Voto nulo, voto útil


Já foram amigos e aliados mui queridos, até uma traição em 2006, em uma história baixo nível até para os parâmetros degradados da política fluminense

Já foram amigos e aliados mui queridos, até uma traição em 2006, em uma história baixo nível até para os parâmetros degradados da política fluminense

Nas presentes eleições, parece que o clima de desconsolo em relação à política eleitoral atingiu seu auge de desanimo. Após as manifestações populares que tomaram o país, o descrédito em que partidos e políticos caíram chegou a um cúmulo que beira o insustentável. Não é para menos. De esquerda ou direita, todos têm cometido erros grosseiros em relação às demandas da população e pouco ou nada conseguiram reverter em atitudes práticas que indicassem mudanças significativas que apontassem para qualquer transformação. Quando os sussurros tornaram-se gritos de indignação, exigindo maior participação no processo decisório na condução do país (e aqui não importa a variedade de formulações que foram dadas ao problema, o ponto central continua sendo esse), ninguém apresentou uma resposta satisfatória.

Pior ainda, na verdade. As tímidas e natimortas propostas de reforma por parte do governo foram rejeitadas por um congresso avesso a abrir mão dos seus incontáveis e divinos privilégios, com o apoio irrestrito da grande mídia, que provou assim realmente não ter interesse nenhum em mudanças estruturantes e de fundo que possam realmente mudar o país e, quem sabe, até acabar com a corrupção, que ela teoricamente tanto combate. É esta a diferença entre a denúncia e o denuncismo: a primeira tem como base o desejo concreto de transformação, o segundo tem apenas um viés político-partidário de baixíssimo nível e visa apenas a trazer os seus candidatos de volta ao poder. Uma revisteca de direita de circulação nacional que eu nem digo o nome chegou a publicar uma matéria de capa, comparando o projeto do governo para ampliar a participação popular com os soviets da revolução russa, em uma prova de que o jornalismo e a ficção científica no Brasil são gêneros bastante indiferenciados.

Portanto, não é nenhuma surpresa que a campanha contra a “farsa eleitoral” esteja conquistando tantos adeptos. Ao invés de gerar críticas de viés fortemente geriátrico às novas gerações de manifestantes, ganhava mais a esquerda – a direita, é claro, será sempre contra qualquer forma de revolta popular, como a imprensa tão bem ilustrou nos últimos meses – em fazer um severo processo de autocrítica para entender em que ponto ela se desvinculou da força e das reivindicações das ruas. As ruas também ganhariam ao deixar de lado um pouco a falsa noção de que a História começou em junho do ano passado. Desqualificar alguém por ser jovem me parece tão estúpido quanto desqualificar alguém por ser velho. Ignorar que houve uma longa e sofrida caminhada para se chegar aonde estamos hoje, também. Mas infelizmente o atual quadro político do Rio de Janeiro é bem mais complicado do que essas questões.

É famosa a citação a Winston Churchill, notório anticomunista, que teria justificado a sua aliança com Stalin dizendo, “contra Hitler, eu me aliaria até com o diabo”. Dito isto e guardadas as devidas proporções, vamos falar sobre Lindbergh Faria. Conheci-o há muitos anos, no movimento estudantil, e nunca tive simpatia por ele. Ainda não tenho. Mas creio que na conjuntura atual, não se deve descartar fazer um voto útil aí, contra o Garotinho e contra o Pezão. Cabral foi rechaçado pela população do Rio de Janeiro. A sua renúncia foi uma vitória memorável e incontestável dos movimentos de junho, que com as manifestações e a ocupação da rua onde ele mora, no Leblon, tornaram não apenas a sua situação política insustentável, como a sua própria vida um inferno (deve ser meio chato dormir e acordar todos os dias com uma multidão gritando “Ei, Cabral, vai tomar no c…” na sua janela). No entanto, o voto no Pezão está crescendo (segundo especialistas, em cima da enorme e altamente compreensível rejeição ao Garotinho). O eleitor carioca está se sentindo entre a cruz e a caldeirinha. Apesar do crescimento de Pezão estar se dando nessa conjuntura muito específica (a escolha entre o imponderável), fico na dúvida se a sua eleição não traria um amargo sabor de derrota à vitória que representou a renúncia de Sérgio Cabral.

O diabo aguardando ansiosamente pelo Crivella e sua turma

O diabo aguardando ansiosamente pelo Crivella e sua turma

Não questiono o bordão, hoje tão na moda, de que “eleição não muda nada”. Isso é um fato além da contestação. As verdadeiras mudanças virão de outro lugar, que não das urnas. Questiono se o voto nulo é o instrumento certo para o estado do Rio de Janeiro neste momento. O voto nulo é um instrumento político válido, que demonstra a descrença no processo eleitoral em si ou a insatisfação com o cardápio de opções apresentadas. Já fiz uso dele várias vezes. Acho mais fácil ainda entender a extrema preguiça com os partidos tradicionais, ainda mais da parte de quem está nas ruas lutando e ainda por cima é criminalizado por partidos de esquerda.

Mas creio ainda assim ser essencial relembrar alguns fatores. Cabral e Garotinho foram aliados, até a ruptura violenta quando da eleição do primeiro, em 2006. A despeito do rompimento, ambos se apóiam sobre as mesmas máfias (chega a ser risível ver Garotinho dizer no horário eleitoral que enfrentará a máfia dos transportes). Os governos Garotinho / Rosinha estão associados ao crescimento das milícias. Os dos senhores Cabral / Bundão (digo, Pezão), ao recrudescimento da violência policial, via o projeto das UPPS (falido por não ter visão social nenhuma) e via a repressão sistemática às manifestações populares. Todos estão ligados a um banho de sangue e ao genocídio sistemático da população pobre e negra do estado. Todos são ou foram do PMDB. Todos estiveram intimamente relacionados, sendo vices ou líderes de governo uns dos outros. Todos, enfim, vêm do mesmo lugar, e esse lugar é o inferno. Somados os seus “esforços”, já são 16 anos de domínio dessa camarilha. Minha pergunta é: não estaremos entregando fácil demais mais 4 anos para essa corja?

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Tiririca e a gaivota de Silvio Santos


Tiriricas

Palhaço Soneca, Clark Crente, Toninho do Diabo, Jack Chan da Motinha, Chiquinha, Bin Laden, Robin, Marquito, Chapolin… Assim segue a tiriricanização nestas eleições para as gaiolas do legislativo. A quase totalidade dos partidos faz uso dessas bizarrices de modo a alcançar o imenso eleitorado descrente com a tal democracia representativa. O antivoto em figuras canhestras tornou-se um fenômeno cooptado pelas legendas partidárias sem o menor constrangimento em saber que tal fato aprofunda a crise de representatividade política contra a qual nada, absolutamente nada foi feito. 
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigir mais participação na vida política do país e as entidades que deveriam garantir esse direito constitucional fazem-se de moucas, apostando no antivoto e na suruba de cobra das alianças proxenetas. 
A grande malandragem dessa patifaria chama-se coeficiente eleitoral, que faz com que os milhares de votos de um Tiririca arrastem outros maganos de seu puteiro de alianças pra dentro do parlamento sem o quantitativo necessário. 
Quanta carga pode suportar o povo pra entender que essa democracia liberal é uma farsa?

Motel talibã

Um projeto de lei do deputado evangélico-talibã Josias Macieira quer obrigar as pessoas a apresentarem a certidão de casamento pra dar umazinha no motel. O projeto empata-foda conta com amplo apoio da bancada fundamentalista que quer coibir a livre trepada no Brasil.
Segundo o deputado talibã “a razão social dos motéis os permitem a fazer hospedagens de curta duração, no entanto o que vemos hoje é a prática da fornicação e da prostituição. Em defesa da família e dos bons costumes queremos coibir o avanço da sem-vergonhice neste país que já é tão profanado”.
O que vemos hoje é o charlatanismo praticado por vermes pestilentos travestidos de pastores. Em defesa do estado laico e da trepada libertária queremos coibir o avanço do fundamentalismo religioso neste país que já é tão avacalhado politicamente . 
Essa cruzada homofóbica e moralista precisa deixar em paz o cu alheio.

Baú da Infelicidade

Dentre todo lixo reciclável em forma de jornalismo, novelas, filmes e programas de auditório talvez não se veja na televisão cena tão abjeta quanto Silvio Santos jogando gaivotas de cédula na sua plateia como quem joga ração para porcos. O velho pulha do Baú da Infelicidade Alheia subjuga o auditório feminino, que se estapeia no chão para alcançar as notas. Tudo arquitetado como se o único objetivo e sentido da vida daquelas mulheres fosse correr atrás da moeda lançada por um velhaco repugnante e asqueroso.

Zé Colmeia

Apesar da demora inexplicável, descobriu-se mais um crime da puliçada sobre o caso Amarildo. Um laudo de exame de voz identificou a ligação de um PM fingindo ser o traficante Catatau. A ideia do Zé Colmeia da puliça era colocar na conta do tráfico o desaparecimento do pedreiro, torturado e morto pelos meliantes da UPP da Rocinha. 
A tortura e a morte são heranças dos porões da ditadura, sem as quais a PM brasileira perderia sua identidade orgânica.

Não existe amor no RJ.

Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Clarissa Garotinho, Wladimir Garotinho, Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jorge Picciani, Leonardo Picciani, Rafael Picciani. 

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Tiririca e a gaivota de Silvio Santos


 

 

 

Tiriricas

Palhaço Soneca, Clark Crente, Toninho do Diabo, Jack Chan da Motinha, Chiquinha, Bin Laden, Robin, Marquito, Chapolin… Assim segue a tiriricanização nestas eleições para as gaiolas do legislativo. A quase totalidade dos partidos faz uso dessas bizarrices de modo a alcançar o imenso eleitorado descrente com a tal democracia representativa. O antivoto em figuras canhestras tornou-se um fenômeno cooptado pelas legendas partidárias sem o menor constrangimento em saber que tal fato aprofunda a crise de representatividade política contra a qual nada, absolutamente nada foi feito.
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigir mais participação na vida política do país e as entidades que deveriam garantir esse direito constitucional fazem-se de moucas, apostando no antivoto e na suruba de cobra das alianças proxenetas.
A grande malandragem dessa patifaria chama-se coeficiente eleitoral, que faz com que os milhares de votos de um Tiririca arrastem outros maganos de seu puteiro de alianças pra dentro do parlamento sem o quantitativo necessário.
Quanta carga pode suportar o povo pra entender que essa democracia liberal é uma farsa?

 

Motel talibã

Um projeto de lei do deputado evangélico-talibã Josias Macieira quer obrigar as pessoas a apresentarem a certidão de casamento pra dar umazinha no motel. O projeto empata-foda conta com amplo apoio da bancada fundamentalista que quer coibir a livre trepada no Brasil.
Segundo o deputado talibã “a razão social dos motéis os permitem a fazer hospedagens de curta duração, no entanto o que vemos hoje é a prática da fornicação e da prostituição. Em defesa da família e dos bons costumes queremos coibir o avanço da sem-vergonhice neste país que já é tão profanado”.
O que vemos hoje é o charlatanismo praticado por vermes pestilentos travestidos de pastores. Em defesa do estado laico e da trepada libertária queremos coibir o avanço do fundamentalismo religioso neste país que já é tão avacalhado politicamente .
Essa cruzada homofóbica e moralista precisa deixar em paz o cu alheio.

 

Baú da Infelicidade

Dentre todo lixo reciclável em forma de jornalismo, novelas, filmes e programas de auditório talvez não se veja na televisão cena tão abjeta quanto Silvio Santos jogando gaivotas de cédula na sua plateia como quem joga ração para porcos. O velho pulha do Baú da Infelicidade Alheia subjuga o auditório feminino, que se estapeia no chão para alcançar as notas. Tudo arquitetado como se o único objetivo e sentido da vida daquelas mulheres fosse correr atrás da moeda lançada por um velhaco repugnante e asqueroso.

 

Zé Colmeia

Apesar da demora inexplicável, descobriu-se mais um crime da puliçada sobre o caso Amarildo. Um laudo de exame de voz identificou a ligação de um PM fingindo ser o traficante Catatau. A ideia do Zé Colmeia da puliça era colocar na conta do tráfico o desaparecimento do pedreiro, torturado e morto pelos meliantes da UPP da Rocinha.
A tortura e a morte são heranças dos porões da ditadura, sem as quais a PM brasileira perderia sua identidade orgânica.

 

Não existe amor no RJ.

Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Clarissa Garotinho, Wladimir Garotinho, Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jorge Picciani, Leonardo Picciani, Rafael Picciani.

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Antologia parapoética brasileira, comentada, 2ª parte


antologia 2

Novamente, a poesia instaura-se como clamor, em meio a todo o transversismo desenfreado, de tão árduas, sérias e urgentes pautas. Há cinco meses e meio atrás, em março, publiquei a parte inaugural deste texto, a Antologia parapoética brasileira, comentada. Originalmente, não imaginava demorar tanto para produzir sua continuação, mas, como todos sabem por própria vivência, essa vidinha é muito atropelante.

Bem, o objetivo aqui ainda é analisar pérolas do cancioneiro brasileiro, que transbordam lirismo e toda uma vasta rede de significação que, em geral, passam despercebidas. No fim das contas, é um texto que visa a corrigir injustiças que se vêm proliferando acerca das canções em questão.

Vamos ao lirismo que nos espera.

Comecemos por um já neoclássico, no sentido primeiro do termo, de João Lucas e Marcelo, este duo magnífico, desde já inscrito nas mais sublimes tradições da música brasileira, vulgos Tchu e Tcha.

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

É isso ai galera
Esse é o novo hit do João Lucas e Marcelo
Tchu tcha tcha

Cheguei na balada, doidinho pra biritar
A galera tá no clima, todo mundo quer dançar
Uma mina me chamou, e disse “faz um tchu tcha tcha”
Perguntei o que é isso, ela disse ” vou te ensinar”
É uma dança sensual, em Goiânia já pegou
Em Minas explodiu, em Santos já bombou
No nordeste as mina faz, no verão vai pegar
Então faz o tchu tcha tcha, o Brasil inteiro vai cantar

Com João Lucas e Marcelo

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Cheguei na balada, doidinho pra biritar
A galera tá no clima, todo mundo quer dançar
Uma mina me chamou, e disse “faz um tchu tcha tcha”
Perguntei o que é isso, ela disse ” eu vou te ensinar”
É uma dança sensual, em Goiânia já pegou
Em Minas explodiu, em Tocantins já bombou
No nordeste as mina faz, no verão vai pegar
Então faz o tchu tcha tcha, o Brasil inteiro vai cantar

Com João Lucas e Marcelo

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

O que é isso? O metalinguístico questionamento presente na própria letra da canção ecoa em nossas mentes, mesmo depois de ouvi-la. Afinal, o que é isso? O eu lírico obtém de sua solícita interlocutora a resposta que, contudo, nos mantém em meio ao aflitivo enigma. O que se encobre por detrás da transgressão ortográfica “tchu tcha”? Por que, enfim, as pessoas aderiram ingenuamente e não esclarecidas a esse ritmo? As rimas contínuas entre “tcha” e “tcha” dão a tônica da musicalidade da letra, reforçadas pelas riquíssimas rimas com infinitivos verbais em “-ar”, “biritar”, “cantar”, “pegar”, “ensinar”, “dançar”, apenas interrompidas pelo bilionaríssimo duo rímico entre “bombou” e “pegou”, dada, claro, a enfática necessidade expressiva da letra da canção a romper o próprio esquema harmônico de rimas em “a”. A ênfase no verbo “pegar” não é gratuita ou pobreza de expressividade, como pode julgar algum incauto, mas sim uma metáfora interna aa própria letra que, ancorada no espírito da própria transgressão, representada na ousada insistência no som de “tch”, alusão subliminar ao revolucionário Guevara. Eis o sentido derradeiro da canção: uma pegação revolucionária ao ritmo de “tchu tcha tchu tcha”, sem parar, se é que me entendem…

 

E, por falar em ritmos revolucionários, vamos logo ao exemplar máximo da perspectiva de classes no cancioneiro nacional, o axé-marxismo de As meninas:

Analisando
Essa cadeia hereditária
Quero me livrar
Dessa situação precária…

Onde o rico cada vez
Fica mais rico
E o pobre cada vez
Fica mais pobre
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce…

Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!

Mas eu só quero
Educar meus filhos
Tornar um cidadão
Com muita dignidade
Eu quero viver bem
Quero me alimentar
Com a grana que eu ganho
Não dá nem prá melar
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce…

Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!

Bom bom, xibom bombom!
Bom bom, xibom bombom!

O clamor de libertação da letra da música é pungente. Poucos sabem disso, mas outrora, a vanguardista banda axé, chamara-se As Meninas de Marx, nome devidamente alterado para se evitar dum lado sectarismos, doutro, perseguições midiáticas. Ainda assim, as destemidas Meninas ousaram nesse canto proletário em que conclamam as massas dançantes a analisarem seu lugar no mundo e tomarem uma resoluta atitude quanto a isso, inequivocamente expressa em “Bom xibom, xibom, bombom!”. Mais uma vez, uma leitura ingênua conduzirá aa má interpretação. Ora, a insistência em sons bilabiais plosivos, marcadamente representados por “b”, dão aa tenaz convocatória todo um ar que nos aproxima de ritmos marciais, em tom de marcha, tão apropriados aa simbolização de lutas cruciais. Não, não se deixe enganar pela inocente aparência axé da música. É tudo parte duma engenhosa estratégias das Meninas de Marx para a disputa da hegemonia: travestir o mundo de axé para arrebanhar a massa a “se livrar dessa situação precária”.

Infelizmente, desde o advento do Bolsa-Família, As Meninas viram seu estratagema de todo desarticulado, comprovando, mais uma vez, toda a vilania do governo petista.

E, já que o mote passou aa desarticulação, tratemos dum aparente- apenas e tão somente aparente- exemplar desta. Estamos a falar de Djavan, dos mais prestigiados representantes de nossa MPB e considerado por muitos a versão contemporânea e cantante da mitológica Esfinge.

Solidão de manhã,
Poeira tomando assento
Rajada de vento,
Som de assombração,
Coração
Sangrando toda palavra sã

A paixão puro afã,
Místico clã de sereia
Castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si

Açaí, guardiã
Zum de besouro um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro um ímã
Branca é a tez da manhã

Para nos embrenharmos no movediço terreno djavânico, escolhemos a emblemática Açaí. Estampada a letra acima, parece-nos quase autoexplicativa, dispensando maiores aportes. Contudo, como é nosso objetivo elucidar, sigamos adiante. No canto em questão, o compositor alagoano parece revestir, não se sabe se autobiograficamente, seu eu lírico de palpitações e temores que passam, comumente, despercebidos, pois que são ocultados pelo ritmo ameno da instrumentação, estratégia de dissuasão interpretativa, genialmente construída. Tudo em torno do referido eu lírico é angústia. Não se deixem enganar pela melodia fofinha e suave. A chave inquestionável está no verso “Som de assombração”. Djavan pretende trazer ao conhecimento público grandes temores, fobias profundas, ordinariamente ignoradas. Aqui, o compositor trata da denúncia do estado de torpor a que pode ser levada uma frágil vítima de, combinadamente, eosofobia e entomofobia, respectivamente, medo mortal do amanhecer e temor desmedido por insetos. Vejamos. É em meio ao amanhecer que se instaura o som de assombração, logo após toda uma configuração trágica da doce brisa da manhã. Eis que surge o medonho “som de assombração” “sanguinolento” sem poupar sequer as palavras, pois que o eu lírico encontra-se sem elas em meio a seu torpor profundo. Não bastasse, surge o maldito e assustador besouro (Não! Nenhuma crítica do poeta das Alagoas aos meninos de Liverpool; é fobia mesmo), levando a uma desconexão quase total de ideias, como se vê nos versos circundantes. Temor magnetizante, tal qual um ímã de pavores. E a manhã, já medonha, torna-se branca, não o branco transfigurador do poeta Cruz e Sousa, mas um branco de palidez fantasmagórica perpétua, dum medo indescritível. Esse é o libelo conscientizador de Djavan sobre dois grandes males que tanto passam despercebidos. E você achando que era uma letrinha sem sentido ou um canto de lamentação por um amanhecer solitário, depois duma noite paixão, e que “branca” era a simbologia do vazio, hein?! Citando o poeta, “Sabe de nada, inocente!”.

Por fim, uma canção polemicíssima, “Ragatanga”, vulgarmente também conhecida por “Aserehe”, do Rouge, a banda apoteoticamente descoberta e construída pelo olhar de Midas de Sílvio Santos.

Olha lá quem vem virando a esquina!
Vem Diego com toda a alegria, festejando
Com a lua em seus olhos, roupa de água marinha
E seu jeito de malandro
E com magia e pura alma
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo “ragatanga”

E o DJ que já conhece
Toca o som da meia-noite pra Diego, a canção mais desejada
Ele dança, ele curte, ele canta

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Não é por acaso que eu o encontro todo dia
por donde voy caminando
Diego tem sua magia e esta alegria rastafari afrocigana
E com magia e pura alma!
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo “ragatanga”

Y el dijey que lo conoce toca el himno de las doce para Diego la canción más deseada
Y la baila, ele curte, y la canta

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

A letra da música é uma adaptação do grupo argentino Las Ketchup, inclusive citadas e homenageadas tanto na letra da música em si quanto no clipe oficial das brasileiras, num gesto de irmanamento latino-americano de profundo significado, numa canção de pretensões internacionalistas. Muito, muito mesmo se falou sobre menções satânicas na letra dessa música, tomando o pobre coitado do Diego por um emissário de Lúcifer e as palavras do refrão por uma prece ao príncipe das horrendas trevas profundas. Basta digitar “Ragatanga + satanismo” no google e vêm links em cascata sobre o tema. Aliás, cascata é uma palavra bem apropriada, já que não passa disso.
Ora, esse é um caso muito simples de se analisar. Diego simplesmente tá na mão do palhaço, mais encachaçado do que tonel. O tal ritmo por que ele se encontra possuído não passa de seu visível desequilíbrio. Como bom bebum que é, o tal Diego chega crendo estar abafando, mas está, na verdade, trôpego. Inclusive, a coreografia da música demonstra esse trocar de pernas de Diego, aí sim, um pobre diabo. Diego, pudim de cachaça contumaz, a ponto do dj já saber qual a forma de lidar com o bêbedo rapaz e nem fazer caso de sua situação, pontual, à meia-noite. Lembremos que Diego e´”todo dia da semana” encontrado no mesmo estado. O refrão nada mais é do que a representação da fala irreconhecível do miserento Diego, naquele momento todo bêbado das declarações de amor e de carinho eterno, num claro alerta aa juventude, público-alvo das ragatangueiras moças sobre os riscos do álcool. Ou será, ao contrário, uma homenagem ritmada ao líquido d’álém e  a toda afetividade liberta neste momento? Pergunta de dificílima resposta. A experiência adversa de Diego, enfim, não é pra ser ouvida, mas pra ser vivenciada e sentida.
 
Por hoje, é só, pessoal!
No próximo capítulo da Antologia Parapoética, ainda este ano, MPB, com:
- Jorge Benjor,
- Luís Melodia e
- algumas outras surpresas.
 
 
P.S.: texto  especialmente dedicado ao Hugo Villa Maior e aa Tatiana Linhares, dois queridos especialistas em ragatanguismo e aserehice.

 

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Eleições na Transilvânia


Garotinho, o "novo" candidato ao governo do RJ

Garotinho, o “novo” candidato ao governo do RJ

O Rio de Janeiro é mundialmente conhecido como o pior lugar para se ter um titulo de eleitor. No entanto, a eleição deste ano ultrapassou todos os limites do aceitável. Uma disputa eleitoral em que em que os quatro principais candidatos são Garotinho (27%), Pezão (19%), Crivella (17%) e Lindbergh (11%) só pode ser um pesadelo. Garotinho já teve a oportunidade de governar o estado uma vez, e o resultado foi uma das piores crises pelas quais uma unidade federativa já passou. Pezão foi vice do Sérgio Cabral, aquele que implementou uma política de remoções como não se via desde o governo Negrão de Lima, na ditadura militar. Crivella é sobrinho do Edir Macedo e fez uma participação especial, anos atrás, em um vídeo constrangedor em que os dois dividiam sacos de dinheiro arrecadado dos fiéis. Lindbergh, sem dúvida, é o menos nocivo dos quatro, mas não menos o suficiente para que eu vote nele (embora eu não descarte um voto útil aí, contra a gangue do Garotinho ou contra a sua dissidência, o Pezão). Somando isso ao cenário da eleição presidencial, temos um resultado desalentador que torna até a perspectiva de morar na Ucrânia aceitável. Mas vamos conversar sobre Garotinho, o atual quase novamente governador.

Garotinho iniciou a sua vida política muito cedo (daí o apelido). Participou da fundação do PT em Campos, mas rapidamente passou para o PDT, que tinha um futuro bem mais promissor em terras fluminenses naquela época. Tornou-se governador do Rio de janeiro em 1998, a partir de uma aliança entre PT-PDT, que atropelou decisão da base do primeiro desses partidos em nome de uma chapa Lula-Brizola na eleição presidencial, e uma chapa Garotinho com Benedita da Silva como vice. Deu no que deu. A sucessão Garotinho, Benedita (assumiu quando ele se candidatou à presidência) e Rosinha faliu o estado do Rio de Janeiro de uma maneira jamais vista. Na verdade, essas pessoas todas são tão corruptas, incompetentes e desonestas que elas levariam até Vancouver à bancarrota. Fora a crise econômica, foi na área da segurança que essa incompetência ficou mais evidente.

Quando Garotinho foi secretário de segurança da sua esposa, o Estado do Rio de Janeiro enfrentou uma das piores crises de sua história em termos de violência e era corriqueiramente representado pela mídia nacional e internacional como uma espécie de Vietnam. Essa crise foi simbolizada de maneira triste e incisiva pela morte de Geísa Gonçalves, morta por um policial do Bope em uma ação completamente desastrada no episodio que entrou para a crônica de violência da cidade com o nome de “seqüestro do ônibus 174”, em junho de 2000 (rendeu filme e documentário). No seu próprio governo, ele havia demitido o seu coordenador de segurança, Luís Eduardo Soares, após este último ter denunciado um esquema de corrupção que envolvia a cúpula da Polícia Civil: ou seja, ele foi demitido por fazer o seu trabalho direito, em uma espécie de anúncio da tragédia que viria a se seguir.

A despeito disso tudo, chegou a ter 88% de aprovação, mas isso mediante o golpe de aumentar os salários das pessoas em véspera de eleição, que ele aprendeu bem com o Brizola. Também tem no seu currículo, é lógico, um longo histórico de troca de partido. Entrou para o PMDB após ser expulso do PSB, para o qual ele entrou após ser quase expulso do PDT. Atualmente, está no PR, aquela junção do Prona com o PL, ou seja, uma mistura de José de Alencar com Enéias Carneiro. Ao fim do seu reinado de terror, ele e sua mulher, a governadora Rosinha Garotinho, foram considerados inelegíveis pela justiça eleitoral, devido ao uso dos seus programas sociais como programas de compras de votos (velhos hábitos custam a morrer, não é mesmo?). Em protesto, Garotinho esperneou e chegou a fazer greve de fome na sede estadual do PMDB (provavelmente, um dos episódios mais bizantinos da política fluminense, e olha que esse título é bem disputado). Recentemente, foi procurado pelo pessoal do Pânico na TV, que perguntou para ele como era possível concorrer nestas eleições tendo 29 processos nas costas, ao que o ilustre candidato prontamente respondeu: “Não são 29, são 28” (puxa, agora eu fiquei mais tranqüilo).

Enfim, é um típico político brasileiro de direita, desses que ao invés de currículo tem ficha corrida. E essa pessoa está com 27% das intenções de voto (vai entender). Como tudo que é ruim pode piorar sempre (bem, pelo menos no Rio de Janeiro é assim que funciona), em 1995, após um grave acidente automobilístico, o candidato converteu-se à igreja presbiteriana. Isso nos leva ao segundo dos pontos que transformaram esta eleição num tipo de pesadelo: a perspectiva de ter um governador e uma presidente da república evangélicos.

Antes de tudo, vamos definir bem o alvo desta crítica. Não estou me referindo à população em geral que freqüenta as igrejas por se identificar de alguma maneira com a sua filosofia ou com o seu ideário, mas às cúpulas dessas igrejas. Preocupa-me também ver muita gente esclarecida fazer discursos política e teoricamente corretos contra a oposição à Marina e ao Garotinho baseada no fator religião. Sinto muito, mas isso não é uma questão se somenos importância. Só essa semana tivemos duas notícias estarrecedoras a corroborar isso. A primeira, sobre um uma mulher que foi fazer um aborto em uma clínica clandestina e desapareceu. A segunda, sobre um aluno de uma escola municipal que foi impedido de continuar freqüentando as aulas devido à sua iniciação no candomblé – quem adivinhar a religião da diretora da escola ganha um vale-isenção de dois meses do dizimo da igreja (links das matérias no fim).

O fato é que igrejas evangélicas se constroem em cima de um discurso do ódio e do medo. Os pastores dessas igrejas estigmatizam fortemente as outras religiões, especialmente as afro-brasileiras, tanto por proselitismo quanto para controlar a vida dos fiéis. Invasões e depredações de terreiros e espancamento de adeptos já são rotina há décadas na Baixada Fluminense, assim como já houve pelo menos um caso de, pasmem, expulsão de macumbeiros de uma favela por traficantes evangélicos. Esses movimentos neopentecostais também são famosos pela intolerância em relação à diferença de orientação sexual. Nada disso deve surpreender, pois a interpretação literal e tarada da Bíblia está na base do protestantismo e era uma das 95 teses que Martinho Lutero pregou na porta da igreja de Wittenberg, dando o ponta-pé inicial para a Reforma.

Ao lado desses problemas “teológicos”, ainda há a pura e simples picaretagem. Vou colocar aqui o depoimento de uma amiga, professora em Duque de Caxias há anos:

“Eu já falei várias vezes e repito sempre, o fundamentalismo evangélico levantou pela manhã e disse: `Vamos tomar as escolas, vamos tomar a educação’. JÁ ESTÃO SE METENDO NÃO SÓ COM OS DIREITOS LGBT, mas também dando pitaco em política educacional. Temos que nos levantar contra esta máfia do evangelho. Os amigos evangélicos que me conhecem sabem do que eu falo. Não falo contra pessoas dignas que conheço em vários locais, porém A RELAÇÃO DESTA MÁFIA DO EVANGELHO COM BANDIDOS, ASSASSINOS, CONTRAVENTORES, CORRUPTOS JÁ PASSOU PARA O ESPAÇO ESCOLAR HA MUITO TEMPO. VEREADORES MANDAM EM ESCOLAS NA BAIXADA. LOTEIAM CANTINAS, LUCRAM COM A MERENDA ESCOLAR E PROMOVEM GANHOS COM A CONFECÇÃO DO UNIFORME ESCOLAR.

As pessoas têm o direito de acreditar no que elas quiserem, mas eu tenho o direito de ser protegido de crenças alheias que não me dizem nada. E eu não me sinto nada protegido. Minha confiança na manutenção da laicidade no Estado brasileiro é tão pequena quanto a minha confiança nesse Estado democrático de direito que temos aí. As religiões não mudaram. O que mudou foram as sociedades que existem à sua volta. Michel Foucault, na História da loucura, nos relata como se passou a última execução de um homossexual na cidade de Paris. A reação popular a essa execução foi extremamente negativa. Jean-Jacques Rousseau escreveu um artigo atacando-a violentamente e, devido ao clima de quase revolta na cidade, este tipo de loucura parou. As fogueiras não foram apagadas devido a um honesto processo de autocrítica sacerdotal ou dos papas, mas porque a sociedade parou de tolerá-las. Hoje, no Brasil, parecemos estar trilhando o caminho contrário ao da Paris do século XVIII. Aqui, a ignorância e a estupidez estão ganhando terreno, e não cedendo terreno.

No plano federal, as duas principais opções neste momento são entre o Estado dilmocrático de direito, com as suas prisões arbitrárias, a ressurreição de órgãos repressivos do tempo da ditadura (CIE) e a pesada infiltração da polícia nos movimentos sociais, ou o Estado teocrático de direita, representado por Marina Silva e o seu entourage indefensável. Está difícil. É melhor o presidente do Uruguai repensar a sua política de concessão de asilos políticos, pois vamos precisar de muitos.

Observação final. Para todos esses pastores e/ou candidatos homofóbicos e picaretas, eu só digo o seguinte: pena que deus não exista e que não haja, portanto, nenhum plano, propósito ou justiça divina. Se existisse, vocês todos iriam queimar no inferno.

Barrado na escola:

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-09-02/aluno-barrado-por-usar-guias-de-candomble-muda-de-escola.html

A questão do aborto não é importante para você? É melhor ler isso: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09/mulher-sumida-apos-ser-levada-para-fazer-aborto-no-rio-pagou-45-mil.html

Assistir a este vídeo é uma experiência constrangedora: https://www.facebook.com/video.php?v=10202145903482226

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Marinaram as eleições


Neca de pitibiriba que terá meu voto. Mas, parece que muita gente tá caindo no canto da improvável sereia. Eleições esquentando em banho-marina. “Vocês me abrem os seus braços e a gente desfaz um país”.

[Totalmente fugaz]

Aécio Neves já míngua na campanha, lançado com pelo menos 4 anos de atraso, vem se demonstrando incapaz de unificar mesmo a base que o sustenta e parece ter um teto de voo bem baixo, como o dos helicópteros supercarregados que cruzam os céus de Minas.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

Aas vésperas de Aécio Neves ser rifado em praça pública por R$ 1,99, já há uma super-reserva de contingência e de mercado (com trocadilho e tudo) pro seu eleitorado: Dona Marina Silva. Renegando seu passado- inclusive desconhecendo desrespeitosamente Chico Mendes- Marina junta numa candidatura o pior do PT e o pior do PSDB. E como se já não bastasse “pior” nessa história, o pior de tudo é que ela tem muito menos contas a prestar por tudo isso do que os citados. E já demonstra isso claramente. Esse papinho, pra acalentar o sono de bovinos castrados, de que o governo FHC teve muitos pontos positivos, assim como o governo Lula, é um pega bobo que leva muita gente na lábia barata.

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Em trocadilho reverso com o precocemente esquecido passado, hoje a “cara de pau”.

Marina já está a se tornar o ancoradouro da raiva babona antipetista, aa direita e aa esquerda. A velha história da candidatura salvadora de última hora. Já incensada, vista como alternativa de equilíbrio pela mídia hegemônica. A tal “nova política”. Já vimos essa invenção de roda com Collor! E por sobre a enxurrada, lá vem Marina, a tábua de salvação do “novo” Brasil.

Hoje, a candidatura Marina é tão errática e ao fluir das marés que sequer no campo em que historicamente ela se construiu, o da militância ambiental e ecológica, se sabe qual, afinal, será seu direcionamento. Isso até porque não se sabe ainda qual será o cômputo final do balaio de interesses que a terá alavancado até o final da contenda eleitoral. Já se sabe de cara do apoio desinteressado da família Setúbal, esses pobres diabos a viver de contar os caraminguás que o Itaú lhes reserva em sucessivos recordes de faturamento . Em troca só a autonomia do Banco Central… Mas, justiça seja feita, as três candidaturas midiáticas, hoje, disputam aa foice o apoio do capital financeiro brasileiro. Ao que tudo indica, Aécio tá ficando na pista, enquanto Dilma, depois de tudo que seu partido fez por este setor (mais do que o governo FHC), assiste a essas ingratas defecções de suas hostes neoliberais. Sim, até porque as três candidaturas disputam isso: a gerência neoliberal no país. Claro que há nuances, o que me impede de todo de falar que as três candidaturas sejam iguais, embora eu não vá convictamente votar em nenhuma delas. Pelo menos não no 1º turno. Talvez no 2º turno, dependendo de sua configuração.

marina rede

Realmente, uma imagem diz mais que mil palavras.

Marina é o resoluto liberalismo econômico pleno com conservadorismo moralista e social num forçoso e dissimulado balcão de negócios político, este último aspecto no mesmo plano que de seus adversários Dilma e Aécio. Eu, como disse em meu texto da última semana, sinceramente acho que todo esse contexto muito mais leva a campanha Dilma pra direita do que a uma caracterização que gere polarização com o neofenômeno Marina, em termos político-econômicos. Mas, insisto, Marina é o pior dos possíveis mundos. Ruim com Dilma, pior com Marina!

Pela família, com Deus e com Marina! Não tardam os rodrigo-constantinismos, olavismos e congêneres mais ou menos raivosos e tresloucados laudatórios aa Marina. E fogos e rojões pras pesquisas!

E, agora, Dilma é vitral e tudo é pedra. Algumas pedradas justíssimas, mas a maioria pela direita mais descarada que há. E lá vem o PIBinho e muito mais, com ou sem sentido. Repito, não sou eleitor da Dilma, tampouco apoio ou tenho expectativas positivas quanto a seu governo. Contudo, compreendo que o 2º turno que vem por aí pode significar, como tem significado nas últimas eleições, optar pelo governo que proporcione as melhores (se preferirem, chamam de “menos piores”, afinal, é puro jogo de palavras sem mudança de sentido) condições de se fazer oposição. Semana passada, findei meu texto dizendo “Não é eleição que muda a vida.”. Muda sim, pra melhor. Se você é empreiteiro, agiota legalizado (banqueiro), dono da mídia, esse povo da pobre e quase inexistente elite brasileira com a qual Marina se compadece. Pro restante, resta a luta no cotidiano.

 [Nem que o canto fosse esse!]

 

 

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O pouco com Deus é muito


Difícil, de qualquer maneira, mas consola os espíritos simples. Me refiro à campanha eleitoral em curso, claro. Salvo engano ou polianice da minha parte, já não estamos mais sujeitos a sermos arrastados por enxurrada de insultos e campanhas de ódio da internet que se pretendem opinião. Eles ( os insultos e campanhas de ódio) estão lá, é fato, porque a vida é mesmo muito diversa e educação não é uma coisa que nasce no campo ou se compra no shopping da esquina. Me refiro à educação para a política, para a definição dos tópicos mais importantes da política, para o debate e para o desenvolvimento de argumentos, lógico.

Aliás, como se viu no debate entre presidenciáveis esta semana, nem mesmo ser membro de um partido político e candidato ao cargo máximo da hierarquia institucional garante que a pessoa seja capaz de manter alguma coerência e coesão no discurso. Falo de coisas básicas como respeitar o tema abordado pela questão ao responder uma pergunta. Ou dar qualquer razão ou satisfação porque vai tergiversar ( e qual a % de eleitores, me pergunto, saberiam o que significa esta palavra). Fiquei com um bocado de saudades da verve intrépida de um Brizola, da frontalidade de um Plínio e até do deboche combativo de um Ciro, cujas performances podiam inspirar amor ou ódio, indiferença nunca.

Salvo um ou outro posicionamento mais contundente, restrito à proposição de temas que a nossa democracia branda ameaçava tornar tabus, achei o debate para lá de burocrático. A responsabilidade maior disto não está com os candidatos, verdade seja dita, mas no próprio formato da coisa. Talvez fosse melhor escancararem logo de uma vez a superficialidade da proposta, colocando um botão em cada púlpito e lançando perguntas que, a cada rodada, responderia o candidato que fosse mais ágil no soar a campainha. Nem falar do nível de partidarização dos atores-jornalistas presentes. Tive a impressão que a qualquer momento iam arrancar paletós e camisas, revelando uma camiseta com o logo de seu candidato e cantar seu jingle – e de mãos dadas, os populistas.

Diga-se de passagem: tudo somado, penso que as assessorias fizeram bem o seu papel. Nos limites das regras do jogo os candidatos parecem todos cientes que seu discurso tem de falar diretamente aos problemas concretos de maneira curta e pragmática. Mesmo que sejam problemas imaginários – como os que a grande imprensa inventa para o candidato dela poder resolver. Mas como? Alguém poderá perguntar. Mas e o fenômeno da vez, a candidata Marina, que chegou a propor o impossível- pinçar de diferentes partidos os “ melhores”, para fazer o inútil – acabar com a disputa polarizada entre dois dos majoritários : PT e PSDB?

Bem, meus caros, admito que a práxis do discurso raso de promessas prossegue mas, vejam bem, melhorou um bocadinho. A política, finalmente, na sua dimensão simbólica, vista como o próprio mecanismo de produção de realidades entrou em cena. Não ainda como ela é : palco de disputas eternas, troca de ideias e barganha de diferenças, arena de convencimento pela palavra para que não sejam necessários os porretes e balas. Entrou disfarçadinha, tímida, com uma certa tendência a  jurar que é capaz de levar a mensagem cristã de “paz na terra aos homens de boa vontade” e o ” a cada um segundo as suas obras ” à implementação em toda a sua plenitude. Mesmo na imediação dos cofres. Não se promete mais cisternas para acabar com a seca do Nordeste. Mesmo porque a seca agora é em São Paulo, aquele Estado que está praticamente sobre o aquífero Guarani e não ia fazer muito sentido. Se promete o congraçamento dos diferentes. Se promete o apagamento das diferenças sociais : elite é todo mundo. Aquele ali faz parte da tropa de elite da ética e da moralidade : não é fato que puxa uma carrocinha carregada de lixo para reciclar, chova ou faça sol, esteja ou não doente, mora em um barraco de teto furado e mesmo assim, nunca deixou de pagar todos os seus impostos? E olha que o imposto é religiosamente cobrado no arroz, feijão, leite e ovos que entra em casa ou na cachacinha do fim do dia – e olha que eles levam quase metade de tudo que ganha ! E quem diz que ele reclama ou sonega? Aquela ali é da tropa de elite do bom gosto – até abriu uma outlet no shopping mais chique da cidade e praticamente usa todo seu pro-labore em viagens a Miami, sempre pela American Airlines, sempre carregando um iphone ou um tablet – tão mais barato!- e assim subsidiando com provas, que os impostos brasileiros são mesmo escorchantes e fazendo sua parte na politização do debate. Aquele ali ( dizem!) “vende” seu voto por um simples ajutório pra alimentação da criançada e nada sabe sobre Reforma Política. A outra ali ( dizem!) investe os milhões necessário à campanha de fazer-conhecido um candidato a deputado – para colocar o primo dela perto da boca do caixa – e nada quer saber de Reforma Política. Mas todos têm na ponta da língua um só nojo: corrupção! Somos todos elite, no fundo. O que precisamos é tomar consciência de que cada um tem de fazer a sua parte. Com eficiência e visão estratégica.

A estratégia está correta, meus amigos. Em tempos de consumismo, muito eleitor-consumidor procura um candidato que valha o custo/benefício. Para isso ele consulta a caixa de recomendações do site, pega indicações com os amigos e parentes e procura novidades no campo do design ( e ouviu dizer que o retrô está em alta !) – porque não ? Ou alguém aí gosta de ler manual de instruções, vai querer saber como é que o produto foi fabricado ou está preocupado se seu uso vai causar malefícios à saúde DOS OUTROS antes de comprar ?

Pragmática, meus caros. Bem vindos, ao deserto da pragmática. É o que tem pra hoje. É pouco mas o pouco etc.

 

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As razões pelas quais eu jamais votaria em Marina Silva


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Na verdade, este texto inteiro poderia se limitar a duas palavras: Neca Setúbal. E, além disso, creio que posso intrometidamente afirmar que estas duas palavras também deveriam levar você a não votar em hipótese alguma nessa pessoa. Mas não reduzirei o meu argumento a esse ponto, mesmo que ele seja autossuficiente. Vamos lá e explico.

Marina Silva vem se apresentando, de uma forma marqueteira e um tanto presunçosa, como a “renovação” da política nacional. Muito curioso vindo da parte de alguém que me apresenta um programa econômico que poderia ter saído da mesa de qualquer burocrata do FMI e professa crenças fundamentalistas cristãs que satisfariam, digamos, o Papa Urbano VIII (aquele da pinimba com o Galileu). Alguém que participa de manifestações públicas contra o aborto e é contra experiências com células-tronco não é exatamente uma forte candidata ao título de “crente bullshit free” do ano.

Não vindo toda essa inovação da área econômica e nem da área confessional, que as pessoas deveriam de preferência ter o bom-senso de deixar em casa, talvez a razão que a torne a candidata novidadeira do momento seja a abordagem da questão ecológica, uma vez que esta está indissociável da própria persona política de Marina. Todavia, o seu vice, Beto Albuquerque, parece desmentir descaradamente o seu próprio histórico. Ligado ao agronegócio e à bancada ruralista, é dessa fonte que ele tira a maior parte do seu financiamento de campanha. Gostaria de lembrar que o PT demorou coisa de uns 15 anos para desconfigurar o seu próprio programa de partido ao ponto de torná-lo “politicamente aceitável”. Marina Silva, me parece, e isso é apenas uma opinião, está fazendo o mesmo em um ritmo de não fazer feio na frente de nenhum Antonio Palocci.

Na verdade, como disse uma amiga minha ligada à área indígena, “Marina há muito tempo traiu a luta dos povos da floresta e dos rios”. Não vejo nenhuma razão para acreditar que ela vá romper com o modelo da monocultura agrário-exportadora da soja, que introduz nos circuitos mais avançados do capitalismo mundializado a região de maior biodiversidade do planeta e com diversos povos indígenas, com perdas evidentes para estes últimos. Como já venho dizendo há certo tempo, derrubar a Amazônia, matar todos os índios e comprometer de lambuja o futuro do planeta como um todo para vender soja a menos de 400 dólares à tonelada é, como diriam os melhores pesquisadores do círculo científico, uma puta de uma cagada.

Mas voltemos à educadora que foi Neca Setúbal. Talvez o Magistério não se ressinta da perda dessa mulher tanto quanto o sistema financeiro do dia de amanhã (que, espero, não virá). É ela neste momento a grande coordenadora da campanha de Marina Silva e a maior defensora da “autonomia do Banco Central” (essa Marina, sempre inovando!). Vamos entender do que se trata isso na prática, da maneira mais sucinta e com menos “papo técnico” possível. Desde os pouco saudosos tempos do FH, o Brasil, para pagar as suas contas, tornou-se dependente da entrada de capitais estrangeiros (muitas vezes especulativos). A forma de atrair esses capitais é manter uma das taxas de juro mais elevadas do mundo. Essa taxa, conhecida como taxa Selic, nada mais é do que o juro que o governo paga pelo dinheiro que ele pega emprestado para se sustentar. A Selic, também, serve de referência para todo o resto da economia nacional (daí o seu apelido de “taxa básica”).

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema. Obs.: esses dados não são fiáveis, isso está aqui apenas de brincadeira

Os juros que são pagos mundo afora são muito inferiores aos pagos no Brasil (para se ter uma ideia, depois da crise de 2008, a equivalente americana da Selic caiu abaixo de 1%, enquanto no Brasil, em média, ela ficou em torno de 12%). Ora, os grandes captadores do dinheiro que financia o governo são os bancos nacionais. Eles captam “dinheiro barato” no exterior e emprestam para o governo a juros absurdamente altos. O lucro deles é essa diferença (chamada de spread bancário). Levando-se em consideração que a Selic chegou, nos dourados anos FH, por exemplo, a inacreditáveis 45% (ou seja, a níveis de altitude de balão meteorológico), não é de se estranhar que todo ano seja ano de lucro recorde para os bancos brasileiros. Agora, sabem quem fixa a taxa Selic? O Banco Central, que Marina Silva parece pronta a entregar para… a dona do Itaú (ela mesma, Neca Setúbal), um dos maiores e mais agressivos bancos do mundo, segundo qualquer critério de avaliação.

Em termos práticos, por trás dessa proposta tão encantadora para liberais ouvidos de autonomia do Banco Central (por significar “menos governo”), encontra-se na verdade “mais sistema financeiro”, e a capacidade da Neca, e dos mandarins dos outros bancos em conluio com ela, de fixarem O SEU PRÓPRIO LUCRO, uma vez que isso significa que “o mercado” (essa mistura de fantasia e fetiche liberal) terá um controle muito maior do que ele já tem de fixar o quanto o governo paga de juros para o próprio “mercado”. É mais ou menos um equivalente ao direito mais singelo que os deputados federais têm de fixar o seu próprio aumento.

(Um parêntese saindo um pouco do tom de galhofa deste texto. O prejuízo dessa brincadeira toda para o país e para o povo brasileiro é enorme. Este ano, o governo calcula que pagará 99 bilhões de reais, o equivalente a 1,9% do PIB, só em juros de dívidas (http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/02/20/governo-anuncia-corte-de-r-no-orcamento-de-2014.htm). Isso é apenas a ponta do iceberg, uma vez que o principal da dívida – as amortizações – não estão nessa conta. Só para usar uma metáfora que até o Rodrigo Constantino seria capaz de entender, quando aquele assessor infeliz foi pego com dinheiro nas cuecas – parte do escândalo do mensalão – ele carregava 100.000 reais. Dividindo-se o que se planeja gastar só em juros, só em superávit primário, só este ano, seriam necessárias quase um milhão de cuecas para carregar esse dinheiro todo, que vai, todavia, para os ativos dos bancos nacionais e internacionais e para remunerar o capital especulativo, e você não verá nunca a imprensa tocar nesse assunto. Para mim, pessoalmente, não romper com esse modelo foi um dos dois piores aspectos do governo do PT – o outro, é a política mata-índio de desenvolvimento a qualquer custo – mas, verdade seja dita, calcula-se que em média esses juros na era FH rondaram os 20%, em Lula, os 15%, e com Dilma, os 10%. No entanto, os juros brasileiros seguem há 16 anos entre os mais altos do planeta, o que significa que o PT realmente não alterou essa política, apenas tirou os juros da estratosfera e da companhia dos balões em que o governo FHC os fixou – a redução do governo Dilma inclusive é bem relativa, uma vez que os juros internacionais despencaram com a crise financeira, o que abriu espaço para uma redução doméstica. Em termos de reduzir as perdas para o país, é alguma coisa, mas longe do suficiente. Fim do parêntese).

Ainda em política econômica, Marina ressuscitou dois nomes ligados ao Plano Real e ao FH: Eduardo Giannetti e André Lara Rezende. Ambos estão por trás do sucesso do Plano Real e das políticas de contenção de gastos públicos, que se concretizaram na forma de privatarias, de corte de gastos sociais, no sufocamento da universidade pública e etc. O segundo, inclusive, após tornar-se bilionário graças ao tráfico de influência foi morar na Inglaterra para curtir a vida adoidado e cuidar dos seus dois hobbies, a criação de cavalos puro-sangue e os carros de luxo. Marina, por alguma razão que eu não vou conseguir entender nunca, resolveu tirar esse rapaz do seu merecido sossego e trazê-lo de volta ao Brasil para trabalhar no governo.

Resumindo que estou com sono e é hora de ir dormir: Marina Silva apresenta uma política econômica baseada no clássico tripé liberal de metas de inflação (o que significa juros altos), câmbio flutuante e superávit primário (cortes de gastos do governo e/ou aumento de arrecadação – mais impostos). Uma coleção de compromissos ecológicos e sociais que parecem cada vez mais enterrados no seu passado, junto com o Chio Mendes (perdoem-me, mas às duas da manhã o humor negro é o meu forte). E uma equipe de governo saída de um conto de fadas “só que não”. Me explica cadê a novidade disso.

Obs.: esse texto trata de política monetária, fundamentalmente. Essa política tem outros aspectos, e a própria Selic é usada como um instrumento de controle da inflação (a famosa política monetária contracionista, cara aos liberais). Porém, quis tratar aqui do aspecto posto em relevo pela presença de Neca na campanha, e do qual normalmente não se ouve falar nos jornais e na televisão: a relação entre alta de juros e os lucros extraordinários dos banqueiros e o aprisionamento do país ao sistema financeiro internacional pela via do endividamento público permanente.

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O PT nunca me decepcionou.


Agora, com publicações mais esparsas, decorrentes duma vida profissional e acadêmica, por ora, mais turbulenta, acrescida dum pontual resguardo pós-operatório que me obriga aa privação quase completa duma série de atividades que incluam mínimos esforços físicos, me resta, deitado, ler e escrever, o que faço agora, felizmente, aqui no blogue.

Quando se passa a escrever menos, naturalmente, o número de assuntos no cabide se amplia. Em meio aa morte de Eduardo Campos e a ressurreição retumbante e sorridente da direita conservadoríssima (sim, Aécio é direita ortodoxa, mas liberal), via Marina Silva, me bateu afã de me posicionar, muito claramente, quanto a este contexto, o que passa, invariavelmente, por botar pingos nos is da Dilma e de seu partido, em meio a tudo isso.

marina silvaSem o blablabla vazio de que Campos era um democrata, um “republicano” (sabe-se lá o significado disso) ou ainda sem o cretino endeusamento post mortem e mesmo sem considerar que compunha a mesma esquerda (em sentido lato, por favor) padrão fifa em que se enquadra o próprio PT, num governo de todo neoliberal, de jogo duríssimo com o funcionalismo, etc, o fato é que, após a sua fatídica morte, tá se processando uma clara inflexão conservadora na movimentação de campanha. Isso numa campanha que já não tem, decidida e sacramentadamente pelos poderes oficiais e oficiosos, por horizonte de massas nenhuma perspectiva, ainda que pífia, de contestação ao modelo neoliberal aí instaurado e patinando a longas pernadas. Não bastasse, isso ocorre em sincronia com o recrudescimento de ações coercitivas no país, seja aos trabalhadores organizados em seu movimento sindical, seja aos trabalhadores em favelas, periferias e situações de moradia precarizada- aí incluídos, claro, os que foram vítimas de remoções recentes pra Copa, seja aos que protestam contra a truculência, o status quo…

Em todo esse contexto, o que mais quer a militância apoiadora-insistente de Dilma é configurá-la como a contraposição possível e, segundo eles, óbvia a todo esse quadro. Fazem isso de forma reducionista (“é o Brasil da Senzala contra o da Casa Grande”, por exemplo), arrogantemente desqualificadora (ignorando mesmo candidaturas do campo democrático-popular), chantagista (imputando/cobrando a responsabilidade pela derrota da direita clássica no apoio de peito aberto aa candidatura petista). É muito pingo pra pouco i.

Se há, defronte a este texto, um leitor antipetista raivoso, sinto dizer que se decepcionará. Pretendo ser mais sério e profundo aqui do que a fanfarronice tresloucada e esquizofrênica, quando não sórdida e cínica, no fundo, da direita mais asquerosa que há, de que “a culpa é da Dilma/ do PT”. Este blogue tem cérebros.

dilma petralha

Petralha maldita.

Vamos começar por esclarecer que o título deste texto não é irônico, mesmo. Desde os sorrisos e empolgação despojada de 1989, nunca esperei do PT algo de transformador. Em 89, eu não votava, mas votaria, se pudesse, convicto em Brizola. Nas campanhas seguintes, sempre compreendi que o PT era tão somente, quando muito, reformista. Suas proposições centrais, formuladas seguidamente por sua direção nacional, não colidem frontalmente com o que se tem visto. Talvez haja, isso sim, confronto entre a expectativa criada por tantos militantes e a concretização do governo petista. Contudo, isso tá muito mais no campo dum simbólico construído ao longo das décadas, pelo legítimo desejo e sonho dessa militância, embora nunca verdadeiramente respaldado institucionalmente por seu partido. O PT nasceu pra não ser transformador, pra, no estilo mais clássico da histórica social-democracia aa europeia, gerir o capital, sem lhe eriçar sequer dois fios de cabelo que fossem. De revolucionário, o PT sempre teve no máximo as leituras de parte de sua militância. Seu nível de institucionalização e de apego a todo o parelho institucional de que pudesse dispor, rifando movimento em prol de máquina no pior aprendizado do legado do Leste Europeu, sempre foi a tônica da direção nacional aa maioria das tendências.

PT Decadente - Em todo o Brasil

Lembro duma reunião política, pré-2º turno das eleições de 2002 de que participei, já com a expectativa da eleição de Lula e duma avaliação que fiz dizendo que não esperava dum governo Lula nada mais do que um governo Sarney melhorado. Essa afirmação rendeu alguns olhares de estranhamento ou mesmo de “que viagem!”. Ora, o que se esperava: a ruptura com o neoliberalismo?! Vinda do PT?!

Mesmo a forma como o PT lida com o restante do campo democrático-popular hoje não é novidade alguma. O hegemonismo arrogante tá no DNA petista desde o ABC, desde as discussões da formação da CUT. De chapa a grêmio estudantil aa presidência da república esse é o modus operandis deles.

Assim, muito sinceramente, não guardo qualquer decepção com qualquer governo petista. Tá tudo na conta da gestão do capital, índole muito anterior aa vitória de Lula em 2002. Da reforma da previdência aa repressão/coação- sem falar, claro, na cooptação- dos movimentos sociais tudo se inscreve nessa lógica. A quem tenta atribuir aos governos Lula-Dilma a legitimidade popular dum governo Chávez, por exemplo, taí uma diferença crucial. Este não emparedou os trabalhadores, pra afagar as camadas médias. O PT tenta, até obstinadamente, se demonstrar dócil ao capital, mas, pairam setores neuróticos, em permanente e militante desconfiança e detratação, como a maior parte da mídia oficialesca e a posição “de recalque de classe” da classe média brasileira. Aliás, esses são os setores que, com sua histeria, mais justificam o rebaixamento da discussão a um nível “Casa Grande x Senzala”, o que só despolitiza o processo. A população trabalhadora, aí incluída a “subtrabalhadora” tão incensada no discurso petista, não está sendo organizada pra construção dum projeto seu. Ao invés disso, resta um paternalismo assistencialista, talvez duma dimensão histórica equivalente a de Vargas, que, intencionalmente, não organiza. E, justiça seja feita, Getúlio, do alto de seu autoritarismo, perseguição e paternalismo, criou instrumentos que até hoje servem aa organização dos trabalhadores, em termos formais. Nem Orçamento Participativo- ainda que instrumento cheio de limitações que era- em prefeitura petista existe mais. E, sinceramente, isso também não é contraditório ou decepcionante. Óbvio que esse tão propalado instrumento, num dado período da história do PT, cumpria um papel que fazia sentido aa lógica de oposição em construção acumulando forças a voos mais altos.

lula_chavez_293O pior do PT, em seu trajeto de gestor do capital no Estado brasileiro, não é todo o conjunto de atitudes que lhe soam contraditórias, insisto, apenas no campo simbólico que lhe foi construído ao redor. Malufs, Sarney, Collors, Cabrais e todo o restante é repugnante, medonho e fétido. Mas, muito, mas muito mesmo, pior do que isso é ser o bom gestor do sistema financeiro, acolhedor aos bancos, ao mercado especulativo e tudo que lhe é implicado. E ainda me vem o Santander roer a corda da campanha da Dilma?! É muita ingratidão, chega a ser filhadaputice. O Santander Brasil chegou a ser responsável por 1/4 do faturamento do banco no mundo. Isso no período mais crítico da crise na Espanha. Isso é pagar com traição a quem lhe deu a mão.

Santander-2

Considerando tudo isso, creio fortemente que a campanha petista vai mais pra direita junto com todo o resto. Não seria a primeira vez que isso ocorreria. O nível de institucionalização petista, agora, é o máximo. A reprodução dessa máquina, em si, é um objetivo a se cumprir. E, com objetivos, sinceramente, reformistas. Não é questão de sacanagem ou não. É no que o Partido, infelizmente nomeado, dos Trabalhadores, crê, desde sempre.

É claro que se pode objetar a todo este texto que, ainda que no plano simbólico, o governo PT cumpre um papel que se reflete nas medidas pró-população mais desfavorecida implementadas pelo governo petista central. Mais do que isso, pode-se argumentar que ele eleve, ou, pelo menos, paute com mais centralidade contradições sistêmicas. É verdade. O simbólico tá no plano do ideológico e, de forma alguma, é desprezível. E é isso e tão somente isso que me faz considerar qualquer possibilidade de voto numa candidatura Dilma num 2º turno que, espero, exista. É por esse motivo que não posso aceitar que, por exemplo, na disputa em meu estado, o RJ, se diga que Garotinho Ou Pezão (o vice do desgovernador Cabral) sejam a mesma coisa que Lindberg Farias, que, aliás, tá aa esquerda da Dilma- não que isso tenha grande impacto institucional efetivo.

Feita esta análise, pondo pingos nos possíveis is, era isto: deixar claro que o PT nunca teve o poder de me decepcionar. Pra quem se importa com o trabalhador organizado, lidar com esse governo e suas candidaturas envolve um nível de dialética cotidiana que precisa ser praticada com muita atenção e seriedade. Eu tento lidar com a bestialização antipetista dum lado e com o petismo no poder, desta forma, sem culpas, e sem expectativas.

Há, no campo histórico democrático-popular, opções outras, Luciana Genro (PSOL), Mauro Iasi (PCB), Zé Maria (PSTU), Rui Pimenta (PCO). Essas opções também existem, para além do jogo institucional-midiático de cartas marcadas, nas ruas, no dia a dia. Ou, pelo menos, deveriam existir. Não é eleição que muda a vida.

 

 

 

 

 

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Uma das vias escorregadias da militância feminista


ser-mulher-e-feminista

Você já percebeu quantas frentes de militância integra sem se dar conta? Não tem a ver com filiação, nem sindicalização, muito menos partidarismo, mas, certamente, tem e muito a ver com política no sentido menos estrito do termo, embora não se possa supor ingenuamente a inexistência de linhas ideológicas bem demarcadas a cada defesa de ponto de vista.

Múltiplas são as formas de militar por uma causa, sendo a atitude e a motivação norteados pela defesa do que se julga o justo, o bom e o adequado para o melhor funcionamento das engrenagens desse vasto mundo cão, certamente no afã de torná-lo menos rapino.

O que me chama a atenção nessa constelação de possibilidades é certa falta de coerência que muitas vezes parece acompanhar escolhas aparentemente contraditórias. Não estou falando da pizza com guaraná diet, mas do discurso ambíguo que prega o desmerecimento sistemático do outro ao mesmo tempo em que reivindica para si respeito e legitimidade. Estou falando do discurso que denuncia a mercantilização da figura feminina, mas associa a manifestação do grito das oprimidas à liberação visual dos mamilos. E nesse bojo, ainda tenho questões ainda não resolvidas sobre a prostituição, assunto sobre o qual espero me debruçar com mais critério para elaboração textual futura .

Li recentemente em página feminista a pregação do ódio ao macho, o falo opressor hegemônico, responsável por todos os tipos de atrocidades já cometidas e ainda por se cometer na face da Terra. Preciso dizer que sou contra a dominação machista, com estrutura de repetição ancestral entre homens, mulheres e demais gêneros, mas nada tenho em especial contra os homens. Embora sejam parte do terreno sufocante que trilhamos na conquista sempre árdua de direitos, não podem ser responsabilizados  individual e coletivamente por todo o tipo de violência de gênero.

Não há absolvição na lógica que pretendo desenvolver, mas sim o combate à culpabilização prévia. Somos todos parte de um tecido engelhado de rupturas e muito ainda precisa ser discutido sobre as transformações necessárias para a promoção da igualdade.

Um dos caminhos talvez seja analisar de que forma todos contribuímos para reforçar os nós que prendem as minorias a um espaço de confinamento ideológico, restringindo-lhes a fala, a atitude, a expressão do pensamento ao mesmo tempo em que se ensaia uma liberação momentânea e transgressora, praticamente uma catarse, restrita a marchas (não nego a importância delas, ok?) . Papo para outra semana.

feminista1

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