Crítica

Uma postagem à brasileira


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Olá, eu sou o Brasil. Fui desafiado a postar quinze fatos sobre mim que talvez vocês não conheçam. Aliás, mesmo depois que eu conte, vai sempre ter muita gente sem acreditar que são verdades. Mas, assim sou eu mesmo. Talvez um dia, quem sabe caia a ficha? Mas, vamos lá: Continuar lendo

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E o troféu Patife-Mariola vai para…


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Equilíbrio de Nash

O termo vem da Teoria dos Jogos. Representa uma situação em que, num jogo envolvendo dois ou mais participantes, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente.
Na terra onde canta o sabiá, esse equilíbrio esportivo tem como modelo exemplar as grandes empreiteiras, que supostamente concorrendo, cada uma teria o interesse de conquistar o máximo. Só que não. Quando estão disputando o mesmo mercado, a conquista do máximo é impossível para todas. E foi assim que os maganos criaram o Clube da Propina, uma mamadeira gigante cheia de petróleo. Os consórcios da quadrilha seguiram e operam o mesmo jogo sujo nas obras da Copa e das Olimpíadas.

Demônios do Capital

No sétimo portal dos infernos, empresários fazem seguro de vida de funcionários, tendo como beneficiária… a própria empresa. Essa vilania do Grão-tinhoso começou com as grandes corporações norte-americanas que compravam apólices de vida dos principais executivos. Por serem funcionários fundamentais e caros, eles eram vistos como ativos da companhia. A partir dos anos 80, a criatividade dos mafarros expandiu-se e chegou ao chão das fábricas. Ganhou apelidos de “seguro do zelador” ou “seguro do caipira morto”.

A morte do funcionário da Wal-Mart, Michael Rice, de 48 anos, trouxe à luz o mundo das trevas. A Wal-Morte tinha feito um seguro de cerca de US$ 300 mil para o falecido. O dinheiro ficou pra quem? Para os anjos caídos da Hell-Mart!!
Enquanto isso a viúva do ex-trabalhador da empresa sofria com o luto e a luta pela sobrevivência. Depois do ritual macabro, a gigante varejista confessou seus atos demoníacos de ter feito esse tipo de seguro para milhares de empregados.

No pé do ouvido

 Você aí que não larga o diabo do celular nem quando está dirigindo. Não disfarça não! É com você mesmo que estou falando. Seu tarado! Fica dirigindo, fofocando com o aparelho do cão no pé do ouvido e enviando zap zap pro sétimo portal dos infernos. Quer morrer? Então vara o Palácio Guanabara, veloz e furioso, a 200 por hora. E leva junto com você a tranqueira do sub-troço do Pezão. Ou então anda de jumento, porque dois asnos sempre se entendem.

E o troféu Patife-Mariola vai para…

Posso garantir que não tem ninguém mais machucado do que eu. Falo com muita franqueza e com muita sinceridade. Eu sofro na alma, fui atingido na alma pelo que está acontecendo. O mais machucado de tudo isso foi eu”.

Beto Richa, o mártir injustiçado

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Vladimir Safatle, se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria um paraíso!


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O mesmo vale para o Português… Informe-se e compre um dicionário!

Essa semana, deparei com uma publicação no Facebook com o título “Vladimir Safatle: Governo Alckmin é autista”. Doeu na alma! O título do texto do douto em Filosofia, além de lamentável, é triste e revoltante porque retrata a ignorância e falta de empatia por pessoas que precisam brigar todos os dias por mais respeito, contra o preconceito e a discriminação!

Pra quem não sabe, sou militante da causa autista e tenho um filho autista. O uso da palavra autista no sentido pejorativo ou mesmo com a intenção de ofender vem se espalhando como erva daninha na mídia, na política e entre os ditos intelectuais.

Só para que o leitor tenha alguma noção, elenquei alguns dos tristes episódios e seus autores:

  • Em 2000, sob o título ‘Autismo’, um editorial destaca a fala do então advogado-geral da União, Gilmar Mendes: “Os juízes estão anestesiados; o autismo é um mal complicado do Poder Judiciário.”. (Jornal da Tarde, 12/7/2000).
  • Em 2005, o título “Governo e Congresso têm comportamento autista, afirma Lessa”, trouxe uma longa entrevista concedida por Renato Lessa, na época professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).(Rafael Cariello, Folha de S.Paulo, 15/5/2005).
  • Em 2011, “Para sociólogo, Ana de Hollanda é “meio autista“. O sociólogo é Emir Sader que estava prestes a presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa e Ana de Hollanda era a ministra. (manchete para Ilustríssima, Folha de S.Paulo, 27/2/2011, p.1)
  • Em 2011, o colunista Leonardo Attuch, criticando Emir Sader diz que o sociólogo “poderia ser enquadrado na categoria” de autista e mais adiante diz que Emir, por não perceber a nova realidade, dá sinal de ter autismo. (Leonardo Attuch, IstoÉ, ano 35, n. 2156, 9/3/2011, p.47).
  • Em 2013, o título do editorial do jornal O Globo era “O autismo da política de comércio exterior”. (Editorial O Globo, 26/02/2013)
  • Em 2014, o diplomata Paulo Roberto de Almeida publica em seu blog “Um governo autista, que acha que o mundo está errado, só ele está certo… – Mansueto Almeida” e em seguida “Existe alguma novidade econômica, ou de simples pensamento econômico, vindo do governo. O governo, ou a governanta, é autista, autossuficiente e satisfeito consigo mesmo. Tem o contentamento dos beatos, dos simples, dos ingênuos, dos ignorantes…” (Diplomatizzando – 07/07/2014)
  • Em 2014, o senador Roberto Requião, pmdbista candidato ao governo do Paraná, numa tentativa de desqualificar Beto Richa, afirmou que o psdbista era autista e conduzia um governo autista durante um debate na RPV TV (repetidora da Globo) (30/09/2014)
  • Em 2015, Clei Moraes, Analista, Articulista e Redator, Consultor em Comunicação e Relações Governamentais, Assessor Parlamentar como ele se apresenta, publica com o seguinte título “Cleptocracia autista: O governo Dilma acabou”. (OPublikador, 08/02/2015)
  • Em 2015, o senador (PSB-AP) João Capiberibe dá uma entrevista a Veja onde afirma “Se o povo bater às portas do Congresso, aí todo mundo atua. Se não bater, vai ficar no autismo de hoje.” (site Veja , O Brasil vive uma cleptocracia – 17/03/2015)
  • Em 2015, Vladimir Safatle, filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo, colunista da Folha de São Paulo e do site Carta Capital, publica um texto de crítica ao governador de São Paulo Geraldo Alckmin com o título “Governo autista”. (Folha de São Paulo – 28/04/2015)

Chamar alguém ou um governo de autista com a intenção de dizer que ele está alheio a realidade ou que só vê o que quer ou que está ensimesmado é de uma ignorância gritante, e só traz mais angústia e sofrimento pra quem vive as dificuldades da inclusão no país das injustiças sociais. Quando a intenção é o insulto ou o escárnio, a revolta é inevitável!

Para princípio de conversa, o ensimesmamento não é o único sintoma do autismo, há outros muito significativos que só, e somente só, em conjunto, caracterizam a necessidade de investigação para diagnóstico de autismo. Além disso, autismo é um transtorno de espectro muito amplo e que não determina a personalidade, ou seja, cada autista é único, como qualquer outro indivíduo, mesmo que tenham os mesmos sintomas ou reajam da mesma forma numa ou noutra situação. Autistas não são robôs ou robotizados, não são formatados, como muitos pensam!

Mas o que é o autismo?

É uma forma particular de se situar no mundo e, portanto, de se construir uma realidade para si mesmo.

A partir do último Manual de Saúde Mental – DSM-5, todos os distúrbios do autismo, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA.

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Uma das características do autismo bastante marcante é não conseguir mentir, ao contrário, o autista é muito sincero. A mentira depende do entendimento da subjetividade, e como autistas têm dificuldade em lidar com subjetividade, não mentem! Além disso, não entende duplos sentidos e entende as coisas ao “pé da letra”. Essa sinceridade, por vezes extremada, em geral, está relacionada ao fato dele não entender certas convenções sociais ditadas pela sociedade neurotípica. O fato de não entender duplos sentidos, por exemplo, faz com que frequentemente seja vítima de bullying e nem perceba, ao ponto de rir junto com quem está debochando dele mesmo.

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Pelos menos 3 mitos sobre o autismo corroboram para o uso pejorativo do termo autista.

  • Autistas não interagem e não se comunicam com outras pessoas.
  • Autistas vivem num mundo particular.
  • Autistas não são capazes de demonstrar emoções.

Isso não está nem perto da verdade! Autistas, mesmo os clássicos, quando amados, acompanhados e sob tratamento, conseguem interagir socialmente. São capazes de se comunicar, ainda que sejam autistas não-verbais. E são capazes de demonstrar emoções. A questão é que a forma como o fazem pode não ser a convencional.

É daí que vem o título! Se Safatle soubesse o que é autismo, saberia que se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria governado por alguém incapaz de mentir, incapaz de desonestidade, incapaz de jogar sujo e capaz de ser extremamente sincero! Seria o paraíso!

Assim como Safatle, Clei Moraes, no blog O Publikador, comete a infelicidade de dizer que o governo Dilma é uma cleptocracia autista! O sujeito qualifica o governo, que ele chama de cleptocracia (segundo ele, estado governado por ladrões), como autista! Ignorância! Vergonha Alheia! Duas coisas não poderiam ser mais antagônicas que um ladrão e um autista! Sr. Clei Moraes pediu desculpas nos comentários do seu texto com a justificativa de que o uso foi “licença retórica e gramatical”, ou seja, a liberdade de expressar criativamente sua ideia convicta! O que pra mim quer dizer que ele escreveu porque quis e que se danem os autistas! Safatle e Clei Moraes são capacitistas, assim como todos os outros citados nesse texto, ofenderam, de uma só vez, dois milhões de brasileiros autistas. Triste! Como eu gostaria que o Brasil fosse governado por alguém incapaz de mentir, de ludibriar…

O uso pejorativo do termo autista só reforça o capacitismo arraigado na nossa sociedade, ou seja, ela (a sociedade) se orienta pelo dominante, aquele que tem capacidade, relegando aos deficientes o plano da inferioridade. E essa orientação está nas teorias, nas práticas, nas ações do dia a dia, de forma preconceituosa e na contramão da inclusão social.

Para, além disso, tratar o autismo como uma deficiência e incapacidade é de um reducionismo absurdo! É ignorar que possa haver outra forma de ver o mundo! Para muitos, inclusive médicos, o autismo é exatamente isso, e o tratamento não só passa por ajudar o autista a se comunicar conosco, os neurotípicos, como também entender sua forma de ver as coisas, entender seu mundo particular. O tratamento ideal para um autista seria então a troca! Mas numa sociedade preconceituosa e injusta, um autista só encontra sofrimento, angústia e ansiedade, o que lhe faz cada vez menos aceitar o contato.

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O leitor um pouco mais situado sobre a causa autista deve estar se perguntando por que uso o termo autista e não pessoa com autismo, principalmente por estar criticando capacitistas. Tenho lido muitos textos sobre capacitismo e sobre defesa da reapropriação linguística de termos definidores de minorias. É o que estou fazendo nesse texto! Estou me reapropriando do termo para reforçá-lo como característica de um ser humano e não como sua deficiência. Enquanto nós, autistas e familiares, continuarmos a ver e sentir o termo autista como algo negativo, estaremos reforçando essa ideia na sociedade. Precisamos nos reapropriar da palavra para redefinir o que é ser autista, porque ninguém está autista. A reapropriação amplia, na sociedade, a discussão e corrobora para seu esclarecimento. E uma sociedade consciente da necessidade de inclusão, é uma sociedade preparada para lidar com nossos anjos azuis!

Dedico esse texto ao meu Anjo Azul, que nesses dias, ao conseguir entender o que era luto e o motivo pelo qual professores de sua escola estavam de preto, fez o seguinte comentário num tom de revolta, porém cheio de inocência:

– Tem que respeitar os professores! Educação é uma coisa boa. Vamos falar com o governador do Paraná. Temos que dizer pra ele não bater nos professores. Bater é errado.

Meu filho, tenho muito orgulho de você!

 

Para saber mais sobre autismo:

Os autismos

O autismo em tradução

Revista Autismo

Lagarta vira Pupa

Mundo Azul

Autismo e Realidade

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Forever and ever…


O título aí de cima repete o último verso da última faixa, a soberba canção High hopes, do até então último álbum do Pink Floyd, The Division Bell, de 1994. É de um verso da mesma canção que se batizou o surpreendentemente novo álbum do Pink Floyd: The endless river.

Seu lançamento foi em 10 de novembro último. Queria ter podido escrever sobre o álbum antes, mas estava a passar pelo meu recesso transversista forçado. No entanto, em meio a isso, esse álbum foi um grande companheiro de apreciação artística e pra produção intelectual nesse período.

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É o 15º álbum de estúdio, de canções inéditas do Pink Floyd- lembrando que a banda, felizmente, só tem coletâneas oficias, fora as centenas de bootlegs feitos há décadas pelos fãs e já incorporados na mitologia da banda. Ele entrou em minha vida no dia 12 de novembro. Afinal, ser floydiano é das minhas marcas mais identitárias.

[In celebration of the comet- The coming of Kohoutek é um dos mais famosos bootlegs da história floydiana, quase tão célebre quanto alguns álbuns oficiais menos cotados.]

Eis um álbum  bastante despretensioso, a ser ouvido com a alma. Não vai se encontrar nele nenhum pré-hit que possa reapresentar os ares icônicos de tantas canções da história floydiana. É um álbum intimista. Sua base, quase toda instrumental, foi composta, fundamentalmente por Richard Wright, o tecladista falecido em 2008. David Gilmour deu suas mexidas aqui e ali no arranjo, instrumentação, afinal, ele e Wright eram os dois grandes gênios da musicalidade da banda e grandes parceiros neste sentido. O efeito final parece de um álbum solo de Richard Wright, tocado pelo Pink Floyd, o que soa uma bela e sensível homenagem, feita com o próprio legado de Rick. Mais que isso, é emocionante pensar que quem está a tocar no álbum é o próprio Richard Wright, com sua maestria instrumental, em canções engavetadas, sobras de The division bell e outros dispersos, todos lapidados por Gilmour.

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Wright e Gilmour: sempre parceiros.

Uma característica que chama muita atenção no trabalho é a profunda continuidade das músicas. A passagem de uma a outra é tão discreta. O álbum pode quase que ser ouvido como uma única grande canção, semi-interminável, em diálogo com seu próprio título. Esse álbum não é o ponto final da carreira do Pink Floyd, é reticências…

Destaco, de antemão, mais uma participação de Stephen Hawking nos vocais- na verdade, mais uma fala incidental- de canções do Pink Floyd- a primeira vez foi em Keep talking, faixa de The division bell. Agora, a canção Talkin’ Hawkin’, uma pequena quebra no percurso instrumental das faixas. A temática é a mesma da canção anterior, a comunicação humana, justamente proferida por um sujeito que, em princípio, teria nessa comunicação uma retumbante privação, mas, como sabemos, sua condição é de ruptura com essa suposta limitação. A canção em si é uma multihomenagem: a Hawking, a própria história da banda, numa polissemia de citações e símbolos.

Se o álbum é quase todo instrumental, resgatando, aliás, uma grande tradição da banda nos anos 60 e 70, alguns de seus títulos dizem muito, como que num longo diálogo, com o próprio Wright talvez. A faixa de abertura traz o mais que sugestivo título Things left unsaid. Aliás, a sequência de abertura, as três primeiras canções, é, a um só tempo, vigorosa e pungente. A partir da faixa Sum eclode um instrumental mais visceral, com guitarras mais cortantes, sempre com o teclado a sustentar harmonicamente em sonoridades crescentes, em loops vertiginosos. Uma satisfatória surpresa é a presença da bateria em primeiro plano instrumental, em algumas faixas, também relembrando outros tempos floydianos, como se ouve entre 69 e 74, principalmente. Aliás, no álbum todo há ecos que dialogam com outras sonoridades ao longo da carreira floydiana. Na faixa Skins, por exemplo, a bateria é pulsante, trazendo aa tona, a esta altura dos acontecimentos, o músico mais esquecido pelos próprios fãs da banda, Nick Mason.

Após essa subsequência, vem Anisina, uma canção que parece evocar o devir que o álbum sugere continuamente. A breve faixa seguinte, The lost Art of conversation, retoma o subtema do diálogo humano e suas limitações. Aí se inicia uma subsequência de canções muito curtas, algo inusual na história da banda, e amenas, como que um passeio em calmas águas, sem correntezas abruptas, o que se quebra logo nas cordas vorazes de Allons-y (1), faixa que faz jus ao melhor do Floyd, inclusive, em sua desconstrução rítmica, ao fim da música e passagem para Autumn 68- um diálogo tardio com a lírica Summer 68, do álbum Atom Heart Mother, de 1970? De todo modo, Autumn 68 é um interstício para se retomar o vigor das guitarras em Allons-y (2). E eis que chegamos à belíssima Talkin’ Hawkin’, já devidamente apresentada.

Eis que vem a subsequência final, adentrada por Calling, uma verdadeira chamada, uma convocação, conclamação, mais uma vez ao diálogo, aa presença. O arranjo de fundo dessa canção é algo tão belo, pura moldura sonora. Mas, nesse trajeto final, destaco com gosto Eyes to Pearls, uma música que parece traduzir a espera por um próximo movimento, pelo que virá, uma faixa inteira prestes a desaguar, sem que seu fluxo encontre, por fim, vazão. A canção soa a contenção, brilhantemente dedilhada. Talvez seja um preâmbulo para Surfacing que, como sugere o título, é um desabrochar de melodia em tempo e espaço, multidirecional, a se expandir, como que no próprio percurso sem fim a que o álbum inteiro nos convida. Afinal, pra quem criou o conceito de som quadrifônico, perceptível tactilmente, romper em tempo e espaço em melodia e harmonia não é tão desafiante.

Por fim, a canção Louder than words, intitulada sob a égide do profícuo subtema que atravessa todo o álbum. Uma canção com letra, composta por Gilmour e sua esposa Polly Samson, já devidamente incorporada aa história e aas honrarias floydianas. Visível e audivelmente, uma música criada para tons grandiosos, destoando até do curso do álbum. Porém compreensível. Era necessária uma canção que desse vazão, com letra, aos diálogos, despedidas e homenagens espalhadas e sugeridas por todo o caminho musical percorrido. De certa forma, é o amálgama de todo o álbum.

[Este clipe é uma lindura aa parte! Emocionante!]

[…]

It’s louder than words

The sum of our parts

The beat of our hearts

is louder then words

…………………………….

Louder than words

This thing they call soul

Is there with a pulse

Louder than words

[…]

São 17 faixas, 17 epifanias em melodia e harmonia. Há ainda mais do que falei, mas, sobretudo há muito pra se sentir. É um álbum muito franca e claramente sobre sentimentos, numa das mais belas e singelas homenagens que já vi e ouvi uma banda fazer a um de seus integrantes.

Afora tudo isso, em tempos de mp3 e youtube e consequente pulverização do próprio conceito de álbum, é animador ter em mãos algo que rema contra a maré, num belo trabalho de composição de imagens, de qualidade gráfica e do material que abriga o disco, resgatando o prazer de se ter um disco em mãos, com seu encarte, enfim, com a própria personalidade do álbum.

Se é verdade que “viagem” é algo que, plurissignificativamente, define a carreira do Pink Floyd, este álbum aponta para um viajar que se perpetua indefinidamente, num rio sem fim, tempo a fluir liberto, em tempos de, enfim, afetividades.

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Vida longa e próspera!


 

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O Senhor Spock morreu! Gerações crédulas em uma vida longa e próspera sem compreender. Leonard Nimoy morreu aos 83 anos de uma doença pulmonar crônica, agudizada por seus 30 anos de fumante.

Vulcanos em luto! Quiçá, romulanos!

Fazendo as vezes de Spock, Nimoy tornou-se o símbolo-mor de Startrek, suplantando mesmo o carismático comandante Kirk (William Shatner) e, com certeza, quaisquer outros personagens ou atores da, hoje, vasta franquia, a ótima Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise, o reboot da geração clássica. Mais do que sucessos lucrativos no cinema e na televisão, Star Trek tem toda uma série de contribuições já em curso amplo ou em desenvolvimento que a maioria das pessoas ignora. Spock é dos personagens mais conhecidos e transgeracionais do Ocidente, sem dúvida.

Na verdade, preciso confessar que prefiro a Nova Geração, com Picard, Data, La Forge, Worf, Tasha Yar, Riker e outros, aa Clássica. Contudo, reconheço a importância histórica dos personagens originais de Gene Roddenberry, da eterna Enterprise NCC-1701, a singrar o universo, indo, bravamente, onde nenhum homem antes foi. E as contribuições de Star Trek a nossas vidinhas nos séculos XX e XXI que quero dedicar este texto, simbolizado em Nimoy, o eterno Senhor Spock.

Antes de qualquer outra observação, situemos Star Trek, como A ficção científica cinematográfico-televisiva por excelência. Sua estética e conceitos influenciaram todo o resto. Inclusive, fora do universo do showbiz. Spock vai além do mundo nerd, com certeza. Ora, o próprio conceito de navegação aplicado ao espaço deve muito, não de sua formulação primeira, mas de sua grande difusão, aa série. A ideia de cruzar o espaço seria, em princípio mais associável a aviões, extensões destes e congêneres. Mas, hoje, a projetamos, metaforicamente, como naus (naves) interplanetárias. Pensamos em frotas e coisas do tipo. Curiosamente, o parâmetro a se desbravar o cosmo é da Marinha e não da Aeronáutica. Talvez seja herança do ímpeto de redição de colonialismo renascentista. Faz muito sentido que seja. Mas, de todo modo, não há como negar a influência de Star Trek, até em quem nunca viu um episódio da série ou longa metragem em tal concepção. Depois da navegação para designação de interação no espaço virtual, vem também a navegação intergaláctica, ampliando muito o campo de navegações.

Star Trek trouxe contribuições linguísticas. A língua klingon, criada para a série pelo linguista Marc Oakrand, é das línguas artificiais mais conhecidas no mundo, só superada pelo Esperanto. Hoje, a língua klingon continua a ser desenvolvida em clipes, canções, etc. Uma simples visita ao youtube dá noção disso. E há dicionários de klingon para línguas europeias. O português, infelizmente, ainda não é uma delas. Um dado interessantíssimo é que o klingon incorpora um dado que o Esperanto, o volapük, a interlíngua, como línguas artificiais não possuem: é o reflexo de uma cultura, como toda língua natural o é, afinal.

 Mas, passando a contribuições mais materiais, lembrando que a referência inicial são os anos 60, quando da série clássica, vejamos outras contribuições, aparentemente, incógnitas. O tradutor universal da Frota Estelar serviu de base a nossa atual tecnologia, ainda muito débil, de tradução simultânea/instantânea. A pistola de vacinação (a bendita vacina sem agulha!) também saiu da série pro nosso mundo. Os tablets atuais já foram idealizados nos PADDs (Personal Access Display Device) da Frota, exatamente como computadores de mão. Os feisers da tripulação são a inspiração, com mesmo funcionamento básico, das atuais armas de choque.

O que dizer então da atual tecnologia de teleconferências, totalmente herdada de Star Trek e disseminada aa exaustão em filmes, séries e desenhos? Isso sem falar em pesquisas em curso com resultados parciais, como visor para cegos (na verdade da “Nova Geração”, raios tratores, o alumínio transparente, teletransporte… Sim, em 2001,  se conseguiu projetar um fóton 1 segundo no futuro. Depois disso, se conseguiu “teletransportar” fótons a 16 km. É preciso esclarecer que, fisicamente, teletransportar (por isso as aspas) não necessariamente tem o mesmo sentido que intuímos. Na verdade, o teletransporte aí se refere aa informação do fóton  (o que em si é um conceito complicado) e não aa presença física dele em si.

Com certeza, a contribuição mais difundida nascida de Star Trek foi o telefone celular, cuja criação foi inspirada nos comunicadores da tripulação da Frota Estelar. É verdade que os celulares atuais já se afastaram bastante da funcionalidade de seus aparelhos de inspiração. De todo modo, da ficção aa nossa realidade cotidiana. O nome STARTAC de um dos primeiros celulares não foi em vão.

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E a tecnologia de dobra espacial?! Não, não estamos nem perto disso. Hoje, navegar no espaço teria este grande impeditivo. Ora, o Sol está a 8 minutos-luz de nós. Parece pouco, mas lembremos que não desenvolvemos nenhum sistema de propulsão que possa nos levar sequer a uma fração significativa da velocidade da luz. A 10% desta velocidade, levaríamos, cerca de 180 anos para chegar no próximo sistema solar. Ou seja, a velocidade de dobra e a quantidade de energia despendidas pra esse feito são, talvez, o objetivo maior do Star Trek way of life a se atingir. Há muita gente hoje teorizando e buscando atalhos pra isso. Os tais “buracos de minhoca”, teorizados por tanta gente séria- por Stephen Hawking, por exemplo- são buscas desse subterfúgio, fundamental aa exploração intergaláctica. Ora, pra alcançarmos, por exemplo, Kepler 186-f, anunciado exultantemente, como uma possível “Terra”, em termos das supostas condições geológicas e astronômicas, aa velocidade da luz plena, levaríamos 500 anos pra lá chegar. Aas velocidades de que dispomos hoje demoraria mais de 2,5 bilhões de anos. Chocante, não?!  Além disso, há inconvenientes práticos de contato, não trabalhados em Star Trek. Se em Kepler 186f, houver uma civilização inteligente e com tecnologia vastamente  desenvolvida que nos possa ver com um hipertelescópio, a única coisa que poderão ver serão as embarcações cruzando os oceanos e colonizando outros continentes. Isso significa, na prática, que nenhuma civilização a menos de 100 mil anos-luz (o tempo de existência do homo sapiens sapiens) conseguiria nos enxergar. E o contrário é plenamente verdadeiro. Como lidar com isso pros contatos e diplomacia intergaláctica nem o habilíssimo Comandante Kirk saberia responder. De todo modo, a ideia da hiperpropulsão intraespacial em navegação, tão usada em todo o mundo da ficção científica posterior nasceu de Star Trek.

Claro se pode contestar se a série criou tudo isso ou deu forma a reflexões científicas já existentes. Ainda assim, dar uma forma concreta aa reflexão tem um valor inestimável. E, no mais, entrar nessa discussão com rigor vai acabar se resumindo aa primazia do ovo ou da galinha.

Na história da série, em 2063, se realizou o primeiro voo de dobra, dentro da Terra (mostrado em Primeiro Contato- A Nova Geração), o que atrairia a atenção dos vulcanos, primeira civilização a travar contato com os terráqueos e germe da federação dos Planetas.

[A canção que tocava quando Zefram Cochrane, o primeiro humano a realizar um voo de dobra, em 2063, ouvia. Pra quem não ligou o nome aa pessoa, é a mesma banda de “Born to be wild”.]

A primeira nave de fator de dobra 5, capaz de cruzar parsecs em frações de segundo só se desenvolveria 90 anos depois. Mais 10 anos a frente, em 2163, seria criada a Federação dos Planetas. É toda uma história de desbravamento adiante, com seus heróis. Só pra se ter ideia, a Enterprise do Sr. Spock só cruzaria o espaço um século adiante.

Voltando a Nimoy, o ator, em sua jornada, viveu sentimentos diferentes com relação ao personagem Spock. Ele tem dois livros publicados que demonstram bem esse espírito: primeiro, “Eu não sou Spock” e, 20 anos aa frente, “Eu sou Spock”. Ele é um clássico exemplar daquilo que se apelidou “Síndrome de Kirk”, em ralação a seu companheiro William Shatner, com tantas dificuldades de viver outros papéis. Recentemente, a dupla protagonista de Arquivo X, David Duchovny e Gillian Anderson, foram apontados como acometidos do mesmo “mal”. Nimoy nunca conseguiu muito espaço pra deixar de ser Spock (mas, cá entre nós, isso o rendeu uma residência em Bel-Air, área nobilíssima de Los Angeles, num claro êxito, dentro dos padrões capitalistas, de resultados). Fez pouca coisa além de ser Spock e auferir seus royalties e lucros indiretos vastíssimos: antes de Star Trek, participou do clássico “Bonanza”,  foi diretor de dois longas de “Star Trek”, sua voz esteve presente no cultuado jogo “Civilization IV” e no autobot Prime, de “Transformers”. Além disso, teve uma participação recente bem marcante na série “Fringe” e fez toda uma série de pontas remetendo ao bom e velho Spock. Dá pra dizer que teve uma “vida longa e próspera”, afinal.

The Transporter Malfunction

Isso tudo afora sua jornada pouco conhecida como cantor…

[Há muitos outros vídeos associados pra matar a curiosidade]

Nimoy deixou um legado maior que ele mesmo. Minha enteada, de 9 aninhos faz o símbolo de “Vida Longa e Próspera” sem jamais ter assistido Star Trek, mas sabe que é um símbolo de acolhimento, saudação, bem-estar.

De certa forma, Nimoy “foi, bravamente, onde nenhum homem fora antes”. Como diria Spock, fascinante (sem exclamações, claro). Uma bela jornada!

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Revolução Tecnológica para quem?


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Com o discurso de que as novas tecnologias chegariam ao mercado de trabalho para melhorar a produção, poupar o trabalhador e facilitar a vida diária, o que percebo como resultante da Revolução Tecnológica são ganhos relativos, uma vez que apenas o primeiro dos objetivos elencados parece ter sido plenamente atingido.

Na prática, a ideia de que os avanços trariam qualidade de vida ao assalariado, por conta da possibilidade de produzir em menos tempo foi uma grande falácia, pois o que se verifica é o aumento exaustivo da carga de responsabilidade. Não só o tempo dedicado em horas ao trabalho permanece o mesmo, como além, do aumento da exigência relativa à produção, temos localizadores remotos: o celular corporativo, o notebook corporativo, o rádio. Bendita era a época do BIP.

Com toda a parafernália moderna, finalmente os empregados podem ser pagos para estarem sempre disponíveis e atentos. Como assim não compareceu à reunião das 8h de segunda-feira, que só foi comunicada por e-mail às 20h de sexta-feira? Por que não verificou a caixa de entrada nos dias de folga? Falta de responsabilidade, falta de compromisso na certa!

Acrescente-se a precariedade da mobilidade urbana nas grandes metrópoles e o que é ruim ainda pode piorar, prejudicando (e muito!) qualquer tentativa séria de pontualidade.

Nunca entendi muito bem essa obrigatoriedade de 8 horas diárias de trabalho. Cobram-se metas, planos, acompanhamento de resultados, avaliações. Mais uma vez, aumentaram as exigências, comprimiram-nas em 8 horas diárias e, sem nenhum resquício de humanidade, não permitem que as pessoas sejam isso aí, pessoas. Que têm dias bons, dias ruins, dor de barriga. Que são notívagas e não produzem nada pela manhã, mas à noite trabalham que é uma beleza. Que, muitas vezes, produziriam melhor no repouso de suas casas, sem trânsito, sem perda de tempo para se arrumar, escrevendo o relatório enquanto olha o filho brincar, e que a qualidade do trabalho talvez fosse alterada, sem dúvida, para melhor.

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Dois pesos: estupro coletivo nas mídias


Respeito

A unanimidade da abjeção ao crime de estupro une pessoas de diferentes ideologias num misto entre choro represado e punhos cerrados. Mulheres de diferentes condições econômicas e em diferentes contextos e faixas etárias são vitimadas, muitas vezes, com a cumplicidade de quem lhes deveria garantir proteção e com a falta de apoio que lhes deveriam destinar as autoridades competentes. Há ainda um silenciamento midiático com o qual nunca deveremos nos acostumar, quando a violência é cometida no nosso país e atinge a camada mais pobre. Não querem desconstruir o mito do país não violento, mas que ocupa o 7º lugar no ranking do homicídio de mulheres em comparação a outros 84 países, segundo dados do Mapa da Violência 2012. tabela A seletividade da notícia traz a diferença nas abordagens. Sabe-se, por exemplo, que, a Índia é um lugar perigoso para as mulheres, embora não conste da tabela anterior. Em termos de estupro coletivo, vários são os casos que nos vêm à lembrança: em 30 de dezembro de 2012, a jovem estudante Jyoti Singh Pandey sofre a violência num ônibus coletivo em Nova Déli; em outubro de 2013, uma adolescente de 16 anos sofre dois estupros coletivos, o segundo como retaliação por ter ido à delegacia denunciar o primeiro; após isso, ateia fogo em si mesma, tendo queimado até a morte, em Madhyagram; em Bengala, 23 de janeiro de 2014, uma mulher de 20 anos sofre pena de estupro coletivo por ter-se envolvido afetivamente com homem de outra aldeia. Isso fora horrores semelhantes sofridos por estrangeiras.

O que se sabe sobre essa prática no Brasil? O caso de Aída Curi, nos final dos anos 50, emblemático por conta da luta extenuante travada com seus três agressores, que depois a jogaram do 12º andar sem terem consumado o ato, ocasionando sua morte? Naquela época, o crime de estupro coletivo era popularmente conhecido como “curra”.

Sobre os casos noticiados mais recentemente, temos o da vítima de 13 anos agredida por, pelo menos, 9 homens na cidade de Osasco, São Paulo, no final de semana do carnaval deste ano, além dos casos de Queimadas (PB, 2012) e Itapirapuã (GO, 2014).

O primeiro dos citados, por exemplo, publicado na terça-feira, 16/02/2015, na maioria dos sites virtuais de notícia só encontrou espaço para publicação em O Globo na quarta-feira de cinzas, às 16h30min. Seria para não macular “o maior espetáculo da Terra”, transmitido em rede nacional com exclusividade pela Todo-poderosa (ou seria asquerosa?) emissora?

Em Goiás, menina de 12 anos foi abordada por dois homens armados, levada para lugar onde mais três a esperavam, dopada e violentada. Além de mais algumas circunstâncias que envolvem o crime, nada mais se noticiou sobre o assunto, como se as investigações ocorressem em sigilo e não fosse necessária nenhuma satisfação sobre o andamento delas à sociedade.

O caso de Queimadas apresenta requintes de premeditação, ainda que não o possa negar nos outros casos. Amigos combinam uma festa de aniversário para um deles, sendo o estupro de todas as moças presentes à festa, com exceção das esposas dos organizadores da festa e donos da casa, o grande presente, não apenas para o aniversariante. Dez homens violentaram cinco mulheres. Duas delas, Isabela Pajuçara Frazão Monteiro e Michelle Domingues da Silva, conseguiram desvendar os olhos, reconheceram seus agressores e foram assassinadas. O mentor do crime Eduardo dos Santos Pereira, irmão do aniversariante, foi condenado pelo assassinato das duas moças, pelo estupro das cinco, por cárcere privado, lesão corporal, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e corrupção de menores a penas que somam 106 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Além disso, ainda há a pena de 1 ano e 10 meses de detenção pelo crime de lesão corporal de um dos jovens envolvidos no crime, o que aumenta a pena para 108 anos e 2 meses. Não se encontra qualquer notícia em relação aos outros criminosos participantes.

Ao se buscar informações sobre as pesquisas realizadas sobre estupro, causa estranhamento saber que não existe nenhuma base de dados sobre o assunto. Como subsidiar políticas públicas sem a dimensão real do problema? Causa estranhamento, também, e aí já entro no mérito dos crimes coletivos, o destaque dado às matérias sobre ocorrências na Índia. E entendam-me bem. Todo o destaque ainda é pouco. Mas aflige-me que em situações análogas ocorridas no Brasil, haja certo esmaecimento das imagens e, junto com elas, dos crimes e das vítimas, como naquela tática cruel de incitação ao esquecimento. Não existe o que não é pronunciado.

Encerro com um “não” aos inúmeros casos de violência marcados pelo feminicídio, em que o patriarcado se esforçou para mantê-los impunes ou silenciados. Mônica Granuzzo presente! Aída Curi presente! Aracelli presente! Cláudia Lessin presente! Isabela Monteiro presente! Michelle da Silva presente! Jyoti Pandey presente! Para mais leituras feitas por mim a respeito do tema, sugiro “Estupro: de quem é a culpa?” e “Vozes autorizadas: o poder que cala“.

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Gênesis e o pau de selfie


 

 

pau de selfie

 

 

Baía da Vergonha

No mês passado, o bicampeão mundial de vela Nick Dempsey esteve no Rio para a disputa da Copa Brasil de Vela, na Baía de Guanabara, e se assustou com a situação.
“É sem dúvida a pior água em que já velejei na minha vida. Suja, poluída, cheia de detritos, e não há nada que nós, atletas, possamos fazer. Os organizadores dos Jogos deveriam estar preocupados com isso”.

O biólogo Mario Moscatelli escancara a vergonha da realidade:
“A melhora só existe na imaginação das autoridades que vivem numa realidade alternativa, em um permanente estado de negação dos fatos. Infelizmente a cada sobrevoo efetuado pelo projeto de monitoramento ambiental aéreo (Olho Verde) que executo há 17 anos, não vejo qualquer melhora e muito pelo contrário só pioras claras”.

 

Pau de selfie

No Brasil, há vários paraísos onde o turista é extorquido nos serviços oferecidos de modo simpático e acolhedor. O modelo exemplar de turismo pega-trouxa é Fernando de Noronha. Além do pacote de viagem tipo tubarão, paga-se taxa de preservação ambiental logo na chegada, taxa de permanência, taxa pra visitar o Parque Nacional Marinho, taxa pra fazer trilha e taxa da taxa.
Se o candango sonha em mergulhar naquelas águas cristalinas, o bolso vai chorar em 360 pratas. Se a esposa quiser registrar com pau se selfie, sem sair do barco, o feito heroico do maridão, vai morrer em 160 contos. No dia seguinte, o casal em lua de mel deseja fazer um passeio privativo de Buggy pela ilha paradisíaca. Uma mixaria de 680 sem arame farpado.
Pra tirar onda com os amigos invejosos, tem que sair num barcão primeira linha pra pescar. A pesca é de currico, jumping-jig e iscas vivas. Os caras liberam água, refrigerantes, cervejas, petiscos de carne ou peixe. Serviço de cozinha incluído (preparam a bordo peixe frito/cozido e sashimi). A trolha camarada sai por 1800 com arame farpado.
Se o casal já estiver enforcado com as dívidas da festa de casamento, a dica é fazer muito amor no quarto. No máximo pode rolar a Caminhada Histórica, uma farpelazinha de 65 pra cada coração apaixonado.
Obs.: não esquece o pau de selfie.

 

Gênesis

No princípio, Juiz criou o céu e a terra. A terra, entretanto, era sem benefícios e privilégios.
Disse Juiz: Haja regalia! E houve regalia. Viu Juiz que a regalia era boa e criou a carteirada do dia e da noite. Esse foi o primeiro dia.
Depois disse Juiz: Haja supersalários! E contracheques cobriam os mares que envolviam toda a terra. E o Espírito do Juiz voava na primeira classe sobre a face das águas. O segundo dia.
Deferiu Juiz: Haja auxílio-educação pros pimpolhos estudarem no São Bento, Santo Inácio ou São Vicente. Viu Juiz que isso era muito bom. Esse foi o terceiro dia
Então disse Juiz: Que seja criado o auxílio-cachangão, com piscina, churrasqueira duplex, quadra de tênis, hidro dupla e uma sauninha pra dar um relax. E observou Juiz que isso era uma beleza. O quarto dia.
Juiz criou então o deputado e o empreiteiro à sua imagem e semelhança. Juiz os abençoou e lhes ordenou: Sede férteis e multiplicai-vos! Povoai e sujeitai toda a terra; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo povo que rasteja sobre a terra!
Daí surgiram supersalários, ajuda de custo, cotão, auxílio moradia, verba de gabinete, 14º e 15º salários, ressarcimento ilimitado de despesas médicas, cartel, corrupção passiva, ativa e reativa, obras superfaturadas, jatinhos, fraudes em licitações, caixa dois, caixa três, formação de quadrilha e outras traquinagens além da imaginação. Assim seguiram o quinto, o sexto e o sétimo dia.
E até hoje Juiz dá a farinha, faz o pão e alarga a goela dessa gente.

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Vale tudo na expressão da liberdade?


Num período de discussões motivadas pelos atentados em Paris, Silvia Putz tenta pegar carona na defesa da liberdade de expressão para divulgar uma crônica extremamente preconceituosa sobre o modus vivendi dos pobres, tal qual ela os imagina, numa chatíssima novela de Manoel Carlos, dançando na laje e comendo pastel e churrasco.

O texto apresenta uma sucessão de estereótipos e a autora os defendeu, posteriormente, em entrevista, alegando tratar-se de mero exercício de humor, sem mais pretensões e sem ofensas. Externando (pré)conceitos que, a seu ver, estariam ligados aos pobres e à classe média, como se as condições de vida lhes fossem idênticas, tece comentários infelizes e nauseantes, pretensa versão feminina do humor rasteiro de Caco Antibes, mas que, diferente deste, possui coluna fixa em jornal de grande circulação para obrar suas verdades.

Sua colega de jornal, também colunista Hildegard Devil, afirmou na mesma semana, em escarros/escárnios anteriores, que a praia deveria ser privatizada e que as linhas de ônibus entre zona norte e zona sul deveriam ser suspensas aos finais de semana.

Fica claro, apesar de implícito, que os pobres são bem-vindos como mão-de obra a prestarem seus serviços durante a semana indo ao comércio e às casas e voltando para seus bairros-dormitório, de onde não devem sair após o expediente de sexta ou sábado, até que a labuta os convoque no próximo dia útil. Uma forma mais moderna de toque de recolher. UPP neles! Prisão para quem transpuser o túnel!

Pode-se comparar, mas não igualar as duas escritoras. A primeira, nascida nos anos 70, deu vazão ao preconceito que a inunda, supostamente apoiada pela ideia de que produz humor politicamente incorreto. Alguém precisa explicar a ela que quem produz isso é o Charlie Hebdo, quando satiriza ícones sejam políticos ou religiosos.

A segunda, nascida no final dos anos 40, perdeu membros da família, perseguidos e mortos enquanto lutavam contra a ditadura militar no Brasil. Suas ideias segregacionistas não são sequer passíveis da ambiguidade que o discurso de humor pode trazer (lembrando que onde Putz vê humor, eu só vejo preconceito).

E por falar em ditadura militar, requento matéria do SBT veiculada em 2013, por considerá-la atualíssima e prova de como um bom trabalho pode ser destruído em poucos segundos. Trata da substituição dos nomes de ruas que homenageavam ditadores e torturadores pelos de vítimas do regime. Ao contrário da lendária rainha homônima que defendeu a própria vida por meio da inteligência e pela impressionante capacidade narrativa, a comentarista-jornalista apresenta, em consonância com as opiniões já criticadas aqui, uma visão que empobrece as discussões, dando uma enorme rasteira no que os colegas produziram e apresentaram antes que ela lançasse aos jatos seu despreparo político e profissional.

O que os três casos teriam em comum? Em que medida, estimular o preconceito, a segregação e o reforço da ditadura podem ser entendidos como liberdade de expressão? Para mim, não passam de formas de atentar contra a dignidade humana, na medida em que tentam desqualificar grupos de pessoas para justificar seu afastamento programado e compulsório (lembrem-se: só aos fins de semana) e mesmo sua tortura física, psicológica ou a morte.

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Imagina em agosto… (Ou Fujam pras colinas, Sininho tá aa solta! Ou será a Dilma?)


Que julho brabeira! Uma ruptura com a aura de lirismo que, habitualmente, cerca esse mês. Mas, caso você seu natalício seja em julho, não boicote este texto. Nada pessoal. Tampouco se você é fruto do mês cuja rima -convenhamos, paupérrima- é com desgosto, segundo o dito popularesco.

Mas, voltando ao tal julho, tá fácil não: mortes em série  na literatura brasileira (a Feira Literária do Céu deve estar fervendo), prisões de todo descabidas num brutal ato de intimidação antiprotestos no mais assustador estilo órfão-nostálgico da Ditadura, o massacre genocida em Gaza que já ceifou mais de oito centenas de vidas numa reedição grotescamente irônica de ódio belicosamente racista, justamente por parte de quem já foi Davi, mas hoje se faz Golias inclemente.

palestina

Este julho decididamente não tá fácil!

Há aqueles que tresloucadamente ainda incluiriam o “Mineiraço” (na tentativa de analogia com o termo Maracanazo, com o perdão aa língua alemã). Mas, claro que nem levo isso a sério, afinal, como já disse alhures, não me chateei nem um pouquinho com o 7 a 1. Muito menos vou fazer como certo caso de acefalia funcional que comparou o resultado futebolístico ao ataque dos aviões ao World Trade Center.

Tampouco, hei de incluir nas tragédias de julho a colocação do Mengão no Brasileirão, já que é meramente episódica. Agora, a volta do Brasileirão em si, bem que podia ser contabilizado aí. Depressão pós-Copa!

Ainda houve, neste mesmo julho, o ingresso da ditadura sangrenta de Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o que mancha essa iniciativa. Desnecessário, economicista, forçoso, deprimente! Como amante da causa lusófona, me envergonho profundamente.

sininho

A sanguinária Sininho livre! Todo cuidado é pouco!

E o avião derrubado, apinhado de especialistas em HIV?! Por muito menos, a 1ª Guerra Mundial se iniciou. Ao que parece, Vladimir, czar da próxima Copa do Mundo de futebol, está Putin mesmo. Há quem tenha acusado a Dilma por isso, já outros suspeitaram de Elisa Quadros, a Sininho, a mais perigosa e famigerada terrorista-anarco-satanista da história da América Latina. Quem garante são as fontes confiabilíssimas da Globo, juizado e promotoria autoinstituída do Estado do Rio de Janeiro, com acesso irrestrito a todos os segredos de justiça: um bebum que ficou sem saideira por causa dos black blocs, um primo do vizinho do porteiro do transeunte que passava pela Saens Peña no ato da final da Copa, um X9 delator maldito miserento anônimo com dor de corno e a mais respeitável das testemunhas, então anônimas, o presidente norte-americano Obama , com seu arborizadíssimo esquema de escutas que só não dá ouvidos aos gritos palestinos.

cachorrinhos

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O grande desastre aéreo de ontem (Jorge de Lima) [por falar em verdadeiros imortais]

Para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

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Na verdade, não há sequer provas concretas de que Dilma e Sininho sejam pessoas diferentes. O mais possível é que sejam, afinal Dilma & Sininho, ou vice-versa. O fato é que as duas jamais foram vistas juntas e, ao que tudo indica, são as grandes responsáveis por tudo o que há de mal. é só ver. Sarney, base de sustentação do governo Dilma, não morre, debochando de seus colegas literatos, imortais só em conotação. O mesmo Sarney é autor da emblemática obra da literatura brasileira intitulada “Marimbondos de Fogo”, uma vinculação óbvia aos planos malévolos de Sininho para pôr fim aa democracia e aa própria civilização ocidental.

Dentre tantos tormentos, atormentações e tormentas de julho, ao menos um fato salutar: os 75 anos duma das maiores inspirações contemporâneas. Um paladino de justiça e superação, em prol do bem comum. Um arguto combatente do Mal. 75 anos de Batman, sempre ao lado do povo!

batman- protestos

batman 75

Cidadão de bem, nada temamos! Estamos do lado direito (e como!). Nem Dilma nem Sininho, Deus é mais! Pela família! Contra o comunismo satanista-gayzista!

Mas, se for o Deus tal qual Suassuna o concebeu, danou-se pr’ocês, hein?! Ave, Suassuna! Do Sertão pra eternidade!

sininho dilmaDilma, inclusive, cínica e bizarramente, finge conivência com todas as ações arbitrárias perpetradas contra seu alter-ego Sininho e seus comparsas só pra não dar na pinta.

[Agradecimentos ao Luiz Constantino e ao Cláudio Barçante pela ideia conjunta de “fuga pras colinas” com o vídeo do Iron Maiden.]

P.S.: o perigosíssimo outro lado da moeda:

http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,traicao-amorosa-ajuda-policia-a-investigar-manifestantes-no-rio,1533578

P.S.2: muita vergonha alheia e desprezo, pela justiça e pela mídia. O sujeito em si, pra além de delator maldito, talvez seja um perturbado apenas: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

[Há um vídeo de pedido de perdão e declaração de amor aa Sininho rolando no youtube, mas me recuso a postá-lo aqui. É deprimente demais.]

P.S.3: Vale ler sobre isto, a quem desejar mais informações sobre o deprimente ingresso de Guiné Equatorial na CPLP: http://www.publico.pt/politica/noticia/a-memoria-deles-pode-ser-curta-a-minha-nao-1663865

 

 

 

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