Reflexões

A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.


Bandido tem de morrer e quanto antes melhor, menos despesa pra gente, menos lixo no mundo. Mas eles não tinham sido julgados, fulano… Se estava na cadeia é porque devia alguma coisa. E por acaso não tem bandido na polícia, fulano, não tem flagrante forjado, você sabe melhor que eu… Mas aqueles lá, não, era bandido mesmo… Assassino frio é bandido, né? É tudo bicho ruim, cortaram cabeça… É contra a lei cortar cabeça, né ? Não zoa, é contra lei e contra Deus, é gente muito ruim, não merece viver, tem que matar mesmo. Ok, me diga uma coisa,fulano, se você fosse polícia e pegasse um desses caras numa esquina, você matava? Claro que matava. Fulano, tenho uma péssima notícia para você. Para mim? Matar é contra a lei de Deus e dos homens, você é um bandido.

O cara é um paulistano mas podia ser potiguar ou goiano. Podia se curitibano ou soteropolitano. Como diz minha amiga, cearense nascida nos cafundós que trabalha como balconista mas quer mesmo é ser enfermeira, é tudo brasileiro e Deus é o mesmo. Seu irmão foi morto a tiros pelas costas por causa de uma discussão besta na beira do açude. O filho do dono do açude não foi, nem será preso. Meu amigo alagoano me explicou como funciona. O pai chega na delegacia e vai logo declarando. Foi mesmo o filho que fez a besteira mas não adianta prender, o moleque é ruim da cabeça, o pai está mandando ele embora por uns tempos. Acontece que o morto e o assassino também tinham uns acertos de contas, diz o pai, e diz mais, vai fazer um desagravo para a família. O filho dele fica por sua conta, pronto. Mas a minha amiga diz que o sobrinho, que assistiu a morte do pai aos 8 anos de idade, já prometeu. Assim que crescer vai caçar e matar o assassino. Ela mesma podia ter encomendado a morte por 300 reais mas não acredita que cadeia ou assassinato resolva alguma coisa. Tragédia grega.

O cara me deixou chateada. Por onde começar a falar de Justiça com alguém que pensa que o sinônimo de justiça é vingança? Se quer civilizar um homem comece pela sua avó, já dizia minha avó. Minha avó achava que a consciência é forjada apenas pela tradição e esta muda muito devagar.  No caso do cidadão que defende as chacinas produzidas pela PM não restaria chance alguma. Sua avó passou a vida debaixo do mandonismo do pai e do marido que lhe ensinaram a lei do cangaço, do mais forte, do “quem pode mais chora menos” e do “ isso aí só bala resolve”. Descende de gente que traz gravada na memória e na pele que a vida é uma coisa que tem por sentido a disputa, a porrada como meio e o triunfo como fim. Gente que acorda cedo e trabalha, vê televisão exausta, cria os filhos sonhando que eles não levem a mesma vida enfadonha, vai no estádio ver futebol e quando está no pico do tédio, da raiva ou do nojo, enche a cara para esquecer. Essa é sua Cultura. São eles dignos de viver porque honestos e cumpridores dos deveres, comem e dormem do seu trabalho suado, dentro da lei de Deus e dos homens, dentro da conformidade, isto é, da Cultura na qual foram criados. Vagabundo não merece viver mas a noção de vagabundo é fluida como água. Segundo sua Cultura os vencedores merecem tudo, inclusive o perdão pelos seus crimes e trapaças. Para os perdedores, na prática, resta a Lei do Cão e às vezes a sensação exasperante de fazer tudo dentro das regras e levar a pior. Mas neste caso a Cultura lhes autoriza, ao menos, sonhar com a vingança como prêmio de consolação. Confusamente reconhecem a instituição judiciária como luxo para rico ficar mais rico, uma instituição que, como os bandidos, ferra demais os pobres ao mesmo tempo que a querem como braço armado de suas vendetas pessoais. Neste ambiente cultural humanismo, direitos humanos e coisas que tais só podem mesmo ser entendidas como um pixo no muro – palavra inútil que emporcalha a paisagem, Neste ambiente cultural o assassinato de quem se odeia ou teme vai parecer tão natural como a crença em Deus. Não há falta de Cultura. Cultura fundada na violência  e na lei do mais forte também é Cultura. Os prazos das mudanças culturais operam na chave do tempo mítico, a família pode ajudar ou atrapalhar mas detém poder apenas até o limite da fragilidade cognitiva, material e emocional do indivíduo. A família reproduz mais ou menos a cultura de onde está inserida mas não tem mais poder que tudo que lhe é externo, para o bem e para o mal.   

Livre associação, acabei me lembrando de uns causos do meu tempo de educadora no terceiro setor. A expressão “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” que andava na boca dos adolescentes por causa do personagem Chaves, parece que saiu de moda. No começo dos anos 2000 fiquei confusa ao ver jovens de 14 anos aplicarem o bordão em improvisações de teatro enquanto me perguntava: mas eles leram a Orestéia ??! Foi assim que tomei o primeiro contato com o Chaves, o seriado mexicano exibido na TV brasileira. O bordão era dele.

Nesta época dava aulas para adolescentes em “situação de risco social” e ouvia como resposta à minha provocação, de como pensavam que seria uma tragédia grega transposta para os dias de hoje, muitas narrativas de suas vivências nas favelas e bairros populares. Com apenas uma década e meia de vida tinham se defrontado com violência radical, ao vivo e a cores, mais vezes que eu, em quase quatro décadas bem vividas.

Não sei se fui capaz de ensinar-lhes algo mas aprendi muito. Tinha aquele sentimento arrogante de pena ao ver que contavam com um repertório cultural escasso, não nego, mas acabava por me encantar com suas capacidades de criar o máximo com o mínimo disponível. Sua aversão às normas cultas da língua, percebia aos poucos, não era aversão, mas simples medo de nunca chegarem a dominá-las. Eu também não as domino, confessava. E descobria que bastava lhes convencer que era apenas um jogo para se tornarem exímios caçadores de palavras e brincantes do texto escrito. Eu, a princípio convicta de que os devia alimentar de saberes, ao final concluía que o melhor seria estar atenta e regar seu desenvolvimento com o que pudesse, já que podia fazer tão pouco por eles.

Na maioria dos casos o curso não era a sua primeira escolha ou de seus pais. A maioria ia parar lá ao não conseguirem inscrição nos cursos profissionalizantes. A instituição era vinculada a uma corporação, funcionava com verba de renúncia fiscal para projetos Culturais mas usava a maior parte da verba da alínea “Cultura” para ministrar cursos de treinamento para adolescentes candidatos potenciais aos seus postos de trabalho. Eram cursos profissionalizantes lato sensu, muito mais programas de treinamento de práticas e regras da própria empresa do que qualquer outra coisa. Quem iria questionar? Seus frequentadores e pais só enxergavam a possível vaga de emprego e como desejavam qualquer uma, por mais mal paga que fosse, qualquer coisa estava valendo como “educação”. Não conseguindo matrícula, os responsáveis ponderavam – melhor que nada, melhor que ficar na rua em má companhia ou em casa fazendo bobagem – vai lá fazer essa coisa de artes, meu filho.

Era previsto trabalharmos conteúdos de literatura e teatro. Mais difícil que a alfabetização incompleta – cansei de ver meninos de 14 anos que não conseguiam ler uma matéria de jornal, apesar de frequentarem a escola desde os 7 anos de idade – era lidar com as expectativas iniciais. Havia os que iam logo avisando serem avessos a “ aparecer”, afirmando orgulhosa disposição para o destino de trabalhadores “de verdade” e seu desprezo por “frescuras” e “loucuras” da “ arte”. Outros, no extremo oposto, se declaravam dispostos a tudo para alcançar a mais alta ambição artística que podiam conceber : aparecer na TV Globo. Eram adolescentes com fantasias juvenis, enfim.

Ótimo, eu lhes dizia, então temos por aqui gente disposta a trabalhar para organizar a bagunça daqueles ali quando enlouquecerem com frescuras, não ? Eles riam. Mas espero também, eu continuava, que estejam todos animados a lerem muitos textos e estudá-los. O espanto. Estudar teatro era isso ?

Eles achavam que, em arte, era tudo improviso e dom de Deus. E que a arte maior era o que passava na TV. Novelas e filmes eram melhor que teatro, não eram ? Poucos percebiam que os filmes estrangeiros na TV eram dublados. Muitos menos, ainda, se davam conta de quantos profissionais diferentes eram necessários para fazer uma televisão funcionar. Passado o choque das revelações vinha a tarefa de decepcioná-los gentilmente. Meu objetivo era menos ensinar-lhes “artes” que despertá-los para coisas interessantes, quem sabe até para maneiras mais férteis de empregar o tempo que dedicavam a assistir televisão.

Dava certo, às vezes. Muitos tomaram gosto pela leitura, outros a aprimoraram. Nos encontrávamos duas vezes por semana ao longo de apenas 4 meses mas, de leitura em leitura, jogo em jogo teatral, do exercício à conversa, vazava para dentro dos nossos jogos de faz -de -conta o real de seus cotidianos, repletos de problemas subjetivos e materiais. Todo o deficit de um sistema de ensino tão burocrático quanto indiferente aos afetos se revelando bem na minha frente. Tudo que a Cultura de um país excludente, fundado sobre a exploração dos mais fracos pelos mais fortes podia produzir, se reproduzindo sobre aqueles corpos e mentes. Muitas revelações me chocavam ainda mais pela constatação de que não havia espaço para eles pensarem e falarem sobre suas inquietações mais profundas em casa, na escola, na igreja ou na rua. Sobretudo os meninos, treinados desde o berço para aguentarem porrada sem reclamar e lutarem por um território onde pudessem mandar. Eis o sonho generalizado. Um espaço para mandar. Nem que fosse apenas uma casa ou um barraco com uma mulher dentro, que lhes daria filhos e a certeza de valer alguma coisa, pelo menos para eles, a família. Assim como as meninas que, em contraparte, sonhavam com o amor incondicional quando parissem. O amor romântico para muitas parecia, senão inacessível, improvável mas ter um bebê, isto sim, era a garantia do amor incondicional. Esses moloques são uns toscos, Professora. Meu pai fugiu quando minha mãe engravidou, Profe. Homem só quer aproveitar da gente, minha mãe sempre diz, o que a senhora acha?

Foi uma experiência cheia de momentos emocionantes e imprevisíveis. Guardo vivo na memória um princípio de cisma religioso que se instalou em uma das turmas. Já então alguns garotos e garotas acrescentavam, ao se apresentarem, a identificação religiosa – sem que lhes fosse perguntado. Foi assim que se identificou um grupo, sentados lado a lado em um canto da roda – evangélicos- o que provocou também a declaração de fé, no canto oposto, dos umbandistas. Havia troca de olhares desconfiados seguidos de risinhos e boquinhas torcidas desde o primeiro instante.Após a rodada de apresentação ficou claro que o desprezo era mútuo. Perguntei se sabiam o que era mito de origem. Não sabiam. Expliquei a diferença entre o tempo histórico e o tempo mítico. Gostaram da coisa. Um garoto sabia o princípio do Velho Testamento de cor, uma menina narrou um mito africano. E o mito de origem dos gregos, conheciam? Fomos ao mapa mundi procurar a Grécia. Desenhada uma linha do tempo em papel kraft na parede, a conversa fluiu. Os mitos gregos e africanos tinham muito mais a ver com o terror – gênero preferido por 9 entre 10 adolescentes naquela época. Um deus que paria filhos em suas próprias coxas e os devorava, UAU ! Um deus punido por seus pares por roubar o fogo e entregar aos homens, quéquéissso??? Existem, existiram, sim ou não, como eu dizia, eram questões de fé que não vinham ao caso mas como no campo da Cultura simpatia é quase amor… lá fomos ler trechos de tragédias clássicas e falar dos conflitos de amor, ódio, paixão, desrazão e orgulho que garantiram a sobrevivência destas antiquíssimas histórias.

O planejamento pedagógico vinha de cima mas fazíamos limonadas a vontade. Recordando estas aulas há uma década e meia, me peguei questionando como ou se ainda seriam possíveis. Pelo que ouço dos colegas professores, a necessidade de dar conta de conteúdos extensos e uma burocracia feroz fazem da sala de aula uma linha de montagem mais sem graça do que sempre. A onipresença dos celulares com seus infinitos bate-papos mais o acesso instantâneo à web em qualquer aparelho de baixo custo, talvez tenha esvaziado algo que servia de isca e encantamento para o trabalho pedagógico. Trechos de filmes, livros, fotos e gravuras, às vezes significavam o primeiro contato daqueles jovens com obras do chamado mundo das artes e da cultura. Fora dali tinham pouco ou nenhum acesso a ela. A curiosidade incitava, a dificuldade de acesso fisgava, a concentração não era desviada pela vibração de qualquer eletrônico. Agora, pelo que dizem, sabem que tudo está à mão e tudo pode ficar para depois. A procrastinação, esporte nacional de prestígio transversal a todas as classes sociais brasileiras, encontrou o solo mais fértil de sempre. Todas as coisas estão ao alcance de um clic, o que equivale a dizer que podem esperar até o fim do próximo chat, da próxima selfie, do próximo clipe, da próxima série, do próximo game. No tempo que melhor apetecer a cada um. A sociedade virtualizada tem precedência sobre a real, dizem meus colegas professores e divertir-se é a ordem. Diversão sem qualquer esforço. É só pesquisar o ranking das palavra mais consultadas nos motores de pesquisa para ver, me disseram. Especulo. A educação pode muito mas a Cultura, hem, a Cultura….

Recordando aqueles anos, me recordei também daqueles dias. Da atmosfera, dos modos, do cotidiano, do gênero de passatempo e lazeres mais ou menos comuns para quem podia ter algum lazer e passatempo. Íamos ao cinema, aos museus, ao teatro como sempre, jogar bilhar, houve uma moda de dardos ao alvo, já nos trancávamos em casa a ver pilhas de filmes emprestados da locadora mais próxima mas raramente sozinhos. Viajar era um prazer mas ficar em hotéis era muito caro. Os carros não eram mais os do tempo do Collor, os moços se empolgavam com os importados. Começavam a voltar à moda os sapatos bico fino e salto alto, os tênis de nova tecnologia passavam a substituir os sapatos esportivos. Os computadores entravam de vez para o cotidiano doméstico. Havia a internet discada, todo mundo tinha um endereço de email. Havia muitos novos pequenos hábitos de consumo agora. Consumir era igual a viver, a sociedade se confundia com o mercado então nada mais natural que o mercado cuidasse de tudo. Comprar planos de saúde, mandar os filhos à escola particular, instalar cercas eletrificadas nos muros, contratar seguranças uniformizados para as portarias, preferir a vida em condomínio a uma boa casa com jardim, de cara para a rua, era o novo normal. Em cidades minúsculas com terra baratíssima a classe média se enfiava em prédios mais altos que a igreja matriz bem ao lado. O desejo de viver dentro de uma bolha triunfava. Uma bolha nem tão apartada dos pobres assim, diga-se de passagem. Mas uma bolha que ao menos garantia saneamento básico, transporte e outros itens diferenciados. Que garantia diversões e sonhos diferenciados. Afinal, tínhamos sempre alguma chance real ou imaginária de escalar até uma daquelas outras bolhas sobre nossas cabeças. Era natural não debater como esta Cultura de apartheid era esquisita. Que apartheid? Responderia em uníssono a classe média não engajada na discussão política, caso alguém ousasse assim classificar aquele modo de vida tradicional, agora sedimentado de vez. Que horror. Temos é corrupção – sempre ela, essa maldita. Quantos haviam sido pegos com a boca na botija, tinha adiantado o quê ? O dinheiro era a medida de todas as coisas mais do que nunca. O fim das ilusões, o fim da História. O processo de judicialização da vida avançava como jamais, ser querelante virou moda. Law and order. Problema agora se resolve é na Justiça. Discute, não. Mete um processo. Quero a minha parte em dinheiro. Não discuto, não converso, não peço desculpa – pago – prefiro. Apartheid onde? Haveria os que garantiam que estávamos todos lascados, de qualquer modo, pobres e remediados. Mesmo nós, os que saídos das prestigiadas Universidades Públicas esperavam encontrar mais facilidades para triunfar no mercado de trabalho, olha aí, ainda tínhamos de ralar muito para encontrar meios de vida e renda. Não tínhamos de nos esforçar muito para vencer concursos públicos e alcançar os melhores salários, sendo filhos de pais sem capital ? E mesmo os mais abonados entre nós, não tinham de usar a rede de relações e até mesmo o patrimônio de pais e parentes, ao querer constituir negócio próprio? Quantos de nós, cansados de bater a cabeça ou avistando oportunidades melhores não tinham tomado o rumo do aeroporto? Temporária ou definitivamente – quem sabe. O Brasil era cansativo. Depois de toda aquela euforia da redemocratização, quanto tempo até conseguir frear a inflação… e a corrupção, sempre ela… e os pobres e miseráveis… há tanto tempo fazem parte da paisagem. Bem, estavam lá desde sempre, já eram parte da paisagem, não eram? Era difícil. Era preciso ter espiritualidade para suportar. A espiritualidade sempre foi parte importante da nossa Cultura, e como dizem todas as religiões, pobres sempre haverá entre vós . Para vencer a pobreza é preciso fé, comprometimento individual com seu crescimento. As Igrejas ajudam mas se a pessoa não tiver fé, ah, vai se abduzida por toda essa violência, não há dúvida. A religião agora era onipresente nas madrugadas da TV. E não é que ajudava os mais pobres? Claro que sim. Ajudava o sujeito a se organizar, parar de beber, convencia o marido a não bater na mulher, convencia a mulher que é melhor ser doce e carinhosa ao invés de uma megera rabugenta, mantinha os adolescentes ocupados, orando, trabalhando para a Igreja. A violência era o mal da década e tudo para fugir dela era válido. Alguns de nós até escorregavam no abuso de drogas para segurar a barra da violência simbólica. Era ridículo mas era válido. No cinema ou na TV a violência tinha virado tema preferencial, só superado pelos temas do adultério e do amor romântico. Quem ditava qual era a moda, qual era a onda, qual era a pauta, mostrava o drama da violência, a tragédia da violência, Hollywood fazia da violência uma coisa cult. A violência é, como a religião, uma coisa complicada. Há muitas explicações e muitos modos de ver o mesmo Deus que, afinal, é um só. Aqui, pelo menos não tinha violência religiosa. E nossa violência também nada tinha a ver com os salários ou o desemprego. Muito menos com o consumismo.

A cultura do consumismo se infiltrou cada vez mais pesadamente na vida cotidiana da classe média, a partir dos anos 90, e se encontrava reprimida para a maioria da população por simples falta de meios. A ideologia do indivíduo que é feliz porque consome e consome para ser feliz já era a parte estruturante do tecido da Cultura mas do sonho ao real, apenas uma minoria conseguia ir além do desejo. Então veio o governo Lula. De repente aqueles garotos e garotas com perspectivas nulas ou lentíssimas de melhoria da renda – e apenas se contassem com a sorte de famílias estruturadas ou, no mínimo, mães e pais decididos a tudo sacrificarem por eles – sentiram que podiam dar o salto e passar à próxima bolha. Trabalhando no telemarketing, podiam frequentar uma faculdade subsidiada no contra turno. Podiam sonhar, ao perceberem que alguns até mesmo teriam chance de chegar às bolhas mais altas, sempre inacessíveis aos filhos do trabalhador brasileiro da base da pirâmide. Os pais ganhavam um pouco melhor. De repente faltavam pedreiros e os mais habilidosos montavam equipes e passavam a trabalhar por conta. Euforia. Da faxina se saltava para a massagem estética, da recepção se podia chegar a envergar um terninho no tribunal. Virar doutor e doutora advogada, o sonho impossível agora ao alcance do carnê de crediário. Euforia. Pressa, muita pressa. Vamos virar o jogo. Afinal a empregada podia ter um armário na cozinha novinho, não aquele de portas caídas que a patroa dispensou, louça nova no banheiro, como aquelas que passou a vida limpando. Descobríamos que não estávamos fadados a viver em bolhas diferentes de consumo para sempre. Cada um com seus problemas mas todo muito podendo ter as coisas que sonhou. Éramos enfim o futuro que parecia ter desistido de chegar. Agora sim, ia chegar, glamuroso como uma viagem a Miami. Eufórico como uma liquidação da blackfriday.

Por estes anos, vivi algum tempo fora. O Brasil desabrochava para o mundo esfuziante como esta alegria que nos contaminava por dentro. Aquele fetiche brasuca de namorar gringos e gringas para conseguir um green card ia se invertendo. Moços do leste europeu me imploravam para lhes apresentar garotas brasileiras. Lindas ! E ainda por cima, vivendo no Brasil, ah, o Brasil… que sonho o Brasil. Vinha de visita e reparava – era só impressão ou a média da estatura da juventude negra e periférica tinha aumentado? Seria mais ingestão de proteínas ? Que a população como um todo tinha engordado saltava aos olhos.

O Lula não inventou, e nem poderia porque já estava inventada, a euforia consumista. Euforia consumista, aliás, é pleonasmo. Consumismo é comprar euforia em forma de cacarecos mais ou menos caros. Nem tudo que é consumo é euforia. Alguns objetos do desejo são úteis. Quem lava roupa no tanque ganha mais que euforia ou status ao comprar uma máquina de lavar. Quem nunca teve luz elétrica em casa ganha mais que uma lâmpada acesa. Quem viu a mãe morrer na sua frente porque não havia um carro para levá-la ao hospital, deseja mais do que conforto ao adquirir um automóvel.

O governo Lula  no aspecto cultural, colocou abaixo algumas catracas seletivas demais e os efeitos colaterais foram muitos. Uma certa “ mudança comportamental” dos pobres e muitos pobres não se explica apenas pela oportunidade de virar consumidores. A maioria não chegou nem sequer a virar consumista, não passaram de consumidores do básico – ao qual não tinham acesso ou garantia antes.  Ainda que fosse verdade ( o que discordo) que a chamada “ nova classe média” ou “ nova classe trabalhadora” tivesse se mostrado mais interessada em consumir do que outra coisa, alguém diga com sinceridade : quem forjou o modelo para ela se espelhar? A sociedade brasileira, nascida sob o signo da violência, tendo o Estado desde sempre como perpetrador das maiores violências, tem como eixo fundamental de sua Cultura da violência proteger de todas formas possíveis a acumulação de patrimônio privado. Este modela, desde a base nossa Cultura, da ética subjetiva ao conjunto das leis . Um acumulado de terras, casas, apartamentos, carros, dinheiro, moeda, ouro, pedras preciosas, ações, o acúmulo, qualquer acúmulo de riquezas, é o legado mais precioso que um pai pode deixar aos seus descendentes. O patrimônio e as posses trazem prestígio e alvará para quase tudo. Sobretudo se for ” riqueza velha” daquelas que nem se consegue investigar bem as origens. Prestígio intelectual, só se corroborado por um diploma materializado na parede e acompanhado de uma conta gorda no banco. Por acaso pode valer o quê uma pessoa sem dinheiro ? Se é artista talentoso, se é jogador habilidoso, se é descendente de famoso tem de ser rico, ora, cirurgião, engenheiro, arquiteto bom que não tem dinheiro, onde já se viu? A riqueza traz em si o condão de chancelar talentos, imaginar competências várias, mesmo onde eventualmente só haja resultado de sorte ou jogos de poder e violência. A Cultura também fez de nós uns generosos em elogios e afetos, pródigos mesmo. Nossa Cultura reproduz o amor pela prodigalidade em todos os setores da vida. Numa sociedade de classes com uma das piores distribuições de renda do planeta qualquer pessoa em situação de rua tem na ponta da língua a definição do Brasil : um país rico, riquíssimo ! O consumismo foi só a cereja do bolo.

O consumismo é autoritário. Ele instala a ordem do consumo como única meta, única saída, único valor. Consuma ou morra, tenha coisas ou inexista, ostente posses ou cubra-se de vergonha. E seu caráter autoritário só tende a agigantar-se em uma sociedade em que os meios de comunicação de massa estão em poder de meia dúzia de donos de empresas que, desta forma, ditam quais os objetos, os valores, gostos, músicas, ideias, notícias, personalidades tem valor de consumo – quais devem ser apreciadas e consumidas, quais devem ser descartadas. A mídia de massa  dita para a massa o que é Top no ranking e o quê não vale nada. Quem deve ser exaltado, quem pode ser humilhado. Na sempre monotônica e autoritária propagação do consumismo o topo da pirâmide de renda é a meta e a ordem primeira, em caso de impossibilidade de alcançá-la, é mimetizá-la. Almejar ter cara de rico, cabelo de rico, se vestir como rico, ter cacarecos de rico, são os mandamentos inscritos no regulamento do Partido Único da Mídia que o divulga dia e noite. Partido único que tem também o poder- político -de tornar invisível objetos, valores, gostos, músicas, ideias, notícias e pessoas que não alimentem a ideologia de triunfar e fazer fortuna. E não é possível estar desalinhado com o Partido Único da Mídia, no Brasil sem temer sanções tão violentas quanto aquelas que o Estado é capaz de produzir. Aos desafetos relevantes a Mídia de massa pode neutralizar partindo para a guerra frontal pela demonização, incitamento ao repúdio, pelo ridículo, pelo escárnio, pelo deboche, se a invisibilidade não bastar. O MST que o diga.

A mídia de massas no Brasil, tanto a eletrônica, quanto a escrita, graças a todas as manobras ilegais que fez ao longo dos últimos 30 anos para continuar operando de forma diversa do que diz a Constituição, conseguiu firmar-se como uma espécie de preposto do Olimpo. Seus donos que operam empresas que servem à venda de cacarecos em primeiro lugar, nos intervalos entre os filmes publicitários produzem anestésicos em forma de diversão. Mas também criam lendas, mitos e dramas a serviço da Cultura clássica brasileira. Elevam simples mortais à condição de semi-deuses. Como Zeus são capazes de acorrentar um Titã à beira do penhasco e ordenar que abutres lhe devorem o fígado, dia após dia, e ainda escarrar na cara de quem ouse levantar a voz para protestar que, com ou sem Prometeu, o Olimpo é que é o problema. Então não é surpresa que este Olimpo se empenhe em retratar Prometeu como um ladrão asqueroso. Omitindo inclusive que todos os Titãs gostavam muito dele antes dele ter roubado da pira dos deuses uma fagulha, além de ter trazido à cena Pandora que, como se viu, nada fez para evitar que a caixa preta fosse aberta. Francamente !

E é claro que nem dá pra começar a conversar de forma leve com quem, educado por esta mídia de massa e pela tradição cultural brasileira, grita :” bandido bom é bandido morto!”. Se eu fosse capaz de lhes explicar que os bandidos que vendem anestesia para as durezas de suas vidas, adestraram sua língua a dizer estas orações de maldizer – que não explicam nada e não resolvem nada – apenas para que eles possam continuar como prepostos dos deuses no Olimpo… seria eu mesma um Prometeu.

Mas sou uma reles mortal que rasteja lutando para não perder a fagulha que lhe cabe neste vale de trevas. Às vezes penso que felizes são os Titãs e deuses do Olimpo. Às vezes penso que são os abutres com sua dieta de fígado fresco. Às vezes penso que felizes são os urubus satisfeitos com sua dieta de carniça. Mas na maior parte do tempo penso que talvez sejamos apenas uma nação de gente triste encenando uma velha tragédia. E que, na tragédia brasileira, minha vocação para coriféia é que me desgraça. E como dói, às vezes, não ter um reles tábua onde encenar outras paixões. 

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Oresteia de Ésquilo

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Esquentando os tamborins para espantar a tristeza


Há mais patos entre o Planalto e a Paulista que aviões na lista pra cair sobre a cabeça dos otários mas pode anotar no seu diário, o país está pegando fogo devagar porque tem muita lenha pra queimar entretanto sua hora vai chegar, pequeno burguês de crediário. Não sou quem digo, é a História da qual não tem memória porque não gosta de livro, cinema, teatro, arte na rua, de fato eu sei, negócio dele é contar dinheiro, seu tesão é ir para o estrangeiro cantar rock, dar banana para a realidade que te dá ganas de morrer e nascer noutra parte. Mas não adianta latir porque a caravana passa, engole o choro que a vida te foi dada de graça e você joga no lixo por pirraça, por causa de pixo e ninharias. Não embarca nesta nau dos insensatos, vamos aos fatos. Tem 210 milhões de almas nesta bagaça, mais da metade viajando no porão, sem saneamento básico e sem condição de fazer frente à avalanche de sacanagem que vaza do esgoto da primeira classe. As costas já estão lanhadas, as mulheres já estão ferradas, e ainda assim reagem como podem. O B.O. sobrou pra nós, nobres colegas de classe laboral que não limpam latrina os do chamado trampo intelectual. O boletim é claro e a ocorrência é a seguinte.

O projeto do governo para o Brasil é nenhum . Este é o plano em pleno curso. É reativo, diz respeito apenas ao uso das riquezas naturais, incluídas nós, meros mortais sem patrimônio de vulto. Não temos muitos recursos mas vamos nos organizar como as formigas, na miúda. Não desanima, não faz cara sisuda, que a nossa sina foi traçada antes de nascermos. Colônia somos e quando o centro do sistema sente fome, é sempre assim, são nossas carnes que eles comem, são nossas veias que eles sangram, são nossas cabeças que eles pisam. Enxerga com os olhos de amanhã o horizonte e repara : ele não está pronto.

Quem não sambar com a Imperatriz, não vai perceber que Xingu está por um triz mas já mataram milhões e não extinguiram a raiz. Quem não sambar com a Vai Vai, com a roda que gira no Ilê e bate cabeça, não abre a roda pra saudar, nunca vai ver a bela vista do povo de Oxalá.

para fazer sucessso Romulo Fróes

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A rede


 

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Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

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Uma postagem à brasileira


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Olá, eu sou o Brasil. Fui desafiado a postar quinze fatos sobre mim que talvez vocês não conheçam. Aliás, mesmo depois que eu conte, vai sempre ter muita gente sem acreditar que são verdades. Mas, assim sou eu mesmo. Talvez um dia, quem sabe caia a ficha? Mas, vamos lá: Continuar lendo

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O que aconteceria se…


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Já passava das dez da noite. Peguei o maço de cigarros que estava no braço do sofá. Vazio. Passo a mão no controle remoto, pressiono o botão para pausar o filme. Um suspiro. Decido ir lá fora comprar cigarros.

Resignado, não me importo com a roupa que trajava, calço apenas os sapatos, recolho a carteira e as chaves. Em poucos instantes ganho a rua. Caminho pelas calçadas escuras, devido a falhas na iluminação pública. O bar que vende os cigarros fica a duas ruas de casa.

Corto caminho por uma pequena viela que liga ambas as vias. Na esquina, um grupo de rapazes compartilham um cigarro de maconha. Passo por eles, sem que nenhum nem sequer olhe para mim.

Um homem de barba espessa caminha em direção contrária a minha naquela pequena viela. Parece carregar uma garrafa que lembra alguma de cerveja, mas não dá para saber ao certo na penumbra que cai sobre o local. Continuo no mesmo passo, na mesma calçada. O homem que cruza meu caminho passa por mim sem me notar.

Viro a esquina, avisto o bar ao longe. Um boteco daqueles mais ordinários, típicos das esquinas da cidade. Algumas mesas na calçada mostram sorrisos e produzem certa gritaria que rompe o silêncio da noite. Uma churrasqueira metálica cria uma atmosfera nebulosa que brinda um ar misterioso ao botequim.

Subo o degrau de mármore que dá acesso ao bar, de azulejos até o teto. No centro da parede, de frente para a entrada, uma imagem de São Jorge em um pequeno altar iluminado por luzes de néon. O balcão, repleto de garrafas e copos, é ocupado por inúmeros homens.

Toco de leve o ombro de um deles, ele olha para mim. Faço um gesto de positivo, levantando o polegar com a mão direita fechada. Ele acena com a cabeça, chega para o lado e abre um espaço para que eu possa chegar ao balcão. Depois disso, volta-se aos amigos e continua sua conversa.

Chamo o balconista e lhe peço a marca dos cigarros. Em breves instantes, ele coloca o maço diante de mim e recolhe a nota de dez que deixei sobre o tampo de vidro. Recebo algumas moedas de troco, agradeço, viro as costas, vou embora.

No caminho de volta, passo por vários senhores que se reuniam para fechar a conta do bar. Peço licença a um deles para que eu possa passar e prontamente sou atendido, com um breve pedido de desculpas. Aceno com a cabeça e sigo meu caminho.

Abro o pacote de cigarros, retiro um deles e levo à boca. Um homem surge em minha frente e impede-me a passagem. Levanto meu olhar, o sujeito mostra-me um cigarro. Pergunta-me se tenho fogo. Tiro meu isqueiro, acendo-lhe o cigarro, aproveito e acendo o meu. Ele me agradece, balanço a cabeça positivamente em resposta, sigo novamente pelo caminho.

Cruzo com alguns catadores de latinhas que se aproximavam do bar. Eles baixam a cabeça, param em torno de um poste com uma lata de lixo e recolhem algumas latas que havia no chão. Sou invisível a eles. Dobro a esquina de minha rua.

Um homem com a camisa repousada no ombro vem atrás de mim. Parece mais rápido. Vou chegando ao portão de minha casa. O homem continua andando em passos firmes e ligeiros. Abro o portão. Ele passa por mim, mexendo em seu celular, sem prestar qualquer atenção à minha existência. Abro a porta de casa, sento-me no sofá. Aperto o botão do controle remoto e termino de ver o filme.

Essa história não tem conflito. Não tem clímax. Não tem preocupação com a indumentária dos personagens. Não tem medo. Não tem desconfiança dos transeuntes. Não tem assédio. Não tem violência. Não tem culpa, nem tem vítima. Mas essa história só é assim porque sou homem.

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Retrospectiva 2016


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JANEIRO

Crise na volta as aulas. Materiais escolares sobrem 35%.

Inflação acumulada do ano é a maior para o período desde 2014.

Chuvas deixam desabrigados no Sul do país.

Enchentes em São Paulo e Rio de Janeiro levam o caos às metrópoles.

Mais de dez mil casos registrados de dengue, zika e chycungunha no país.

Governo repassa verbas emergenciais para hopitais em crise.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo anuncia interesse em estrela de clube europeu.

 

FEVEREIRO

Carnaval da crise: saiba como reciclar a fantasia do ano passado.

Salgueiro contagia a Sapucaí. Beija-Flor e Mangueira estão na briga.

Ex-BBB mostra o que não deve na avenida.

Carnaval da Bahia ainda tem fôlego e dezoito trios desfilam até o final do mês.

Confusão na apuração do desfile das escolas de samba de SP deixa três feridos.

Chuvas deixam desabrigados e levam o caos ao Sul e Sudeste do País.

Escolas sem condições de funcionamento levam ao adiamento do início das aulas.

Governo estadual nega falta de verba para a educação.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Com goleada sobre Cabofriense, Flamengo embala na liderança do campeonato carioca.

 

MARÇO

Cunha nega manobra e Conselho de Ética tem de refazer parecer.

Aécio Neves afirma que Dilma não tem condições de governar.

Crise: dólar sobre e bolsas caem em clima de instabilidade política.

Cai consumo dos americanos e europeus. Mas isso não afeta o Brasil, dizem especialistas.

Morre cantor famoso em acidente. Fãs choram a perda: assista ao especial.

Professores da rede estadual entram em greve contra falta de condições de trabalho.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo dá adeus ao campeonato e se prepara para Brasileirão.

 

ABRIL

Câmara autoriza abertura de processo de impeachment contra Dilma.

PSDB propõe novas eleições.

PMDB chama oposição e propõe pacto pela governabilidade.

Apesar da crise, bolsas têm forte alta.

Senado rejeita abertura de impeachment.

PMDB diz que apoia governo até o final do mandato.

Crise: dólar sobe e incerteza agita os mercados.

Professores entram em confronto com a polícia. Dois policiais ficam feridos.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo tropeça na estreia, mas técnico vê evolução da equipe.

 

MAIO

STF retira Eduardo Cunha da presidência da Câmara

Eduardo Cunha é cassado pela Comissão de Ética da Câmara. Cabe recurso.

Ex-militar acusado de homofobia é inocentado pelo tribunal.

Professores presos em manifestação são condenados a seis anos e três meses.

Estados Unidos invade país do Oriente Médio contra o terrorismo.

Crise: comércio sofre com pior Dia das Mães desde 2014.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Manifestantes entram em confronto com a polícia.

 

JUNHO

Marcha pela família contra a corrupção reúne um zilhão de pessoas pelo Brasil.

Parlamentares apresentam novo pedido de impeachment da presidente.

Dólar cai e bolsas sobem depois de novo pedido de impeachment.

Lucro dos bancos é o maior dos últimos dez anos.

Crise: vendas do dia dos namorados teve recuo de 1,3% e é o pior da década.

Prefeito anuncia reajuste nas passagens de ônibus.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo vence três seguidas e sonha com Libertadores.

 

JULHO

Impostos impedem crescimento do país.

Crise: inflação dispara e é a maior desde o mês passado.

Ausência de chuvas é a vilã de crise hídrica em São Paulo. Governo nega racionamento.

Delator da Lava Jato insinua que Lula pode ter recebido alguma propina.

Parlamentares querem CPI da propina de Lula.

Ex-governador de Minas perde recurso e é condenado pela Justiça.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Demitido, técnico do Flamengo culpa diretoria pela crise.

 

AGOSTO

Crise: famílias reduzem consumo e setor de turismo amarga diminuição de vendas.

Delegações começam a chegar para as olimpíadas.

Votada isenção de impostos para banqueiros e empresários.

Esperança de medalhas, equipe de ginástica fala sobre superação.

Tabela de imposto de renda não sofre correção.

Brasil começa vencendo no torneio de futebol.

Aprovado aumento de impostos para a população mais pobre.

Brasil ganha a primeira medalha de ouro!

Terceirização é regulamentada no serviço público.

Heróis de esportes desconhecidos ganham medalhas para o Brasil.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Participação do Brasil é boa, mas medalhas ficam abaixo da meta.

 

SETEMBRO

Eleições para prefeito param agenda do Congresso.

Denúncia: prefeituras petistas envolvidas em escândalos de corrupção.

Prefeito de Bolinares do Norte, do PSDB, tem melhor avaliação entre os gestores.

PMDB afirma que eleições municipais não são prévias para 2018.

Debates esclarecem população em quem votar.

Crise: empresas fecham e desemprego atinge pior índice dos últimos dois anos.

Morre político famoso, ex-Arena, PFL e PP. “Um exemplo para todos nós”, diz Bolsonaro.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo e Corinthians fazem clássico para agitar o país.

 

OUTUBRO

Crise: o magro dia das crianças deixa presentes caros na prateleira.

Caetano defende direitos humanos e condena marcha “fascista”.

Constantino: Caetano é um idiota.

Denúncias de revista contra o PT podem alterar o rumo das eleições.

Colunistas criticam apoio de artistas a candidatos.

Atriz global sofre racismo na internet e ganha apoio de fãs e companheiros.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Veja quais as capitais terão segundo turno.

 

NOVEMBRO

PT em crise tem menor número de prefeituras desde os anos 90.

Conselho de ética investiga líder da bancada do PT.

Crise: crescimento baixo mostra cenário recessivo em 2017.

“Se economia não mudar o país quebra”, diz FHC em entrevista.

Guia de férias EUA 2017: o que comprar na Big Apple.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo espanta o risco de rebaixamento.

 

DEZEMBRO

Crise: lojistas esperam pior natal dos últimos tempos.

Recesso no Legislativo suspende abertura de CPI contra tucanos.

Previsão dos economistas é de recessão para 2017.

Saiba como pagar dívidas usando seu 13º salário.

Shoppings lotam na véspera do Natal. Saiba o que funciona e o que fecha.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

América Mineiro entra no STJD por escalação irregular e pode mudar o campeonato.

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Civilização e barbárie


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O mundo anda dividido e todo mundo dividindo-se ainda mais enquanto anda. As divisões ora servem para afirmar uma posição, ora revelam desejos de pura segregação. Nosso tempo nos revela menos humanos, menos capazes de uma empatia que, natural e saudavelmente, fizesse-nos ver no outro um pouco do que somos e, com ele, compartilhar seus sentimentos.

O século XXI surge com a cara do XVI. A sucessão de ocorrências bélicas e econômicas, ambas violentas e gananciosas, assustam tanto quanto a reação dos indivíduos que formam a sociedade. Porque, no final, é disso que tudo se trata. De gente.

Civilização é algo que só pode ser definido a partir da sociedade, a partir da admissão de que somos gregários, a partir do entendimento de que precisamos viver em conjunto. O tal “estado complexo de desenvolvimento da sociedade humana” deve ser ressignificado quando se percebe que a objetividade permite ao bárbaro passar-se por civilizado.

Civilização parece ter sido tomado como conceito particular, destinado a designar todo aquele me é igual e excluir, pela barbárie, tudo o que me é diferente.  Nessa visão, tudo o que é ocidental, portanto, é civilizado; o que lhe é diferente, rejeitado sob o rótulo do bárbaro. É símbolo da barbárie aquele que ousa não ser eu. Ou, pelo menos, que não tente esforçadamente o ser.

Os recentes ataques a Paris – terríveis, por sinal – colocam posições extremadas nas manchetes e nas redes sociais. Aliás, as redes sociais revelam o tamanho de nossa estupidez enquanto espécie, algo que desconhecíamos em um passado bem próximo.

Houve quem dissesse, de forma a legitimar qualquer ação de resposta ao ataque, que era a luta entre a barbárie e a civilização. Por outro lado, igualmente absurdo, houve quem comemorasse por conta do intervencionismo francês, de sua história imperialista e de seu “povo antipático”.

Além disso, surge uma verdadeira competição pela compaixão certa e apropriada, única válida e aceitável empatia:  compaixão nacional, compaixão racial, compaixão social. Não se pode mais nem sequer se compadecer sem arranjar uma meia dúzia de inimigos. Exclusões, sempre elas.

E é na exclusão que se encontra o exato senso da civilização. Não aquele de excluir quem nos é diferente, mas de conisderar bárbaro precisamente aquele que impede ou quer impedir a existência do outro. A civilização depende da sociedade e, assim, depende da heterogeneidade, da diversidade, da convivência. Civilidade exige certo grau de tolerância.

Tomado assim, percebemos que não é a condição social ou mesmo a educação formal que define os civilizados. O nazismo, por exemplo, surgiu na civilizada pátria de tantos filósofos, a Alemanha. Há tantos outros por aqui por perto, possuidores de diplomas e dinheiro, que pregam o direito que dizem ter em exigir que o outro não exista. E muitos deles são os mesmos que fazem as leis.

Neste sentido, não há como caracterizar os atendados a Paris como outra coisa senão bárbaros. Não há sequer espaço para, de alguma forma, buscar a explicação de que as ações imperialistas francesas causaram os ataques como reação a seu intervencionismo assassino.

Sem entrar na discussão sobre a validade do método do terrorismo como forma de ativismo, há de se diferenciar o estouro das bombas. Não houve a reação do oprimido contra o opressor, como se pode enxergar em ações na Palestina, na Irlanda, País Basco ou em incontáveis outros atos terroristas.

O Estado Islâmico não representa o oprimido, pelo contrário, é igualmente opressor. E mais violento. Subjuga populações que considera inferiores, sequestra e escraviza mulheres, executa cruelmente aqueles que não são fiéis à sua interpretação fundamentalista da religião.

Isso faz do grupo uma ameça enorme a todos nós que estamos excluídos de seu califado. Daí a necessária empatia com as vítimas de seus atos, seja na França, seja no Quênia, seja em Beirute. Ou mesmo em atos e palavras semelhantes que passeiam por nossas terras.

Pregar a não existência do outro é que define o bárbaro. Não nos faltam exemplos dessa barbárie aqui no país. Esse sentido amplo do conceito é necessário para que exercitemos nossa empatia com as vítimas mudas de várias partes do globo, inclusive do Brasil.

Por isso não há contradição alguma em solidarizar-se concomitantemente às vítimas francesas e mineiras por conta de tragédias diferentes. A Vale do Rio Doce não é bárbara a ponto de pregar o extermínio das populações vizinhas à sua operação. Mas, sem dúvida, participa, pela ganância que caracteriza sua atuação, de um sistema que preconiza a exclusão econômica de milhões de indivíduos.

O capitalismo é a “soft” barbárie, que coloca o lucro como preocupação exclusiva e ignora as consequências de sua obtenção. Tudo muito bem costurado socialmente, repleto de freios e contrapesos que distribuem migalhas como forma de manter a exclusão em um nível “aceitável”. É necessária a empatia aí também.

Empatia essa que não se constrói pela vítima negra da favela, pelo pobre que perde tudo na enxurrada de lama. E, é claro, a mídia contribui decisivamente para isso. É ela quem decide o tamanho da tragédia e faz com que mortos na França sejam mais importantes que mortos em uma universidade do Quênia. Ainda que o agente seja exatamente o mesmo.

A mídia, lembremos, não é bárbara. A palavra apropriada é outra. A mídia é canalha. São coisas distintas e não devem ser confundidas. O que não se deve, de forma alguma, é cair no maniqueísmo provocado pela indignação contra os detentores da informação: não ser solidário aos franceses para ser solidário aos quenianos ou às vítimas da Vale do Rio Doce.

Não podemos cair na disputa exclusivista de que só podemos ser solidários a uns. Este é o anverso da canalhice que estampa as folhas dos jornais! Como culpar o indivíduo que é bombardeado apenas pela mídia tradicional por sua empatia pelas vítimas de um grave – e sim, bárbaro – atentado terrorista?

Não precisamos de menos empatia, ao contrário: necessitamos de mais empatia. Carecemos ser solidários com aqueles que são vítimas da perseguição pela não existência. Quer vítimas do capital, quer vítimas do judiciário – como os companheiros perseguidos há muito em processos kafkianos, que lhe excluem a voz da sociedade ou que lhes mantém presos por porte de desinfetantes –, quer vítimas de grupos terroristas, fundamentalistas ou fascistas.

Não nos fechemos para nossa humanidade. Sejamos civilizados a ponto de ver no outro a necessária existência para nosso mundo. E rechacemos veementemente todo e qualquer pensamento que não permita nossa diversidade. Não façamos nossa própria barbárie para defender aquilo que só nós vemos como civilização.

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Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente


Da primeira vez,  eu devia ter uns 7, 8 anos. Ele, uns 17. Trabalhava no bar frequentado pelo meu pai. Tínhamos uma conta lá e eu precisava comprar muitas coisas fiado. Vivia me elogiando, dizendo o quanto eu era bonita e que iria se casar comigo. Eu dizia: mas eu não quero casar com você. Ele insistia. Dizia que o que importava era o que ele queria, que ia casar e ponto. Falava isso na frente de muita gente. Falava isso na frente do meu pai. Eu chorava. As pessoas em redor me chamavam de boba. Ele só estava brincando.

Aos 9, 10, o marido de uma tia tentou me beijar. Eu estava sentada no sofá da minha casa vendo sessão de desenho animado. Algum tempo depois contei para a minha avó. Ela implorou silêncio. Disse que meu pai matava um.

Episódios pontuais antes dos 13. Um homem num carro se aproximou. Pensei que queria informação. Estava se masturbando. Vi algo brilhar no banco do carona. Corri. Até hoje não sei se era uma arma, uma faca. Outra rua, outra história? Um homem num carro se aproximou. Pediu informação. Depois ofereceu carona, insistiu de novo, falou uma terceira. Corri. Com o tempo, isso se tornou um hábito quando carros paravam.

Na época da faculdade, voltei do shopping de táxi com alguns amigos e amigas. Rachando a conta, valia a pena. Eu ficaria por último. Achei pedante ficar no banco de trás. Fiquei ao lado do motorista. Ele perguntou se eu não queria fazer um programa com ele. Gelei. Me infantilizei: que isso, moço? Sou disso não. Ele insistiu. Perguntou minha idade. Menti: 17. Ah, tá. Dimenor. Dimenor dá problema. Antes de sair aos prantos, ouvi: viu como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Dava aula em Acari de manhã muito cedo. Seguia a R. Costa Lobo para pegar o metrô em Triagem. Rua deserta. Um cara passou a mão no meu peito. Não reagi.  Tive medo de apanhar.

E as cantadas grosseiras? As línguas obscenas antes da menarca, numa época em que tomar sorvete de casquinha era deixar o doce escorrer pelos dedos. Puxões de cabelo na balada, beliscões nos braços. Os comentários sobre meus seios, minha boca, minha bunda, minha vulva. A coragem de andar sozinha substituída pelo medo de andar no escuro.

Aos 9 anos, ouvi que era muito madura para minha idade. Aos 10, que era muito madura para minha idade. Aos 11, 12, 13, muito madura. Aos 14, muito…

No carro do amigo de uma amiga, acompanhado dela e do namorado, o cara passou a mão na minha perna quando trocava de marcha. Falei: não te dei essa intimidade. Que isso, benzinho? Não gostou?  Tinha aceitado a carona por insistência da amiga. Iríamos a uma festa de rua em Pilares ou Del Castilho. Ele estava desviando o caminho: Rodovia Washington Luís. A amiga aos beijos com o namorado. Ocupada demais para perceber. Falei com ela, reclamei com ele, que resolveu voltar. Eu estava sem grana. Na altura de Quintino, ela resolve descer para dormir na casa do namorado. Paralisei. Segui com ele. Me senti sem escolha. Na Marechal Rondon, imbicou o carro para um motel. Tentei abrir a porta e o vidro. Tudo travado. Gritei, esperneei. Ele deu meia volta e me levou para uma rua deserta. Eu chorava, gritava, dizia que queria ir embora. E ele continuava tentando me convencer a mudar de ideia. Por fim, me deixou em casa. Ouvi uma frase já conhecida: tá vendo como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Fonte: Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente , no blogue FeminAGEM.

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A quantas perdas você sobreviveu?


Os amigos de infância já não o são, os da adolescência a vida distanciou. Na maturidade, sobram grupos por quem se nutre imenso carinho, mas são demais as angústias dessa vida. Rastros revelam diferenças. No fundo, o caminho é solitário, único e inescapável.

Por quantas separações você já passou? Dor dilacerante, insônia, medo. A impressão de ter esquecido a porta aberta. Era preciso se proteger. Era preciso ter certeza de que estava seguro. Ninguém está. Nunca está. Nem com as trancas a postos.

A mãe doente, o pai doente, o hospital constante. Vai-não-vai-foi. Nem tempo de adeus. Teriam aprendido a conviver melhor se eles estivessem aqui. Mais uma ficção das relações. Mais uma forma de tentar exercitar o controle sobre o que não se controla.

O filho perdido, a dor, o vazio, os sonhos desfeitos. O filho nascido, o prazer e a dor, os sonhos… desfeitos? Trajetória ímpar. Pessoa única. Qualquer previsão será falha. Você amaria seu filho ou sua filha da mesma maneira se ele não torcesse para o seu time do coração, não gostasse do mesmo estilo musical que você, se ele subvertesse o que você concebe como ordem, se ele fosse dependente químico?

No fundo, em cada uma dessas situações, há um projeto não concluído, mas um projeto idealizado para a vida e também para a morte do outro. No segundo caso, o projeto é adiar tanto quanto impossível.

Tenho aprendido a renomear perdas. Se todas as transformações por que passamos ao longo da vida forem entendidas como perdas, seremos apenas portadores de um buraco jamais preenchido, fadados a uma vida de tristezas profundas.

Prefiro ficar com o verso camoniano adaptado do poema Sete anos de pastor: Mais faria se não fosse para tão longos amores tão curta a vida.

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Refração e reflexões


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Newton refletindo sobre a refração: seria um raio boticarizador?

A refração é um fenômeno físico que ocorre quando a luz se propaga para um meio diferente, alterando sua velocidade de propagação, decompondo-se em raios com comprimentos diferentes e percebidos como cores distintas. Além deste efeito físico, a refração tem como consequência provocar a reflexão.

A bandeira colorida, em remissão ao arco-íris, é símbolo da luta dos homossexuais pela igualdade de direitos civis, mas suas cores têm revelado o cinza de toda uma sociedade.

As reações diversas a uma simples campanha de manifestação de apoio por meio de um filtro que colore a foto do perfil do indivíduo na rede social demonstra claramente o quanto o pensamento crítico ainda engatinha em solo brasileiro.

Já disse em outra ocasião que o ódio está na moda e continua. A ingenuidade do pensar médio do senso comum nacional consegue apenas enxergar disputas e lados em qualquer circunstância. São sempre “eles contra nós” e vice-versa. É assim que opera a estupidez: o ódio tem nacionalidade, tem cor e tem orientação sexual. O ódio se faz com certo e errado e nada há entre um e outro.

Percebamos que não é nova essa ideia de adereçar-se física ou virtualmente em apoio a qualquer causa. Há diversas fitas coloridas de luta contra doenças graves, colocamos fitas vermelhas nos automóveis em apoio à greve de bombeiros, vestimos preto em solidariedade aos professores, saiu-se às ruas com a camisa da CBF para apoiar a investigação contra o PT, colocam-se bandeiras brasileiras em apoio à seleção de futebol, criam-se hashtags e camisas em suporte a estrelas do futebol vítimas de bananas arremessadas em campo, entre outras incontáveis manifestações similares.

Sobram críticas, como sempre sobraram. Mas, o que preocupa é que críticas são essas, pois, por muitas vezes, são discursos de ódio e de construção falaciosa que quer apenas salvaguardar um pensamento que não se tem coragem de assumir, buscando ridicularizar aqueles que, engajadamente ou não, declaram seu posicionamento.

A primeira crítica conservadora idiota é afirmar que uma campanha é estúpida por ser modinha. Ora, a sociedade de consumo que o conservadorismo-liberal defende é a sociedade das modinhas!

Moda é um conceito matemático aplicado aos estudos estatísticos que indica o elemento mais frequente em um conjunto, daí sua extensão aos outros ramos da vida.  Usar a internet, o Facebook, vestir-se com calça jeans e tênis, comer feijão com arroz,  assistir às novelas da Globo, ler a Veja, tudo isso está na moda em nossa sociedade. Criticar algo porque “virou moda” é principalmente estúpido quando se defende o meio de produção que depende da moda – a frequência de consumo – para existir.

Depois, o absurdo de comparar lutas diferentes tomadas como excludentes, típico do pensamento maniqueísta, em que só há dois lados: se você é a favor dos gays, logo é contra a luta pela fome. De onde as pessoas tiram isso? Como se consegue um raciocínio tão burro depois de milhões de anos de evolução da espécie?

O pior não é a falácia que se propõe, mas o fato de que é o próprio conservadorismo o primeiro a criticar qualquer ação contra a fome! Bolsa-Família? “Tem de ensinar a pescar, não dar o peixe”. É o conservadorismo que chama os famintos de vagabundos, que lhes culpa pela pobreza na medida em que têm muitos filhos e por aí vai. Argumentar desta forma revela apenas mau-caratismo.

Há aqueles que, por viés contrário, mas ainda na mesma modinha – aquela canção típica que se repete para a diversão –, vão criticar a manifestação porque é uma demonstração de submissão ao imperialismo ianque. “O Brasil já permite a união homossexual desde 2013 e ninguém falou nada!”

Como assim ninguém falou nada? Houve comemorações, textos, apoios, passeatas e casamentos conjuntos. Agora o “Ministério da Verdade” de Orwell quer alterar o passado e dizer que por aqui passou despercebido o fato? Inclusive as reações foram violentas, como o incêndio em um Centro de Tradições Gaúchas onde haveria uma celebração coletiva de união entre casais do mesmo sexo.

Novamente, a divisão é o que marca esse duplipensar. Não comemorou a decisão daqui, não pode comemorar a decisão lá fora. Ainda mais quando é algo dos Estados Unidos! É interessante a contradição de se perceber que não fazia uma semana, falar que os EUA eram um exemplo de democracia, que o preço do automóvel lá é mais baixo, que lá a justiça funciona, entre um monte de outras coisas era absolutamente válido. Mas agora não pode mais. Tá anotado.

Por outro lado, há aqueles que, insistindo na divisão rasa que enxerga apenas inimigo em qualquer outro lado, vão falar da submissão aos interesses imperialistas. São os “anti-EUA”. Como se os gays, os negros, os pobres e os trabalhadores estadunidenses, fossem nossos inimigos. O ódio divide. A liberdade unifica.

Não foram os homossexuais que conseguiram um direito. Fomos todos nós que ganhamos o direito a ser menos estúpidos, menos intolerantes, menos divisionistas. Não quero mais direitos para os gays, para os negros ou para quem quer que seja. Quero direitos para todos. Não tê-los iguais nos revela o quanto estamos ainda na era da imbecilidade.

Que o mundo tenha todas as cores, que não tenha fome, que não tenha países, que não tenha religião. Que as pessoas possam discutir com honestidade, que possam se assumir por conta do que pensam, que possam ir além de mudar suas fotos – não adianta colorir a foto e continuar fazendo a piada que ridiculariza o gay, né? – e que as contradições sejam construtivas.

Enfim, que refração das cores nos permita a reflexão, que nada mais é do que o fato de a luz voltar ao meio do qual proveio. Assim, refletir é olhar para nós mesmos e ver que temos o ruim que tanto acusamos no outro. Vociferamos contra tudo, queremos que tudo mude. Passemos à necessária reflexão inicial sobre mudar a nós mesmos, só assim daremos outras cores ao mundo. Ainda que isso já saibamos de cor.

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