Sociedade

Sobre aquilo que falávamos quando estávamos vivos


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Meu amor, eu tenho tanto, tanto a te dizer

Não vou lembrar aqui a pessoa incrível que você foi – isso todo mundo sabe

Não vou falar sobre a educação pública, na qual você sempre acreditou e pela qual lutou, com tenacidade e coerência. Eram tantas as tuas qualidades… Não vou falar da tua irritante paixão pelo Flamengo, que nunca disse nada para alguém que odeia futebol como eu. O futebol, aliás, era das poucas paixões que não tivemos em comum, creio. Pelo menos você também não tinha saco para aquelas corridas bobas de carrinhos. Fórmula 1 que chamam, eu acho. Por outro lado, o samba que eu amo, também não era muito a tua praia. Fazem 25 anos precisos que te conheci. Seriam as nossas bodas de prata, salvo engano. Um quarto de século, 25 anos me dão pouca inclinação para falar bobagens

 

Não, Anderson, eu preciso de outras coisas

Você mesmo uma vez me disse que eu era uma amizade que te definia

Então aqui vai: falar de você é descrever quem eu sou

Falar de mim é contar quem você foi

 

E pensar que a morte para nós foi engraçada, quer dizer, não, a morte nunca é engraçada

Mas conosco ela fez esforços circenses para se tornar uma piada cósmica de mau gosto

A quantidade de amigos que você perdeu, os que eu perdi, os que perdemos em comum

Tínhamos as nossas listas da morte e víamos com pavor e perplexidade o aumento dos nossos cemitérios

Não havia como este não seu um assunto recorrente entre nós

Mas a morte é uma senhora vetusta, porém doidivana e cheia de caprichos

Que por fim instalou você na minha lista

O que será que isso quer dizer?

Que eu sou o próximo?

Ou que eu viverei até mesmo muito mais do que gostaria?

 

Atravessamos esse Brasil de carona sem dinheiro sem cartão de banco em uma época em que celulares sequer existiam

Juntos, éramos tão fortes, não éramos?

Juntos, éramos tão corajosos

 

Você não imagina como a sua morte me pegou de surpresa

Eu estava em uma cidade-buraco poeirenta em fronteira de estados perdida no mapa como tantas que conhecemos

À noite, já sabendo da notícia e arrasado, acabei parando dentro de uma van cheia de gente bêbada

Com umas meninas muito doidas dançando em pé com o veículo em movimento de porta aberta – alguém aí falou em segurança no trânsito?

Acabei parando em um forró com pessoas que eu nunca havia visto na vida – é impressionante como mesmo depois de morto você continua me levando a lugares inacreditáveis – lembra do Piauí?

Isso é poder, meu amigo, isso é para poucos

 

Tenho certeza que você teria adorado essa história – quase ouço seu riso

Tenho certeza que, a título de cerimonial, você teria considerado tais exéquias bastante satisfatórias – mas você jamais saberá disso

Tenho certeza de que isso te comoveria mais do que rezas, orações e todo esse caralho a quatro com asa que nunca significou porra nenhuma nem para mim nem para você (“caralho a quatro com asa”, linda expressão que você cunhou em alguma reunião de CA perdida no tempo, lembra?)

Sim, me despedi de você da forma como vivemos mesmo:

Fechando bar depois de bar deixando para trás um lastro de latas de cerveja e guimbas de cigarro e muitas gargalhadas, sim, comemoramos as escassas vitórias e as não menos majestosas derrotas

 

 

É lindo ver como você era querido, são tantas homenagens, tanta gente devastada

Você conseguiu enlutar metade do Rio de Janeiro, bem literalmente

Agora andam te chamando de “gigante gentil”, acredita?

Se você tivesse recebido esse epiteto vivo, e fossem outros tempos, eu te zoaria de “gigante meio veado”, é certo – a troça de lado a lado sempre fez parte integrante da nossa relação – deem-me licença de eu caçoar do meu amigo morto, por favor

 

Mas agora, falando sério, por que você me deixou sozinho nessa escuridão?

Custava ter me esperado? Por que essa pressa? O que eu faço agora?

Eu sei que essa estúpida bola de barro não te mereceu, mas eu mereci

Para quem eu vou ligar a qualquer hora da madrugada?

Quem vai me ligar?

Você se manda assim de repente e cá fico eu nessa terra ainda mais triste e muito mais só

Você sabe muito bem que nesse mundo de injustiças

a felicidade é uma indecência a que nenhum dos dois nos permitimos

 

Pelo menos resta a honra de o ter chamado de amigo, o que já não é pouco,

Mas falta muito para preencher o vazio do teu abraço

Pelo menos você escapou do naufrágio do envelhecimento

 

Eu só sei que já sinto saudades imensas das nossas conversas que passavam do Egito para Marte em velocidade extraordinária

Eu só sei que em tempos de emburrecimento coletivo, de escolas sem partido, de candidatos fascistas

O brilho da tua inteligência se apagou em um céu desesperado por luzes

Eu só sei que não te verei mais aos sábados ou domingos

Eu não te verei mais na Tijuca, eu não te verei mais na lapa nem em Santa

Quem sabe no centro do rio, quem sabe no nada…

 

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Após uma longa e dolorosa pausa, me despeço de você, pela vez derradeira

Daqui a pouco tenho que sair, estou mudando de apartamento, tenho que pagar aparelho dental para filha

Enfim, esse prosaico cotidiano que alguma hora vai me engolir de novo e me tirar desse transe

O mesmo cotidiano que nos enlouquece, por paradoxo, também nos salva do horror

Você está sendo enterrado hoje, e eu nem poderei estar com você, porque estou longe, no coração do poder desse país amaldiçoado que te tratou tão mal, por ser negro, por ser grande, por ser delicado, por ser militante

Não se perde alguém como você impunemente

Eu queria ter te dito muitas dessas coisas enquanto você estava vivo. Morto, nada disso te ajuda

Que fique pelo menos essa lição para os vivos: a vida passa como um rato na sala. Respeite quem te respeita, ame quem te ama e entregue o resto para o diabo porque ele sabe o que fazer

 

 

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Dia de honrar as memórias de luta


A menina, aos 4 anos de idade, era um modelo de criança obediente. Obediente, mesmo, um doce! A mãe nunca cansou de testemunhar. Eram tempos de disciplina rigorosa e crença nas virtudes do castigo físico mas a menina nunca tomou uma palmada, que se lembre. Sim, a mãe dizia, era sensível demais, isso era. Desde bebê chorava muito mas não se podia reclamar de mais nada. Não lembrava sequer de lhe mostrar o chinelo. A menina não precisava de ameaças. Era um modelo de obediência e doçura.

Então aconteceu o inesperado. A mãe teve de sair e deixou a menina sob cuidados da empregada da casa do avós. Antes olhou-a nos olhos, como sempre fazia e disse : ” Não posso te levar mas eu volto antes de anoitecer. Na hora do seu banho estarei aqui.” A menina passou a tarde brincando com a moça, de quem gostava muito, aliás. No final da tarde, a avó resolveu adiantar o expediente e mandou colocar a menina no banho. A moça tentou mas a menina, delicada, informou-lhe. Não posso, tenho de esperar minha mãe. A avó explicou que na ausência da mãe era ela que mandava mas a menina repetiu. Não vou.

A avó mandou a moça levar a menina para o andar de cima do sobrado, brincar no quarto de costuras, bem ao lado do banheiro. Lá tentaram convencer a menina que era preciso tomar um banho para vestir uma blusa nova, mais bonita. Nada feito. Chamaram a tia. Mais do mesmo. Perderam a paciência. Abraçaram a menina ignorando protestos e suas tentativas de escapar do colo. Mostraram a banheira de louça, a opção entre a ducha e a imersão, ofereceram perfume. Não, teimou a menina, não vou. Resolveram tirar suas roupas de qualquer jeito e seus gritos ecoaram nas paredes. O estardalhaço trouxe o avô até a porta, camisa social e gravata como sempre, mãos finas, gestos controlados, fala pausada. O mesmo homem que retirava do pesado cofre do escritório balas e pirulitos que distribuía com um sorriso de satisfação mas que com um simples olhar fazia os pais das crianças se calarem.

As mulheres já haviam desistido de forçar a menina ao banho e tornavam a vesti-la quando o avô veio saber o que se passava. Três mulheres para dar banho em uma menina e não conseguem. Zombou. Ordenou que fizessem o que tinha de ser feito. Recomeçaram a operação, recomeçou a gritaria. A menina agora se debatia desesperada, ensurdecida pelos próprios gritos. O avô ameaçou. Sabe aquela régua de madeira do escritório? É para corrigir criança desobediente. A menina repetiu. Não quero, não vou. Vá buscar a régua, moça. A moça foi, com lágrimas nos olhos, a menina viu. A régua foi trazida e sacudida frente ao rosto da menina, enquanto as mulheres tornavam a despi-la entre pontapés e socos que não conseguiam conter. Mergulhada na água com sabão deslizava, sem deixar de chutar e gritar. O avô pediu que abrissem passagem e segurando a menina por um braço, desceu uma pancada certeira na bunda. A menina parou de gritar. Olhou nos olhos do avô, como sempre fazia, e tentou retirar a régua de sua mão. Tomou mais uma pancada, e outra e outra, e outra, sem deixar de chutar e espalmar a água da banheira tentando acertar nos olhos do avô. Quase sufocava no próprio choro, mas com as mãos imobilizadas, ainda tentava morder a mão que a espancava. Não demorou tanto assim para o avô parar e retroceder, assustado. Nunca antes alguém tinha visto o avô assim, testemunharam mais tarde as mulheres. Assustado. Mandou que vestissem a menina. A moça abraçou a menina e depois secou seu corpo, molhando o próprio rosto com lágrimas.

Não demorou muito e a mãe chegou. O avô, entre perplexo e envergonhado, justificou à mãe os vergões na bunda da menina: ela parecia endemoniada . A mãe não estava contente, a menina sabia ler o rosto da mãe contrariado mas a ouviu dizer que não tinha importância. Entendia as razões do avô mas entendia também as da menina. Ela era obediente. Não, disse o avô. Ela é determinada. Tem opinião. Ela tem caráter. 

E foi assim que a menina passou a contar com atenção especial do avô. E foi assim que a menina aprendeu que a Justiça não é algo natural e que a única luta que se perde é aquela que se abandona.

Hoje, 31 de março de 2017, haverá manifestações contra a terceirização e o fim da previdência social brasileira que, se concretizadas, jogariam no lixo séculos de lutas dos trabalhadores por mais justiça social. Seria uma grave injustiça com a memória de todos que lutaram e de todos que morreram pelo direito dos trabalhadores terem uma vida digna das riquezas acumuladas pelo trabalho humano, que estas medidas se concretizassem.

A riqueza acumulada pelo trabalho de séculos, geração após geração de seres humanos não pode servir para proporcionar luxo a 1% dos seres humanos e tormento sem fim para os 99% .  Este país, cheio de riquezas naturais e patrimônios construídos pelo trabalho de gerações e mais gerações de escravos ou quase escravos, não pode mais ser um paraíso para novas gerações de escravocratas e exploradores sem consciência social, estes inimigos da justiça social.

Neste dia de luta me lembrei – a memória é uma coisa engraçada-  deste causo da minha infância e fiquei me perguntando. A coragem será uma questão de inteligência ? A Justiça eu sei que é. Meu avô me ensinou.

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É Carnaval


E porque é Carnaval, vou me jogar no Bloco Agora Vai vestida de Utopia.

Vou levar terra e distribuir como um deusa, terra boa para os que vivem e viverão. Porque terra é vida e a vida pertence aos vivos todos e queremos libertá-la do desmando do coveiros-lobos.

Vou levar uma pistola d´água cheia de cores, perfume e purpurina, porque a beleza, o prazer e a alegria bem pode ser a nossa verdadeira sina.

Vou usar colar de pílulas douradas para combinar com meu cocar azul, porque a cura veio do ser humano que andou, descalço e nu, catando erva para fazer unguento por desejo de imortalidade, não de diploma, grana e discurso nojento.

Vou vestir nas costas duas lindas asas, porque o milagre de voar veio dos sonhos de Ícaros, valentes indomáveis, que nunca trabalhariam para as sacanagens da Nasa.

Vou distribuir abraços e beijos a granel, vou pintar a boca e adoçar minha língua com mel, fantasiar o Amor Infinito que faz o mundo ficar mais bonito.

Hoje é Carnaval, vou brincar de Utopia e ser contente, esquecer a desgraça que é tantos escravos amarem suas correntes.

Vou amarrar no meu ventre um bebê de brinquedo e batizar ele de Sem Medo. Sem Medo com sobrenome Do Futuro.

Vou sambar até colorir a cidade e escrever com tinta cor de sangue em todo muro

” Aqui começa o erro do mundo, favor derrubar” .

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Teatro não é lugar de entretenimento


Eu sei, eu sei, com esse título me coloquei em dissonância até com o Brecht meu mais queridão pensador do Teatro. Ele dizia que o teatro tem de fazer pensar mas também tem de entreter. Bem, ele dizia também que o espectador devia poder fumar para pensar melhor mas, com o tempo, as coisas sofrem revisões, é inevitável. Entretanto não vou polemizar o Brecht em uma croniqueta, que eu não sou tão besta assim. Nem iria pretender desdizer o que o Bertold disse e seus milhares de críticos e fãs corroboram. Eu converso muito com ele e acho que ele também mudou muito de opinião ao longo da vida – e por isso o amo. Um dia escrevo uma tese de doutorado sobre estas coisas, se kronos me permitir.

A questão que eu gostaria de trazer à cena é a seguinte. Quem estudou alguma coisa da história do teatro sabe. O Teatro pode ser chamado um mas são vários, sua transformação de meios, modos e finalidades se dá em ciclos ( já sei que é controverso, mas me deem o benefício da dúvida). Toda a indústria do entretenimento bebeu dele. Tudo que foi acumulado em 20 séculos de história do teatro ocidental foi e é reproduzido pela indústria dos produtos. Do cara que encara diretamente a câmera ( fazendo aparte para a platéia) aos efeitos especiais ( deus ex-machina). Do herói virtuoso que cumpre um destino inexorável e cuja falha trágica coloca em desgraça, para melhor nos ensinar uma ética humanista à farsa que mostra o vilania em plena ação exitosa para ser ridicularizada estava tudo desenhado e estruturado antes que Pathé ligasse a primeira câmera. Todo o campo do audiovisual só recicla continua e industrialmente aquilo que o teatro já havia criado, proposto, testado. A indústria audiovisual é filha do teatro e é jovem. Até aqui nenhuma novidade. Ela introduziu, entretanto, uma grande novidade. Até ela surgir, apenas reis e grandes senhores podiam ter para si, no espaço privado de sua preferência, o prazer da fruição de espetáculos teatrais. Os espetáculos destinados a eles eram diversos dos que iam às praças públicas, destinados àqueles que não tinham acesso aos palácios. Há períodos em que isto se transforma, para citar um exemplo, como na Inglaterra de Elizabeth que, ao possibilitar a alfabetização de jovens camponeses, tornou possível o Globe Theatre e Shakespeare, com suas platéias de 2000 espectadores atravessando o rio para irem ao teatro. A indústria do entretenimento cultural, neste sentido, democratizou o acesso a camadas muito mais amplas da população. Democratizou ou poderia ter democratizado. Ocorre que a indústria cultural reproduz a produção direcionada às diversas classes, nichos ou castas sociais, chamem como quiserem. Como no esfacelamento da Grécia, como durante o declínio do Império Romano, cresce um gênero de dramaturgia especialmente voltada ao excitamento dos sentidos, voltado para promover o excitamento dos sentidos, a requerer nenhuma reflexão ou esforço de natureza chamada intelectual. Pensem nas grandes batalhas navais ou na arena de sacrifício dos cristãos da velha Roma e tentem relevar minha argumentação apressada e imprecisa. Sim, o Teatro ali mais que espelhava a vida, ele levava às últimas consequências o que havia se tornada a vida e, assim, reproduzia a essência daquele modo de vida. A indústria cultural do entretenimento, no final das contas, faz coisa muito diferente ? ( Aqui gostaria e deveria falar sobre como os meios de comunicação social, isto é , concessões públicas de canais de comunicação, por esta mesma razão, devem ter uma gestão democrática, mas vou deixar para outro dia).

O ponto a que queria chegar é este. Ao Teatro sobrou como elemento distintivo, de sempre e não importando a que gênero dos ” teatros” estamos nos referindo, a presença física. É necessário que pessoas de carne e osso se reúnam em um mesmo lugar para que o fenômeno aconteça. Teatro é lugar onde se vai para ver, é o significado da palavra grega Theatron. Ver os atores, ver o espetáculo, ver os demais espectadores. Teatro é um lugar de entreolhar-se. Quando se pede que desliguem os celulares, então, é como se fosse a própria Terra nua! Considerando a existência de baladas, raves, espetáculos esportivos, festas populares, shows em estádios, caçada de pokemons, alguns lugares onde se pode, inclusive, fumar e beber, não vejo sentido um teatro para entreter.

Eu acho que todos nós que frequentamos teatros podíamos reivindicar a fusão do Teatro à Àgora ( ela morreu mas não tem importância, ressuscitamento é o nome do meio do Teatro).

Ou um lugar onde se vai para ouvir, ver, falar e trocar ideias não está fazendo falta?

Primavera nos dentes

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A tragédia brasileira, os deuses do Olimpo e o coro dos irrelevantes.


Bandido tem de morrer e quanto antes melhor, menos despesa pra gente, menos lixo no mundo. Mas eles não tinham sido julgados, fulano… Se estava na cadeia é porque devia alguma coisa. E por acaso não tem bandido na polícia, fulano, não tem flagrante forjado, você sabe melhor que eu… Mas aqueles lá, não, era bandido mesmo… Assassino frio é bandido, né? É tudo bicho ruim, cortaram cabeça… É contra a lei cortar cabeça, né ? Não zoa, é contra lei e contra Deus, é gente muito ruim, não merece viver, tem que matar mesmo. Ok, me diga uma coisa,fulano, se você fosse polícia e pegasse um desses caras numa esquina, você matava? Claro que matava. Fulano, tenho uma péssima notícia para você. Para mim? Matar é contra a lei de Deus e dos homens, você é um bandido.

O cara é um paulistano mas podia ser potiguar ou goiano. Podia se curitibano ou soteropolitano. Como diz minha amiga, cearense nascida nos cafundós que trabalha como balconista mas quer mesmo é ser enfermeira, é tudo brasileiro e Deus é o mesmo. Seu irmão foi morto a tiros pelas costas por causa de uma discussão besta na beira do açude. O filho do dono do açude não foi, nem será preso. Meu amigo alagoano me explicou como funciona. O pai chega na delegacia e vai logo declarando. Foi mesmo o filho que fez a besteira mas não adianta prender, o moleque é ruim da cabeça, o pai está mandando ele embora por uns tempos. Acontece que o morto e o assassino também tinham uns acertos de contas, diz o pai, e diz mais, vai fazer um desagravo para a família. O filho dele fica por sua conta, pronto. Mas a minha amiga diz que o sobrinho, que assistiu a morte do pai aos 8 anos de idade, já prometeu. Assim que crescer vai caçar e matar o assassino. Ela mesma podia ter encomendado a morte por 300 reais mas não acredita que cadeia ou assassinato resolva alguma coisa. Tragédia grega.

O cara me deixou chateada. Por onde começar a falar de Justiça com alguém que pensa que o sinônimo de justiça é vingança? Se quer civilizar um homem comece pela sua avó, já dizia minha avó. Minha avó achava que a consciência é forjada apenas pela tradição e esta muda muito devagar.  No caso do cidadão que defende as chacinas produzidas pela PM não restaria chance alguma. Sua avó passou a vida debaixo do mandonismo do pai e do marido que lhe ensinaram a lei do cangaço, do mais forte, do “quem pode mais chora menos” e do “ isso aí só bala resolve”. Descende de gente que traz gravada na memória e na pele que a vida é uma coisa que tem por sentido a disputa, a porrada como meio e o triunfo como fim. Gente que acorda cedo e trabalha, vê televisão exausta, cria os filhos sonhando que eles não levem a mesma vida enfadonha, vai no estádio ver futebol e quando está no pico do tédio, da raiva ou do nojo, enche a cara para esquecer. Essa é sua Cultura. São eles dignos de viver porque honestos e cumpridores dos deveres, comem e dormem do seu trabalho suado, dentro da lei de Deus e dos homens, dentro da conformidade, isto é, da Cultura na qual foram criados. Vagabundo não merece viver mas a noção de vagabundo é fluida como água. Segundo sua Cultura os vencedores merecem tudo, inclusive o perdão pelos seus crimes e trapaças. Para os perdedores, na prática, resta a Lei do Cão e às vezes a sensação exasperante de fazer tudo dentro das regras e levar a pior. Mas neste caso a Cultura lhes autoriza, ao menos, sonhar com a vingança como prêmio de consolação. Confusamente reconhecem a instituição judiciária como luxo para rico ficar mais rico, uma instituição que, como os bandidos, ferra demais os pobres ao mesmo tempo que a querem como braço armado de suas vendetas pessoais. Neste ambiente cultural humanismo, direitos humanos e coisas que tais só podem mesmo ser entendidas como um pixo no muro – palavra inútil que emporcalha a paisagem, Neste ambiente cultural o assassinato de quem se odeia ou teme vai parecer tão natural como a crença em Deus. Não há falta de Cultura. Cultura fundada na violência  e na lei do mais forte também é Cultura. Os prazos das mudanças culturais operam na chave do tempo mítico, a família pode ajudar ou atrapalhar mas detém poder apenas até o limite da fragilidade cognitiva, material e emocional do indivíduo. A família reproduz mais ou menos a cultura de onde está inserida mas não tem mais poder que tudo que lhe é externo, para o bem e para o mal.   

Livre associação, acabei me lembrando de uns causos do meu tempo de educadora no terceiro setor. A expressão “a vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” que andava na boca dos adolescentes por causa do personagem Chaves, parece que saiu de moda. No começo dos anos 2000 fiquei confusa ao ver jovens de 14 anos aplicarem o bordão em improvisações de teatro enquanto me perguntava: mas eles leram a Orestéia ??! Foi assim que tomei o primeiro contato com o Chaves, o seriado mexicano exibido na TV brasileira. O bordão era dele.

Nesta época dava aulas para adolescentes em “situação de risco social” e ouvia como resposta à minha provocação, de como pensavam que seria uma tragédia grega transposta para os dias de hoje, muitas narrativas de suas vivências nas favelas e bairros populares. Com apenas uma década e meia de vida tinham se defrontado com violência radical, ao vivo e a cores, mais vezes que eu, em quase quatro décadas bem vividas.

Não sei se fui capaz de ensinar-lhes algo mas aprendi muito. Tinha aquele sentimento arrogante de pena ao ver que contavam com um repertório cultural escasso, não nego, mas acabava por me encantar com suas capacidades de criar o máximo com o mínimo disponível. Sua aversão às normas cultas da língua, percebia aos poucos, não era aversão, mas simples medo de nunca chegarem a dominá-las. Eu também não as domino, confessava. E descobria que bastava lhes convencer que era apenas um jogo para se tornarem exímios caçadores de palavras e brincantes do texto escrito. Eu, a princípio convicta de que os devia alimentar de saberes, ao final concluía que o melhor seria estar atenta e regar seu desenvolvimento com o que pudesse, já que podia fazer tão pouco por eles.

Na maioria dos casos o curso não era a sua primeira escolha ou de seus pais. A maioria ia parar lá ao não conseguirem inscrição nos cursos profissionalizantes. A instituição era vinculada a uma corporação, funcionava com verba de renúncia fiscal para projetos Culturais mas usava a maior parte da verba da alínea “Cultura” para ministrar cursos de treinamento para adolescentes candidatos potenciais aos seus postos de trabalho. Eram cursos profissionalizantes lato sensu, muito mais programas de treinamento de práticas e regras da própria empresa do que qualquer outra coisa. Quem iria questionar? Seus frequentadores e pais só enxergavam a possível vaga de emprego e como desejavam qualquer uma, por mais mal paga que fosse, qualquer coisa estava valendo como “educação”. Não conseguindo matrícula, os responsáveis ponderavam – melhor que nada, melhor que ficar na rua em má companhia ou em casa fazendo bobagem – vai lá fazer essa coisa de artes, meu filho.

Era previsto trabalharmos conteúdos de literatura e teatro. Mais difícil que a alfabetização incompleta – cansei de ver meninos de 14 anos que não conseguiam ler uma matéria de jornal, apesar de frequentarem a escola desde os 7 anos de idade – era lidar com as expectativas iniciais. Havia os que iam logo avisando serem avessos a “ aparecer”, afirmando orgulhosa disposição para o destino de trabalhadores “de verdade” e seu desprezo por “frescuras” e “loucuras” da “ arte”. Outros, no extremo oposto, se declaravam dispostos a tudo para alcançar a mais alta ambição artística que podiam conceber : aparecer na TV Globo. Eram adolescentes com fantasias juvenis, enfim.

Ótimo, eu lhes dizia, então temos por aqui gente disposta a trabalhar para organizar a bagunça daqueles ali quando enlouquecerem com frescuras, não ? Eles riam. Mas espero também, eu continuava, que estejam todos animados a lerem muitos textos e estudá-los. O espanto. Estudar teatro era isso ?

Eles achavam que, em arte, era tudo improviso e dom de Deus. E que a arte maior era o que passava na TV. Novelas e filmes eram melhor que teatro, não eram ? Poucos percebiam que os filmes estrangeiros na TV eram dublados. Muitos menos, ainda, se davam conta de quantos profissionais diferentes eram necessários para fazer uma televisão funcionar. Passado o choque das revelações vinha a tarefa de decepcioná-los gentilmente. Meu objetivo era menos ensinar-lhes “artes” que despertá-los para coisas interessantes, quem sabe até para maneiras mais férteis de empregar o tempo que dedicavam a assistir televisão.

Dava certo, às vezes. Muitos tomaram gosto pela leitura, outros a aprimoraram. Nos encontrávamos duas vezes por semana ao longo de apenas 4 meses mas, de leitura em leitura, jogo em jogo teatral, do exercício à conversa, vazava para dentro dos nossos jogos de faz -de -conta o real de seus cotidianos, repletos de problemas subjetivos e materiais. Todo o deficit de um sistema de ensino tão burocrático quanto indiferente aos afetos se revelando bem na minha frente. Tudo que a Cultura de um país excludente, fundado sobre a exploração dos mais fracos pelos mais fortes podia produzir, se reproduzindo sobre aqueles corpos e mentes. Muitas revelações me chocavam ainda mais pela constatação de que não havia espaço para eles pensarem e falarem sobre suas inquietações mais profundas em casa, na escola, na igreja ou na rua. Sobretudo os meninos, treinados desde o berço para aguentarem porrada sem reclamar e lutarem por um território onde pudessem mandar. Eis o sonho generalizado. Um espaço para mandar. Nem que fosse apenas uma casa ou um barraco com uma mulher dentro, que lhes daria filhos e a certeza de valer alguma coisa, pelo menos para eles, a família. Assim como as meninas que, em contraparte, sonhavam com o amor incondicional quando parissem. O amor romântico para muitas parecia, senão inacessível, improvável mas ter um bebê, isto sim, era a garantia do amor incondicional. Esses moloques são uns toscos, Professora. Meu pai fugiu quando minha mãe engravidou, Profe. Homem só quer aproveitar da gente, minha mãe sempre diz, o que a senhora acha?

Foi uma experiência cheia de momentos emocionantes e imprevisíveis. Guardo vivo na memória um princípio de cisma religioso que se instalou em uma das turmas. Já então alguns garotos e garotas acrescentavam, ao se apresentarem, a identificação religiosa – sem que lhes fosse perguntado. Foi assim que se identificou um grupo, sentados lado a lado em um canto da roda – evangélicos- o que provocou também a declaração de fé, no canto oposto, dos umbandistas. Havia troca de olhares desconfiados seguidos de risinhos e boquinhas torcidas desde o primeiro instante.Após a rodada de apresentação ficou claro que o desprezo era mútuo. Perguntei se sabiam o que era mito de origem. Não sabiam. Expliquei a diferença entre o tempo histórico e o tempo mítico. Gostaram da coisa. Um garoto sabia o princípio do Velho Testamento de cor, uma menina narrou um mito africano. E o mito de origem dos gregos, conheciam? Fomos ao mapa mundi procurar a Grécia. Desenhada uma linha do tempo em papel kraft na parede, a conversa fluiu. Os mitos gregos e africanos tinham muito mais a ver com o terror – gênero preferido por 9 entre 10 adolescentes naquela época. Um deus que paria filhos em suas próprias coxas e os devorava, UAU ! Um deus punido por seus pares por roubar o fogo e entregar aos homens, quéquéissso??? Existem, existiram, sim ou não, como eu dizia, eram questões de fé que não vinham ao caso mas como no campo da Cultura simpatia é quase amor… lá fomos ler trechos de tragédias clássicas e falar dos conflitos de amor, ódio, paixão, desrazão e orgulho que garantiram a sobrevivência destas antiquíssimas histórias.

O planejamento pedagógico vinha de cima mas fazíamos limonadas a vontade. Recordando estas aulas há uma década e meia, me peguei questionando como ou se ainda seriam possíveis. Pelo que ouço dos colegas professores, a necessidade de dar conta de conteúdos extensos e uma burocracia feroz fazem da sala de aula uma linha de montagem mais sem graça do que sempre. A onipresença dos celulares com seus infinitos bate-papos mais o acesso instantâneo à web em qualquer aparelho de baixo custo, talvez tenha esvaziado algo que servia de isca e encantamento para o trabalho pedagógico. Trechos de filmes, livros, fotos e gravuras, às vezes significavam o primeiro contato daqueles jovens com obras do chamado mundo das artes e da cultura. Fora dali tinham pouco ou nenhum acesso a ela. A curiosidade incitava, a dificuldade de acesso fisgava, a concentração não era desviada pela vibração de qualquer eletrônico. Agora, pelo que dizem, sabem que tudo está à mão e tudo pode ficar para depois. A procrastinação, esporte nacional de prestígio transversal a todas as classes sociais brasileiras, encontrou o solo mais fértil de sempre. Todas as coisas estão ao alcance de um clic, o que equivale a dizer que podem esperar até o fim do próximo chat, da próxima selfie, do próximo clipe, da próxima série, do próximo game. No tempo que melhor apetecer a cada um. A sociedade virtualizada tem precedência sobre a real, dizem meus colegas professores e divertir-se é a ordem. Diversão sem qualquer esforço. É só pesquisar o ranking das palavra mais consultadas nos motores de pesquisa para ver, me disseram. Especulo. A educação pode muito mas a Cultura, hem, a Cultura….

Recordando aqueles anos, me recordei também daqueles dias. Da atmosfera, dos modos, do cotidiano, do gênero de passatempo e lazeres mais ou menos comuns para quem podia ter algum lazer e passatempo. Íamos ao cinema, aos museus, ao teatro como sempre, jogar bilhar, houve uma moda de dardos ao alvo, já nos trancávamos em casa a ver pilhas de filmes emprestados da locadora mais próxima mas raramente sozinhos. Viajar era um prazer mas ficar em hotéis era muito caro. Os carros não eram mais os do tempo do Collor, os moços se empolgavam com os importados. Começavam a voltar à moda os sapatos bico fino e salto alto, os tênis de nova tecnologia passavam a substituir os sapatos esportivos. Os computadores entravam de vez para o cotidiano doméstico. Havia a internet discada, todo mundo tinha um endereço de email. Havia muitos novos pequenos hábitos de consumo agora. Consumir era igual a viver, a sociedade se confundia com o mercado então nada mais natural que o mercado cuidasse de tudo. Comprar planos de saúde, mandar os filhos à escola particular, instalar cercas eletrificadas nos muros, contratar seguranças uniformizados para as portarias, preferir a vida em condomínio a uma boa casa com jardim, de cara para a rua, era o novo normal. Em cidades minúsculas com terra baratíssima a classe média se enfiava em prédios mais altos que a igreja matriz bem ao lado. O desejo de viver dentro de uma bolha triunfava. Uma bolha nem tão apartada dos pobres assim, diga-se de passagem. Mas uma bolha que ao menos garantia saneamento básico, transporte e outros itens diferenciados. Que garantia diversões e sonhos diferenciados. Afinal, tínhamos sempre alguma chance real ou imaginária de escalar até uma daquelas outras bolhas sobre nossas cabeças. Era natural não debater como esta Cultura de apartheid era esquisita. Que apartheid? Responderia em uníssono a classe média não engajada na discussão política, caso alguém ousasse assim classificar aquele modo de vida tradicional, agora sedimentado de vez. Que horror. Temos é corrupção – sempre ela, essa maldita. Quantos haviam sido pegos com a boca na botija, tinha adiantado o quê ? O dinheiro era a medida de todas as coisas mais do que nunca. O fim das ilusões, o fim da História. O processo de judicialização da vida avançava como jamais, ser querelante virou moda. Law and order. Problema agora se resolve é na Justiça. Discute, não. Mete um processo. Quero a minha parte em dinheiro. Não discuto, não converso, não peço desculpa – pago – prefiro. Apartheid onde? Haveria os que garantiam que estávamos todos lascados, de qualquer modo, pobres e remediados. Mesmo nós, os que saídos das prestigiadas Universidades Públicas esperavam encontrar mais facilidades para triunfar no mercado de trabalho, olha aí, ainda tínhamos de ralar muito para encontrar meios de vida e renda. Não tínhamos de nos esforçar muito para vencer concursos públicos e alcançar os melhores salários, sendo filhos de pais sem capital ? E mesmo os mais abonados entre nós, não tinham de usar a rede de relações e até mesmo o patrimônio de pais e parentes, ao querer constituir negócio próprio? Quantos de nós, cansados de bater a cabeça ou avistando oportunidades melhores não tinham tomado o rumo do aeroporto? Temporária ou definitivamente – quem sabe. O Brasil era cansativo. Depois de toda aquela euforia da redemocratização, quanto tempo até conseguir frear a inflação… e a corrupção, sempre ela… e os pobres e miseráveis… há tanto tempo fazem parte da paisagem. Bem, estavam lá desde sempre, já eram parte da paisagem, não eram? Era difícil. Era preciso ter espiritualidade para suportar. A espiritualidade sempre foi parte importante da nossa Cultura, e como dizem todas as religiões, pobres sempre haverá entre vós . Para vencer a pobreza é preciso fé, comprometimento individual com seu crescimento. As Igrejas ajudam mas se a pessoa não tiver fé, ah, vai se abduzida por toda essa violência, não há dúvida. A religião agora era onipresente nas madrugadas da TV. E não é que ajudava os mais pobres? Claro que sim. Ajudava o sujeito a se organizar, parar de beber, convencia o marido a não bater na mulher, convencia a mulher que é melhor ser doce e carinhosa ao invés de uma megera rabugenta, mantinha os adolescentes ocupados, orando, trabalhando para a Igreja. A violência era o mal da década e tudo para fugir dela era válido. Alguns de nós até escorregavam no abuso de drogas para segurar a barra da violência simbólica. Era ridículo mas era válido. No cinema ou na TV a violência tinha virado tema preferencial, só superado pelos temas do adultério e do amor romântico. Quem ditava qual era a moda, qual era a onda, qual era a pauta, mostrava o drama da violência, a tragédia da violência, Hollywood fazia da violência uma coisa cult. A violência é, como a religião, uma coisa complicada. Há muitas explicações e muitos modos de ver o mesmo Deus que, afinal, é um só. Aqui, pelo menos não tinha violência religiosa. E nossa violência também nada tinha a ver com os salários ou o desemprego. Muito menos com o consumismo.

A cultura do consumismo se infiltrou cada vez mais pesadamente na vida cotidiana da classe média, a partir dos anos 90, e se encontrava reprimida para a maioria da população por simples falta de meios. A ideologia do indivíduo que é feliz porque consome e consome para ser feliz já era a parte estruturante do tecido da Cultura mas do sonho ao real, apenas uma minoria conseguia ir além do desejo. Então veio o governo Lula. De repente aqueles garotos e garotas com perspectivas nulas ou lentíssimas de melhoria da renda – e apenas se contassem com a sorte de famílias estruturadas ou, no mínimo, mães e pais decididos a tudo sacrificarem por eles – sentiram que podiam dar o salto e passar à próxima bolha. Trabalhando no telemarketing, podiam frequentar uma faculdade subsidiada no contra turno. Podiam sonhar, ao perceberem que alguns até mesmo teriam chance de chegar às bolhas mais altas, sempre inacessíveis aos filhos do trabalhador brasileiro da base da pirâmide. Os pais ganhavam um pouco melhor. De repente faltavam pedreiros e os mais habilidosos montavam equipes e passavam a trabalhar por conta. Euforia. Da faxina se saltava para a massagem estética, da recepção se podia chegar a envergar um terninho no tribunal. Virar doutor e doutora advogada, o sonho impossível agora ao alcance do carnê de crediário. Euforia. Pressa, muita pressa. Vamos virar o jogo. Afinal a empregada podia ter um armário na cozinha novinho, não aquele de portas caídas que a patroa dispensou, louça nova no banheiro, como aquelas que passou a vida limpando. Descobríamos que não estávamos fadados a viver em bolhas diferentes de consumo para sempre. Cada um com seus problemas mas todo muito podendo ter as coisas que sonhou. Éramos enfim o futuro que parecia ter desistido de chegar. Agora sim, ia chegar, glamuroso como uma viagem a Miami. Eufórico como uma liquidação da blackfriday.

Por estes anos, vivi algum tempo fora. O Brasil desabrochava para o mundo esfuziante como esta alegria que nos contaminava por dentro. Aquele fetiche brasuca de namorar gringos e gringas para conseguir um green card ia se invertendo. Moços do leste europeu me imploravam para lhes apresentar garotas brasileiras. Lindas ! E ainda por cima, vivendo no Brasil, ah, o Brasil… que sonho o Brasil. Vinha de visita e reparava – era só impressão ou a média da estatura da juventude negra e periférica tinha aumentado? Seria mais ingestão de proteínas ? Que a população como um todo tinha engordado saltava aos olhos.

O Lula não inventou, e nem poderia porque já estava inventada, a euforia consumista. Euforia consumista, aliás, é pleonasmo. Consumismo é comprar euforia em forma de cacarecos mais ou menos caros. Nem tudo que é consumo é euforia. Alguns objetos do desejo são úteis. Quem lava roupa no tanque ganha mais que euforia ou status ao comprar uma máquina de lavar. Quem nunca teve luz elétrica em casa ganha mais que uma lâmpada acesa. Quem viu a mãe morrer na sua frente porque não havia um carro para levá-la ao hospital, deseja mais do que conforto ao adquirir um automóvel.

O governo Lula  no aspecto cultural, colocou abaixo algumas catracas seletivas demais e os efeitos colaterais foram muitos. Uma certa “ mudança comportamental” dos pobres e muitos pobres não se explica apenas pela oportunidade de virar consumidores. A maioria não chegou nem sequer a virar consumista, não passaram de consumidores do básico – ao qual não tinham acesso ou garantia antes.  Ainda que fosse verdade ( o que discordo) que a chamada “ nova classe média” ou “ nova classe trabalhadora” tivesse se mostrado mais interessada em consumir do que outra coisa, alguém diga com sinceridade : quem forjou o modelo para ela se espelhar? A sociedade brasileira, nascida sob o signo da violência, tendo o Estado desde sempre como perpetrador das maiores violências, tem como eixo fundamental de sua Cultura da violência proteger de todas formas possíveis a acumulação de patrimônio privado. Este modela, desde a base nossa Cultura, da ética subjetiva ao conjunto das leis . Um acumulado de terras, casas, apartamentos, carros, dinheiro, moeda, ouro, pedras preciosas, ações, o acúmulo, qualquer acúmulo de riquezas, é o legado mais precioso que um pai pode deixar aos seus descendentes. O patrimônio e as posses trazem prestígio e alvará para quase tudo. Sobretudo se for ” riqueza velha” daquelas que nem se consegue investigar bem as origens. Prestígio intelectual, só se corroborado por um diploma materializado na parede e acompanhado de uma conta gorda no banco. Por acaso pode valer o quê uma pessoa sem dinheiro ? Se é artista talentoso, se é jogador habilidoso, se é descendente de famoso tem de ser rico, ora, cirurgião, engenheiro, arquiteto bom que não tem dinheiro, onde já se viu? A riqueza traz em si o condão de chancelar talentos, imaginar competências várias, mesmo onde eventualmente só haja resultado de sorte ou jogos de poder e violência. A Cultura também fez de nós uns generosos em elogios e afetos, pródigos mesmo. Nossa Cultura reproduz o amor pela prodigalidade em todos os setores da vida. Numa sociedade de classes com uma das piores distribuições de renda do planeta qualquer pessoa em situação de rua tem na ponta da língua a definição do Brasil : um país rico, riquíssimo ! O consumismo foi só a cereja do bolo.

O consumismo é autoritário. Ele instala a ordem do consumo como única meta, única saída, único valor. Consuma ou morra, tenha coisas ou inexista, ostente posses ou cubra-se de vergonha. E seu caráter autoritário só tende a agigantar-se em uma sociedade em que os meios de comunicação de massa estão em poder de meia dúzia de donos de empresas que, desta forma, ditam quais os objetos, os valores, gostos, músicas, ideias, notícias, personalidades tem valor de consumo – quais devem ser apreciadas e consumidas, quais devem ser descartadas. A mídia de massa  dita para a massa o que é Top no ranking e o quê não vale nada. Quem deve ser exaltado, quem pode ser humilhado. Na sempre monotônica e autoritária propagação do consumismo o topo da pirâmide de renda é a meta e a ordem primeira, em caso de impossibilidade de alcançá-la, é mimetizá-la. Almejar ter cara de rico, cabelo de rico, se vestir como rico, ter cacarecos de rico, são os mandamentos inscritos no regulamento do Partido Único da Mídia que o divulga dia e noite. Partido único que tem também o poder- político -de tornar invisível objetos, valores, gostos, músicas, ideias, notícias e pessoas que não alimentem a ideologia de triunfar e fazer fortuna. E não é possível estar desalinhado com o Partido Único da Mídia, no Brasil sem temer sanções tão violentas quanto aquelas que o Estado é capaz de produzir. Aos desafetos relevantes a Mídia de massa pode neutralizar partindo para a guerra frontal pela demonização, incitamento ao repúdio, pelo ridículo, pelo escárnio, pelo deboche, se a invisibilidade não bastar. O MST que o diga.

A mídia de massas no Brasil, tanto a eletrônica, quanto a escrita, graças a todas as manobras ilegais que fez ao longo dos últimos 30 anos para continuar operando de forma diversa do que diz a Constituição, conseguiu firmar-se como uma espécie de preposto do Olimpo. Seus donos que operam empresas que servem à venda de cacarecos em primeiro lugar, nos intervalos entre os filmes publicitários produzem anestésicos em forma de diversão. Mas também criam lendas, mitos e dramas a serviço da Cultura clássica brasileira. Elevam simples mortais à condição de semi-deuses. Como Zeus são capazes de acorrentar um Titã à beira do penhasco e ordenar que abutres lhe devorem o fígado, dia após dia, e ainda escarrar na cara de quem ouse levantar a voz para protestar que, com ou sem Prometeu, o Olimpo é que é o problema. Então não é surpresa que este Olimpo se empenhe em retratar Prometeu como um ladrão asqueroso. Omitindo inclusive que todos os Titãs gostavam muito dele antes dele ter roubado da pira dos deuses uma fagulha, além de ter trazido à cena Pandora que, como se viu, nada fez para evitar que a caixa preta fosse aberta. Francamente !

E é claro que nem dá pra começar a conversar de forma leve com quem, educado por esta mídia de massa e pela tradição cultural brasileira, grita :” bandido bom é bandido morto!”. Se eu fosse capaz de lhes explicar que os bandidos que vendem anestesia para as durezas de suas vidas, adestraram sua língua a dizer estas orações de maldizer – que não explicam nada e não resolvem nada – apenas para que eles possam continuar como prepostos dos deuses no Olimpo… seria eu mesma um Prometeu.

Mas sou uma reles mortal que rasteja lutando para não perder a fagulha que lhe cabe neste vale de trevas. Às vezes penso que felizes são os Titãs e deuses do Olimpo. Às vezes penso que são os abutres com sua dieta de fígado fresco. Às vezes penso que felizes são os urubus satisfeitos com sua dieta de carniça. Mas na maior parte do tempo penso que talvez sejamos apenas uma nação de gente triste encenando uma velha tragédia. E que, na tragédia brasileira, minha vocação para coriféia é que me desgraça. E como dói, às vezes, não ter um reles tábua onde encenar outras paixões. 

oresteia

Oresteia de Ésquilo

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Esquentando os tamborins para espantar a tristeza


Há mais patos entre o Planalto e a Paulista que aviões na lista pra cair sobre a cabeça dos otários mas pode anotar no seu diário, o país está pegando fogo devagar porque tem muita lenha pra queimar entretanto sua hora vai chegar, pequeno burguês de crediário. Não sou quem digo, é a História da qual não tem memória porque não gosta de livro, cinema, teatro, arte na rua, de fato eu sei, negócio dele é contar dinheiro, seu tesão é ir para o estrangeiro cantar rock, dar banana para a realidade que te dá ganas de morrer e nascer noutra parte. Mas não adianta latir porque a caravana passa, engole o choro que a vida te foi dada de graça e você joga no lixo por pirraça, por causa de pixo e ninharias. Não embarca nesta nau dos insensatos, vamos aos fatos. Tem 210 milhões de almas nesta bagaça, mais da metade viajando no porão, sem saneamento básico e sem condição de fazer frente à avalanche de sacanagem que vaza do esgoto da primeira classe. As costas já estão lanhadas, as mulheres já estão ferradas, e ainda assim reagem como podem. O B.O. sobrou pra nós, nobres colegas de classe laboral que não limpam latrina os do chamado trampo intelectual. O boletim é claro e a ocorrência é a seguinte.

O projeto do governo para o Brasil é nenhum . Este é o plano em pleno curso. É reativo, diz respeito apenas ao uso das riquezas naturais, incluídas nós, meros mortais sem patrimônio de vulto. Não temos muitos recursos mas vamos nos organizar como as formigas, na miúda. Não desanima, não faz cara sisuda, que a nossa sina foi traçada antes de nascermos. Colônia somos e quando o centro do sistema sente fome, é sempre assim, são nossas carnes que eles comem, são nossas veias que eles sangram, são nossas cabeças que eles pisam. Enxerga com os olhos de amanhã o horizonte e repara : ele não está pronto.

Quem não sambar com a Imperatriz, não vai perceber que Xingu está por um triz mas já mataram milhões e não extinguiram a raiz. Quem não sambar com a Vai Vai, com a roda que gira no Ilê e bate cabeça, não abre a roda pra saudar, nunca vai ver a bela vista do povo de Oxalá.

para fazer sucessso Romulo Fróes

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A Educação e coisas que dão dinheiro


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Sexta feira, acordei lembrando do Transversos, mais abandonado que latifúndio improdutivo, e resolvi : vou lá carpir umas letras. Corre vai, corre vem, não fui, mas de hoje não passa ! eu prometi para o espelho no dia seguinte. Veio o sábado, o domingo e chegou outra sexta feira boa para procrastinação.

Aí o Universo, esse fanfarrão, conspirou. Encontro uma pessoa conhecida que nunca suspeitei frequentar minhas croniquetas e ela declara que notou a descontinuidade da publicação. Com tudo que anda acontecendo perdi a inspiração, respondi entre a vergonha e o orgulho de ter leitor saudoso. Tolice minha pretender saber o que ia na cabeça da pessoa. Esclareceu que nem gostou da literatura mas me acha “sabida”, perguntou se eu já tinha lido ” O Segredo”. Estava pesquisando, pretendia fazer um blog mas viu que não dá dinheiro. Ah, concordei, não dá mesmo, talvez para quem vende publicidade como se fosse notícia… Ele quis saber mais. O difícil é achar negócio bom que não precise de capital, né? suspirou o candidato a empreendedor.

Muitos são os mistérios da inspiração e aqui estou. De fato a conversa engraçada me lembrou outro assunto nem tão desconectado deste quanto pareça.

Trata-se do caso recente do administrador de uma organização educacional, gigante do setor. Tudo começou em evento público no qual o moço, esbanjando otimismo da melhor tradição do “storytelling”, declarou que tempos atrás, sem dinheiro para pagar consultorias, pedia projetos a vários consultores e aproveitava ideias das “amostras grátis”. Ninguém mais acredita em almoço grátis e a polêmica começou. Plantado o bafafá o moço veio à rede tentar corrigir o mal entendido Tinha sido infeliz na piada, claro que não fazia este tipo de coisa. E é claro que muita gente duvidou pelo simples fato de todos saberem ser esta uma prática recorrente. Mas tudo bem, insistiram os cínicos, o tempo de prospecção de clientes erá pago pelo próximo projeto contratado, simples lógica do mercado. Mas vamos supor, disseram os pragmáticos, que muitas empresas passem a fazer isto e a maioria dos consultores passem a fazer uso de estratégias tão heterodoxas quanto esta para assegurar sua competitividade. A espionagem empresarial, por exemplo, não seria uma dessas ervas daninhas que cresce muito em terreno que falta o adubo da ética? Em pouco tempo, um campo de trabalho para profissionais capacitados vendendo seus serviços para melhorar a competitividade das empresas não se tornaria terreno fértil para práticas imorais e aventureiros resistentes? A lei da oferta e da procura resolve isso tudo, confiantes debatedores garantiram. Ora, supostamente a demanda do mercado que criou os serviços de consultoria, viria da avidez por aconselhamentos técnicos que incrementem o lucro, sugestões confiáveis para vencer a concorrência. Como falar em concorrência quando a lei é a trapaça? Resumida a contenda, saí com a impressão que a terceirização do que seria parte da função dos quadros mais altos da empresa, fidelizados pela estabilidade ou coparticipação nos lucros, criou uma área cheia de predadores, gente ávida por trapacear e sujeita a ser trapaceada. Saí com a impressão que a trapaça é o único conselho infalível para vencer a concorrência.

Sem mimimi, vivemos sob a implacável lei da oferta e da procura ! Se apressam a declarar – quase sempre gritando- os defensores fanáticos do ” Mercado”, entusiastas do capitalismo acima de todas as coisas da terra, do céu e para sempre assim seja. Talvez pretendam enganar os distraídos. Ou será que algum deles não percebeu que este lema servia, até certo ponto, para a chamada ” sociedade industrial”? Não, meus caros, eu sussurraria para eventuais ingênuos, o mundo mudou. Faz tempo que passamos da sociedade industrial para a sociedade do consumo e nesta aqui a lei é criar necessidades para vender produtos. Naqueles setores da produção onde a procura é certa e a oferta define o preço não há mais espaço para a concorrência . As gigantescas corporações transnacionais compram concorrentes justamente para economizar esta chateação que é a concorrência. Financiam guerras para garantir que as riquezas naturais dos países passem todos para a esfera de sua administração. Dá a impressão que a Revolução Comunista Internacional, com a submissão de todo o planeta a uma planificação centralizada da produção foi expropriada pelos grandes capitalistas. Não se descuidam nem de declarar propósito quase idêntico ao dos comunas: destravar as amarras do Sistema para gerar a riqueza infinita – à qual está predestinada o Ser Humano que, assim, será feliz. E quem não acreditar ou se opuser pode muito bem ir viver em um Gulag qualquer.

Claro que eu estou brincando. Só os operadores do Sistema ou os muito ingênuos acreditam que este estado da arte do mundo pode levar à prosperidade e a felicidade. A promessa de que transitaríamos sem susto para uma ” Economia de Serviços” na qual todos os trabalhadores, dispensados das fábricas, bancos, oficinas, canteiro de obras e outros setores robotizados ou extintos, seriam absorvidos pela setor de ” serviços” gorou. A utopia do crescimento sem limites morreu, falta ” serviço” para empregar pessoas e sobram produtos e vida indigna para seres humanos . Neste mundo concreto onde seres humanos poderiam executar trabalhos úteis que tornariam o mundo um lugar melhor, a maioria dos trabalhadores é obrigada a cumprir jornadas exaustivas para produzir barato coisas fúteis e de utilidade restrita. Multiplicam-se trabalhos sem função social relevante, pelos quais trabalhadores infelizes recebem migalhas. A maior parte dos desempregados do mundo trabalham duro, de um jeito ou de outro, sem chegar a receber o suficiente para seu sustento ou desenvolvimento pessoal. Mas não há os que conseguem empregos ? Não há os que conseguem estudar e melhorar sua condição material ? Por acaso não há os que conseguem criar negócios que os fazem passar dos problemas da fome para os problemas da obesidade? Claro que há. Compõem uma minoria que mal sente o estômago cheio passa a desdenhar dos que remam e remam sem sair do lugar e lavam as mãos diante das fomes do mundo.

Sobram trabalhadores sem ocupação, faltam salários mas a produção não para. Produtos encalham pelo mundo afora. Ao redor do globo – dia e noite- alimentos são cultivados, processados industrialmente, caixas e caixas carregadas de lá para cá e afinal… Um quinto da humanidade passa fome. No Reino Unido, por exemplo, quase 50% dos alimentos vai direto das prateleiras para o lixo, sem nem sentir o gosto de uma boca humana. No Brasil, não faz meia década, tinha criança passando fome mas o desperdício continua girando em torno de 30% . Milhares de conteiners, toneladas de peixes, galpões cheios de aparelhos eletrônicos, automóveis, sapatos, tecidos, centenas de depósitos lotados de mercadorias até o teto vão estar prontos para a destruição antes que muitos prestadores de serviço, consigam encontrar seu próximo cliente ou patrão. Duvida ? Não estou rogando praga, é uma constatação.

O desemprego dos jovens, na Europa, patina em torno de 35 % há alguns anos. Milhões de jovens qualificados academicamente ou não estão desocupados, não estão inscritos em escolas ou trabalhos formais. Se viram como podem. Vivem de apoios sociais. Entram para a carreira do crime. Se drogam. Entram em depressão. Se suicidam. O aumento das taxas de suicídio de jovens em todo o mundo é um fato que poucos comentam, menos ainda se preocupam. Mas não é uma coisa intrigante que em um tempo repleto de prosperidade e maravilhas haja tantos jovens devolvendo seu bilhete de entrada, perdendo o interesse pelo espetáculo?

Na China ou na Rússia, na Ìndia ou nos USA, para todo lado, faltam as famosas “vagas de trabalho”. E não apenas para os 4 ou 5% de trabalhadores aptos e disponíveis que devem permanecer inativos para os empresários terem oportunidade de extrair lucro e pagar o menor salário possível propiciando consumidores para o mercado como um todo. Como eu gostava de ver este índice ser repetido toda vez que entrevistavam o presidente trabalhista da Holanda . Apenas 5% de desemprego, uau ! Já era. O sonho do paraíso do ganha-ganha, este tempo de “pleno” emprego e bem estar social faz parte do passado agora. Na India, apenas 150 milhões dos jovens de uma população de 1,2 bilhão de pessoas podem sonhar com o IIT , o instituto de tecnologia que abre a porta para uma vida de luxo, assim confiam os competidores pelas poucas vagas. Mas destes 150 milhões de concorrentes, apenas os pais de 30 mil jovens serão autorizados a pagar 70 mil dólares ao ano para que seus filhos tenham direito a tão preciosa educação. A mãe de um deles, em filme documentário, dizia sem qualquer emoção que é um investimento, como ações, como qualquer coisa. Uma das mais novas bíblias de mandamentos para o sucesso diz que são necessárias ao menos dez mil horas de prática em qualquer coisa que se queira ter excelência. Ao redor do mundo, centenas de milhares de jovens como estes vão passar 20 anos, no mínimo, recebendo a melhor formação acadêmica que o dinheiro pode comprar. Pode-se esperar muitos experts em pelo menos 4 ou 5 áreas do conhecimento vindos daí. Legiões de técnicos formados dentro de bolhas sociais treinados para o máximo desempenho em todas as áreas do conhecimento com pouco ou nenhum contato com a vida que vive fora delas.

Em todos os países da rica União Europeia, a maior parte dos cidadãos absorve dificuldades práticas e cotidianas como se, por fatalidade, o continente tivesse sido varrido por furacão, terremoto ou tsunami. Milhões de pessoas vão se adaptando a condições de escassez radical. São milhões e milhões de pobres agora, cercados da mais luxuosa abundância. Abundam lojas de luxo em todas as capitais do continente, campos de golfes ocupam léguas para uns poucos  milionários no sul da Península Ibérica. Criam uma mixaria de empregos. Enquanto isso filhos adultos de professores e outros seres humanos supérfluos para o sistema permanecem morando com os pais indefinidamente para não passarem privações. Aquecedores são desligados por falta de dinheiro para o combustível levando idosos, após 30 ou 40 anos de trabalho duro, a sofrerem os rigores do frio como se vivessem na Idade Média. Com a diferença que quase não se pode mais ir aos bosques cortar lenha, não podem tentar vencer suas dificuldades com trabalho ainda uma vez. Na Holanda, jovens se organizam para voltarem ao campo e praticar agricultura de subsistência enquanto sobram alimentos nas prateleiras dos supermercados. Apoios sociais ( que também pode ser chamados de bolsa família) garantem o básico e o elementar para famílias com crianças, da Suécia à Dinamarca, da Alemanha à França, salvando o agravamento dos índices de gente faminta, roubando ou crescendo mau educada no mundo . A fome infantil na África poderia ter acabado em 2009 porém continua firme e forte. Chegaram a precificar o custo para acabar com a fome naquele continente, custava menos que o montante doado pelos USA aos bancos em 2008, depois que o estelionato aplicado no Mercado durante anos fez água. Os USA tiveram de socorrer os Bancos, evitar que quebrassem porque estamos a um passo do triunfo do amado livre mercado dos neoliberais, mas quando o dinheiro acaba velhos e novos liberais correm para o colinho do Estado, como estamos cansados de saber. Não sobrou dinheiro para as crianças, coitadinhas. Para isso existe a caridade. Que agora não se limita a dar peixinhos mas insiste que todos devem pescar. Como se ninguém percebesse que a caridade, tantas vezes,  saca esmolas do dinheiro que foi ganho tomando a vara, privatizando o lago e envenenando com pesticida a terra e as águas dos pobres. Ou como se não percebêssemos que o terceiro setor , na maior parte das vezes, apenas reproduz a ineficácia e a ineficiência da caridade para acabar com a pobreza. Aliás o terceiro setor, no médio e no longo prazos, pode ser muito bom para agravá-la. E para dizer que não citei um caso emblemático. Um dos homens mais ricos do mundo, Mr. Gates resolveu levar uma “revolução verde” para África. Sua revolução pessoalmente concebida colocaria todos os agricultores a plantar, ganhar dinheiro e melhorar a sociedade que viviam. Oitenta por cento do dinheiro doado para a ação acabou ficando nos USA e UE e estes não ignoram a vantagem de se tornarem fornecedores de insumos ( sementes e químicos) para a África, estrangulando as iniciativas dos pobres locais. Se melhorarem a agricultura tradicional e avançarem para uma economia não dependente de tecnologias que não dominam, sustentável no longo prazo, onde os institutos de pesquisa e indústria química dos ricos vai sacar clientes? O pouco dinheiro que chegou aos países africanos produziu ainda o efeito colateral de acirramento da luta pela terra. Com agricultores pobres e miseráveis sendo mortos pela ambição de seus compatriotas que querem ser ricos como o Mr. Gates custe a vida de quem custar, renova-se a confiança no velho ditado que diz que de boas intenções o inferno está cheio.

Todos os dias ouço alguém dizer, “o que está acontecendo com o ser humano” ? Não tenho a presunção de saber a resposta. Vejo muitos culparem a política pela maior parte das mazelas do mundo e acho que devem ter razão. Que a Política seja culpada, o testemunham nossas desgraças. O número insuficiente de seres humanos à altura de fazê-la funcionar na sua melhor forma nos envergonha como espécie. Sua falha é mortal porque é a guardiã da nossa impotência. Sem ela avançamos para a guerra de todos contra todos. Quando ela falta não conseguimos nos organizar – com ou sem Estado. A Política triunfa como arte quando consegue harmonizar contrários, negociar palavras e ações e evitar que  o choque entre diferentes interesses no interior da sociedade cheguem ao ponto do conflito armado. Tudo que desejam aqueles seres humanos que renunciaram ao ódio atávico, à ferocidade trazida do nosso passado de besta fera entre bestas feras é que a Política triunfe, se torne arte de domínio público, com mais e melhores práticas, com mais e mais pessoas capazes de pensá-la. Qualquer pessoa bem alfabetizada sabe que a Política pode ser a arte de negociar consensos, firmar compromissos e evitar as guerras mas que também pode ser usada para promover o massacre dos fracos pelos fortes, a devoração dos menores pelos maiores, o incremento da doença, do ódio, da morte. Ela não tem nada a ver, na prática, com amor, amizade, liberdade, igualdade ou fraternidade. Mas a Política, qualquer humanista percebe, está sempre grávida disso tudo aí.

O que está acontecendo com os seres humanos? Temos congressos, parlamentos, poderes executivos, legislativos, câmaras mundiais para todos os assuntos, realizamos todos os dias centenas de milhares de congressos, colóquios, encontros científicos, técnicos, diplomáticos, comunitários . Trocamos bilhões de mensagens por minuto através de redes sociais, internéticas, globais, totais sobre nossas conquistas, derrotas, nossos trabalhos, nossos ócios. E parece que todos estes eventos de comunicação tem por único objetivo assegurar que falemos de tudo, menos do principal: o sistema capitalista tornado sistema financista matou a Política e transformou o planeta Terra em uma imensa praça de guerra. Sua mentalidade predatória se infiltrou em todas as esferas da vida humana. Da naturalidade com que dizemos ” ah, não vou fazer isso aí porque não dá dinheiro”, à irresponsabilidade com que pessoas  adultas e bem educadas aceitem que os governos ajam apenas em prol do interesse do lucro sem fim, infinito, sem qualquer limite. Será que é isso mesmo ? O interesse das corporações mundiais e seus vassalos locais venceu, e agora tudo se dá como se dinheiro e lucro fossem coisas tão naturais quanto o vento que sopra ou a chuva que cai?

Como pudemos, nós, os que podem escrever, ler, compreender e debater assuntos como estes,  permitir que o interesse de lucro de uns poucos tomassem as rédeas dos governos e, ocultos pelo cobertor do Estado, obrigassem os mais pobres a sustentar seus interesses? Por que é que a parcela mais educada da sociedade continua a agir como se não soubesse as consequências do desespero de milhões?

Estes fantasmas, atuando dentro da máquina do Estado, querem o lucro infinito mas perderam a capacidade de imaginar como criar empregos. O dinheiro gera dinheiro dormindo dentro dos cofres. Multipliquem-se os soldados treinados a  atacarem os mais pobres como inimigos da ” pátria” quando apenas reclamam falta de  educação, saúde, trabalho e pão. Estes fantasmas contratam vassalos em jornada integral nos sistemas de comunicação eletrônica e impressa ecoando sua voz, defendendo o indefensável. Este 1% que continua lucrando, não importa o que aconteça com o resto da sociedade, estão determinados a impedir que a grande multidão e o pequeno exército com potência de pensamento e ação, possam trabalhar para que que a sua rua, a cidade, o pais , o mundo se tornem um lugar melhor para a maioria.

Como podemos permanecer passivos e admitir que o interesse de um por cento de seres humanos sem compromisso algum com a Humanidade roubem as vidas de bilhões é, para mim, o grande e único Segredo.

Eles tem dinheiro e todos precisamos de dinheiro é a resposta mais óbvia em um tempo que o Sistema nos obriga gastar a maior parte do tempo de nossas vidas a correr atrás do dinheiro. Mas você conhece muita gente que saiba como ele é criado?

Tanta gente alfabetizada, capaz de escrever, ler e debater textos como este não sabe responder esta pergunta. Como o dinheiro é criado? Como é que os governos brasileiros se tornaram endividados através da História? Como se tornaram fiéis aos bancos ao ponto de escolherem pagar juros de dívida a invés de escola para crianças? Pagar juros ao invés de tratamento para os doentes? Por que é que os credores dos governos não querem ser pagos em dinheiro mas sim com novas promissórias de dívida? Porque o Brasil estaria ” quebrado” ao dever 64% do seu PIB e os EUA não estariam, agora que devem 104% do seu PIB?

Não há tempo para a maioria fazer estas perguntas que dirá respondê-las. Afinal, 100% dos brasileiros, podendo ou não  se ocupar disto está correndo atrás do ” que dá dinheiro”. Cerca de um milhão de pessoas do total de 210 milhões de brasileiros conhecem muito bem o segredo que dá dinheiro. Faz parte do trabalho deste 1 milhão de pessoas se ocupar de qualquer coisa desde que esteja garantido que o maior número possível de pessoas não saiba como o dinheiro é criado, o que determina o volume em circulação, como e quem determina isto. Que nunca a maioria saiba como se produzem as dívidas públicas e a quem elas interessam é fundamental para os que fazem fortuna com ela. O que quer dizer gasto e o que quer dizer investimento, quando se fala de finanças públicas, é uma ignorância fundamental para que as pessoas fiquem feito bobas, imaginando que o papel do governo na economia deva ser o mesmo que de um administrador doméstico assalariado.

Estava colocando o ponto final e o celular apita mais uma notícia. O Governo Federal cortou o Programa Nacional de Combate ao Analfabetismo. Faz sentido. Se duzentos e nove milhões de pessoas devem permanecer na ignorância para que este um milhão continue usufruindo dos saberes e privilégios que o dinheiro pode trazer, mais alguns milhões de analfabetos não vai fazer muita diferença.

Mas a sabedoria, como os endinheirados do Brasil demonstram, não é algo que o dinheiro consiga produzir ou comprar. Para os sábios do Brasil a oportunidade de fazerem diferença é esta.

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Cassandras


 

Kassandra-por-Vanessa-Soares-8

Não vou falar sobre impeachment, Dilma e Temer. Já fiz isso muito e cansei. E agora, ao que tudo indica, é tarde. Avisei várias vezes neste mesmo blog que uma coisa é ter direitos duramente adquiridos atacados pelo PT e pela Dilma, mesmo com ela aderindo ao programa de austeridade, como tentou de última hora. O PMDB e o PSDB serão muito mais agressivos, tanto nos cortes do ajuste, como no cancelamento de direitos trabalhistas históricos, como as reformas da previdência e da CLT que se anunciam já deixam claro. Avisei isso como uma Cassandra, e fui chamado por uns de petralha, e por outros de governista, por causa disso. Mas, como disse, deixa, por enquanto pelo menos, para lá. Vou contar minha ida ao teatro recente, em Brasília, que, mesmo sendo menos importante, pelo menos foi mais divertida.

É impressionante como comigo até uma simples ida ao teatro se torna uma aventura extravagante. Fui ver uma peça do Festival Internacional de Teatro de Brasília. Um grupo de SC, que faz apresentações em espaços não convencionais, estava montando a história de Cassandra (sim, a mesma do parágrafo de abertura deste texto) em uma boate de strip-tease no centro da cidade. Como não tinha ingresso (claro), cheguei com duas horas de antecedência para conseguir um na fila de desistências. Como ainda sou relativamente novo por aqui, não dimensionei que o local, o tal do Setor Comercial Sul, é o coração da crackolândia da cidade. Sem exagero, não passei nem cinco minutos sem que alguém muito detonado não viesse me pedir algo (geralmente cigarro). A área era tão degradada, que até os cachorros pareciam usar crack (sem sacanagem, tinha um que estava muito doido, se masturbando em uma mureta dessas que dá em jardim). Fazia até os lugares mais inóspitos do centro do Rio parecerem a Avenida Champs-Élysées.

Claro que tinha como piorar. Quando faltava “só” uma hora para o começo do espetáculo, chegou um sujeito e se juntou a mim na fila de espera. Um desequilibrado que começou a despejar sobre mim as suas experiências de encontros com discos voadores. Ele me contou histórias mirabolantes de OVNIs que mergulhavam na água e besteiras quejandas. O auge foi quando ele me confessou achar muito estranho que, apesar de ter visto discos voadores dezenas de vezes, ele nunca conseguira avistar nenhum alienígena nas janelas das naves. Minha cara de desespero, de tedio e a minha digitação frenética no celular não o intimidaram, e eu passei 50 longos minutos ouvindo toda a sorte de baboseira. Quase disse uma hora que ele estava na fila errada, que aquela era a fila do teatro, que a fila do crack ficava na esquina seguinte. Na verdade, meu desespero era tamanho que se ele pedisse, eu ia lá comprar uma pedra para ele me deixar em paz. Mas não. O maluco queria ir ao teatro mesmo.

Depois disso tudo, eu já estava pensando: melhor essa peça valer muito a pena, porque depois de duas horas dando pinta na crackolândia e aturando papo furado de disco voador, só o que me faltava era encarar teatro ruim pela frente. Mas de cara já tive a primeira surpresa desagradável da noite: a apresentação foi realizada em inglês, e até agora não entendi o que o espetáculo ganhou com isso. E essa não foi a única opção equivocada tomada pelo grupo. Escolheram uma abordagem cômica para contar a história de Cassandra, o que, evidentemente, pode ser válido. Mas me soou um tanto estranho colocarem uma Cassandra apaixonada pelo seu estuprador (Agamenon), ainda mais vindo de uma companhia que na sua apresentação diz “tratar temas contemporâneos”. Em uma época com tantas iniciativas de denúncias coletivas de violência contra a mulher, certamente não seria esse o recorte que eu escolheria.

A peça teve seu ponto alto quando Cassandra começa a reclamar dos autores gregos, como Eurípedes, todos homens, que a chamam de maluca. Ela tira um livro da bolsa (anunciando ser “As Troianas”), finge que vai começar a ler e começa a recitar de “The Winner Takes It All” do Abba. Eu acharia mais genial se ela de fato introduzisse o texto grego nessa cena, para debochar que fosse, mas enfim, funcionou bem desse jeito também. Fora isso, a peça se sustentou em uma imensidão bastante previsível de piadas sobre sexo (nada contra, só acho que é possível diversificar) e no inglês macarrônico, que tirou boas risadas da plateia, mas que, para mim, esconde uma certa falta do que dizer. O perdeu definitivamente a montagem foi texto, fraco e preguiçoso, que desperdiçou a ótima ideia do cabaré o excelente material que é a história de Cassandra.

Porque Cassandra é uma poderosa metáfora, dessas que são fundadoras da cultura ocidental. Sua capacidade de ver as desgraças que se aproximam, conjugada à sua incapacidade de mudar o curso dos eventos, tornam-na a própria imagem da impotência. Os seus gritos e os lamentos das troianas ecoaram pelos corredores do tempo, sem exageros, da Antiguidade até os nossos dias. Temos o direito de modernizá-la, é claro, e de fazermos o que quisermos com ela. Como metáfora fundadora, ela pertence a todos, e é legítimo se apropriar das suas tragédias para levantar questões que na Grécia sequer eram cogitados. Mas essa história tão potente está acima da capacidade de manejo dos envolvidos nessa produção quase infeliz que assisti, na quarta, no dia do impeachment de Dilma Rousseff. Em suma, trataram-se de ambições demasiadamente grandes para a capacidade do autor do texto.

E é justamente daí que vem a minha última (juro) reclamação. É claro que não existe uma lei exigindo isso, mas é uma tradição que peças teatrais dialoguem com o momento histórico. É essa capacidade do teatro, de responder ao que acontece no exato instante, na rua, que o torna infinitamente superior a artes menores como o cinema (brincadeirinha). Raramente vi bons espetáculos que não inserissem algum comentário sobre os acontecimentos da ordem do dia. Não que eu esperasse ouvir um “fora Temer”, mas achei muito estranho um grupo de teatro deixar um momento histórico como o que vivemos passar em branco.

No mais, que semaninha…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A rede


 

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Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

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O ouro é dela e ninguém tasca


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Nesses primeiros dias de jogos olímpicos no Rio de Janeiro, uma mulher, negra, da Cidade de Deus e gay assumida conquistou a primeira medalha de ouro do país nesta edição dos jogos. Um feito, sem dúvida. Mas a sequencia de eventos foi por demais desconcertante. Surpreendente foi ver as mais variadas nuances políticas e ideológicas se apropriarem, para os seus devidos fins, da linda vitória de Rafaela Silva no judô. Foi curioso, e ao mesmo tempo constrangedor, ver até mesmo discípulos do Bolsonaro se apropriarem da vitória de Rafaela para venderem a sua, muito entre aspas, “ideologia”. Mas, se pensarmos bem, de certa forma, nada de novo.

Esportes, assim como tudo mais na vida, não têm nada de neutro. Os seus (bons) resultados podem ser arrastados de um lado para outro para justificar praticamente tudo. Hitler tentou usá-los para demonstrar a supremacia ariana. Esbarrou nos negros atletas americanos iniciando a sua organização política para se emancipar do sistema apartheidista das leis Jim Crow e se deu muito mal (30 anos depois, os Panteras Negras viriam a brilhar em olimpíadas, de uma maneira ainda mais política, organizada e emocionante, mas no mesmo sentido).

Como dizia a alta malandragem das escolas cariocas da década de 1980, agora parece que querem “tarrar” a medalha da Rafaela, atribuindo-a ao Brasil, às Forças Aramadas, à meritocracia, ou a qualquer outra coisa. Mas, de todas as apropriações estapafúrdias, a pior foi a feita pelo discurso da meritocracia. Entre memes equivocados de facebook e observações do Galvão Bueno sobre a “capacidade de inclusão social do esporte”, todos fingem ignorar que igualdade de condições não existe. Ayn Rand é um produto da cultura anglo-saxã que por lá mesmo pouco se aplica. Aqui, serve menos ainda. A mobilidade social, via esporte ou qualquer outra via, é uma ilusão de vitrine do capitalismo. É uma porta estreita pela qual poucos passam. Ainda assim, não faltaram comentários sobre como a moça, coitada, não necessitou de incentivos do Estado, esse Leviatã, para lavar para casa o seu ouro.

Vi postes lembrando que Rafaela foi militar da Marinha, entre as várias coisas que ela, como qualquer ser humano, em sua vida multifacetada, foi. E praticamente atribuindo a sua vitória aos supostos incentivos que ela teria recebido dessa Instituição. É sério isso? A Marinha sempre foi a mais aristocrática e racista das Forças Armadas. Não é à toa que foi de lá que veio a maior insurreição militar da história do Brasil, a Revolta da Chibata.

Porém, e isso é o mais perturbador, as loas acabaram quando veio a público que ela, além de gay, sustenta uma relação afetiva com uma menina há três anos. Aí os seus problemas começaram. De heroína da Marinha e da livre iniciativa, os bolsocomentários das redes sociais adquiriram contornos de uma agressividade singular. Claro. Esperável. Infeliz e contraditório como só o Brasil consegue ser. Pobre? Ok, se a pessoa ganha uma medalha nas olimpíadas. Negra? Ainda vai, se isso servir ao discurso de que com esforço pessoal chegaremos lá. Lésbica? Aí já é demais! Manda a mina rápido para a crucificação antes que ela sirva de exemplo para outras mulheres. De heroína nacional a “Geni e o Zepelim” em menos de 24 horas. Isso deve ser um recorde olímpico.

 

Rafaela Silva já pode processar todo mundo (inclusive a mim) pelo sequestro moral da sua história, se é que isso existe. As lições mais importantes de Rafaela têm pouco a ver com judô. Elas nos mostram o quanto ainda temos que evoluir como sociedade. O quanto somos racistas, machistas e homofóbicos.

 

O duvidoso legado para a cidade

 

Meu problema com essas olimpíadas em si não se diferencia em nada do problema com a copa do mundo. Além das remoções que muito sofrimento já trouxeram para a população, o que vai ficar para a cidade? Até agora ganhamos a inflação mais galopante do país e dos últimos tempos. Também, recebemos uma imensidade de obras superfaturadas e coladas a cuspe (tanto que muitas despencaram antes da estreia). Elas servirão para alguma coisa? O prognóstico não é animador. Vi recentemente uma série de fotos mostrando o abandono de estádios e estruturas de cidades olímpicas em outros países. São chocantes as imagens de Pequim e Atenas, por exemplo, em que você vê estádios majestosos e vilas olímpicas completamente abandonados. Parques aquáticos imensos e vazios (no Rio, imagino aquelas piscinas se tornando repositórios de mosquitos – a dengue agradece). Eram estruturas faraônicas demais, ou então redundantes, de manutenção cara para estruturas desnecessárias, e que portanto não foram incorporadas à vida orgânica das cidades onde estão instaladas. Sua construção só pode ser justificada pela corrupção e/ou beneficiamento do setor de construção e do capital (até agora, o único que saiu de fato vitorioso dessa história toda).

No mais, vejo muitos amigos se divertindo acompanhando os jogos. Por vocação e formação, tenho poucas inclinações para policiamentos. Como se diz por aí, “Boa noite pra quem é de boa noite, e bom dia pra quem é de bom dia”. Divirtam-se. Eu não consigo. A alegria do militante é o futuro.

 

 

 

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