Mídia

A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.


Bandido tem de morrer e quanto antes melhor, menos despesa pra gente, menos lixo no mundo. Mas eles não tinham sido julgados, fulano… Se estava na cadeia é porque devia alguma coisa. E por acaso não tem bandido na polícia, fulano, não tem flagrante forjado, você sabe melhor que eu… Mas aqueles lá, não, era bandido mesmo… Assassino frio é bandido, né? É tudo bicho ruim, cortaram cabeça… É contra a lei cortar cabeça, né ? Não zoa, é contra lei e contra Deus, é gente muito ruim, não merece viver, tem que matar mesmo. Ok, me diga uma coisa,fulano, se você fosse polícia e pegasse um desses caras numa esquina, você matava? Claro que matava. Fulano, tenho uma péssima notícia para você. Para mim? Matar é contra a lei de Deus e dos homens, você é um bandido.

O cara é um paulistano mas podia ser potiguar ou goiano. Podia se curitibano ou soteropolitano. Como diz minha amiga, cearense nascida nos cafundós que trabalha como balconista mas quer mesmo é ser enfermeira, é tudo brasileiro e Deus é o mesmo. Seu irmão foi morto a tiros pelas costas por causa de uma discussão besta na beira do açude. O filho do dono do açude não foi, nem será preso. Meu amigo alagoano me explicou como funciona. O pai chega na delegacia e vai logo declarando. Foi mesmo o filho que fez a besteira mas não adianta prender, o moleque é ruim da cabeça, o pai está mandando ele embora por uns tempos. Acontece que o morto e o assassino também tinham uns acertos de contas, diz o pai, e diz mais, vai fazer um desagravo para a família. O filho dele fica por sua conta, pronto. Mas a minha amiga diz que o sobrinho, que assistiu a morte do pai aos 8 anos de idade, já prometeu. Assim que crescer vai caçar e matar o assassino. Ela mesma podia ter encomendado a morte por 300 reais mas não acredita que cadeia ou assassinato resolva alguma coisa. Tragédia grega.

O cara me deixou chateada. Por onde começar a falar de Justiça com alguém que pensa que o sinônimo de justiça é vingança? Se quer civilizar um homem comece pela sua avó, já dizia minha avó. Minha avó achava que a consciência é forjada apenas pela tradição e esta muda muito devagar.  No caso do cidadão que defende as chacinas produzidas pela PM não restaria chance alguma. Sua avó passou a vida debaixo do mandonismo do pai e do marido que lhe ensinaram a lei do cangaço, do mais forte, do “quem pode mais chora menos” e do “ isso aí só bala resolve”. Descende de gente que traz gravada na memória e na pele que a vida é uma coisa que tem por sentido a disputa, a porrada como meio e o triunfo como fim. Gente que acorda cedo e trabalha, vê televisão exausta, cria os filhos sonhando que eles não levem a mesma vida enfadonha, vai no estádio ver futebol e quando está no pico do tédio, da raiva ou do nojo, enche a cara para esquecer. Essa é sua Cultura. São eles dignos de viver porque honestos e cumpridores dos deveres, comem e dormem do seu trabalho suado, dentro da lei de Deus e dos homens, dentro da conformidade, isto é, da Cultura na qual foram criados. Vagabundo não merece viver mas a noção de vagabundo é fluida como água. Segundo sua Cultura os vencedores merecem tudo, inclusive o perdão pelos seus crimes e trapaças. Para os perdedores, na prática, resta a Lei do Cão e às vezes a sensação exasperante de fazer tudo dentro das regras e levar a pior. Mas neste caso a Cultura lhes autoriza, ao menos, sonhar com a vingança como prêmio de consolação. Confusamente reconhecem a instituição judiciária como luxo para rico ficar mais rico, uma instituição que, como os bandidos, ferra demais os pobres ao mesmo tempo que a querem como braço armado de suas vendetas pessoais. Neste ambiente cultural humanismo, direitos humanos e coisas que tais só podem mesmo ser entendidas como um pixo no muro – palavra inútil que emporcalha a paisagem, Neste ambiente cultural o assassinato de quem se odeia ou teme vai parecer tão natural como a crença em Deus. Não há falta de Cultura. Cultura fundada na violência  e na lei do mais forte também é Cultura. Os prazos das mudanças culturais operam na chave do tempo mítico, a família pode ajudar ou atrapalhar mas detém poder apenas até o limite da fragilidade cognitiva, material e emocional do indivíduo. A família reproduz mais ou menos a cultura de onde está inserida mas não tem mais poder que tudo que lhe é externo, para o bem e para o mal.   

Livre associação, acabei me lembrando de uns causos do meu tempo de educadora no terceiro setor. A expressão “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” que andava na boca dos adolescentes por causa do personagem Chaves, parece que saiu de moda. No começo dos anos 2000 fiquei confusa ao ver jovens de 14 anos aplicarem o bordão em improvisações de teatro enquanto me perguntava: mas eles leram a Orestéia ??! Foi assim que tomei o primeiro contato com o Chaves, o seriado mexicano exibido na TV brasileira. O bordão era dele.

Nesta época dava aulas para adolescentes em “situação de risco social” e ouvia como resposta à minha provocação, de como pensavam que seria uma tragédia grega transposta para os dias de hoje, muitas narrativas de suas vivências nas favelas e bairros populares. Com apenas uma década e meia de vida tinham se defrontado com violência radical, ao vivo e a cores, mais vezes que eu, em quase quatro décadas bem vividas.

Não sei se fui capaz de ensinar-lhes algo mas aprendi muito. Tinha aquele sentimento arrogante de pena ao ver que contavam com um repertório cultural escasso, não nego, mas acabava por me encantar com suas capacidades de criar o máximo com o mínimo disponível. Sua aversão às normas cultas da língua, percebia aos poucos, não era aversão, mas simples medo de nunca chegarem a dominá-las. Eu também não as domino, confessava. E descobria que bastava lhes convencer que era apenas um jogo para se tornarem exímios caçadores de palavras e brincantes do texto escrito. Eu, a princípio convicta de que os devia alimentar de saberes, ao final concluía que o melhor seria estar atenta e regar seu desenvolvimento com o que pudesse, já que podia fazer tão pouco por eles.

Na maioria dos casos o curso não era a sua primeira escolha ou de seus pais. A maioria ia parar lá ao não conseguirem inscrição nos cursos profissionalizantes. A instituição era vinculada a uma corporação, funcionava com verba de renúncia fiscal para projetos Culturais mas usava a maior parte da verba da alínea “Cultura” para ministrar cursos de treinamento para adolescentes candidatos potenciais aos seus postos de trabalho. Eram cursos profissionalizantes lato sensu, muito mais programas de treinamento de práticas e regras da própria empresa do que qualquer outra coisa. Quem iria questionar? Seus frequentadores e pais só enxergavam a possível vaga de emprego e como desejavam qualquer uma, por mais mal paga que fosse, qualquer coisa estava valendo como “educação”. Não conseguindo matrícula, os responsáveis ponderavam – melhor que nada, melhor que ficar na rua em má companhia ou em casa fazendo bobagem – vai lá fazer essa coisa de artes, meu filho.

Era previsto trabalharmos conteúdos de literatura e teatro. Mais difícil que a alfabetização incompleta – cansei de ver meninos de 14 anos que não conseguiam ler uma matéria de jornal, apesar de frequentarem a escola desde os 7 anos de idade – era lidar com as expectativas iniciais. Havia os que iam logo avisando serem avessos a “ aparecer”, afirmando orgulhosa disposição para o destino de trabalhadores “de verdade” e seu desprezo por “frescuras” e “loucuras” da “ arte”. Outros, no extremo oposto, se declaravam dispostos a tudo para alcançar a mais alta ambição artística que podiam conceber : aparecer na TV Globo. Eram adolescentes com fantasias juvenis, enfim.

Ótimo, eu lhes dizia, então temos por aqui gente disposta a trabalhar para organizar a bagunça daqueles ali quando enlouquecerem com frescuras, não ? Eles riam. Mas espero também, eu continuava, que estejam todos animados a lerem muitos textos e estudá-los. O espanto. Estudar teatro era isso ?

Eles achavam que, em arte, era tudo improviso e dom de Deus. E que a arte maior era o que passava na TV. Novelas e filmes eram melhor que teatro, não eram ? Poucos percebiam que os filmes estrangeiros na TV eram dublados. Muitos menos, ainda, se davam conta de quantos profissionais diferentes eram necessários para fazer uma televisão funcionar. Passado o choque das revelações vinha a tarefa de decepcioná-los gentilmente. Meu objetivo era menos ensinar-lhes “artes” que despertá-los para coisas interessantes, quem sabe até para maneiras mais férteis de empregar o tempo que dedicavam a assistir televisão.

Dava certo, às vezes. Muitos tomaram gosto pela leitura, outros a aprimoraram. Nos encontrávamos duas vezes por semana ao longo de apenas 4 meses mas, de leitura em leitura, jogo em jogo teatral, do exercício à conversa, vazava para dentro dos nossos jogos de faz -de -conta o real de seus cotidianos, repletos de problemas subjetivos e materiais. Todo o deficit de um sistema de ensino tão burocrático quanto indiferente aos afetos se revelando bem na minha frente. Tudo que a Cultura de um país excludente, fundado sobre a exploração dos mais fracos pelos mais fortes podia produzir, se reproduzindo sobre aqueles corpos e mentes. Muitas revelações me chocavam ainda mais pela constatação de que não havia espaço para eles pensarem e falarem sobre suas inquietações mais profundas em casa, na escola, na igreja ou na rua. Sobretudo os meninos, treinados desde o berço para aguentarem porrada sem reclamar e lutarem por um território onde pudessem mandar. Eis o sonho generalizado. Um espaço para mandar. Nem que fosse apenas uma casa ou um barraco com uma mulher dentro, que lhes daria filhos e a certeza de valer alguma coisa, pelo menos para eles, a família. Assim como as meninas que, em contraparte, sonhavam com o amor incondicional quando parissem. O amor romântico para muitas parecia, senão inacessível, improvável mas ter um bebê, isto sim, era a garantia do amor incondicional. Esses moloques são uns toscos, Professora. Meu pai fugiu quando minha mãe engravidou, Profe. Homem só quer aproveitar da gente, minha mãe sempre diz, o que a senhora acha?

Foi uma experiência cheia de momentos emocionantes e imprevisíveis. Guardo vivo na memória um princípio de cisma religioso que se instalou em uma das turmas. Já então alguns garotos e garotas acrescentavam, ao se apresentarem, a identificação religiosa – sem que lhes fosse perguntado. Foi assim que se identificou um grupo, sentados lado a lado em um canto da roda – evangélicos- o que provocou também a declaração de fé, no canto oposto, dos umbandistas. Havia troca de olhares desconfiados seguidos de risinhos e boquinhas torcidas desde o primeiro instante.Após a rodada de apresentação ficou claro que o desprezo era mútuo. Perguntei se sabiam o que era mito de origem. Não sabiam. Expliquei a diferença entre o tempo histórico e o tempo mítico. Gostaram da coisa. Um garoto sabia o princípio do Velho Testamento de cor, uma menina narrou um mito africano. E o mito de origem dos gregos, conheciam? Fomos ao mapa mundi procurar a Grécia. Desenhada uma linha do tempo em papel kraft na parede, a conversa fluiu. Os mitos gregos e africanos tinham muito mais a ver com o terror – gênero preferido por 9 entre 10 adolescentes naquela época. Um deus que paria filhos em suas próprias coxas e os devorava, UAU ! Um deus punido por seus pares por roubar o fogo e entregar aos homens, quéquéissso??? Existem, existiram, sim ou não, como eu dizia, eram questões de fé que não vinham ao caso mas como no campo da Cultura simpatia é quase amor… lá fomos ler trechos de tragédias clássicas e falar dos conflitos de amor, ódio, paixão, desrazão e orgulho que garantiram a sobrevivência destas antiquíssimas histórias.

O planejamento pedagógico vinha de cima mas fazíamos limonadas a vontade. Recordando estas aulas há uma década e meia, me peguei questionando como ou se ainda seriam possíveis. Pelo que ouço dos colegas professores, a necessidade de dar conta de conteúdos extensos e uma burocracia feroz fazem da sala de aula uma linha de montagem mais sem graça do que sempre. A onipresença dos celulares com seus infinitos bate-papos mais o acesso instantâneo à web em qualquer aparelho de baixo custo, talvez tenha esvaziado algo que servia de isca e encantamento para o trabalho pedagógico. Trechos de filmes, livros, fotos e gravuras, às vezes significavam o primeiro contato daqueles jovens com obras do chamado mundo das artes e da cultura. Fora dali tinham pouco ou nenhum acesso a ela. A curiosidade incitava, a dificuldade de acesso fisgava, a concentração não era desviada pela vibração de qualquer eletrônico. Agora, pelo que dizem, sabem que tudo está à mão e tudo pode ficar para depois. A procrastinação, esporte nacional de prestígio transversal a todas as classes sociais brasileiras, encontrou o solo mais fértil de sempre. Todas as coisas estão ao alcance de um clic, o que equivale a dizer que podem esperar até o fim do próximo chat, da próxima selfie, do próximo clipe, da próxima série, do próximo game. No tempo que melhor apetecer a cada um. A sociedade virtualizada tem precedência sobre a real, dizem meus colegas professores e divertir-se é a ordem. Diversão sem qualquer esforço. É só pesquisar o ranking das palavra mais consultadas nos motores de pesquisa para ver, me disseram. Especulo. A educação pode muito mas a Cultura, hem, a Cultura….

Recordando aqueles anos, me recordei também daqueles dias. Da atmosfera, dos modos, do cotidiano, do gênero de passatempo e lazeres mais ou menos comuns para quem podia ter algum lazer e passatempo. Íamos ao cinema, aos museus, ao teatro como sempre, jogar bilhar, houve uma moda de dardos ao alvo, já nos trancávamos em casa a ver pilhas de filmes emprestados da locadora mais próxima mas raramente sozinhos. Viajar era um prazer mas ficar em hotéis era muito caro. Os carros não eram mais os do tempo do Collor, os moços se empolgavam com os importados. Começavam a voltar à moda os sapatos bico fino e salto alto, os tênis de nova tecnologia passavam a substituir os sapatos esportivos. Os computadores entravam de vez para o cotidiano doméstico. Havia a internet discada, todo mundo tinha um endereço de email. Havia muitos novos pequenos hábitos de consumo agora. Consumir era igual a viver, a sociedade se confundia com o mercado então nada mais natural que o mercado cuidasse de tudo. Comprar planos de saúde, mandar os filhos à escola particular, instalar cercas eletrificadas nos muros, contratar seguranças uniformizados para as portarias, preferir a vida em condomínio a uma boa casa com jardim, de cara para a rua, era o novo normal. Em cidades minúsculas com terra baratíssima a classe média se enfiava em prédios mais altos que a igreja matriz bem ao lado. O desejo de viver dentro de uma bolha triunfava. Uma bolha nem tão apartada dos pobres assim, diga-se de passagem. Mas uma bolha que ao menos garantia saneamento básico, transporte e outros itens diferenciados. Que garantia diversões e sonhos diferenciados. Afinal, tínhamos sempre alguma chance real ou imaginária de escalar até uma daquelas outras bolhas sobre nossas cabeças. Era natural não debater como esta Cultura de apartheid era esquisita. Que apartheid? Responderia em uníssono a classe média não engajada na discussão política, caso alguém ousasse assim classificar aquele modo de vida tradicional, agora sedimentado de vez. Que horror. Temos é corrupção – sempre ela, essa maldita. Quantos haviam sido pegos com a boca na botija, tinha adiantado o quê ? O dinheiro era a medida de todas as coisas mais do que nunca. O fim das ilusões, o fim da História. O processo de judicialização da vida avançava como jamais, ser querelante virou moda. Law and order. Problema agora se resolve é na Justiça. Discute, não. Mete um processo. Quero a minha parte em dinheiro. Não discuto, não converso, não peço desculpa – pago – prefiro. Apartheid onde? Haveria os que garantiam que estávamos todos lascados, de qualquer modo, pobres e remediados. Mesmo nós, os que saídos das prestigiadas Universidades Públicas esperavam encontrar mais facilidades para triunfar no mercado de trabalho, olha aí, ainda tínhamos de ralar muito para encontrar meios de vida e renda. Não tínhamos de nos esforçar muito para vencer concursos públicos e alcançar os melhores salários, sendo filhos de pais sem capital ? E mesmo os mais abonados entre nós, não tinham de usar a rede de relações e até mesmo o patrimônio de pais e parentes, ao querer constituir negócio próprio? Quantos de nós, cansados de bater a cabeça ou avistando oportunidades melhores não tinham tomado o rumo do aeroporto? Temporária ou definitivamente – quem sabe. O Brasil era cansativo. Depois de toda aquela euforia da redemocratização, quanto tempo até conseguir frear a inflação… e a corrupção, sempre ela… e os pobres e miseráveis… há tanto tempo fazem parte da paisagem. Bem, estavam lá desde sempre, já eram parte da paisagem, não eram? Era difícil. Era preciso ter espiritualidade para suportar. A espiritualidade sempre foi parte importante da nossa Cultura, e como dizem todas as religiões, pobres sempre haverá entre vós . Para vencer a pobreza é preciso fé, comprometimento individual com seu crescimento. As Igrejas ajudam mas se a pessoa não tiver fé, ah, vai se abduzida por toda essa violência, não há dúvida. A religião agora era onipresente nas madrugadas da TV. E não é que ajudava os mais pobres? Claro que sim. Ajudava o sujeito a se organizar, parar de beber, convencia o marido a não bater na mulher, convencia a mulher que é melhor ser doce e carinhosa ao invés de uma megera rabugenta, mantinha os adolescentes ocupados, orando, trabalhando para a Igreja. A violência era o mal da década e tudo para fugir dela era válido. Alguns de nós até escorregavam no abuso de drogas para segurar a barra da violência simbólica. Era ridículo mas era válido. No cinema ou na TV a violência tinha virado tema preferencial, só superado pelos temas do adultério e do amor romântico. Quem ditava qual era a moda, qual era a onda, qual era a pauta, mostrava o drama da violência, a tragédia da violência, Hollywood fazia da violência uma coisa cult. A violência é, como a religião, uma coisa complicada. Há muitas explicações e muitos modos de ver o mesmo Deus que, afinal, é um só. Aqui, pelo menos não tinha violência religiosa. E nossa violência também nada tinha a ver com os salários ou o desemprego. Muito menos com o consumismo.

A cultura do consumismo se infiltrou cada vez mais pesadamente na vida cotidiana da classe média, a partir dos anos 90, e se encontrava reprimida para a maioria da população por simples falta de meios. A ideologia do indivíduo que é feliz porque consome e consome para ser feliz já era a parte estruturante do tecido da Cultura mas do sonho ao real, apenas uma minoria conseguia ir além do desejo. Então veio o governo Lula. De repente aqueles garotos e garotas com perspectivas nulas ou lentíssimas de melhoria da renda – e apenas se contassem com a sorte de famílias estruturadas ou, no mínimo, mães e pais decididos a tudo sacrificarem por eles – sentiram que podiam dar o salto e passar à próxima bolha. Trabalhando no telemarketing, podiam frequentar uma faculdade subsidiada no contra turno. Podiam sonhar, ao perceberem que alguns até mesmo teriam chance de chegar às bolhas mais altas, sempre inacessíveis aos filhos do trabalhador brasileiro da base da pirâmide. Os pais ganhavam um pouco melhor. De repente faltavam pedreiros e os mais habilidosos montavam equipes e passavam a trabalhar por conta. Euforia. Da faxina se saltava para a massagem estética, da recepção se podia chegar a envergar um terninho no tribunal. Virar doutor e doutora advogada, o sonho impossível agora ao alcance do carnê de crediário. Euforia. Pressa, muita pressa. Vamos virar o jogo. Afinal a empregada podia ter um armário na cozinha novinho, não aquele de portas caídas que a patroa dispensou, louça nova no banheiro, como aquelas que passou a vida limpando. Descobríamos que não estávamos fadados a viver em bolhas diferentes de consumo para sempre. Cada um com seus problemas mas todo muito podendo ter as coisas que sonhou. Éramos enfim o futuro que parecia ter desistido de chegar. Agora sim, ia chegar, glamuroso como uma viagem a Miami. Eufórico como uma liquidação da blackfriday.

Por estes anos, vivi algum tempo fora. O Brasil desabrochava para o mundo esfuziante como esta alegria que nos contaminava por dentro. Aquele fetiche brasuca de namorar gringos e gringas para conseguir um green card ia se invertendo. Moços do leste europeu me imploravam para lhes apresentar garotas brasileiras. Lindas ! E ainda por cima, vivendo no Brasil, ah, o Brasil… que sonho o Brasil. Vinha de visita e reparava – era só impressão ou a média da estatura da juventude negra e periférica tinha aumentado? Seria mais ingestão de proteínas ? Que a população como um todo tinha engordado saltava aos olhos.

O Lula não inventou, e nem poderia porque já estava inventada, a euforia consumista. Euforia consumista, aliás, é pleonasmo. Consumismo é comprar euforia em forma de cacarecos mais ou menos caros. Nem tudo que é consumo é euforia. Alguns objetos do desejo são úteis. Quem lava roupa no tanque ganha mais que euforia ou status ao comprar uma máquina de lavar. Quem nunca teve luz elétrica em casa ganha mais que uma lâmpada acesa. Quem viu a mãe morrer na sua frente porque não havia um carro para levá-la ao hospital, deseja mais do que conforto ao adquirir um automóvel.

O governo Lula  no aspecto cultural, colocou abaixo algumas catracas seletivas demais e os efeitos colaterais foram muitos. Uma certa “ mudança comportamental” dos pobres e muitos pobres não se explica apenas pela oportunidade de virar consumidores. A maioria não chegou nem sequer a virar consumista, não passaram de consumidores do básico – ao qual não tinham acesso ou garantia antes.  Ainda que fosse verdade ( o que discordo) que a chamada “ nova classe média” ou “ nova classe trabalhadora” tivesse se mostrado mais interessada em consumir do que outra coisa, alguém diga com sinceridade : quem forjou o modelo para ela se espelhar? A sociedade brasileira, nascida sob o signo da violência, tendo o Estado desde sempre como perpetrador das maiores violências, tem como eixo fundamental de sua Cultura da violência proteger de todas formas possíveis a acumulação de patrimônio privado. Este modela, desde a base nossa Cultura, da ética subjetiva ao conjunto das leis . Um acumulado de terras, casas, apartamentos, carros, dinheiro, moeda, ouro, pedras preciosas, ações, o acúmulo, qualquer acúmulo de riquezas, é o legado mais precioso que um pai pode deixar aos seus descendentes. O patrimônio e as posses trazem prestígio e alvará para quase tudo. Sobretudo se for ” riqueza velha” daquelas que nem se consegue investigar bem as origens. Prestígio intelectual, só se corroborado por um diploma materializado na parede e acompanhado de uma conta gorda no banco. Por acaso pode valer o quê uma pessoa sem dinheiro ? Se é artista talentoso, se é jogador habilidoso, se é descendente de famoso tem de ser rico, ora, cirurgião, engenheiro, arquiteto bom que não tem dinheiro, onde já se viu? A riqueza traz em si o condão de chancelar talentos, imaginar competências várias, mesmo onde eventualmente só haja resultado de sorte ou jogos de poder e violência. A Cultura também fez de nós uns generosos em elogios e afetos, pródigos mesmo. Nossa Cultura reproduz o amor pela prodigalidade em todos os setores da vida. Numa sociedade de classes com uma das piores distribuições de renda do planeta qualquer pessoa em situação de rua tem na ponta da língua a definição do Brasil : um país rico, riquíssimo ! O consumismo foi só a cereja do bolo.

O consumismo é autoritário. Ele instala a ordem do consumo como única meta, única saída, único valor. Consuma ou morra, tenha coisas ou inexista, ostente posses ou cubra-se de vergonha. E seu caráter autoritário só tende a agigantar-se em uma sociedade em que os meios de comunicação de massa estão em poder de meia dúzia de donos de empresas que, desta forma, ditam quais os objetos, os valores, gostos, músicas, ideias, notícias, personalidades tem valor de consumo – quais devem ser apreciadas e consumidas, quais devem ser descartadas. A mídia de massa  dita para a massa o que é Top no ranking e o quê não vale nada. Quem deve ser exaltado, quem pode ser humilhado. Na sempre monotônica e autoritária propagação do consumismo o topo da pirâmide de renda é a meta e a ordem primeira, em caso de impossibilidade de alcançá-la, é mimetizá-la. Almejar ter cara de rico, cabelo de rico, se vestir como rico, ter cacarecos de rico, são os mandamentos inscritos no regulamento do Partido Único da Mídia que o divulga dia e noite. Partido único que tem também o poder- político -de tornar invisível objetos, valores, gostos, músicas, ideias, notícias e pessoas que não alimentem a ideologia de triunfar e fazer fortuna. E não é possível estar desalinhado com o Partido Único da Mídia, no Brasil sem temer sanções tão violentas quanto aquelas que o Estado é capaz de produzir. Aos desafetos relevantes a Mídia de massa pode neutralizar partindo para a guerra frontal pela demonização, incitamento ao repúdio, pelo ridículo, pelo escárnio, pelo deboche, se a invisibilidade não bastar. O MST que o diga.

A mídia de massas no Brasil, tanto a eletrônica, quanto a escrita, graças a todas as manobras ilegais que fez ao longo dos últimos 30 anos para continuar operando de forma diversa do que diz a Constituição, conseguiu firmar-se como uma espécie de preposto do Olimpo. Seus donos que operam empresas que servem à venda de cacarecos em primeiro lugar, nos intervalos entre os filmes publicitários produzem anestésicos em forma de diversão. Mas também criam lendas, mitos e dramas a serviço da Cultura clássica brasileira. Elevam simples mortais à condição de semi-deuses. Como Zeus são capazes de acorrentar um Titã à beira do penhasco e ordenar que abutres lhe devorem o fígado, dia após dia, e ainda escarrar na cara de quem ouse levantar a voz para protestar que, com ou sem Prometeu, o Olimpo é que é o problema. Então não é surpresa que este Olimpo se empenhe em retratar Prometeu como um ladrão asqueroso. Omitindo inclusive que todos os Titãs gostavam muito dele antes dele ter roubado da pira dos deuses uma fagulha, além de ter trazido à cena Pandora que, como se viu, nada fez para evitar que a caixa preta fosse aberta. Francamente !

E é claro que nem dá pra começar a conversar de forma leve com quem, educado por esta mídia de massa e pela tradição cultural brasileira, grita :” bandido bom é bandido morto!”. Se eu fosse capaz de lhes explicar que os bandidos que vendem anestesia para as durezas de suas vidas, adestraram sua língua a dizer estas orações de maldizer – que não explicam nada e não resolvem nada – apenas para que eles possam continuar como prepostos dos deuses no Olimpo… seria eu mesma um Prometeu.

Mas sou uma reles mortal que rasteja lutando para não perder a fagulha que lhe cabe neste vale de trevas. Às vezes penso que felizes são os Titãs e deuses do Olimpo. Às vezes penso que são os abutres com sua dieta de fígado fresco. Às vezes penso que felizes são os urubus satisfeitos com sua dieta de carniça. Mas na maior parte do tempo penso que talvez sejamos apenas uma nação de gente triste encenando uma velha tragédia. E que, na tragédia brasileira, minha vocação para coriféia é que me desgraça. E como dói, às vezes, não ter um reles tábua onde encenar outras paixões. 

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Oresteia de Ésquilo

Categorias: Cultura, Mídia, Reflexões, Sociedade, Verso & Prosa | 3 Comentários

A rede


 

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Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

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Comoção: bibelôs-sereia e suas roupas e decotes nas redes sociais


segundo sexo

No começo do ano, o episódio envolvendo os comentários de Cora Ronai e Miriam Leitão à indumentária da presidente Dilma durante sua posse ganharam ampla repercussão nas redes sociais. Gente apontando o dedo para as duas primeiras que, segundo alguns, estariam bem longe dos modelos de beleza e elegância que estariam a exigir da reeleita; outros a ratificarem as críticas, numa lamuriosa revisita a nosso complexo de vira-latas; outros ainda (e fecho com estes últimos) a analisarem a evidência não só de uma estratificação cultural de gostos, mas também da voz opressora do patriarcado que espera de uma mulher atributos para além da inteligência ou da competência.

Não é a roupa que ela usa ou a forma como se movimenta fisicamente que deveriam ser a tônica dos debates, mas sim as máscaras dos partidos, a movimentação das alianças e o fatiamento dos ministérios. O próprio discurso de posse chamou atenção para duas questões: a afirmação do combate à corrupção “doa a quem doer” e a atualização do lema de governo para “Brasil, pátria educadora”. Isso por si só renderia discussões bastante interessantes sobre os mecanismos de controle social da corrupção, as políticas públicas de educação e as implicações do discurso conservador aliado ao uso do substantivo “pátria”.

Em  06/04/14,  a Folha de São Paulo publicou matéria sobre as “galerinas,  garotas que ajudam a vender obras de arte nas galerias. Caracterizadas preconceituosamente como “lindas, bem nascidas e bem vestidas”, o jornal ainda as compara a “bibelôs bem lustrados para atrair o olhar dos colecionadores” (de arte ou de mulheres?), “item obrigatório  no acervo de qualquer galeria de arte”.

galerina

Juliana Brito, uma das galerinas entrevistadas a reproduzir o discurso do patriarcado

Em 16/08/14, nosso colunista Moacir de Sousa tecia, em sua página pessoal no facebook, considerações críticas à campanha eleitoral de Romário (PSB), tratando, entre outros detalhes da produção, da existência de “romaretes — responsáveis por distribuir seus panfletos e despertar a simpatia dos torcedores-eleitores. Abrindo caminho para Romário, vão três ‘romaretes’. Ao todo são oito meninas, sempre devidamente maquiadas e com lindo sorriso no rosto”. Segundo um dos eleitores potenciais, “É simpático. Mulher bonita sempre combina com futebol”.

romaretes

As “romaretes”, nascidas em berços diferentes das galerinas e uniformizadas, mas igualmente exploradas como chamariz

No domingo 15/02/2015, o jornal O Globo publicou em sua primeira página matéria intitulada “‘Calouras’ causam comoção entre veteranos na Câmara” . Nela, as deputadas Shéridan Estérfani (PSDB-RR), Brunny Gomes (PTC-MG) e Clarissa Garotinho (PR-RJ), jovens, brancas, magras, de cabelos longos, são retratadas como peças decorativas, valendo mais pelo que trajam do que pelo que pensam ou pelas trajetórias que as conduziram ao meio político.

comocao

Poses quase idênticas para um olhar cobiçador que as lança na mesma objetificação

No dia 15/03/15, a seção de Política do Último Segundo do IG, destaca em galeria de fotos “as gatas das redes sociais nos protestos do dia 15”.

gata do protesto

Uma das musas do “maior protesto democrático brasileiro”, ainda que se proteste pelo direito de não mais protestar. Contraponto aparente às manifestações de junho de 2014, em que só divulgavam imagens de black-blocs e algumas manifestações de protesto mais reativas. Por que será?

O que podemos observar nesses episódios? A objetificação da mulher, com o uso de um discurso de enaltecimento da beleza, por trás do qual reside uma definição de papéis sociais e de gênero marcadamente definidos pelo patriarcado: a mulher como acessório das ações masculinas. E, mesmo quando ocupadoras de cargo eletivo, a manchete da matéria em que aparecem destaca, mais uma vez, a reação masculina às suas presenças. Encontramos, ainda, o reforço de padrões estéticos normatizadores, com a construção da imagem-sereia, mulheres que com seus encantos atrairiam ricos compradores às galerias e pobres eleitores-torcedores às urnas. Para compreender melhor essa questão falocêntrica e androcêntrica, estou lendo o clássico O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, indicação das colunistas Sabrina Guerghe  e Andreia B. de Oliveira, parceiras de blog feminista, semeado ainda nas discussões fomentadas pelo Transversos . Leitura imprescindível para aprofundar a reflexão sobre o assunto.

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Dois pesos: estupro coletivo nas mídias


Respeito

A unanimidade da abjeção ao crime de estupro une pessoas de diferentes ideologias num misto entre choro represado e punhos cerrados. Mulheres de diferentes condições econômicas e em diferentes contextos e faixas etárias são vitimadas, muitas vezes, com a cumplicidade de quem lhes deveria garantir proteção e com a falta de apoio que lhes deveriam destinar as autoridades competentes. Há ainda um silenciamento midiático com o qual nunca deveremos nos acostumar, quando a violência é cometida no nosso país e atinge a camada mais pobre. Não querem desconstruir o mito do país não violento, mas que ocupa o 7º lugar no ranking do homicídio de mulheres em comparação a outros 84 países, segundo dados do Mapa da Violência 2012. tabela A seletividade da notícia traz a diferença nas abordagens. Sabe-se, por exemplo, que, a Índia é um lugar perigoso para as mulheres, embora não conste da tabela anterior. Em termos de estupro coletivo, vários são os casos que nos vêm à lembrança: em 30 de dezembro de 2012, a jovem estudante Jyoti Singh Pandey sofre a violência num ônibus coletivo em Nova Déli; em outubro de 2013, uma adolescente de 16 anos sofre dois estupros coletivos, o segundo como retaliação por ter ido à delegacia denunciar o primeiro; após isso, ateia fogo em si mesma, tendo queimado até a morte, em Madhyagram; em Bengala, 23 de janeiro de 2014, uma mulher de 20 anos sofre pena de estupro coletivo por ter-se envolvido afetivamente com homem de outra aldeia. Isso fora horrores semelhantes sofridos por estrangeiras.

O que se sabe sobre essa prática no Brasil? O caso de Aída Curi, nos final dos anos 50, emblemático por conta da luta extenuante travada com seus três agressores, que depois a jogaram do 12º andar sem terem consumado o ato, ocasionando sua morte? Naquela época, o crime de estupro coletivo era popularmente conhecido como “curra”.

Sobre os casos noticiados mais recentemente, temos o da vítima de 13 anos agredida por, pelo menos, 9 homens na cidade de Osasco, São Paulo, no final de semana do carnaval deste ano, além dos casos de Queimadas (PB, 2012) e Itapirapuã (GO, 2014).

O primeiro dos citados, por exemplo, publicado na terça-feira, 16/02/2015, na maioria dos sites virtuais de notícia só encontrou espaço para publicação em O Globo na quarta-feira de cinzas, às 16h30min. Seria para não macular “o maior espetáculo da Terra”, transmitido em rede nacional com exclusividade pela Todo-poderosa (ou seria asquerosa?) emissora?

Em Goiás, menina de 12 anos foi abordada por dois homens armados, levada para lugar onde mais três a esperavam, dopada e violentada. Além de mais algumas circunstâncias que envolvem o crime, nada mais se noticiou sobre o assunto, como se as investigações ocorressem em sigilo e não fosse necessária nenhuma satisfação sobre o andamento delas à sociedade.

O caso de Queimadas apresenta requintes de premeditação, ainda que não o possa negar nos outros casos. Amigos combinam uma festa de aniversário para um deles, sendo o estupro de todas as moças presentes à festa, com exceção das esposas dos organizadores da festa e donos da casa, o grande presente, não apenas para o aniversariante. Dez homens violentaram cinco mulheres. Duas delas, Isabela Pajuçara Frazão Monteiro e Michelle Domingues da Silva, conseguiram desvendar os olhos, reconheceram seus agressores e foram assassinadas. O mentor do crime Eduardo dos Santos Pereira, irmão do aniversariante, foi condenado pelo assassinato das duas moças, pelo estupro das cinco, por cárcere privado, lesão corporal, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e corrupção de menores a penas que somam 106 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Além disso, ainda há a pena de 1 ano e 10 meses de detenção pelo crime de lesão corporal de um dos jovens envolvidos no crime, o que aumenta a pena para 108 anos e 2 meses. Não se encontra qualquer notícia em relação aos outros criminosos participantes.

Ao se buscar informações sobre as pesquisas realizadas sobre estupro, causa estranhamento saber que não existe nenhuma base de dados sobre o assunto. Como subsidiar políticas públicas sem a dimensão real do problema? Causa estranhamento, também, e aí já entro no mérito dos crimes coletivos, o destaque dado às matérias sobre ocorrências na Índia. E entendam-me bem. Todo o destaque ainda é pouco. Mas aflige-me que em situações análogas ocorridas no Brasil, haja certo esmaecimento das imagens e, junto com elas, dos crimes e das vítimas, como naquela tática cruel de incitação ao esquecimento. Não existe o que não é pronunciado.

Encerro com um “não” aos inúmeros casos de violência marcados pelo feminicídio, em que o patriarcado se esforçou para mantê-los impunes ou silenciados. Mônica Granuzzo presente! Aída Curi presente! Aracelli presente! Cláudia Lessin presente! Isabela Monteiro presente! Michelle da Silva presente! Jyoti Pandey presente! Para mais leituras feitas por mim a respeito do tema, sugiro “Estupro: de quem é a culpa?” e “Vozes autorizadas: o poder que cala“.

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Sobre a indústria de comunicação de massa e rinocerontes


Começo por explicar a segunda parte deste estranho título. Refiro uma peça teatral do autor romeno Ionesco que narra a inexplicável transformação de todos os habitantes de uma cidade em rinocerontes. Assim mesmo, sem motivos. A princípio todos estranham os modos agressivos, a forma bruta, pesada, a truculência mas à medida que os rinocerontes se tornam maioria, todos passam a achar normal, elogiar, e pouco a pouco, passam a detestar a forma humana. Fosse paródia da célebre novela “ A metamorfose” de Franz Kafka na qual, em belo dia, um homem comum acorda e percebe que se transformou em uma barata, todos sentiriam nojo. Mas na cidade da peça de Ionesco as pessoas se transformam em rinocerontes, uma a uma, sucessivamente, até que só reste Beránger, um trabalhador comum que se recusará, até o fim, a deixar de ser humano.

A peça, grande sucesso do autor, rendeu e rende milhares de análises literárias e críticas. Pluralidade de pontos de vista à parte, muitas admitem que escrita, como foi, após o holocausto judaico na Alemanha nazista, também faz pensar sobre questão para a qual até hoje não se encontrou resposta simples ou definitiva: o que levou milhões de alemães a se submeterem ao poder de um tirano como Hitler? Como Hitler e seus nazistas conseguiram convencer uma nação inteira a fechar os olhos às perseguições e execuções sumárias de milhões de pessoas sob as suas barbas ?

Centenas de sábias e sábios se debruçaram sobre o assunto e não seria eu a pessoa capacitada a dar melhor resposta. Mas achei importante fazer esta introdução para abordar um aspecto que não costuma ser explorado nos filmes sobre o nazismo onde, quase sempre, se destacam a solidariedade e a bondade de indivíduos que se recusaram a virar rinocerontes em luta contra a maldade monstruosa e cega de pessoas que, como se fossem rinocerontes, ordenam a morte, o ódio e a perseguição aos judeus. Assim mesmo, como se fosse uma luta do bem contra o mal, personificada nos personagens anti-nazistas contra os pró-nazistas. E assim é porque assim funciona o básico da dramaturgia feita para o consumo do “grande público”. Tintas fortes, oposições binárias e o triunfo – de preferência- do bem, sobre o mal. Binário e limitado, simples a ponto de ser compreendido sem muito esforço.

Isto não se dá porque tudo na vida seja assim mas sobretudo porque, no final das contas, isto é o que há de mais comum aos seres humanos, na sua luta cotidiana . Melhor explicando : assim é o cotidiano da maior parte das pessoas comuns. Binário e limitado a uma sequeência de escolhas entre o sim e o não, o que lhe faz bem e o que lhe faz mal. A predestinação biológica, para começar, é binária. Respirar : bom , não respirar: mau. Da mesma forma o comer e ingerir água. Como organismo vivos, queremos preservar a vida, então dizemos sim ao comer e ao beber, e não à fome e à sede. E isto é tão imperativo que, sem alguma mediação da cultura, isto é, os costumes e seus limites morais e éticos para as nossas ações, valeria tudo para conseguir. Qualquer um, com fome, assaria sem nenhum escrúpulo, o cachorro do vizinho ou, com sede, mataria o próprio vizinho para ficar com água da sua piscina, por exemplo. Mas isto não acontece, felizmente – ou com tanta frequência- porque a maioria absoluta da população respeita a moral e a ética vigente que condena tais ações, mesmo antes de pensar que há leis que os proíbem. E isto não mudou no nazismo.

Acontece que a moral e a ética estão sempre presentes. Não havia ausência de ética nas ações nazistas- calma- o que o nazismo conseguiu foi tornar-se a própria moral e ética vigente e orientadora das ações, instalando na Cultura um axioma fundamental: a pureza da raça alemã, com padrões onde só alguns se encaixavam e onde os que não se encaixavam deviam ser mortos. Era moral, era ético odiá-los ( para os nazistas), era natural, era justificado ofendê-los nas ruas, xingá-los, querer matá-los. Não há ser humano sem Cultura. Há Cultura em todas as ações humanas, porque vivemos em sociedade e a cultura desta sociedade nos é transmitida desde a primeira mamada no peito, em todos os gestos. Ela produz nossa cultura e nós a reproduzimos. Hoje já se sabe, por pesquisas científicas, que as crianças adotadas quando bebês também chegam a desenvolver semelhanças fisionômicas com os pais adotivos porque bebês aprendem a sorrir com quem os embala, assim como aprendem a falar com quem vai lhes ensinar o próprio nome e aprendem a se relacionar vendo e imitando as relações do seu entorno. Há Culturas e Culturas, segundo diferenças de localização temporal e espacial, mas todo ser humano está imerso em um Cultura e a reproduz ao mesmo tempo que a transforma, cada um dentro de suas possibilidades ou capacidades.

Daí que eu tenha arrepios na espinha quando ouço pessoas com alto grau de instrução e poder aquisitivo, dizerem que uma parte do povo brasileiro é uma besta, porque não tem cultura (ou “ não tem informação”). E que, enquanto não tiverem educação , continuarão a ser umas bestas. Me recordo, nestas ocasiões, de que nem toda a educação da elite alemã e seu conhecido apreço pela chamada Alta Cultura, evitou que ela embarcasse alegremente no bonde do nazi-fascismo hitleriano. E me recordo também do espanto que sofri, na primeira vez que vi o filme alemão pré-nazista que comparava os judeus a ratos. Ratos de esgoto que deviam ser exterminados. Pensei horrorizada: como foi possível que os alemães chegassem não apenas a tolerar isto mas rir, como se fosse piada? Daí me lembrei que tais propagandas começaram pouco a pouco, um pouco a cada dia e tudo que fizeram foi levar a extremos um velho rancor, uma discriminação odiosa que estava nos subterrâneos da cultura alemã. O estado nazista usou aquelas telas gigantes daquela invenção fantástica, e – naquele tempo- parte importante da vida social e do entretenimento do homem comum para propagar o ódio aos judeus, Ao mesmo tempo  prometia ao cidadão médio, convencidos que eram raça pura, que a Alemanha seria uma sociedade limpa, grandiosa e rica, caso eles fossem exterminados. Ou seja, Goebbels, ministro da propaganda, fabricou um inimigo principal: os judeus. Mas perseguiu também os gays, os ciganos, outras minorias. E antes mesmo que o estado nazista tocasse o primeiro fio de cabelo do primeiro judeu enviado a um campo de concentração, Goebbels já tinha colocado uma parte do povo alemão hipnotizada pela ideia de que o paraíso estava logo ali e para isto bastaria tirar os “impuros” do caminho.

Ontem, ouvi um defensor do candidato da oposição referir-se ao partido do governo citando, entre outras coisas que não entendi muito bem,  Goobbels. Imputava ao partido do governo uma pretensão fascista ( !) , como se fosse nada, como se não referisse uma grave e dolorosa passagem da história recente, no seu hábito costumeiro de atirar palavras fortes aos oponentes. E quando lhe pedi que me desse argumentos, alinhavou um conjunto de frases que minha porção analista do discurso capturou a origem sem muita dificuldade: a TV e as manchetes de jornal. Como dizem por aí, pra discutir política é preciso saber apenas duas coisas : política e discutir. ´

O eleitor parecia esquecer ou não saber que Goebbels foi um apoiador político de Hitler, seu ministro da propaganda e sua função principal foi fabricar inimigos – como ?- manipulando a imaginação dos alemães. Sua função não era esclarecer a população, recolher provas ou argumentar sobre como conduzir a política alemã – e o povo alemão, magoado pelas condições que a derrota da Primeira Guerra havia imposto ao país.  Sua função era tornar todos o judeus inimigos usando anátemas como “são podres”, “precismos expulsá-los”, “eles merecem a morte”, “ eles são o inimigo”. E aí eu pergunto. Qual a máquina de propaganda que há anos, prega que o PT e seus filiados são “ o inimigo”? Todo mundo sabe. E qualquer pessoa com um pouco de conhecimento em ciências da comunicação pode intuir com facilidade, a serviço de quem esta propaganda está . Para quem não é do ramo, deixo abaixo o link do “Manchetômetro”, um projeto de pesquisa que apresenta algumas evidências do que digo .

Imagino como poderia ser o Brasil se tivéssemos bons veículos de comunicação de massa, ao invés destes que falharam como meio de comunicação social de concessão pública, se tornando pura máquina de propaganda. Sobretudo uma máquina de propaganda que há 40 anos inventou que “ era a melhor” e repetiu todas as milhões de vezes necessárias para que acreditassem. Como seria o Brasil, se ao invés desta, tivéssemos uma TV com a qualidade de um BBC, transmitindo a produção artística brasileira e sua exuberante diversidade. Imagine como seria se a tv brasileira, desde sempre, estivesse aberta a mostrar o Brasil inteiro nas suas riquezas e imperfeições, com inteligência . Imagine se ela fosse obrigada, como são as TVs concessionárias dos EUA, a comprar programas, abrindo suas máquinas de fabricação do imaginário brasileiro à diversidade cultural e muitos pontos de vista deste país continental. Se ela mostrasse nossas contradições, sim, mas para difundir a cultura da paz, da diversidade, da pluralidade, do diálogo, do debate qualificado. Se ela não fosse, desde sempre, uma difusora da cultura do escárnio, da arrogância, da agressividade, da superficialidade, da futilidade e da ostentação. Imaginem – e vou falar agora de um sonho impossível- se os donos das empresas que detém as concessões de transmissão fossem pessoas cuja cultura e a educação os tornassem incapazes de fazer negócios escusos e os levassem a ter cuidado com o que colocam nas bocas de seus empregados ou com os produtos de entretenimento que suas ricas empresas difundem nas salas de milhões de brasileiros todos os dias. Talvez não houvesse tantos políticos eleitos por obra e graça das artes da propaganda televisiva, não é ? E quem perderia com isso?

Não entendo que alguém possa pensar que não seria bom ter TVs que não produzissem apenas narrativas coloridas e sedutoras, ideologia pura disfarçada sob carinhas bonitas e mentiras cínicas no lugar de jornalismo,. Não seria bom que ela parasse de produzir tanta gente viciada em argumentos vazios e emoções baratas, com pouco senso crítico, exposta a empresários sem limites ou responsabilidade ? Eu acho que seria muito bom. Seria ótimo, inclusive, para devolver ao controle da natureza o crescimento da população de rinocerontes evitando que ele se dê em proporções superiores ao equilíbrio ambiental.

rinoceronte

http://www.manchetometro.com.br/

 

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Imagina em agosto… (Ou Fujam pras colinas, Sininho tá aa solta! Ou será a Dilma?)


Que julho brabeira! Uma ruptura com a aura de lirismo que, habitualmente, cerca esse mês. Mas, caso você seu natalício seja em julho, não boicote este texto. Nada pessoal. Tampouco se você é fruto do mês cuja rima -convenhamos, paupérrima- é com desgosto, segundo o dito popularesco.

Mas, voltando ao tal julho, tá fácil não: mortes em série  na literatura brasileira (a Feira Literária do Céu deve estar fervendo), prisões de todo descabidas num brutal ato de intimidação antiprotestos no mais assustador estilo órfão-nostálgico da Ditadura, o massacre genocida em Gaza que já ceifou mais de oito centenas de vidas numa reedição grotescamente irônica de ódio belicosamente racista, justamente por parte de quem já foi Davi, mas hoje se faz Golias inclemente.

palestina

Este julho decididamente não tá fácil!

Há aqueles que tresloucadamente ainda incluiriam o “Mineiraço” (na tentativa de analogia com o termo Maracanazo, com o perdão aa língua alemã). Mas, claro que nem levo isso a sério, afinal, como já disse alhures, não me chateei nem um pouquinho com o 7 a 1. Muito menos vou fazer como certo caso de acefalia funcional que comparou o resultado futebolístico ao ataque dos aviões ao World Trade Center.

Tampouco, hei de incluir nas tragédias de julho a colocação do Mengão no Brasileirão, já que é meramente episódica. Agora, a volta do Brasileirão em si, bem que podia ser contabilizado aí. Depressão pós-Copa!

Ainda houve, neste mesmo julho, o ingresso da ditadura sangrenta de Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o que mancha essa iniciativa. Desnecessário, economicista, forçoso, deprimente! Como amante da causa lusófona, me envergonho profundamente.

sininho

A sanguinária Sininho livre! Todo cuidado é pouco!

E o avião derrubado, apinhado de especialistas em HIV?! Por muito menos, a 1ª Guerra Mundial se iniciou. Ao que parece, Vladimir, czar da próxima Copa do Mundo de futebol, está Putin mesmo. Há quem tenha acusado a Dilma por isso, já outros suspeitaram de Elisa Quadros, a Sininho, a mais perigosa e famigerada terrorista-anarco-satanista da história da América Latina. Quem garante são as fontes confiabilíssimas da Globo, juizado e promotoria autoinstituída do Estado do Rio de Janeiro, com acesso irrestrito a todos os segredos de justiça: um bebum que ficou sem saideira por causa dos black blocs, um primo do vizinho do porteiro do transeunte que passava pela Saens Peña no ato da final da Copa, um X9 delator maldito miserento anônimo com dor de corno e a mais respeitável das testemunhas, então anônimas, o presidente norte-americano Obama , com seu arborizadíssimo esquema de escutas que só não dá ouvidos aos gritos palestinos.

cachorrinhos

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O grande desastre aéreo de ontem (Jorge de Lima) [por falar em verdadeiros imortais]

Para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

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Na verdade, não há sequer provas concretas de que Dilma e Sininho sejam pessoas diferentes. O mais possível é que sejam, afinal Dilma & Sininho, ou vice-versa. O fato é que as duas jamais foram vistas juntas e, ao que tudo indica, são as grandes responsáveis por tudo o que há de mal. é só ver. Sarney, base de sustentação do governo Dilma, não morre, debochando de seus colegas literatos, imortais só em conotação. O mesmo Sarney é autor da emblemática obra da literatura brasileira intitulada “Marimbondos de Fogo”, uma vinculação óbvia aos planos malévolos de Sininho para pôr fim aa democracia e aa própria civilização ocidental.

Dentre tantos tormentos, atormentações e tormentas de julho, ao menos um fato salutar: os 75 anos duma das maiores inspirações contemporâneas. Um paladino de justiça e superação, em prol do bem comum. Um arguto combatente do Mal. 75 anos de Batman, sempre ao lado do povo!

batman- protestos

batman 75

Cidadão de bem, nada temamos! Estamos do lado direito (e como!). Nem Dilma nem Sininho, Deus é mais! Pela família! Contra o comunismo satanista-gayzista!

Mas, se for o Deus tal qual Suassuna o concebeu, danou-se pr’ocês, hein?! Ave, Suassuna! Do Sertão pra eternidade!

sininho dilmaDilma, inclusive, cínica e bizarramente, finge conivência com todas as ações arbitrárias perpetradas contra seu alter-ego Sininho e seus comparsas só pra não dar na pinta.

[Agradecimentos ao Luiz Constantino e ao Cláudio Barçante pela ideia conjunta de “fuga pras colinas” com o vídeo do Iron Maiden.]

P.S.: o perigosíssimo outro lado da moeda:

http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,traicao-amorosa-ajuda-policia-a-investigar-manifestantes-no-rio,1533578

P.S.2: muita vergonha alheia e desprezo, pela justiça e pela mídia. O sujeito em si, pra além de delator maldito, talvez seja um perturbado apenas: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

[Há um vídeo de pedido de perdão e declaração de amor aa Sininho rolando no youtube, mas me recuso a postá-lo aqui. É deprimente demais.]

P.S.3: Vale ler sobre isto, a quem desejar mais informações sobre o deprimente ingresso de Guiné Equatorial na CPLP: http://www.publico.pt/politica/noticia/a-memoria-deles-pode-ser-curta-a-minha-nao-1663865

 

 

 

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A copa na rua


Agora é oficial, está tendo Copa. Na minha rua, desde a semana passada, bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas sobre todas as cabeças não deixam dúvida. Ontem, dentro da melhor tradição comunitária bexiguenta teve churrasco, cerveja, telão, música e a vizinhança vestindo camiseta “ arrocha na Copa”. O Bexiga dispensa apresentação mas a Rocha, pra quem não sabe, é sua perfeita tradução. Aqui a boemia resiste misturando descendentes dos pioneiros quilombolas e dos artesãos italianos,cozinheiros nordestinos, bailarinos, cantores, atrizes, pintores de quadros e paredes, engenheiros, garçons, vendedores, contadores,advogados, estudantes, gringos de passagem e encalhados – ou seja- tem de tudo e mais um pouco. Nem mesmo a gentrificação do centro de São Paulo promovida pela ganância imobiliária descaracterizou-a. Enquanto nas ruas ao redor, casas caíram para dar lugar aos horrorosos edifícios que fazem a alegria e atestam os inexplicáveis orgulho e deselegância da classe media paulistana, na Rocha resistem os sobrados espaçosos dos artífices calabreses, os prédios de 2 e 3 andares dos empreiteiros portugueses dos anos 40 e 50. Não falta, diga-se a verdade, alguns exemplares do que há de mais feioso em matéria de verticalização. Espetos de concreto e vidros espelhados, fachadas com arremedos de varanda, ecos do famigerado estilo mediterrâneo modernoso reproduzindo na paisagem a arquitetura da mistureba social.E nem tente descobrir, bebendo nos bares autênticos copo-sujo, quais os assalariados de mil reais e os patrões com renda de vinte mil ao mês, aqui a ostentação não é bem vinda, A militância de esquerda congrega-se ao pastor da igreja pentecostal e faz mutirão de plantio de árvores. Criança anda de bicicleta e joga bola na calçada, os velhinhos vão ao parquinho jogar dominó, as velhinhas fazem ginástica na praça. É tudo junto e misturado, ninguém é de ninguém e todo mundo tem defeito – visto que é tudo gente. Aqui não vale o mimimi do Levy Strauss que disse que antes de ser civilização viramos ruína. Somos metamoforse ambulante e resistente, Caetano não é o tal e Raul Seixas nos representa.

A abertura da Copa foi só alegria. Vibração com a goleada em cima da coreógrafa belga, vergonha alheia do padrão FIFA, os gringos mais revoltados do que os artistas com a falta de noção de quem dispensou o expertise nacional em festa. Mas quem é que resiste à Aquarela do Brasil? Olha isso, cê tá chorando colega?  Ah, tá valendo gente, foda-se a abertura, o nosso negócio é gol. Trabalhados na adrelina, ficamos todos Marcelo sem perder a ternura: não era pra receber bem os estrangeiros ? Toma aí um gol de lambuja que aqui não tem miséria. Nem Galvão Bueno. A imagem foi padrão digital mas as caixas de som eram caseiras, quem não falava, tocava corneta ou soltava rojão. Querendo mudar de comentarista era só trocar de lugar. “ Pelamordedeus, que esse goleiro da Croácia é um gato, hem? Só o goleiro, minha filha ? Quequéesse puta time de gostosos, hem?”. Péeeeem. “ Vai Neymar!” “ Cala a boca, Galvão”. Péeeem. “ Quer guaraná, Tiaguinho?” Goooooooool ! Pow. Pow. “O jap é nosso ! “. Pow, pow “ Gol roubado o cacete, foi gol devolvido, esse aí é o mesmo fulano que nos roubou a taça, tá esquecido?”. “ Corre aí, moleque, que eu marquei quatro no bolão!” Péeeem. Goooooool. Pow.Pow. ” Os meninos vão amarelar, estão na Seleção, na Copa, ainda por cima, no Brasil?! Amarelam nada. Olha aqui, sabe o que eu fazia? Trazia o equilíbrio emocional deles com dois tapas na cara. Relaxa que isso o Felipão sabe fazer!!”. Goooooooool. Pow. Pow.“ Gente, cadê o Fred? O cara parece que não foi!!”. Péem, péem. “ Aí, Carlão, vem pegar seu espeto de liguiça porque já tá acabando, depois vai reclamar.”Péem, péem. “ Agora dá o apito logo de uma vez. Três a um está bom demais! “. Pow, pow.

Terminada a festa, cadeiras empilhadas, retiradas as escadas e vasos que bloqueavam o trânsito, as crianças recolhidas para tomar banho, antes de subir pra jantar  pergunto a um mano que manja dos paranauês do lado rico da Paulista – que fez da área Vip do Itaquerão seu poleiro.

– E aquele coro de vai tomar no c * , hem, que é que você achou ?

– Ah, isso aí é muito pó na cabeça, batizado ainda por cima, essa playboyzada não têm a manha nem de escolher fornecedor. – E deu uma gostosa gargalhada.

Pensei: menos mal Já estava planejando pedir desculpas ao Brasil, em nome dos paulistanos gente fina que conheço. Que nada têm a ver com esta São Paulo que deu demonstração de grosseria explícita ontem. Eles até nos representam mas são a minoria. A área vip estava cheia daquele tipo de gente que atropela ciclista e joga o braço no rio, gente que pega empreitada de construção na Av. Paulista e deixa os empregados sem condição digna nenhuma presos no alojamento, gente que privatiza metrô cujas obras fazem crateras que engolem caminhões e matam pedestres, gente que privatiza a água do Estado e esconde que está fazendo racionamento só por interesse eleitoreiro, gente que acha certo colocar fogo em favela porque não respeitam nem os miseráveis que os servem, gente que apoia operação de guerra da Polícia Militar contra 1800 famílias e a favor do Naji Hahas. A área vip, com seus ingressos de 1000 reais estava ocupada pela minoria que estuda em colégios com mensalidades que ultrapassam o dobro da média da renda mensal de 80% dos paulistanos mas não tem educação. É por causa delas que o Criolo disse que não havia amor em São Paulo. Mas é menos verdade. Eles são daquela parcela minúscula de donos de prédios mantidos fechados sem pagar impostos só para ganhar dinheiro na especulação – e para perpetuar isso o presidente da Fiesp entrou no STF e evitou a reforma do IPTU paulistano. Infelizmente são também os manda- chuva embora , por causa deles, provavelmente não haja copo d´água depois de outubro e estejamos, no momento, bebendo a água do fundo da represa, a chamada volume morto. Eles também são donos dos jormais e Tvs , sabem ? Por isso produzem muitas imagens do que seria São Paulo sendo apenas espelho da sua cara truculenta, grosseira, racista, machista, xenófoba, classista, mal humorada e desagradável.

Agora vocês já sabem porque a USP e todas as Universidades Paulistas estão em greve. A vida para quem tem educação e usa o cérebro está bem difícil em São Paulo. Com ou sem Copa.

 

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A Roma Antiga é aqui! E a Santa Inquisição também!


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Gladiadores em arenas. Diversão na ficção e na realidade. Cena de Spartacus.

A cultura do justiçamento e da barbárie sempre esteve de mãos dadas com a espetacularização da violência. Em Roma, os gladiadores lutavam nas arenas até que um deles se rendesse.  O imperador, então, ouvia o clamor do povo, fosse por misericórdia ou pela morte, e – eximindo-se da responsabilidade do ato – ordenava ao vencedor que o poupasse ou executasse. Nos intervalos entre as apresentações, podia-se ouvir o anúncio: “Agora, para que a diversão não pare, algumas pessoas serão degoladas!”.

Para manutenção da ordem pública – o mesmo que preservação do poder oligárquico -, várias pessoas foram sentenciadas à morte por execução ou suicídio na Antiga Roma. Mas nem precisamos ir tão longe no tempo e no espaço. Aqui mesmo no Brasil, os períodos em que se defendeu a necessidade de manter a ordem coincidiram com duas ditaduras: a do Estado Novo (1937-1945) e a do Golpe de 1964 (1964-1985), duas fases de recrudescimento da supressão de direitos e de desrespeito aos que ainda existiam constitucionalmente.

Com a abertura política no Brasil, puderam-se discutir aqui direitos humanos, sem que fosse necessária a clandestinidade. Por direitos humanos, ou melhor, “direitos fundamentais da pessoa humana”, entenda-se tudo o que resguarda a dignidade, aí incluídos o atendimento de necessidades básicas e de necessidades capazes de tornar a pessoa plenamente integrada à sociedade: alimentação, saúde, moradia, saneamento básico, proteção à vida, educação, igualdade, entre outras. Tal explicação se faz importante quando parcela da população, mal informada pelos meios de comunicação de mais ampla divulgação, digo distorção, repetem o eco de que direitos humanos são para proteger bandidos. Direitos humanos são para proteger pessoas, em especial, na relação vulnerável que estabelecem diante dos ataques dos agentes do Estado, não havendo distinção entre as que precisam ter sua dignidade resguardada,  tenham ou não cometido crimes.

Cabe lembrar que parte expressiva da mídia apoiou a atitude dos Justiceiros do Flamengo de acorrentarem pelo pescoço um adolescente de 15 anos, após ser agredido e despido, acusado de furto. O furto, no caso de crianças e adolescentes, é tipificado como ato infracional. Deve, então, o infrator cumprir uma das medidas sócio-educativas conforme definido pela autoridade competente, após processo judicial em que seja apurada sua participação. Claro que aqui cabem muitas discussões sobre as ditas ações sócio-educativas e as instituições responsáveis por elas, mas adio essas questões para outro momento.

O que me desperta a inquietação é a barbárie sete faces tipificada como modus operandi das “pessoas de bem”, seja in loco, seja no apoio ideológico e discursivo às ações violentas. Alguns dos comentários que li recentemente diziam mais ou menos o seguinte: 1) E daí que mataram esse tal de DG? Ele não era nenhum santo; 2) Bateram no moleque e o deixaram pelado preso a um poste? Ainda é pouco. Tinham que matar mesmo; 3) Pivete? Tinham que acabar com essa peste. Matar todos esses ratos; 4) Até quando, nós, cidadãos de bem, pagadores de impostos, vamos nos submeter aos crimes cometidos por essa gente? Na boa, não sou cristã, mas tive tal formação religiosa. Fico arrepiada. Chego a ouvir as pessoas gritando: crucifica-o, crucifica-o!!!

Fabiane Maria de Jesus, dona de casa de 33 anos foi espancada até a morte após ser identificada por populares como a protagonista de boato divulgado em página do facebook.  Acusação: sequestro de criança para a prática de magia negra.

Após o ocorrido, uma vizinha chegou a publicar comentário em que parabenizava os agressores por terem dado fim à mulher que, segundo ela, tinha problemas psicológicos.

Vejo nessa confluência de informações dados que se podem acrescentar à violência, já por si demais abjeta, contra a mulher assassinada. Não vou entrar no demérito da falta de provas, porque, como exposto antes, há autoridades competentes a quem cabe o julgamento de crimes e não à turba ensandecida e algoz.

Falo da questão religiosa e da questão de saúde. Para agravar a condição a que a vítima foi exposta, somam-se, ainda, o preconceito contra as religiões de matriz africana e a segregação desde muito criticada dos portadores de patologias psicológicas ou psiquiátricas.

E foi assim que a acusada de louca e feiticeira não escapou à Inquisição de São Paulo.

Onde sobra intolerância falta inteligência!

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Mais uma vez a arte tornando sensível a crueldade da vida e da morte. Arte digital de Alina Valebna.

 

 

 

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My Pepsi Cola é o poder: Valesca Popozuda e as galerinas


Devido a uma prova de filosofia aplicada em escola pública do Distrito Federal, Valesca Popozuda voltou a ocupar o noticiário.  Inquietante mesmo é saber que os críticos leigos da prova não questionaram a obviedade da resposta, mas o fato de a funkeira ter sido chamada de “pensadora contemporânea”.

 

 

prova de filosofia

Dá para errar essa questão?

 

Em entrevista à Band News, o professor responsável Antonio Kubitschek declarou que Valesca passa um conceito por meio da repercussão de sua música. “Se considerarmos uma tendência filosófica que diz que todo mundo pode ser um pensador, desde que consiga criar um conceito, eu acho que Valesca é sim uma pensadora. Se eu tivesse colocado Chico Buarque como grande pensador contemporâneo, não teria causado polêmica alguma”.

Nas letras das poucas músicas a que obtive acesso, é possível reconhecer a configuração de um eu-lírico belicoso e estratégico. Valesca divide as mulheres em duas categorias: as gostosas e as recalcadas – à segunda categoria, ela deseja “vida longa pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória”. Considera-se invejada por conseguir o que quer: um passaporte vip para o camarote, por exemplo. Não se furta a dizer-se sincera e corajosa: “bateu de frente é só tiro, porrada e bomba”.  Se há um rei, ela, sem dúvida, é sua rainha, mas em moldes talvez menos obtusos. Quem diria… Pelo menos, ela não divulgou ainda seus 10 mandamentos.

valeska rainha

Versão híbrida de Lady Gaga e Beyoncé

Em compensação, aponta como razão de seu sucesso (pasmem!) a sua genitália.  “Por ela o homem chora/ Por ela o homem gasta/ Por ela o homem mata/ Por ela o homem enlouquece/ Dá carro, apartamento, joias, roupa e mansão/Coloca silicone e faz lipoaspiração/ Implante no cabelo com rostinho de atriz/ Aumenta sua bunda pra você ficar feliz”.  Até me lembrei do artigo de Anderson Ulisses que afirma que as grandes guerras não são disputas de homens por poder, mas de homens pelo poder de atrair a maior diversidade de mulheres bonitas.  Segundo ele, “O  corpo da mulher, artigo de apreciação pública, tem preço e valor, tanto ao todo, como em suas partes: açouguização do ser”.

my pepsi

Dupla inusitada. Quem já ouviu Lana Del Rey vai saber o porquê.

A figura da mulher provocante, que usa o charme que tem para benefício próprio e do parceiro num acordo silencioso, me faz refletir sobre o que seria a felicidade e o que as pessoas estão dispostas a fazer para atingi-la. Mas isso fica para outro dia. Por ora, fica a referência a um padrão de beleza homogeneizado pelas academias, suplementos, cirurgias plásticas e salões de beleza.

Voltemos à questão da sedução, da provocação e da construção de dualidades.  A Folha de São Paulo publicou no dia 06/04/14 matéria sobre as “galerinas”,  garotas que ajudam a vender obras de arte nas galerias.

Caracterizadas preconceituosamente como “lindas, bem nascidas e bem vestidas”, o jornal ainda as compara a “bibelôs bem lustrados para atrair o olhar dos colecionadores” (de arte ou de mulheres?),  “item obrigatório  no acervo de qualquer galeria de arte” .

galerina

Julia Brito, galerina que falou muito sobre imagem, mas não proferiu nenhuma das frases contidas nesse texto.

Das falas das galerinas, podem-se extrair frases como :“É injusto, mas não tem jeito. Ser bonita faz diferença”; “Ser mulher abre outras portas. Você usa a sedução”; “[…] suas mulheres têm ciúmes da gente. Quando vem um casal, tem de ser um homem ou um gay que atende”.

Sim, Valesca não só cria um conceito de “beijinho no ombro”, como também retrata um modus operandi de mulheres em distintas classes sociais. E a considerar os vieses adotados e a meu ver tão semelhantes entre ela e as galerinas, resta-me crer que há muito ainda para ser modificado em termos de mentalidades.

Enquanto houver espaço para esses acordos silenciosos , seja na base do “eu pago e você chupa” ou “eu compro o quadro e você janta comigo” , haverá mulheres sendo encaradas como mercadorias associadas a produtos, seja um comercial de cerveja ou o Salão de Automóveis.

musa salao

Beldade contratada para um desses Salões de Automóvel

 

P.S.: Essas reflexões tiveram início no debate iniciado por postagem do colega de trabalho Juscelino Bezerra dos Santos.

 

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Ligações perigosas (ou O Reischstag é aqui!)


Um mesinho sem escrever por aqui e parece que tanta coisa rolou, hein?!

Claro que é preciso aqui render homenagem aa morte estúpida e altamente desnecessária do jornalista Santiago Andrade, solidarizando-se a sua família. Confesso que todos os relatos que vi foram bastante emocionantes, especialmente, na cobertura da própria Band. Um rubro-negro apaixonado apartado de tudo o que amava e dos que o amavam. Eu, que, recentemente, perdi uma pessoa querida numa morte também muitíssimo desnecessária, fiquei bem sensibilizado mesmo com o ocorrido. Na hora errada, no lugar errado? Mas, como se era esse seu trabalho? Um metro e meio aa frente e sua vida não seria ceifada? Já não importa…

Não é a primeira vez que um jornalista morre na cobertura de rua.  Em 2011, Gelson Domingos, cinegrafista, fora baleado numa operação do Bope. Utilizasse Gelson um colete mais forte, tal qual estivesse Santiago de capacete, ambas as mortes poderiam ser evitadas. As emissoras têm clara responsabilidade na exposição que fazem de seus profissionais, bastante desamparados nessas ações de confronto mais brutal.

Gelson não se tornou conhecido, assim como outros falecidos e feridos letalmente nos protestos. Infelizmente, a tragédia e a dor por de trás da barbaridade da morte de Santiago Andrade estão sendo sordidamente manipuladas para a criação dum mártir que resulte numa espécie de anti-Edson Luís, a serviço do aumento da repressão, do aval ao uso da brutalidade e, por fim, da criminalização do ato de protestar em si, garantindo a tranquilidade plena, ao curso dos estratosféricos lucros prometidos que nada têm a ver com benesses aa população. O que repousa abaixo de todo o discurso virulento da mídia nos últimos tempos nada mais é do que a garantia de terreno fértil aos negócios com que está consorciada, tanto para a Copa do Mundo, quanto para as Olimpíadas, em dois anos mais.

violencia- cortazar

Aliás, parabéns aa polícia pela eficiência em descobrir e apreender os responsáveis pelo falecimento do cinegrafista. Pena que seja uma eficiência tão seletiva.

E o que dizer da surreal- bem ao gosto do espírito que vem tomando conta do Rio em vários aspectos- tentativa de correlação com o deputado Marcelo Freixo? É pra rir! O ápice do antijornalismo investigativo, convenhamos. Aliás, também de trôpega de narrativa, né?

liagação com freixo

Confesso não entender bem a tentativa de ataque ao Freixo. Até onde entendo, a tônica de ação anarquista black bloc justamente exclui a vinculação partidária. Será que essa direita midiática é assim tão ignorante, inclusive historicamente? Como um veículo de comunicação que apoiou a ditadura militar confessamente se sente na autoridade de julgar e condenar desse jeito? Por muito menos, na Venezuela, a RCTV teve sua concessão suspensa e o grupo Clarín, apoiador da ditadura, na Argentina, teve suas atividades restritas. Já aqui no Brasil, a Rede Globo pratica o mais bárbaro e baixo antijornalismo, em defesa ferrenha de seus investimentos e tudo bem. Ah… mas, afinal, a emissora mostrou um beijo gay…

E assim seguem as perigosas ligações com Freixo…

Vivemos agora uma tentativa de Reischstag, aí sim, no lugar e hora errados. Da mesma forma que os nazistas incineraram o parlamento alemão para incriminar os comunistas e obtiveram êxito nisso, tenta-se a imputação duma farsa, no melhor estilo bufônico, para se inverter papeis. Quem luta por direitos e contra a violência passa a ser vítima de discurso incriminatório. E a violência das milícias há de ser vingada, ao que parece…

reichstag

O Reischstag, tal qual o Haiti, é aqui.

Tempos obscuros!

Aqui no blogue, temos vários textos que abordam nas mais diferentes óticas a temática black bloc, desde o gesto encobrir a cabeça com uma camisa ser proteção ao gás lacrimogêneo até os confrontos mais acirrados. De minha parte- e consensos não são bem-vindos- tenho bastante discordância tática com a ação black bloc, como não poderia deixar de se dar na ancestral divergência entre marxistas e anarquistas. Contudo, é preciso reconhecer que eles não são os inimigos. Esse papel cabe a quem está do outro lado, iniciando a violência para garantir os tais lucros. Acho lamentável que parte da esquerda não só não tenha essa clareza, como também faça questão de se pôr sob os holofotes para fazer coro com o discurso neste momento hegemônico e engendrado para a criminalização da própria perspectiva de luta social, mesmo que fora dos moldes black blocs.

Quanto ao novo parlamentar “implicado” com os black blocs, o Renato Cinco, por uma volumosa contribuição de R$ 300,00 aa ceia do OcupaCâmara, só tenho o seguinte a dizer, em meio a toda essa ridicularidade, pô, Cinco, todos esses anos e cê nunca me deu um panetonezinho, hein?!

Ah… quero minha inscrição no Bolsa-Protesto, com um cachê maiorzinho, né?

No horizonte enevoado em que vivemos, parece ter se encerrado o longo movimento de greve das nuvens. Tempo menos quente, para lidar com as nublações da sociedade. Ah, essa vida concreta… E ainda resta a dureza de tantas metáforas.

ligações perigosas

P.S.: como diria Zagallo, “Não vai ter Copa” tem 13 letras!

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