianças). Vou deixar as desgraças do mundo descansarem em paz ao menos por uma semana e escrever sobre outro assunto que me cativa, ao mesmo tempo em que me apavora, que é o do amor absoluto. Vamos ao texto:

 

Filhos. Nós sempre os sabemos, da mesma maneira misteriosa como a galinha, clarissemente, sabe o ovo. Sem minha filha, eu seria uma pessoa muito desesperada e muito diferente. Diferente para pior. Os filhos são o nosso grande mistério. O assustador mistério do tempo. Filho não é para ter com qualquer um. Às vezes, é mais seguro ter a partir de um amor de uma noite. Melhor que ter com marido escroto que bate. Não a regras familiares tradicionais que excluem (a solteira, o gay, a lésbica)! Modelos só trazem infelicidades…

Como pequena obra minha para o mundo, crio-a para a independência, para ser livre. Eu e a mãe a fizemos para que ela seja o que quiser. Nós, juntos, a criamos para a potência. Me afastei de muita gente por causa da minha filha. Quando descobrimos que ela seria uma “ela”, ouvi de “amigos” a “piada” “vai passar de consumidor para fornecedor”. Nunca topei muito piadas machistas, mas essa, além do alto grau de deselegância, não consegue sequer ter um mínimo de graça. Graças a Darwin nunca mais vi essas pessoas. Não quero minha filha criada perto de gente assim. Quero minha filha criada no meu gueto, onde todo mundo é socialista, machismo é mal visto, racismo é inadmissível e onde amigos gays e de todos os tipos transitam com naturalidade.

Na verdade, sinto-me confortável por ter uma meninazinha. Nunca respondi muito ao estereotipo do homem brasileiro. Futebol me entedia mortalmente. A graça de assistir a uma corrida de Fórmula 1 permanece até hoje um grande mistério para mim. Aliás, carros de maneira geral nunca me interessaram. Não entendo nada de marcas, modelos e mecânicas (embora eu entenda um pouco a física envolvida) e voluntariamente abdiquei de dirigir. Sou formado em Letras, com o agravante da graduação ser em francês. Fiz canto coral por anos. Creio que todo o meu lado “matcho” foi despertado por uma grande paixão por boxe, que eu pratico e acompanho… Não sei como seria ter um menininho. Claro que iria amá-lo do mesmo jeito, mas não posso falar a priori de uma experiência que não tenho. Mas ele certamente treinaria boxe comigo, assim que a idade permitisse, assim como minha filha irá fazê-lo (nesse mundo ginocida, faria mais questão de treinar a menina em artes marciais do que o menino).

Filhos são surpresas o ano inteiro. Cada dia uma novidade. Um desenvolvimento novo, ao qual babamos por acompanhar, uma nova conquista, uma frase louca ou doce. A minha me encanta pela inteligência, pela sagacidade e pela capacidade de me zoar. Ficou famosa a história quando ela me disse que não estava me chamado de burro, “eu só estou dizendo que você não tem um cérebro muito bom, porque ele não vê grandes ideias”. Ou quando, ao comer uma banana, eu fui sacaneá-la perguntando “Tá boa essa bananinha, Bananinha?”, ao que ela, prontamente, respondeu, “Sim senhor, Senhor Bananinho”. Poucos dias depois encontrei uma amiga na rua, que lera a história na internet, e me chamou de “Sr. Bananinho”. Ganhou meu coração para sempre.

Conheço muitas mulheres que optaram por não ter filhos, o que é razoável e compreensível, embora na nossa sociedade patriarcal e machista isso seja mal visto, por mais que seja uma besteira. Homens com a mesma postura não sofrem a mesma discriminação (é incrível como homem pode tudo, não é mesmo?). Minha experiência pessoal, no entanto, me diz é sempre melhor tê-los. A minha filha me tornou melhor. Minha filha me tornou mais generoso só de a saber. Umedeceu-me a secura e me ensinou a querer o futuro. Tento ser o melhor para ela, e ela, sem dúvida, é o melhor de mim. Recomendo.

 

 

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Aninho de merda


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Hoje, aos 30 de dezembro de 2015, como já está se tornando uma tradição, lanço o meu balanço de fim de ano. Depois de lido o texto de hoje de Luiz Antonio Simas no Dia, difícil não concordar com as suas observações: embora os absolutismos das redes nos levem a crer no contrário, é claro que foi um ano de vitória e realizações, para alguns, e um aninho de merda, para outros. Infelizmente, me enquadro na segunda categoria. Na verdade, para todo mundo que participa de movimentos sociais, há pouco a comemorar.

O ano começou com a polícia do Beto Richa destruindo os professores no Paraná, e terminou com a polícia do Alckmin massacrando os estudantes em São Paulo. Embora o movimento dos secundaristas naquele estado já possa ser considerado vitorioso e um dos pontos altos do ano, com ocupações, organização horizontalizada, autogestão e a Ubes sendo posta para correr, as cenas de violência e de repressão deixaram claro que, como sempre, no Brasil, a população será tratada como inimiga pelos governos e elites, mesmo que esse povo no caso seja composto de estudantes reivindicando, ora bolas, o direito de ter escola e de estudar. Aqui não se aprende nada. Essa é a mensagem.

No Rio, a repressão aos movimentos oriundos de 2013 segue pela via da judicialização. Processos surrealistas pendem ainda contra mais de vinte ativistas na cidade. Na verdade, essas pessoas não estão sendo processadas por atos de vandalismo ou pela morte do cinegrafista: elas estão sendo processadas pois pressionaram, e muito, pela abertura da caixa preta do transporte público, na forma de movimentos como o Ocupa Câmara. Todo mundo sabe que, o dia em que essa caixa for aberta, a sujeirada que vai sair daí não poupará ninguém. A máfia dos transportes é a única explicação para o alto custo e a baixíssima eficiência desse serviço no nosso estado. Os longos períodos gastos com locomoção, os altos preços das passagens e as dificuldades de mobilidade são fatores que tornam a vida da população do Rio quase insuportável. Mudar esse quadro, tirando o controle sobre a mobilidade urbana das famílias Barata da vida, e devolvendo-o ao povo, seria um fato altamente transformador da dinâmica da cidade, no sentido de um imenso salto de qualidade de vida e na direção da construção de uma cidade para os seres humanos, e não uma cidade do capital.

Também pesa nesses processos o pavor que o poder público tem de que as Olimpíadas se tornem palco de protestos, como foi a Copa. Mais uma vez, a demofobia brasileira em ação. Os ativistas do Rio, enfim, não estão sendo processados pelos seus erros, mas sim pelos seus acertos, e o Poder Judiciário está se prestando ao pouco nobre papel de ser instrumentalizado pela repressão dos governos Cabral-Paes-Pezão (que apelidinho de bandido pé de chulé, o deste último!). A única coisa pior do que ver seus amigos angustiados respondendo a processos, sem muito exagero, kafkianos, é você ser um deles, e ser o seu que está na reta.

Sem nenhuma novidade, também, mas com muita tristeza, a polícia militar fluminense encerrou o seu ano com diversas matanças, inclusive matando uma criança no natal, na Cidade de Deus. Mas o crime mais chocante de 2015 foi, sem dúvida, o fuzilamento de cinco jovens em Madureira. Eles vinham da comemoração de primeiro salário de um deles, foram encurralados em um carro e fuzilados com mais de cem tiros. Não houve resistência. Não houve, na verdade, sequer abordagem por parte dos policiais. Eles simplesmente atiraram. Desnecessário dizer que todas as vítimas das histórias acima eram negras. E segue, no seu ritmo de sempre, o genocídio do negro no Brasil. Sem surpresa, mas com muita justa indignação.

O quadro amplo da política nacional não poderia estar mais desalentador. Assistimos ao espetáculo deprimente de ver um bandido psicopata como um Eduardo Cunha, o homem do Collor na Telerj e dono de contas milionárias na Suíça, além de ocupar o terceiro posto de maior relevo no comando do país, ser transformado em herói pelos ingênuos (e os nem tão ingênuos assim) do combate à corrupção. Eu não defendo o PT, por razões que já expus por aqui à exaustão, e não vou repetir. Mas acho ainda assim triste a ingenuidade com que muita gente boa cai no conto de fadas político-partidário eleitoreiro de que o PT é a causa e a fonte da corrupção e de todos os problemas do país. A mudança não virá de cima, nunca. Virá de baixo. Da organização popular, do horizontalismo e do empoderamento das pessoas comuns, que se sentem distantes e não representadas pelo esquemão. No mais, teimo ainda em dizer, as forças que se opõem ao PT no “grande quadro” são muito piores do que ele. Dizer isso não é elogiar o PT, é falar mal, e muito mal, do restante da classe dirigente do país, que sempre primou por uma completa indiferença social. Nada disso, todavia, me motiva o suficiente para participar de atos pró Dilma. Me motiva, no entanto, ainda menos a participação em atos “anti” (e a única chance de uma panela mudar alguma coisa é se você acertar ela bem forte na cabeça de alguém que mereça).

Para fechar, nós, militantes do Rio de Janeiro, perdemos nosso querido Presidente, neste dezembro. Morador de rua e militante onipresente (sempre me surpreendi como ele, com acesso zero à internet, sabia de tudo nestes tempos em que nada se marca off-line: não se deve subestimar a boa e velha circulação de informações boca a boca, presencial e precária), manifestante-símbolo de todas as ocupações, morreu, não apenas devido aos seus muitos e graves problemas de saúde. Morreu também devido ao descaso do serviço público, onde, por um erro de diagnóstico, deram-lhe uma injeção de glicose, achando que ele estava bêbado. Só que ele não bebia, por ser diabético. Muita tristeza. Mais indignação. Tive a honra de conhecer essa figura, grande, generosa, inusitada, um verdadeiro gentleman nas sarjetas, e não poderia terminar o meu ano sem registrar mais uma homenagem, além do seu enterro, que foi um ato lindo, e do Mais amor, menos capital, que foi igualmente lindo e a ele dedicado. Presidente, presente!!!!!! E foooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooda-se!!!!!!!

Bem, queridos, foi assim. Embora por convicções astronômicas eu nunca tenha entendido todo o reboliço devido à passagem do planeta por um ponto escolhido aleatoriamente do seu movimento de translação, desejo um bom ano novo para todos.

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