Arquivo do autor:Walace Cestari

Uma postagem à brasileira


brasil-facebook1

 

Olá, eu sou o Brasil. Fui desafiado a postar quinze fatos sobre mim que talvez vocês não conheçam. Aliás, mesmo depois que eu conte, vai sempre ter muita gente sem acreditar que são verdades. Mas, assim sou eu mesmo. Talvez um dia, quem sabe caia a ficha? Mas, vamos lá: Continuar lendo

Anúncios
Categorias: Crítica, Reflexões | 2 Comentários

O que aconteceria se…


1186184241_e129f9530c_o-620x465

Já passava das dez da noite. Peguei o maço de cigarros que estava no braço do sofá. Vazio. Passo a mão no controle remoto, pressiono o botão para pausar o filme. Um suspiro. Decido ir lá fora comprar cigarros.

Resignado, não me importo com a roupa que trajava, calço apenas os sapatos, recolho a carteira e as chaves. Em poucos instantes ganho a rua. Caminho pelas calçadas escuras, devido a falhas na iluminação pública. O bar que vende os cigarros fica a duas ruas de casa.

Corto caminho por uma pequena viela que liga ambas as vias. Na esquina, um grupo de rapazes compartilham um cigarro de maconha. Passo por eles, sem que nenhum nem sequer olhe para mim.

Um homem de barba espessa caminha em direção contrária a minha naquela pequena viela. Parece carregar uma garrafa que lembra alguma de cerveja, mas não dá para saber ao certo na penumbra que cai sobre o local. Continuo no mesmo passo, na mesma calçada. O homem que cruza meu caminho passa por mim sem me notar.

Viro a esquina, avisto o bar ao longe. Um boteco daqueles mais ordinários, típicos das esquinas da cidade. Algumas mesas na calçada mostram sorrisos e produzem certa gritaria que rompe o silêncio da noite. Uma churrasqueira metálica cria uma atmosfera nebulosa que brinda um ar misterioso ao botequim.

Subo o degrau de mármore que dá acesso ao bar, de azulejos até o teto. No centro da parede, de frente para a entrada, uma imagem de São Jorge em um pequeno altar iluminado por luzes de néon. O balcão, repleto de garrafas e copos, é ocupado por inúmeros homens.

Toco de leve o ombro de um deles, ele olha para mim. Faço um gesto de positivo, levantando o polegar com a mão direita fechada. Ele acena com a cabeça, chega para o lado e abre um espaço para que eu possa chegar ao balcão. Depois disso, volta-se aos amigos e continua sua conversa.

Chamo o balconista e lhe peço a marca dos cigarros. Em breves instantes, ele coloca o maço diante de mim e recolhe a nota de dez que deixei sobre o tampo de vidro. Recebo algumas moedas de troco, agradeço, viro as costas, vou embora.

No caminho de volta, passo por vários senhores que se reuniam para fechar a conta do bar. Peço licença a um deles para que eu possa passar e prontamente sou atendido, com um breve pedido de desculpas. Aceno com a cabeça e sigo meu caminho.

Abro o pacote de cigarros, retiro um deles e levo à boca. Um homem surge em minha frente e impede-me a passagem. Levanto meu olhar, o sujeito mostra-me um cigarro. Pergunta-me se tenho fogo. Tiro meu isqueiro, acendo-lhe o cigarro, aproveito e acendo o meu. Ele me agradece, balanço a cabeça positivamente em resposta, sigo novamente pelo caminho.

Cruzo com alguns catadores de latinhas que se aproximavam do bar. Eles baixam a cabeça, param em torno de um poste com uma lata de lixo e recolhem algumas latas que havia no chão. Sou invisível a eles. Dobro a esquina de minha rua.

Um homem com a camisa repousada no ombro vem atrás de mim. Parece mais rápido. Vou chegando ao portão de minha casa. O homem continua andando em passos firmes e ligeiros. Abro o portão. Ele passa por mim, mexendo em seu celular, sem prestar qualquer atenção à minha existência. Abro a porta de casa, sento-me no sofá. Aperto o botão do controle remoto e termino de ver o filme.

Essa história não tem conflito. Não tem clímax. Não tem preocupação com a indumentária dos personagens. Não tem medo. Não tem desconfiança dos transeuntes. Não tem assédio. Não tem violência. Não tem culpa, nem tem vítima. Mas essa história só é assim porque sou homem.

Categorias: Reflexões | 1 Comentário

Maio, mês das lutas


1336647257

Desde o final do século XIX, quando uma greve em Chicago pelas oito horas de trabalho diário desdobrou-se em um massacre contra trabalhadores e consequentes prisões e perseguições de líderes sindicais, o primeiro de maio tornou-se símbolo da necessária luta do trabalhador contra a exploração constante a que somos submetidos até hoje.

Já se disse que a carne em nossa mesa não vem da benevolência do açougueiro, mas de seu desejo por lucro. O interesse individual, sem intromissão estatal, levaria toda a sociedade a um tempo de paz, abundância e felicidade. Ninguém foi mais contrariado pelos fatos que o pobre Adam Smith.

Sua mão invisível rapidamente permitiu a exploração sem precedentes de trabalhadores, escravizados em doze, catorze e até dezesseis horas de trabalho sem direitos e recebedores de miseráveis soldos. Permitiu a formação trustes, cartéis e práticas de dumping vistas até os dias de hoje. A tal mão é invisível porque na maioria das vezes não existe mesmo.

Fôssemos guiados tão somente pela força dos interesses individuais, dadas as enormes assimetrias que o sistema jamais foi capaz (e que nem sequer teve inteção) de combater, não teríamos férias, 13º salário, licenças-doença ou maternidade entre tantos outros direitos, conquistados à base de suor e sangue, muito sangue.

É assombroso constatar em um 1º de maio do século XXI que trabalhadores ainda defendam os mecanismos de sua própria exploração e embarquem em uma onda estúpido-crítica que coloca os interesses da Fiesp como guardiães das conquistas dos trabalhadores.

Há pouco os conglomerados de telefonia que operam no país anunciaram seu interesse em limitar o acesso à internet, tornando-o mais caro e aumentando as assimetrias sociais e de aquisição de conhecimento que a ferramenta tecnológica oferece. Pensando em si e em seus lucros, não há mesmo benevolência, nem interesse de haver carne na mesa de todos.

Nessa hora, uma enxurrada de pseudo-liberais clamou pela intervenção estatal. Entretanto, não cansamos de dizer, temos um Estado a serviço do capital e, por isso, não foi de estranhar que o posicionamento da Anatel ratificasse os interesses dos barões das telecomunicações.

Esse é um problema real para os trabalhadores. Ao longo da história, os Estados intervencionistas na economia jamais atuaram no interesse da coletividade, senão funcionando como uma enorme empresa, de braços longos e fortes, impondo sua visão individual e restritiva de liberdades a toda uma sociedade. Financiamentos a perder de vista para industriais e financistas, falta de serviços públicos básicos para a sociedade.

Em outros casos, também abundantes na história, a cooptação de setores trabalhistas em prol de governos de conciliação geraram apenas medidas demagógicas, populistas e que em pouco atingiam as questões de fundo da relação de exploração existente no sistema. Acreditar que o capital pode ser humanizado e que as estruturas de dominação podem ser modificadas pelos mecanismos que os próprios exploradores criaram é de uma ingenuidade angustiante.

É necessário que a luta dos trabalhadores promova justiça social sem perder o norte da coletividade. Sem concessões aos falsos discursos, sem dar ouvidos às críticas que colocam os ganhos da população como culpados de uma crise que rende bilhões a financistas.

Querem imputar a todos que movem o país a culpa por crises e desmandos. Não aceitaremos. Assim, como já está mais do que claro que não há de aceitarem-se migalhas. O preço da conciliação, tal qual o da traição é alto demais.

A incessante luta pelas migalhas nos tira a fome do pão. E somos nós que o produzimos, somos nós que temos o direito a comê-lo. Longe das benevolências e dos interesses individuais, unidos façamos uma terra sem amos. Trabalhadores, o futuro está em nossas mãos. Sejamos corajosos para construir nossas utopias.

E tenhamos um feliz dia de luta.

Categorias: Política | Deixe um comentário

A recatada do Jaburu


recatada

Desligou o telefone e anunciou no escritório:

– Consegui!

Rapidamente os companheiros de escritório cercaram-lhe. Meireles foi incisivo:

– Batata?

– Batatíssima! Batatíssima! Pelo menos, eu acho. Quase tudo certo.

– Melhor tomar cuidado, fazia bom alvitre o amigo Moreira.

– Qual? Que nada! É perfeita demais, um colosso! E mais, o marido anda preocupado com outra. Na idade dele, não há de dar conta de tamanha formosura!

Todos se entreolharam, uns franziram a testa de inveja, outros fingiram pouca importância. Ainda que preocupados com a crise na empresa, achavam tempo para devaneios em braços jovens, mesmo que pertencessem a outro.

X               X               X

Nos jardins e palácios era sempre cortejada. Alvo de olhares. Coisa de fotógrafo de celebridade, entende? Isso também não depunha contra ela. Bela era uma mulher discreta. Saía pouco pela vizinhança, mas quando saía… Sempre havia alguém para comentar algo da moça de maneira elogiosa. Especialmente as senhoras de plantão nas janelas do bairro.

– É muito moça.

– Moça mesmo.

– O marido não dá conta, já passou da idade.

– Já foi brasa, hoje não passa de cinzas.

– Um verdadeiro jaburu!

– Mas, pelo menos, ela é do lar.

– Melhor que tantas outras que acham que podem sair por aí fazendo o que querem!

– E como! Há quem diga que um dia elas vão querer mandar!

– Nunca! Por isso é que ela é um primor!

– Deus te ouça! Já vou, meu marido chegou.

– Tchau, querida!

Não que os vizinhos também não lhe reparassem os dotes:

– Austera!

– Deslumbrante!

– Dócil e mansa, não é mesmo?

– Calma lá. Pelos olhos é quietinha assim só da boca pra fora. Deve arder em labaredas de fogo na cama.

E por esses e tantos outros comentários, que Bela virou desejo no bairro, no mercado e, claro, no escritório. Frequentava as colunas sociais das gazetas. Até mesmo os folhetins ordinários. Ou recortes de revistas. Das mais lidas às mais vendidas.

Era mulher de gente graúda na firma. Diziam que seria o próximo chefe. Quem poderia ter certeza? Mas, isso em nada parecia mudar a veneta do Nascimento, o que era motivo de preocupação para os mais próximos:

– Rapaz, vou-lhe ser franco, tira isso da cabeça, repetia Moreira tentando pôr panos quentes em um escândalo que ainda não ocorrera.

Nascimento dava de ombros e não se constrangia:

– Como essa mulher me resiste, Fraga?

– Essa é diferente, rapaz, é do lar.

– Mas são dessas de que mais gosto! Essa é séria para chuchu e além disso é um colosso!

Finalmente, Nascimento teve resultados em seus flertes. Bela devolvia alguns sorrisos. Parecia ceder à tentação. Foi pelo telefone mesmo que o negócio aconteceu. No escritório quando desligou o telefone e anunciava o êxito descrito no começo deste conto.

Suspirava por entre as divisórias:

– Ah, aquele encanto! Uma sensação, um mimo! Colosso de mulher! E daquelas direitas, sabe? Bem direitas!

Meireles pregava moderação:

– Nascimento, abre teu olho. Mulher direita é família. Não trai.

– Você é besta, não sabe? São essas as que mais mudam de lado! E além do mais ela é a cara da mulher das notas de dinheiro!

– Cara da República? Nunca reparei…

Meireles olhava a nota e, subitamente, passou a sentir igual desejo. Era isso. Estava descoberto o segredo. Não havia de ser outra a razão! Todos a desejavam por isso. Talvez não fosse, mas é melhor ficar como se essa resposta fosse suficiente.

Nascimento, com ar vitorioso, comunicava o êxito obtido. Enfim marcara o encontro.

– Há de ser no final de semana. Nunca tem ninguém por aqui no final de semana.

Mas não naquele final de semana. Não sabia porque cargas d’água acontecera. Mas era questão de honra, já estava marcado, não havia como recuar.

A pequena sala era modesta, mas arrumada. Mulher direita não se leva a qualquer pocilga, pensava Nascimento. Era, por assim dizer, um gabinete. Ele arrumou-se, perfumou-se e tentou deixar tudo arrumado.

Antes do almoço, conforme o combinado, a campainha tocava. Era ela.

– Bela, Bela. Entre, entre.

Ela entrou. Segurou a bolsa contra o peito. Nascimento olhou para aquele espetáculo de formas. Viu tão somente as belas canelas torneadas, pois o vestido ia-lhe abaixo do joelho. De certa forma, ela parecia incomodada com algo.

– Nascimento, não sei…

– Ora, pequena, dúvidas agora?

– Não sei mesmo se é isso. Fico constrangida, nunca fiz isso.

– Não se culpe, estou para fazer tudo dar certo e sair com tranquilidade. Não há nada a temer. Confia, é batata.

– É que não nos falávamos por tanto tempo… Nossos lados…

– Esqueça lados, isso hoje já não importa mais.

Olhava a silhueta hipnotizante de Bela. Era como a figura na nota de dinheiro. O frescor da juventude tirava-lhe por completo qualquer sombra de culpa. Ela coloca a bolsa no sofá, fecha os olhos, como quem se entrega a um sacrifício e diz:

– Que seja rápido, pois meu marido está lá fora esperando.

– Que negócio é esse, mulher? Teu marido lá fora? Ele sabe? Isso pode vazar, melhor então não fazer… Melhor, entende? Não sei se quero mais.

Nascimento percebeu que era ela quem tinha muito a temer naquele momento.

Bela recolhe a bolsa, estende a mão, olha fulminantemente para Nascimento:

– O dinheiro, por favor. Meu marido sempre cobrou caro. Não se esqueça de, quando perguntado, dizer sim.

Bela virou-se, saiu pela porta, virou no corredor à direita e sua imagem sumiu enquanto a porta lentamente se fechava.

Nascimento prostrou-se no sofá. Chorou.

Mas, pela família brasileira, no momento crucial, ele disse sim.

 

FIM

 

Esta farsa em ato contínuo é inspirada livremente na produção de Nelson Rodrigues, gênio da literatura e da dramaturgia nacional (que votaria sim, que estaria ao lado da família, que diria boas da pátria, que seria machista, que constataria os vira-latas, mas que talvez assumisse na lata um ou outro golpe do qual se o acusasse).

Essa é uma obra de ficção, todos os personagens são falsos e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

Categorias: Verso & Prosa | 1 Comentário

Ruim com ela, pior sem ela


Amanhã as flores voltarão a crescer

Amanhã as flores voltarão a crescer

O domingo nasce alvissareiro. Afinal, hoje termina a corrupção no Brasil. Ou, por outro lado, o país reafirmará seu compromisso irrestrito com a democracia. No mundo das farsas, o conto de fadas está na mente de milhões de incautos. Tudo com ampla cobertura da mídia imparcial e responsável. Como há gente desinteressadamente preocupada com a nação! Como há dias melhores no futuro deste país!

Em pleno domingo, aqueles que não trabalham nem às segundas, nem às sextas reúnem-se pela preocupação coletiva e tentam dar à república uma solução de seus insolúveis problemas. Esse forte compromisso social é representado pelo impedimento do mandato da presidenta Dilma Roussef. Às ruas escolher um lado! Vamos celebrar a estupidez institucional.

Não há a menor dúvida de que o processo de impeachment é de um mau-caratismo sem tamanho. Quem o propõe não tem a menor legitimidade para fazê-lo, constrangendo qualquer conceito de ética e moralidade que se possa estabelecer. Evidencia-se uma luta pelo poder político da forma mais suja que a institucionalidade permite, com interesses particulares – especialmente em preservar suas corrupções – à frente de qualquer noção coletiva que a política possa representar.

Como sabemos, a legalidade é mero fetiche nas mãos dos interesses burgueses e não há o menor compromisso com alguma denúncia consistente ou mesmo motivação real para se levar a cabo um processo como esse. Denuncia-se a má gestão, a crise e uma série de desgovernos como fatos para um processo que nasce marcado pela vergonha. Nem mesmo os grandes barões internacionais do capital conseguiram comprar e defender as razões do golpe paraguaio que se quer dar.

É de se esperar, inclusive, que, caso haja qualquer problema com as contas do processo, o presidente da casa, impoluto defensor da moralidade, suspenda a votação ou coloque-a indefinidas vezes para repetir-se, até que o resultado seja aquele de seu agrado. Cada movimento como esse torna tudo mais instável e transforma em circo aquilo que o mundo esperava ser feito com discrição.

É fato que o capital internacional preocupa-se com os caminhos que o Brasil toma. Parece que não há grupo ou setor no país que seja capaz de implementar as medidas restritivas à população sem que haja uma enorme convulsão social. Ainda que todos as forças políticas nacionais acenem para sua capacidade de cumprir tais programas, não há quem apareça com um pingo de legitimidade para impô-las com um mínimo de aceitação. É uma sinuca de bico em que o capital necessita retirar direitos e aumentar a “austeridade”, mas deve manter o país governável para não prejudicar sua inserção na ciranda econômica mundial.

Hoje, o golpe paraguaio brasileiro já não é mais bem visto internacionalmente. Enxergam que houve exagero nos temperos pelo modo como foi assado o pato. A imprensa nacional virou chacota dos meios de comunicação mundial e já não goza de qualquer respeito por ninguém entre seus pares. O concerto que reafinaria a orquestra, de repente, transformou-se em uma ópera bufa, carnavalizada, que expôs a narrativa de uma mulher vítima de ladrões e malfeitores que querem retirá-la do poder. Nada pior do que uma história em que traidores saem vencedores e na qual se vitimiza a protagonista.

Do outro lado, um desesperado partido que se apega às velhas práticas que outrora já condenara e que briga a todo custo para se manter no poder, reafirmando-se como ainda capaz de aplicar o mesmo remédio amargo que seus opostiores alegam serem os únicos com capacidade para fazê-lo.

Indubitavelmente, o PT mostra apenas que tentou tornar-se um dos outros e aplicou, quando teve oportunidade, a cartilha de interesses dos poderosos, seja na relação com os movimentos sociais, seja na condução da política econômica. A cada passo para a direita – e olha que foi quase uma maratona percorrida pelo partido da estrela nessa direção! – mais próximo ficava do beco sem saída em que acabou se metendo. O intruso da festa não poderia mais escolher a música que embalava o baile.

Em 2002,  a carta aos brasileiros já anunciava a guinada que o PT assumia para ter nas mãos a presidência. Boa parte da esquerda esqueceu-se de seus princípios de luta e ajudou a construir a farsa das migalhas sociais em troca de um requintado sistema de exploração. Aos que denunciavam ou protestavam, a mesma truculência que tantos outros dispensaram.

Se o PT hoje sofre com a traição de seus aliados, sabe bem dimensionar a dor que infligiu quando ele próprio traiu a classe trabalhadora. Quem escolheu o caminho dos conchavos foi o próprio partido, que hoje tenta encontrar nas ruas alguma legitimidade para a única coisa que considera democrática no país: o resultado das eleições.

E é nessa lógica tosca, de lutar para manter migalhas e de fingir que democracia resume-se ao apertar de uma tecla verde, que milhões vão para as ruas gritar que não vai ter golpe. Do outro lado, armados com panelas, os outros milhões de ingênuos que acham que a corrupção é coisa da estrela e que bradam contra a perda de seus privilégios.

Desde 2013, a rua é o caminho. A serventia da casa, por assim dizer. Não para defender a institucionalidade que nada tem a nos oferecer senão sofrimento e restrição. Não para bradar por um conto de fadas que serve apenas aos interesses dos poderosos.

A luta está em nosso cotidiano. Categorias em greve, escolas ocupadas. Falta cair a ficha de mais gente. Boa, por sinal. Precisamos de unidade em um compromisso realmente de esquerda, de defesa dos direitos dos trabalhadores. Devemos exigir o pão e não aceitar mais as migalhas. Preciamos de conquistas. E só há vitória para quem luta. Ainda que com toda a luta, a situação pareça piorar por enquanto.

Amanhã, as pessoas não se abraçarão e entoarão cânticos unidas para comemorar o fim da corrupção ou a lição da democracia. As flores não se abrirão por conta do voto pelo povo que darão os nobres representantes de si mesmos no Congresso. Independentemente do que ocorra hoje é a luta o único caminho, pois os dois lados seguirão os rumos que não nos interessam. Por isso, não devemos recuar: se está ruim com nossa luta, será pior sem ela.

 

* Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.

* Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.

* Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.

* Referendo popular para todas as nomeações do STF.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Nosso jogo é outro


Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Democracia. Uma palavra repetida aos quatro cantos do país, por diversas correntes e com intenções completamente distintas. O “jogo democrático” que se desenrola na política nacional tem mais de jogo que de democrático, sem dúvidas. Por um lado, a tentativa espúria de um impeachment cujo objetivo é a ambição política pelo poder; por outro, a defesa insistente de uma legalidade insossa, que garante o vendido projeto de poder do governo.

Há muito pouco de democracia em nosso sistema político. Quase que se resume ao sazonal processo eleitoral, como se isso fosse realmente o ápice da participação. É, na verdade, um processo de representação distante, que coloca ideologias e programas de lado e força colaizões em nome de cargos e trocas de favores. As portas da corrupção – inerente ao próprio capital – escancaram-se diante do modelo republicano que se construiu. Mais ainda: esta é a forma necessária aos interesses do grande capital no país, não se tenha dúvida.

Por isso, há de se ir muito além da defesa de um sistema que não nos representa. Não há porque se defender a democracia representativa brasileira, que só serve de palavra de ordem quando nem mesmo seus idealizadores acreditam mais nela. As leis, não canso de afirmar, são mero fetiche para quem anseia o poder.

Porém, dentro da conjuntura atual, pode-se ir além nas palavras de ordem. É dever da esquerda a construção de um campo que se coloque como opção frente ao falso maniqueísmo que se apresenta. Sejamos claros: um lado quer o poder para aplicar um programa de derrotas aos trabalhadores apenas porque crê que o outro já não tem condições de fazê-lo, embora o PT sinalize a todo momento que quer a chance para aplicar este mesmo projeto.

Assim, não há lado para se escolher entre golpistas e estelionatários eleitorais. Se é para manter minimamente a cara republicana do país, há de se exigir muito mais. O mínimo seria uma lista como essa:

  1. Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.
  2. Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.
  3. Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.
  4. Referendo popular para todas as nomeações do STF.

Somente uma ampla reforma política e judiciária, cujo início se dê pelas propostas apresentadas, poderá transformar o que temos hoje em algo parecido com uma democracia. Precisamos preservar os direitos civis e humanos previstos na Carta de 88, mas devemos reorganizar a parte política e organizacional das instituições, além de retirar previlégios indevidos e excessivos (como a vitaliciedade dos juízes, por exemplo).

O fim dos cargos de vice no executivo, com previsão para novas eleições no caso de morte ou impedimento do mandatário, medidas que possibilitem o Executivo governar para evitar o presidencialismo de coalizão (o famoso “toma-lá-dá-cá) ou, se for essa a vontade popular, o empoderamento do Legislativo de vez, tornando o sistema mais próximo do parlamentarismo. A possibilidade de recall de governantes e legisladores e a previsão de plebiscitos e referendos para questões que afetem diretamente os direitos trabalhistas e as garantias individuais, esses são pontos mínimos que devem ser alvo de um amplo debate na sociedade.

Além disso, devem-se assegurar medidas contra a desigualdade econômica, com freios à acumulação excessiva de capitais na mão de poucos detentores dos meios de produção, limites para comprometimento das riquezas do país com o sistema financeiro, bem como a desoneração de produtos básicos de consumo da população.

Tudo isto deve estar em pauta nesse momento. Bem mais que a defesa do arremedo de sistema democrático que permite toda a sorte de arrochos e perseguições à classe trabalhadora. É necessário retomar as organizações sindicais e os movimentos sociais; desfazer seu aparelhamento e colocá-los na luta efetiva de conquista dos direitos, e não na defesa da manuteção da política de aparelhamento que nos levou a essa situação.

A briga pelas migalhas nos tira a fome do pão. E nossa briga tem de ser por mais, não por manter o que tem sido menos para todos. O impeachment é mera filigrana legal para a disputa insana de quem consegue nos prejudicar mais. Por isso, não há como compactuar com o jogo. Viremos o tabuleiro. Fora todo mundo! Eleições gerais sem participação de quem tenha mandato! Por uma Assembleia Constituinte popular e participativa!

Categorias: Política | 1 Comentário

Não vai ser golpe


fiespuño

O governo do PT acabou. Ruiu sobre suas próprias bases e é uma simples questão de tempo o seu fim. Não há, contudo, motivo para comemorações: a crise política e econômica, aliadas ao discurso de “herança maldita”, abrirá portas para medidas sufocantes para a classe trabalhadora.

Por outro lado, sempre é bom ressaltar, não há motivo algum para lamentações: o PT cai por suas próprias pernas, por sua incompetência em implementar todas as medidas necessárias ao grande capital e por sua traição ao fazer tantas concessões para aplicá-las.

Enquanto a economia mundial crescia, as políticas petistas foram extremamente úteis ao capital, endividando os trabalhadores e a máquina pública, trazendo altíssimos lucros a financistas e industriais, cooptando as lideranças sindicais e desmobilizando a luta da classe trabalhadora. O PT aprisionou a luta de classes nas instituições.

Entretanto, todos sabíamos que tudo aquilo que se oferecia como ganho social tinha prazo de validade, meros paliativos que não alteravam qualquer estrutura do sistema de exploração. Então, esse período passou, a crise chegou e as políticas conciliatórias e populistas passaram a não atender mais aos anseios de quem sustentava o partido no poder.

Marcham pelas ruas indecisos cordões. De um lado, as vias enchem-se de uma pequena-burguesia acéfala que repete o que a mídia lhe diz. A corrupção é o mote escolhido para agrupar a ingenuidade de muitos na porta da Fiesp, a instituição que quer o fim da CLT. O pato lhes representa de forma autêntica.

De outro, manifestantes saem para defender a “democracia” diante de um golpe. Ora, companheiros, o Estado democrático burguês e suas instituições nada têm de autêntico. Os princípios democráticos burgueses são apenas um fetiche da própria burguesia. A institucionalidade é sempre defendida com muito mais afinco pelos reformistas do que pelos próprios burgueses.

Lula e o PT mais uma vez apostaram no caminho institucional, nas alianças e concessões – alguém esperava algo diferente? Dilma cometeu suicídio politico ao nomear Lula ministro, claramente para fugir da perseguição política imposta pelo juiz Sérgio Moro, o grampeador geral da república.

O grande capital não respeita instituições. Mais: utiliza-se delas para legitimar suas vontades. Assim, o judiciário brasileiro passa por cima de qualquer legalidade, espetacularizando suas ações e fazendo crer que, para destruir o PT, vale qualquer coisa. Os fins justificam os meios, dizem os olhos de ódio em verde e amarelo que desfilam por aí.

Com as instituições tomadas pela necessidade de derrubar o governo, a mídia cumpre o papel de acelerar o processo, julgar e definir a pauta do país. A articulação entre mídia, Legislativo e Judiciário, todos a serviço do grande capital, não deixa dúvida sobre os próximos capítulos da novela rocambolesca, sobre a republiqueta em que se transformou o Brasil.

O governo – e muita gente de valor embarca nessa – agarra-se no resultado eleitoral para garantir sua legitimidade. Ora, Collor também teve mais votos na urna que Lula em 89, mas não foi impedimento para que as bandeiras vermelhas fossem agitadas pelo impeachment à época. Fora qualquer um é direito legítimo de todos, lembremo-nos.

O fato é que o PT é minoria no Congresso e na sociedade. Suas constantes traições aos trabalhadores, sua postura de capitulação sucessiva afastou-lhe de sua própria base eleitoral. A política econômica austera, contrariando suas promessas eleitorais fez o PT órfão de si mesmo. Hoje, paga o pato (olha ele aí de novo) por suas opções e corrupções.

Um golpe só ocorre quando uma minoria derruba um governo representativo da maioria. Quando ocorre o contrário, a maioria toma o governo da minoria, há revolução. E, nesse caso, estejam certos, não há nenhum dos dois. O governo não é maioria e tampouco há no Congresso ou nas organizações partidárias nenhuma representação da vontade desta maioria.

O circo montado serve à manutenção do status quo, presta-se à abertura de um caminho mais livre e justificado para a subtração de direitos e garantias dos trabalhadores. Tudo com a cara democrática, via legalidade.

É risível pensar em uma comissão de impeachment repleta de acusados de corrupção. É emblemático ver Paulo Maluf no processo de julgamento da presidenta! Se isso serve para desabonar a comissão, nunca é demais lembrar que o deputado será um defensor de Dilma e votará contra o impeachment. Foi isso que o PT se tornou. A guerrilheira contra a ditadura precisa da ajuda do candidato a presidência daquela mesma ditadura. O poder é absolutamente paradoxal.

Só há uma saída para os trabalhadores: organização e luta. Derrubar as lideranças sindicais acomodadas e cooptadas pela luta institucional. Organizar a resistência contra os ataques que surgirão em nome da gestão da crise. União para desfazer o que já foi feito e o que há de vir.

Porque o golpe, companheiros, esse já foi dado. Foi dado pelo PT ao trair os trabalhadores, ao garantir o lucro dos rentistas, ao desmantelar as representações sindicais, ao aprovar a lei antiterrorismo, ao reprimir violentamente os movimentos sociais, ao implantar a política econômica de Levy e companhia, ao buscar de todo jeito vender sua alma para quem nem sequer a queria comprar.

As portas foram abertas pelo próprio PT. O golpe já foi dado. Agora, eles já entraram em nosso jardim. Nossas flores já foram pisadas. Não adianta o arrependimento, não soa bem a falsidade de buscar agora uma imagem de esquerda. Trabalhadores, resistamos! Contra as instituições, contra a hegemonia partidária, contra o capital. Precisamos refundar um país.

Categorias: Política | 3 Comentários

A dança dos hipócritas


JDCOXINHA

A praça é do povo. O céu é do condor. E o momento, dos oportunistas. Dancinhas, slogans, panos verdes e amarelos, sorrisos de dentes brancos perfeitos que não escondem a espuma do ódio que lhes salta pelos cantos da boca. Tudo certo. No pensamento, o deserto. Tudo certo. Como dois e dois são cinco.

A oportunidade aos oportunistas foi dada pelo próprio PT. Que reage. Quer cair atirando. Como se já não estivesse tudo decidido, tudo formatado, sentenciado e acordado. Chora o PT sobre o leite que derramou. E acusa, como se isso lhe fizesse mais honesto. E grita, como se já não tivesse tido a oportunidade de fazer o que fala. E esperneia, movido apenas pelo medo de ser alijado do poder.

De fato tem razão quando diz que a justiça é parcial e persegue apenas alguns. Mas… Só agora, PT? E os 23 companheiros perseguidos há tanto tempo? Será que na década de noventa era diferente? Ou a prisão preventiva do Lula é mais absurda do que a prisão infinda do Rafael Braga?

Tem razão também quando diz que a Globo (metonímia disfêmica para mídia) é parcial e calhorda. Mas já não tinha sido em 89 contra o próprio PT? Não tem razão para reclamar. Afinal, foram os únicos a ter a oportunidade de modificar tal quadro. Porém, negaram-se. Estiveram ao lado da ordem, do capital e da possibilidade de eternização de um projeto de poder que nem próprio é.

Em nome disso, o PT assassinou a esquerda, roubando-nos a denominação e a imagem e deixando que a imprensa fizesse uma dicotomia que jamais existiu. Rá rá rá. Marx e Hegel. O Grouxo, talvez. De tanta estupidez – muitas vezes defendida por valorosos companheiros – fomos reduzidos a estereótipos pela propaganda oficial. Enterrados sobre o esterco dos discursos acéfalos. Isso sim é culpa do PT.

A política eterna de concessões ao capital e de contradições de si mesmo, aliadas à falta de vergonha na cara em negar o estereótipo “esquerdista” que lhe colavam, trouxeram a pior consequência de todas, aquela que hoje passeia com a camisa da CBF pelas ruas. O PT abriu as portas do tártaro ideológico e soltou um sem-número de bestas atávicas que gritam imbecilidades ao ar livre.

Não que não haja direitos da direita. Óbvio que há. A rua é para todos. Inclusive para a mais oportunista e assanhadinha cara da direita. Que, claro, não tem a menor vergonha em pegar carona com os amigos fascistas, intervencionistas ou quaisquer outros. A direita brasileira nunca teve caráter nem pudores.

E um batalhão da abobada classe média toma os espaços públicos para defender os interesses privados. Gritam contra a corrupção como um pano branco estendido sobre a lama. Como se a corrupção fosse exclusiva de um grupo ou partido. Como se sonegar impostos não fosse desviar dinheiro público da mesma forma. Como se realmente o problema fosse a corrupção.

Pois sim, não é a corrupção nosso mal! Não é apontar o dedo (sujo) para quem “roubou” que irá “limpar” o país. Isso justifica o surto idiota de “contra-ataque” petista: mostrar que Aécio e a tucanada são tão sujos quanto quaisquer outros. Ora, são todos tão porcos e encardidos quanto aqueles que chafurdam nas manifestações alopradas. Ou mesmo os que escrevem nos blogues, para não me excluir. Ou os que os leem, que seja.

Sim. A corrupção faz parte do sistema, seja lícita ou ilícita. 150% de juros bancários não é corrupção? Doação “legal” de milhões de reais para uma campanha política não é corrupção? A formação de um Congresso que só chega até ali por campanhas milionárias e comprometidas não é corrupção?

A falta de ética incomoda-me muito menos que a hipocrisia. Porque, entendendo tudo isso, posar como arauto da ética é vergonhoso, mesquinho, abjeto. A hipocrisia é mais odiável que qualquer outro defeito que tenham os que caminham sem rumo pelas ruas.

A festa da mídia está pronta. Os tolos já ocupam seus lugares estratégicos. Os oportunistas já manobram. Os ingênuos compartilham as idiotices. Os iludidos ainda defendem o indefensável. Correntes de cores diferentes prometem passear pelas ruas. Não pode haver simpatia com quaisquer delas.

O inimigo de meu inimigo não é necessariamente meu amigo, pelo contrário. Matemática não rima com política. Se o governo entreguista e corrupto é inimigo da classe trabalhadora, não serão os paneleiros a nos salvar. Olho vivo, pois eles venceram e o sinal está fechado para nós. Não podemos, em momento algum, imaginar que nas ruas estão os indignados, quando tão somente passeiam os indignos.

Categorias: Política | Deixe um comentário

O que é isso companheiro?


(FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA)

FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Assisti pela tevê a todo o espetáculo que fizeram contra você. Um aparato de guerra foi montado para lhe levar a depoimento. Uma festa para as cameras, uma delícia para as manchetes.

Vi também que isso despertou as reações apaixonadas das mais diversas tribos espectadoras da vida política nacional. E, como o que está na moda é o maniqueísmo superficial, milhões de pessoas escolheram um lado e centenas delas degladiaram-se diante de simbólicos cenários criados pelas operações policiais.

Ouvi seus brados irritados que afirmavam que a jararaca não estaria morta. Aplausos e gritos. Havia algo de passado que, de repente, parecia ter-lhe voltado aos olhos. Pena que já é tarde, pena que isso foi esquecido em tantos outros bons momentos. Pena que essa garra seja apenas uma defesa de si mesmo. Pena que você tenha virado um fantasma daquilo que já foi em um passado distante.

Seus milhões de apoiadores denunciam a parcialidade da Justiça. Com razão, inclusive. Mas, vamos nos lembrar que, se o PT não inventou a corrupção, tampouco a Justiça e a polícia são parciais apenas na atualidade. Contra os negros pobres da favela, isso é de longa data. Mas seus olhos estavam fechados para isso.

Há muito poderia ter-se investigado crimes de governos anteriores, mas isso não foi prioridade quando você sentou-se na cadeira. Naquele momento, você preferiu jogar o jogo que lhe parecia favorável. Aliás, o fato de que outros tenham sido corruptos não abona comportamento idêntico, apenas mostra a necessidade de afirmar que outros são tão sujos neste jogo quanto você e seu partido.

Até porque, sabemos bem disso, companheiro, a corrupção não é propriedade de qualquer sigla, mas uma necessidade imperiosa do sistema, que só funciona movido a favores, compensações e vantagens. Vocês estiveram à frente do processo, mas se recusaram a modificá-lo em suas estruturas. Preferiram se enturmar com o establishment. Hoje percebem que a festa em que achavam ser anfitriões não lhes considerava mais que penetras de ocasião.

Sabemos, por isso mesmo, companheiro, que toda essa balbúrdia não se trata de corrupção. As panelas não se batem por honestidade – se o fosse, eles as bateriam em suas próprias cabeças –, mas por ódio de classe, raça e pela manutenção de privilégios e status.

Nesse ponto, serei acusado pelos seus de hipócrita por reconhecer os “avanços sociais” que seu governo promoveu. Quero lembrar que intervencionismo estatal está longe de ser justiça social. Na crise, a inclusão dos trabalhadores no sistema alimentou principalmente financistas e industriais, sem ganhos significativos para a mudança dos pilares que sustentam a exploração.

Nenhuma luta ideológica foi posta em cena. Prova disso é que a classe C que ascendeu em seu governo hoje ajuda a bater panelas contra a sua própria estrela. Dizia Paulo Freire (odiado pela culta classe inculta) que, sem uma educação libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor. Os discursos estão aí para provar a verdade da frase.

Vejo nas suas palavras o desejo de contar com os companheiros de luta. Mas, ora, porque agora, companheiro, depois de nos virar tantas vezes as costas? Por que não pedir ajuda a quem lhe eram bons e necessários apoiadores, como Maluf e Collor? Tá ruim, por que não chama a Kátia Abreu? Onde está Levy e o empresariado, esses aliados tão importantes do projeto nacional que você tentou levar adiante?

Quer dizer que você descobriu agora que a mídia é um câncer e que a Globo é manipuladora? Mas por que você resistiu tanto a fazer uma lei de mídias quando teve a chance? Por que naquele momento não ouviu a voz daqueles que hoje você convoca para estar a seu lado?

No momento em que os companheiros de siglas de luta precisaram dos seus para impedir a cláusula de barreira e manter a pouca voz que têm como ativa, você e os seus não estiveram a nosso lado, não nos deram chance, nem voz. Mas agora você nos quer defendendo nas ruas uma jararaca que tentou nos envenenar.

Agora você quer as ruas, companheiro? Mas não foram vocês que criminalizaram as manifestações? Ir às ruas, como, se somos vândalos e terroristas? Você pede para que esqueçamos a Força Nacional especialmente destinada a agredir-nos na Copa do Mundo? O silêncio que vinha do Planalto a cada massacre das polícias estaduais comandadas por seus aliados é inesquecível, acredite. E nossos tantos companheiros perseguidos, onde esteve a solidariedade para com eles?

Sei que é ilegal o constrangimento de sua condução coercitiva. Mas como vocês gostam das comparações, vamos lá: não é igualmente abusrda a prisão de alguém por porte de um desinfetante? Onde está o companheirismo para com Rafael Braga? Onde esteve a intervenção de apoio do governo aos companheiros vítimas de um processo kafikano que ainda se arrasta pela Justiça? Por que não mandar também esses processos serem enfiados em algum orifício judicial?

Desculpe, companheiro, mas essa sua briga já não é mais minha há muito tempo. Essa é a briga dos adminstradores do sistema. E, qualquer que seja o resultado, será sempre uma derrota. Neste jogo, só temos a perder. Nem que seja a ilusão que muitos tinham com relação a sua sigla.

Esta é a briga pelo chicote do feitor, não por nossa liberdade. E, companheiro, acredite, sua chicotada não doeu menos que a de nenhum outro.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Retrospectiva 2016


retrospectiva

JANEIRO

Crise na volta as aulas. Materiais escolares sobrem 35%.

Inflação acumulada do ano é a maior para o período desde 2014.

Chuvas deixam desabrigados no Sul do país.

Enchentes em São Paulo e Rio de Janeiro levam o caos às metrópoles.

Mais de dez mil casos registrados de dengue, zika e chycungunha no país.

Governo repassa verbas emergenciais para hopitais em crise.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo anuncia interesse em estrela de clube europeu.

 

FEVEREIRO

Carnaval da crise: saiba como reciclar a fantasia do ano passado.

Salgueiro contagia a Sapucaí. Beija-Flor e Mangueira estão na briga.

Ex-BBB mostra o que não deve na avenida.

Carnaval da Bahia ainda tem fôlego e dezoito trios desfilam até o final do mês.

Confusão na apuração do desfile das escolas de samba de SP deixa três feridos.

Chuvas deixam desabrigados e levam o caos ao Sul e Sudeste do País.

Escolas sem condições de funcionamento levam ao adiamento do início das aulas.

Governo estadual nega falta de verba para a educação.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Com goleada sobre Cabofriense, Flamengo embala na liderança do campeonato carioca.

 

MARÇO

Cunha nega manobra e Conselho de Ética tem de refazer parecer.

Aécio Neves afirma que Dilma não tem condições de governar.

Crise: dólar sobre e bolsas caem em clima de instabilidade política.

Cai consumo dos americanos e europeus. Mas isso não afeta o Brasil, dizem especialistas.

Morre cantor famoso em acidente. Fãs choram a perda: assista ao especial.

Professores da rede estadual entram em greve contra falta de condições de trabalho.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo dá adeus ao campeonato e se prepara para Brasileirão.

 

ABRIL

Câmara autoriza abertura de processo de impeachment contra Dilma.

PSDB propõe novas eleições.

PMDB chama oposição e propõe pacto pela governabilidade.

Apesar da crise, bolsas têm forte alta.

Senado rejeita abertura de impeachment.

PMDB diz que apoia governo até o final do mandato.

Crise: dólar sobe e incerteza agita os mercados.

Professores entram em confronto com a polícia. Dois policiais ficam feridos.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo tropeça na estreia, mas técnico vê evolução da equipe.

 

MAIO

STF retira Eduardo Cunha da presidência da Câmara

Eduardo Cunha é cassado pela Comissão de Ética da Câmara. Cabe recurso.

Ex-militar acusado de homofobia é inocentado pelo tribunal.

Professores presos em manifestação são condenados a seis anos e três meses.

Estados Unidos invade país do Oriente Médio contra o terrorismo.

Crise: comércio sofre com pior Dia das Mães desde 2014.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Manifestantes entram em confronto com a polícia.

 

JUNHO

Marcha pela família contra a corrupção reúne um zilhão de pessoas pelo Brasil.

Parlamentares apresentam novo pedido de impeachment da presidente.

Dólar cai e bolsas sobem depois de novo pedido de impeachment.

Lucro dos bancos é o maior dos últimos dez anos.

Crise: vendas do dia dos namorados teve recuo de 1,3% e é o pior da década.

Prefeito anuncia reajuste nas passagens de ônibus.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo vence três seguidas e sonha com Libertadores.

 

JULHO

Impostos impedem crescimento do país.

Crise: inflação dispara e é a maior desde o mês passado.

Ausência de chuvas é a vilã de crise hídrica em São Paulo. Governo nega racionamento.

Delator da Lava Jato insinua que Lula pode ter recebido alguma propina.

Parlamentares querem CPI da propina de Lula.

Ex-governador de Minas perde recurso e é condenado pela Justiça.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Demitido, técnico do Flamengo culpa diretoria pela crise.

 

AGOSTO

Crise: famílias reduzem consumo e setor de turismo amarga diminuição de vendas.

Delegações começam a chegar para as olimpíadas.

Votada isenção de impostos para banqueiros e empresários.

Esperança de medalhas, equipe de ginástica fala sobre superação.

Tabela de imposto de renda não sofre correção.

Brasil começa vencendo no torneio de futebol.

Aprovado aumento de impostos para a população mais pobre.

Brasil ganha a primeira medalha de ouro!

Terceirização é regulamentada no serviço público.

Heróis de esportes desconhecidos ganham medalhas para o Brasil.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Participação do Brasil é boa, mas medalhas ficam abaixo da meta.

 

SETEMBRO

Eleições para prefeito param agenda do Congresso.

Denúncia: prefeituras petistas envolvidas em escândalos de corrupção.

Prefeito de Bolinares do Norte, do PSDB, tem melhor avaliação entre os gestores.

PMDB afirma que eleições municipais não são prévias para 2018.

Debates esclarecem população em quem votar.

Crise: empresas fecham e desemprego atinge pior índice dos últimos dois anos.

Morre político famoso, ex-Arena, PFL e PP. “Um exemplo para todos nós”, diz Bolsonaro.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo e Corinthians fazem clássico para agitar o país.

 

OUTUBRO

Crise: o magro dia das crianças deixa presentes caros na prateleira.

Caetano defende direitos humanos e condena marcha “fascista”.

Constantino: Caetano é um idiota.

Denúncias de revista contra o PT podem alterar o rumo das eleições.

Colunistas criticam apoio de artistas a candidatos.

Atriz global sofre racismo na internet e ganha apoio de fãs e companheiros.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Veja quais as capitais terão segundo turno.

 

NOVEMBRO

PT em crise tem menor número de prefeituras desde os anos 90.

Conselho de ética investiga líder da bancada do PT.

Crise: crescimento baixo mostra cenário recessivo em 2017.

“Se economia não mudar o país quebra”, diz FHC em entrevista.

Guia de férias EUA 2017: o que comprar na Big Apple.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo espanta o risco de rebaixamento.

 

DEZEMBRO

Crise: lojistas esperam pior natal dos últimos tempos.

Recesso no Legislativo suspende abertura de CPI contra tucanos.

Previsão dos economistas é de recessão para 2017.

Saiba como pagar dívidas usando seu 13º salário.

Shoppings lotam na véspera do Natal. Saiba o que funciona e o que fecha.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

América Mineiro entra no STJD por escalação irregular e pode mudar o campeonato.

Categorias: Reflexões | 1 Comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: