Falsa escolha


M. Escher, Dia e noite

M. Escher, Dia e noite

Os ânimos andam acirrados nesta reta final de segundo turno. Amizades desfazem-se por preferências eleitorais. Tudo é apresentado de maneira a fortalecer um antagonismo que, analisado friamente, não existe. O que, de fato, emerge é apenas a falsa polêmica, que tem o poder de criar a ilusão de que o destino está em nossas mãos. Ou melhor, na ponta dos dedos. Nas teclas de uma caixa plástica.

Antes que você se faça de desentendido, serei claro: você não escolhe nada nas eleições. Ok, escolhe, talvez, de forma mais ou menos definida, como serão realizadas as vontades já estabelecidas do grande capital. O que chega até nós é como uma prova de múltipla escolha onde somos levados a aceitar as alternativas oferecidas como únicas.

Claro que você irá discordar dessa ideia. Neste momento mesmo está balançando negativamente a cabeça, reafirmando que, obviamente, você escolhe o próximo governo. Mas, cuidado, seus olhos o enganam. Vivemos em uma espécie de “Matrix” democrático-representativa, que pouco têm de democrática, menos ainda de representativa.

Nosso modelo eleitoral é a versão burlesca da democracia estadunidense, formada por dois partidos hegemônicos, cuja diferença essencial reside nos nomes e símbolos que adotam. As políticas mais ou menos liberais, conservadoras, intervencionistas ou imperialistas vão como o vento. De sólido, apenas os acordos quanto aos princípios econômicos dos detentores dos meios de produção e financiamento.

Aqui, em lugar de prévias estaduais, temos um primeiro turno tutelado pela mídia e pelo financiamento de campanha, até que se chegue ao segundo turno (se houver) sempre com a mesma polarização: PSDB de um lado, PT de outro. É assim desde a segunda eleição pós-ditadura. A primeira, lembremo-nos, elegeu um aventureiro (o capital não gosta de aventuras e incertezas), logo retirado pela pressão que a mídia criou na “opinião pública” (apesar de cassado no Legislativo, Collor foi inocentado pela Judiciário).

Não importa. Ao grande capital é fundamental a segurança do bipartidarismo. São nossos “democratas” e “republicanos”, ainda que nenhum deles seja efetivamente democrático ou tenha qualquer comportamento republicano. Por isso, não é de se estranhar que os financiadores de ambas as campanhas sejam os mesmos – empreiteiros, financistas e industriais – e com valores similares. Em verdade, estão pagando os atores da farsa da democracia que é vendida à sociedade.

Assim, não há razão para tamanho antagonismo de seus militantes. Estamos diante tão-somente de duas formas de gerir o projeto burguês tropical. Nada que afete as bases do capitalismo brasileiro. As preocupações exageradas são infundadas em caso até mesmo de um governo tucano. Sim, o PSDB representa os interesses de uma direita mais conservadora, com mais mercado, menos estado, desemprego estrutural como forma de pressionar os salários, juros altos e baixa liquidez. Sabemos de tudo isso e como teremos nossa luta recrudescida em caso de novos anos de tucanato. Mas, não precisamos tratar disso, os direitistas já abandonaram este texto desde seu segundo parágrafo.

O que não dá para aceitar é achar que o PT represente qualquer antagonismo a isso. No máximo, é o sopro na ardência do machucado, um conciliador que convence de que está sendo bom optar pelo ruim. No fundo é apenas a ideia política de ter mais Estado garantindo os lucros do capital. Até mesmo porque o verdadeiro controle se dá pelo presidencialismo de coalizão, em que, quaisquer dos candidatos, terá de submeter-se ao PMDB, por exemplo, para conseguir “governabilidade”.

Ou seja, teremos um governo de base liberal – para realizar as reformas que o capital (interno e externo) necessitam, ainda que impopulares (o PSDB é ótimo para encarnar esse papel) – ou um governo de atuação keynesiana – facilitadora da aceitação das necessidades do capital para as classes trabalhadora em geral. Mas não teremos nada que ameace o status quo pelo que ambas as siglas são pagas. Nem mesmo a social-democracia passa perto do discurso de ambos.

Fala-se no assistencialismo do PT e na distribuição de renda. Feita de que forma, já que, por exemplo, a concentração de renda por parte do 1% mais rico aumentou? O Brasil hoje tem quase o dobro de bilionários que tinha no governo FHC. Os bancos registraram o maior lucro em toda sua história, associado a políticas de crédito que endividam os trabalhadores, garantindo o sorriso do capital financeiro. A distribuição de renda é voltada ao consumo, para garantir que a crise fique longe do empresariado, pouco tem a ver com efetivas questões sociais, como se comprova no acesso à saúde ou educação.

Temos, de fato, uma democratização da educação? Ora, de que forma? Transferindo-se rios de recursos públicos a entidades privadas? E isso não seria privatização? A criação de inúmeros incentivos e subsídios para indústrias, em especial, multinacionais é a atuação de um Estado “socialista”? E tudo isso, em nome da criação de postos de trabalho de baixa escolaridade, mal remunerados e, por muitas vezes precários, tendendo à extrema rotatividade dos trabalhadores.

Nesse ponto, cabe lembrar a forma como o governo petista tratou trabalhadores em greve ou em luta por melhores salários e condições. Cabe lembrar a cooptação de sindicatos e associações e o aceno que hoje existe para a “flexibilização” das relações trabalhistas. A truculência como foram tratados professores universitários, servidores públicos federais, além de manifestantes na Copa do Mundo, ensinando-nos que o cassetete do PT bate tão forte quanto o do PSDB.

Durante doze anos, o PT teve a oportunidade de regular a mídia, diminuindo-lhe a concentração. E, antes que chamem a medida de “comunista”, vejam que a medida restritiva existe na pátria-mãe da democracia, os Estados Unidos. E por que não fez? Não fez, porque não pode fazer, porque não goza de liberdade ou de autonomia para definir pontos cruciais de plano de governo, apenas algumas filigranas. Não pode porque está comprometido com a manutenção dos princípios econômicos e políticos dos donos do capital e, pelo quais, vem sendo muito bem pago.

É desta forma que se enxerga o PT sem resposta diante de temas simples como a “meritocracia”. Mas, em lugar de colocar uma posição clara e simples sobre a questão, o partido, outrora dos trabalhadores, é obrigado a aceitar princípios de “gestão eficiente”, “méritos sem igualdade de condições”, sem intervir nas causas reais que nos levam à miséria – econômica, educacional, social ou cultural.

Por serem tão próximos os projetos é que não se os discute nos debates. Sobram apenas acusações. E, neste campo, os dois lados falam a verdade com relação ao outro: são todos sujos. A quantidade e a qualidade do roubo não importa tanto assim quando se assumem ambos como ladrões. Assim, Independentemente de qual candidato vença, o que temos como certeza é que o próximo presidente, diante de tantas denúncias, já deve começar seu mandato investigado. Talvez os debates de agora acabem com a legitimidade de qualquer mandato.

As propostas não são importantes, pois são, no bojo, as mesmas. Mudam-se os nomes, não as políticas. Compadeço-me, no entanto, dos inúmeros companheiros valorosos que hoje acreditam participar deste circo em outro papel senão o de palhaços. Continuaremos, de qualquer forma, a ver migalhas jogadas aos pobres. Resta saber se vamos comemorar as migalhas como avanços ou vamos nos organizar para pegar o pão que nos cabe.

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Dilma não merece meu voto!


aecio comuna

Malditos comunistas! Sempre em toda parte, pervertendo o que é de bem. No cardápio, crianças ao tutu.

Não mesmo! Não é um título sequer milimetricamente irônico. Nem um pouquinho! Nem pela simpatia/carisma que, aliás, Dilma tem quase nenhuma. Agora, se Dilma não merece, Aécio sequer é cogitável para isso. É fora de parâmetro, aberrante, esdrúxulo considerar ao menos esta candidatura em termos de merecimentos. Aécio não existe! É de direita e da direita, opção zero das elites. Carrega consigo todo o soerguimento de estrume bestializado e bestificante que vem trazendo aa cena sociopolítica brasileira todo um horror desmedido de impropérios e expectativas escarrados por mentes entorpecidas em desvarios alucinadíssimos de conservadorismo enojante. Aécio não é uma hipótese ou possibilidade. É apenas a encarnação mais deslavada e nua e crua do antagonismo de classe inconciliável. Não tenho o que discutir com quem se dispõe a votar nele; salvo, se um jovem desavisado que não tenha vivido os anos de truculências e esfacelamentos tucanos  se disponha, abertamente, a isso. Escrevo, claramente, a quem julga ser possível se abster dum posicionamento, agora, pela candidatura Dilma.

Faço isso muito aa vontade. Estamos longe de sermos um blogue chapa branca. Aqui, criticamos frequentemente este governo. Hoje, contudo, o blogue, felizmente, dentre seus colunistas, oscila da faixa de voto crítico em Dilma a voto nulo. Tenho orgulho de fazer parte deste nível de discussão com Aline Silva, Ana Souto, Andrea B. de Oliveira, Moacir de Sousa, Paulo Fred e Walace Cestari.

Muito recentemente, um amigo e companheiro de lutas e de protestos e de mobilizações, muito querido para além dos atos, o Thiago Braga Vieira, publicou algo muito lúcido e sagaz que copio abaixo:

“Acerca do segundo turno.
Queremos ser a nova grade ou queremos avançar a linha de fronteira?
O PT tornou-se a fronteira entre a esquerda e a direita.
Por nossa posição à esquerda, olhamos o PT e vemos a direita por trás dele.
A burguesia, por seu lado, quando olha pro PT nos vê.
Dessa forma o PT se tornou um limite para o avanço da esquerda,
Mas também uma contenção ao avanço da direita.
O primeiro turno mostrou o que acontece quando a cerca fica enfraquecida:
Crescemos nós, mas a ultradireita cresceu mais.
Não estamos disputando o segundo turno, estamos disputando a sociedade.
Não temos chances de romper a grade agora, mas a direita tem.
Precisamos reforçar a cerca.

Com todos os riscos históricos implicados acerca de cercas, é um texto que, em simplicidade, diz tanto. Dilma e o PT não merecem nem um tiquinho de voto meu nem de muitos. Nem mesmo o PT em campanha, muito aa esquerda do próprio PT no governo, mereceria. Dilma não consegue se diferenciar ideologicamente de Aécio num debate. E o pior, nem o pode. Não há diferença ideológica profunda, do ponto de vista de gestão. É um capitalismo mais piedoso com os pobres miseráveis contra o capitalismo selvagem descarado: duas versões de neoliberalismo brasileiro disputando corações e mentes do sistema financeiro. O aclamado bolsa-família, agora, pasmem, reivindicado por tucanalhas dissimuladamente, é uma parcela ínfima dos socorros a bancos. O lucro do Itaú é recorde após recorde. Atenção! Eu disse LUCRO! Trabalhador nem vive de lucro, mas de rendimento. Mesmo do ponto de vista do capital, o PT nem reformista vem sendo, mas sim aperfeiçoador do capitalismo brasileiro, ao melhorar as condições de consumo da sociedade, ao mesmo tempo que permite condições pra maior estratificação econômica no país: mais milionários, mais ricos e todas essas lamentabilidades. Dilma, hoje, não é nada além do que o governo menos fdp! Nada além disso.

E a tal corrupção… Ora, ela é intrínseca e constitutiva a QUALQUER governo que se disponha a administrar o capital. É  um valor ideologicamente imperativo. O que possibilita a existência da própria noção de lucro, de estratos sociais tão distintos e da legislação que sustenta tudo isso é a corrupção.  Da Suécia ao Zimbábue, a corrupção é o determinante no mundo capitalista. Neste quesito, ambas as candidaturas não se diferenciam, a não ser na discussão sobre quantidade de corrupção- se é que isso seja relevante- em que o PSDB é muitíssimo mais “profissa”, em todos os sentidos,  em seus esquemas. No mais, vale o que escrevi neste mesmo blogue há mais de ano atrás: Quem tem Deus não precisa de corrupção.

Quanto aa campanha em si, não aguento mais tanta detonação em rede social. Os debates seguem no mesmo patamar: só fritura. Se o nível do debate no 1º turno já era ruim, agora está subterrâneo. De debate a embate em arena aberta.

dilma x aecioE o que é problema mesmo, nisso tudo, é que o grosso disso é no viés moral, enquanto o debate político de fundo fica devidamente afundado, escanteado. Talvez, até porque não haja, afinal, tanto o que se debater em termos de diferenças.

Nesta semana, houve dois grandes debates, o da Band e o do SBT. Em ambos, foi visível o talento oratório do Aécio, um político no sentido popular do termo. Já Dilma, embora não tenha nada de boba, é claramente uma gestora fazendo as vezes de uma política, o que combina com a pauta de eficiência de gestão.

Me chamou muito a atenção no debate da Band a pergunta do playboy das Geraes sobre meritocracia, quando  a presidentalíssima poderia ter puxado pro ideológico- aliás todo o conteúdo ideológico do debate fora pautado pelo Aécio, aa direita, claro, e coube aa Dilma só o acompanhar- e se limitou a contestar seu adversário quanto da aplicação inverídica do critério da meritocracia, sem nem sequer contestar-lhe o fundamento. Embora tal postura não me surpreenda, me deixa passado.

meritocracia Eu entendo, pra caramba, quem pretende votar nulo. E, reafirmo, Dilma não merece nossos votos. Contudo, como não se trata da tal meritocracia, mas de envolvimento e responsabilidade com questões, cotidianas, que dizem respeito ao bem-estar mínimo do trabalhador brasileiro e como o resultado desta eleição diz respeito ao bem-estar de outros trabalhadores do continente, especialmente da Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba (essa nação tão usada e tripudiada por todos), em menor grau até por trabalhadores uruguaios, argentinos e chilenos, todo esse quadro internacional e internacionalista precisa ser levado em conta. O governo Dilma está, indiscutivelmente aa direita da maioria desses governos, mas, como sou socialista, sou em primeiro plano, internacionalista. A eleição do horrendo Aécio significaria um fortalecimento da direita asquerosa pelo menos em toda a América Latina. No atual contexto, que planos e ações efetivas intervencionistas, em diferentes gruas, do virtual ao armado, poderiam prosperar num contexto de América Latina “endireitada”?

De todos os erros da gloriosa URSS, apontados pela própria esquerda, um deles nunca foi a vitória sobre o nazismo na 2ª Guerra. Naquele momento, a URSS se aliou aa Inglaterra e aos EUA, sabedora dos riscos e preços dessa aliança, com um saldo de mais de 20 milhões de cadáveres (número muito superior mesmo ao extermínio bárbaro de judeus de cerca de 7 milhões), contra um mal que sacrificaria número muito maior de trabalhadores, para além do continente europeu. O que temos hoje, no Brasil, aa espera de ressurreição é dum lixo histórico muito próximo. As portas do Inferno estão aqui escancaradas. , aa espera dum porteiro que muito bem pode ser o yuppie de São João Del Rey. Que o digam as tenebrosas votações de Bolsonaro no RJ ou de Feliciano em SP.

dilma-visita-fidelDilma não merece meu voto, mas os trabalhadores merecem infinitamente menos a direita clássica e histórica no poder. Decididamente, a questão aqui não é meritocrática! Por Dilma, até por didatismo histórico, pra uma luta cotidiana um pouco menos covarde, ao menos. Isso não é nada indiferente, a quem realmente importa, em nossa sociedade.

[God bless Red America!]

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Sobre a indústria de comunicação de massa e rinocerontes


Começo por explicar a segunda parte deste estranho título. Refiro uma peça teatral do autor romeno Ionesco que narra a inexplicável transformação de todos os habitantes de uma cidade em rinocerontes. Assim mesmo, sem motivos. A princípio todos estranham os modos agressivos, a forma bruta, pesada, a truculência mas à medida que os rinocerontes se tornam maioria, todos passam a achar normal, elogiar, e pouco a pouco, passam a detestar a forma humana. Fosse paródia da célebre novela “ A metamorfose” de Franz Kafka na qual, em belo dia, um homem comum acorda e percebe que se transformou em uma barata, todos sentiriam nojo. Mas na cidade da peça de Ionesco as pessoas se transformam em rinocerontes, uma a uma, sucessivamente, até que só reste Beránger, um trabalhador comum que se recusará, até o fim, a deixar de ser humano.

A peça, grande sucesso do autor, rendeu e rende milhares de análises literárias e críticas. Pluralidade de pontos de vista à parte, muitas admitem que escrita, como foi, após o holocausto judaico na Alemanha nazista, também faz pensar sobre questão para a qual até hoje não se encontrou resposta simples ou definitiva: o que levou milhões de alemães a se submeterem ao poder de um tirano como Hitler? Como Hitler e seus nazistas conseguiram convencer uma nação inteira a fechar os olhos às perseguições e execuções sumárias de milhões de pessoas sob as suas barbas ?

Centenas de sábias e sábios se debruçaram sobre o assunto e não seria eu a pessoa capacitada a dar melhor resposta. Mas achei importante fazer esta introdução para abordar um aspecto que não costuma ser explorado nos filmes sobre o nazismo onde, quase sempre, se destacam a solidariedade e a bondade de indivíduos que se recusaram a virar rinocerontes em luta contra a maldade monstruosa e cega de pessoas que, como se fossem rinocerontes, ordenam a morte, o ódio e a perseguição aos judeus. Assim mesmo, como se fosse uma luta do bem contra o mal, personificada nos personagens anti-nazistas contra os pró-nazistas. E assim é porque assim funciona o básico da dramaturgia feita para o consumo do “grande público”. Tintas fortes, oposições binárias e o triunfo – de preferência- do bem, sobre o mal. Binário e limitado, simples a ponto de ser compreendido sem muito esforço.

Isto não se dá porque tudo na vida seja assim mas sobretudo porque, no final das contas, isto é o que há de mais comum aos seres humanos, na sua luta cotidiana . Melhor explicando : assim é o cotidiano da maior parte das pessoas comuns. Binário e limitado a uma sequeência de escolhas entre o sim e o não, o que lhe faz bem e o que lhe faz mal. A predestinação biológica, para começar, é binária. Respirar : bom , não respirar: mau. Da mesma forma o comer e ingerir água. Como organismo vivos, queremos preservar a vida, então dizemos sim ao comer e ao beber, e não à fome e à sede. E isto é tão imperativo que, sem alguma mediação da cultura, isto é, os costumes e seus limites morais e éticos para as nossas ações, valeria tudo para conseguir. Qualquer um, com fome, assaria sem nenhum escrúpulo, o cachorro do vizinho ou, com sede, mataria o próprio vizinho para ficar com água da sua piscina, por exemplo. Mas isto não acontece, felizmente – ou com tanta frequência- porque a maioria absoluta da população respeita a moral e a ética vigente que condena tais ações, mesmo antes de pensar que há leis que os proíbem. E isto não mudou no nazismo.

Acontece que a moral e a ética estão sempre presentes. Não havia ausência de ética nas ações nazistas- calma- o que o nazismo conseguiu foi tornar-se a própria moral e ética vigente e orientadora das ações, instalando na Cultura um axioma fundamental: a pureza da raça alemã, com padrões onde só alguns se encaixavam e onde os que não se encaixavam deviam ser mortos. Era moral, era ético odiá-los ( para os nazistas), era natural, era justificado ofendê-los nas ruas, xingá-los, querer matá-los. Não há ser humano sem Cultura. Há Cultura em todas as ações humanas, porque vivemos em sociedade e a cultura desta sociedade nos é transmitida desde a primeira mamada no peito, em todos os gestos. Ela produz nossa cultura e nós a reproduzimos. Hoje já se sabe, por pesquisas científicas, que as crianças adotadas quando bebês também chegam a desenvolver semelhanças fisionômicas com os pais adotivos porque bebês aprendem a sorrir com quem os embala, assim como aprendem a falar com quem vai lhes ensinar o próprio nome e aprendem a se relacionar vendo e imitando as relações do seu entorno. Há Culturas e Culturas, segundo diferenças de localização temporal e espacial, mas todo ser humano está imerso em um Cultura e a reproduz ao mesmo tempo que a transforma, cada um dentro de suas possibilidades ou capacidades.

Daí que eu tenha arrepios na espinha quando ouço pessoas com alto grau de instrução e poder aquisitivo, dizerem que uma parte do povo brasileiro é uma besta, porque não tem cultura (ou “ não tem informação”). E que, enquanto não tiverem educação , continuarão a ser umas bestas. Me recordo, nestas ocasiões, de que nem toda a educação da elite alemã e seu conhecido apreço pela chamada Alta Cultura, evitou que ela embarcasse alegremente no bonde do nazi-fascismo hitleriano. E me recordo também do espanto que sofri, na primeira vez que vi o filme alemão pré-nazista que comparava os judeus a ratos. Ratos de esgoto que deviam ser exterminados. Pensei horrorizada: como foi possível que os alemães chegassem não apenas a tolerar isto mas rir, como se fosse piada? Daí me lembrei que tais propagandas começaram pouco a pouco, um pouco a cada dia e tudo que fizeram foi levar a extremos um velho rancor, uma discriminação odiosa que estava nos subterrâneos da cultura alemã. O estado nazista usou aquelas telas gigantes daquela invenção fantástica, e – naquele tempo- parte importante da vida social e do entretenimento do homem comum para propagar o ódio aos judeus, Ao mesmo tempo  prometia ao cidadão médio, convencidos que eram raça pura, que a Alemanha seria uma sociedade limpa, grandiosa e rica, caso eles fossem exterminados. Ou seja, Goebbels, ministro da propaganda, fabricou um inimigo principal: os judeus. Mas perseguiu também os gays, os ciganos, outras minorias. E antes mesmo que o estado nazista tocasse o primeiro fio de cabelo do primeiro judeu enviado a um campo de concentração, Goebbels já tinha colocado uma parte do povo alemão hipnotizada pela ideia de que o paraíso estava logo ali e para isto bastaria tirar os “impuros” do caminho.

Ontem, ouvi um defensor do candidato da oposição referir-se ao partido do governo citando, entre outras coisas que não entendi muito bem,  Goobbels. Imputava ao partido do governo uma pretensão fascista ( !) , como se fosse nada, como se não referisse uma grave e dolorosa passagem da história recente, no seu hábito costumeiro de atirar palavras fortes aos oponentes. E quando lhe pedi que me desse argumentos, alinhavou um conjunto de frases que minha porção analista do discurso capturou a origem sem muita dificuldade: a TV e as manchetes de jornal. Como dizem por aí, pra discutir política é preciso saber apenas duas coisas : política e discutir. ´

O eleitor parecia esquecer ou não saber que Goebbels foi um apoiador político de Hitler, seu ministro da propaganda e sua função principal foi fabricar inimigos – como ?- manipulando a imaginação dos alemães. Sua função não era esclarecer a população, recolher provas ou argumentar sobre como conduzir a política alemã – e o povo alemão, magoado pelas condições que a derrota da Primeira Guerra havia imposto ao país.  Sua função era tornar todos o judeus inimigos usando anátemas como “são podres”, “precismos expulsá-los”, “eles merecem a morte”, “ eles são o inimigo”. E aí eu pergunto. Qual a máquina de propaganda que há anos, prega que o PT e seus filiados são “ o inimigo”? Todo mundo sabe. E qualquer pessoa com um pouco de conhecimento em ciências da comunicação pode intuir com facilidade, a serviço de quem esta propaganda está . Para quem não é do ramo, deixo abaixo o link do “Manchetômetro”, um projeto de pesquisa que apresenta algumas evidências do que digo .

Imagino como poderia ser o Brasil se tivéssemos bons veículos de comunicação de massa, ao invés destes que falharam como meio de comunicação social de concessão pública, se tornando pura máquina de propaganda. Sobretudo uma máquina de propaganda que há 40 anos inventou que “ era a melhor” e repetiu todas as milhões de vezes necessárias para que acreditassem. Como seria o Brasil, se ao invés desta, tivéssemos uma TV com a qualidade de um BBC, transmitindo a produção artística brasileira e sua exuberante diversidade. Imagine como seria se a tv brasileira, desde sempre, estivesse aberta a mostrar o Brasil inteiro nas suas riquezas e imperfeições, com inteligência . Imagine se ela fosse obrigada, como são as TVs concessionárias dos EUA, a comprar programas, abrindo suas máquinas de fabricação do imaginário brasileiro à diversidade cultural e muitos pontos de vista deste país continental. Se ela mostrasse nossas contradições, sim, mas para difundir a cultura da paz, da diversidade, da pluralidade, do diálogo, do debate qualificado. Se ela não fosse, desde sempre, uma difusora da cultura do escárnio, da arrogância, da agressividade, da superficialidade, da futilidade e da ostentação. Imaginem – e vou falar agora de um sonho impossível- se os donos das empresas que detém as concessões de transmissão fossem pessoas cuja cultura e a educação os tornassem incapazes de fazer negócios escusos e os levassem a ter cuidado com o que colocam nas bocas de seus empregados ou com os produtos de entretenimento que suas ricas empresas difundem nas salas de milhões de brasileiros todos os dias. Talvez não houvesse tantos políticos eleitos por obra e graça das artes da propaganda televisiva, não é ? E quem perderia com isso?

Não entendo que alguém possa pensar que não seria bom ter TVs que não produzissem apenas narrativas coloridas e sedutoras, ideologia pura disfarçada sob carinhas bonitas e mentiras cínicas no lugar de jornalismo,. Não seria bom que ela parasse de produzir tanta gente viciada em argumentos vazios e emoções baratas, com pouco senso crítico, exposta a empresários sem limites ou responsabilidade ? Eu acho que seria muito bom. Seria ótimo, inclusive, para devolver ao controle da natureza o crescimento da população de rinocerontes evitando que ele se dê em proporções superiores ao equilíbrio ambiental.

rinoceronte

http://www.manchetometro.com.br/

 

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Como se forma um professor?


professor

Tudo começou ainda menina quando, nas brincadeiras solitárias, alternava os papéis de aluna e professora de si mesma. Rabiscos ilegíveis, garatuja. A mãe tinha sido sua primeira professora leiga. Atenta à curiosidade infantil, entregava-lhe o que pedia: Mãe, como escreve boneca? Mãe, como escreve bonita? Mãe, como escreve vida?

E lá ia Mãe escrevendo, a menina cobrindo, palavras conhecidas se desdobrando em frases, reconhecidas nas histórias que a mulher bonita contava com livros coloridos nas mãos antes de dormir. Eram as melhores histórias. Era a mulher mais bonita.

Pediu ao pai que comprasse um quadro negro e giz. Ele atendeu. Ali a garatuja ia tomando a forma de sonhos e poesia. Giz colorido em torno da mão. Já começava a querer deixar marcas no mundo. Pai gostava de adivinhações, cutucava a mente já inquieta da menina: o que é, o que é…?

Na mesa, outra lição: agradecer pelo alimento. Obrigada, Senhor, obrigada, Pai, obrigada, Mãe. E a quem mais? Como assim? E a quem mais? O que aconteceu para que a comida estivesse no prato? Lavrador, pescador, caminhoneiro, comerciante, toda a trajetória do alimento do cultivo ao prato, ludicamente percebidos com o feijão na boca.

Sedenta de conhecimento. Na escola, nunca se importou com o aspecto prático-utilitário que tantas pessoas esperam dos ensinamentos. Acreditava, sem saber, que aprender era ato contínuo e que a teoria era importante para provocar mudanças, para fissurar o habitual, instaurar a incerteza.

Na comunidade onde morava, deu aula particular para crianças. Tão competente no feito, que o dono a convidou para lecionar na escola que ele queria abrir. Muito arriscado. Precisava dizer. Usou argumentos legais para falar com quem sobrevive à margem. Ele entendeu. Ufa…

A Menina cresceu, estudou, terminou a faculdade. Encarou os mais diferentes tipos de sala de aula. Lembra-se com saudade e orgulho de alguns grandes mestres que lhe cruzaram o caminho: alguns, só pelos livros; outros, na lida diária, de diferentes níveis de ensino.

Agradece, entre outros, a Tia Josete, pelo carinho, a Martha Maria, pela reflexão visionária, a já falecida D. Margarida, pela disposição incansável, a Cinda Gonda, pelo amor às pessoas, à política e às letras, a Ronaldo Lins, pela inquietação pulsante de obra e de vida, aos alunos que a provocam, acolhem, enfrentam, aceitam, estimulam e convidam a revisitar caminhos, e a seus pais, seus primeiros professores.

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Eu odeio o PT


Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Smurf ranzinza. Ele odeia os próprios smurfs.

Há um vírus no ar. Uma ameaça. Bem maior que ebolas da vida. Ou da morte. A doença fatal que quase chegou ao país mata o corpo de um indivíduo em poucos dias. Esta outra, que já infesta boa parte da população brasileira, mata-lhe o pensamento, a crítica e a própria sociedade. Tal qual em famosos seriados de zumbis, milhões de eleitores tiveram seu cérebro comido e vagam arrastando palavras e ações de ódio puro, irracional, bruto e bárbaro.

Não digo que não haveria de haver o ódio contra uma sigla. Há inúmeras odiáveis. O PT é uma delas. Não vejo problema em se odiar o PT, ou o PSDB, ou o DEM, ou o PMDB, ou o PSB, ou qualquer outro partido por tudo aquilo que defende, por sua ideologia, por sua visão de condução do poder. Um ódio menos insensato. Dirigido à ideologia que se professa, em tom grave de desacordo. Faz parte.

O problema é quando o ódio atinge não as siglas, mas a nós mesmos. Veja (sujeito ou verbo?), alguém poderá dizer que, como comunista, eu odeio os latifundiários, por exemplo. Ora, basta que eles abram mão de seu latifúndio e acaba por completo essa minha “raiva”. Nada pessoal. Meramente visão de construção de sociedade. Sou contra a concentração. Incluo os campos.

Infelizmente não é disso que está sendo feita nossa história hoje. O ódio é visceral, irredutível. Há ódio social contra os pobres. Ódio que vem de gente da elite educacional do país. Médicos defendendo castrações químicas. Auditoras do trabalho defendendo genocídios atômicos. Há ódio racial de inúmeros brancos insatisfeitos. Ódio geográfico sulista contra nordestinos. Ódio, ódio puro. Excluir é a palavra da moda.

Um sistema de exclusão é feito de maneira a vender exceções que lhe mascare as regras. Por isso, quando um negro pobre da periferia entra na faculdade e ascende a juiz, vira capa de revista. Mas uma política que busque dar condições a que muitos outros negros pobres da periferia tenham a mesma oportunidade é assistencialismo e, portanto, condenável.

Um excluído que ascende socialmente é o exemplo da oportunidade econômica oferecida pelo sistema do capital. Uma política para que mais excluídos ascendam é um ataque à “igualdade” desse mesmo sistema. É a propaganda de que qualquer um pode se dar bem na vida. Mas todo mundo não. Aí é vandalismo. “Ensinemos a pescar” é a metáfora da ocasião. Uma metáfora triste, já que a ideia é criar pescadores que não tenham acesso ao mar.

O ódio passa do PT ao eleitor do PT. Acusam-se nordestinos de votarem em Dilma porque estão tentando preservar seus interesses. Ora, bolas, e quem está votando no Aécio, não o faz porque está igualmente preservando os seus? Ou temos a ideia de que a elite brasileira faz campanha para o PSDB para demonstrar altruísmo e filantropia? E com tamanha ingratidão. Hoje existem mais Audis e Mercedes circulando com adesivo do Aécio, do que existiam Audis e Mercedes no Brasil em 2002!

O interessante ou o interesseiro é perceber que as classes que vociferam contra as “bolsas-auxílio” esquecem-se de que seu candidato reivindica a paternidade delas e promete ampliá-las! Ora, sejamos coerentes: quem é contra bolsa, vota nulo. Ainda que a hipocrisia das elites não condene odiosamente todas as bolsas e auxílios.

A bolsa-moradia e o auxílio-escolar para juízes e seus filhos (que podem somar mais de dez mil reais por beneficiário) não entram nessa conta de absurdos-assistencialistas-para-vagabundos. Com o agravante que o valor do auxílio educação do magistrado é maior do que o de outros servidores do próprio Judiciário. Afinal, filho de juiz não pode estudar na mesma escola em que estuda o filho de um reles servidor.

O ódio é social. E mortal. Não quero, com isso, defender o voto no PT. De forma alguma, inclusive. Só acho que ter ódio à corrupção e estender isso ao PT é compreensível. Achar que se está resolvendo esse mesmo problema votando no PSDB é uma estupidez incomensurável.

Pouco me importaria se o ódio fosse exclusivo ao PT. Mas não é. O ódio é contra nossa gente. É contra as cores que são nossa identidade. É contra a geografia de nossa população. É contra o comportamento sexual dos indivíduos. É um ódio que prega o fim do Estado em quase todas as relações sociais, para lhe sobrar tempo para fiscalizar o que anda sendo feito do cu de seus indivíduos. A responsabilidade por esse quadro é, ao fim e ao cabo, do próprio partido da estrela.

Quem está à esquerda no pensamento político torce o nariz em apertar o 13 na urna. O fantasma de uma revolução comunista só existe no vazio das cabeças constantinas e azevedas, zumbis que comem os cérebros (?) dos incautos. Uma ditadura de esquerda que promove o maior lucro do sistema financeiro da história? Uma ditadura de esquerda que não tem coragem de regular a mídia que lhes sova diariamente?

Quem dera se houvesse qualquer ideia socialista em curso. O PT afastou-se demais da esquerda para não apanhar dela também. De outro lado, não conseguiu comprar seu ingresso na festa da burguesia nacional. Não adianta que seus militantes usem de qualquer chantagem como “evitar um mal menor” para tentar mostrar que ainda é útil um voto no PT.

Que tudo isso sirva de lição. Que lutemos contra o ódio ao Brasil, contra o ódio à nossa gente. Que o PT faça sua autocrítica a esse respeito. Que abra mão de suas inúmeras concessões ao capital em nome de uma suposta governabilidade. Assim, o PT pode até perder a eleição, mas  ganhará sua história de volta.

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Por um mundo com mais guarda-chuvas e menos paraquedas: notícias de Hong Kong


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Mais uma onda de protestos se ergue no mundo, desta vez em Hong Kong. Ela encontrou no seu caminho gás lacrimogêneo, spray de pimenta e policiais em traje antimanifestação completo (ou seja, a versão local da tropa de choque). Os métodos e as armas da repressão têm sido os mesmos, e o fato do movimento chamar-se de Revolução do Guarda-Chuva deve-se ao uso deste objeto heteróclito como defesa contra spray de pimenta (como foi que eu não pensei nisso antes). Fora a repetição do receituário repressivo, também no fundo parece haver forças em comum que levaram as pessoas às ruas do mundo árabe, do Brasil, da Turquia e, agora, da Ásia.

Em Hong Kong, o que une mais evidentemente os diversos grupos de ativistas, muito diferentes entre si, é o desejo de substituir a democracia de mentirinha que eles têm por uma democracia de verdade. Vão, é claro, se decepcionar, pois como nós todos brasileiros sabemos hoje, essa democracia representativa de meia-tigela nos moldes americanos não é nada tão entusiasmante como quem vive em ditaduras pode imaginar. Porém, na cidade-estado, a realização de eleições seria algo de inédito. A Inglaterra obteve o domínio de Hong Kong via tratado internacional (na verdade, uma das várias imposições ao império chinês após as guerras do ópio). Em 1898, ela obteve ainda uma extensão da área até a China continental, em um sistema de arrendamento sob concessão previsto para durar 99 anos. Na realidade o Império Britânico, pasmem, só terminou oficialmente em 1997 quando da devolução da cidade, que era a sua última colônia, à China.

Nos anos que precederam essa devolução, a mídia ocidental criou uma espécie de terrorismo em relação ao retorno do domínio chinês sobre Hong Kong, antevendo todas as formas de desgraças e catástrofes (ditadura, opressão, mulheres de família sendo transformadas em putas, devoração de criancinhas etc.). A verdade é que a cidade passou de uma dominação colonial para outra (antes, HK era dirigida por um chefe de executivo escolhido em Londres, a partir de 1997, este chefe passou a ser escolhido por Pequim), e a despeito disso, os resultados econômicos e financeiros da reunião foram altamente benéficos para Hong Kong (bastando lembrar que o maior banco do mundo hoje em dia é o HSBC – sigla em inglês de Hong Kong and Shanghai Banking Corporation). A cidade então se tornou uma das Regiões Administrativas Especiais da China, o que significa que ela tem um alto grau de autonomia interna, embora sem autonomia em questões de relações internacionais nem de defesa (fórmula típica do semicolonialismo).

Pode parecer estranho querer correlacionar um movimento como este com o ocorrido no Brasil, que essencialmente questionou a própria forma de representação política e evoluiu, em boa medida, para uma campanha de voto nulo. No entanto, todos os protestos dos últimos anos estão claramente interligados por uma grande insatisfação com o capitalismo, que já vinha de antes, mas foi precipitada pela crise de 2008 (no caso de HK, isso é evidenciado até pelo nome do movimento, Occupy Central, em clara referência ao Occupy Wall Street). Aqueles resgates milionários a bancos e o fato da maioria dos operadores ligados aos derivativos (os títulos podres que estouraram a bolha imobiliária americana) não terem sido presos deixou muitos indignados mundo afora. Na realidade, esses operadores não só não foram presos como foram recompensados com bônus de fim de ano que chegavam à ordem de um milhão de dólares – uma indecência sob qualquer parâmetro (fora todos os rendimentos ao longo do ano, esses grandes executivos recebem este abono, chamado de “golden parachutes”, “paraquedas dourados”).

Além disso, um estudo recentíssimo da OCDE, que examinou a desigualdade no mundo desde 1820, chegou à conclusão que a desigualdade, apesar do incrível crescimento global da economia nesse longo período, na verdade aumentou. Segundo essa pesquisa, países como o México e o Brasil sofrem de uma maior desigualdade social hoje do que nos tempos de Simón Bolívar. Além disso, o estudo apontou o aumento da desigualdade entre as nações, fazendo uma espécie de índice Gini internacional (o índice tradicional é calculado pelo Banco Mundial, e avalia a desigualdade social dentro dos países). Segundo essa nova perspectiva, em 1820 o país mais rico do mundo, a Inglaterra, era cinco vezes mais rico do que a média dos países pobres. Em 2000, o país mais rico, os EUA, era 25 vezes mais rico do que essa média. Lembrando que o índice varia de 0 (a perfeita igualdade, quando a riqueza está igualmente dividida por todos) a 100 (a perfeita desigualdade, toda a riqueza na mão de um único), o aumento da desigualdade global no período foi de 49 para 66 – para se ter um parâmetro de comparação, em 2008, o Gini brasileiro, o terceiro pior do mundo naquele ano, era de 54,4.

Aponta ainda o estudo que a degradação de todos esses índices se acentuou do fim dos anos 1970 para cá, o que a relaciona com o fenômeno da internacionalização do capital (aquilo que chamam de globalização). Quando a própria OCDE admite que “deu ruim”, me parece que é hora de repensar o modelo. Este modelo de abertura nacional para o capital predatório internacional foi adotado mais ou menos por todos os países, e as pessoas não agüentam mais ver bancos enriquecerem (e seus acionistas, grandes gerentes e operadores de área financeira) enquanto economias nacionais são rapinadas e as vidas de milhões são jogadas em buracos. Essa insatisfação de origem financeira precipitou, por sua vez, o questionamento de formas de representação políticas que, mesmo muito diferentes entre si, têm em comum o fato de não estarem concedendo a estrutura necessária para a viabilização dessa farra, o que torna as reivindicações pelo direito de voto contra a farsa eleitoral de lá muito mais próximas das campanhas pelo voto nulo daqui.

Perspectiva regional

De todas as análises que tenho lido, muitas têm frisado a questão da geopolítica no desenvolvimento dos acontecimentos recentes em HK. Entre elas, creio que a análise da perspectiva regional não pode ser deixada de fora. Do ponto de vista do Ocidente, Hong Kong é uma plataforma de exportação, o terceiro maior centro financeiro do planeta (perde apenas para Nova Iorque e para a City londrina) e, ao mesmo tempo, uma das principais portas de entrada para o gigantesco e cobiçado mercado chinês. Do ponto de vista da China, HK foi a primeira Zona Administrativa Especial, que junto com as Zonas Econômicas Especiais, são as áreas onde se permite a operação do capitalismo no país e por onde entra o capital (e a transferência tecnológica, de que eles sabiamente não abrem mão na hora de abrir o seu mercado) tão necessário para um regime que se legitima cada vez mais acentuadamente pelo crescimento econômico. Portanto, há muito em jogo por trás do esquema atual de representação política no território, e é improvável que a situação por lá mude pacificamente.

A China já deu toda sinalização possível de que não vai alterar o seu controle sobre a escolha do Poder Executivo na cidade. Além disso, o tratado conjunto estabelecido com a Inglaterra, de 1985, que preparava o caminho para a transição, garantia a autonomia administrativa e gestão do sistema econômico apenas pelos próximos 50 anos. Portanto, a partir de 2047, a China terá ainda maior liberdade de ação para interferir nos assuntos de HK. Isso, evidentemente, preocupa a população local, principalmente à luz da mudança de direção da política regional chinesa.

Xi Jinping, atual presidente do Partido Comunista, pretende retomar o controle da “Grande China”, o que inclui pesar a mão sobre HK e Taiwan, por exemplo, e reavivar velhas reivindicações territoriais que entram em conflito frontal com Japão, Vietnam e Filipinas. Para isso, a estratégia de inserção regional da China está endurecendo, passando de uma política de relativa boa-vizinhança com os demais países e áreas do sudeste asiático, para uma política de hard power, com investimentos maciços no desenvolvimento de uma marinha de guerra digna de superpotência. Calcula-se que a China ainda demorará algumas décadas para se tornar uma potência naval de verdade e realizar estes objetivos, mas é claro que isso está trazendo um sentimento de insegurança para a região.

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Eleições: a ressaca que dura quatro anos


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Não votarei nestas eleições. Porém, coloco esses dados na mesa pois nada me irrita mais do que a histeria de direita e o conservadorismo golpista/udenista em que a maioria da classe média embarcou, capitaneada por publicações “sérias” como a “inVeja é uma merda” e “O Globbels”. Que o Brasil melhorou MUITO com o governo do PT é inquestionável. Trata-se de um daqueles dados da realidade que só podem ser negados à custa de muita desonestidade. Porém, não voto porque não consigo desvincular os ganhos sociais do PT dos seus problemas mais graves. Como já repeti 250 vezes por aqui, os pontos mais nefandos do governo do PT, aqueles que “a gente não vê por aqui”, se repetirão sem a menor dúvida em um governo Aécio, assim como se repetiriam em um suposto e graças a Tutancâmon agora impossível governo Marina. A saber, para quem chegou por aqui hoje e nunca leu nada que eu escrevi, refiro-me ao modelo econômico baseado em endividamento público e na subordinação ao capital financeiro internacional (o famoso capital volátil); ao modelo de crescimento baseado na expansão do agronegócio predatório; e, mais recentemente, ao renascimento da repressão aos movimentos sociais autônomos em moldes semiditatoriais (com pesadas infiltrações nos grupos, difamação, prisões ridículas e baseadas em farsas jurídicas, endurecimento de leis estilo “cala a boca” etc.). Na própria lista a seguir, o ponto 8, particularmente, não é nada que deveria ser comemorado, levando-se em conta que a expansão da lavoura deu-se seguindo a lógica primário-exportadora, que está pondo a Amazônia e o Cerrado a baixo (e todos os demais biomas, na verdade), que parou a demarcação de terras indígenas, que mantém elevadíssimos os índices de mortes no campo e que parece pronto a repetir cagadas ambientais históricas, como a usina de Balbina, sem o menor constrangimento e sem dar a mínima para os prejuízos presentes e futuros evidentes disso tudo. Seja como for, um governo Aécio Never/PSDB também se sustentaria nesse tripé, afinal, foram eles que o inventaram (ou alguém acredita que com Aécio os índios serão tratados dignamente, a soja será abandonada e haverá auditoria da dívida pública?). Só que, com Aécio, isso tudo virá acompanhado de austeridade fiscal, para ficar ainda pior. Enfim, bom segundo turno para todos, e aos trancos e barrancos, entre a cruz e a caldeirinha, vamos que vamos.

O levantamento a seguir, feito por Hans Mulder, fala por si e vem com fontes, coisa rara de se ver na internet:

Ah, e eu quase ia esquecendo: para os bobalhões que acreditam que o PT é o partido mais corrupto do mundo, que ele inventou a corrupção e a civilização da forma como as conhecemos, e que uma vez abatido o monstro voaremos todos em nuvens de honestidade e wi-fi grátis quando o PSDB e o Aécio Neves retomarem o poder, tentem lembrar de (esta ótima síntese foi surrupiada da Eloisa Samy Santiago):

a – 1994 e 1998. O dinheiro secreto das campanhas: denúncias que não puderam ser apuradas graças a providenciais operações abafa apontaram que tanto em 1994 como em 1998 as campanhas de Fernando Henrique Cardoso foram abastecidas por um caudaloso esquema de caixa-dois. Em 1994, pelo menos R$ 5 milhões não apareceram na prestação de contas entregue ao TSE. Em 1998, teriam passado pela contabilidade paralela R$ 10,1 milhões.

b – 1995. Extinção da Comissão Especial de Investigação. Assim que assumiu a presidência da república, em 1995, Fernando Henrique Cardoso baixou um decreto extinguindo a chamada Comissão Especial de Investigação, instituída pelo antecessor, presidente Itamar Franco, que, composta por representantes da sociedade civil, tinha o objetivo de combater a corrupção. Seis anos mais tarde, em 2001, fustigado pela ameaça de uma CPI da Corrupção, o presidente Cardoso conseguiu desviar a atenção da sociedade criando uma tal de Controladoria-Geral da União, que se notabilizou por abafar as denúncias que motivaram sua criação.

c – O contrato para execução do projeto Sivam foi marcado por escândalos. A empresa Esca, associada à norte-americana Raytheon, e responsável pelo gerenciamento do projeto, foi extinta por fraudes contra a Previdência. Denúncias de tráfico de influência derrubaram o embaixador Júlio César dos Santos e o ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Mauro Gandra.

d – A privatização do sistema Telebrás e da Vale do Rio Doce foi marcada pela suspeição. Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-caixa de campanha de FHC e do senador José Serra e ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil, é acusado de pedir propina de R$ 15 milhões para obter apoio dos fundos de pensão ao consórcio do empresário Benjamin Steinbruch, que levou a Vale, e de ter cobrado R$ 90 milhões para ajudar na montagem do consórcio Telemar.

e – O instituto da reeleição foi obtido por FHC a preços altos. Gravações revelaram que os deputados Ronivon Santiago e João Maia, do PFL do Acre, ganharam R$ 200 mil para votar a favor do projeto. Os deputados foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Outros três deputados acusados de vender o voto, Chicão Brígido, Osmir Lima e Zila Bezerra, foram absolvidos pelo plenário da Câmara.

f – Conversas gravadas de forma ilegal foram um capítulo à parte no governo FHC. Durante a privatização do sistema Telebrás, grampos no BNDES flagraram conversas de Luiz Carlos Mendonça de Barros, então ministro das Comunicações, e André Lara Resende, então presidente do BNDES, articulando o apoio da Previ para beneficiar o consórcio do banco Opportunity, que tinha como um dos donos o economista Pérsio Arida, amigo de Mendonça de Barros e de Lara Resende. Até FHC entrou na história, autorizando o uso de seu nome para pressionar o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

g – A construção da sede do TRT paulista representou um desvio de R$ 169 milhões aos cofres públicos. A CPI do Judiciário contribuiu para levar o juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do Tribunal, para a cadeia e para cassar o mandato do Senador Luiz Estevão (PMDB-DF), dois dos principais envolvidos no caso.

h – 1998. O escândalo da privatização (1): A privatização do sistema Telebrás e da Vale do Rio Doce foi marcada pela suspeição. O ex-caixa de campanha de Fernando Henrique Cardoso e de José Serra, um tal Ricardo Sérgio de Oliveira, que depois foi agraciado com a diretoria da Área Internacional do Banco do Brasil, não conseguiu se defender das acusações de pedir propinas para beneficiar grupos interessados no programa de privatização. O mala-preta de Cardoso teria pedido R$ 15 milhões a Benjamin Steinbruch para conseguir o apoio financeiro de fundos de pensão para a formação de um consórcio para arrematar a cia. Vale do Rio Doce e R$ 90 milhões para ajudar na montagem do consórcio Telemar.

i – 1999. O caso Marka/FonteCindam: Durante a desvalorização do real, em janeiro de 1999, os bancos Marka e FonteCindam foram graciosamente socorridos pelo Banco Central com R$ 1,6 bilhão, sob o pretexto de que sua quebra criaria um “risco sistêmico” para a economia. Enquanto isso, faltava dinheiro para saúde, educação, desenvolvimento científico e tecnológico.

Para colocar a cereja no bolo, não vamos nos esquecer dos escândalos recentes envolvendo o Sr. Aécio Jamais: a construção de seis aeroportos com dinheiro público em terras mineiras, que só beneficiaram a família Never e associados (o mais notório dos seis, o de Cláudio, ficava nas terras do tio do “honesto cidadão”). O helicóptero da cocaína: meia tonelada da droga foi encontrada em um helicóptero do deputado Gustavo Parella, amigo aliado e irmão camarada do Aécio. O inquérito, pasmem, foi arquivado. A cocaína, com o perdão do trocadilho, caiu do céu. Não era de ninguém. Qualquer pessoa que não tenha, como Édipo, arrancado os próprios olhos, não pela vergonha do incesto, mas para continuar sendo um leitor da “inVeja é uma merda”, sabe que Aécio, além de um usuário contumaz, é um determinado empresário do setor. O que eu não consigo entender é alguém ainda votar nessa pessoa. Afe!

A montanha de cocaína apreendida no "helipóptero" do Aécio - ou, para alguns, o helicóptero da alegria.  Nem um entusiasta da substância como Aécio consumiria isso tudo sozinho

A montanha de cocaína apreendida no “helipóptero” do Aécio – ou, para alguns, o helicóptero da alegria. Nem um entusiasta da substância como Aécio consumiria isso tudo sozinho

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Com firma


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Amanheceu o dia da eleição. Santinhos de gente pouco santa espalham-se pelo chão do caminho até a seção eleitoral, fazendo tudo parecer uma verdadeira zona. Do lado de fora, o que é proibido torna-se usual, comum. Mais um. Lá vem bandeiraço. Carreata. Cornetada. E tome panfleto. E distribua-se a cola. Vai que cola?

A boca de urna em plena luz do dia. Boca diurna, promovendo aqueles que agem na calada da noite. Sempre buscando uma boca. Ou mais uma boquinha. Enquanto isso bocas entocadas proliferam violência em meio a bocas banguelas que pouco têm a mastigar. Outras bocas que tentaram se fazer voz, foram caladas, nas mesmas noturnas caladas, calçadas e ciladas. Sumidas, esmagadas. E a olhos vistos.

Quem saberá o resultado das runas? Sortilégios parecem mais confiáveis que as urnas. Pena que as teclas escondem o que deveria ser conquistado nas ruas. Urnas e ruas. Uma democracia nua. Mas com pudores, sem ser pudorenta. Não esta nossa, fedorenta. Que da democracia, tirou o povo, fez polissemia e pacto com o demo. A festa democrática é a farra de empreiteiros, financistas e banqueiros. Doação, só para a ação que votar. Sem dó. E só assim se governa: sem povo. Com firma.

Mas há de se apertar tais botões, pensamos todos cá com nossos botões. E em quais números confiar? A margem de erro não dá margem para erros. Pois é assim que muitos ficam à margem. Emergem salvadores, salvo engano, enganadores, que estão esperando salvar a sua vez. Dessa vez. Anos à espreita, na direita, pregando o direito de parecer direito, acusando a corrupção alheia, para que possa sentar-se na cadeira e, enfim, deixar a própria burra cheia.

Não precisamos de uma vez a mais de nada. Ou a mais do mesmo. Nem de duas, nem de uma só. Nem do novo que de tão velho não sabe mais a quem servir. Se é que serve. Melhor será se verse. E que lá ficasse. Morena em Caymme. Hoje só cai. Não há saudade nem nostalgia que façam lembrar de outros dias em que tucanos viravam aves de rapina. Deixe para lá o moço que constrói aeroportos, para meter o nariz onde não é chamado, por gostar (e precisar) do transporte de avião.

Ainda bem que lhe mandou baixar o dedo a menina Genro. Que siga sempre em luta, mesmo que de genro seja filha. Ossos do ofício. Fique sempre pugnando junto à falange e jamais use do tarso, pois isso seria trocar os pés pelas mãos. Osso duro de roer. Só faltou aos cachos de solista mencionar os companheiros esquerdistas que foram escondidos pela mídia. Sem insídia.

Que os invisíveis possam mostrar sua cara. Na cara de pau que é esta falsa democracia. Igualdade que só vale para quem se credencia. Até para quem aluga a sopa de letrinha, sobra uma vaguinha e daí vale a exposição, um minuto e meio na televisão. Para que ideologia? O fascista de bigode, homofóbico e bufão ou o pastor sem expressão. Melhor seria se fosse um pastor alemão. Afinal, reconhecemos a inteligência. No caso, só a do cão.

Que os camaradas que encontro nas ruas – e que têm números nas urnas – possam reconhecer na luta a frente que nos falta à retaguarda. De costa a costa, que Mauros e Josés possam apimentar debates e discussões, levando outras ideias a quem não sabia outra forma de pensar. Em um mundo de iguais é a política que perde, ficando uma sociedade à mercê dos interesses de quem manda por telejornal. Eis o mal.

O domingo é simbólico, mas importa em verdade muito pouco. Em um mundo mais que louco, onde o povo é induzido a chamar de excelência o bandido, só porque com um terno novo e um jeito de doutor, senta na cadeira de deputado ou senador, não há saída que caiba em verso ou que mude o rumo desta prosa. A visão é resoluta e, na resistência que aprofunda, tão logo dê a meia-noite, renasçamos na segunda, pois a mudança verdadeira se constrói com nossa luta.

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Adeus, Aécio!


05 de outubro: data maior da democracia cívica republicana brasileira! A tal festa da democracia que, talvez, já tenha merecido essa alcunha quando do fim da vergonhosa e sanguinária ditadura que aqui se instaurou. Hoje, a festa da democracia, de festa de arromba, passou a fiasco patético, entediante aos convidados.

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Essas eleições são o anticlímax do ano: vazias e esvaziadas. Eleições de ódios e de medos. Até as esperanças amedrontadas.

Candidatos sem verve, sem empatia. Nada de oradores grandiloquentes ou estadistas.

Reféns do menos pior, dirigir-nos-emos aas urnas em cabisbaixo ato dum civismo que, por si só, nada muda mesmo. Porém, nestas eleições especificamente, ainda mais. Estamos a escolher rebaixadamente, quem é menos prejudicial. Estamos a colher as sementes do retrocesso de lutas, da cooptação dos movimentos, da inércia das conquistas. Vivemos tempos em que apenas se defender já soa como avanço.

As manifestações de 2013, transformadas sabiamente pela ação midiática e repressiva de Estado, em atos marginais, já esmaeceram no retrovisor. Hoje, são rememoradas pela antítese das inconsequências eleitoralescas que, por exemplo, no RJ do desgovernador Cabral, em que pesem os Amarildos, desponta um improbabilíssimo 2º turno entre Pezão, seu vice, e Anthony Garotinho.

amarildo pezão

Eleições em que o tal Fidelix pode defecar por seu canal excretor oral, com aval da mídia que o convida, mas exclui candidatos que teriam algo contundente a dizer, como Mauro Iasi ou Zé Maria. E ver o silêncio consistente de todos em torno dessa desfaçatez… incluindo quem se reivindica esquerda e não nutre o mínimo de solidariedade militante nesse episódio, ajudando a montar o cenário eleitoreiro que aí está. Tristes eleições! Poderíamos ter parado o calendário na Copa. Emoção e empolgação aa flor da pele!

eleições 2014

Mas, nisso tudo, há algo ainda pior. Muito pior! Os parlamentos que sairão dessas eleições. O agronegócio, os lobbys de múltiplas instituições privadas, os representantes muitos de quinhões de coronéis, seja no espaço urbano ou não. Prosseguiremos com assembleias legislativas, Câmara e Senado fisiológicos, inexpressivos, a gerir a lógica do fatiamento de benesses e de costas voltadas aa população que, infelizmente, dopada, embriagada, enganada, desinformada, manipulada, fragmentada segue aas urnas para eleger esses algozes vilipendiadores da população e de seus direitos e usufrutos possíveis. Torres e cavalos do tabuleiro de xadrez de nosso sistema. Do bispo em diante, estão os financiadores.

Candidatos e deputados, ambas as palavras vindas do latim. A primeira com o mesmo radical de cândido, candura, proveniente de candidum, o nome da cor branca em latim. Já deputado, vem do verbo putare, purificar, tornar puro. A mesma origem do adjetivo potável em português. Como o sentido original foi ironicamente pervertido, não? E o problema é que essa perversão continua viva em nós que optamos pelos pervertidos em lugar dos comprometidos com a população, com o trabalhador.

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Mas, disso tudo, há um pequeno prazer que precisa ser assinalado. O PSDB, encarnado na péssima figura mauriçote do Aécio, não vai nem pro 2º turno! É pouco, sem dúvida, mas é o alento que se tem pra hoje. E toque-se o realejo!

aecio 2

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Eleições 2014 – Reunião de Elenco


Domingos de Oliveira, experiente diretor teatral , respondendo a um jornalista “qual conselho daria aos jovens diretores? ” deu o seu melhor :  “Uma semana antes da estreia esquece o que você queria ver no palco. Veja a coisa tal como está, o que você tem para colocar em cena e organiza o melhor que puder”. Com sua honestidade pode ter salvo algum espetáculo do fracasso. Lembrei disso nessas vésperas do 5 de outubro pensando que sorte seria pegar uma uma gripe fortíssima, uma rubéola, qualquer coisa assim, ficar de cama e na segunda feira mandar minhas realetas da multa com um bilhetinho: “desculpaí, foi mal” para o TSE. Depois caí em mim. A eleição não tinha culpa de quase nada. Uma amiga, dia desses comentou : o ano do cavalo chinês já vai terminar. E completou: pra mim passou voando ! Tudo passou a fazer sentido, foi com eu lhe disse: que sorte a sua, pra mim sobraram os coices.

Mas, como diria Shakespeare, a arte imita a vida e a vida é só uma sombra que passa cheia de som e fúria significando nada. Daí que, pensando melhor, bobagem chorar o leite derramado ou dar desculpa pra fugir do dever cidadão. Portanto parti para a escalação do elenco para os dois poderes, sem confiar no terceiro, e achando que sem reforma política tudo é em vão. Entenderam srs e sras atrizes e atores? Essa produção custou caríssimo, se não fizer sucesso estamos fritos.

Carlos Neder você fica. Sou usuária do SUS, e nossa brava representante do Conselho, a Carmen, disse que teu repertório faria falta. Vão colocar uns aprendizes de Harry Potter na cena da ALESP: contracena, dá uma assistência, afia a sagacidade deles, explica como as OS não deixam o SUS andar, ganha pra nossa luta, bom, você sabe. Se precisar de ajuda dá um berro, que a gente compõe um elenco de apoio pra pressionar. E se a gente precisar também berra e você arregimenta coro e votos, combinado ?

Giva, não vou mentir, sua ficha nem estava na escalação, seu caso foi de padrinho. Eu tinha dois candidatos para deputado federal mas colaram uns sangue bom aqui e disseram que a voz de luta, nessa rodada, é a sua. É nóis em Brasília, hem? Baita responsa. Bora lá fortalecer a comunidade mas olho arregalado com a questão dos pesticidas. Estamos todos sendo envenenados, parça. Fortalece a luta da agroecologia e o PSOL, que é uma escola de atuação que pode crescer. Fique longe da direita do palco, uns da sua escola foram na cilada da ansiedade e, de repente, tombaram pra aquele lado. Mantém na mente, mano, aquela região do piso está podre.

Suplicy, bardo velho de guerra, você está careca de conhecer o repertório e tem de sobra o que falta ao seu concorrente: caráter e compromisso. Só fica atento para não perder as deixas, às vezes você banca o vacilão.

Padilha, vou ser franca. Sua performance na divulgação foi ruim mas divulgação não é ensaio e jogo é jogo. E a cena da governança está assim. Falta competência, metrô , esgoto, água, professor, médico, hospital, tudo dentro de uma caixa preta de 20 anos de mutreta. O cara que está aí não é do ramo. Deixou cano de água furar enquanto o “lucro” jorrava( não faz sentido, empresa de água, direito fundamental, dar lucro na bolsa de NY, vê se não erra o texto), deixou rolar a maior roubalheira no mini-quase-micro- metrô paulistano, deixou a PM matar adoidado gente inocente, deixou o estado mais rico do país andar para trás social e economicamente. Do que tem não falta nada: pedágios caríssimos e OS, sobretudo. Organização social é o nome bonitinho das ongs que ele colocou pra parasitar a grana do estado, que são escolhidas sabe-se lá por que critérios, que levam sabe-se lá quanto, fiscalizadas sabe-se lá como. Rios de dinheiro para os amigos, para o povão porrada da PM. Pessoalmente eu prefiro o Maringoni, sou franca, mas vou apostar em você que tem mais chances de ultrapassar o segundão. Sabe quem é ? Aquele parecido com o Sarkozy e que dubla o chuchu em tudo, até na sanha privatizar os lucros e socializar os prejuízos. Não vou trocar chuchu por nabo. Vou apostar em você pra tirar São Paulo desse deserto desgraçado. Se não rolar, pelo menos minha consciência fica limpa, que banho virou artigo de luxo. Faça-nos voltar a sonhar com São Paulo, Padilha. Mas se vier com as mesmas caras e bocas quando subir no palco, a gente não vai deixa você dormir. Não esquece de usar a memória emotiva do juramento da facu : salvar vidas! vidas acima do dinheiro !

Luciana Genro, que performance adorável a sua. Pensei vários papéis que caberiam mas te achei prontinha para a Cordélia, filha mais nova do Rei Lear, que se recusou a fazer bajulação só pra botar a mão na herança do velho. Tu tens presença, dicção, jogo de cintura, improvisas bem, papo reto e bonito. Pensei a sério te escalar para a primeira temporada mas a Cordélia morre no final, você sabe, naquelas circunstâncias. Não vale a pena. E teatro é essa coisa efêmera, não aquela coisa congelada do cinema e da TV. Antes da hora não é hora, depois da hora não é hora, estar pronto é tudo. Tua social democracia há de chegar e você há de protagonizar muitos textos ainda, principalmente quando estes produtores, patrocinadores e seus vassalos que ainda preferem grand gignol, saírem do nosso lombo.

Eduardo Jorge, obrigada pela participação, você ajudou a melhorar o nível mas não precisa ligar, a gente liga pra você. Mauro Iasi, seus improvisos estavam ótimos, baita injustiça terem barrado seu teste.

Dilma, continua no protagonismo. Não vou rasgar seda, nem nada disso porque você não precisa. Quando eu estava escrevendo a primeira peça no parquinho, você já estava organizando ópera do teatro nacional. Estou acompanhando seu trabalho e você fez bonito em várias partes. Erra feio porque tem um dedo podre pra escolher interlocutor mas quero crer que também é porque não tem muita escolha. Olhando o conjunto da obra, acho que você acertou mais do que errou. Agora mostra que pode mais. E nesta nova temporada, pelo amor de Dionísios, desce do salto. Esquece o Ibope, deixa para lá os patrocinadores. Dilma, presta atenção no público. Entra pela esquerda alta que é o ponto nobre do palco, você sabe. E – estou insistindo para seu bem- escuta o público! Desapega do pib e pega no povo – aquele que continua morrendo de fome. Mas não organiza as coisas para eles passarem a morrer com as veias entupidas de gordura trans, que aí é sacanagem. E olho vivo porque você não é a última bolacha do pacote e o seu figurino tende a ficar apertado. Olho no cenário que está mudando muito rápido. Ah, e vê se come com farinha a katiazona e a midiazona, para de dar mole pra elas. Merda ! Ah, vai na humildade mas sem perder a autoridade. Boa sorte. Ah, e não se perde do ritmo: não tão devagar que pareça estar com medo, nem tão depressa que pareça só provocação. Ah ! Im-por-tan-tís-si-mo ! Fique longe do alçapão na direita baixa do tablado, se você cai ali a gente é que quebra o pescoço.

Pessoal da técnica: Pode dar o primeiro sinal. Luz na plateia. Todo mundo nas marcas? Avisa na bilheteria que estamos abrindo a porta e solta o rock´n roll !

Categorias: Sociedade | 2 Comentários

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