Política

Esquentando os tamborins para espantar a tristeza


Há mais patos entre o Planalto e a Paulista que aviões na lista pra cair sobre a cabeça dos otários mas pode anotar no seu diário, o país está pegando fogo devagar porque tem muita lenha pra queimar entretanto sua hora vai chegar, pequeno burguês de crediário. Não sou quem digo, é a História da qual não tem memória porque não gosta de livro, cinema, teatro, arte na rua, de fato eu sei, negócio dele é contar dinheiro, seu tesão é ir para o estrangeiro cantar rock, dar banana para a realidade que te dá ganas de morrer e nascer noutra parte. Mas não adianta latir porque a caravana passa, engole o choro que a vida te foi dada de graça e você joga no lixo por pirraça, por causa de pixo e ninharias. Não embarca nesta nau dos insensatos, vamos aos fatos. Tem 210 milhões de almas nesta bagaça, mais da metade viajando no porão, sem saneamento básico e sem condição de fazer frente à avalanche de sacanagem que vaza do esgoto da primeira classe. As costas já estão lanhadas, as mulheres já estão ferradas, e ainda assim reagem como podem. O B.O. sobrou pra nós, nobres colegas de classe laboral que não limpam latrina os do chamado trampo intelectual. O boletim é claro e a ocorrência é a seguinte.

O projeto do governo para o Brasil é nenhum . Este é o plano em pleno curso. É reativo, diz respeito apenas ao uso das riquezas naturais, incluídas nós, meros mortais sem patrimônio de vulto. Não temos muitos recursos mas vamos nos organizar como as formigas, na miúda. Não desanima, não faz cara sisuda, que a nossa sina foi traçada antes de nascermos. Colônia somos e quando o centro do sistema sente fome, é sempre assim, são nossas carnes que eles comem, são nossas veias que eles sangram, são nossas cabeças que eles pisam. Enxerga com os olhos de amanhã o horizonte e repara : ele não está pronto.

Quem não sambar com a Imperatriz, não vai perceber que Xingu está por um triz mas já mataram milhões e não extinguiram a raiz. Quem não sambar com a Vai Vai, com a roda que gira no Ilê e bate cabeça, não abre a roda pra saudar, nunca vai ver a bela vista do povo de Oxalá.

para fazer sucessso Romulo Fróes

Categorias: Cultura, Política, Reflexões, Sociedade, Verso & Prosa | 2 Comentários

A rede


 

rede3

Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

Categorias: Mídia, Política, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , | Deixe um comentário

Maio, mês das lutas


1336647257

Desde o final do século XIX, quando uma greve em Chicago pelas oito horas de trabalho diário desdobrou-se em um massacre contra trabalhadores e consequentes prisões e perseguições de líderes sindicais, o primeiro de maio tornou-se símbolo da necessária luta do trabalhador contra a exploração constante a que somos submetidos até hoje.

Já se disse que a carne em nossa mesa não vem da benevolência do açougueiro, mas de seu desejo por lucro. O interesse individual, sem intromissão estatal, levaria toda a sociedade a um tempo de paz, abundância e felicidade. Ninguém foi mais contrariado pelos fatos que o pobre Adam Smith.

Sua mão invisível rapidamente permitiu a exploração sem precedentes de trabalhadores, escravizados em doze, catorze e até dezesseis horas de trabalho sem direitos e recebedores de miseráveis soldos. Permitiu a formação trustes, cartéis e práticas de dumping vistas até os dias de hoje. A tal mão é invisível porque na maioria das vezes não existe mesmo.

Fôssemos guiados tão somente pela força dos interesses individuais, dadas as enormes assimetrias que o sistema jamais foi capaz (e que nem sequer teve inteção) de combater, não teríamos férias, 13º salário, licenças-doença ou maternidade entre tantos outros direitos, conquistados à base de suor e sangue, muito sangue.

É assombroso constatar em um 1º de maio do século XXI que trabalhadores ainda defendam os mecanismos de sua própria exploração e embarquem em uma onda estúpido-crítica que coloca os interesses da Fiesp como guardiães das conquistas dos trabalhadores.

Há pouco os conglomerados de telefonia que operam no país anunciaram seu interesse em limitar o acesso à internet, tornando-o mais caro e aumentando as assimetrias sociais e de aquisição de conhecimento que a ferramenta tecnológica oferece. Pensando em si e em seus lucros, não há mesmo benevolência, nem interesse de haver carne na mesa de todos.

Nessa hora, uma enxurrada de pseudo-liberais clamou pela intervenção estatal. Entretanto, não cansamos de dizer, temos um Estado a serviço do capital e, por isso, não foi de estranhar que o posicionamento da Anatel ratificasse os interesses dos barões das telecomunicações.

Esse é um problema real para os trabalhadores. Ao longo da história, os Estados intervencionistas na economia jamais atuaram no interesse da coletividade, senão funcionando como uma enorme empresa, de braços longos e fortes, impondo sua visão individual e restritiva de liberdades a toda uma sociedade. Financiamentos a perder de vista para industriais e financistas, falta de serviços públicos básicos para a sociedade.

Em outros casos, também abundantes na história, a cooptação de setores trabalhistas em prol de governos de conciliação geraram apenas medidas demagógicas, populistas e que em pouco atingiam as questões de fundo da relação de exploração existente no sistema. Acreditar que o capital pode ser humanizado e que as estruturas de dominação podem ser modificadas pelos mecanismos que os próprios exploradores criaram é de uma ingenuidade angustiante.

É necessário que a luta dos trabalhadores promova justiça social sem perder o norte da coletividade. Sem concessões aos falsos discursos, sem dar ouvidos às críticas que colocam os ganhos da população como culpados de uma crise que rende bilhões a financistas.

Querem imputar a todos que movem o país a culpa por crises e desmandos. Não aceitaremos. Assim, como já está mais do que claro que não há de aceitarem-se migalhas. O preço da conciliação, tal qual o da traição é alto demais.

A incessante luta pelas migalhas nos tira a fome do pão. E somos nós que o produzimos, somos nós que temos o direito a comê-lo. Longe das benevolências e dos interesses individuais, unidos façamos uma terra sem amos. Trabalhadores, o futuro está em nossas mãos. Sejamos corajosos para construir nossas utopias.

E tenhamos um feliz dia de luta.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Ruim com ela, pior sem ela


Amanhã as flores voltarão a crescer

Amanhã as flores voltarão a crescer

O domingo nasce alvissareiro. Afinal, hoje termina a corrupção no Brasil. Ou, por outro lado, o país reafirmará seu compromisso irrestrito com a democracia. No mundo das farsas, o conto de fadas está na mente de milhões de incautos. Tudo com ampla cobertura da mídia imparcial e responsável. Como há gente desinteressadamente preocupada com a nação! Como há dias melhores no futuro deste país!

Em pleno domingo, aqueles que não trabalham nem às segundas, nem às sextas reúnem-se pela preocupação coletiva e tentam dar à república uma solução de seus insolúveis problemas. Esse forte compromisso social é representado pelo impedimento do mandato da presidenta Dilma Roussef. Às ruas escolher um lado! Vamos celebrar a estupidez institucional.

Não há a menor dúvida de que o processo de impeachment é de um mau-caratismo sem tamanho. Quem o propõe não tem a menor legitimidade para fazê-lo, constrangendo qualquer conceito de ética e moralidade que se possa estabelecer. Evidencia-se uma luta pelo poder político da forma mais suja que a institucionalidade permite, com interesses particulares – especialmente em preservar suas corrupções – à frente de qualquer noção coletiva que a política possa representar.

Como sabemos, a legalidade é mero fetiche nas mãos dos interesses burgueses e não há o menor compromisso com alguma denúncia consistente ou mesmo motivação real para se levar a cabo um processo como esse. Denuncia-se a má gestão, a crise e uma série de desgovernos como fatos para um processo que nasce marcado pela vergonha. Nem mesmo os grandes barões internacionais do capital conseguiram comprar e defender as razões do golpe paraguaio que se quer dar.

É de se esperar, inclusive, que, caso haja qualquer problema com as contas do processo, o presidente da casa, impoluto defensor da moralidade, suspenda a votação ou coloque-a indefinidas vezes para repetir-se, até que o resultado seja aquele de seu agrado. Cada movimento como esse torna tudo mais instável e transforma em circo aquilo que o mundo esperava ser feito com discrição.

É fato que o capital internacional preocupa-se com os caminhos que o Brasil toma. Parece que não há grupo ou setor no país que seja capaz de implementar as medidas restritivas à população sem que haja uma enorme convulsão social. Ainda que todos as forças políticas nacionais acenem para sua capacidade de cumprir tais programas, não há quem apareça com um pingo de legitimidade para impô-las com um mínimo de aceitação. É uma sinuca de bico em que o capital necessita retirar direitos e aumentar a “austeridade”, mas deve manter o país governável para não prejudicar sua inserção na ciranda econômica mundial.

Hoje, o golpe paraguaio brasileiro já não é mais bem visto internacionalmente. Enxergam que houve exagero nos temperos pelo modo como foi assado o pato. A imprensa nacional virou chacota dos meios de comunicação mundial e já não goza de qualquer respeito por ninguém entre seus pares. O concerto que reafinaria a orquestra, de repente, transformou-se em uma ópera bufa, carnavalizada, que expôs a narrativa de uma mulher vítima de ladrões e malfeitores que querem retirá-la do poder. Nada pior do que uma história em que traidores saem vencedores e na qual se vitimiza a protagonista.

Do outro lado, um desesperado partido que se apega às velhas práticas que outrora já condenara e que briga a todo custo para se manter no poder, reafirmando-se como ainda capaz de aplicar o mesmo remédio amargo que seus opostiores alegam serem os únicos com capacidade para fazê-lo.

Indubitavelmente, o PT mostra apenas que tentou tornar-se um dos outros e aplicou, quando teve oportunidade, a cartilha de interesses dos poderosos, seja na relação com os movimentos sociais, seja na condução da política econômica. A cada passo para a direita – e olha que foi quase uma maratona percorrida pelo partido da estrela nessa direção! – mais próximo ficava do beco sem saída em que acabou se metendo. O intruso da festa não poderia mais escolher a música que embalava o baile.

Em 2002,  a carta aos brasileiros já anunciava a guinada que o PT assumia para ter nas mãos a presidência. Boa parte da esquerda esqueceu-se de seus princípios de luta e ajudou a construir a farsa das migalhas sociais em troca de um requintado sistema de exploração. Aos que denunciavam ou protestavam, a mesma truculência que tantos outros dispensaram.

Se o PT hoje sofre com a traição de seus aliados, sabe bem dimensionar a dor que infligiu quando ele próprio traiu a classe trabalhadora. Quem escolheu o caminho dos conchavos foi o próprio partido, que hoje tenta encontrar nas ruas alguma legitimidade para a única coisa que considera democrática no país: o resultado das eleições.

E é nessa lógica tosca, de lutar para manter migalhas e de fingir que democracia resume-se ao apertar de uma tecla verde, que milhões vão para as ruas gritar que não vai ter golpe. Do outro lado, armados com panelas, os outros milhões de ingênuos que acham que a corrupção é coisa da estrela e que bradam contra a perda de seus privilégios.

Desde 2013, a rua é o caminho. A serventia da casa, por assim dizer. Não para defender a institucionalidade que nada tem a nos oferecer senão sofrimento e restrição. Não para bradar por um conto de fadas que serve apenas aos interesses dos poderosos.

A luta está em nosso cotidiano. Categorias em greve, escolas ocupadas. Falta cair a ficha de mais gente. Boa, por sinal. Precisamos de unidade em um compromisso realmente de esquerda, de defesa dos direitos dos trabalhadores. Devemos exigir o pão e não aceitar mais as migalhas. Preciamos de conquistas. E só há vitória para quem luta. Ainda que com toda a luta, a situação pareça piorar por enquanto.

Amanhã, as pessoas não se abraçarão e entoarão cânticos unidas para comemorar o fim da corrupção ou a lição da democracia. As flores não se abrirão por conta do voto pelo povo que darão os nobres representantes de si mesmos no Congresso. Independentemente do que ocorra hoje é a luta o único caminho, pois os dois lados seguirão os rumos que não nos interessam. Por isso, não devemos recuar: se está ruim com nossa luta, será pior sem ela.

 

* Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.

* Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.

* Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.

* Referendo popular para todas as nomeações do STF.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Nosso jogo é outro


Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Democracia. Uma palavra repetida aos quatro cantos do país, por diversas correntes e com intenções completamente distintas. O “jogo democrático” que se desenrola na política nacional tem mais de jogo que de democrático, sem dúvidas. Por um lado, a tentativa espúria de um impeachment cujo objetivo é a ambição política pelo poder; por outro, a defesa insistente de uma legalidade insossa, que garante o vendido projeto de poder do governo.

Há muito pouco de democracia em nosso sistema político. Quase que se resume ao sazonal processo eleitoral, como se isso fosse realmente o ápice da participação. É, na verdade, um processo de representação distante, que coloca ideologias e programas de lado e força colaizões em nome de cargos e trocas de favores. As portas da corrupção – inerente ao próprio capital – escancaram-se diante do modelo republicano que se construiu. Mais ainda: esta é a forma necessária aos interesses do grande capital no país, não se tenha dúvida.

Por isso, há de se ir muito além da defesa de um sistema que não nos representa. Não há porque se defender a democracia representativa brasileira, que só serve de palavra de ordem quando nem mesmo seus idealizadores acreditam mais nela. As leis, não canso de afirmar, são mero fetiche para quem anseia o poder.

Porém, dentro da conjuntura atual, pode-se ir além nas palavras de ordem. É dever da esquerda a construção de um campo que se coloque como opção frente ao falso maniqueísmo que se apresenta. Sejamos claros: um lado quer o poder para aplicar um programa de derrotas aos trabalhadores apenas porque crê que o outro já não tem condições de fazê-lo, embora o PT sinalize a todo momento que quer a chance para aplicar este mesmo projeto.

Assim, não há lado para se escolher entre golpistas e estelionatários eleitorais. Se é para manter minimamente a cara republicana do país, há de se exigir muito mais. O mínimo seria uma lista como essa:

  1. Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.
  2. Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.
  3. Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.
  4. Referendo popular para todas as nomeações do STF.

Somente uma ampla reforma política e judiciária, cujo início se dê pelas propostas apresentadas, poderá transformar o que temos hoje em algo parecido com uma democracia. Precisamos preservar os direitos civis e humanos previstos na Carta de 88, mas devemos reorganizar a parte política e organizacional das instituições, além de retirar previlégios indevidos e excessivos (como a vitaliciedade dos juízes, por exemplo).

O fim dos cargos de vice no executivo, com previsão para novas eleições no caso de morte ou impedimento do mandatário, medidas que possibilitem o Executivo governar para evitar o presidencialismo de coalizão (o famoso “toma-lá-dá-cá) ou, se for essa a vontade popular, o empoderamento do Legislativo de vez, tornando o sistema mais próximo do parlamentarismo. A possibilidade de recall de governantes e legisladores e a previsão de plebiscitos e referendos para questões que afetem diretamente os direitos trabalhistas e as garantias individuais, esses são pontos mínimos que devem ser alvo de um amplo debate na sociedade.

Além disso, devem-se assegurar medidas contra a desigualdade econômica, com freios à acumulação excessiva de capitais na mão de poucos detentores dos meios de produção, limites para comprometimento das riquezas do país com o sistema financeiro, bem como a desoneração de produtos básicos de consumo da população.

Tudo isto deve estar em pauta nesse momento. Bem mais que a defesa do arremedo de sistema democrático que permite toda a sorte de arrochos e perseguições à classe trabalhadora. É necessário retomar as organizações sindicais e os movimentos sociais; desfazer seu aparelhamento e colocá-los na luta efetiva de conquista dos direitos, e não na defesa da manuteção da política de aparelhamento que nos levou a essa situação.

A briga pelas migalhas nos tira a fome do pão. E nossa briga tem de ser por mais, não por manter o que tem sido menos para todos. O impeachment é mera filigrana legal para a disputa insana de quem consegue nos prejudicar mais. Por isso, não há como compactuar com o jogo. Viremos o tabuleiro. Fora todo mundo! Eleições gerais sem participação de quem tenha mandato! Por uma Assembleia Constituinte popular e participativa!

Categorias: Política | 1 Comentário

Não vai ser golpe


fiespuño

O governo do PT acabou. Ruiu sobre suas próprias bases e é uma simples questão de tempo o seu fim. Não há, contudo, motivo para comemorações: a crise política e econômica, aliadas ao discurso de “herança maldita”, abrirá portas para medidas sufocantes para a classe trabalhadora.

Por outro lado, sempre é bom ressaltar, não há motivo algum para lamentações: o PT cai por suas próprias pernas, por sua incompetência em implementar todas as medidas necessárias ao grande capital e por sua traição ao fazer tantas concessões para aplicá-las.

Enquanto a economia mundial crescia, as políticas petistas foram extremamente úteis ao capital, endividando os trabalhadores e a máquina pública, trazendo altíssimos lucros a financistas e industriais, cooptando as lideranças sindicais e desmobilizando a luta da classe trabalhadora. O PT aprisionou a luta de classes nas instituições.

Entretanto, todos sabíamos que tudo aquilo que se oferecia como ganho social tinha prazo de validade, meros paliativos que não alteravam qualquer estrutura do sistema de exploração. Então, esse período passou, a crise chegou e as políticas conciliatórias e populistas passaram a não atender mais aos anseios de quem sustentava o partido no poder.

Marcham pelas ruas indecisos cordões. De um lado, as vias enchem-se de uma pequena-burguesia acéfala que repete o que a mídia lhe diz. A corrupção é o mote escolhido para agrupar a ingenuidade de muitos na porta da Fiesp, a instituição que quer o fim da CLT. O pato lhes representa de forma autêntica.

De outro, manifestantes saem para defender a “democracia” diante de um golpe. Ora, companheiros, o Estado democrático burguês e suas instituições nada têm de autêntico. Os princípios democráticos burgueses são apenas um fetiche da própria burguesia. A institucionalidade é sempre defendida com muito mais afinco pelos reformistas do que pelos próprios burgueses.

Lula e o PT mais uma vez apostaram no caminho institucional, nas alianças e concessões – alguém esperava algo diferente? Dilma cometeu suicídio politico ao nomear Lula ministro, claramente para fugir da perseguição política imposta pelo juiz Sérgio Moro, o grampeador geral da república.

O grande capital não respeita instituições. Mais: utiliza-se delas para legitimar suas vontades. Assim, o judiciário brasileiro passa por cima de qualquer legalidade, espetacularizando suas ações e fazendo crer que, para destruir o PT, vale qualquer coisa. Os fins justificam os meios, dizem os olhos de ódio em verde e amarelo que desfilam por aí.

Com as instituições tomadas pela necessidade de derrubar o governo, a mídia cumpre o papel de acelerar o processo, julgar e definir a pauta do país. A articulação entre mídia, Legislativo e Judiciário, todos a serviço do grande capital, não deixa dúvida sobre os próximos capítulos da novela rocambolesca, sobre a republiqueta em que se transformou o Brasil.

O governo – e muita gente de valor embarca nessa – agarra-se no resultado eleitoral para garantir sua legitimidade. Ora, Collor também teve mais votos na urna que Lula em 89, mas não foi impedimento para que as bandeiras vermelhas fossem agitadas pelo impeachment à época. Fora qualquer um é direito legítimo de todos, lembremo-nos.

O fato é que o PT é minoria no Congresso e na sociedade. Suas constantes traições aos trabalhadores, sua postura de capitulação sucessiva afastou-lhe de sua própria base eleitoral. A política econômica austera, contrariando suas promessas eleitorais fez o PT órfão de si mesmo. Hoje, paga o pato (olha ele aí de novo) por suas opções e corrupções.

Um golpe só ocorre quando uma minoria derruba um governo representativo da maioria. Quando ocorre o contrário, a maioria toma o governo da minoria, há revolução. E, nesse caso, estejam certos, não há nenhum dos dois. O governo não é maioria e tampouco há no Congresso ou nas organizações partidárias nenhuma representação da vontade desta maioria.

O circo montado serve à manutenção do status quo, presta-se à abertura de um caminho mais livre e justificado para a subtração de direitos e garantias dos trabalhadores. Tudo com a cara democrática, via legalidade.

É risível pensar em uma comissão de impeachment repleta de acusados de corrupção. É emblemático ver Paulo Maluf no processo de julgamento da presidenta! Se isso serve para desabonar a comissão, nunca é demais lembrar que o deputado será um defensor de Dilma e votará contra o impeachment. Foi isso que o PT se tornou. A guerrilheira contra a ditadura precisa da ajuda do candidato a presidência daquela mesma ditadura. O poder é absolutamente paradoxal.

Só há uma saída para os trabalhadores: organização e luta. Derrubar as lideranças sindicais acomodadas e cooptadas pela luta institucional. Organizar a resistência contra os ataques que surgirão em nome da gestão da crise. União para desfazer o que já foi feito e o que há de vir.

Porque o golpe, companheiros, esse já foi dado. Foi dado pelo PT ao trair os trabalhadores, ao garantir o lucro dos rentistas, ao desmantelar as representações sindicais, ao aprovar a lei antiterrorismo, ao reprimir violentamente os movimentos sociais, ao implantar a política econômica de Levy e companhia, ao buscar de todo jeito vender sua alma para quem nem sequer a queria comprar.

As portas foram abertas pelo próprio PT. O golpe já foi dado. Agora, eles já entraram em nosso jardim. Nossas flores já foram pisadas. Não adianta o arrependimento, não soa bem a falsidade de buscar agora uma imagem de esquerda. Trabalhadores, resistamos! Contra as instituições, contra a hegemonia partidária, contra o capital. Precisamos refundar um país.

Categorias: Política | 3 Comentários

A dança dos hipócritas


JDCOXINHA

A praça é do povo. O céu é do condor. E o momento, dos oportunistas. Dancinhas, slogans, panos verdes e amarelos, sorrisos de dentes brancos perfeitos que não escondem a espuma do ódio que lhes salta pelos cantos da boca. Tudo certo. No pensamento, o deserto. Tudo certo. Como dois e dois são cinco.

A oportunidade aos oportunistas foi dada pelo próprio PT. Que reage. Quer cair atirando. Como se já não estivesse tudo decidido, tudo formatado, sentenciado e acordado. Chora o PT sobre o leite que derramou. E acusa, como se isso lhe fizesse mais honesto. E grita, como se já não tivesse tido a oportunidade de fazer o que fala. E esperneia, movido apenas pelo medo de ser alijado do poder.

De fato tem razão quando diz que a justiça é parcial e persegue apenas alguns. Mas… Só agora, PT? E os 23 companheiros perseguidos há tanto tempo? Será que na década de noventa era diferente? Ou a prisão preventiva do Lula é mais absurda do que a prisão infinda do Rafael Braga?

Tem razão também quando diz que a Globo (metonímia disfêmica para mídia) é parcial e calhorda. Mas já não tinha sido em 89 contra o próprio PT? Não tem razão para reclamar. Afinal, foram os únicos a ter a oportunidade de modificar tal quadro. Porém, negaram-se. Estiveram ao lado da ordem, do capital e da possibilidade de eternização de um projeto de poder que nem próprio é.

Em nome disso, o PT assassinou a esquerda, roubando-nos a denominação e a imagem e deixando que a imprensa fizesse uma dicotomia que jamais existiu. Rá rá rá. Marx e Hegel. O Grouxo, talvez. De tanta estupidez – muitas vezes defendida por valorosos companheiros – fomos reduzidos a estereótipos pela propaganda oficial. Enterrados sobre o esterco dos discursos acéfalos. Isso sim é culpa do PT.

A política eterna de concessões ao capital e de contradições de si mesmo, aliadas à falta de vergonha na cara em negar o estereótipo “esquerdista” que lhe colavam, trouxeram a pior consequência de todas, aquela que hoje passeia com a camisa da CBF pelas ruas. O PT abriu as portas do tártaro ideológico e soltou um sem-número de bestas atávicas que gritam imbecilidades ao ar livre.

Não que não haja direitos da direita. Óbvio que há. A rua é para todos. Inclusive para a mais oportunista e assanhadinha cara da direita. Que, claro, não tem a menor vergonha em pegar carona com os amigos fascistas, intervencionistas ou quaisquer outros. A direita brasileira nunca teve caráter nem pudores.

E um batalhão da abobada classe média toma os espaços públicos para defender os interesses privados. Gritam contra a corrupção como um pano branco estendido sobre a lama. Como se a corrupção fosse exclusiva de um grupo ou partido. Como se sonegar impostos não fosse desviar dinheiro público da mesma forma. Como se realmente o problema fosse a corrupção.

Pois sim, não é a corrupção nosso mal! Não é apontar o dedo (sujo) para quem “roubou” que irá “limpar” o país. Isso justifica o surto idiota de “contra-ataque” petista: mostrar que Aécio e a tucanada são tão sujos quanto quaisquer outros. Ora, são todos tão porcos e encardidos quanto aqueles que chafurdam nas manifestações alopradas. Ou mesmo os que escrevem nos blogues, para não me excluir. Ou os que os leem, que seja.

Sim. A corrupção faz parte do sistema, seja lícita ou ilícita. 150% de juros bancários não é corrupção? Doação “legal” de milhões de reais para uma campanha política não é corrupção? A formação de um Congresso que só chega até ali por campanhas milionárias e comprometidas não é corrupção?

A falta de ética incomoda-me muito menos que a hipocrisia. Porque, entendendo tudo isso, posar como arauto da ética é vergonhoso, mesquinho, abjeto. A hipocrisia é mais odiável que qualquer outro defeito que tenham os que caminham sem rumo pelas ruas.

A festa da mídia está pronta. Os tolos já ocupam seus lugares estratégicos. Os oportunistas já manobram. Os ingênuos compartilham as idiotices. Os iludidos ainda defendem o indefensável. Correntes de cores diferentes prometem passear pelas ruas. Não pode haver simpatia com quaisquer delas.

O inimigo de meu inimigo não é necessariamente meu amigo, pelo contrário. Matemática não rima com política. Se o governo entreguista e corrupto é inimigo da classe trabalhadora, não serão os paneleiros a nos salvar. Olho vivo, pois eles venceram e o sinal está fechado para nós. Não podemos, em momento algum, imaginar que nas ruas estão os indignados, quando tão somente passeiam os indignos.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Ainda uma vez PT


images

 

Eu tinha jurado a mim mesmo não escrever mais sobre PT. Antes de tudo, porque fiquei farto de dialogar com a vesânia. Qualquer texto que você produza sobre o PT, contra ou a favor, será enxovalhado. Existe um limite para o que eu posso tolerar de insultos escritos com erros imperdoáveis de português. E, também, qualquer coisa que você escreva sobre o PT se tornará um “sucesso instantâneo”, pois será lido, compartilhado, debatido, insultado, aclamado… Creio que a segunda razão me cansou mais do que a primeira. Me recuso a obter os 15 minutos de fama que me cabem em cima de uma disputa da qual me sinto a cada dia mais distante (e justo eu, que sempre odiei aqueles “polemicistas” retardados e inúteis sem nada de importante para dizer, tipo Olavos, Mainardis e que-tais). Optei, com e sem trocadilho, pelo silêncio, já faz um tempo. Não é para menos.

No entanto, acompanhei com muita tristeza as comemorações, via jornais da Globo (coisa que também não fazia há muito), da direita histérica e alucinada em relação a tal prisão do Lula. O PT é indefensável, e eu esperei muito mais de um presidente vindo do movimento operário, mas os que querem tomar o lugar deles são muito piores. Comecei a escrever este texto na minha primeira sexta-feira em Brasília. A primeira sexta de uma vida indiscutivelmente nova. Não estava aqui nem há uma semana, mas parecia que uma década se passara. Foram dias de muitas intensidades. Enquanto William Waack se deleitava no Jornal da Globo, minha filha dormia no seu quarto. A mãe aproveitou que agora há um pai na cidade, me deixou cuidando da cria e foi a uma festa. Justo, após esses anos todos. Minha filha se encontrava no território dos sonhos. Sonhava, quem sabe, com algum personagem das historinhas que ela consome, com algum amiguinho da escola, ou com qualquer outra coisa mais etérea com que crianças de seis anos sonhem. Ela, pura e inocente, dormia o sono dos anjos e não desconfiava que o mundo estava desmoronando (em todos os sentidos). Pensei nela, olhei para o futuro e senti um ligeiro arrepio. Só as crianças e os tolos podem estar tranquilos em um momento como este. Olho para a frente e não vejo nada de bom saindo desse circo. E não demorou muito para que minhas expectativas ruins se concretizarem.

Previsivelmente, as viúvas de ditadura começaram a sair dos seus armários. Não que eu acredite que haja um golpe a vista. Quero crer que não há nenhum militar neste momento disposto a enlamear a própria farda em benefício do Aécio Neves. Mas é sempre preocupante, em um país com o nosso histórico, quando formadores de opinião começam a abertamente defender o imponderável.

No entanto, como poderia eu ir às ruas defender uma Dilma que se calou (no mínimo) frente ao arbítrio da polícia e dos desgovernos cariocas e fluminenses? Que deixou amigos meus (sim, amigos) sofrerem prisões completamente injustas e passar por processos farsescos à beira do kafkiano? Que conviveu (ou será “coniveu”) com as piores remoções desde os tempos em nada saudosos de ditadura? Que tipo de incentivo teria eu para defender tal governo, seja escrevendo, seja me manifestando? Reconhecer os avanços sociais não é defesa, por si só. Assim como reconhecer que a Lava a Jato foi uma operação política e partidariamente enviesada desde o seu começo, por valorizar certas delações em detrimento de outras, também não. A diferença de tratamento que o PT sofre por parte do judiciário e da imprensa é evidente para além de qualquer questionamento, o que só reforça o argumento clássico petista da perseguição política.

Apesar de avanços sociais inquestionáveis (a realidade nos traz dados, brigar com os dados é brigar com a realidade, e brigar com a realidade produz análises ruins), como disse Walace Cestari neste mesmo blog há poucos dias, em texto que assino embaixo e me deixou com pouco a acrescentar, essa luta já não é mais minha há muito tempo. Foi pela violência das suas polícias que fui arrastado, aos trancos e barrancos, para o lado da Vila Autódromo, da Aldeia Maracanã, da Favela da Telerj, da Favela do Metrô. Para o lado do Rafael Braga, da Sininho, da Eloisa Sammy e de tantos outros. Para o lado da Mariana Santos de cabeça quebrada por cassetetes (e de tantos outros e outras, midiativistas ou não) a mando imediato, é claro, do governo do estado, mas no mínimo com a conivência silenciosa de um governo federal para o qual não interessava em nada, naquela hora, o povo na rua. Então, não me culpem pela surdez em relação aos seus apelos. Culpem a si mesmos. Quem jogou a própria história no lixo foram vocês. Mas acreditar que o Brasil entrará para o reino da ética via Aécio Neves, ou que a faxina da corrupção virá do Eduardo Cunha, é acreditar que é possível limpar o chão com merda.

E aqui entramos no ponto nevrálgico do momento em que vivemos. Prefiro falar dele por meio de uma história na verdade muito triste. Um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros foi um veemente apoiador da ditadura militar: Nelson Rodrigues. Este é um fato que os seus biógrafos e admiradores tendem a minorar. Diz uma anedota da época que, uma vez, perguntaram ao Hélio Pellegrino se ele achava que Nelson aderiria aos militares, ao que ele teria respondido que seriam os próprios militares que adeririam ao Nelson Rodrigues, de tão reacionário que ele era. No entanto, a medida que o regime endureceu, o seu filho, Nelsinho, foi tomando uma direção bem diferente. Ele entrou para o MR-8 e, com o passar dos anos, foi subindo cada na hierarquia da organização, chegando a participar de uma ação em que um oficial do exército morreu. Nelson, por seu lado, começou a perceber os abusos do regime e passou a usar sua influência para ajudar pais a localizarem filhos. Também, às vezes, quando sabia da iminência da prisão de filho de algum conhecido, ligava para a família para avisar que aquela pessoa faria melhor em desaparecer (e rápido). Alguém, nesse período, chegou a se referir a ele como “agente duplo do bem”.

A acreditar na biografia de Ruy Castro, em um encontro com Médici (que também era um fanático por futebol e requisitara uma ida a um estádio com Nelson), Nelson pedira ao ditador que, caso seu filho (que àquela altura se tornara um “terrorista” conhecido e procurado) fosse preso, ele garantisse que os serviços de repressão “pegassem leve” com ele. O problema é que pouco depois Augusto Boal foi preso, e todo mundo soube que ele estava sendo barbaramente torturado no Dops de São Paulo. Nesse ponto, Nelson se indispôs com o regime, escrevendo em favor de Boal em um jornal carioca. E os militares não se esqueceram disso, assim como não esqueceram o oficial morto, quando capturaram Nelsinho em 1972. Justo Nelson, que ajudara a localizar os filhos de tantos, demorou mais de duas semanas para descobrir se o seu próprio estava vivo ou morto. Localizou-o em uma cela, em estado deplorável, com marcas evidentes de tortura, como os fêmures a mostra acima das canelas, de tantos chutes que levara. Mas o calvário estava mal começando. Depois disso, Nelson, cada vez mais velho e doente, só pode vê-lo em visitas a presídios, sempre diferentes, pois que ele era frequentemente transferido, parando inclusive em Ilha Grande. Foi condenado a mais de 70 anos de prisão (no fim, ficou “apenas” oito anos preso), e quando as discussões da Anistia, Nelsinho fez parte de um grupo de mais ou menos 20 presos políticos que o regime não queria liberar de jeito nenhum. Acabaram soltando-o, em um gesto de “generosidade” do regime, mais ou menos equivalente ao de Mussolini libertando um Gramsci doente e a poucos dias de morrer para que ele não falecesse no seu cárcere. Porém, tarde demais. A doença de Nelson evoluíra, e ele morreu no hospital delirando um dia após a libertação de Nelsinho. Nelson Rodrigues morria após quase vinte anos sem ver o filho em liberdade.

Moral da história: nunca apoie ditaduras, por mais reacionário e conservador que você seja, pois alguém sempre paga um preço alto por isso, e, às vezes, quem paga esse preço pode ser o seu próprio filho. Caro Merval Pereira, lembre-se do seu desafortunado colega antes de escrever a próxima coluna asneirenta no Globo sonhando acordado com golpes militares: ditaduras desenvolvem vida própria. Ditaduras não conhecem limites. E ditaduras bicam os olhos até mesmo dos seus mais fervorosos defensores.

Moral da história dois: precisamos de uma mudança de sistema, não de governo. A única maneira de me fazer ir a algum dos atos marcados para os próximos dias seria alguém colocar uma arma na cabeça da minha filha e dizer: “você tem que escolher: ou vai no ato contra a Dilma, ou no a favor da Dilma”. Nesse caso, eu me tornaria um fervoroso defensor da Dilma Rousseff, pois não gosto nem de estar no mesmo planeta que o pessoal do outro lado, quanto mais no mesmo ato. Como felizmente isso não vai acontecer, posso ir para a cozinha, passar meu café e acender meu cigarro com tranquilidade.

 

Fontes para Nelson:

O anjo pornográfico. Ruy Castro

Teatro do Pequeno Gesto. Folhetim especial Nelson Rodrigues. N. 29, 2010

A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari

 

 

 

 

 

 

Categorias: Política, Sociedade | 2 Comentários

O que é isso companheiro?


(FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA)

FOTO: RICARDO STUCKERT/INSTITUTO LULA

Assisti pela tevê a todo o espetáculo que fizeram contra você. Um aparato de guerra foi montado para lhe levar a depoimento. Uma festa para as cameras, uma delícia para as manchetes.

Vi também que isso despertou as reações apaixonadas das mais diversas tribos espectadoras da vida política nacional. E, como o que está na moda é o maniqueísmo superficial, milhões de pessoas escolheram um lado e centenas delas degladiaram-se diante de simbólicos cenários criados pelas operações policiais.

Ouvi seus brados irritados que afirmavam que a jararaca não estaria morta. Aplausos e gritos. Havia algo de passado que, de repente, parecia ter-lhe voltado aos olhos. Pena que já é tarde, pena que isso foi esquecido em tantos outros bons momentos. Pena que essa garra seja apenas uma defesa de si mesmo. Pena que você tenha virado um fantasma daquilo que já foi em um passado distante.

Seus milhões de apoiadores denunciam a parcialidade da Justiça. Com razão, inclusive. Mas, vamos nos lembrar que, se o PT não inventou a corrupção, tampouco a Justiça e a polícia são parciais apenas na atualidade. Contra os negros pobres da favela, isso é de longa data. Mas seus olhos estavam fechados para isso.

Há muito poderia ter-se investigado crimes de governos anteriores, mas isso não foi prioridade quando você sentou-se na cadeira. Naquele momento, você preferiu jogar o jogo que lhe parecia favorável. Aliás, o fato de que outros tenham sido corruptos não abona comportamento idêntico, apenas mostra a necessidade de afirmar que outros são tão sujos neste jogo quanto você e seu partido.

Até porque, sabemos bem disso, companheiro, a corrupção não é propriedade de qualquer sigla, mas uma necessidade imperiosa do sistema, que só funciona movido a favores, compensações e vantagens. Vocês estiveram à frente do processo, mas se recusaram a modificá-lo em suas estruturas. Preferiram se enturmar com o establishment. Hoje percebem que a festa em que achavam ser anfitriões não lhes considerava mais que penetras de ocasião.

Sabemos, por isso mesmo, companheiro, que toda essa balbúrdia não se trata de corrupção. As panelas não se batem por honestidade – se o fosse, eles as bateriam em suas próprias cabeças –, mas por ódio de classe, raça e pela manutenção de privilégios e status.

Nesse ponto, serei acusado pelos seus de hipócrita por reconhecer os “avanços sociais” que seu governo promoveu. Quero lembrar que intervencionismo estatal está longe de ser justiça social. Na crise, a inclusão dos trabalhadores no sistema alimentou principalmente financistas e industriais, sem ganhos significativos para a mudança dos pilares que sustentam a exploração.

Nenhuma luta ideológica foi posta em cena. Prova disso é que a classe C que ascendeu em seu governo hoje ajuda a bater panelas contra a sua própria estrela. Dizia Paulo Freire (odiado pela culta classe inculta) que, sem uma educação libertadora, o sonho do oprimido é virar opressor. Os discursos estão aí para provar a verdade da frase.

Vejo nas suas palavras o desejo de contar com os companheiros de luta. Mas, ora, porque agora, companheiro, depois de nos virar tantas vezes as costas? Por que não pedir ajuda a quem lhe eram bons e necessários apoiadores, como Maluf e Collor? Tá ruim, por que não chama a Kátia Abreu? Onde está Levy e o empresariado, esses aliados tão importantes do projeto nacional que você tentou levar adiante?

Quer dizer que você descobriu agora que a mídia é um câncer e que a Globo é manipuladora? Mas por que você resistiu tanto a fazer uma lei de mídias quando teve a chance? Por que naquele momento não ouviu a voz daqueles que hoje você convoca para estar a seu lado?

No momento em que os companheiros de siglas de luta precisaram dos seus para impedir a cláusula de barreira e manter a pouca voz que têm como ativa, você e os seus não estiveram a nosso lado, não nos deram chance, nem voz. Mas agora você nos quer defendendo nas ruas uma jararaca que tentou nos envenenar.

Agora você quer as ruas, companheiro? Mas não foram vocês que criminalizaram as manifestações? Ir às ruas, como, se somos vândalos e terroristas? Você pede para que esqueçamos a Força Nacional especialmente destinada a agredir-nos na Copa do Mundo? O silêncio que vinha do Planalto a cada massacre das polícias estaduais comandadas por seus aliados é inesquecível, acredite. E nossos tantos companheiros perseguidos, onde esteve a solidariedade para com eles?

Sei que é ilegal o constrangimento de sua condução coercitiva. Mas como vocês gostam das comparações, vamos lá: não é igualmente abusrda a prisão de alguém por porte de um desinfetante? Onde está o companheirismo para com Rafael Braga? Onde esteve a intervenção de apoio do governo aos companheiros vítimas de um processo kafikano que ainda se arrasta pela Justiça? Por que não mandar também esses processos serem enfiados em algum orifício judicial?

Desculpe, companheiro, mas essa sua briga já não é mais minha há muito tempo. Essa é a briga dos adminstradores do sistema. E, qualquer que seja o resultado, será sempre uma derrota. Neste jogo, só temos a perder. Nem que seja a ilusão que muitos tinham com relação a sua sigla.

Esta é a briga pelo chicote do feitor, não por nossa liberdade. E, companheiro, acredite, sua chicotada não doeu menos que a de nenhum outro.

Categorias: Política | Deixe um comentário

Civilização e barbárie


colagemtransversa

O mundo anda dividido e todo mundo dividindo-se ainda mais enquanto anda. As divisões ora servem para afirmar uma posição, ora revelam desejos de pura segregação. Nosso tempo nos revela menos humanos, menos capazes de uma empatia que, natural e saudavelmente, fizesse-nos ver no outro um pouco do que somos e, com ele, compartilhar seus sentimentos.

O século XXI surge com a cara do XVI. A sucessão de ocorrências bélicas e econômicas, ambas violentas e gananciosas, assustam tanto quanto a reação dos indivíduos que formam a sociedade. Porque, no final, é disso que tudo se trata. De gente.

Civilização é algo que só pode ser definido a partir da sociedade, a partir da admissão de que somos gregários, a partir do entendimento de que precisamos viver em conjunto. O tal “estado complexo de desenvolvimento da sociedade humana” deve ser ressignificado quando se percebe que a objetividade permite ao bárbaro passar-se por civilizado.

Civilização parece ter sido tomado como conceito particular, destinado a designar todo aquele me é igual e excluir, pela barbárie, tudo o que me é diferente.  Nessa visão, tudo o que é ocidental, portanto, é civilizado; o que lhe é diferente, rejeitado sob o rótulo do bárbaro. É símbolo da barbárie aquele que ousa não ser eu. Ou, pelo menos, que não tente esforçadamente o ser.

Os recentes ataques a Paris – terríveis, por sinal – colocam posições extremadas nas manchetes e nas redes sociais. Aliás, as redes sociais revelam o tamanho de nossa estupidez enquanto espécie, algo que desconhecíamos em um passado bem próximo.

Houve quem dissesse, de forma a legitimar qualquer ação de resposta ao ataque, que era a luta entre a barbárie e a civilização. Por outro lado, igualmente absurdo, houve quem comemorasse por conta do intervencionismo francês, de sua história imperialista e de seu “povo antipático”.

Além disso, surge uma verdadeira competição pela compaixão certa e apropriada, única válida e aceitável empatia:  compaixão nacional, compaixão racial, compaixão social. Não se pode mais nem sequer se compadecer sem arranjar uma meia dúzia de inimigos. Exclusões, sempre elas.

E é na exclusão que se encontra o exato senso da civilização. Não aquele de excluir quem nos é diferente, mas de conisderar bárbaro precisamente aquele que impede ou quer impedir a existência do outro. A civilização depende da sociedade e, assim, depende da heterogeneidade, da diversidade, da convivência. Civilidade exige certo grau de tolerância.

Tomado assim, percebemos que não é a condição social ou mesmo a educação formal que define os civilizados. O nazismo, por exemplo, surgiu na civilizada pátria de tantos filósofos, a Alemanha. Há tantos outros por aqui por perto, possuidores de diplomas e dinheiro, que pregam o direito que dizem ter em exigir que o outro não exista. E muitos deles são os mesmos que fazem as leis.

Neste sentido, não há como caracterizar os atendados a Paris como outra coisa senão bárbaros. Não há sequer espaço para, de alguma forma, buscar a explicação de que as ações imperialistas francesas causaram os ataques como reação a seu intervencionismo assassino.

Sem entrar na discussão sobre a validade do método do terrorismo como forma de ativismo, há de se diferenciar o estouro das bombas. Não houve a reação do oprimido contra o opressor, como se pode enxergar em ações na Palestina, na Irlanda, País Basco ou em incontáveis outros atos terroristas.

O Estado Islâmico não representa o oprimido, pelo contrário, é igualmente opressor. E mais violento. Subjuga populações que considera inferiores, sequestra e escraviza mulheres, executa cruelmente aqueles que não são fiéis à sua interpretação fundamentalista da religião.

Isso faz do grupo uma ameça enorme a todos nós que estamos excluídos de seu califado. Daí a necessária empatia com as vítimas de seus atos, seja na França, seja no Quênia, seja em Beirute. Ou mesmo em atos e palavras semelhantes que passeiam por nossas terras.

Pregar a não existência do outro é que define o bárbaro. Não nos faltam exemplos dessa barbárie aqui no país. Esse sentido amplo do conceito é necessário para que exercitemos nossa empatia com as vítimas mudas de várias partes do globo, inclusive do Brasil.

Por isso não há contradição alguma em solidarizar-se concomitantemente às vítimas francesas e mineiras por conta de tragédias diferentes. A Vale do Rio Doce não é bárbara a ponto de pregar o extermínio das populações vizinhas à sua operação. Mas, sem dúvida, participa, pela ganância que caracteriza sua atuação, de um sistema que preconiza a exclusão econômica de milhões de indivíduos.

O capitalismo é a “soft” barbárie, que coloca o lucro como preocupação exclusiva e ignora as consequências de sua obtenção. Tudo muito bem costurado socialmente, repleto de freios e contrapesos que distribuem migalhas como forma de manter a exclusão em um nível “aceitável”. É necessária a empatia aí também.

Empatia essa que não se constrói pela vítima negra da favela, pelo pobre que perde tudo na enxurrada de lama. E, é claro, a mídia contribui decisivamente para isso. É ela quem decide o tamanho da tragédia e faz com que mortos na França sejam mais importantes que mortos em uma universidade do Quênia. Ainda que o agente seja exatamente o mesmo.

A mídia, lembremos, não é bárbara. A palavra apropriada é outra. A mídia é canalha. São coisas distintas e não devem ser confundidas. O que não se deve, de forma alguma, é cair no maniqueísmo provocado pela indignação contra os detentores da informação: não ser solidário aos franceses para ser solidário aos quenianos ou às vítimas da Vale do Rio Doce.

Não podemos cair na disputa exclusivista de que só podemos ser solidários a uns. Este é o anverso da canalhice que estampa as folhas dos jornais! Como culpar o indivíduo que é bombardeado apenas pela mídia tradicional por sua empatia pelas vítimas de um grave – e sim, bárbaro – atentado terrorista?

Não precisamos de menos empatia, ao contrário: necessitamos de mais empatia. Carecemos ser solidários com aqueles que são vítimas da perseguição pela não existência. Quer vítimas do capital, quer vítimas do judiciário – como os companheiros perseguidos há muito em processos kafkianos, que lhe excluem a voz da sociedade ou que lhes mantém presos por porte de desinfetantes –, quer vítimas de grupos terroristas, fundamentalistas ou fascistas.

Não nos fechemos para nossa humanidade. Sejamos civilizados a ponto de ver no outro a necessária existência para nosso mundo. E rechacemos veementemente todo e qualquer pensamento que não permita nossa diversidade. Não façamos nossa própria barbárie para defender aquilo que só nós vemos como civilização.

Categorias: Política, Reflexões, Sociedade | 1 Comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: