Cultura

A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.


Bandido tem de morrer e quanto antes melhor, menos despesa pra gente, menos lixo no mundo. Mas eles não tinham sido julgados, fulano… Se estava na cadeia é porque devia alguma coisa. E por acaso não tem bandido na polícia, fulano, não tem flagrante forjado, você sabe melhor que eu… Mas aqueles lá, não, era bandido mesmo… Assassino frio é bandido, né? É tudo bicho ruim, cortaram cabeça… É contra a lei cortar cabeça, né ? Não zoa, é contra lei e contra Deus, é gente muito ruim, não merece viver, tem que matar mesmo. Ok, me diga uma coisa,fulano, se você fosse polícia e pegasse um desses caras numa esquina, você matava? Claro que matava. Fulano, tenho uma péssima notícia para você. Para mim? Matar é contra a lei de Deus e dos homens, você é um bandido.

O cara é um paulistano mas podia ser potiguar ou goiano. Podia se curitibano ou soteropolitano. Como diz minha amiga, cearense nascida nos cafundós que trabalha como balconista mas quer mesmo é ser enfermeira, é tudo brasileiro e Deus é o mesmo. Seu irmão foi morto a tiros pelas costas por causa de uma discussão besta na beira do açude. O filho do dono do açude não foi, nem será preso. Meu amigo alagoano me explicou como funciona. O pai chega na delegacia e vai logo declarando. Foi mesmo o filho que fez a besteira mas não adianta prender, o moleque é ruim da cabeça, o pai está mandando ele embora por uns tempos. Acontece que o morto e o assassino também tinham uns acertos de contas, diz o pai, e diz mais, vai fazer um desagravo para a família. O filho dele fica por sua conta, pronto. Mas a minha amiga diz que o sobrinho, que assistiu a morte do pai aos 8 anos de idade, já prometeu. Assim que crescer vai caçar e matar o assassino. Ela mesma podia ter encomendado a morte por 300 reais mas não acredita que cadeia ou assassinato resolva alguma coisa. Tragédia grega.

O cara me deixou chateada. Por onde começar a falar de Justiça com alguém que pensa que o sinônimo de justiça é vingança? Se quer civilizar um homem comece pela sua avó, já dizia minha avó. Minha avó achava que a consciência é forjada apenas pela tradição e esta muda muito devagar.  No caso do cidadão que defende as chacinas produzidas pela PM não restaria chance alguma. Sua avó passou a vida debaixo do mandonismo do pai e do marido que lhe ensinaram a lei do cangaço, do mais forte, do “quem pode mais chora menos” e do “ isso aí só bala resolve”. Descende de gente que traz gravada na memória e na pele que a vida é uma coisa que tem por sentido a disputa, a porrada como meio e o triunfo como fim. Gente que acorda cedo e trabalha, vê televisão exausta, cria os filhos sonhando que eles não levem a mesma vida enfadonha, vai no estádio ver futebol e quando está no pico do tédio, da raiva ou do nojo, enche a cara para esquecer. Essa é sua Cultura. São eles dignos de viver porque honestos e cumpridores dos deveres, comem e dormem do seu trabalho suado, dentro da lei de Deus e dos homens, dentro da conformidade, isto é, da Cultura na qual foram criados. Vagabundo não merece viver mas a noção de vagabundo é fluida como água. Segundo sua Cultura os vencedores merecem tudo, inclusive o perdão pelos seus crimes e trapaças. Para os perdedores, na prática, resta a Lei do Cão e às vezes a sensação exasperante de fazer tudo dentro das regras e levar a pior. Mas neste caso a Cultura lhes autoriza, ao menos, sonhar com a vingança como prêmio de consolação. Confusamente reconhecem a instituição judiciária como luxo para rico ficar mais rico, uma instituição que, como os bandidos, ferra demais os pobres ao mesmo tempo que a querem como braço armado de suas vendetas pessoais. Neste ambiente cultural humanismo, direitos humanos e coisas que tais só podem mesmo ser entendidas como um pixo no muro – palavra inútil que emporcalha a paisagem, Neste ambiente cultural o assassinato de quem se odeia ou teme vai parecer tão natural como a crença em Deus. Não há falta de Cultura. Cultura fundada na violência  e na lei do mais forte também é Cultura. Os prazos das mudanças culturais operam na chave do tempo mítico, a família pode ajudar ou atrapalhar mas detém poder apenas até o limite da fragilidade cognitiva, material e emocional do indivíduo. A família reproduz mais ou menos a cultura de onde está inserida mas não tem mais poder que tudo que lhe é externo, para o bem e para o mal.   

Livre associação, acabei me lembrando de uns causos do meu tempo de educadora no terceiro setor. A expressão “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” que andava na boca dos adolescentes por causa do personagem Chaves, parece que saiu de moda. No começo dos anos 2000 fiquei confusa ao ver jovens de 14 anos aplicarem o bordão em improvisações de teatro enquanto me perguntava: mas eles leram a Orestéia ??! Foi assim que tomei o primeiro contato com o Chaves, o seriado mexicano exibido na TV brasileira. O bordão era dele.

Nesta época dava aulas para adolescentes em “situação de risco social” e ouvia como resposta à minha provocação, de como pensavam que seria uma tragédia grega transposta para os dias de hoje, muitas narrativas de suas vivências nas favelas e bairros populares. Com apenas uma década e meia de vida tinham se defrontado com violência radical, ao vivo e a cores, mais vezes que eu, em quase quatro décadas bem vividas.

Não sei se fui capaz de ensinar-lhes algo mas aprendi muito. Tinha aquele sentimento arrogante de pena ao ver que contavam com um repertório cultural escasso, não nego, mas acabava por me encantar com suas capacidades de criar o máximo com o mínimo disponível. Sua aversão às normas cultas da língua, percebia aos poucos, não era aversão, mas simples medo de nunca chegarem a dominá-las. Eu também não as domino, confessava. E descobria que bastava lhes convencer que era apenas um jogo para se tornarem exímios caçadores de palavras e brincantes do texto escrito. Eu, a princípio convicta de que os devia alimentar de saberes, ao final concluía que o melhor seria estar atenta e regar seu desenvolvimento com o que pudesse, já que podia fazer tão pouco por eles.

Na maioria dos casos o curso não era a sua primeira escolha ou de seus pais. A maioria ia parar lá ao não conseguirem inscrição nos cursos profissionalizantes. A instituição era vinculada a uma corporação, funcionava com verba de renúncia fiscal para projetos Culturais mas usava a maior parte da verba da alínea “Cultura” para ministrar cursos de treinamento para adolescentes candidatos potenciais aos seus postos de trabalho. Eram cursos profissionalizantes lato sensu, muito mais programas de treinamento de práticas e regras da própria empresa do que qualquer outra coisa. Quem iria questionar? Seus frequentadores e pais só enxergavam a possível vaga de emprego e como desejavam qualquer uma, por mais mal paga que fosse, qualquer coisa estava valendo como “educação”. Não conseguindo matrícula, os responsáveis ponderavam – melhor que nada, melhor que ficar na rua em má companhia ou em casa fazendo bobagem – vai lá fazer essa coisa de artes, meu filho.

Era previsto trabalharmos conteúdos de literatura e teatro. Mais difícil que a alfabetização incompleta – cansei de ver meninos de 14 anos que não conseguiam ler uma matéria de jornal, apesar de frequentarem a escola desde os 7 anos de idade – era lidar com as expectativas iniciais. Havia os que iam logo avisando serem avessos a “ aparecer”, afirmando orgulhosa disposição para o destino de trabalhadores “de verdade” e seu desprezo por “frescuras” e “loucuras” da “ arte”. Outros, no extremo oposto, se declaravam dispostos a tudo para alcançar a mais alta ambição artística que podiam conceber : aparecer na TV Globo. Eram adolescentes com fantasias juvenis, enfim.

Ótimo, eu lhes dizia, então temos por aqui gente disposta a trabalhar para organizar a bagunça daqueles ali quando enlouquecerem com frescuras, não ? Eles riam. Mas espero também, eu continuava, que estejam todos animados a lerem muitos textos e estudá-los. O espanto. Estudar teatro era isso ?

Eles achavam que, em arte, era tudo improviso e dom de Deus. E que a arte maior era o que passava na TV. Novelas e filmes eram melhor que teatro, não eram ? Poucos percebiam que os filmes estrangeiros na TV eram dublados. Muitos menos, ainda, se davam conta de quantos profissionais diferentes eram necessários para fazer uma televisão funcionar. Passado o choque das revelações vinha a tarefa de decepcioná-los gentilmente. Meu objetivo era menos ensinar-lhes “artes” que despertá-los para coisas interessantes, quem sabe até para maneiras mais férteis de empregar o tempo que dedicavam a assistir televisão.

Dava certo, às vezes. Muitos tomaram gosto pela leitura, outros a aprimoraram. Nos encontrávamos duas vezes por semana ao longo de apenas 4 meses mas, de leitura em leitura, jogo em jogo teatral, do exercício à conversa, vazava para dentro dos nossos jogos de faz -de -conta o real de seus cotidianos, repletos de problemas subjetivos e materiais. Todo o deficit de um sistema de ensino tão burocrático quanto indiferente aos afetos se revelando bem na minha frente. Tudo que a Cultura de um país excludente, fundado sobre a exploração dos mais fracos pelos mais fortes podia produzir, se reproduzindo sobre aqueles corpos e mentes. Muitas revelações me chocavam ainda mais pela constatação de que não havia espaço para eles pensarem e falarem sobre suas inquietações mais profundas em casa, na escola, na igreja ou na rua. Sobretudo os meninos, treinados desde o berço para aguentarem porrada sem reclamar e lutarem por um território onde pudessem mandar. Eis o sonho generalizado. Um espaço para mandar. Nem que fosse apenas uma casa ou um barraco com uma mulher dentro, que lhes daria filhos e a certeza de valer alguma coisa, pelo menos para eles, a família. Assim como as meninas que, em contraparte, sonhavam com o amor incondicional quando parissem. O amor romântico para muitas parecia, senão inacessível, improvável mas ter um bebê, isto sim, era a garantia do amor incondicional. Esses moloques são uns toscos, Professora. Meu pai fugiu quando minha mãe engravidou, Profe. Homem só quer aproveitar da gente, minha mãe sempre diz, o que a senhora acha?

Foi uma experiência cheia de momentos emocionantes e imprevisíveis. Guardo vivo na memória um princípio de cisma religioso que se instalou em uma das turmas. Já então alguns garotos e garotas acrescentavam, ao se apresentarem, a identificação religiosa – sem que lhes fosse perguntado. Foi assim que se identificou um grupo, sentados lado a lado em um canto da roda – evangélicos- o que provocou também a declaração de fé, no canto oposto, dos umbandistas. Havia troca de olhares desconfiados seguidos de risinhos e boquinhas torcidas desde o primeiro instante.Após a rodada de apresentação ficou claro que o desprezo era mútuo. Perguntei se sabiam o que era mito de origem. Não sabiam. Expliquei a diferença entre o tempo histórico e o tempo mítico. Gostaram da coisa. Um garoto sabia o princípio do Velho Testamento de cor, uma menina narrou um mito africano. E o mito de origem dos gregos, conheciam? Fomos ao mapa mundi procurar a Grécia. Desenhada uma linha do tempo em papel kraft na parede, a conversa fluiu. Os mitos gregos e africanos tinham muito mais a ver com o terror – gênero preferido por 9 entre 10 adolescentes naquela época. Um deus que paria filhos em suas próprias coxas e os devorava, UAU ! Um deus punido por seus pares por roubar o fogo e entregar aos homens, quéquéissso??? Existem, existiram, sim ou não, como eu dizia, eram questões de fé que não vinham ao caso mas como no campo da Cultura simpatia é quase amor… lá fomos ler trechos de tragédias clássicas e falar dos conflitos de amor, ódio, paixão, desrazão e orgulho que garantiram a sobrevivência destas antiquíssimas histórias.

O planejamento pedagógico vinha de cima mas fazíamos limonadas a vontade. Recordando estas aulas há uma década e meia, me peguei questionando como ou se ainda seriam possíveis. Pelo que ouço dos colegas professores, a necessidade de dar conta de conteúdos extensos e uma burocracia feroz fazem da sala de aula uma linha de montagem mais sem graça do que sempre. A onipresença dos celulares com seus infinitos bate-papos mais o acesso instantâneo à web em qualquer aparelho de baixo custo, talvez tenha esvaziado algo que servia de isca e encantamento para o trabalho pedagógico. Trechos de filmes, livros, fotos e gravuras, às vezes significavam o primeiro contato daqueles jovens com obras do chamado mundo das artes e da cultura. Fora dali tinham pouco ou nenhum acesso a ela. A curiosidade incitava, a dificuldade de acesso fisgava, a concentração não era desviada pela vibração de qualquer eletrônico. Agora, pelo que dizem, sabem que tudo está à mão e tudo pode ficar para depois. A procrastinação, esporte nacional de prestígio transversal a todas as classes sociais brasileiras, encontrou o solo mais fértil de sempre. Todas as coisas estão ao alcance de um clic, o que equivale a dizer que podem esperar até o fim do próximo chat, da próxima selfie, do próximo clipe, da próxima série, do próximo game. No tempo que melhor apetecer a cada um. A sociedade virtualizada tem precedência sobre a real, dizem meus colegas professores e divertir-se é a ordem. Diversão sem qualquer esforço. É só pesquisar o ranking das palavra mais consultadas nos motores de pesquisa para ver, me disseram. Especulo. A educação pode muito mas a Cultura, hem, a Cultura….

Recordando aqueles anos, me recordei também daqueles dias. Da atmosfera, dos modos, do cotidiano, do gênero de passatempo e lazeres mais ou menos comuns para quem podia ter algum lazer e passatempo. Íamos ao cinema, aos museus, ao teatro como sempre, jogar bilhar, houve uma moda de dardos ao alvo, já nos trancávamos em casa a ver pilhas de filmes emprestados da locadora mais próxima mas raramente sozinhos. Viajar era um prazer mas ficar em hotéis era muito caro. Os carros não eram mais os do tempo do Collor, os moços se empolgavam com os importados. Começavam a voltar à moda os sapatos bico fino e salto alto, os tênis de nova tecnologia passavam a substituir os sapatos esportivos. Os computadores entravam de vez para o cotidiano doméstico. Havia a internet discada, todo mundo tinha um endereço de email. Havia muitos novos pequenos hábitos de consumo agora. Consumir era igual a viver, a sociedade se confundia com o mercado então nada mais natural que o mercado cuidasse de tudo. Comprar planos de saúde, mandar os filhos à escola particular, instalar cercas eletrificadas nos muros, contratar seguranças uniformizados para as portarias, preferir a vida em condomínio a uma boa casa com jardim, de cara para a rua, era o novo normal. Em cidades minúsculas com terra baratíssima a classe média se enfiava em prédios mais altos que a igreja matriz bem ao lado. O desejo de viver dentro de uma bolha triunfava. Uma bolha nem tão apartada dos pobres assim, diga-se de passagem. Mas uma bolha que ao menos garantia saneamento básico, transporte e outros itens diferenciados. Que garantia diversões e sonhos diferenciados. Afinal, tínhamos sempre alguma chance real ou imaginária de escalar até uma daquelas outras bolhas sobre nossas cabeças. Era natural não debater como esta Cultura de apartheid era esquisita. Que apartheid? Responderia em uníssono a classe média não engajada na discussão política, caso alguém ousasse assim classificar aquele modo de vida tradicional, agora sedimentado de vez. Que horror. Temos é corrupção – sempre ela, essa maldita. Quantos haviam sido pegos com a boca na botija, tinha adiantado o quê ? O dinheiro era a medida de todas as coisas mais do que nunca. O fim das ilusões, o fim da História. O processo de judicialização da vida avançava como jamais, ser querelante virou moda. Law and order. Problema agora se resolve é na Justiça. Discute, não. Mete um processo. Quero a minha parte em dinheiro. Não discuto, não converso, não peço desculpa – pago – prefiro. Apartheid onde? Haveria os que garantiam que estávamos todos lascados, de qualquer modo, pobres e remediados. Mesmo nós, os que saídos das prestigiadas Universidades Públicas esperavam encontrar mais facilidades para triunfar no mercado de trabalho, olha aí, ainda tínhamos de ralar muito para encontrar meios de vida e renda. Não tínhamos de nos esforçar muito para vencer concursos públicos e alcançar os melhores salários, sendo filhos de pais sem capital ? E mesmo os mais abonados entre nós, não tinham de usar a rede de relações e até mesmo o patrimônio de pais e parentes, ao querer constituir negócio próprio? Quantos de nós, cansados de bater a cabeça ou avistando oportunidades melhores não tinham tomado o rumo do aeroporto? Temporária ou definitivamente – quem sabe. O Brasil era cansativo. Depois de toda aquela euforia da redemocratização, quanto tempo até conseguir frear a inflação… e a corrupção, sempre ela… e os pobres e miseráveis… há tanto tempo fazem parte da paisagem. Bem, estavam lá desde sempre, já eram parte da paisagem, não eram? Era difícil. Era preciso ter espiritualidade para suportar. A espiritualidade sempre foi parte importante da nossa Cultura, e como dizem todas as religiões, pobres sempre haverá entre vós . Para vencer a pobreza é preciso fé, comprometimento individual com seu crescimento. As Igrejas ajudam mas se a pessoa não tiver fé, ah, vai se abduzida por toda essa violência, não há dúvida. A religião agora era onipresente nas madrugadas da TV. E não é que ajudava os mais pobres? Claro que sim. Ajudava o sujeito a se organizar, parar de beber, convencia o marido a não bater na mulher, convencia a mulher que é melhor ser doce e carinhosa ao invés de uma megera rabugenta, mantinha os adolescentes ocupados, orando, trabalhando para a Igreja. A violência era o mal da década e tudo para fugir dela era válido. Alguns de nós até escorregavam no abuso de drogas para segurar a barra da violência simbólica. Era ridículo mas era válido. No cinema ou na TV a violência tinha virado tema preferencial, só superado pelos temas do adultério e do amor romântico. Quem ditava qual era a moda, qual era a onda, qual era a pauta, mostrava o drama da violência, a tragédia da violência, Hollywood fazia da violência uma coisa cult. A violência é, como a religião, uma coisa complicada. Há muitas explicações e muitos modos de ver o mesmo Deus que, afinal, é um só. Aqui, pelo menos não tinha violência religiosa. E nossa violência também nada tinha a ver com os salários ou o desemprego. Muito menos com o consumismo.

A cultura do consumismo se infiltrou cada vez mais pesadamente na vida cotidiana da classe média, a partir dos anos 90, e se encontrava reprimida para a maioria da população por simples falta de meios. A ideologia do indivíduo que é feliz porque consome e consome para ser feliz já era a parte estruturante do tecido da Cultura mas do sonho ao real, apenas uma minoria conseguia ir além do desejo. Então veio o governo Lula. De repente aqueles garotos e garotas com perspectivas nulas ou lentíssimas de melhoria da renda – e apenas se contassem com a sorte de famílias estruturadas ou, no mínimo, mães e pais decididos a tudo sacrificarem por eles – sentiram que podiam dar o salto e passar à próxima bolha. Trabalhando no telemarketing, podiam frequentar uma faculdade subsidiada no contra turno. Podiam sonhar, ao perceberem que alguns até mesmo teriam chance de chegar às bolhas mais altas, sempre inacessíveis aos filhos do trabalhador brasileiro da base da pirâmide. Os pais ganhavam um pouco melhor. De repente faltavam pedreiros e os mais habilidosos montavam equipes e passavam a trabalhar por conta. Euforia. Da faxina se saltava para a massagem estética, da recepção se podia chegar a envergar um terninho no tribunal. Virar doutor e doutora advogada, o sonho impossível agora ao alcance do carnê de crediário. Euforia. Pressa, muita pressa. Vamos virar o jogo. Afinal a empregada podia ter um armário na cozinha novinho, não aquele de portas caídas que a patroa dispensou, louça nova no banheiro, como aquelas que passou a vida limpando. Descobríamos que não estávamos fadados a viver em bolhas diferentes de consumo para sempre. Cada um com seus problemas mas todo muito podendo ter as coisas que sonhou. Éramos enfim o futuro que parecia ter desistido de chegar. Agora sim, ia chegar, glamuroso como uma viagem a Miami. Eufórico como uma liquidação da blackfriday.

Por estes anos, vivi algum tempo fora. O Brasil desabrochava para o mundo esfuziante como esta alegria que nos contaminava por dentro. Aquele fetiche brasuca de namorar gringos e gringas para conseguir um green card ia se invertendo. Moços do leste europeu me imploravam para lhes apresentar garotas brasileiras. Lindas ! E ainda por cima, vivendo no Brasil, ah, o Brasil… que sonho o Brasil. Vinha de visita e reparava – era só impressão ou a média da estatura da juventude negra e periférica tinha aumentado? Seria mais ingestão de proteínas ? Que a população como um todo tinha engordado saltava aos olhos.

O Lula não inventou, e nem poderia porque já estava inventada, a euforia consumista. Euforia consumista, aliás, é pleonasmo. Consumismo é comprar euforia em forma de cacarecos mais ou menos caros. Nem tudo que é consumo é euforia. Alguns objetos do desejo são úteis. Quem lava roupa no tanque ganha mais que euforia ou status ao comprar uma máquina de lavar. Quem nunca teve luz elétrica em casa ganha mais que uma lâmpada acesa. Quem viu a mãe morrer na sua frente porque não havia um carro para levá-la ao hospital, deseja mais do que conforto ao adquirir um automóvel.

O governo Lula  no aspecto cultural, colocou abaixo algumas catracas seletivas demais e os efeitos colaterais foram muitos. Uma certa “ mudança comportamental” dos pobres e muitos pobres não se explica apenas pela oportunidade de virar consumidores. A maioria não chegou nem sequer a virar consumista, não passaram de consumidores do básico – ao qual não tinham acesso ou garantia antes.  Ainda que fosse verdade ( o que discordo) que a chamada “ nova classe média” ou “ nova classe trabalhadora” tivesse se mostrado mais interessada em consumir do que outra coisa, alguém diga com sinceridade : quem forjou o modelo para ela se espelhar? A sociedade brasileira, nascida sob o signo da violência, tendo o Estado desde sempre como perpetrador das maiores violências, tem como eixo fundamental de sua Cultura da violência proteger de todas formas possíveis a acumulação de patrimônio privado. Este modela, desde a base nossa Cultura, da ética subjetiva ao conjunto das leis . Um acumulado de terras, casas, apartamentos, carros, dinheiro, moeda, ouro, pedras preciosas, ações, o acúmulo, qualquer acúmulo de riquezas, é o legado mais precioso que um pai pode deixar aos seus descendentes. O patrimônio e as posses trazem prestígio e alvará para quase tudo. Sobretudo se for ” riqueza velha” daquelas que nem se consegue investigar bem as origens. Prestígio intelectual, só se corroborado por um diploma materializado na parede e acompanhado de uma conta gorda no banco. Por acaso pode valer o quê uma pessoa sem dinheiro ? Se é artista talentoso, se é jogador habilidoso, se é descendente de famoso tem de ser rico, ora, cirurgião, engenheiro, arquiteto bom que não tem dinheiro, onde já se viu? A riqueza traz em si o condão de chancelar talentos, imaginar competências várias, mesmo onde eventualmente só haja resultado de sorte ou jogos de poder e violência. A Cultura também fez de nós uns generosos em elogios e afetos, pródigos mesmo. Nossa Cultura reproduz o amor pela prodigalidade em todos os setores da vida. Numa sociedade de classes com uma das piores distribuições de renda do planeta qualquer pessoa em situação de rua tem na ponta da língua a definição do Brasil : um país rico, riquíssimo ! O consumismo foi só a cereja do bolo.

O consumismo é autoritário. Ele instala a ordem do consumo como única meta, única saída, único valor. Consuma ou morra, tenha coisas ou inexista, ostente posses ou cubra-se de vergonha. E seu caráter autoritário só tende a agigantar-se em uma sociedade em que os meios de comunicação de massa estão em poder de meia dúzia de donos de empresas que, desta forma, ditam quais os objetos, os valores, gostos, músicas, ideias, notícias, personalidades tem valor de consumo – quais devem ser apreciadas e consumidas, quais devem ser descartadas. A mídia de massa  dita para a massa o que é Top no ranking e o quê não vale nada. Quem deve ser exaltado, quem pode ser humilhado. Na sempre monotônica e autoritária propagação do consumismo o topo da pirâmide de renda é a meta e a ordem primeira, em caso de impossibilidade de alcançá-la, é mimetizá-la. Almejar ter cara de rico, cabelo de rico, se vestir como rico, ter cacarecos de rico, são os mandamentos inscritos no regulamento do Partido Único da Mídia que o divulga dia e noite. Partido único que tem também o poder- político -de tornar invisível objetos, valores, gostos, músicas, ideias, notícias e pessoas que não alimentem a ideologia de triunfar e fazer fortuna. E não é possível estar desalinhado com o Partido Único da Mídia, no Brasil sem temer sanções tão violentas quanto aquelas que o Estado é capaz de produzir. Aos desafetos relevantes a Mídia de massa pode neutralizar partindo para a guerra frontal pela demonização, incitamento ao repúdio, pelo ridículo, pelo escárnio, pelo deboche, se a invisibilidade não bastar. O MST que o diga.

A mídia de massas no Brasil, tanto a eletrônica, quanto a escrita, graças a todas as manobras ilegais que fez ao longo dos últimos 30 anos para continuar operando de forma diversa do que diz a Constituição, conseguiu firmar-se como uma espécie de preposto do Olimpo. Seus donos que operam empresas que servem à venda de cacarecos em primeiro lugar, nos intervalos entre os filmes publicitários produzem anestésicos em forma de diversão. Mas também criam lendas, mitos e dramas a serviço da Cultura clássica brasileira. Elevam simples mortais à condição de semi-deuses. Como Zeus são capazes de acorrentar um Titã à beira do penhasco e ordenar que abutres lhe devorem o fígado, dia após dia, e ainda escarrar na cara de quem ouse levantar a voz para protestar que, com ou sem Prometeu, o Olimpo é que é o problema. Então não é surpresa que este Olimpo se empenhe em retratar Prometeu como um ladrão asqueroso. Omitindo inclusive que todos os Titãs gostavam muito dele antes dele ter roubado da pira dos deuses uma fagulha, além de ter trazido à cena Pandora que, como se viu, nada fez para evitar que a caixa preta fosse aberta. Francamente !

E é claro que nem dá pra começar a conversar de forma leve com quem, educado por esta mídia de massa e pela tradição cultural brasileira, grita :” bandido bom é bandido morto!”. Se eu fosse capaz de lhes explicar que os bandidos que vendem anestesia para as durezas de suas vidas, adestraram sua língua a dizer estas orações de maldizer – que não explicam nada e não resolvem nada – apenas para que eles possam continuar como prepostos dos deuses no Olimpo… seria eu mesma um Prometeu.

Mas sou uma reles mortal que rasteja lutando para não perder a fagulha que lhe cabe neste vale de trevas. Às vezes penso que felizes são os Titãs e deuses do Olimpo. Às vezes penso que são os abutres com sua dieta de fígado fresco. Às vezes penso que felizes são os urubus satisfeitos com sua dieta de carniça. Mas na maior parte do tempo penso que talvez sejamos apenas uma nação de gente triste encenando uma velha tragédia. E que, na tragédia brasileira, minha vocação para coriféia é que me desgraça. E como dói, às vezes, não ter um reles tábua onde encenar outras paixões. 

oresteia

Oresteia de Ésquilo

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Esquentando os tamborins para espantar a tristeza


Há mais patos entre o Planalto e a Paulista que aviões na lista pra cair sobre a cabeça dos otários mas pode anotar no seu diário, o país está pegando fogo devagar porque tem muita lenha pra queimar entretanto sua hora vai chegar, pequeno burguês de crediário. Não sou quem digo, é a História da qual não tem memória porque não gosta de livro, cinema, teatro, arte na rua, de fato eu sei, negócio dele é contar dinheiro, seu tesão é ir para o estrangeiro cantar rock, dar banana para a realidade que te dá ganas de morrer e nascer noutra parte. Mas não adianta latir porque a caravana passa, engole o choro que a vida te foi dada de graça e você joga no lixo por pirraça, por causa de pixo e ninharias. Não embarca nesta nau dos insensatos, vamos aos fatos. Tem 210 milhões de almas nesta bagaça, mais da metade viajando no porão, sem saneamento básico e sem condição de fazer frente à avalanche de sacanagem que vaza do esgoto da primeira classe. As costas já estão lanhadas, as mulheres já estão ferradas, e ainda assim reagem como podem. O B.O. sobrou pra nós, nobres colegas de classe laboral que não limpam latrina os do chamado trampo intelectual. O boletim é claro e a ocorrência é a seguinte.

O projeto do governo para o Brasil é nenhum . Este é o plano em pleno curso. É reativo, diz respeito apenas ao uso das riquezas naturais, incluídas nós, meros mortais sem patrimônio de vulto. Não temos muitos recursos mas vamos nos organizar como as formigas, na miúda. Não desanima, não faz cara sisuda, que a nossa sina foi traçada antes de nascermos. Colônia somos e quando o centro do sistema sente fome, é sempre assim, são nossas carnes que eles comem, são nossas veias que eles sangram, são nossas cabeças que eles pisam. Enxerga com os olhos de amanhã o horizonte e repara : ele não está pronto.

Quem não sambar com a Imperatriz, não vai perceber que Xingu está por um triz mas já mataram milhões e não extinguiram a raiz. Quem não sambar com a Vai Vai, com a roda que gira no Ilê e bate cabeça, não abre a roda pra saudar, nunca vai ver a bela vista do povo de Oxalá.

para fazer sucessso Romulo Fróes

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Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente


Da primeira vez,  eu devia ter uns 7, 8 anos. Ele, uns 17. Trabalhava no bar frequentado pelo meu pai. Tínhamos uma conta lá e eu precisava comprar muitas coisas fiado. Vivia me elogiando, dizendo o quanto eu era bonita e que iria se casar comigo. Eu dizia: mas eu não quero casar com você. Ele insistia. Dizia que o que importava era o que ele queria, que ia casar e ponto. Falava isso na frente de muita gente. Falava isso na frente do meu pai. Eu chorava. As pessoas em redor me chamavam de boba. Ele só estava brincando.

Aos 9, 10, o marido de uma tia tentou me beijar. Eu estava sentada no sofá da minha casa vendo sessão de desenho animado. Algum tempo depois contei para a minha avó. Ela implorou silêncio. Disse que meu pai matava um.

Episódios pontuais antes dos 13. Um homem num carro se aproximou. Pensei que queria informação. Estava se masturbando. Vi algo brilhar no banco do carona. Corri. Até hoje não sei se era uma arma, uma faca. Outra rua, outra história? Um homem num carro se aproximou. Pediu informação. Depois ofereceu carona, insistiu de novo, falou uma terceira. Corri. Com o tempo, isso se tornou um hábito quando carros paravam.

Na época da faculdade, voltei do shopping de táxi com alguns amigos e amigas. Rachando a conta, valia a pena. Eu ficaria por último. Achei pedante ficar no banco de trás. Fiquei ao lado do motorista. Ele perguntou se eu não queria fazer um programa com ele. Gelei. Me infantilizei: que isso, moço? Sou disso não. Ele insistiu. Perguntou minha idade. Menti: 17. Ah, tá. Dimenor. Dimenor dá problema. Antes de sair aos prantos, ouvi: viu como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Dava aula em Acari de manhã muito cedo. Seguia a R. Costa Lobo para pegar o metrô em Triagem. Rua deserta. Um cara passou a mão no meu peito. Não reagi.  Tive medo de apanhar.

E as cantadas grosseiras? As línguas obscenas antes da menarca, numa época em que tomar sorvete de casquinha era deixar o doce escorrer pelos dedos. Puxões de cabelo na balada, beliscões nos braços. Os comentários sobre meus seios, minha boca, minha bunda, minha vulva. A coragem de andar sozinha substituída pelo medo de andar no escuro.

Aos 9 anos, ouvi que era muito madura para minha idade. Aos 10, que era muito madura para minha idade. Aos 11, 12, 13, muito madura. Aos 14, muito…

No carro do amigo de uma amiga, acompanhado dela e do namorado, o cara passou a mão na minha perna quando trocava de marcha. Falei: não te dei essa intimidade. Que isso, benzinho? Não gostou?  Tinha aceitado a carona por insistência da amiga. Iríamos a uma festa de rua em Pilares ou Del Castilho. Ele estava desviando o caminho: Rodovia Washington Luís. A amiga aos beijos com o namorado. Ocupada demais para perceber. Falei com ela, reclamei com ele, que resolveu voltar. Eu estava sem grana. Na altura de Quintino, ela resolve descer para dormir na casa do namorado. Paralisei. Segui com ele. Me senti sem escolha. Na Marechal Rondon, imbicou o carro para um motel. Tentei abrir a porta e o vidro. Tudo travado. Gritei, esperneei. Ele deu meia volta e me levou para uma rua deserta. Eu chorava, gritava, dizia que queria ir embora. E ele continuava tentando me convencer a mudar de ideia. Por fim, me deixou em casa. Ouvi uma frase já conhecida: tá vendo como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Fonte: Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente , no blogue FeminAGEM.

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Índio não é gente!


19 de abril: Dia do Índio. E daí? Quem liga pra isso? Por que ainda tem índio neste país? Já não bastam todos os demais problemas sérios? Índio não é nada, não serve pra nada, é menos que bicho! Índio não é brasileiro, não é de lugar nenhum. Arranquem esses parasitas das terras onde se amontoam. Índio é um mal, uma vergonha nacional! Índio é lixo ambulante! Índio não é gente! Cuspam nos índios, limpem os pés neles, acabem logo com todos eles, em nome da decência, do bom senso, do progresso do país, da civilização, de Deus.

Ninguém liga pra índio! Essa é a mais crua verdade. O tal Dia do Índio foi instituído, vejam só, pelo populista e ditatorial governo Vargas. Ano após ano, homenagear essa data é caracterizar as crianças de patéticas caricaturas de supostos indígenas, a emitir uma vocalização entrecortada por palmadas na boca. Sequer está em jogo alguma etnia, cultura ou nação indígena em especial. Pra quê? Índio é tudo igual, tudo a mesma porcaria mesmo, afinal.

E assim segue o país saltando levemente de sua amnésia com relação aos indígenas uma vez por ano. No mais, sobra ainda um resquício de visão romântica dos habitantes originais da terra, visão construída em deletéria idealização pela arte brasileira do séc. XIX e ainda hoje persistente. Tal idealização só serviu pra afastar o índio verdadeiro ainda mais de qualquer perspectiva real de coexistência com o resto do país, que sequer os reconhece como brasileiros efetivamente, em ironia que atropela o intento idealizador romântico insistente.

 

Enquanto continuam a ser romantizados, idealizados, o genocídio sem fim de suas culturas e corpos segue incessante. Aliás, matar índio é um dos grandes elos de continuidade entre o Brasil colônia e o Brasil independente. Atribuir isso aos portugueses tão somente é ingênuo e dum cinismo calhorda.

Fonte: censo IBGE, 2010.

O Brasil, junto com os EUA, é o país do globo que mais exterminou sua população nativa. No início do séc. XVI, a população indígena estimada no país era de 5 milhões de pessoas. Hoje, segundo o censo mais recente do IBGE, são um pouquinho mais do que 800 mil. Um decréscimo de quase 7 vezes! Ao mesmo tempo, em fins do séc. XVI, a população geral do Brasil rondava por volta de 8 milhões. Hoje, esse número aumentou em 23 vezes, atingindo 191 milhões, segundo a mesma fonte. É uma chacina secular e com a mais ampla cumplicidade social possível. Muitas barbaridades da colonização e, depois dela também, foram perpetradas por portugueses, claro, mas também por brasileiros, por luso-brasileiros e braso-portugueses. A vitimização histórica em torno dos índios, reivindicando o martírio deles como de todo o país, não passa de dissimulado e enojante cinismo de um Estado e de uma população que os ignoram, de todo, como seres até hoje. Os dados sobre línguas nativas são alarmantes, num nível só comparável, de fato, ao visto nos EUA. No início da colonização, elas eram estimadas em mais de 500; hoje são cerca de 170; até o fim do século, podem ser metade. Segundo a Associação Internacional de Linguística (SIL)[1], dezenas de línguas brasileiras estão em extinção, com exíguas possibilidades de alcançarem o fim deste século. Muitas delas têm apenas poucas centenas de falantes, quando não menos de uma centena. Na comunidade linguística nacional e internacional paira a percepção velada, por vezes, explicitada de que é necessário descrever essas línguas o mais rápido possível, pois, em pouco tempo, esse será o único rastro humano e cultural de tantos povos. Muitos jovens índios têm vergonha de falar sua língua nativa, o que é o auge do processo de extinção cultural: de chorar! É muito triste e cruel!

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No Brasil, o racismo anti-indígena é tão estrutural e enraizado que fez até do negro homem branco. Sim, racismo! Costumamos pensar nele só em relação aos negros, mas, quanto aos índios, ele é tão naturalizado que soa normal. É asqueroso!

“Eles vivem na floresta amazônica, sem contato com o homem branco…”

13/08/2013, Jornal “Hoje”, Rede Globo

Em pleno século XXI, ainda nos referimos aos índios como seres que se contrapõem ao homem branco. Que preço historicamente caro eles pagaram por não se “civilizarem”, até hoje.

A violência do preconceito racial anti-indígena é grotesca demais. Vejamos mais alguns exemplos:

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É mal mesmo! A começar pela indistinção entre o adjetivo “mau” e o advérbio “mal”. Só o comentário linguístico seria indício de tendência preconceituosa. Além disso, por que associar os indígenas a isso, apontando pra perspectiva de ridicularização deles?

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Enojante! Muito preconceito numa mensagem só: linguístico e racial anti-indígena! De onde se tirou que índios falem assim? Quais, de quais nações? Caso alguns falem português assim, o que há de ridículo nisso, a partir da língua nativa dos que o façam? Possivelmente há em sua língua motivações a isso. Mas, sobretudo, é curioso ver que os mesmos apatetados que, linguisticamente, consideram tal uso alvo de ridicularização falam coisas como “Deixa ela entrar”, tão fora da língua padrão, quanto o que criticam e pelo mesmo princípio geral, diga-se de passagem.

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A proliferação da desinformação imbecil! Como assim não se deve  usar “para mim”. ÓBVIO que sim! Antes de verbo, inclusive. Aliás, pra mim explicar tudo isso está a ser bem constrangedor. É duro. O “pra mim” ali atrás é um adjunto adverbial o qual, em escrita rigorosa, deveria estar separado por vírgula, mas que pode aparecer sem ela, em formatos menos formais.

Será que a esta altura este texto já virou um… “programa de índio”?!

Agora, pense… já ouviu falar de crime de racismo contra índios?! Pois é… é que índio não é gente mesmo, no Brasil!

Se chegou a este ponto do texto, te convido aa leitura dum texto anterior meu sobre o tema: Amána.

Mas, voltando aa questão cultural, só pra desfazer o mito de que índio é tudo igual, abaixo um mapa de famílias linguísticas indígenas. Atenção! Não é de línguas não, mas de famílias linguísticas.

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Note que tupi-guarani não é uma língua, mas sim um grupo de línguas, ou seja, uma família linguística, assim como há a família latina, a germânica, etc…

[A canção, do Midnight Oil, é, originalmente, sobre indígenas australianos, mas vale para os de todo o globo. LInda montagem de imagens!]

Os livros de história, em geral, não tratam disto, mas a violência linguístico-cultural, fora a física, claro, empreendida sobre os povos nativos brasileiros é do nível da atrocidade mais bárbara possível. É comum em nossa história que índios tenham tido línguas (o órgão mesmo) cortadas, olhos furados, dentre outras formas de covardíssima tortura pelo simples fato de falarem sua língua. Desses, destaca-se o estupro de mulheres indígenas, prática das mais comuns na nossa história. Pasmem, até a primeira metade do século XX, tal conjunto de práticas ainda existiu. Ora, na mesma primeira metade desse século, minha avó materna, índia, foi aprisionada no interior de MG e feita escrava.

Muita gente desconhece, mas, até o século XVIII, o Brasil não falava português, aa exceção de uma pequena elite colonial. A língua, chamada inclusive de “geral”, era o NHENGATU, o qual teve seu uso tornado CRIME pelo famigerado decreto do Marquês de Pombal, no ano de 1757. A partir daí, o português se alastraria pelo país. Para maiores informações, sugiro, dentre tantas outras possibilidades: http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ12_9.htm.

dia do indio 4Enfim, espero que este texto sirva pra convencer da existência de um brutal racismo anti-indígena e dissuadir da continuidade dessa prática vista como natural, mas que, na verdade, reforça toda uma lógica de genocídio físico e cultural colossal e sem igual em nossa história. É verdade que os índios são dizimados cotidianamente no país por disputa de terras, contra latifundiários, fazendeiros, com vista grossa dos governos seguidamente, mas também com o aval e anuência de todos que proliferam o círculo de segregação racial contra indígenas, por meio de valores, atos e falas. Tanta gente que se acha defensor da causa de minorias propagando racismo anti-indígena. Não seja racista!

[A canção, muito boa por sinal, é de uma banda indígena mexicana que canta em língua nativa, o tsotsil, falada principalmente na região de Chiapas. O México não trucidou seus nativos no mesmo nível que nós.]

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GENTE! Seres com o pleno direito humano de ser!

P.S.: está em pauta no Congresso uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), a 215, que transfere do Executivo para o Legislativo o poder de demarcação sobre terras indígenas. Várias nações indígenas têm protestado unificadamente quanto a isso, até porque sabem que, a partir daí, a demarcação de suas terras ficará a mercê de lobbies, interesses casuísticos e comprometimentos com financiadores privados de campanhas.

[1] Ver dados em http://www.ethnologue.com/country/BR/languages e http://www-01.sil.org/americas/brasil/SILling.html.

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Van Gogh – da vida turbulenta à turbulência cósmica!


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Vincent Van Gogh

O texto de hoje me é muito caro e, de antemão, aviso ao leitor que não sou expert em artes, mas apenas uma grande admiradora do genial Van Gogh.

Conheci o Impressionismo ainda muito jovem. Era criança quando uma professora, a quem admirava muito, D. Jocimara, pediu-me uma pesquisa sobre a vida e a obra de Manet. Fiquei tão fascinada que comecei a ler tudo que falasse sobre Impressionismo. Foi assim que Vincent Van Gogh entrou na minha vida pra ficar! Nem vou falar aqui sobre Romantismo e Realismo tendo em vista que, além de não querer me estender demais e acabar por fugir do meu objetivo, estou ansiosa pra falar do grande gênio!

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Manet

Em meados do século XIX, Manet apresenta seu novo quadro “Almoço na relva”, e foi um verdadeiro escândalo. O quadro se tratava de um piquenique, um evento cotidiano, ao invés de um momento histórico, ou religioso, ou mitológico, que era o que a academia esperava. As pinceladas eram livres e esboçadas, e o pintor tinha uma preocupação muito maior com as luzes e as sombras do que com os detalhes. Manet ganhou a simpatia dos pintores mais jovens por romper com as regras rígidas de retratar com perfeição e detalhes realísticos. E esses jovens, entre eles Monet, Renoir e Degas, encantados com a ousadia de Manet, seguiram seus passos e começaram a pintar a vida cotidiana ou a natureza, e saíram dos estúdios para pintar ao ar livre. Alguns anos depois, fizeram sua primeira exposição e Monet (não confundir com Manet) apresentou seu quadro chamado “Impressão: Alvorecer”. Um crítico de arte, inconformado com a nova forma de pintar, apelidou o grupo, em tom pejorativo, de Os Impressionistas, em alusão ao quadro de Monet. Entre as críticas que receberam, eram chamados de preguiçosos que não queriam terminar seus quadros ou mesmo de incapazes. Mas os pintores, se utilizando da mesma ironia, mas também porque concluíram que era um bom nome, dois anos depois fizeram nova exposição e se autointitularam Impressionistas. É necessário que eu explique, ainda que de forma leiga, como se dava a pincelada dos artistas impressionistas. No desejo de reproduzir as cores como são reproduzidas na natureza, os impressionistas, se queriam representar o verde, por exemplo, não se utilizavam de uma pincelada de verde, mas davam duas pinceladas bem próximas, uma azul e outra amarela, a fim de que a mistura das duas cores se fizesse em nossos sentidos, em nossa mente. Importante dizer também que o Impressionismo não é um contraponto ao Realismo, e sim que nasceu, cresceu e se definiu dentro do Realismo.

Van Gogh

Autorretrato com chapéu de feltro – Van Gogh

Em 30 de março de 1853, nos Países Baixos, nasceu Vincent Van Gogh, filho do pastor calvinista Theodorus e de Anna Cornelia Carbentus. Vincent teve uma vida marcada por fracassos em todos os aspectos da vida que eram importantes na época. Não conseguia manter sua subsistência, se relacionou de forma turbulenta com sua família e tinha muitas dificuldades de sociabilidade. Vincent teve mais dois irmãos e três irmãs, mas só conseguiu estabelecer uma relação mais profunda com seu irmão mais novo, Theodorus Van Gogh. O jovem Vincent começou a trabalhar para um comerciante de arte indicado por um tio, mas, na época, só se interessava por estudos religiosos, foi demitido. O rapaz trabalhou ainda numa livraria, trabalho que durou pouquíssimo tempo, tentou entrar para a faculdade de Teologia, mas fracassou, depois tentou a Escola Missionária Protestante onde também fracassou e, em 1879, começou a trabalhar como missionário em uma comunidade pobre de mineiros, na Bélgica. Em 1880, Vincent que demonstrava muito gosto pelas artes, foi incentivado por seu irmão Theo, com quem trocava cartas com bastante regularidade, a seguir os estudos de pintura. É então quando o genial Van Gogh começa a surgir! Esse jovem pintor carrega consigo os momentos que passou entre os camponeses durante o trabalho de missionário nas minas de carvão. Graças a esses momentos, carrega consigo uma forte empatia e solidariedade pela vida humilde dos camponeses e o ápice do seu trabalho nesse período é o quadro “Os comedores de batata”.

Os comedores de batatas

Os comedores de batata

Sua vida foi de agruras, decepções e desgraças e, com certeza, isso influenciou na sua arte! Van Gogh foi influenciado também, e muito diretamente, pelo Impressionismo e pelo Japonismo. Esse último, ele conheceu na França através de gravuras de Hokusai e Hiroshigue. Aqui vale uma digressão para os nerds que amam cultura japonesa, Hokusai é o precursor dos mangás como nós os conhecemos. Na primeira metade do século XIX, Hokusai fez um conjunto de obras com 15 volumes chamados Hokusai Manga que representa os primeiros passos para as “histórias em quadrinhos” no Japão.

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A Grande Onda – Hokusai

Mas voltando a Van Gogh… Entre as  mais de 800 pinturas que Van Gogh nos deixou, uma é especialmente impressionante, “A Noite Estrelada”! Esse quadro foi pintado enquanto Vincent estava internado no asilo Saint-Rémy-de-Provence por problemas psicológicos sérios que o levavam a apatia e depressão. É também, durante essa internação que Van Gogh rompe com o Impressionismo e desenvolve um estilo próprio onde prevalecem as cores primárias, principalmente o amarelo, e a bidimensionalidade. Inicia-se a fase Pós-Impressionismo. Mas o que há de tão especial nesse quadro? Vários elementos do quadro nos remetem a própria história de vida do pintor. O campanário da igreja se sobressai em meio às casas da pequena aldeia de Saint-Rémy, possivelmente, uma marca de sua crença religiosa, sua espiritualidade exacerbada. Há quem chame atenção também para a coincidência de que há onze estrelas no céu e em Gênesis 37: 9 está escrito “Depois teve outro sonho e o contou aos seus irmãos: Tive outro sonho, e desta vez o sol, a lua e onze estrelas se curvavam diante de mim”. A sensação de isolamento também é uma característica marcante do quadro. Mas o que mais me chama a atenção, e também de alguns cientistas, são as nuvens espiraladas e a turbulência na luminosidade das estrelas. Presença, nesse quadro, que me faz pensar na própria vida turbulenta do pintor.

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A Noite Estrelada – Van Gogh

Nesse ponto, Van Gogh, Matemática e Física se encontram de forma surpreendente e como você nunca imaginou!

Turbulência, para um cientista físico ou matemático, é um fenômeno que ocorre na água quando um navio aciona a hélice ou no ar durante o voo de uma aeronave. (Essa turbulência, da qual estou falando, é autossemelhante, ou seja, um turbilhão maior transfere energia em cascata para turbilhões menores e assim sucessivamente em outras escalas menores, o que nos lembra dum texto recente meu sobre Fractais – parte 1 e parte 2). Durante a viagem do telescópio Hubble, cientistas observaram o fenômeno da turbulência em nuvens de poeira estelar e gás e lembraram-se do quadro “A Noite Estrelada” de Van Gogh. O quadro virou objeto de pesquisa, foi digitalizado e analisado pelo modelo matemático de Kolmogorov, cientista russo que estudou o fenômeno. Descrevendo o modelo de forma simplificada, o cálculo avalia a chance de cada ponto, ou pincelada, ter o mesmo brilho ou luz. Pois bem, é nesse ponto que nós nos impressionamos! Os efeitos de luminosidade que Van Gogh dava às suas obras continham cálculos exatos e uma precisão que só é encontrada na natureza! Analisando outras obras, os cientistas perceberam que Van Gogh só conseguiu atingir esse traço de genialidade sob o efeito da crise mental. E na minha mente sã passam as seguintes perguntas:

Existe loucura ou se trata de uma percepção maior da natureza e dos fenômenos naturais? Loucura ou genialidade?

Talvez sejamos detentos da nossa própria sanidade… Talvez a loucura seja o espaço para criar e ser livre…

 “O que sou eu aos olhos da maioria das pessoas? Uma não entidade, ou um homem excêntrico e desagradável – alguém que não tem e nunca terá posição na vida, em suma, o menor dos menores. Muito bem, mesmo que isso fosse verdade, devo querer que o meu trabalho mostre o que vai no coração de um homem excêntrico e desse joão-ninguém.” – Carta de Vincent ao irmão Theo (21 de julho de 1882).

Mas a humanidade ainda não estava pronta pra isso!

 

*Van Gogh se suicidou, tendo vendido apenas um quadro em toda sua vida. Após sua morte, seus quadros passaram a valer uma fortuna e estão, desde então, entre as obras mais caras já avaliadas.

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O X da questão


Carxs e queridxs leitorxs, hoje, escrevo aqui um texto que há muito venho pensando, em termos tanto profissionais quanto amplamente humanos, sociais e políticos em si.

Trata-se do, assim chamado, tratamento não binário, para lidar com masculino e feminino na língua portuguesa. Me empenharei em não ser professoral. Não é o que pretendo de modo algum, até por reconhecer as melhores intenções, em geral, nos adeptos dessa suposta solução.

linguagem binaria

Antes de prosseguir, nem quero entrar no mérito da escolha pela forma mais conhecida dessa escrita, representada, no português, pelo X. Nem sei se compreendo exatamente a origem desse X. Seria um símbolo universal de incógnita? A letra que representa o sexo feminino por excelência, por sua composição cromossomial? Bem, seria justo se pensarmos que o sexo feminino, biologicamente, é o básico do homo sapiens sapiens. Mas, isso tudo, por ora, é digressão. Vamos ao que nos propomos mais diretamente.

Como diria o linguista Jack, vamos, então, por partes. Em primeiríssimo lugar, há de se perceber que a proposição toma, em grande parte, gênero linguístico por gênero sociológico, quando não biológico. Para cada uma dessas áreas, gênero significa algo bem diferente. Na biologia, grosso modo, é sinônimo de sexo mesmo, na Sociologia, diz respeito aos papéis representados junto a uma dada comunidade humana. Assim, sexo e gênero não necessariamente convergiriam, embora, sobretudo em nossas representações societárias atuais arquetípicas e estereotípicas, coincidam muitas vezes. Mais que isso, a não coincidência tende a ser motivação de rotulações e processos vários de exclusão no seio dessas sociedades, os quais, sabemos, podem assumir manifestações e roupagens humanamente bastante perversas.

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Já o gênero gramatical é algo bastante dissociado das perspectivas acima. Em primeiro lugar, os próprios nomes “masculino” e “feminino” correspondem a uma escolha bastante arbitrária pra categorização dual que herdamos da gramática grega, desde o séc. II a.C.. Ora, é só pensar em toda a sorte de objetos e coisas em geral categorizados como masculino ou como feminino. E pensar também em como isso muda de língua pra língua. Mesmo algumas categorizações que parecem muito universais mudam. Pra nós, parece quase que natural “sol” ser masculino e “lua”, feminino. Em alemão, é o contrário. Poderíamos chamar os gêneros gramaticais do que quiséssemos: gênero 1 e gênero 2, gênero básico e gênero modificado, gênero zero e gênero marcado, etc. Isso pra pensarmos apenas em dois gêneros. Numa mesma língua, o gênero pode mudar ao longo do tempo. “Mar”, até o séc. XVII era feminino em português, como até hoje atestam formas como “maré”, “maresia”, etc.

[Interessante filme argentino sobre ser homem, ser mulher, ser ambos e ser nenhum dos dois.]

[Neste texto, a palavra “gramatical” não se relaciona ao sentido senso comum de “certo” ou “errado”, “uso permitido ou proibido”; pelo contrário, diz respeito ao próprio funcionamento das línguas em escala bastante generalizada e sistemática, atestado em seus usos “reais”, espontâneos e cotidianos.]

Há línguas, como o inglês, que apresentam, na prática, gênero único e o masculino e o feminino são formados por outros processos; neste caso, anexando-se, por exemplo, palavras suplementares, “policeman”, policewoman”. A língua hitita, já morta, apresentava um único gênero para todas suas palavras. Muitos dizem então que, em hitita só havia gênero masculino. Ora, é claro que tal afirmativa só faz sentido dentro de uma tradição terminológica de base grega que enxerga “masculino” e “feminino” como demandas naturais do gênero linguístico. Tampouco, isso nos informa sobre a sociedade hitita e seus níveis de machismo e opressão aa mulher. Pensar assim é bastante reducionista. Fosse desse jeito, as sociedades de língua inglesa seriam paraísos da igualdade de direitos entre os seres, segundo o parâmetro do sexo ou do gênero (sociológico, por favor!).

A língua dyirbal, falada na Austrália, categoriza seu mundo em quatro gêneros distintos. O linguista George Lakoff, “pai do cognitivismo” atribuiu a esses gêneros a designação “fogo, água, ar e terra”, o que, obviamente, é uma classificação feita de fora, segundo algum juízo pré-concebido. A partir daí, ele compôs a obra de título aparentemente polêmico, um dos pilares do Cognitivismo e grande obra da história da Linguística, “Women, fire and dangerous things”, em alusão ao fato de que, na língua dyirbal, estes elementos partilham o mesmo gênero.

Sempre lembro de que “mulherão” é gênero masculino. Em outras línguas, há exemplos vários que atestam o descolamento de gênero linguístico e sexo biológico. Em alemão, “menina” é gênero neutro, por exemplo. Gênero gramatical, decididamente não é, nem em alusão, sexo biológico e tampouco gênero sociológico.

Agora, uma questão outra é a compreensão que muita gente tem manifestado quanto isso, considerando que o uso de formas masculinas é indício de opressão na língua. Poderia desenvolver aqui que a categorização de gênero ocorre em nível morfológico e este é um extrato da língua a qual o falante não tem acesso consciente. Confesso que terei dificuldades de falar disso de forma simples, sem ficar professoral; então vou me deter apenas nessa premissa, sem a desenvolver. O masculino, em português, tem papel duplo: refere-se ao gênero masculino e é o gênero geral também. Portanto, “companheiros” inclui “companheiras”, o que não impede, claro, ninguém, por estilo ou por demarcação de posição/ênfase de falar “companheiros e companheiras”. Mas, lembremos. Gênero linguístico não é sexo!

A questão pra mim mais delicada de toda esta história é a que estabelece uma contraditoriedade entre intenção e efeito, sobretudo em perspectiva histórica. Como já disse, sei das boas intenções da proposta, bastante ingênua em termos estritamente linguísticos, de “não binarismo”. Ocorre que, sem querer, tal proposição é profundamente conservadora. Um dos maiores paradigmas do papel opressor, discriminatório da língua, ao longo de toda a história sempre foi o da logicização da própria língua. Aliás, isso é o que está no cerne da herança de estudos de linguagem na Grécia Clássica, derivada da abordagem filosófica. É graças a essa perspectiva logicizante que a língua tornou-se esse colosso opressor a devastar outras culturas ou membros de sua própria cultura, a partir de um raciocínio simplista e simplificador que a língua é reflexo do pensamento e se estruturaria nas mesmas categorias básicas. A língua não designa a realidade; ela é um sistema simbólico (na verdade, de signos, mas simplifiquemos) que constrói representações para dada realidade. É da não compreensão disso que vem toda a parafernália de “certo” e “errado”. É daí que vem toda a exclusão social feita a partir do critério do uso linguístico. É daí que vem o massacrar brutal de povos, sociedades inteiras ao longo de nossa história. Eu desconheço uma única aplicação logicizante aa língua que tenha caráter revolucionário, transformador. Seja na Antiguidade, na Idade Média, no Renascimento, no século XX, o ímpeto de aprisionar a linguagem, tão variada e multifacetável quanto o ser humano, a categorias estanques, limitadas e demarcadas acopladas ao pensamento “tangível” sobre o mundo exterior criou um lastro interminável de desgraceiras pras línguas e seus falantes. Impor logicização aa língua sempre é tirá-la de seu curso real/natural do uso de seus falantes.

A proposta e abordagem em questão são tão inerentemente conservadoras que transbordam esse conservadorismo imanente. É só constatar que, agregadamente, a ideia em questão traz um valor indissociável de prevalência da escrita sobre a fala, reconfigurando um quadro de se lidar com a língua de 100 anos atrás, e jogando por terra todo o combate ao elitismo, preconceitos linguísticos, dogmatismos e exclusão social que estão inerentemente associados aa suposta prevalência da escrita sobre a fala. Mais do que isso, é a corroboração e aval a todos os procedimentos de tiranização e brutalidade cultural e física perpetrados no passado e no presente contra populações ágrafas, em todo o globo. Aqui no Brasil mesmo, cotidianamente, essas sociedades vêm sendo exterminadas com silêncio e cumplicidade da sociedade omissa, em posturas que apregoam a primazia da escrita sobre a fala, por exemplo. Em outras palavras, com boas intenções, acaba-se por reforçar os parâmetros mais maximizados de preconceito linguístico que há e, por que não dizer, do respeito cultural ao direito humano mais básico, o de se expressar.

No fim das contas, a proposta de uma linguagem de designação supostamente não binária, é como, bem mal comparando, condenar nazistas a penas em campos de concentração.

Obviamente, a língua pertence a todos, inclusive aos que não a usam articuladamente por alguma limitação de ordem física. Isso faz com que todos sintam-se, com justeza, a poder falar sobre a língua. Contudo, a quem a estuda, não é possível apenas se furtar diante de certas discussões e demandas. A língua real não é regulada por gramáticas. Estas apenas dão conta de uma ínfima fração de língua chamada língua padrão, um uso idealizado e que não é efetivamente praticado no dia a dia de uso linguístico espontâneo. Não é dessa língua padrão que estamos falando, mas sim daquela cujo funcionamento não pode ser “decidido” ou legislado por ninguém, do próprio funcionamento do sistema linguístico que não pode (no sentido da possibilidade mesmo e não no da permissão), simplesmente, ser objeto de decisões/deliberações pessoais ou coletivas. Tentar fazê-lo, além de artificial, é, inevitavelmente, ato dos mais insensíveis autoritarismos, como temos muitos exemplos ao longo da História.

É claro que a língua é um elemento cultural e social muitíssimo potente, aliás, possivelmente, o mais constitutivo e basilar de todos. Logo, a relação língua e sociedade há de ser um tanto complexa, em uma dialética incessante e bastante difundida.

Há, nesse mesmo campo de questões de língua que dizem respeito aa morfologia, questões bastante candentes, como, por exemplo, por que determinadas designações no feminino carregam carga pejorativa e depreciativa? Ora, “vagabunda”, “safada”, “malandra”, “vadia” não são meramente as formas femininas para “vagabundo”, “safado”, “malandro”, “vadio”. Nem mesmo em Portugal, “puta” é simplesmente o feminino de “puto”, menino, garoto, jovem. É claro que esse exemplo bem simples mais do que demonstra a complexidade da interação língua e sociedade. Ora, o que está aí em jogo não é a morfologização de feminino em “a”, mas a leitura social a ela aplicada, nesses casos. Propostas como a discutida neste texto buscam uma intervenção quanto a questões como essa, mas, por todas as razões aqui apresentadas, por um viés muito equivocado.

A relação língua e sociedade é das mais complexas que há por se lidar e transborda ideologia, inclusive, em acepção menos saliente de explicitação bastante direta de ideias do que, cotidianamente, estamos acostumados a pensar. Dificilmente, as ideologias de uma sociedade surgem transparentemente numa língua, pois que são fincadas em níveis muito distintos (de profundidade e visibilidade, inclusive) e num trabalho de escavação cultural de séculos, por vezes, milênios.

Espero ter conseguido pontuar algumas questões importantes para o diálogo, no que diz respeito aa linguagem, na discussão social de gênero. Tentei ser não academicista e expor a questão da forma mais simples e menos técnica possível. Não se trata de poder ou não poder, muito menos de certo ou errado. Nem reconheço tais categorias e isso aqui é um papo sério, de adulto e de ser humano. Espero que todos que leiam este texto possam encontrar aqui algo pra refletir.

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3,14159265358…


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3,1415926… FELIZ DIA DO Pi!!

 

14 de março de 2015, nerds e geeks do mundo inteiro que se ligam em ciências naturais e tecnologia estão comemorando o Dia do Pi!

Mas porque esse número é tão fascinante, especialmente, para os matemáticos?

Pi é a constante mais antiga de que temos conhecimento, e até hoje é fonte de pesquisas em diversas áreas. A história do Pi remonta há aproximadamente 4000 anos atrás. Mesmo que você não seja muito fã da matemática, deve lembrar-se dele dos tempos de escola. Ele é obtido a partir do valor da razão entre a circunferência de qualquer círculo e seu diâmetro. Muitas pessoas acham que precisamos dele pra calcular a circunferência do círculo, mas isso não é verdade. Erathostenes c. 250 AC, calculou a circunferência da Terra sem precisar de Pi. No entanto, ainda que não precisemos dele, ele estará lá. Não é o círculo que define Pi! Talvez seja o contrário, Pi é que define o círculo!

Mas porque a data de 14 de março?

A data foi criada por Larry Shaw, responsável pelo museu Exploratorium. Nos Estados Unidos as datas são escritas com o mês antes do dia, ou seja, hoje é dia 3/14, que lembra 3,14, uma aproximação de Pi com duas casas decimais. Esse ano a data é ainda mais simbólica para os amantes desse número mágico pois 3/14/15 é uma aproximação de Pi com quatro casas decimais, e isso só voltará a acontecer daqui a cem anos.

E pra que serve o Pi?

Ele aparece no universo e na nossa vida muito mais do que pensamos. E não se trata só de círculos. Por exemplo, na rota de todos os rios curvos que deságuam no mar, a sinuosidade desses rios mede aproximadamente 3,14. Um objeto redondo, independente de seu tamanho, tem sempre a mesma proporção entre o comprimento de sua circunferência e seu diâmetro, o pi, que ajuda  a calcular desde a quantidade de leite em pó em uma lata circular à quantidade de ar em uma bola. Os geólogos usam para calcular a área de um terreno que está num relevo curvo. Um pneu de carro tem, aproximadamente, 60 cm de diâmetro, e se multiplicarmos esse valor por pi chegamos ao valor aproximado de 1,88 m, que é a distância média que o carro vai andar a cada volta completa da roda. A força que a Terra exerce sobre a Lua e o seu movimento de rotação também têm relação com o Pi. Também aparece em cálculos probabilísticos. Em tecnologia, o Pi pode ser usado no desenvolvimento de hardware, mais especificamente, testando a rapidez do processamento e a capacidade de executar várias atividades ao mesmo tempo.

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Olha o Pi!!

Nem todo mundo sabe, mas há muita matemática na música. O vídeo abaixo apresenta a canção do músico Michael Blake. Ele compôs usando a sequência dos algarismos do Pi.

É comum entre os apaixonados pelo Pi a disputa por quem consegue memorizar mais casas decimais dessa constante. Abaixo um vídeo, com uma canção composta pra piano. O compositor explica no vídeo que fez a música para ajuda-lo a memorizar a sequência que aparece na tela enquanto ele toca.

14 de março também é o dia que nasceu Albert Einstein, físico-teórico alemão de origem judaica, e que usou o pi em sua fórmula que diz respeito ao espaço curvo na Teoria da Relatividade. Teoria que é um dos pilares da Física Moderna!

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Albert Einstein

“Se a minha teoria da relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão, e a França, que sou cidadão do mundo. Mas se eu estiver errado, a França sustentará que sou alemão, e a Alemanha garantirá que sou judeu.”

Einstein era a favor do socialismo e escreveu suas ideias num ensaio intitulado “Por que o socialismo?”. Escrito para o lançamento da revista Monthly Review, foi publicado em maio de 1949.

“A anarquia econômica da sociedade capitalista de hoje em dia é, em minha opinião, a verdadeira fonte dos males.” pensamento mais do que comprovado com o bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki  pelos USA, maior potência capitalista no mundo. Na construção das bombas havia muito das teorias e estudos de Einstein, fato que ele lamentou ao longo de sua vida.

“A vida de um indivíduo só faz sentido se ajuda a tornar a vida das demais criaturas mais nobre e mais bela.”

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Karl Marx

E por falar em socialismo…  Karl Marx, também alemão e de origem judaica como Einstein, morreu em 14 de março de 1883, e foi idealizador de uma sociedade com uma distribuição de renda justa e equilibrada. Escreveu “O capital”, uma de suas obras mais importante, que analisa a sociedade capitalista desde a economia até cultura e filosofia passando por questões sobre a sociedade e a política.

“Na manufatura e no artesanato, o trabalhador utiliza a ferramenta; na fábrica, ele é um servo da máquina.”

Numa síntese do que é o comunismo, Marx disse “Reunião de homens livres trabalhando com meios de produção comuns e, dependendo, a partir de um plano combinado, suas numerosas forças individuais como uma única e mesma força de trabalho social.”.

Einstein e Marx colocam o homem diante de complexidades e infinitudes que podem ser comparadas a grandiosidade de Pi!

Feliz dia do Pi!!

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Hoje é dia de comer pizza ou torta (“pie” em inglês)! 🙂

*Este texto foi publicado às 9:26 em comemoração ao dia do Pi, já que a constante representada com 7 casas decimais é 3,1415926…

* No dia 14 de março, todos os apaixonados por Pi costumam comemorar com pizzas e tortas (“pie” em inglês). A escolha também tem a ver com o formato circular.

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🙂

 

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Vida longa e próspera!


 

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O Senhor Spock morreu! Gerações crédulas em uma vida longa e próspera sem compreender. Leonard Nimoy morreu aos 83 anos de uma doença pulmonar crônica, agudizada por seus 30 anos de fumante.

Vulcanos em luto! Quiçá, romulanos!

Fazendo as vezes de Spock, Nimoy tornou-se o símbolo-mor de Startrek, suplantando mesmo o carismático comandante Kirk (William Shatner) e, com certeza, quaisquer outros personagens ou atores da, hoje, vasta franquia, a ótima Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise, o reboot da geração clássica. Mais do que sucessos lucrativos no cinema e na televisão, Star Trek tem toda uma série de contribuições já em curso amplo ou em desenvolvimento que a maioria das pessoas ignora. Spock é dos personagens mais conhecidos e transgeracionais do Ocidente, sem dúvida.

Na verdade, preciso confessar que prefiro a Nova Geração, com Picard, Data, La Forge, Worf, Tasha Yar, Riker e outros, aa Clássica. Contudo, reconheço a importância histórica dos personagens originais de Gene Roddenberry, da eterna Enterprise NCC-1701, a singrar o universo, indo, bravamente, onde nenhum homem antes foi. E as contribuições de Star Trek a nossas vidinhas nos séculos XX e XXI que quero dedicar este texto, simbolizado em Nimoy, o eterno Senhor Spock.

Antes de qualquer outra observação, situemos Star Trek, como A ficção científica cinematográfico-televisiva por excelência. Sua estética e conceitos influenciaram todo o resto. Inclusive, fora do universo do showbiz. Spock vai além do mundo nerd, com certeza. Ora, o próprio conceito de navegação aplicado ao espaço deve muito, não de sua formulação primeira, mas de sua grande difusão, aa série. A ideia de cruzar o espaço seria, em princípio mais associável a aviões, extensões destes e congêneres. Mas, hoje, a projetamos, metaforicamente, como naus (naves) interplanetárias. Pensamos em frotas e coisas do tipo. Curiosamente, o parâmetro a se desbravar o cosmo é da Marinha e não da Aeronáutica. Talvez seja herança do ímpeto de redição de colonialismo renascentista. Faz muito sentido que seja. Mas, de todo modo, não há como negar a influência de Star Trek, até em quem nunca viu um episódio da série ou longa metragem em tal concepção. Depois da navegação para designação de interação no espaço virtual, vem também a navegação intergaláctica, ampliando muito o campo de navegações.

Star Trek trouxe contribuições linguísticas. A língua klingon, criada para a série pelo linguista Marc Oakrand, é das línguas artificiais mais conhecidas no mundo, só superada pelo Esperanto. Hoje, a língua klingon continua a ser desenvolvida em clipes, canções, etc. Uma simples visita ao youtube dá noção disso. E há dicionários de klingon para línguas europeias. O português, infelizmente, ainda não é uma delas. Um dado interessantíssimo é que o klingon incorpora um dado que o Esperanto, o volapük, a interlíngua, como línguas artificiais não possuem: é o reflexo de uma cultura, como toda língua natural o é, afinal.

 Mas, passando a contribuições mais materiais, lembrando que a referência inicial são os anos 60, quando da série clássica, vejamos outras contribuições, aparentemente, incógnitas. O tradutor universal da Frota Estelar serviu de base a nossa atual tecnologia, ainda muito débil, de tradução simultânea/instantânea. A pistola de vacinação (a bendita vacina sem agulha!) também saiu da série pro nosso mundo. Os tablets atuais já foram idealizados nos PADDs (Personal Access Display Device) da Frota, exatamente como computadores de mão. Os feisers da tripulação são a inspiração, com mesmo funcionamento básico, das atuais armas de choque.

O que dizer então da atual tecnologia de teleconferências, totalmente herdada de Star Trek e disseminada aa exaustão em filmes, séries e desenhos? Isso sem falar em pesquisas em curso com resultados parciais, como visor para cegos (na verdade da “Nova Geração”, raios tratores, o alumínio transparente, teletransporte… Sim, em 2001,  se conseguiu projetar um fóton 1 segundo no futuro. Depois disso, se conseguiu “teletransportar” fótons a 16 km. É preciso esclarecer que, fisicamente, teletransportar (por isso as aspas) não necessariamente tem o mesmo sentido que intuímos. Na verdade, o teletransporte aí se refere aa informação do fóton  (o que em si é um conceito complicado) e não aa presença física dele em si.

Com certeza, a contribuição mais difundida nascida de Star Trek foi o telefone celular, cuja criação foi inspirada nos comunicadores da tripulação da Frota Estelar. É verdade que os celulares atuais já se afastaram bastante da funcionalidade de seus aparelhos de inspiração. De todo modo, da ficção aa nossa realidade cotidiana. O nome STARTAC de um dos primeiros celulares não foi em vão.

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E a tecnologia de dobra espacial?! Não, não estamos nem perto disso. Hoje, navegar no espaço teria este grande impeditivo. Ora, o Sol está a 8 minutos-luz de nós. Parece pouco, mas lembremos que não desenvolvemos nenhum sistema de propulsão que possa nos levar sequer a uma fração significativa da velocidade da luz. A 10% desta velocidade, levaríamos, cerca de 180 anos para chegar no próximo sistema solar. Ou seja, a velocidade de dobra e a quantidade de energia despendidas pra esse feito são, talvez, o objetivo maior do Star Trek way of life a se atingir. Há muita gente hoje teorizando e buscando atalhos pra isso. Os tais “buracos de minhoca”, teorizados por tanta gente séria- por Stephen Hawking, por exemplo- são buscas desse subterfúgio, fundamental aa exploração intergaláctica. Ora, pra alcançarmos, por exemplo, Kepler 186-f, anunciado exultantemente, como uma possível “Terra”, em termos das supostas condições geológicas e astronômicas, aa velocidade da luz plena, levaríamos 500 anos pra lá chegar. Aas velocidades de que dispomos hoje demoraria mais de 2,5 bilhões de anos. Chocante, não?!  Além disso, há inconvenientes práticos de contato, não trabalhados em Star Trek. Se em Kepler 186f, houver uma civilização inteligente e com tecnologia vastamente  desenvolvida que nos possa ver com um hipertelescópio, a única coisa que poderão ver serão as embarcações cruzando os oceanos e colonizando outros continentes. Isso significa, na prática, que nenhuma civilização a menos de 100 mil anos-luz (o tempo de existência do homo sapiens sapiens) conseguiria nos enxergar. E o contrário é plenamente verdadeiro. Como lidar com isso pros contatos e diplomacia intergaláctica nem o habilíssimo Comandante Kirk saberia responder. De todo modo, a ideia da hiperpropulsão intraespacial em navegação, tão usada em todo o mundo da ficção científica posterior nasceu de Star Trek.

Claro se pode contestar se a série criou tudo isso ou deu forma a reflexões científicas já existentes. Ainda assim, dar uma forma concreta aa reflexão tem um valor inestimável. E, no mais, entrar nessa discussão com rigor vai acabar se resumindo aa primazia do ovo ou da galinha.

Na história da série, em 2063, se realizou o primeiro voo de dobra, dentro da Terra (mostrado em Primeiro Contato- A Nova Geração), o que atrairia a atenção dos vulcanos, primeira civilização a travar contato com os terráqueos e germe da federação dos Planetas.

[A canção que tocava quando Zefram Cochrane, o primeiro humano a realizar um voo de dobra, em 2063, ouvia. Pra quem não ligou o nome aa pessoa, é a mesma banda de “Born to be wild”.]

A primeira nave de fator de dobra 5, capaz de cruzar parsecs em frações de segundo só se desenvolveria 90 anos depois. Mais 10 anos a frente, em 2163, seria criada a Federação dos Planetas. É toda uma história de desbravamento adiante, com seus heróis. Só pra se ter ideia, a Enterprise do Sr. Spock só cruzaria o espaço um século adiante.

Voltando a Nimoy, o ator, em sua jornada, viveu sentimentos diferentes com relação ao personagem Spock. Ele tem dois livros publicados que demonstram bem esse espírito: primeiro, “Eu não sou Spock” e, 20 anos aa frente, “Eu sou Spock”. Ele é um clássico exemplar daquilo que se apelidou “Síndrome de Kirk”, em ralação a seu companheiro William Shatner, com tantas dificuldades de viver outros papéis. Recentemente, a dupla protagonista de Arquivo X, David Duchovny e Gillian Anderson, foram apontados como acometidos do mesmo “mal”. Nimoy nunca conseguiu muito espaço pra deixar de ser Spock (mas, cá entre nós, isso o rendeu uma residência em Bel-Air, área nobilíssima de Los Angeles, num claro êxito, dentro dos padrões capitalistas, de resultados). Fez pouca coisa além de ser Spock e auferir seus royalties e lucros indiretos vastíssimos: antes de Star Trek, participou do clássico “Bonanza”,  foi diretor de dois longas de “Star Trek”, sua voz esteve presente no cultuado jogo “Civilization IV” e no autobot Prime, de “Transformers”. Além disso, teve uma participação recente bem marcante na série “Fringe” e fez toda uma série de pontas remetendo ao bom e velho Spock. Dá pra dizer que teve uma “vida longa e próspera”, afinal.

The Transporter Malfunction

Isso tudo afora sua jornada pouco conhecida como cantor…

[Há muitos outros vídeos associados pra matar a curiosidade]

Nimoy deixou um legado maior que ele mesmo. Minha enteada, de 9 aninhos faz o símbolo de “Vida Longa e Próspera” sem jamais ter assistido Star Trek, mas sabe que é um símbolo de acolhimento, saudação, bem-estar.

De certa forma, Nimoy “foi, bravamente, onde nenhum homem fora antes”. Como diria Spock, fascinante (sem exclamações, claro). Uma bela jornada!

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Quando a poesia morre, a vida se esvai…


Solidão

Esvaída…

DIAS AMARGOS

Tem dias que o melhor seria

que não levantássemos da cama…

Nem tanto os dias de Neruda,

nem laranjas, nem a morte,

mas o amargo da falta de sorte.

 

Preferia uma laranja azeda

do que o gosto amargo do jiló,

ou até a morte sobre a mesa

no velório de um homem só.

 

Preferia o azedo do amor mal resolvido,

ao amargo da solidão.

Preferia a paz que vem com a morte

a viver nessa dor de imensidão…

 

ESVAÍDA

Não tenho rosto.

Sou todos

e não sou nenhum…

 

Palidez dá o tom da pele.

A morte me veste

a veste que cala a voz…

 

Músculos enrijecidos,

nem azul, nem rubra,

a cor do meu vestido

é a cor da culpa.

 

Olhos arregalados

olham para o vazio.

Enfim tudo acabado!

Meu corpo é frio…

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Dois pesos: estupro coletivo nas mídias


Respeito

A unanimidade da abjeção ao crime de estupro une pessoas de diferentes ideologias num misto entre choro represado e punhos cerrados. Mulheres de diferentes condições econômicas e em diferentes contextos e faixas etárias são vitimadas, muitas vezes, com a cumplicidade de quem lhes deveria garantir proteção e com a falta de apoio que lhes deveriam destinar as autoridades competentes. Há ainda um silenciamento midiático com o qual nunca deveremos nos acostumar, quando a violência é cometida no nosso país e atinge a camada mais pobre. Não querem desconstruir o mito do país não violento, mas que ocupa o 7º lugar no ranking do homicídio de mulheres em comparação a outros 84 países, segundo dados do Mapa da Violência 2012. tabela A seletividade da notícia traz a diferença nas abordagens. Sabe-se, por exemplo, que, a Índia é um lugar perigoso para as mulheres, embora não conste da tabela anterior. Em termos de estupro coletivo, vários são os casos que nos vêm à lembrança: em 30 de dezembro de 2012, a jovem estudante Jyoti Singh Pandey sofre a violência num ônibus coletivo em Nova Déli; em outubro de 2013, uma adolescente de 16 anos sofre dois estupros coletivos, o segundo como retaliação por ter ido à delegacia denunciar o primeiro; após isso, ateia fogo em si mesma, tendo queimado até a morte, em Madhyagram; em Bengala, 23 de janeiro de 2014, uma mulher de 20 anos sofre pena de estupro coletivo por ter-se envolvido afetivamente com homem de outra aldeia. Isso fora horrores semelhantes sofridos por estrangeiras.

O que se sabe sobre essa prática no Brasil? O caso de Aída Curi, nos final dos anos 50, emblemático por conta da luta extenuante travada com seus três agressores, que depois a jogaram do 12º andar sem terem consumado o ato, ocasionando sua morte? Naquela época, o crime de estupro coletivo era popularmente conhecido como “curra”.

Sobre os casos noticiados mais recentemente, temos o da vítima de 13 anos agredida por, pelo menos, 9 homens na cidade de Osasco, São Paulo, no final de semana do carnaval deste ano, além dos casos de Queimadas (PB, 2012) e Itapirapuã (GO, 2014).

O primeiro dos citados, por exemplo, publicado na terça-feira, 16/02/2015, na maioria dos sites virtuais de notícia só encontrou espaço para publicação em O Globo na quarta-feira de cinzas, às 16h30min. Seria para não macular “o maior espetáculo da Terra”, transmitido em rede nacional com exclusividade pela Todo-poderosa (ou seria asquerosa?) emissora?

Em Goiás, menina de 12 anos foi abordada por dois homens armados, levada para lugar onde mais três a esperavam, dopada e violentada. Além de mais algumas circunstâncias que envolvem o crime, nada mais se noticiou sobre o assunto, como se as investigações ocorressem em sigilo e não fosse necessária nenhuma satisfação sobre o andamento delas à sociedade.

O caso de Queimadas apresenta requintes de premeditação, ainda que não o possa negar nos outros casos. Amigos combinam uma festa de aniversário para um deles, sendo o estupro de todas as moças presentes à festa, com exceção das esposas dos organizadores da festa e donos da casa, o grande presente, não apenas para o aniversariante. Dez homens violentaram cinco mulheres. Duas delas, Isabela Pajuçara Frazão Monteiro e Michelle Domingues da Silva, conseguiram desvendar os olhos, reconheceram seus agressores e foram assassinadas. O mentor do crime Eduardo dos Santos Pereira, irmão do aniversariante, foi condenado pelo assassinato das duas moças, pelo estupro das cinco, por cárcere privado, lesão corporal, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e corrupção de menores a penas que somam 106 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Além disso, ainda há a pena de 1 ano e 10 meses de detenção pelo crime de lesão corporal de um dos jovens envolvidos no crime, o que aumenta a pena para 108 anos e 2 meses. Não se encontra qualquer notícia em relação aos outros criminosos participantes.

Ao se buscar informações sobre as pesquisas realizadas sobre estupro, causa estranhamento saber que não existe nenhuma base de dados sobre o assunto. Como subsidiar políticas públicas sem a dimensão real do problema? Causa estranhamento, também, e aí já entro no mérito dos crimes coletivos, o destaque dado às matérias sobre ocorrências na Índia. E entendam-me bem. Todo o destaque ainda é pouco. Mas aflige-me que em situações análogas ocorridas no Brasil, haja certo esmaecimento das imagens e, junto com elas, dos crimes e das vítimas, como naquela tática cruel de incitação ao esquecimento. Não existe o que não é pronunciado.

Encerro com um “não” aos inúmeros casos de violência marcados pelo feminicídio, em que o patriarcado se esforçou para mantê-los impunes ou silenciados. Mônica Granuzzo presente! Aída Curi presente! Aracelli presente! Cláudia Lessin presente! Isabela Monteiro presente! Michelle da Silva presente! Jyoti Pandey presente! Para mais leituras feitas por mim a respeito do tema, sugiro “Estupro: de quem é a culpa?” e “Vozes autorizadas: o poder que cala“.

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