É dia de salvar as aparências da democracia (convocação para o ato de hoje da Cinelândia) – e uma notinha inevitável sobre a Palestina


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Como todos sabem, vivemos em novo estado de exceção no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, decorrente da reação violenta por parte do Estado desde o início das mobilizações populares que tomaram o país a partir do ano passado. Tal processo de acirramento das lutas conheceu seu novo auge com a prisão, há umas três semanas, de diversos manifestantes apontados como “lideranças anarquistas” (você não leu errado, é isso mesmo), em um processo criminal que já entrou com louvores para a história das farsas jurídicas.

Ninguém com um mínimo de inteligência e de pensamento crítico ignora que a maioria da população brasileira vive em eterno estado de exceção, nas favelas, nas aldeias indígenas, nas periferias e demais “zonas especiais de exclusão da democracia” do capitalismo periférico. Todos os movimentos sociais que encamparam a luta das ruas, desde o ano passado, têm aguda consciência disso. E têm, na medida de suas possibilidades, tentando combater essa ditadura cotidiana seletiva a que a maioria das pessoas é submetida: seja na insistência da campanha “cadê o Amarildo”, que traz a questão dos desaparecidos da democracia; seja lutando contra as remoções, o aspecto mais nefasto da realização dos chamados “grandes eventos” (grandes farras do capital, isso sim); seja na militância cotidiana voltada à denúncia dessas condições, à assistência jurídica dos atingidos pela violência do Estado e etc.

No entanto, a prisão de uns poucos, como veremos, está encetando a perseguição de muitos. Surpreendentemente, o Instituto de Defensores dos Direitos Humanos, rede de advogados ativistas que defende manifestantes, foi taxado pela Polícia Civil de “nave mãe” dos inacreditáveis 80 grupos investigados no inquérito (mando a lista ao fim), e teve, sob essa desculpa, seus telefones grampeados pela polícia. O perturbador é que o IDDH defende, além de manifestantes, vítimas da violência do Estado em favelas (são os responsáveis pelo acompanhamento da família do Amarildo, por exemplo), ou seja, a polícia está grampeando o escritório de advocacia do pessoal que investiga e denuncia assassinatos cometidos pela polícia. Desnecessário dizer que isso é gravíssimo. Isso põe a vida de testemunhas em risco, por exemplo, um escândalo que, é claro, não recebe a menor menção nas páginas dos jornalecos porta-vozes da direita histérica, como o Globbels. Perigosas são a Eloisa Samy e a Sininho, a polícia é doce e inofensiva. É evidente que as manifestações estão sendo usadas, mais uma vez, para justificar o aumento da repressão em áreas que não têm rigorosamente nada a ver com elas.

O número e a qualidade das organizações e entidades criminalizadas nesse inquérito (sob o beneplácito da “nave mãe”) tornaria-o risível, se não fosse o estrago bastante sério que essa palhaçada está causando na vida de muitos. Observem que, além dos grupos e dos sindicatos que estão à frente das manifestações e/ou greves dos últimos meses (ano), há dezenas de grupos culturais ligados a favelas, de advogados ligados à defesa dos direitos humanos da população dessas áreas, fora o Complexo do Alemão (sic) que aparece como um todo. Criminalizaram a própria carência e todos os grupos que lutam pela defesa e a inclusão dos moradores das áreas mais pobres da cidade. Há uma tendência igualmente inexplicável para perseguição a grupos feministas e de defesa dos direitos da mulher, como a Marcha Mundial das Mulheres.

A outra péssima notícia da semana é a reorganização do infamante Centro de Informações do Exército (CIE). Proposto ao Castelo Branco pelo Costa e Silva, o projeto foi engavetado, pois o primeiro general presidente da ditadura militar considerou-o gorilesco demais. Quando Costa e Silva, personagem ligado à linha dura dentro do golpe, assumiu a presidência em 1967, uma das suas primeiras medidas foi o estabelecimento do CIE, para realizar os seus sonhos de policial tarado. Daí em diante, a ficha corrida do Centro é bem conhecida: infiltrações, tortura, troca de informações e de presos com ditaduras vizinhas, contato com a CIA, censura política, censura aos meios de comunicação e formação de um grupo terrorista de direita em seu seio (o chamado grupo secreto). Não sou daqueles que crê em um golpe militar no horizonte próximo. Diferentemente de 1964, o capital internacional não está em risco no país. Naquela época, João Goulart tentava a aprovação de uma Lei de Remessa de Lucros no congresso, o que limitaria a evasão de capital do país. Hoje, no dizer orgulhoso de certos economistas e na visão do sistema financeiro internacional, o Brasil é o “aluno aplicado”, que fez a lição de casa e “respeita os seus compromissos internacionais” (leia-se, paga horrores de juros para banqueiros e não interfere no caminho de entrada ou de saída do capital especulativo). No entanto, essa reorganização do CIE somada à reativação da Quarta Frota da marinha americana, em 2008, pelos EUA (a que “cuidava” do Atlântico Sul e que viria em socorro aos golpitas de 1964, caso houvesse problemas – operação “Brother San”) não podem trazer boas lembranças para ninguém.

Por fim, nossos companheiros ainda não estão seguros de maneira nenhuma. Ontem, o Ministério Público recorreu contra a concessão dos Habeas Corpus, como foi anunciado pelos jornais. Vindo da Globo, isso cheira a comemoração antecipada. Fora isso, devemos lembrar de que todos ainda respondem a um processo criminal, e devemos todos reivindicar o seu arquivamento. Chegamos ao ponto em que a “democracia”, dando uma de general João Figueiredo, prende e arrebenta para garantir… a própria democracia. O ato de hoje, portanto, é essencial para não darmos mais passos atrás do que já temos dado. Ele foi organizado pelo Comitê Popular Contra o Estado de Exceção, que reúne atualmente mais de cem entidades, entre organizações, sindicatos, coletivos, partidos e todos os que se opõem ao autoritarismo e ao crime institucional. O Comitê funciona em plenária, o que significa que todas as decisões sendo tomadas em assembleia e sem direção. É aberto a todos e as reuniões acontecem normalmente às segundas no Sindsprev (a próxima é na segunda após o ato, em 4 de agosto). Para os interessados em agregar, segue o link:

https://www.facebook.com/events/790846367613875/?ref_newsfeed_story_type=regular

Uma notinha inevitável sobre a Palestina

Recentemente, Yigal Palmor, o porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel, se referiu ao Brasil como “anão diplomático”, além de utilizar diversos outros insultos nada diplomáticos, diga-se de passagem, devido ao fato de o país ter chamado o seu embaixador para consultas (trata-se de uma ameaça velada de ruptura de relações, o que, em todo caso, não vai acontecer). Muito burrinho esse porta-voz. Além de péssimo diplomata, não sabe nada sobre o Brasil. No lugar dele, eu mandaria o país parar com o genocídio dos seus índios, da sua população negra, dos seus homossexuais, das suas mulheres e dos seus transgêneros antes de ir aborrecer o genocídio dos outros. Aliás, dia 22 de agosto há justamente uma convocação para a Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro:

https://www.facebook.com/ReajaOuSeraMortoReajaOuSeraMorta?fref=photo.

No entanto, vale ressaltar, não se trata aqui de três adolescentes israelenses mortos por um foguete do Hamas. Trata-se da pura e simples aniquilação dos palestinos enquanto povo. Se você observar bem o mapa da Cisjordânia, aqueles pontilhados encravados no território de Israel não ficam nada a dever aos bantustões da África do Sul do apartheid – enclaves onde a população negra era obrigada a residir, de onde só poderia sair para trabalhar, nas áreas brancas, e com a apresentação de um documento equivalente a um passaporte interno, passando por verdadeiras fronteiras guarnecidas. É assim que os palestinos vivem, na Cisjordânia, hoje. A faixa de Gaza, onde ao menos há continuidade territorial, está fechada há oito anos, recebendo comida e medicamentos apenas passando pelo crivo de Israel, e passa agora por uma nova onde de bombardeios que matam basicamente civis não relacionados ao Hamas. Vamos lembrar que a pressão internacional contra a África do Sul na década de 1980 rendeu resultados até mesmo muito acima do esperado. Artistas, turistas, promotores de grandes eventos internacionais, presidentes que gostam de passear de avião, pessoas que vendem armas e etc. comecem pelo amor de deus a boicotar Israel.

A lista das organizações “terroristas”:

01) FIP Frente Independente Popular;
02) FIST -Frente Internacionalista dos Sem Teto;
03) FNT e Frente Nacional dos Torcedores;
04) GLP – Grupo de Lute dos Petroleiros;
05) MEPR Movimento Estudantil Popular Revolucionário;
06) MFP – Movimento Feminin@ Popular;
07) MRP – Movimento de Resistência Popular;
08) OAT L Organização Anarquista Terra e
Liberdade;
09) Oposição de Resistência Classista (ORC);
10) RECC » Rede Estudantil Classista e Combativa;
11) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
12) Universidade Indígena Aldeia Maracanã;
13) UV Unidade Vermelha;
14) Dia do Basta’,
15) Ocupa LAPA;
16) Ocupa Câmara; 1
17) Ocupa Cabral;
18) Anonymous Rio;
19) Black Bloc RJ;
20) Mídia Ninja;
21) Coletivo Mariachi;
22) Coletivo Calisto;
23) Coletivo Rebaixada;
24) Coletivo Tempo de Resistência;
25) Coletivo Desentorpecendo a Razão;
26) Coletivo Rosa dos Ventos;
27) Coletivo Vinhetando;
28) Coletivo Projetação;
29) Coletivo Margaridas Urbanas
30) Coletivo SUBURBAGEM;
31) Coletivo Das Lutas;
32) Coletivo SerHurbano;
33) Coletivo Inimigos do Rei;
34) Coletivo VÖ Pixá Pelada;
35) Coletivo PACAL;
36) Coletivo PaguFunk;
37) Instituto Raízes em Movimento;
38) Alemão de Noticias;
39) Complexo do Alemão;
40) Jornal Voz
das Comunidades;
41) Mulheres de Atitude – AMA;
42) Barraco #55;
43) Descolando Ideias;
44)APAFUNK;
45) Porque ou
46) Favela não Se Cala;
47) Fórum Social de Manguinhos;
48) Fórum Rode da Juventude
49) Favela em Foco
50) Norte Comum;
51) Observatório de Favelas;
52) Observatório de Conflitos Urbanos;
53) Fala Roça;
54) Marcha Mundial das Mulheres – MMM;
55) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
56) Rio Na Rua;
57) Grupo Teatro da Laje
58) Surbanitas;
59) Núcleo Socialista da Tijuca;
60) Linhas de Fuga;
61) Fórum Popular de Apoio Mútuo;
62) Movimento Direito pra quem DPQ;
63) Arteiras;
64) Rede de Instituições do Borel;
65) Ocupa Borel;
66) Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja);
67) Mídia Independente Coletiva MIC;
68) Tem Morador;
69) Suburbano da Depressão;
70) Movimentos Cidades Invisíveis;
72) Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia,
73) Favela não se cala
78) Sindsprev
79) Sindpetro
80) SEPE

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100 dias nas Filipinas – Parte II


por Andressa Maxnuck

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Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkok e que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividi a narrativa em duas publicações: previamente a esta foi publicada uma Parte I.

OCIDENTE/ORIENTE

De fato a globalização fez milagres no sentido da homogeneização de hábitos e de gostos entre povos. Mas ser uma brasileira na Europa é bastante diferente de ser uma sul-americana no Sudeste Asiático. Pra começar, eu era a mulher mais alta do país – do topo dos meus reles 1,67m (era frequentemente indagada se no Brasil todo mundo era alto como eu – adorava!). Em segundo lugar, o português é absolutamente estranho aos ouvidos filipinos: certa vez me perguntaram em um café se eu era italiana. Ao responder que era brasileira, a moça, quase tendo descoberto a roda, disse: “ah, então isso que você tá falando é espanhol!” Na verdade, fiquei até feliz com o reconhecimento aproximado – em geral, as pessoas me ouviam falando e me miravam com o olhar mais exótico do mundo (pra quem acha absurdo/improvável que não se possa confundir português com italiano ou com espanhol, experimente distinguir tagalog de coreano ou de mandarim).

Outra questão é que, visualmente, você é ocidental. Peruanos, noruegueses, franceses: todos estão no mesmo saco. Se você não é oriental, você é ocidental – e, por tabela, rico. Em Manila, não tinha quase qualquer problema em ter “a cara da riqueza” – ao contrário, os filipinos são dos melhores povos que já conheci e sempre me tratavam de forma carinhosa, educada, cooperativa. Mas, quando ia pro circuito turístico, virava praticamente representante do Fundo Monetário Internacional: preço dobrado, assédio, gorjeta. Eu, que sempre fui turista-de-terceiro-mundo, não gostei muito dessa valorização repentina.

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Propaganda de creme clareador

PADRÕES ESTÉTICOS

Nas Filipinas – e, no Sudeste Asiático em geral, segundo descobri – há uma obsessão por clareamento da pele (penso que na mesma proporção da fissura sul-americana por pele bronzeada): são hidratantes, sabonetes, cremes para o rosto, sessões em salões de beleza. Conforme observei quanto à língua (que a verossimilhança com acento do inglês norte-americano tendia a ter implicações de classe econômica), há uma aparente divisão entre tom de pele e estrato social: os de pele mais clara costumam ser mais privilegiados, os de pele mais escura, menos – como sói ser, aliás, em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. Atores, modelos, apresentadores costumam ter a pele mais branca, ditando o padrão de beleza. Achava inusitado, porque penso que a pele mestiça é o que torna os filipinos – e também os tailandeses – mais bonitos aos meus olhos em comparação com outros asiáticos, mas, enfim: devo ter lido muito sobre o Mito das Três Raças, do Darcy.

Para evitar a exposição aos raios solares usa-se, corriqueiramente, guarda-chuva nas atividades ao ar livre. Tentei comprar um guarda-sol oriental, pra ficar com pinta de local, mas não encontrei em lugar nenhum: talvez se trate de uma invenção ocidental para a nossa ideia romântica de Oriente. No mais, sem renegar minhas origens, quando ia à praia/piscina investia, como de costume, na melanina, e ficava estatelada qual uma cobra sob o sol do meio dia – enquanto na areia/clube ficava todo mundo embaixo da barraca, de manga comprida e de sundown.

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Os filipinos se protegem sob a sombra de um guarda-chuva

SALÃO DE BELEZA

Passados poucos dias no país, achei que já era tempo de recobrar a dignidade e decidi realizar atos de higiene e de estética. Cheguei ao salão filipino e encontrei no cardápio de depilação: Brazilian Wax. Que se tratava, nada mais, nada menos, de deixar a bichinha 100% calva. Dá um especial sentimento de patriotismo ser nacional de um país que é conhecido internacionalmente por design de virilha.

A manicure/pedicure pinoy (*filipina) tem algumas diferenças, quais sejam: – elas não fazem as “mãos” e os “pés” por etapas (primeiro cutícula, depois base, depois esmalte dos dois membros, em cada uma das etapas): elas fazem uma mão inteira, depois a outra mão inteira, o pé direito inteiro, depois o esquerdo inteiro; – elas não usam pauzinho de laranjeira: as manicures têm as unhas dos dedos polegares maiores pra fazer a limpeza do excesso de esmalte!!; – rola uma massagem e um estalar de dedos no processo (maravilhoso).

MASSAGEM

Definitivamente a melhor coisa da Ásia é o acesso – seja em termos de possibilidade econômica, seja em termos de disponibilidade a cada esquina – à massagem. Isso é muito, muito maravilhoso. Me sentia totalmente Akeem (Eddie Murphy) em Um Príncipe em Nova York (“Coming to America”, em inglês – meu filme preferido, aliás, conquanto eu ame muito o Kubrick e o Truffaut), como uma monarca cercada de cuidados. Milhares de lojas de massagem pela cidade inteira. Massagem com óleo, sem óleo, sueca, tailandesa, corpo inteiro, só os pés. Tudo isso pela bagatela de 250 pesos filipinos (o correspondente a R$12, mais ou menos). Eu ia toda semana e ficava mais feliz ainda ao pensar que acabara de me proporcionar o nirvana ao custo de uma garrafa de meio litro de Skol. Deus não é brasileiro coisíssima nenhuma: Deus é filipino, tem olhos puxados e fala tagalog.

SERVIÇOS

Nunca fui tão bem tratada na vida. Como mencionei acima, os filipinos são muito queridos, muito amáveis. Quando há uma relação de consumo então, essa educação e solicitude se exacerbam. Até São Paulo virou paradigma baixo nível.

Eram situações como: 1) adentrava a padaria de manhã e era saudada com um “bom dia” sorridente pelo padeiro, pelo caixa, pelo faxineiro, pelo segurança; 2) passava na porta do restaurante aonde havia almoçado dez horas antes e era saudada pelos garçons; 3) saía do banheiro público e ouvia um “obrigada, senhora, volte sempre!”; 4) tomei um capuccino na cafeteria e a atendente me perguntou “senhora, esse vai ser seu pedido nas próximas vezes, pra eu memorizar?”. Isso é inimaginável no Rio de Janeiro, aonde você tem de implorar de joelhos por um chopp para aqueles tradicionais garçons mal-humorados – o que costumamos achar a marca da descontração carioca.

CINEMA

A indústria cinematográfica norte-americana é dominante nas Filipinas: os filmes, com áudio inglês, não costumam ter legenda em tagalog. O cardápio costuma ter aqueles roteiros com explosão de Casa Branca, drones, 7a Frota, silos nucleares e o diabo-a-quatro. Um sexo-drogas-porrada-no-México do Oliver Stone é o máximo de indie movie que consegui encontrar. Tentei ver um filme filipino, mas ele não tinha legendas em inglês.

Diante da velha história de mexicanos, negros, vietnamitas, árabes and so on retratados no cinema como vilões, achei que, estando no Sudeste Asiático, testemunharia um sentimento de solidariedade filipina ao verem, mais uma vez, orientais como terroristas. Pois, não: no filme pirotécnico a que assisti, a plateia vibrava a cada virada do governo norte-americano – especialmente quando o agente estado-unidense virava-se pro norte-coreano e o coagia com um “speak English, man!”. Realmente não entendi nada. Quer dizer, entendi uma coisa: ganham os EUA quatro vezes – com a renda do cinema, com a reafirmação do hegemon, com o marketing do terror e com a cooptação de mais aliados.

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Filmes em cartaz nas salas do cinema Glorietta

SEGURANÇA

Me sentia muito segura em Manila – e não só no Leblon, Makati, onde morava, mas também em Madureira, Quezon City, onde trabalhava. Aliás, é muito raro eu não me sentir segura fora do Rio.

Mas algumas situações me chamavam a atenção. Primeiramente, não era comum eu vislumbrar agentes de segurança pública: via-se muito segurança privada. Além disso, o tamanho dos trabucos que os seguranças carregavam era de impressionar o dono-do-morro – sobretudo em um contexto, ao menos visual, de paz (penso que isso tem muito a ver com o soft power americano no país, e com a decorrente incorporação do sentimento de “estamos sendo atacados” estado-unidense).

Outra coisa curiosa era a revista na entrada de qualquer centro comercial ou shopping center: detectores de metal e abertura de bolsas. Juro que nunca me passou pela cabeça alguma ameaça de ataque terrorista – mas eles devem lá saber o que fazem. Não me opunha a abrir a minha bolsa para conferência, mas era, com frequência, dispensada pelo segurança. Devia ser a minha cara de ocidental.

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Revista na entrada do Mall of Asia, o maior shopping da Asia

De tudo o que vivi e relatei, pude me certificar de que mudar de país não é apenas fazer uma transferência geográfica e apertar a tecla SAP. É reaprender a viver. Aprender a cortar com garfo e colher. Descobrir qual o caminho do metrô. Aonde consertam sapato. Como se chama água oxigenada.

É viver intensamente momentos que, normalmente, são automatizados: a ida pro trabalho, pro supermercado, a leitura do cardápio. É se impressionar com a pobreza alheia, depois de ter-se acostumado com a miséria na porta da sua casa, na sua própria cidade.

É receber estímulos visuais e psicológicos 24 horas por dia, 7 dias por semana.

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Produção cinematográfica filipino-britânica: Metro Manila, de Sean Ellis.

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Embora seja uma produção cingapurense, Ilo Ilo (nome de uma província das Filipinas) retrata uma situação muito comum, a das filipinas que migram para trabalhar como empregadas domésticas em outros países

 

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Major Caveirão, Rodriguinho e Lady Vingança


 

lady vingança

 

 

Rodrigo Bethlem, apaniguado e partidário de Dudu e Cabral, enviava mensalmente pra ex-mulher 20 mil em notinhas de garoupa. A ex sabia que de onde vinha aquela grana tinha muito mais. Não gostou da mendigaria do ex e colocou a boca no trombone, no trompete e chupou cana ao mesmo tempo. Gravou as conversas do magano e saíram da cartola conta na Suíça, propina de 85 mil por mês, caixa dois de campanha, envolvimento com milícia e outras traquinagens que o coelho ainda esconde na cartola.
Rodriguinho era conhecido como Xerife do Rio por mandar a Guarda Municipal descer a porrada em camelô no Choque de Ordem. Tinha também como diversão acompanhar a correria dos usuários de crack pelos subúrbios do Rio e submetê-los à internação compulsória. Foi nessa onda de terror que ele se uniu ao major PM Sérgio Magalhães, miliciano manjadíssimo na Zona Oeste, conhecido como Xerife de Magalhães Bastos. Um dos matadores mais aguerridos da honorífica puliçada militar da cidade de São Sebastião. Os dois xerifes transformaram a Secretaria de Assistência Social em tetas mamadas e sugadas. O major caveirão carregou 42 cadáveres durante os bons serviços prestados nas fileiras da corporação militar. Muitos deles com balas na cabeça e no peito. Os ovos de ouro estavam nos contratos da prefeitura com a Casa Espírita Tesloo, criada pelo major para internar os dependentes químicos que Rodriguinho caçava nas ruas. As pilantragens sem licitação giram na bitola de 80 milhões.
Lady Vingança conhecia a galinha que chocava essa dinheirama. Quero ver investigarem as raposas que tomavam conta desses galinheiros chamados Palácio Guanabara e Palácio Laranjeiras.

 

 

A gaiola privada

 

Em agosto de 2013, um gigantesco protesto tomou a Cinelândia. Milhares de pessoas estavam revoltadas com a manobra política do prefeito e do Governador em relação à CPI dos ônibus. A comissão parlamentar era constituída apenas por vereadores da base governista. Nasceu morta e terminou morta.
Naquele dia senti que a população queria ver a Câmara dos Vereadores arder em chamas. Se o prédio fosse reduzido a cinzas, para a justiça do povo não haveria crime contra o patrimônio público, pois a Gaiola não representava um bem público. Não era ― como não é ― um bem de uso comum do povo. Aquele edifício cometia a ignomínia de representar interesses privados de forma descarada diante de uma população que se rebelava contra a degradação da mobilidade urbana. Nesse sentido, a Câmara dos Vereadores não simbolizava o patrimônio público, pois não era um conjunto de bens e direitos que deviam pertencer a todos. Encarnava uma entidade que representava o interesse de determinados grupos privados.

 

 

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Imagina em agosto… (Ou Fujam pras colinas, Sininho tá aa solta! Ou será a Dilma?)


Que julho brabeira! Uma ruptura com a aura de lirismo que, habitualmente, cerca esse mês. Mas, caso você seu natalício seja em julho, não boicote este texto. Nada pessoal. Tampouco se você é fruto do mês cuja rima -convenhamos, paupérrima- é com desgosto, segundo o dito popularesco.

Mas, voltando ao tal julho, tá fácil não: mortes em série  na literatura brasileira (a Feira Literária do Céu deve estar fervendo), prisões de todo descabidas num brutal ato de intimidação antiprotestos no mais assustador estilo órfão-nostálgico da Ditadura, o massacre genocida em Gaza que já ceifou mais de oito centenas de vidas numa reedição grotescamente irônica de ódio belicosamente racista, justamente por parte de quem já foi Davi, mas hoje se faz Golias inclemente.

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Este julho decididamente não tá fácil!

Há aqueles que tresloucadamente ainda incluiriam o “Mineiraço” (na tentativa de analogia com o termo Maracanazo, com o perdão aa língua alemã). Mas, claro que nem levo isso a sério, afinal, como já disse alhures, não me chateei nem um pouquinho com o 7 a 1. Muito menos vou fazer como certo caso de acefalia funcional que comparou o resultado futebolístico ao ataque dos aviões ao World Trade Center.

Tampouco, hei de incluir nas tragédias de julho a colocação do Mengão no Brasileirão, já que é meramente episódica. Agora, a volta do Brasileirão em si, bem que podia ser contabilizado aí. Depressão pós-Copa!

Ainda houve, neste mesmo julho, o ingresso da ditadura sangrenta de Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o que mancha essa iniciativa. Desnecessário, economicista, forçoso, deprimente! Como amante da causa lusófona, me envergonho profundamente.

sininho

A sanguinária Sininho livre! Todo cuidado é pouco!

E o avião derrubado, apinhado de especialistas em HIV?! Por muito menos, a 1ª Guerra Mundial se iniciou. Ao que parece, Vladimir, czar da próxima Copa do Mundo de futebol, está Putin mesmo. Há quem tenha acusado a Dilma por isso, já outros suspeitaram de Elisa Quadros, a Sininho, a mais perigosa e famigerada terrorista-anarco-satanista da história da América Latina. Quem garante são as fontes confiabilíssimas da Globo, juizado e promotoria autoinstituída do Estado do Rio de Janeiro, com acesso irrestrito a todos os segredos de justiça: um bebum que ficou sem saideira por causa dos black blocs, um primo do vizinho do porteiro do transeunte que passava pela Saens Peña no ato da final da Copa, um X9 delator maldito miserento anônimo com dor de corno e a mais respeitável das testemunhas, então anônimas, o presidente norte-americano Obama , com seu arborizadíssimo esquema de escutas que só não dá ouvidos aos gritos palestinos.

cachorrinhos

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O grande desastre aéreo de ontem (Jorge de Lima) [por falar em verdadeiros imortais]

Para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

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Na verdade, não há sequer provas concretas de que Dilma e Sininho sejam pessoas diferentes. O mais possível é que sejam, afinal Dilma & Sininho, ou vice-versa. O fato é que as duas jamais foram vistas juntas e, ao que tudo indica, são as grandes responsáveis por tudo o que há de mal. é só ver. Sarney, base de sustentação do governo Dilma, não morre, debochando de seus colegas literatos, imortais só em conotação. O mesmo Sarney é autor da emblemática obra da literatura brasileira intitulada “Marimbondos de Fogo”, uma vinculação óbvia aos planos malévolos de Sininho para pôr fim aa democracia e aa própria civilização ocidental.

Dentre tantos tormentos, atormentações e tormentas de julho, ao menos um fato salutar: os 75 anos duma das maiores inspirações contemporâneas. Um paladino de justiça e superação, em prol do bem comum. Um arguto combatente do Mal. 75 anos de Batman, sempre ao lado do povo!

batman- protestos

batman 75

Cidadão de bem, nada temamos! Estamos do lado direito (e como!). Nem Dilma nem Sininho, Deus é mais! Pela família! Contra o comunismo satanista-gayzista!

Mas, se for o Deus tal qual Suassuna o concebeu, danou-se pr’ocês, hein?! Ave, Suassuna! Do Sertão pra eternidade!

sininho dilmaDilma, inclusive, cínica e bizarramente, finge conivência com todas as ações arbitrárias perpetradas contra seu alter-ego Sininho e seus comparsas só pra não dar na pinta.

[Agradecimentos ao Luiz Constantino e ao Cláudio Barçante pela ideia conjunta de "fuga pras colinas" com o vídeo do Iron Maiden.]

P.S.: o perigosíssimo outro lado da moeda:

http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,traicao-amorosa-ajuda-policia-a-investigar-manifestantes-no-rio,1533578

P.S.2: muita vergonha alheia e desprezo, pela justiça e pela mídia. O sujeito em si, pra além de delator maldito, talvez seja um perturbado apenas: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

[Há um vídeo de pedido de perdão e declaração de amor aa Sininho rolando no youtube, mas me recuso a postá-lo aqui. É deprimente demais.]

P.S.3: Vale ler sobre isto, a quem desejar mais informações sobre o deprimente ingresso de Guiné Equatorial na CPLP: http://www.publico.pt/politica/noticia/a-memoria-deles-pode-ser-curta-a-minha-nao-1663865

 

 

 

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Estamos cercados


lutar

“Estamos cercados”. O taxista me alertou e imaginei-o tratando dos descontentes armados de cartazes acusatórios, receoso do perigo que eles poderiam representar. Não era o que ele queria dizer. Para minha boa surpresa, referia-se ao contingente policial que acompanhava os manifestantes favoráveis à libertação dos últimos presos políticos. Consciência assombrada por impedimentos vários, ele se referia à liberdade de expressão e à onipotência do Estado Panóptico da Nova Lei.

A efabulação resultante da associação entre o poder hegemônico e a falta de regulação da mídia traz a público uma versão falseada de terrorismo, associando-o à militância partidária. Ponto para alçar determinados interesses combatendo os opositores e legitimando-se a si mesmos ou a seus asseclas no poder legislativo ou executivo nas próximas eleições. Como acréscimo, a tentativa de aliar a tática black bloc à determinada legenda partidária, esforço crescente das autoridades e de certos setores da mídia desde o início das manifestações de junho passado.

Numa operação sem precedentes, apoiada por ação dita preventiva da justiça, a polícia civil do Rio de Janeiro prendeu 17 ativistas que, segundo as investigações, promoveriam o (batizado hiperbolicamente) Junho Negro, por ocasião do encerramento da Copa do Mundo da FIFA, sendo Sininho o Osama do grupo. Até o momento, não foram apresentadas as provas de que os protestos seriam impactantes ou potencialmente perigosos como afirmado.

Tamanha eficiência frequentemente não se encontra no cruzamento entre nossos três poderes constituídos e o quarto poder – a mídia. Afinal, que conste nos autos, até o momento não foi presa uma única pessoa responsável pela queda do viaduto em Belo Horizonte, não foram noticiados amplamente os rumos do julgamento do mensalão tucano, não foram apuradas com rigor as relações espúrias entre os governantes do Rio de Janeiro e as empreiteiras financiadoras de suas campanhas.

Some-se a isso a criminalização dos movimentos grevistas em todas as esferas da administração pública, estando a luta por direitos submetida aos ditames do bater de martelos de juízes com filosofia patronal.

O que se pode detectar diante de tudo isso? Uma tentativa de silenciar os inconformados, os que não se coadunam ao sistema, uma estratégia que busca simultaneamente o apagamento dos questionamentos e a reprodução de um comportamento cordato, respondedor de questionários. Penso na Droga da Obediência, de Pedro Bandeira. Penso no tratamento Ludovico, de Laranja Mecânica, nos precogs, de Minority Report. E percebo que nada disso é ficção. Estamos cercados.

Policiais cercam manifestantes armados

Policiais cercam manifestantes armados

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“Eu acuso”


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Incompetência é um perigo mesmo. Nos últimos dias, revelações estarrecedoras da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), informalmente conhecida como Delegacia de Repressão a Crimes Imaginários (DRCImg), apresentaram ao público provas sólidas (são as palavras deles) para incriminar as lideranças (também nas palavras deles) das manifestações violentas (idem) que perturbaram a ordem no Rio de Janeiro ao longo do último ano. As provas consistem em relatos de testemunhas desconhecidas (para proteção delas, dizem), em conversas telefônicas grampeadas autorizadas pela justiça e em bombas, materiais explosivos (gasolina, pólvora etc.), facas e uma arma de fogo apreendidos nas casas dos manifestantes presos há quase duas semanas. Os mandados de prisão foram expedidos segundo a firme convicção das autoridades de que os elementos criminosos realizariam ações violentas na final da Copa do mundo. Não esquecendo que entre as apreensões, constaram livros, bandeiras, cartazes e material de panfletagem de maneira geral.

Após a apreensão desse material, resta a pergunta: onde explodiram todas essas bombas? Quantas vítimas elas fizeram? Quem faz bombas, afinal de contas, tem alvos e uma agenda (fabricação de bombas por hobby, eu nunca ouvi falar). Era de se esperar que, uma quadrilha tão bem organizada como a que foi apresentada pelas reportagens da rede Globbels, com níveis hierárquicos definidos e distribuição clara de tarefas, já tivesse ao menos um atentado bem-sucedido no currículo, nem que fosse apenas explodir bancas de jornal, como já foi moda por aqui. Porém, não há. Nunca houve atentados a policiais com bombas de fabricação caseira nas manifestações, a não ser em casos claramente plantados pela própria polícia. Houve, também, o caso do cinegrafista, que terminou em morte e com prisão de dois manifestantes (em uma história ainda muito mal contada e com os dedos sujos da Globo por todos os lados). De resto, de concreto, umas poucas explosões sem maiores consequências, e o fato é que os manifestantes sempre saem perdendo. Já são mais de dez mortos desde que tudo começou, um sem número de feridos, alguns com lesões permanentes, e muitas prisões. Os ataques a policiais, que se suspeita serem praticados muitas vezes por provocadores infiltrados, foram realizados com rojões e artefatos do gênero, não com bombas.

Então, por que as perseguições a tantos ativistas ligados aos protestos iniciados no ano passado? No começo de tudo, a grande mídia apoiou os protestos, quando ela ainda cultivava a esperança de transformar tudo em um “fora Collor” muito ampliado e antipetista. Mas quando a direita organizada foi expulsa dos atos e os conservadores de maneira geral pularam fora da disputa pelo controle das manifestações que se seguiu, quem permaneceu nas ruas foram militantes de esquerda mais radicalizados, e o movimento evoluiu para greves trabalhistas e reivindicações coerentes e organizadas de movimentos sociais. Daí, a coisa mudou de figura, e a criminalização por parte da imprensa e do judiciário entrou em pleno vapor (a polícia, clarividentemente, já havia começado antes destes últimos). Os ativistas passaram a ser tratados como criminosos de alta periculosidade. E então todas as armas para desqualificar a voz das ruas passaram a ser válidas (e a serem empregadas). A escolha de Sininho para essa função demonstra essa mudança. Primeiramente, ela foi colocada para dar um ar de inconsequência juvenil e de pequena burguesia revoltada para as manifestações (a globbels chegou a chamá-la de “patricinha hipócrita” duas vezes). Na edição dessa segunda do jornaleco do grupo Marinho, ela foi apresentada como uma perigosa terrorista no topo de uma organização criminosa (editoria, por favor, decida-se). No dia seguinte, foi a vez de atacar os sindicatos que vieram de uma longa sequencia de greves (professores, petroleiros, garis) ligando-os a uma suposta rede de financiamento da violência em manifestações (em uma matéria envergonhante, intitulada “Conexão sindical”). Hoje, foi a vez do PSOL. A conveniência disso tudo é clara.

Ao contrário do que até mesmo pessoas de esquerda têm sustentado, não foram as táticas Black Bloc que, como previsto, serviram de instrumento para a direita criminalizar os movimentos sociais. A violência, como já disse aqui várias vezes, parte quase invariavelmente da polícia. Foi a polícia que esvaziou as manifestações, e ela o fez na base da porrada. A maioria das pessoas (não me refiro a leitores do Globo e da Veja) ainda apoia as manifestações, mas tem medo de continuar participando. A transformação das “lideranças” (vocês não sabem como é incrivelmente ridículo escrever esta palavra aqui) em terroristas é estratégia na verdade já batida, e usada aqui e acolá pelo mundo inteiro, sempre para desacreditar quem luta por mudanças sociais (fizeram o mesmo para desarticular o Occupy Wall Street): trata-se da transformação dos militantes em inimigos do povo, pelos verdadeiros inimigos do povo, via difamação programada. É evidente que essas prisões foram políticas, como a própria apreensão de livros não deixa de apontar.

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

O que é realmente apavorante para as classes dominantes nos manifestantes hoje presos e perseguidos é que, assim como os seus apoiadores, eles estão sobredeterminados na construção do socialismo, e na hora em que isso se transformou em alianças com setores mais amplos, como garis, professores e rodoviários, e foi-se desdobrando em ações práticas e diretas, como greves e a tentativa de abrir a caixa preta do transporte público na cidade, por exemplo, a repressão reapareceu na sua brutalidade mais crua. As pessoas estão sendo presas com base em declarações de testemunhas invisíveis, por crimes que não ocorreram e pela construção de bombas que não existem. As conversas das escutas transcritas para ilustrar as matérias do Globbels são constrangedoras por não provarem absolutamente nada. São conversas entre namorados, pai e filha, muitas vezes regadas à exageração juvenil dos próprios feitos. Há também, alega-se, uma interceptação de conversa em que um membro da FIP diz que “mataria um policial”. Bem, depois de ver, com meus próprios olhos, agentes do choque atirarem bala de borracha em mulher grávida, ameaçarem estuprar uma jovem da Aldeia Maracanã, abrirem a cabeça de uma amiga minha com cassetete entre centenas de outras proezas, eu poderia dizer que eu mataria TODOS os policiais do choque (caros poderes públicos, eu estou apenas ilustrando um ponto, não se emprenhem demais em mostrar que eu tenho razão, por favor).

O título “Eu acuso” vem da carta intitulada “J’accuse”, escrita por Émile Zola e publicada pelo jornal Aurore, em 1898, em defesa do oficial do exercito Frances de origem judia, Alfred Dreyfus, acusado de traição e responsabilizado pela derrota da França na guerra franco-prussiana (1870-1871). O caso Dreyfus foi uma armação grosseira de um governo corrupto e incompetente para justiçar uma derrota militar humilhante do começo ao fim. Na carta, integralmente publicada na primeira página do jornal, Zola acusa nominalmente os generais e membros do governo responsáveis pela farsa. Mas o que o caso nos ensina, é que uma imprensa de fato coerente, ética e independente pode ser o melhor aliado para derrotar uma injustiça cometida contra um indivíduo (e, claro, contra toda a sociedade). Não gozamos no entanto desse privilégio no Brasil, onde a grande imprensa (salvo honrosas exceções) é venal, corrupta, aliada aos poderosos e fortemente dependente do Estado (mesmo que ela critique um partido governista específico) via verba de publicidade, isenções, sonegações e diversos tipos de maracutaia e, portanto, está sempre contra os interesses do povo.

Diferentemente do Aurore, a nossa gloriosa imprensa cria as vítimas e as dá de bandeja aos governos, para que eles as usem para desmantelar as reivindicações da sociedade, venham elas de categorias profissionais, como professores, venham elas de movimentos sociais organizados, tradicionais ou não. Enquanto isso, as luzes se apagam à nossa volta. Escreve isso enquanto ainda posso, enquanto não é proibido, e esperando que os companheiros nos cárceres do capital estejam bem, e os foragidos, bem escondidos.

Da série “perguntas que não querem calar”:
1) Se o processo corre em segredo de justiça, a ponto de nem os advogados terem acesso a ele, como a Rede Globbels obteve, como ela mesma declarou, acesso exclusivo a ele?
2) Quem foi o imbecil que autorizou a Globbels a tornar públicas as gravações das escutas telefônicas SIGILOSAS de pessoas que ainda não foram julgadas e de pessoas contra as quais sequer há processo aberto?

OBS.: no mesmo dia da publicação deste texto, os manifestantes foram soltos. Segue um link de denúncia sobre o caráter da investigação e das provas apresentadas pela polícia. É constrangedor: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

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Bestiality Report — A nova lei


 

 

 

 

Shooting in Tottenham Hale

 

 

 

 

 

Patrimônio público?

Em agosto de 2013, um gigantesco protesto tomou a Cinelândia. Milhares de pessoas estavam revoltadas com a manobra política do prefeito e do Governador em relação à CPI dos ônibus. A comissão parlamentar era constituída apenas por vereadores da base governista. Nasceu morta e terminou morta.

Naquele dia senti que a população queria ver a Câmara dos Vereadores arder em chamas. Se o prédio fosse reduzido a cinzas, para a justiça do povo não haveria crime contra o patrimônio público, pois a Gaiola não representava um bem público. Não era ― como não é ― um bem de uso comum do povo. Aquele edifício cometia a ignomínia de representar interesses privados de forma descarada diante de uma população que se rebelava contra a degradação da mobilidade urbana. Nesse sentido, a Câmara dos Vereadores não simbolizava naquele instante o patrimônio público, pois não era um conjunto de bens e direitos que deviam pertencer a todos. Encarnava uma entidade que representava o interesse de determinados grupos privados.

 

Organizações Globo ontem e hoje

“O Ato Institucional número 5 está sendo tratado por alguns como caso de perseguição política. Balela. As forças armadas estão apenas cumprindo seu dever de salvar o país do comunismo.”

“A prisão da militante Sininho e outras pessoas (…) está sendo tratada como ato de repressão política. Balela, pois a prisão resulta de investigação policial, feita dentro da lei. O Estado apenas cumpre sua função de defender a sociedade de grupos violentos, sejam ou não movidos por ideário político-ideológico”.

 

Bestiality Report — A nova lei

A Delegacia de Repressão a Crimes Hipotéticos e Sonhados conseguiu rasgar a Constituição e instituir seu mundo totalitário. Nesse setor da polícia o futuro é visualizado antecipadamente por paranormais, os precops, e o manifestante é punido antes de sair às ruas.
O chefe de Polícia Civil do Rio, Fernando Veloso, o delegado Alessandro Thiers e o juiz Flávio Nicolau são os três precops que só trabalham juntos e flutuam conectados num tanque de fluido nutriente. Quando eles têm uma visão, o nome do manifestante aparece escrito numa pequena esfera. Também surgem imagens do protesto e a hora exata em que acontecerá.
Estas informações são fornecidas a uma elite midiática, que tenta denegrir a imagem das vítimas com a arte da manipulação. Mas há um dilema: se alguém é preso antes de se manifestar pode esta pessoa ser acusada de alguma coisa? Como poderia haver punição se o motivo da sua prisão nunca aconteceu?

 

Estado Policialesco

O Senado do Auriverde Pendão aprovou estatuto que garante porte de arma de fogo e poder de polícia a guardas municipais. Somente a Cidade Espetaculosa ostenta um efetivo de 8000 guardas civis que têm como maior recreação o espancamento de camelô. Dar pistola para quem atua na segurança patrimonial é mais uma ação concreta no caminho de um Estado Policial. Enquanto a população clama pela desmilitarização da PM e manifestantes sofrem prisões arbitrárias, nossos maganos do parlamento querem infestar o país de mais gente armada que encara o povo como inimigo.

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João Ubaldo e o Grão-tucano


joão ubaldo

João Ubaldo era escritor de fôlego romanesco. Suas crônicas nos jornais pareciam esboços de um romance. Escrevia aos domingos no jornal O Globo, na mesma página em que o conciso Veríssimo tece suas linhas de mestre no gênero. As crônicas velozes deste faziam com que os parágrafos daquele fossem longorosos , arrantados, prolixos por princípio e vocação.

Nada disso diminui o romancista que já era um dos gigantes da literatura brasileira.

Entrando nos bastidores da Academia, João Ubaldo participou de um caso que pode ser contado a partir do ponto de vista da influência do poder político e econômico nas eleições dos acadêmicos.

Após a morte de Lord Marinho, em 2003, a viúva Lily manifestou o desejo de que FHC tomasse posse da cadeira do falecido. O Senhor Privataria agradeceu e disse que não disputaria a indicação. A verdadeira motivação para isso estava num artigo do escritor baiano, cujo final fez adiar o sonho de imortalidade do pai do neoliberalismo do Auriverde Pendão.

“… E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.”

Foi preciso o autor de Sargento Getúlio criar animosidades com o PT e ter a saúde fragilizada para os acadêmicos fazerem seu conchavo para dar imortalidade a FHC.

Enquanto os convidados Vips ouviam o discurso do debutante, centenas de soldados da Tropa de Choque isolavam o quarteirão da ABL, criando uma barreira militar entre manifestantes e o tradicional Túmulo das letras.

Ao passar sua obra em revista, FHC recordou que seus “primeiros trabalhos sociológicos foram sobre a condição da vida dos negros e sobre o preconceito racial”. Falava, especificamente, de seu livro de estreia, Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, de 1960. Momentos depois, quando os convidados se aglomeravam numa fila improvisada para cumprimentar o novo acadêmico, Gilberto Gil teceu um breve comentário: “Pois é. Também pensei nisso quando ele citou o livro. Eu era o único preto na plateia. Mas é sempre assim, em todos os lugares de elite no Brasil.”

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100 dias nas Filipinas – Parte I


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por Andressa Maxnuck

Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkoke que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividirei a narrativa em duas publicações; segue-se, a esta, uma Parte II.

MAPA-MUNDI

As Filipinas são um arquipélago no Sudeste Asiático composto de mais de 7.000 ilhas, localizado entre o Mar das Filipinas e o Mar da China Meridional. Esse território nada contíguo é dividido em três grupos principais de ilhas: Luzon (no norte), Visayas (no centro) e Mindanao (no sul). Eu morei por alguns meses na capital, Manila, uma das cidades mais populosas do mundo (as Filipinas têm quase 100 milhões de habitantes), dividindo-me entre a vizinhança de Makati City, onde residia (aka o Leblon de Manoel Carlos filipino), e a de Quezon City (aka Madureira pinay – adjetivo que se refere a quem tem ascendência filipina), ambas na grande região de Metro Manila.

LÍNGUA

As Filipinas estiveram sob a influência espanhola por quase 4 séculos e foram um território estadunidense por 50 anos. Assim, pode-se concluir que todos os habitantes falam espanhol correntemente, certo? Não: os filipinos são fluentes em inglês e do espanhol herdaram apenas os nomes próprios, as placas de ruas e as denominações de alguns objetos. O tagalog (ou filipino) e o inglês são as duas línguas oficiais do país (dentre cerca de 80 idiomas falados no arquipélago).

Percebi que um dos indicadores sociais por lá era, justamente, o sotaque do inglês: quanto maior a verossimilhança com o acento norte-americano, maior a possibilidade de a pessoa pertencer a uma classe econômica privilegiada. Desse modo, desenvolvi (de início, de forma inconsciente; depois, ao me dar conta, voluntariamente) o meu próprio sotaque de inglês – algo próximo do acento do Borat – o que provavelmente deixava os pilipinos imaginando que eu vinha de um lugar muito underground.

 

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

COMIDA

Eu sempre fui fã da gastronomia como esporte radical; assim, não me assustei com a imersão na cozinha asiática. A comida filipina, em especial, não é das mais saborosas – me lembrou muito meus elaborados jantares, preparados sob a égide de receitas de Paulo Tiefenthaler, do Larica Total (“cozinha de guerrilha”). Mas, estando cercada de tantas boas cuisines internationales, me diverti muito: fui a restaurante indiano, cingapurense, persa, tailandês, japonês. Muitas vezes pedia a comida sem fazer ideia do que vinha, de propósito, só pra ter a surpresa.

No entanto, confesso que de vez em quando era brabo. Um dia recebi peixe frito com arroz para o meu café da manhã e, em outro, pensei ter pedido uma simples salada de manga com caranguejo desfiado e foi-me servido um primo do sarapatel. Quando descobri um fast food francês quase chorei de emoção por poder comer uma salada pela primeira vez, após um mês.

Além disso, sempre achei que não tinha frescura de comer qualquer bicho esquisito, legume exótico ou comida folclórica. Até o dia em que fui conhecer Binondo, a primeira Chinatown do mundo (localizada em Manila), quando encontrei a fronteira que separa homens de crianças. E bati em retirada para o McDonald’s.

A propósito, a primeira comida estragada na Ásia a gente nunca esquece.

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Lechon kawali: um dos pratos da cozinha filipina, de influência espanhola.

BEBIDA

Na linha das experiências gustativas, tive a oportunidade de tomar o pior refrigerante do mundo: Sarsi. Feito de salsaparrilha e vendido apenas no Sudeste Asiático, sua fábrica foi comprada pela Coca-Cola – evidentemente que toda essa informação eu só obtive após ter ingerido 10ml da gasosa, buscando no Wikipedia, instigada por saber de que era feito aquele líquido repugnante.

VESTUÁRIO

A despeito da larga influência ocidental, em um aspecto os filipinos mantêm tanto a sua tradição quanto a coerência com o clima dos trópicos: quando se trata de vestimenta formal. Nada de terno calorento, à la inglesa – nos compromissos oficiais os homens filipinos usam o barong tagalog. Homens pinoy sapateando – com louvor – na cabeça do macaquismo praticado pelos demais países periféricos.

foto 4 - esquerda

baralong tagalog masculino

foto 4 - direita

Binondo, a primeira Chinatown do mundo

 

ESPORTE

O esporte nacional é o basquete – o que me causou muita impressão, uma vez que a estatura média da população é de cerca de 1,55m. Há quadras de basquete por todos os lados (há a conveniência de elas serem menores e, assim, poderem ser mais numerosas e abrigarem mais filipinos, que são muitos). Segue-se, nessa preferência, o boxe inglês, certamente reflexo do soft power americano. De futebol, nem sinal.

Contemporaneamente, parece que os filipinos elegeram a corrida como atividade física preferida. Ao cair da noite (não sei se isso se relaciona com a obsessão nacional por uma pele clara, o que contarei posteriormente), saem pessoas de todos os cantos pra correr nas praças e calçadas.

RELIGIÃO

Os Filipinos são de uma religiosidade que nunca vi: sejam católicos (cerca de 80 por cento), sejam muçulmanos (aproximadamente 10 por cento), todos se dedicam com a maior honestidade de propósito à metafísica.

Certa vez, fazendo as unhas, em um dado momento todos no salão de beleza pararam suas atividades para fazer uma prece, acompanhados pela transmissão no rádio. No feriado da Páscoa – que lá começa naquinta-feira -, todo o comércio e serviços fecham as portas por 2 dias, período em que as pessoas se dirigem às igrejas ou às casas de seus familiares, no interior. Eu mesma me senti compelida a participar: fui à Penha local, Quiapo, e fiz a Visita Iglesia – uma peregrinação nas igrejas próximas. Pessoas acompanham em caravanas levando cruzes; outros se autoflagelam; uns poucos, mais radicais, se crucificam (ressalva: a prática é desencorajada pelo catolicismo e proibida a não-Filipinos). De impressionar a massa de católicos-não-praticantes brasileiros.

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

RELATIVISMO CULTURAL

Sei que diferença cultural é algo a se respeitar. Mas confesso que não me senti confortável nas algumas oportunidades – até então inéditas na minha vida – em que me deparei com mulheres usando niqab, aquele pano preto que cobre as mulheres da cabeça aos pés, deixando, apenas, uma fenda para os olhos. Há um considerável fluxo de muçulmanos no país, seja de nacionais – as filipinas muçulmanas são mais adeptas do hijab, véu que cobre apenas os cabelos e pescoço -, seja de estrangeiros – o país tornou-se um inegável hub de turismo e de negócios no Sudeste Asiático. Imagino que seja a mesma consternação que a visão de uma mulata semi-nua sambando na Sapucaí deve causar aos mais conservadores visitando o Rio. Mas, ainda assim, sinto-me bem mais à vontade com popozudas de shortinho, habitués aqui do purgatório da beleza e do caos.

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Filipina muçulmana usando hijab

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Moça, provavelmente estrangeira, usando niqab

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRANSPORTE

Há muitos meios de transporte nas Filipinas. A grande dificuldade é conseguir circular no trânsito enlouquecedor. Sim, amigos: há congestionamentos piores do que os de São Paulo.

O meio de transporte mais conhecido – e exclusivo desse país – são os Jeepneys. Afora terem a tarifa mais barata dentre as demais opções, eles param em qualquer lugar para embarque e desembarque. Além disso, essa gambiarra automotiva – os jeepneys são os Jeeps usados pelas tropas americanas durante a II Guerra Mundial “alongados” – é um charme. Dentro dele cabem 20 passageiros filipinos – o correspondente a 8 brasileiros, no máximo.

Outro modal são os Trycicles (do gênero dos pedicabs ou rickshaws). Gente, esse é o melhor meio de transporte do mundo: quando eu descobri que eu poderia usá-los pra chegar no meu trabalho em Quezon City/Madureira (eles não circulam em Makati City), eu fiquei realizada!

Houve ainda um dia em que eu tomei outra condução em direção ao trabalho: uma carona na moto do MMDA officer – o correspondente ao nosso Guarda Municipal. Foi só emoção no transporte filipino, rs.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

ESTRANHEZAS

É aquele lance da relatividade cultural: as coisas são certas ou erradas dependendo do lugar aonde você está. Aparentemente, nas Filipinas arroto e flatulência em público não só não são inadequados, como, às vezes pensava, são endossados. Por outro lado, percebi um certo desconforto com espreguiçamento ou bocejo na rua. Vai entender.

Banda cult filipina – Ang Bandang Shirley

 

Imagens de pinturas de Juan Luna, o herói das artes plásticas filipinas:

https://www.google.com.br/search?q=juan+luna+paintings&espv=2&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=WrPFU-v8IY7gsASExoGwAw&sqi=2&ved=0CBsQsAQ&biw=1366&bih=643

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Teve Copa


O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo aos estritamente futebolísticos

O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo apenas aos estritamente futebolísticos

“Este é o sertão. Uns querem que não seja.”
– Riobaldo – GSV

Domingo, dia da final da famigerada Copa das Remoções, o Estado e a sua polícia se excederam para além de qualquer medida do razoável. Contra um grupo de manifestantes que dificilmente ultrapassou quinhentas pessoas, um contingente de 2.000 policiais, contando choque e cavalaria (espadas em punho) foi designado para abortar um ato que iria da Saens Peña ao Maracanã, em protesto, como já é de praxe, contra os gastos com a Copa e etc. “Iria” em dois sentidos, uma vez que, graças aos corajosos homens da lei, o ato não conseguiu sair da praça, como também, graças às dezenove prisões arbitrárias do dia anterior, o foco do ato mudou completamente, do “não vai ter Copa” para “libertem os presos políticos”.

As prisões do dia 12 de julho estão sendo chamadas pelos advogados de “prisões mãe Dinah”, uma vez que, em um processo permeado pela clarividência do Poder Público, a polícia civil prendeu dezenove ativistas (nove ainda estão foragidos) baseada na pressuposição paranormal de que “os elementos” viriam a realizar atos de terrorismo e violência no dia seguinte.

O que vemos, e é preciso ser muito ingênuo para não entender isso, é que todos os movimentos em oposição aos governos (federal, estaduais e municipais) e contra os grandes eventos (leia-se, contra o grande capital) estão sendo massacrados. Há uma clara articulação entre as esferas de poder, as polícias e a grande mídia para reprimir e criminalizar a legítima indignação que vem sendo demonstrada nas ruas. As ordens vêm de cima e elas são rigorosamente observadas pelos subordinados. O que os poderes têm deixado bem claro, além disso, é que eles são os donos do campinho, e que as regras mudam em seu benefício, toda vez que necessário isso se fizer. O tal Estado de Direito só existe mesmo em favor da manutenção do status quo velho de guerra da sociedade. Quando confrontado por grupos dispostos à sua subversão, o Estado de Direito acaba, e entra em cena o contorcionismo policial e jurídico para justificar qualquer coisa, inclusive a prisão arbitrária e a prisão de menores, em um fim de semana (para tornar a reversão das prisões mais difícil), por um juiz que em tese sequer poderia pedir essas prisões.

Na praça, assistimos aterrados a mais um show de democracia do Estado brasileiro. Domingo teve violação dos direitos humanos, teve menina levando chute, fotógrafo levando chute na cara, policial afanando instrumento de trabalho de fotógrafo. Teve, enfim, um pouco de tudo que não deveria ter tido (inclusive, uma final de Copa do mundo). Para completar, houve o cercamento da praça, que deixou centenas de pessoas presas ali, à mercê da polícia, por mais de duas horas. Qual a justificativa para uma afronta dessas ao direito fundamental de ir e vir, consagrado na nossa dita Constituição Cidadã? As pessoas, pelo visto, “abusaram” desse direito e foram castigadas por causa disso. Deboche à parte, o medo de todos ali (inclusive o meu) era que se repetisse o episódio das escadarias da câmara dos vereadores, quando mais de cem foram presos apenas por estarem sentados ali, após um ato que foi reprimido com particular violência pela PM.

Ontem, tardiamente, os pedidos de habeas corpus de doze dos ativistas foram concedidos (como ainda há cinco presos e nove foragidos, é cedo para comemorar). Mais tardiamente ainda, quatro PMs foram presos, os envolvidos no roubo da câmera e o que quebrou o braço de um jornalista, salvo engano. A única providência capaz de impedir o abuso de poder por parte da polícia é a punição, mas esta só veio (não creio que por coincidência), no fim da Copa do mundo. Como consequência dessa impunidade, o que vimos até hoje foi a incansável repetição das cenas de violência policial que se tornaram o martírio do manifestante no Rio de Janeiro. A realidade é que não há o menor interesse do Estado em coibir esses abusos, desde os leves, como os praticados contra manifestantes, até os gravíssimos, cometidos contra os moradores das favelas. Faz parte daquilo que se chama manutenção da ordem.

O espaço para as ideias relativamente moderadas está se retraindo. É um erro crer nessa mitologia do “manifestante violento”. Violento é o Estado que lança o seu aparato repressivo com força para reprimir o descontentamento e a discordância.

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Em tempo: a nova sensação do país são os Yellow Blocs: os burguesinhos mal-educados que têm dinheiro para pagar a agora caríssima entrada dos estádios (isso não vai acabar com a Copa – os preços continuarão insanos e acabaram com a Geral no Maracanã), mas não entendem nada de futebol (não sabem nem a hora de gritar “olé”). Vaiam a presidente que trouxe a festa especialmente para eles, vaiam hino do país adversário e vaiam a própria seleção (ao invés de incentivar, praticamente eliminando a vantagem de jogar em casa). São os leitores formados pelos Arnaldos Jabutis e Brunos Postantinos da vida. Contra esses, não há repressão nem cerceamento da liberdade de expressão, do direito de ir e vir e de manifestação.

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