O “Norte” vermelho, ou como são burrinhos esses nordestinos!


O mapa do "Norte" do Brasil. Aulas de geografia, por favor

O mapa do “Norte” do Brasil. Aulas de geografia, por favor

No exato momento em que saiu o resultado da apuração das eleições de 2014 (já consideradas as mais polarizadas da história do Brasil), foi possível antever todas as asneiras que teríamos que aturar em seguida. Primeiro, é claro, as conclamações a golpe da direita desvairada, tanto militar quanto via impeachment. A direita brasileira não sabe perder. Fizeram o mesmo quando da eleição do Getulio em 1950, do JK em 1955 e, finalmente, realizaram o sonho do tão desejado golpe depondo João Goulart, em 1964, sempre seguindo o modelo de histeria udenista-lacerdista, igualzinho ao que vemos hoje. Além disso, ainda de maneira previsível e dentro do programa, já poderíamos esperar por mais um surto de preconceito antinordeste. Mas quando vi que a vitória de Dilma havia sido em TODOS os estados do nordeste, e a sua derrota na quase totalidade do sul-sudeste, percebi que neste ano a carga viria redobrada. E veio, com direito a jornalista dito sério de emissora de televisão com respaldo (sabe-se lá por quê) se referindo aos nordestinos como “povinho”. Não sou petista. Mas também não sou histérico, nem de direita, então reclamo do PT no que ele precisa ser criticado (e sempre pela esquerda), e não dos seus acertos.

O nordeste, entre outras denominações na geografia, já foi chamado de “região das perdas”, em referência ao deslocamento do poder político para o sudeste, com a transferência da capital do Brasil para o Rio de Janeiro, e à estagnação econômica decorrente da lenta decadência do sistema escravidão-engenhos de açúcar. Ainda na década de 1950, Celso Furtado tornou-se um dos defensores da ideia de que seria necessário criar um plano de incentivo para o desenvolvimento da região, uma vez que seria impossível desenvolver o país mantendo mais ou menos um quinto da sua área e um quarto da sua população para trás devido às condições históricas e climáticas adversas. Então, sob direção de Furtado, foi criada a Sudene (1959), que tinha por objetivo promover o desenvolvimento regional via direcionamento de investimentos. Porém, um belo dia, um golpe militar (como o que querem de novo hoje) transformou o órgão em um aparelho da Arena, que tratou logo de desviar os seus recursos em benefício das oligarquias locais. Nos momentos em que a população local mais precisava do socorro do órgão, quando dos períodos de seca, a Sudene se notabilizou por captar recursos públicos junto ao governo federal, mas que, em vez de utilizá-los para socorrer essas populações, acabava utilizando-os para encher os cofres dos mandatários da Arena (depois, PFL, ou DEM, ou sei lá como eles se chamam hoje em dia). E assim surgiu a famigerada “indústria da seca”, que transformou a paisagem de muitos estados, erguendo mansões com gramado verdejante e piscinas cheias, enquanto a população das cercanias não tinha sequer água para beber.

Nunca é demais lembrar para os apoiadores de ditadura que esse está longe de ser o único dos projetos progressistas abortados pelo golpe e que nos causam transtornos até hoje. Apenas como exemplo, podemos citar o belo programa de alfabetização, concebido no Ministério da Educação de João Goulart, por homens como Paulo Freire, varrido para baixo do tapete e substituído por uma caricatura grotesca chamada Mobral.

Pois bem, graças a uma ditadura militar e à enxurrada de governos liberais que a ela se seguiram, o projeto de desenvolvimento regional foi atrasado por mais de cinquenta anos. Foi o PT que viabilizou o protejo de compensação histórica para o nordeste, região com a qual temos dívida, por ter sido a mais intensamente explorada no período colonial (até por ter sido explorada desde o início), na qual a escravidão foi mais presente do que em qualquer outra, e onde, portanto, ela deixou o seu legado infamante com maior força. O PIB do nordeste é o que mais cresce no Brasil há décadas. A explicação mais lógica para os resultados das últimas eleições vão por aí, sem necessidade de apelo a teses de inferioridade de ninguém ou racistas de todos os gêneros. Não, o nordestino não é burro por sustentar o governo inescrupuloso e corrupto do PT. Na verdade, a explicação do “povo burro que não sabe votar” é uma das várias expressões da demofobia entranhada nas elites nacionais. O povo não vota em quem o Roberto Marinho, mesmo do além, quer que ele vote. Também não é um bando de mortos de fome comprados pelo Bolsa Família. As elites políticas dirigentes jogam no povo a culpa pela falência dos seus próprios projetos. Apresentam projetos que não respondem minimamente aos seus anseios, e querem ser eleitos. As pessoas, e eu já disse isso várias vezes, votam de maneira geral segundo a percepção do que é o seu melhor interesse.Se querem vencer o PT, pelo menos tentem fazer isso com um projeto melhor, e não apresentando um pior.

Mas o problema real não é esse. Não se trata de uma disputa de projetos. Como muito bem lembrou Luis Antonio Simas, em sua declaração recente de voto, a primeira Constituição do Brasil republicano proibia analfabeto de votar, sem obrigar o Estado a prover alfabetização. A falência social brasileira não é um acidente, é um projeto mesquinho e deliberado de país, sem cidadania e com muita, mas muita exclusão.

O que essa classe média (generalização, eu sei) histérica e golpista mais se ressente do PT é justamente aquilo que ele fez de melhor. Um projeto social e histórico gerador de cidadania, em um país que ainda se ressente da Lei Áurea. O idílio dessa classe, o seu paraíso perdido, é um Brasil de sobrados e mucamas, no qual ela podia se portar como elite, mesmo não sendo. O tamanho dos apartamentos, a disponibilidade de empregadas domésticas e a fartura material eram a tradução de uma vida de nababos, desconhecida para os seus equivalentes europeus, japoneses ou americanos.

Talvez a maior bronca dessas pessoas com o PT seja o fim do trabalho doméstico escravo. Aquela empregada que “dormia no serviço”, ou seja, morava em um cubículo em um colchão fedendo a urina, ganhava uma miséria sem direito algum e, quando jovem, ainda poderia ter “outras utilidades” (alguém se lembra das declarações saudosistas do Roberto Freire quanto às perspectivas de perda da virgindade no quarto dos fundos, no melhor estilo sinhozinho?),não existe mais. A primeira lei que regulou o emprego doméstico foi de iniciativa do PT, aprovada ainda no governo FH. Mas a mudança mais efetiva veio mais tarde, com as transferências de renda, com o aumento do salário mínimo e, principalmente, com a multiplicação do emprego de qualidade, que tornou cada vez mais difícil encontrar alguém disposto a aguentar as condições senhoriais de semiescravidão do emprego naqueles moldes. Também sou de classe média, e fui criado com alguns desses requintes (não os sexuais). A diferença é que não sinto saudade nenhuma desse país mesquinho e aviltante. Sou um pai solteiro e, nos períodos com a minha filha (que graças a Deus são muitos e longos), eu a crio basicamente sozinho. Sou eu que lavo a roupinha dela, que faço a comidinha e, surpreendentemente, até agora nenhum dos dois morreu por causa disso.

O projeto do PT, no entanto, tem infinitas limitações. Até o momento, não se pode sequer falar na criação de um Estado de bem-estar social à brasileira. Esse Estado pressupõe a universalização da educação e da saúde de qualidade. Não adianta nada ter acesso à saúde e ir ao hospital e morrer. Não adianta ter acesso ao ensino e ir para escola e continuar burro. Está mais do que na hora de valorizar profissionais dessas áreas, via salários dignos e cursos de aperfeiçoamento e qualificação de verdade (essas capacitações picaretas à distância não servem para nada).

Já que o modelo do partido, ao que tudo indica, é reformista, e não revolucionário, está na hora também de peitar esse Congresso retrógrado e impor a tão falada reforma política. Para o pessoal que lê Veja, que fique claro: não se acaba com corrupção antes de acabar com a “impunidade parlamentar”, por exemplo. É completamente fora da ralidade e ridículo tratar esse problema como exclusividade do PT e querer bani-lo sem mexer minimamente nas estruturas por trás disso. Isso sem dúvida é uma briga grande. Está mais do que na hora também de investir em um modelo de comunicações descentralizado e democrático, que seja alternativo aos oligopólios atuais, nas mãos das mesmas famílias desde Samuel Wainer, com a distribuição de vultosas verbas de propaganda governamental para esses grupos. Precisamos urgentemente de uma mídia que defenda os interesses da população, e não os projetos eleitoreiros e partidários de candidato X ou Y.Ninguém com um pingo de crítica aguenta mais esse jornalismo que briga todos os dias contra os fatos e que não se responsabiliza pelos prejuízos que causa à vida das pessoas.

Enfim, o Brasil mudou muito, e para melhor, mas ainda está tudo errado.

Links

Esse aqui, eu nunca entendi ser levado a sério por alguém:

http://www.youtube.com/watch?v=vSDMfbQHdXs&sns=fb

https://www.facebook.com/video.php?v=890529974304460&fref=nf

Nesse vídeo, do mesmo programa, Alberto Carlos Almeida descadeira o antinordestinismo descarado da “alta intelectualidade jornalística” da Globo (observação: esse cientista político se define como conservador e dirige o Instituto Millenium, ligado ao Grupo Abril). Curiosamente, ele afirma algo mais ou menos como o que digo há anos, e repeti aqui: as pessoas votam a partir do seu melhor interesse:

http://www.youtube.com/watch?v=yo60gFRceeg

http://noticias.band.uol.com.br/eleicoes/2014/100000716384/barbie-fitness-ataca-pt-com-palavroes-sou-rica-vou-para-orlando.html?mobile=true

É possível encontra vídeos de petistas falando todo tipo de asneira, mas a imbecilidade dessa pessoa merece registro, pelo caráter ilustrativo do que foi dito ao longo deste artigo:

https://www.facebook.com/video.php?v=10152720520400813&set=vb.677745812&type=2&theater

Depois da repercussão compreensivelmente negativa do vídeo anterior, a jornalista e autointitulada “Barbie Fitness” trouxe até a ama de leite para ter respaldo:

https://www.facebook.com/video.php?v=10152721776815813&set=vb.677745812&type=2&theater

Aqui vale a premissa anterior: também é possível fazer um vídeo equivalente de petistas falando merda. Mas, ainda assim, acho difícil bater esse pessoal aqui…

https://www.youtube.com/watch?v=zb9_4yRJsvY

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Veja: lá vem o golpe!


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O jornalismo brasileiro vestiu-se de vergonha ao assassinar por completo qualquer traço ético que ainda podia lhe restar. E apequenou-se de forma tão explícita que foi capaz de transformar-se em panfleto. Tabloides sensacionalistas parecem mais sensatos do que o terrorismo eleitoral propagandeado pela revista mais vendida do Brasil. E como se vende barato. Vai ver é porque não vale nada mesmo. No final, sai caro, pois quem se vende recebe sempre mais do que aquilo que vale.

A tevê, como inocente, vê a celeuma transformada em “fato jornalístico” e repercute em seu jornal de maior audiência não o vandalismo inconsequentemente reativo, mas as próprias denúncias. Assim, consegue colocar em prática aquilo que virou costume na farsa “democrática” nacional: golpes e mais golpes.

A história brasileira é uma história de golpes e conchavos. Independência, república, estados velhos e novos, ditaduras e militarismo. Na democratização, quantos golpes? Sim, porque golpes também há os institucionais. Mais um ano para Sarney, reeleição para o mandato em curso e uma série de outros engodos foram enfiados goela abaixo de uma sociedade.

O efusivamente lembrado impeachment de Collor revela o caráter de eminência parda de nossa mídia golpista. Foram as publicações irresponsáveis de caráter denuncista do irmão do presidente que serviram a insuflar a massa para manobrá-la a pedir a cabeça do governante. Não que Collor mereça qualquer defesa, ou que tivesse qualquer compromisso social, mas foi tirado do poder por não ser controlável e apresentar-se como um risco aos interesses do grande capital.

Provas? Evidências? Não, não é assim que nosso jornalismo trabalha. São panfletos abaixo da linha do medíocre. Lançam articuladamente campanhas para elevar ou rebaixar alguém. São o beijo no asfalto. Sem compromisso com qualquer verdade, apenas com interesses. E não estou aqui falando de Azevedos ou Constantinos, que assinam suas colunas e emitem (des) honestamente sua opinião (ainda que de forma boçal ou atendendo a interesses outros). Quem os lê, sabe que não fazem parte da notícia, mas do posicionamento.

A notícia manipulada como opinião, o fato distorcido para servir aos interesses de alguns, a prostituição do jornalismo, tudo isso é gravíssimo. É isso que faz uma capa virar panfleto. Um simples cartaz inspirado na capa da própria revista que repercutia – pasmem! – uma novela de Rede Globo! É busca incessante por instigar a violência e o golpismo. Monta-se o cenário para que qualquer desfecho seja possível ou aceitável.

O mais triste, no entanto, é saber que o “quarto poder” é intocável. Mesmo posando-se de vítima – de fato, sofre os mais pesados ataques – o governo petista nada faz contra essa atuação. Não faz porque não pode fazer, porque não pode contrariar os interesses do capital que lhe sustenta. Pelo contrário, nas páginas desta e de outras revistas, passeiam anúncios do governo e de suas estatais. Assim foram doze anos esquivando-se da regulação da mídia, alimentando a serpente que lhe ataca. É Fausto diante de seu destino, o melancólico crepúsculo ético de quem vende a própria alma.

O capital, necessitado de reformas mais drásticas para manter seu padrão de lucro e alinhamento com as imposições do mercado internacional, prefere Aécio, que tomará tais medidas de maneira mais imediata, sem contradições. Apesar de que a mídia repita à exaustão (com apoio dos ignorantes e mal-intencionados) a classificação do PSDB como uma social democracia, uma centro-esquerda ou mesmo uma esquerda liberal. Assim, fica mais palatável o remédio. E transforma nossos partidos Republicano e Democrata em iguais, tal qual na matriz. A diferença não reside no programa, mas na forma. No fundo, o PT tomará as mesmas medidas, apesar de sofrer com suas contradições históricas internas (tomara). Freud explica.

Se Aécio vence, pode ser que o PT ache o caminho das ruas (vai precisar de um GPS para saber onde fica a esquerda) e busque alimentar os movimentos sociais. Passará à oposição sistemática no Congresso, buscando dificultar a vida do PSDB, mas sem, de fato, impor-lhe derrota alguma. Afinal, o PT está preso a um acordo eleitoral e não arriscará 2018 por qualquer idealismo. Lula é uma possibilidade real para o capital – que adora mostrar seu lado mais “social” –, desde que suas reformas sejam efetivadas nos próximos quatro anos.

As ruas, sem dúvida, ficarão mais tensas, a repressão mais dura e as críticas mais agudas. A classe média será traída por seu “herói” em dois tempos: Aécio implementará as reformas necessárias ao grande capital, ceifando direitos e conquistas, afetando também a própria classe média. Mais ainda: atentará contra todo um segmento (vasto nas redes sociais), que pensa (?) ser classe média, mas que só tem seu padrão de vida e poder aquisitivo atuais graças às políticas “keynesianas” do PT. Esses, ao perderem o que conquistaram, voltarão ao estágio inicial. Mas agora como traidores de si mesmos. O espelho, nesses casos, costuma ser cruel.

Em caso de vitória de Dilma, creio que – por conta da polarização exarcebada – haverá o espaço para uma grande proposta coalizão, de união nacional, de pacto social, de governo para todos – ou qualquer outro nome que os marqueteiros inventem – com aproximação do próprio PSDB, buscando evitar uma “crise institucional”. Tudo em nome da governabilidade. Assim, haveria terreno para a aplicação das mesmas medidas “impopulares”, sem rupturas e com resignação – e até apoio – de alguns setores da sociedade, convencidos a dar sua cota de “sacrifício”.

Resta saber se a imprensa quer comprar essa versão. Pois, golpista como historicamente é, pode aproveitar para, em caso de vitória do PT, isolar o governo e promover a ascensão dos setores mais conservadores da direita, que encontram eco em cada vez mais setores da sociedade. Insuflados, os reacionários, os fascistas e os militaristas, com apoio de um “lúmpen-classe-média”, poderiam atentar contra o regime democrático-burguês estabelecido. A “vantagem” desse cenário para o capital é a implantação de medidas de forma imediata, supressão de direitos e controle total sobre os interesses políticos. O ônus, por outro lado, sabemos, é igualmente grande.

Não imagino que estejamos próximos de um cenário tenebroso como esse, mas é sempre bom ficar atento à movimentação dos golpistas em seus editoriais. Haverá ameaças, denuncismo, impeachment e uma série de ações que, quem sabe, podem sair ao controle. A irresponsabilidade da mídia nacional não encontra limites.

Assim, tranquilos nesta conjuntura só mesmo os donos do capital, que colocaram fortunas nas contas das duas campanhas, comprando sua adesão total a seu projeto. A falsa polarização atinge toda a sociedade. Que o Partido dos Trabalhadores possa lidar com suas contradições. Pois, em caso de governo PSDB, não haverá crise de consciência alguma em governar para poucos prejudicando o direito de muitos. Há em outros muitos alguma esperança, algo com o que não compartilho, pois só encontro razão nas mudanças que vêm das ruas, nunca das urnas. Aprendi – não nos debates televisivos – que olhar para trás é a certeza de saber o caminho que se trilha adiante.

Por isso, não aceito que se imponha à esquerda a condição de refém do PT. Aliás, esse sequestro tem gerado síndrome de Estocolmo em alguns companheiros: do voto crítico, passaram à defesa intransigente de um programa que nada tem de socialista. Quero, sim, comemorar a derrota de Aécio nas urnas. Mas, no momento seguinte, começar a organizar a oposição ao PT. Pela esquerda. Não ataco Dilma Roussef, porque respeito demais seu passado. Não voto em Dilma, porque conheço bem seu presente.

Fiquemos atentos. O inimigo nunca dorme. E está em cada banca de jornal.

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45 dá azar! (ou, Adeus, Lobão!)


AECIO - 45  não

Esse número dá tanto azar que, mundo afora, nem no futebol, a coisa termina com 45. Só em raros casos.

E dá mesmo. Que o digam os trabalhadores vitimados, humilhados, agredidos, compelidos ao desemprego estrutural no auge dos arroubos neoliberais do PSDB neste país. Se não se é rico, se não se é orgânica e/ou ideologicamente de direita, se não se tem nada a ganhar, ainda que individual e egoistamente com a desgraceira da maioria da população, mesmo que vil e espuriamente, não há qualquer motivo justificável- ainda que não me identifique com nenhum deles- pra se votar na direita clássica, babona e deslavada representada sordidamente pelo playba de BH. Essa opção só se sustentaria mediante casos, talvez patológicos, de níveis de fúria, de irracionalidade ou mesmo ignorância, não no sentido pejorativo do termo, mas em seu significado primeiro. Não há, nesta constatação, objetivos ofensivos. Não mesmo. Inclusive, acho que a esmagadora maioria que vai tucanar é de direita mesmo, em suas muitas abjetas gradações. Agora, se as pessoas se assumirem como de direita e pronto, isso limpa muito terreno. Quanto a isso, eis uma questão que é profundamente ideológica e só o dia a dia e a perspectiva da construção do socialismo a qual eu espero podem lhe dar um jeito.

Não quero dizer que não haja ignorância, insanidade e todos os demais traços ao lado de Dilma, inclusive, muita gente de direita. Ainda mais, muita gente que tá feliz e satisfeita com a perspectiva dum governo que administra a esfera da própria felicidade da vida de milhões de brasileiros com uma índole reformista que só lhes reserva uma ínfima fração daquilo que se doa ao sistema financeiro neste país. Essa política nada mais é do que o mau e velho “dar os anéis pra não dar os dedos”: uma gestão nem sequer reformista que garante uma mínima progressão de situação social, embora de impacto grande aos por ela atingidos, facilitando, inclusive, controle social, enquanto os parasitas de nossa sociedade nada perdem de significativo. Sem surpresas, isso é o que o PT sempre se propôs a fazer, como já argumentei detidamente, há pouco tempo.

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Uma das versões de adesivos que tenho usado, o que expressa muito claramente minha opinião.

Meu voto em Dilma não tem ânimo ou empolgação. É mais um dever de quem se sente coagido a fazê-lo. Entendo e respeito  a opção pelo voto nulo, mas a considero dum vanguardismo fora do contexto e que ignora alguns dados, como, por exemplo, o impacto, pra América Latina e seus trabalhadores, especialmente de alguns países que têm ousado se desviar dos ditames do Império, de uma eleição do PSDB. Enfim, falei, longamente, sobre isso, na semana passada. Dilma, por obrigação e responsabilidade. Mas, isso só aumenta meu ódio acumulado pela direitalha!

aecio malditoEsta é a eleição em que, tragicamente, o medo maior vencerá o medo. O medo do neoliberalismo hardcore nos levará ao “neoliberalismo mais humanizado”. Nos conformaremos em ousar muito menos do que vizinhos com muito menos recursos, como Equador, Bolívia, Venezuela, mesmo o Uruguai. A rigor, nos conformaremos com ficarmos em cima do muro, na fronteira recuada entre enfim ir minimamente além e manter o status quo intocável.

Pra piorar, não há opção viável e fortalecida socialmente a apresentar projeto aa sociedade em favor dos trabalhadores. Mea culpa devida por toda a esquerda socialista. Claro que há toda uma orquestração poderosa pra esse fracaso.  Ainda assim, vamos muito mal nesse quesito.

Mas, de tudo isso, há, no tardio adeus a Aécio, dois aspectos positivos, além, obviamente, de se evitar o mal maior. Um é o fato de a direita ter saído do armário. No Brasil, historicamente, sempre “pegou mal” ser de direita. Quase ninguém assim se assume. Estas eleições, acho, libertaram esse ímpeto e, se isso prosseguir, teremos relações mais francas no debate político social, sabendo mais claramente que apito cada um toca, como em nosos vizinhos chilenos ou argentinos, por exemplo. Outro aspecto inquestionável é que, decididamente, a mídia oficial, no poder desde (e graças a) a ditadura cada vez manipula e influencia menos gente. A candidatura Dilma, se vitoriosa mesmo, há de derrotar um arco impressionante, não só de políticos, mas, sobretudo de mídia coesa. Não é aa toa que a asquerosa Veja, a revista mais vendida do país, já anuncia seu subsequente plano B golpista que, no fundo, é o de outros veículos midiáticos, embora com menos cara de pau.

Ah, isso sem falar, claro, no festejadouro autoexílio do Lobão!

lobão adeus

DECADENCE SANS ÉLÉGANCE!

Aécio, eleito, governaria, exclusivamente, pras elites. Dilma também, mas oferecendo anéis de bijuteria aos setores excluídos. A elite ingrata e mimada, por séculos, lhe vaia e despreza. A classe média que pensa ser elite lhe ofende grotescamente, perdendo a noção de quão acima socialmente ainda está de “seus subordinados”. Toscos.

Em meio a tudo isso, lembremos que, hoje, é 25 de outubro- aliás, há uma semana, o blogue completou 2 anos de sua primeira publicação, texto do caro Moacir de Sousa- aniversário (em nosso calendário gregoriano) da Revolução Russa, prestes a completar seu centenário. E, dessa lição, mesmo com os erros posteriores que possam ter havido e que houveram, fica a lição máxima que é possível transformar, é possível ousar, é possível fazer diferente de qualquer coisa que tenha sido antes feita. Essa profundíssima Revolução foi feita num país atrasado e feudal. É a prova de que pode se dar em qualquer canto. O caminho pode ser mudado, refeito. Eis a esperança que permite lidar mesmo com o medo mais profundo. Ainda que em situação muito adversa, a esperança nunca se resigna. A esperança é o que nos põe de pé.

[Sempre arrepiante!]

O voto em Dilma é necessário. Nada além disso. No dia seguinte, precisamos querer construir alternativas reais, nas ruas, junto ao povo. A esperança paira; nos resta tomá-la por inspiração determinante e transformadora.

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CRIME VERMELHO


por Marcio Barros

O que está passando? Por que hoje existe tamanha falta de respeito e ruptura da tênue linha da amizade e do ódio? Hoje é quase um crime fora do papel constitucional apoiar o PT.

Jovens com menos de 30 anos, apoiando a volta da ditadura e da direita no poder!

Em uma visão pessoal, de acordo com minha vaga lembrança, vejo que o crime não está em apoiar esse ou aquele partido e sim na completa falta de bom senso histórico. Dizem que, no tempo em que o Brasil está sendo governado pelo PT, o país afundou em uma lama sem precedentes. Eu concordo que muitas coisas estão erradas como a supervalorização dos estádios para a Copa do mundo e o uso descabelado do dinheiro público. Muitos projetos e leis aprovados por nossa presidente Dilma não cabem no momento, mas me pergunto: se ainda estivéssemos na era FHC, teríamos tantas escolas, universidades, escolas técnicas etc… um país sem educação não pode chegar a lugar nenhum!

Nem todos os professores votarão na presidente atual, mas boa parte sim e isso é no mínimo curioso!

A inflação estaria controlada?

Conseguiríamos sair da miséria?

Eu passei dentro de uma sala de aula, o mandato do então presidente João Figueiredo, de uma certa maneira, alheio ao que estava acontecendo lá fora dos muros do colégio. A medida que ia crescendo minha geração, íamos nos dando conta de que algumas coisas tinham um preço bastante alto. A economia estava estabilizada a troco de amordaças, torturas, mortes inexplicáveis. Era um toma La da cá e cale-se.

O Sr. FHC teve também o seu mensalão, 200 mil votos comprados no segundo mandato, do caso FURNAS, da venda da PETROBRAS, da VALE DO RIO DOCE, do ministro Arminio Fraga elevando os juros de 37% a 45%… Para não me alongar muito, o fato que sim o governo passado, teve uma gestão com feitos que foram seguidos no governo Lula e Dilma, mas também tiveram bastantes casos de corrupção ativa e passiva.

Estou de acordo que o governo petista tem que mudar em muitos aspectos, mas não posso presenciar o desejo juvenil de retroceder e ficar calado. Me chamam de comunista e que não tenho o direito de opinar politicamente sobre o Brasil, quando estou fora vivendo na Europa. Uma prova cabal de desespero contra argumentos históricos de uma história recente. O que me preocupa é o uso banal da palavra, COMUNISMO.

Sabe-se lá que ideias tem essa juventude que aí está, que nunca ouviu se quer falarem de neoliberalismo e joga palavras ao vento taxando partidários, simpatizantes e qualquer pessoal que declare votar no PT de comunista. Viver em outro país não é tarefa nada fácil para qualquer nacionalidade.

Alguém que decide deixar toda uma vida, amigos, parentes, familiares, trabalho… para tentar algo novo e desconhecido bem longe de casa, no mínimo, merece o título de ¨louco¨.

A vida no exterior tem seus prós e contras. Discriminação racial, injustiça, fome, miséria, medo, difamação, entre outros. Preconceitos praticados também por brasileiros para com o brasileiro, revelando uma total falta de conhecimento político e social de um país repleto de casos de imigração e emigração.

Ao sair do meu país, não assinei nenhum documento dizendo que não poderia mais voltar ou opinar politicamente em nada do país!

Se não tenho mais o direito de ser brasileiro por viver fora, que direito nacional terei?

Ahh, o de votar!

Um pouco contraditório não acham?

Tenho que votar, mas não posso abrir a boca porque parte de população direitista me condena!

Tenho que votar e esquecer quais são as comparações entre os governos FHC e LULA!

Sou obrigado a votar e aceitar que jovens desinformados e sedentos por tirar o PT do governo me digam que não posso votar na Dilma!

Sinto muito por não estar na minha terra, não ver meus familiares, minha mãe, amigos, meu Botafogo, meu irmão. Mas não aceitarei que, mesmo depois de toda a covardia e desaparecimentos de pessoas na ditadura, alguém que nunca perdeu um Pai ou um primo, tio, filho, amigo… me diga que tenho que me calar e não difundir minha ideologia e meus pensamentos. Tal atitude revela a falta total de coerência ao defender uma ditadura militar no país. Mais que reformas políticas o Brasil precisa de uma reforma mental da juventude que já não se interessa pela própria história, tirando assim, suas conclusões baseadas em relatos nem sempre verídicos inseridos nas redes sociais. Pior seria se nesse momento de apelo a um novo golpe ou intervenção, chamem como quiserem; os militares estivessem de verdade no poder. Ai meus amigos, nem eu e nem vocês, estaríamos discutindo sobre política ou partidos corruptos. Por que ou não teríamos computadores e nada que facilitara a comunicação tao rápida, como acontece com as redes sociais no atual momento.

Me parece completamente louvável que defenda suas idéias, partidos, ideologias etc… Mas tente antes de qualquer coisa, saber em quem vota e principalmente o porque do seu voto.

As pilantragens virão à toná independentemente do partido envolvido! Hoje o Brasil está fora do mapa mundial da pobreza e nós, brasileiros no exterior, temos os mesmos direitos e deveres que os que estão em solo pátrio. Podemos escrever, opinar e dizer o partido com que mais temos afinidades, seja por que motivo for. Não deixaremos de ser brasileiros por termos cruzado uma fronteira, um oceano, muito pelo contrario! Amamos cada dia mais o nosso Brasil!

Somos aproximadamente 500 mil brasileiros fora do país, número suficiente para mudar uma eleição. Não somos comunistas e crime vermelho cometeram os da ditadura nos seus áureos tempos!

Não tente denegrir minha imagem, só porque não concordo com as suas ideias. Não tente desmerecer minha vida por não viver no Brasil, porque queiram vocês ou não serei sempre brasileiro e com orgulho. Una eleição não vale sacrificar amizades que tiveram os seus motivos para irem viver em outro país.

Hoje mais que por mudanças, essas pessoas cegas pelo ódio político antipetista, esquecem que por falta de candidatos melhores, votamos não nesse ou naquele partido, nesse ou naquele candidato… votamos em quem pode nos levar a cama com a consciência mais tranquila. Viva o povo brasileiro!

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Falsa escolha


M. Escher, Dia e noite

M. Escher, Dia e noite

Os ânimos andam acirrados nesta reta final de segundo turno. Amizades desfazem-se por preferências eleitorais. Tudo é apresentado de maneira a fortalecer um antagonismo que, analisado friamente, não existe. O que, de fato, emerge é apenas a falsa polêmica, que tem o poder de criar a ilusão de que o destino está em nossas mãos. Ou melhor, na ponta dos dedos. Nas teclas de uma caixa plástica.

Antes que você se faça de desentendido, serei claro: você não escolhe nada nas eleições. Ok, escolhe, talvez, de forma mais ou menos definida, como serão realizadas as vontades já estabelecidas do grande capital. O que chega até nós é como uma prova de múltipla escolha onde somos levados a aceitar as alternativas oferecidas como únicas.

Claro que você irá discordar dessa ideia. Neste momento mesmo está balançando negativamente a cabeça, reafirmando que, obviamente, você escolhe o próximo governo. Mas, cuidado, seus olhos o enganam. Vivemos em uma espécie de “Matrix” democrático-representativa, que pouco têm de democrática, menos ainda de representativa.

Nosso modelo eleitoral é a versão burlesca da democracia estadunidense, formada por dois partidos hegemônicos, cuja diferença essencial reside nos nomes e símbolos que adotam. As políticas mais ou menos liberais, conservadoras, intervencionistas ou imperialistas vão como o vento. De sólido, apenas os acordos quanto aos princípios econômicos dos detentores dos meios de produção e financiamento.

Aqui, em lugar de prévias estaduais, temos um primeiro turno tutelado pela mídia e pelo financiamento de campanha, até que se chegue ao segundo turno (se houver) sempre com a mesma polarização: PSDB de um lado, PT de outro. É assim desde a segunda eleição pós-ditadura. A primeira, lembremo-nos, elegeu um aventureiro (o capital não gosta de aventuras e incertezas), logo retirado pela pressão que a mídia criou na “opinião pública” (apesar de cassado no Legislativo, Collor foi inocentado pela Judiciário).

Não importa. Ao grande capital é fundamental a segurança do bipartidarismo. São nossos “democratas” e “republicanos”, ainda que nenhum deles seja efetivamente democrático ou tenha qualquer comportamento republicano. Por isso, não é de se estranhar que os financiadores de ambas as campanhas sejam os mesmos – empreiteiros, financistas e industriais – e com valores similares. Em verdade, estão pagando os atores da farsa da democracia que é vendida à sociedade.

Assim, não há razão para tamanho antagonismo de seus militantes. Estamos diante tão-somente de duas formas de gerir o projeto burguês tropical. Nada que afete as bases do capitalismo brasileiro. As preocupações exageradas são infundadas em caso até mesmo de um governo tucano. Sim, o PSDB representa os interesses de uma direita mais conservadora, com mais mercado, menos estado, desemprego estrutural como forma de pressionar os salários, juros altos e baixa liquidez. Sabemos de tudo isso e como teremos nossa luta recrudescida em caso de novos anos de tucanato. Mas, não precisamos tratar disso, os direitistas já abandonaram este texto desde seu segundo parágrafo.

O que não dá para aceitar é achar que o PT represente qualquer antagonismo a isso. No máximo, é o sopro na ardência do machucado, um conciliador que convence de que está sendo bom optar pelo ruim. No fundo é apenas a ideia política de ter mais Estado garantindo os lucros do capital. Até mesmo porque o verdadeiro controle se dá pelo presidencialismo de coalizão, em que, quaisquer dos candidatos, terá de submeter-se ao PMDB, por exemplo, para conseguir “governabilidade”.

Ou seja, teremos um governo de base liberal – para realizar as reformas que o capital (interno e externo) necessitam, ainda que impopulares (o PSDB é ótimo para encarnar esse papel) – ou um governo de atuação keynesiana – facilitadora da aceitação das necessidades do capital para as classes trabalhadora em geral. Mas não teremos nada que ameace o status quo pelo que ambas as siglas são pagas. Nem mesmo a social-democracia passa perto do discurso de ambos.

Fala-se no assistencialismo do PT e na distribuição de renda. Feita de que forma, já que, por exemplo, a concentração de renda por parte do 1% mais rico aumentou? O Brasil hoje tem quase o dobro de bilionários que tinha no governo FHC. Os bancos registraram o maior lucro em toda sua história, associado a políticas de crédito que endividam os trabalhadores, garantindo o sorriso do capital financeiro. A distribuição de renda é voltada ao consumo, para garantir que a crise fique longe do empresariado, pouco tem a ver com efetivas questões sociais, como se comprova no acesso à saúde ou educação.

Temos, de fato, uma democratização da educação? Ora, de que forma? Transferindo-se rios de recursos públicos a entidades privadas? E isso não seria privatização? A criação de inúmeros incentivos e subsídios para indústrias, em especial, multinacionais é a atuação de um Estado “socialista”? E tudo isso, em nome da criação de postos de trabalho de baixa escolaridade, mal remunerados e, por muitas vezes precários, tendendo à extrema rotatividade dos trabalhadores.

Nesse ponto, cabe lembrar a forma como o governo petista tratou trabalhadores em greve ou em luta por melhores salários e condições. Cabe lembrar a cooptação de sindicatos e associações e o aceno que hoje existe para a “flexibilização” das relações trabalhistas. A truculência como foram tratados professores universitários, servidores públicos federais, além de manifestantes na Copa do Mundo, ensinando-nos que o cassetete do PT bate tão forte quanto o do PSDB.

Durante doze anos, o PT teve a oportunidade de regular a mídia, diminuindo-lhe a concentração. E, antes que chamem a medida de “comunista”, vejam que a medida restritiva existe na pátria-mãe da democracia, os Estados Unidos. E por que não fez? Não fez, porque não pode fazer, porque não goza de liberdade ou de autonomia para definir pontos cruciais de plano de governo, apenas algumas filigranas. Não pode porque está comprometido com a manutenção dos princípios econômicos e políticos dos donos do capital e, pelo quais, vem sendo muito bem pago.

É desta forma que se enxerga o PT sem resposta diante de temas simples como a “meritocracia”. Mas, em lugar de colocar uma posição clara e simples sobre a questão, o partido, outrora dos trabalhadores, é obrigado a aceitar princípios de “gestão eficiente”, “méritos sem igualdade de condições”, sem intervir nas causas reais que nos levam à miséria – econômica, educacional, social ou cultural.

Por serem tão próximos os projetos é que não se os discute nos debates. Sobram apenas acusações. E, neste campo, os dois lados falam a verdade com relação ao outro: são todos sujos. A quantidade e a qualidade do roubo não importa tanto assim quando se assumem ambos como ladrões. Assim, Independentemente de qual candidato vença, o que temos como certeza é que o próximo presidente, diante de tantas denúncias, já deve começar seu mandato investigado. Talvez os debates de agora acabem com a legitimidade de qualquer mandato.

As propostas não são importantes, pois são, no bojo, as mesmas. Mudam-se os nomes, não as políticas. Compadeço-me, no entanto, dos inúmeros companheiros valorosos que hoje acreditam participar deste circo em outro papel senão o de palhaços. Continuaremos, de qualquer forma, a ver migalhas jogadas aos pobres. Resta saber se vamos comemorar as migalhas como avanços ou vamos nos organizar para pegar o pão que nos cabe.

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Dilma não merece meu voto!


aecio comuna

Malditos comunistas! Sempre em toda parte, pervertendo o que é de bem. No cardápio, crianças ao tutu.

Não mesmo! Não é um título sequer milimetricamente irônico. Nem um pouquinho! Nem pela simpatia/carisma que, aliás, Dilma tem quase nenhuma. Agora, se Dilma não merece, Aécio sequer é cogitável para isso. É fora de parâmetro, aberrante, esdrúxulo considerar ao menos esta candidatura em termos de merecimentos. Aécio não existe! É de direita e da direita, opção zero das elites. Carrega consigo todo o soerguimento de estrume bestializado e bestificante que vem trazendo aa cena sociopolítica brasileira todo um horror desmedido de impropérios e expectativas escarrados por mentes entorpecidas em desvarios alucinadíssimos de conservadorismo enojante. Aécio não é uma hipótese ou possibilidade. É apenas a encarnação mais deslavada e nua e crua do antagonismo de classe inconciliável. Não tenho o que discutir com quem se dispõe a votar nele; salvo, se um jovem desavisado que não tenha vivido os anos de truculências e esfacelamentos tucanos  se disponha, abertamente, a isso. Escrevo, claramente, a quem julga ser possível se abster dum posicionamento, agora, pela candidatura Dilma.

Faço isso muito aa vontade. Estamos longe de sermos um blogue chapa branca. Aqui, criticamos frequentemente este governo. Hoje, contudo, o blogue, felizmente, dentre seus colunistas, oscila da faixa de voto crítico em Dilma a voto nulo. Tenho orgulho de fazer parte deste nível de discussão com Aline Silva, Ana Souto, Andrea B. de Oliveira, Moacir de Sousa, Paulo Fred e Walace Cestari.

Muito recentemente, um amigo e companheiro de lutas e de protestos e de mobilizações, muito querido para além dos atos, o Thiago Braga Vieira, publicou algo muito lúcido e sagaz que copio abaixo:

“Acerca do segundo turno.
Queremos ser a nova grade ou queremos avançar a linha de fronteira?
O PT tornou-se a fronteira entre a esquerda e a direita.
Por nossa posição à esquerda, olhamos o PT e vemos a direita por trás dele.
A burguesia, por seu lado, quando olha pro PT nos vê.
Dessa forma o PT se tornou um limite para o avanço da esquerda,
Mas também uma contenção ao avanço da direita.
O primeiro turno mostrou o que acontece quando a cerca fica enfraquecida:
Crescemos nós, mas a ultradireita cresceu mais.
Não estamos disputando o segundo turno, estamos disputando a sociedade.
Não temos chances de romper a grade agora, mas a direita tem.
Precisamos reforçar a cerca.

Com todos os riscos históricos implicados acerca de cercas, é um texto que, em simplicidade, diz tanto. Dilma e o PT não merecem nem um tiquinho de voto meu nem de muitos. Nem mesmo o PT em campanha, muito aa esquerda do próprio PT no governo, mereceria. Dilma não consegue se diferenciar ideologicamente de Aécio num debate. E o pior, nem o pode. Não há diferença ideológica profunda, do ponto de vista de gestão. É um capitalismo mais piedoso com os pobres miseráveis contra o capitalismo selvagem descarado: duas versões de neoliberalismo brasileiro disputando corações e mentes do sistema financeiro. O aclamado bolsa-família, agora, pasmem, reivindicado por tucanalhas dissimuladamente, é uma parcela ínfima dos socorros a bancos. O lucro do Itaú é recorde após recorde. Atenção! Eu disse LUCRO! Trabalhador nem vive de lucro, mas de rendimento. Mesmo do ponto de vista do capital, o PT nem reformista vem sendo, mas sim aperfeiçoador do capitalismo brasileiro, ao melhorar as condições de consumo da sociedade, ao mesmo tempo que permite condições pra maior estratificação econômica no país: mais milionários, mais ricos e todas essas lamentabilidades. Dilma, hoje, não é nada além do que o governo menos fdp! Nada além disso.

E a tal corrupção… Ora, ela é intrínseca e constitutiva a QUALQUER governo que se disponha a administrar o capital. É  um valor ideologicamente imperativo. O que possibilita a existência da própria noção de lucro, de estratos sociais tão distintos e da legislação que sustenta tudo isso é a corrupção.  Da Suécia ao Zimbábue, a corrupção é o determinante no mundo capitalista. Neste quesito, ambas as candidaturas não se diferenciam, a não ser na discussão sobre quantidade de corrupção- se é que isso seja relevante- em que o PSDB é muitíssimo mais “profissa”, em todos os sentidos,  em seus esquemas. No mais, vale o que escrevi neste mesmo blogue há mais de ano atrás: Quem tem Deus não precisa de corrupção.

Quanto aa campanha em si, não aguento mais tanta detonação em rede social. Os debates seguem no mesmo patamar: só fritura. Se o nível do debate no 1º turno já era ruim, agora está subterrâneo. De debate a embate em arena aberta.

dilma x aecioE o que é problema mesmo, nisso tudo, é que o grosso disso é no viés moral, enquanto o debate político de fundo fica devidamente afundado, escanteado. Talvez, até porque não haja, afinal, tanto o que se debater em termos de diferenças.

Nesta semana, houve dois grandes debates, o da Band e o do SBT. Em ambos, foi visível o talento oratório do Aécio, um político no sentido popular do termo. Já Dilma, embora não tenha nada de boba, é claramente uma gestora fazendo as vezes de uma política, o que combina com a pauta de eficiência de gestão.

Me chamou muito a atenção no debate da Band a pergunta do playboy das Geraes sobre meritocracia, quando  a presidentalíssima poderia ter puxado pro ideológico- aliás todo o conteúdo ideológico do debate fora pautado pelo Aécio, aa direita, claro, e coube aa Dilma só o acompanhar- e se limitou a contestar seu adversário quanto da aplicação inverídica do critério da meritocracia, sem nem sequer contestar-lhe o fundamento. Embora tal postura não me surpreenda, me deixa passado.

meritocracia Eu entendo, pra caramba, quem pretende votar nulo. E, reafirmo, Dilma não merece nossos votos. Contudo, como não se trata da tal meritocracia, mas de envolvimento e responsabilidade com questões, cotidianas, que dizem respeito ao bem-estar mínimo do trabalhador brasileiro e como o resultado desta eleição diz respeito ao bem-estar de outros trabalhadores do continente, especialmente da Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba (essa nação tão usada e tripudiada por todos), em menor grau até por trabalhadores uruguaios, argentinos e chilenos, todo esse quadro internacional e internacionalista precisa ser levado em conta. O governo Dilma está, indiscutivelmente aa direita da maioria desses governos, mas, como sou socialista, sou em primeiro plano, internacionalista. A eleição do horrendo Aécio significaria um fortalecimento da direita asquerosa pelo menos em toda a América Latina. No atual contexto, que planos e ações efetivas intervencionistas, em diferentes gruas, do virtual ao armado, poderiam prosperar num contexto de América Latina “endireitada”?

De todos os erros da gloriosa URSS, apontados pela própria esquerda, um deles nunca foi a vitória sobre o nazismo na 2ª Guerra. Naquele momento, a URSS se aliou aa Inglaterra e aos EUA, sabedora dos riscos e preços dessa aliança, com um saldo de mais de 20 milhões de cadáveres (número muito superior mesmo ao extermínio bárbaro de judeus de cerca de 7 milhões), contra um mal que sacrificaria número muito maior de trabalhadores, para além do continente europeu. O que temos hoje, no Brasil, aa espera de ressurreição é dum lixo histórico muito próximo. As portas do Inferno estão aqui escancaradas. , aa espera dum porteiro que muito bem pode ser o yuppie de São João Del Rey. Que o digam as tenebrosas votações de Bolsonaro no RJ ou de Feliciano em SP.

dilma-visita-fidelDilma não merece meu voto, mas os trabalhadores merecem infinitamente menos a direita clássica e histórica no poder. Decididamente, a questão aqui não é meritocrática! Por Dilma, até por didatismo histórico, pra uma luta cotidiana um pouco menos covarde, ao menos. Isso não é nada indiferente, a quem realmente importa, em nossa sociedade.

[God bless Red America!]

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Sobre a indústria de comunicação de massa e rinocerontes


Começo por explicar a segunda parte deste estranho título. Refiro uma peça teatral do autor romeno Ionesco que narra a inexplicável transformação de todos os habitantes de uma cidade em rinocerontes. Assim mesmo, sem motivos. A princípio todos estranham os modos agressivos, a forma bruta, pesada, a truculência mas à medida que os rinocerontes se tornam maioria, todos passam a achar normal, elogiar, e pouco a pouco, passam a detestar a forma humana. Fosse paródia da célebre novela “ A metamorfose” de Franz Kafka na qual, em belo dia, um homem comum acorda e percebe que se transformou em uma barata, todos sentiriam nojo. Mas na cidade da peça de Ionesco as pessoas se transformam em rinocerontes, uma a uma, sucessivamente, até que só reste Beránger, um trabalhador comum que se recusará, até o fim, a deixar de ser humano.

A peça, grande sucesso do autor, rendeu e rende milhares de análises literárias e críticas. Pluralidade de pontos de vista à parte, muitas admitem que escrita, como foi, após o holocausto judaico na Alemanha nazista, também faz pensar sobre questão para a qual até hoje não se encontrou resposta simples ou definitiva: o que levou milhões de alemães a se submeterem ao poder de um tirano como Hitler? Como Hitler e seus nazistas conseguiram convencer uma nação inteira a fechar os olhos às perseguições e execuções sumárias de milhões de pessoas sob as suas barbas ?

Centenas de sábias e sábios se debruçaram sobre o assunto e não seria eu a pessoa capacitada a dar melhor resposta. Mas achei importante fazer esta introdução para abordar um aspecto que não costuma ser explorado nos filmes sobre o nazismo onde, quase sempre, se destacam a solidariedade e a bondade de indivíduos que se recusaram a virar rinocerontes em luta contra a maldade monstruosa e cega de pessoas que, como se fossem rinocerontes, ordenam a morte, o ódio e a perseguição aos judeus. Assim mesmo, como se fosse uma luta do bem contra o mal, personificada nos personagens anti-nazistas contra os pró-nazistas. E assim é porque assim funciona o básico da dramaturgia feita para o consumo do “grande público”. Tintas fortes, oposições binárias e o triunfo – de preferência- do bem, sobre o mal. Binário e limitado, simples a ponto de ser compreendido sem muito esforço.

Isto não se dá porque tudo na vida seja assim mas sobretudo porque, no final das contas, isto é o que há de mais comum aos seres humanos, na sua luta cotidiana . Melhor explicando : assim é o cotidiano da maior parte das pessoas comuns. Binário e limitado a uma sequeência de escolhas entre o sim e o não, o que lhe faz bem e o que lhe faz mal. A predestinação biológica, para começar, é binária. Respirar : bom , não respirar: mau. Da mesma forma o comer e ingerir água. Como organismo vivos, queremos preservar a vida, então dizemos sim ao comer e ao beber, e não à fome e à sede. E isto é tão imperativo que, sem alguma mediação da cultura, isto é, os costumes e seus limites morais e éticos para as nossas ações, valeria tudo para conseguir. Qualquer um, com fome, assaria sem nenhum escrúpulo, o cachorro do vizinho ou, com sede, mataria o próprio vizinho para ficar com água da sua piscina, por exemplo. Mas isto não acontece, felizmente – ou com tanta frequência- porque a maioria absoluta da população respeita a moral e a ética vigente que condena tais ações, mesmo antes de pensar que há leis que os proíbem. E isto não mudou no nazismo.

Acontece que a moral e a ética estão sempre presentes. Não havia ausência de ética nas ações nazistas- calma- o que o nazismo conseguiu foi tornar-se a própria moral e ética vigente e orientadora das ações, instalando na Cultura um axioma fundamental: a pureza da raça alemã, com padrões onde só alguns se encaixavam e onde os que não se encaixavam deviam ser mortos. Era moral, era ético odiá-los ( para os nazistas), era natural, era justificado ofendê-los nas ruas, xingá-los, querer matá-los. Não há ser humano sem Cultura. Há Cultura em todas as ações humanas, porque vivemos em sociedade e a cultura desta sociedade nos é transmitida desde a primeira mamada no peito, em todos os gestos. Ela produz nossa cultura e nós a reproduzimos. Hoje já se sabe, por pesquisas científicas, que as crianças adotadas quando bebês também chegam a desenvolver semelhanças fisionômicas com os pais adotivos porque bebês aprendem a sorrir com quem os embala, assim como aprendem a falar com quem vai lhes ensinar o próprio nome e aprendem a se relacionar vendo e imitando as relações do seu entorno. Há Culturas e Culturas, segundo diferenças de localização temporal e espacial, mas todo ser humano está imerso em um Cultura e a reproduz ao mesmo tempo que a transforma, cada um dentro de suas possibilidades ou capacidades.

Daí que eu tenha arrepios na espinha quando ouço pessoas com alto grau de instrução e poder aquisitivo, dizerem que uma parte do povo brasileiro é uma besta, porque não tem cultura (ou “ não tem informação”). E que, enquanto não tiverem educação , continuarão a ser umas bestas. Me recordo, nestas ocasiões, de que nem toda a educação da elite alemã e seu conhecido apreço pela chamada Alta Cultura, evitou que ela embarcasse alegremente no bonde do nazi-fascismo hitleriano. E me recordo também do espanto que sofri, na primeira vez que vi o filme alemão pré-nazista que comparava os judeus a ratos. Ratos de esgoto que deviam ser exterminados. Pensei horrorizada: como foi possível que os alemães chegassem não apenas a tolerar isto mas rir, como se fosse piada? Daí me lembrei que tais propagandas começaram pouco a pouco, um pouco a cada dia e tudo que fizeram foi levar a extremos um velho rancor, uma discriminação odiosa que estava nos subterrâneos da cultura alemã. O estado nazista usou aquelas telas gigantes daquela invenção fantástica, e – naquele tempo- parte importante da vida social e do entretenimento do homem comum para propagar o ódio aos judeus, Ao mesmo tempo  prometia ao cidadão médio, convencidos que eram raça pura, que a Alemanha seria uma sociedade limpa, grandiosa e rica, caso eles fossem exterminados. Ou seja, Goebbels, ministro da propaganda, fabricou um inimigo principal: os judeus. Mas perseguiu também os gays, os ciganos, outras minorias. E antes mesmo que o estado nazista tocasse o primeiro fio de cabelo do primeiro judeu enviado a um campo de concentração, Goebbels já tinha colocado uma parte do povo alemão hipnotizada pela ideia de que o paraíso estava logo ali e para isto bastaria tirar os “impuros” do caminho.

Ontem, ouvi um defensor do candidato da oposição referir-se ao partido do governo citando, entre outras coisas que não entendi muito bem,  Goobbels. Imputava ao partido do governo uma pretensão fascista ( !) , como se fosse nada, como se não referisse uma grave e dolorosa passagem da história recente, no seu hábito costumeiro de atirar palavras fortes aos oponentes. E quando lhe pedi que me desse argumentos, alinhavou um conjunto de frases que minha porção analista do discurso capturou a origem sem muita dificuldade: a TV e as manchetes de jornal. Como dizem por aí, pra discutir política é preciso saber apenas duas coisas : política e discutir. ´

O eleitor parecia esquecer ou não saber que Goebbels foi um apoiador político de Hitler, seu ministro da propaganda e sua função principal foi fabricar inimigos – como ?- manipulando a imaginação dos alemães. Sua função não era esclarecer a população, recolher provas ou argumentar sobre como conduzir a política alemã – e o povo alemão, magoado pelas condições que a derrota da Primeira Guerra havia imposto ao país.  Sua função era tornar todos o judeus inimigos usando anátemas como “são podres”, “precismos expulsá-los”, “eles merecem a morte”, “ eles são o inimigo”. E aí eu pergunto. Qual a máquina de propaganda que há anos, prega que o PT e seus filiados são “ o inimigo”? Todo mundo sabe. E qualquer pessoa com um pouco de conhecimento em ciências da comunicação pode intuir com facilidade, a serviço de quem esta propaganda está . Para quem não é do ramo, deixo abaixo o link do “Manchetômetro”, um projeto de pesquisa que apresenta algumas evidências do que digo .

Imagino como poderia ser o Brasil se tivéssemos bons veículos de comunicação de massa, ao invés destes que falharam como meio de comunicação social de concessão pública, se tornando pura máquina de propaganda. Sobretudo uma máquina de propaganda que há 40 anos inventou que “ era a melhor” e repetiu todas as milhões de vezes necessárias para que acreditassem. Como seria o Brasil, se ao invés desta, tivéssemos uma TV com a qualidade de um BBC, transmitindo a produção artística brasileira e sua exuberante diversidade. Imagine como seria se a tv brasileira, desde sempre, estivesse aberta a mostrar o Brasil inteiro nas suas riquezas e imperfeições, com inteligência . Imagine se ela fosse obrigada, como são as TVs concessionárias dos EUA, a comprar programas, abrindo suas máquinas de fabricação do imaginário brasileiro à diversidade cultural e muitos pontos de vista deste país continental. Se ela mostrasse nossas contradições, sim, mas para difundir a cultura da paz, da diversidade, da pluralidade, do diálogo, do debate qualificado. Se ela não fosse, desde sempre, uma difusora da cultura do escárnio, da arrogância, da agressividade, da superficialidade, da futilidade e da ostentação. Imaginem – e vou falar agora de um sonho impossível- se os donos das empresas que detém as concessões de transmissão fossem pessoas cuja cultura e a educação os tornassem incapazes de fazer negócios escusos e os levassem a ter cuidado com o que colocam nas bocas de seus empregados ou com os produtos de entretenimento que suas ricas empresas difundem nas salas de milhões de brasileiros todos os dias. Talvez não houvesse tantos políticos eleitos por obra e graça das artes da propaganda televisiva, não é ? E quem perderia com isso?

Não entendo que alguém possa pensar que não seria bom ter TVs que não produzissem apenas narrativas coloridas e sedutoras, ideologia pura disfarçada sob carinhas bonitas e mentiras cínicas no lugar de jornalismo,. Não seria bom que ela parasse de produzir tanta gente viciada em argumentos vazios e emoções baratas, com pouco senso crítico, exposta a empresários sem limites ou responsabilidade ? Eu acho que seria muito bom. Seria ótimo, inclusive, para devolver ao controle da natureza o crescimento da população de rinocerontes evitando que ele se dê em proporções superiores ao equilíbrio ambiental.

rinoceronte

http://www.manchetometro.com.br/

 

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Como se forma um professor?


professor

Tudo começou ainda menina quando, nas brincadeiras solitárias, alternava os papéis de aluna e professora de si mesma. Rabiscos ilegíveis, garatuja. A mãe tinha sido sua primeira professora leiga. Atenta à curiosidade infantil, entregava-lhe o que pedia: Mãe, como escreve boneca? Mãe, como escreve bonita? Mãe, como escreve vida?

E lá ia Mãe escrevendo, a menina cobrindo, palavras conhecidas se desdobrando em frases, reconhecidas nas histórias que a mulher bonita contava com livros coloridos nas mãos antes de dormir. Eram as melhores histórias. Era a mulher mais bonita.

Pediu ao pai que comprasse um quadro negro e giz. Ele atendeu. Ali a garatuja ia tomando a forma de sonhos e poesia. Giz colorido em torno da mão. Já começava a querer deixar marcas no mundo. Pai gostava de adivinhações, cutucava a mente já inquieta da menina: o que é, o que é…?

Na mesa, outra lição: agradecer pelo alimento. Obrigada, Senhor, obrigada, Pai, obrigada, Mãe. E a quem mais? Como assim? E a quem mais? O que aconteceu para que a comida estivesse no prato? Lavrador, pescador, caminhoneiro, comerciante, toda a trajetória do alimento do cultivo ao prato, ludicamente percebidos com o feijão na boca.

Sedenta de conhecimento. Na escola, nunca se importou com o aspecto prático-utilitário que tantas pessoas esperam dos ensinamentos. Acreditava, sem saber, que aprender era ato contínuo e que a teoria era importante para provocar mudanças, para fissurar o habitual, instaurar a incerteza.

Na comunidade onde morava, deu aula particular para crianças. Tão competente no feito, que o dono a convidou para lecionar na escola que ele queria abrir. Muito arriscado. Precisava dizer. Usou argumentos legais para falar com quem sobrevive à margem. Ele entendeu. Ufa…

A Menina cresceu, estudou, terminou a faculdade. Encarou os mais diferentes tipos de sala de aula. Lembra-se com saudade e orgulho de alguns grandes mestres que lhe cruzaram o caminho: alguns, só pelos livros; outros, na lida diária, de diferentes níveis de ensino.

Agradece, entre outros, a Tia Josete, pelo carinho, a Martha Maria, pela reflexão visionária, a já falecida D. Margarida, pela disposição incansável, a Cinda Gonda, pelo amor às pessoas, à política e às letras, a Ronaldo Lins, pela inquietação pulsante de obra e de vida, aos alunos que a provocam, acolhem, enfrentam, aceitam, estimulam e convidam a revisitar caminhos, e a seus pais, seus primeiros professores.

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Eu odeio o PT


Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Há um vírus no ar. Uma ameaça. Bem maior que ebolas da vida. Ou da morte. A doença fatal que quase chegou ao país mata o corpo de um indivíduo em poucos dias. Esta outra, que já infesta boa parte da população brasileira, mata-lhe o pensamento, a crítica e a própria sociedade. Tal qual em famosos seriados de zumbis, milhões de eleitores tiveram seu cérebro comido e vagam arrastando palavras e ações de ódio puro, irracional, bruto e bárbaro.

Não digo que não haveria de haver o ódio contra uma sigla. Há inúmeras odiáveis. O PT é uma delas. Não vejo problema em se odiar o PT, ou o PSDB, ou o DEM, ou o PMDB, ou o PSB, ou qualquer outro partido por tudo aquilo que defende, por sua ideologia, por sua visão de condução do poder. Um ódio menos insensato. Dirigido à ideologia que se professa, em tom grave de desacordo. Faz parte.

O problema é quando o ódio atinge não as siglas, mas a nós mesmos. Veja (sujeito ou verbo?), alguém poderá dizer que, como comunista, eu odeio os latifundiários, por exemplo. Ora, basta que eles abram mão de seu latifúndio e acaba por completo essa minha “raiva”. Nada pessoal. Meramente visão de construção de sociedade. Sou contra a concentração. Incluo os campos.

Infelizmente não é disso que está sendo feita nossa história hoje. O ódio é visceral, irredutível. Há ódio social contra os pobres. Ódio que vem de gente da elite educacional do país. Médicos defendendo castrações químicas. Auditoras do trabalho defendendo genocídios atômicos. Há ódio racial de inúmeros brancos insatisfeitos. Ódio geográfico sulista contra nordestinos. Ódio, ódio puro. Excluir é a palavra da moda.

Um sistema de exclusão é feito de maneira a vender exceções que lhe mascare as regras. Por isso, quando um negro pobre da periferia entra na faculdade e ascende a juiz, vira capa de revista. Mas uma política que busque dar condições a que muitos outros negros pobres da periferia tenham a mesma oportunidade é assistencialismo e, portanto, condenável.

Um excluído que ascende socialmente é o exemplo da oportunidade econômica oferecida pelo sistema do capital. Uma política para que mais excluídos ascendam é um ataque à “igualdade” desse mesmo sistema. É a propaganda de que qualquer um pode se dar bem na vida. Mas todo mundo não. Aí é vandalismo. “Ensinemos a pescar” é a metáfora da ocasião. Uma metáfora triste, já que a ideia é criar pescadores que não tenham acesso ao mar.

O ódio passa do PT ao eleitor do PT. Acusam-se nordestinos de votarem em Dilma porque estão tentando preservar seus interesses. Ora, bolas, e quem está votando no Aécio, não o faz porque está igualmente preservando os seus? Ou temos a ideia de que a elite brasileira faz campanha para o PSDB para demonstrar altruísmo e filantropia? E com tamanha ingratidão. Hoje existem mais Audis e Mercedes circulando com adesivo do Aécio, do que existiam Audis e Mercedes no Brasil em 2002!

O interessante ou o interesseiro é perceber que as classes que vociferam contra as “bolsas-auxílio” esquecem-se de que seu candidato reivindica a paternidade delas e promete ampliá-las! Ora, sejamos coerentes: quem é contra bolsa, vota nulo. Ainda que a hipocrisia das elites não condene odiosamente todas as bolsas e auxílios.

A bolsa-moradia e o auxílio-escolar para juízes e seus filhos (que podem somar mais de dez mil reais por beneficiário) não entram nessa conta de absurdos-assistencialistas-para-vagabundos. Com o agravante que o valor do auxílio educação do magistrado é maior do que o de outros servidores do próprio Judiciário. Afinal, filho de juiz não pode estudar na mesma escola em que estuda o filho de um reles servidor.

O ódio é social. E mortal. Não quero, com isso, defender o voto no PT. De forma alguma, inclusive. Só acho que ter ódio à corrupção e estender isso ao PT é compreensível. Achar que se está resolvendo esse mesmo problema votando no PSDB é uma estupidez incomensurável.

Pouco me importaria se o ódio fosse exclusivo ao PT. Mas não é. O ódio é contra nossa gente. É contra as cores que são nossa identidade. É contra a geografia de nossa população. É contra o comportamento sexual dos indivíduos. É um ódio que prega o fim do Estado em quase todas as relações sociais, para lhe sobrar tempo para fiscalizar o que anda sendo feito do cu de seus indivíduos. A responsabilidade por esse quadro é, ao fim e ao cabo, do próprio partido da estrela.

Quem está à esquerda no pensamento político torce o nariz em apertar o 13 na urna. O fantasma de uma revolução comunista só existe no vazio das cabeças constantinas e azevedas, zumbis que comem os cérebros (?) dos incautos. Uma ditadura de esquerda que promove o maior lucro do sistema financeiro da história? Uma ditadura de esquerda que não tem coragem de regular a mídia que lhes sova diariamente?

Quem dera se houvesse qualquer ideia socialista em curso. O PT afastou-se demais da esquerda para não apanhar dela também. De outro lado, não conseguiu comprar seu ingresso na festa da burguesia nacional. Não adianta que seus militantes usem de qualquer chantagem como “evitar um mal menor” para tentar mostrar que ainda é útil um voto no PT.

Que tudo isso sirva de lição. Que lutemos contra o ódio ao Brasil, contra o ódio à nossa gente. Que o PT faça sua autocrítica a esse respeito. Que abra mão de suas inúmeras concessões ao capital em nome de uma suposta governabilidade. Assim, o PT pode até perder a eleição, mas  ganhará sua história de volta.

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Por um mundo com mais guarda-chuvas e menos paraquedas: notícias de Hong Kong


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Mais uma onda de protestos se ergue no mundo, desta vez em Hong Kong. Ela encontrou no seu caminho gás lacrimogêneo, spray de pimenta e policiais em traje antimanifestação completo (ou seja, a versão local da tropa de choque). Os métodos e as armas da repressão têm sido os mesmos, e o fato do movimento chamar-se de Revolução do Guarda-Chuva deve-se ao uso deste objeto heteróclito como defesa contra spray de pimenta (como foi que eu não pensei nisso antes). Fora a repetição do receituário repressivo, também no fundo parece haver forças em comum que levaram as pessoas às ruas do mundo árabe, do Brasil, da Turquia e, agora, da Ásia.

Em Hong Kong, o que une mais evidentemente os diversos grupos de ativistas, muito diferentes entre si, é o desejo de substituir a democracia de mentirinha que eles têm por uma democracia de verdade. Vão, é claro, se decepcionar, pois como nós todos brasileiros sabemos hoje, essa democracia representativa de meia-tigela nos moldes americanos não é nada tão entusiasmante como quem vive em ditaduras pode imaginar. Porém, na cidade-estado, a realização de eleições seria algo de inédito. A Inglaterra obteve o domínio de Hong Kong via tratado internacional (na verdade, uma das várias imposições ao império chinês após as guerras do ópio). Em 1898, ela obteve ainda uma extensão da área até a China continental, em um sistema de arrendamento sob concessão previsto para durar 99 anos. Na realidade o Império Britânico, pasmem, só terminou oficialmente em 1997 quando da devolução da cidade, que era a sua última colônia, à China.

Nos anos que precederam essa devolução, a mídia ocidental criou uma espécie de terrorismo em relação ao retorno do domínio chinês sobre Hong Kong, antevendo todas as formas de desgraças e catástrofes (ditadura, opressão, mulheres de família sendo transformadas em putas, devoração de criancinhas etc.). A verdade é que a cidade passou de uma dominação colonial para outra (antes, HK era dirigida por um chefe de executivo escolhido em Londres, a partir de 1997, este chefe passou a ser escolhido por Pequim), e a despeito disso, os resultados econômicos e financeiros da reunião foram altamente benéficos para Hong Kong (bastando lembrar que o maior banco do mundo hoje em dia é o HSBC – sigla em inglês de Hong Kong and Shanghai Banking Corporation). A cidade então se tornou uma das Regiões Administrativas Especiais da China, o que significa que ela tem um alto grau de autonomia interna, embora sem autonomia em questões de relações internacionais nem de defesa (fórmula típica do semicolonialismo).

Pode parecer estranho querer correlacionar um movimento como este com o ocorrido no Brasil, que essencialmente questionou a própria forma de representação política e evoluiu, em boa medida, para uma campanha de voto nulo. No entanto, todos os protestos dos últimos anos estão claramente interligados por uma grande insatisfação com o capitalismo, que já vinha de antes, mas foi precipitada pela crise de 2008 (no caso de HK, isso é evidenciado até pelo nome do movimento, Occupy Central, em clara referência ao Occupy Wall Street). Aqueles resgates milionários a bancos e o fato da maioria dos operadores ligados aos derivativos (os títulos podres que estouraram a bolha imobiliária americana) não terem sido presos deixou muitos indignados mundo afora. Na realidade, esses operadores não só não foram presos como foram recompensados com bônus de fim de ano que chegavam à ordem de um milhão de dólares – uma indecência sob qualquer parâmetro (fora todos os rendimentos ao longo do ano, esses grandes executivos recebem este abono, chamado de “golden parachutes”, “paraquedas dourados”).

Além disso, um estudo recentíssimo da OCDE, que examinou a desigualdade no mundo desde 1820, chegou à conclusão que a desigualdade, apesar do incrível crescimento global da economia nesse longo período, na verdade aumentou. Segundo essa pesquisa, países como o México e o Brasil sofrem de uma maior desigualdade social hoje do que nos tempos de Simón Bolívar. Além disso, o estudo apontou o aumento da desigualdade entre as nações, fazendo uma espécie de índice Gini internacional (o índice tradicional é calculado pelo Banco Mundial, e avalia a desigualdade social dentro dos países). Segundo essa nova perspectiva, em 1820 o país mais rico do mundo, a Inglaterra, era cinco vezes mais rico do que a média dos países pobres. Em 2000, o país mais rico, os EUA, era 25 vezes mais rico do que essa média. Lembrando que o índice varia de 0 (a perfeita igualdade, quando a riqueza está igualmente dividida por todos) a 100 (a perfeita desigualdade, toda a riqueza na mão de um único), o aumento da desigualdade global no período foi de 49 para 66 – para se ter um parâmetro de comparação, em 2008, o Gini brasileiro, o terceiro pior do mundo naquele ano, era de 54,4.

Aponta ainda o estudo que a degradação de todos esses índices se acentuou do fim dos anos 1970 para cá, o que a relaciona com o fenômeno da internacionalização do capital (aquilo que chamam de globalização). Quando a própria OCDE admite que “deu ruim”, me parece que é hora de repensar o modelo. Este modelo de abertura nacional para o capital predatório internacional foi adotado mais ou menos por todos os países, e as pessoas não agüentam mais ver bancos enriquecerem (e seus acionistas, grandes gerentes e operadores de área financeira) enquanto economias nacionais são rapinadas e as vidas de milhões são jogadas em buracos. Essa insatisfação de origem financeira precipitou, por sua vez, o questionamento de formas de representação políticas que, mesmo muito diferentes entre si, têm em comum o fato de não estarem concedendo a estrutura necessária para a viabilização dessa farra, o que torna as reivindicações pelo direito de voto contra a farsa eleitoral de lá muito mais próximas das campanhas pelo voto nulo daqui.

Perspectiva regional

De todas as análises que tenho lido, muitas têm frisado a questão da geopolítica no desenvolvimento dos acontecimentos recentes em HK. Entre elas, creio que a análise da perspectiva regional não pode ser deixada de fora. Do ponto de vista do Ocidente, Hong Kong é uma plataforma de exportação, o terceiro maior centro financeiro do planeta (perde apenas para Nova Iorque e para a City londrina) e, ao mesmo tempo, uma das principais portas de entrada para o gigantesco e cobiçado mercado chinês. Do ponto de vista da China, HK foi a primeira Zona Administrativa Especial, que junto com as Zonas Econômicas Especiais, são as áreas onde se permite a operação do capitalismo no país e por onde entra o capital (e a transferência tecnológica, de que eles sabiamente não abrem mão na hora de abrir o seu mercado) tão necessário para um regime que se legitima cada vez mais acentuadamente pelo crescimento econômico. Portanto, há muito em jogo por trás do esquema atual de representação política no território, e é improvável que a situação por lá mude pacificamente.

A China já deu toda sinalização possível de que não vai alterar o seu controle sobre a escolha do Poder Executivo na cidade. Além disso, o tratado conjunto estabelecido com a Inglaterra, de 1985, que preparava o caminho para a transição, garantia a autonomia administrativa e gestão do sistema econômico apenas pelos próximos 50 anos. Portanto, a partir de 2047, a China terá ainda maior liberdade de ação para interferir nos assuntos de HK. Isso, evidentemente, preocupa a população local, principalmente à luz da mudança de direção da política regional chinesa.

Xi Jinping, atual presidente do Partido Comunista, pretende retomar o controle da “Grande China”, o que inclui pesar a mão sobre HK e Taiwan, por exemplo, e reavivar velhas reivindicações territoriais que entram em conflito frontal com Japão, Vietnam e Filipinas. Para isso, a estratégia de inserção regional da China está endurecendo, passando de uma política de relativa boa-vizinhança com os demais países e áreas do sudeste asiático, para uma política de hard power, com investimentos maciços no desenvolvimento de uma marinha de guerra digna de superpotência. Calcula-se que a China ainda demorará algumas décadas para se tornar uma potência naval de verdade e realizar estes objetivos, mas é claro que isso está trazendo um sentimento de insegurança para a região.

Categorias: Política | Deixe um comentário

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