#Vem pra urna


urna-eletronica

Depois de inúmeras manifestações populares, cobranças, mobilizações, eis que, novamente, tudo parece resumir-se ao ato “cívico” de apertar números em suspeitos aparelhos que trarão os resultados de uma representatividade patética, da qual passaremos os próximos anos reclamando. As ruas vazias são o retrato de que algo mais se perdeu, além do respeito à dignidade humana promovido pelas forças repressivas.

Hoje, vale o que se vota. Ou em quem se vota. Por natureza e princípio, não sou adepto da democracia representativa, ainda mais desta farsa burlesca que é promovida no Brasil sob a égide do “regime democrático”. Amarguras e ranzinzices à parte, partamos a falar dos votos, assunto pelo qual, talvez se consiga ampliar o debate político.

Respeito votos ideológicos. Os nulos que não acreditam no processo ou enxergam que não há representação de sua ideologia. Ou mesmo os que veem no voto nulo a expressão de sua ideologia, como é o caso de alguns movimentos anarquistas e outros grupos que defendem autogestão.

Respeito liberais que declaram seu voto no PSDB, acreditando que a redução do Estado e a mão invisível do mercado serão soluções para quaisquer crises. Entendo, inclusive, a opção pelos tucanos quando vinda de setores abastados, financistas e outros. Seria um voto de defesa da classe. Discordo frontalmente da opção e da formulação ideológica, mas considero honesta a manifestação.

Respeito alguns votos na Dilma. Os ideológicos puros, que são orgânicos no PT e ajudaram a construir o modelo de poder que vem sendo exercido. É lícito que reivindiquem a continuação e votem pela reeleição. Entendo muitos sociais democratas que se bandeiam para o PT. O partido, totalmente afastado de qualquer ideal de esquerda, tomou o papel que pertenceu ao PSDB em sua fundação e transformou-se na social democracia com viés capitalista-desenvolvimentista. Uma espécie de modelo europeu de concessões e redução de danos do capital, preservando ideologicamente os ganhos da direita. Ou seja, um centrão com ações de direita e pequenas concessões de discurso à esquerda.

Entendo, mas não respeito da mesma forma, os votos em Dilma que se justificam pelo “mal menor”, ou que se agarram a “conquistas” que não podem ser perdidas, ou ainda pelo medo da volta de uma direita virulenta. Votar pelo medo de que percamos o PT é algo totalmente desastroso. É assinar embaixo dos erros que não ajudamos a cometer. É ficar ao lado na doença sabendo que a saúde será aproveitada longe de nós.

O PT que se vire com as consequências de seus atos. Esse temor da sociedade é responsabilidade do próprio PT, que em seu discurso vende promessas com as quais não está comprometido. A reação é lógica do próprio comportamento do PT, de suas ações e irresponsabilidades. De seu comprometimento com o lucro dos banqueiros e de outros setores, crendo que isso lhe daria a estabilidade e apoio para continuação de um projeto de poder.

Diante disso, apiedo-me dos votos ignorantes. Aqueles que vão às urnas para votar contra o PT porque ele representa uma ameaça de um “golpe socialista”, uma ditadura “petralha” e outras teorias que somente fazem sentidos em visões distorcidas e deturpadas de figuras caricaturais como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino ou Reinaldo Azevedo. A mídia virou um picadeiro triste, cemitério de ideólogos.

Os que votam contra o PT porque estão cansados da corrupção. E enxergam, no horizonte da falta de memória, pureza em quem só está à espreita, aguardando o momento de ter novamente para si a possibilidade de loucpletar-se por meio do erário.

Ou ainda aqueles que vão às urnas para votar no PT porque receberam algum benefício do Estado. Talvez, esses sejam menos problemático, pois aí não há a proclamação de uma ideologia subjacente, mas o reconhecimento de algo que chegou até aquele conjunto de indivíduos. No fundo, é o mesmo funcionamento do populismo, é que forneceu a Vargas a alcunha de Pai dos Pobres, entre outros. Mas, compreende-se dado o nível de desenvolvimento político, social e econômico da população brasileira em geral.

Por tudo isso, não respeito o voto na Marina. Como disse antes, respeito votos ideológicos e não há como votar ideologicamente em que não possui ideologia. A candidatura de Marina é um arremedo eleitoral, um verdadeiro estelionato. A representação de uma “nova política” é ridícula, vindo de alguém que buscou a construção de um novo partido, criticou todos existentes e, na impossibilidade de ter seu próprio “grêmio recreativo”, aceitou concorrer de aluguel por uma daquelas legendas que não prestava.

O PSB deveria envergonhar-se de ter “socialismo” em seu nome, é uma espécie de propaganda enganosa contra o eleitor. Em um arremedo de programa que não corresponde às ideias do partido, nem às ideias da candidata, um rol de plágios e apropriações, um verdadeiro vale-tudo apenas para conquistar o voto daqueles que querem votar contra o PT. Uma alternativa “corrida de cavalos”, para apostadores, não para quem tenha efetivamente uma ideia sobre qual caminho seguir.

A esquerda institucional vai de Luciana Genro. O PSOL representa a verdadeira social-democracia, propondo uma guinada à esquerda sem rompimento com o sistema. Taxar grandes fortunas, democratizar decisões, aumentar a participação popular são algumas das boas propostas. Isso, contudo, vem acompanhado da convicção de que é possível administrar o capital com conquistas sociais e promover uma mudança “por dentro”do sistema. Aí perde a chance de ganhar dez.

Respeito os companheiros do PSOL, mas isso não é possível. A burguesia francesa não chegou ao poder participando da Assembleia dos Estados Gerais. Essa visão institucional do partido faz com que o “vem pra rua”, soe como “vem pra urna”.  Não adianta seguir confiante e a passos largos no caminho errado, pois não chegaremos ao lugar em que deveríamos chegar.

Os partidos de luta fazem parte da eleição para denunciar seu jogo e propagandear sua própria existência. Em um sistema que lhes oferta migalhas de tempo, não se pode esperar muito. Nem creio que seja objetivo do PSTU ou do PCB um grande número de votos. Mas um grande número de ouvidos, para que se transformem em vozes. E que, assim, as urnas sejam colocadas em seu devido lugar. Pois as mudanças vêm das ruas. E é lá onde devemos estar.

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Estupro: de quem é a culpa?


Postado originalmente em transversos:

Era apenas uma menina quando foi assediada pelo tio. Assistia à TV e ele se chegou num movimento de aproximação dos lábios. Quando entendeu, assustou-se e assustou-o. Ele partiu alvoroçado. Nunca contaram a ninguém. Não queriam magoar a tia. Não queriam tragédia na família. O pai com certeza mataria. Acordo mudo na cumplicidade entre vítima e agressor. Depois de muito tempo, aceitou uma bala do tio, que chorou um sorriso de desculpas.
Era apenas uma moça quando foi agredida pelo namorado da irmã gêmea. Voltavam de uma festa. A irmã veio mais cedo. A poucos metros de casa, o rapaz golpeou-a a murros. Desfaleceu. Não se lembra bem da violência. Passou a maior parte do tempo desmaiada. Sua memória surge em flashes que ela preferia não ter vivido. A dor maior foi a irmã não acreditar. Imagina-a morta desde então. O rapaz, temeroso da justiça local, procurou os caras da…

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Parece FlaFlu, mas é eleição mesmo.


bipolar

Comédia ou Tragédia?

Bipolaridade. Certo x errado. Belo x feio. Claro x escuro. Assim x assado. O meu x o teu. Direita x esquerda (será?). Ah… vidinha maniqueísta… desde os gregos, que, pro bem e pro mal, em autoaplicável maniqueísmo, nos moldaram. E seguimos nós cá hoje bipolarizando, preto no branco e branco no preto,  o mundo sucessivamente. E como nós, no fundo e na superfície, também curtimos de montão encarar a realidade sem os atordoantes degradês de cinza.

Dentro do grande projeto societário de construção do Brasil paira um grande anseio de estadunidização dessas terras tupiniquins. Ao menos esse é o anseio de boa parte de sua elite, da mídia oficial e também, claro, de boa parte da dita classe média. Lá naquelas elevadas e setentrionais terras encontra-se a possível cura para nosso atávico subdesenvolvimento, em maniqueísmo redundante. Ora, a começar pelo inglês que é tão mais sofisticado, belo, chique, enfim, apropriado do que o português, não?

Pois que, desde o alvorecer do governo FHC, que se vem tentando, a fórceps, por parte de nossa infelizmente citada mídia oficial, importar o padrão político-eleitoral do bipartidarismo madeinusa. Aliás, diga-se de passagem, o próprio bipartidarismo lá é fabricado também. Há outros partidos, só que aa sombra completa da contraposição Democratas x Republicanos que nem é uma contraposição de verdade, né? Ela se situa mais no campo do simbólico e dalgumas aparências do que propriamente em questões de fundo. É claro que, por exemplo, pra realidade de muitos imigrantes legais ou não que lá vivem (em alguns estados já são mais de 25% da população) não é indiferente um governo democrata ou republicano. Do mesmo modo, em uma ou outra questão, se formará um viés, inclusive de construção histórica, que associa os democratas a uma feição mais liberal do ponto de vista das pautas ligadas aas liberdades individuais e de direitos das chamadas minorias, ao passo que os republicanos encarnariam o lado mais conservador nessas mesmas questões. Numa série doutras áreas de fundo, a diferença é se se sorri antes ou se se fala duro logo de cara. Que diferença faz pro contexto do Oriente Médio um governo democrata ou republicano? Aliás, diria eu, que diferença faz pra continuidade da política do Bigstick em qualquer canto do mundo? Pro desumano bloqueio a Cuba? Pras medidas mais sórdidas, cretinas e cínicas na ação mundial dos EUA? Pra administração interna e externa do exemplar capitalismo ianque?

A diferença nesses pontos é um pouco mais do que cosmética apenas. Até podemos pensar que os democratas, com a pecha de melhorzinhos, causam mais estrago no mundo. Vietnã e Bálcãs, dentre outros, que o digam.

Pintura de René Magritte.

Pintura de René Magritte.

E, afinal, não é nesse modelo que está a se tornar o processo eleitoral brasileiro. E já estamos num estágio avançado disso, pois, mesmo dentro do eleitorado mais tradicional de esquerda e supostamente crítico, não há contestações a tal cenário. Parece natural que se escolha entre o Céu e o Inferno- a caracterização é sempre essa, alternando-se apenas os defensores dum ou doutro lado- num processo em que não há espaço sadio pra nada que rompa com isso. Não, não é o discurso antipolaridade da Marina  não, até porque ela encarna um dos polos desse processo, único fato novo nessa lógica- substituição de emergência pra encorpar a polarização pretendida. Tô a falar de, por exemplo, todo mundo, ou quase isso, considerar normal que haja candidatos que têm o que dizer e são excluídos absurdamente de praticamente todo o contexto de interlocução com os eleitores. Vozes silenciadas, propostas amordaçadas. Como se acha isso normal? Como se acredita que se trata do projeto de país e só há dois caminhos em que isso possa ser discutido? Ou é Dilma ou é Marina?! E, sobretudo, como se crê que as candidaturas sejam tão opostas? Como chegamos a esse ponto? Realmente, nosso patamar de discussão se inicia pela artificialização duma tal brutal distinção que só procede na ficção do desejo obviamente irrevogável das elites de não se gerir o país segundo interesses e objetivos populares? Enquanto os reais donos de poder discutem se é o caso de se dar mais ou menos esse ou aquele anel pra não perder os dedos, uma perspectiva voltada ao trabalhador e seus reais problemas é amputada brutalmente.

ceu-inferno

A diferença entre Dilma e Marina não é dum grau muito diferente da de um candidato democrata típico pra um republicano tradicional lá das terras do tão garboso Tio Sam. Do mesmo modo que lá, isso não significa reducionistamente que esses milímetros políticos possam ser considerados indiferentes pra vários setores da sociedade. Não o são mesmo. E pra seguirmos em termos maniqueístas, nem acima nem abaixo. A relação e, sobretudo, a desproporção entre investimento em programas sociais e o que ambas as candidaturas projetam a bancos, especulação financeira, dívida interna, agronegócio, etc, seja pelo que já vemos, seja pelas indicações político-econômicas, não destoa dramaticamente.

Insisto que não se trata de indiferença aas duas candidaturas em voga, mas tampouco de contentarmo-nos com isso aí mesmo.

Mesmo nas pautas ligadas aas liberdades individuais e direitos das assim chamadas minorias (na verdade, de interesse devido da maioria da sociedade), há de se perguntar quais são as abissais diferenças proclamadas. Afinal, o governo Dilma, em feira livre de negociação aberta com sua espúria base parlamentar, também não rifa esses direitos? Mas, é claro, supõe-se que Marina faria isso no tacão. É da mesma ordem que o falso bipartidarismo aa USA.

Já disse noutro texto e repito. O que se está a discutir, no fim das contas, não mexe sequer em dois fios de cabelos das classes dominantes deste país. É nessa vala comum em que se situa hoje o debate por detrás da luta do Bem contra o Mal- carapuças aa vontade. Só que pra maioria da população o que há de sacrifício acumulado é mais do que os fios de cabelo. São vidas, vidas e mais vidas de insatisfação, de desprazer, de dor, de sofrer, de humilhação, de exclusão, de impossibilidade, de não vida.

Agora, é preciso dizer que essa mínima distinção é muito pouco pra nos apegarmos a ela como que a uma questão dogmática e passarmos a enxergar a realidade pelo espectro duma contraposição fabricada por marqueteiros e mídia. Estamos a discursar por migalhas? A disputa que se faz é pelos restos? ´É o ruim versus o pior? A impressão inequívoca que fica é que só quem está a discutir grande política nestas eleições é o topo da elite, como os grandes banqueiros, por exemplo. E aí a meta é estadunidizar-se ou se tornar os Estados Unidos da América Latina? São os únicos caminhos permitidos?

Tem-se tripudiado da palavra “mudar” nestas eleições. Nunca a mudança foi tanto mais do mesmo. Se os opostos que o são, de fato mesmo, só se distraem, os falsos opostos enchem a paciência.

É pior do que Flaflu, do que Grenal, do que Brasil x Argentina, do que Montéquios contra Capuletos… São os Donos da Verdade contra os Senhores da Razão, ambos os lados com suas mentiras de parte a parte, tentando construir a monolítica e ilusória realidade que lhes convêm. E o povo, o trabalhador emparedado opressivamente  entre esses polos esmagadores. Vivamos tons de cinza!

preto-branco

 P.S.: E o político mineiro não associado a helicópteros de carregamentos exóticos? Quem mesmo?!

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Eleições 2014 e suas novidades


Não lembro de ter vivido eleições mais mornas que esta. Digo do ponto de vista da rua, da padaria, das conversa de festa, da minha vidinha de todo dia. Nem é uma queixa, só observo. Para o meu gosto, aliás, a temperatura está ótima . E falar disso me fez lembrar de um causo contado por uma professora, sucedido com ela e o marido em viagem de férias na Suécia ainda nos tempos que eleição, no Brasil, era rara e restrita. Para presidente, nem pensar. Vai daí que o marido, médico famoso e politizado, naquela fissura democrática, entabulou uma conversa animada com os suecos. Pediu e recebeu notícia de tudo, sedento por conhecer as maravilhas da democracia em exercício. Tudo muito bem até que no embalo do papo, o gajo, sem maiores cuidados, lasca na suecada pergunta reta: “ e vocês, nessas eleições, vão votar em quem?” Pausa claramente dramática. Leve pânico brasuca no ar e o esclarecimento gelado de um deles ”Sorry, Dr., aqui o voto é secreto…” Disse a professora que houve tamanho constrangimento que o único jeito foi mudar de assunto.

Não somos dados a tanta frescura mas olha que já estivemos mais longe de, digamos, uma Amsterdam. Se tiver dúvidas venha dar uma olhada nas ciclofaixas em São Paulo. Haddad aliás, o prefeito de São Paulo, tem exibido sinais preocupantes de exotismo chegando a aparentar não saber como se faz política por aqui e estar nem aí para seus índices de aprovação nas famigeradas pesquisas. Deu para tentar cumprir o que estava no seu programa de governo sem dó. Imaginem. Honrando o que prometeu a seus eleitores. Que homem maluco!

Como maluco também tem sido tratado, nas redes sociais, Eduardo Jorge, médico sanitarista, candidato à presidência pelo PV. O Brasil é mesmo o país da jabuticaba. Como é que se pode taxa-lo de maluco? No máximo diria que é um pouco exótico, visto que em termos de imagem é uma das figuras masculinas desta eleição que se afasta de Odorico Paraguaçu, nosso eterno político modelo, aquele cujos discursos é formado de frases terminadas todas com um ponto de exclamação. Faço! Farei ! Fiz! Faria ! É evidente que não tem o traquejo dos oradores profissionais mas nem por isso abre mão de parecer o que é e dizer claramente o que acredita e qual é o programa de governo que propõe. Fora isso, é todo novidade no melhor sentido. Ou me digam. Qual a figura pública, em tempo distante ou recente, colocou de forma tão clara e objetiva o problema da criminalização do aborto, como ele o fez, no último debate da CNBB?  Mas nem foi pela defesa que ele fez das 800 mil mulheres criminalizadas e mais de 20 mil mortas, anualmente, para satisfazer o sadismo de gente que não se importa com esta montanha de cadáveres. Alguém viu a campanha dele, na TV, no dia de ontem? Mudança de paradigmas ambientais, de matriz energética, planos objetivos e concretos de fortalecimento do SUS, com tudo que ele precisa para ser o que foi projetado para ser, isto é, sensacional. Ah, mas alguém vai dizer, o papel aceita tudo e falar é fácil. Concordo.Ok. Estou quase embeiçada por ele. Difícil mesmo é manter a coerência. Ou ter força política, isto é, aliados e quadros técnicos e políticos para fazer e cumprir o que se pretendeu.

Haja visto a Marina que, não bastasse fazer erratas das próprias falas como se estivesse em pleno brain storm interno de campanha, pretende nos convencer que é a mais poderosa líder que este país já viu, capaz de unir em torno de si os “ melhores “ da República, Pra começar parece que nem se perguntou se os “melhores” ( seja lá o que isso signifique) estão interessando no salário e plano de carreira que ela pode oferecer. Está bem, vamos supor que é mesmo essa super articuladora – ou que será- mesmo sem nunca tê-lo demonstrado, antes pelo contrário. Mas ao mesmo tempo que derrama lágrimas por uma suposta rejeição de um ex-aliado político . Chorar por ataques – verbais, vejam bem, meros ataques verbais mesmo que injustos! – é o menor dos problemas de um ocupante do cargo máximo desta república. Perdeu com isso, qualquer simpatia que pudesse ter por ela. Como dizia a mãe de um amigo meu, do alto de sua sabedoria mineira : “ quer moleza, minha filha, senta num pudim”. E eu acrescento a sabedoria da minha vó: se fosse fácil, todo mundo era.

Eu só sei que estas eleições, pra mim, não estão fáceis. Pela primeira vez da minha vida de eleitora me sinto tentada a fazer uso afetivo dos meus votos no executivo, no primeiro turno. Digo, votando segundo meus sonhos e desejos mais íntimos e desconsiderando os limites da real politik com que cada candidato tem de se haver. Afinal, tenho me perguntado, não é pra isso que serve o pluripartidarismo e a eleição em dois turnos? Elementar, né ? Pois, é. mas sempre tive preguiça de fazer duas escolhas. Mas vamos combinar, as novidades todas destas eleições têm vindo dos partidos menores. Até mesmo os monotemáticos mais obsessivos, me pareceram acrescentar algo ao debate eleitoral que nem devia ser novidade  mas é. A eleição dos temas que consideram mais importantes para a vida nacional. Não acho pouco, por mais que considere alguns completamente equivocados, como aquele candidato que gostaria que o Brasil fosse formado apenas por famílias quakers do século XVIII. A postulação da discordância clara pra mim é como um princípio ético e moral necessário ao exercício pleno da Política. Discordo de você, logo teremos de discutir e debater e negociar, até chegarmos a um consenso. Ou não. Discordo disto, concordo com aquilo, se você vencer é do seu jeito, senão, do meu. Defendo isto, combato aquilo. Quem pode mais, faz mais.

O resto é mais do mesmo. É jogo de cena. É demagogia, é cantilena para pegar incautos. E nessa conversa eu não vou nem que a vaca tussa.

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Voto nulo, voto útil


Já foram amigos e aliados mui queridos, até uma traição em 2006, em uma história baixo nível até para os parâmetros degradados da política fluminense

Já foram amigos e aliados mui queridos, até uma traição em 2006, em uma história baixo nível até para os parâmetros degradados da política fluminense

Nas presentes eleições, parece que o clima de desconsolo em relação à política eleitoral atingiu seu auge de desanimo. Após as manifestações populares que tomaram o país, o descrédito em que partidos e políticos caíram chegou a um cúmulo que beira o insustentável. Não é para menos. De esquerda ou direita, todos têm cometido erros grosseiros em relação às demandas da população e pouco ou nada conseguiram reverter em atitudes práticas que indicassem mudanças significativas que apontassem para qualquer transformação. Quando os sussurros tornaram-se gritos de indignação, exigindo maior participação no processo decisório na condução do país (e aqui não importa a variedade de formulações que foram dadas ao problema, o ponto central continua sendo esse), ninguém apresentou uma resposta satisfatória.

Pior ainda, na verdade. As tímidas e natimortas propostas de reforma por parte do governo foram rejeitadas por um congresso avesso a abrir mão dos seus incontáveis e divinos privilégios, com o apoio irrestrito da grande mídia, que provou assim realmente não ter interesse nenhum em mudanças estruturantes e de fundo que possam realmente mudar o país e, quem sabe, até acabar com a corrupção, que ela teoricamente tanto combate. É esta a diferença entre a denúncia e o denuncismo: a primeira tem como base o desejo concreto de transformação, o segundo tem apenas um viés político-partidário de baixíssimo nível e visa apenas a trazer os seus candidatos de volta ao poder. Uma revisteca de direita de circulação nacional que eu nem digo o nome chegou a publicar uma matéria de capa, comparando o projeto do governo para ampliar a participação popular com os soviets da revolução russa, em uma prova de que o jornalismo e a ficção científica no Brasil são gêneros bastante indiferenciados.

Portanto, não é nenhuma surpresa que a campanha contra a “farsa eleitoral” esteja conquistando tantos adeptos. Ao invés de gerar críticas de viés fortemente geriátrico às novas gerações de manifestantes, ganhava mais a esquerda – a direita, é claro, será sempre contra qualquer forma de revolta popular, como a imprensa tão bem ilustrou nos últimos meses – em fazer um severo processo de autocrítica para entender em que ponto ela se desvinculou da força e das reivindicações das ruas. As ruas também ganhariam ao deixar de lado um pouco a falsa noção de que a História começou em junho do ano passado. Desqualificar alguém por ser jovem me parece tão estúpido quanto desqualificar alguém por ser velho. Ignorar que houve uma longa e sofrida caminhada para se chegar aonde estamos hoje, também. Mas infelizmente o atual quadro político do Rio de Janeiro é bem mais complicado do que essas questões.

É famosa a citação a Winston Churchill, notório anticomunista, que teria justificado a sua aliança com Stalin dizendo, “contra Hitler, eu me aliaria até com o diabo”. Dito isto e guardadas as devidas proporções, vamos falar sobre Lindbergh Faria. Conheci-o há muitos anos, no movimento estudantil, e nunca tive simpatia por ele. Ainda não tenho. Mas creio que na conjuntura atual, não se deve descartar fazer um voto útil aí, contra o Garotinho e contra o Pezão. Cabral foi rechaçado pela população do Rio de Janeiro. A sua renúncia foi uma vitória memorável e incontestável dos movimentos de junho, que com as manifestações e a ocupação da rua onde ele mora, no Leblon, tornaram não apenas a sua situação política insustentável, como a sua própria vida um inferno (deve ser meio chato dormir e acordar todos os dias com uma multidão gritando “Ei, Cabral, vai tomar no c…” na sua janela). No entanto, o voto no Pezão está crescendo (segundo especialistas, em cima da enorme e altamente compreensível rejeição ao Garotinho). O eleitor carioca está se sentindo entre a cruz e a caldeirinha. Apesar do crescimento de Pezão estar se dando nessa conjuntura muito específica (a escolha entre o imponderável), fico na dúvida se a sua eleição não traria um amargo sabor de derrota à vitória que representou a renúncia de Sérgio Cabral.

O diabo aguardando ansiosamente pelo Crivella e sua turma

O diabo aguardando ansiosamente pelo Crivella e sua turma

Não questiono o bordão, hoje tão na moda, de que “eleição não muda nada”. Isso é um fato além da contestação. As verdadeiras mudanças virão de outro lugar, que não das urnas. Questiono se o voto nulo é o instrumento certo para o estado do Rio de Janeiro neste momento. O voto nulo é um instrumento político válido, que demonstra a descrença no processo eleitoral em si ou a insatisfação com o cardápio de opções apresentadas. Já fiz uso dele várias vezes. Acho mais fácil ainda entender a extrema preguiça com os partidos tradicionais, ainda mais da parte de quem está nas ruas lutando e ainda por cima é criminalizado por partidos de esquerda.

Mas creio ainda assim ser essencial relembrar alguns fatores. Cabral e Garotinho foram aliados, até a ruptura violenta quando da eleição do primeiro, em 2006. A despeito do rompimento, ambos se apóiam sobre as mesmas máfias (chega a ser risível ver Garotinho dizer no horário eleitoral que enfrentará a máfia dos transportes). Os governos Garotinho / Rosinha estão associados ao crescimento das milícias. Os dos senhores Cabral / Bundão (digo, Pezão), ao recrudescimento da violência policial, via o projeto das UPPS (falido por não ter visão social nenhuma) e via a repressão sistemática às manifestações populares. Todos estão ligados a um banho de sangue e ao genocídio sistemático da população pobre e negra do estado. Todos são ou foram do PMDB. Todos estiveram intimamente relacionados, sendo vices ou líderes de governo uns dos outros. Todos, enfim, vêm do mesmo lugar, e esse lugar é o inferno. Somados os seus “esforços”, já são 16 anos de domínio dessa camarilha. Minha pergunta é: não estaremos entregando fácil demais mais 4 anos para essa corja?

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Tiririca e a gaivota de Silvio Santos


Tiriricas

Palhaço Soneca, Clark Crente, Toninho do Diabo, Jack Chan da Motinha, Chiquinha, Bin Laden, Robin, Marquito, Chapolin… Assim segue a tiriricanização nestas eleições para as gaiolas do legislativo. A quase totalidade dos partidos faz uso dessas bizarrices de modo a alcançar o imenso eleitorado descrente com a tal democracia representativa. O antivoto em figuras canhestras tornou-se um fenômeno cooptado pelas legendas partidárias sem o menor constrangimento em saber que tal fato aprofunda a crise de representatividade política contra a qual nada, absolutamente nada foi feito. 
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigir mais participação na vida política do país e as entidades que deveriam garantir esse direito constitucional fazem-se de moucas, apostando no antivoto e na suruba de cobra das alianças proxenetas. 
A grande malandragem dessa patifaria chama-se coeficiente eleitoral, que faz com que os milhares de votos de um Tiririca arrastem outros maganos de seu puteiro de alianças pra dentro do parlamento sem o quantitativo necessário. 
Quanta carga pode suportar o povo pra entender que essa democracia liberal é uma farsa?

Motel talibã

Um projeto de lei do deputado evangélico-talibã Josias Macieira quer obrigar as pessoas a apresentarem a certidão de casamento pra dar umazinha no motel. O projeto empata-foda conta com amplo apoio da bancada fundamentalista que quer coibir a livre trepada no Brasil.
Segundo o deputado talibã “a razão social dos motéis os permitem a fazer hospedagens de curta duração, no entanto o que vemos hoje é a prática da fornicação e da prostituição. Em defesa da família e dos bons costumes queremos coibir o avanço da sem-vergonhice neste país que já é tão profanado”.
O que vemos hoje é o charlatanismo praticado por vermes pestilentos travestidos de pastores. Em defesa do estado laico e da trepada libertária queremos coibir o avanço do fundamentalismo religioso neste país que já é tão avacalhado politicamente . 
Essa cruzada homofóbica e moralista precisa deixar em paz o cu alheio.

Baú da Infelicidade

Dentre todo lixo reciclável em forma de jornalismo, novelas, filmes e programas de auditório talvez não se veja na televisão cena tão abjeta quanto Silvio Santos jogando gaivotas de cédula na sua plateia como quem joga ração para porcos. O velho pulha do Baú da Infelicidade Alheia subjuga o auditório feminino, que se estapeia no chão para alcançar as notas. Tudo arquitetado como se o único objetivo e sentido da vida daquelas mulheres fosse correr atrás da moeda lançada por um velhaco repugnante e asqueroso.

Zé Colmeia

Apesar da demora inexplicável, descobriu-se mais um crime da puliçada sobre o caso Amarildo. Um laudo de exame de voz identificou a ligação de um PM fingindo ser o traficante Catatau. A ideia do Zé Colmeia da puliça era colocar na conta do tráfico o desaparecimento do pedreiro, torturado e morto pelos meliantes da UPP da Rocinha. 
A tortura e a morte são heranças dos porões da ditadura, sem as quais a PM brasileira perderia sua identidade orgânica.

Não existe amor no RJ.

Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Clarissa Garotinho, Wladimir Garotinho, Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jorge Picciani, Leonardo Picciani, Rafael Picciani. 

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Tiririca e a gaivota de Silvio Santos


 

 

 

Tiriricas

Palhaço Soneca, Clark Crente, Toninho do Diabo, Jack Chan da Motinha, Chiquinha, Bin Laden, Robin, Marquito, Chapolin… Assim segue a tiriricanização nestas eleições para as gaiolas do legislativo. A quase totalidade dos partidos faz uso dessas bizarrices de modo a alcançar o imenso eleitorado descrente com a tal democracia representativa. O antivoto em figuras canhestras tornou-se um fenômeno cooptado pelas legendas partidárias sem o menor constrangimento em saber que tal fato aprofunda a crise de representatividade política contra a qual nada, absolutamente nada foi feito.
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas exigir mais participação na vida política do país e as entidades que deveriam garantir esse direito constitucional fazem-se de moucas, apostando no antivoto e na suruba de cobra das alianças proxenetas.
A grande malandragem dessa patifaria chama-se coeficiente eleitoral, que faz com que os milhares de votos de um Tiririca arrastem outros maganos de seu puteiro de alianças pra dentro do parlamento sem o quantitativo necessário.
Quanta carga pode suportar o povo pra entender que essa democracia liberal é uma farsa?

 

Motel talibã

Um projeto de lei do deputado evangélico-talibã Josias Macieira quer obrigar as pessoas a apresentarem a certidão de casamento pra dar umazinha no motel. O projeto empata-foda conta com amplo apoio da bancada fundamentalista que quer coibir a livre trepada no Brasil.
Segundo o deputado talibã “a razão social dos motéis os permitem a fazer hospedagens de curta duração, no entanto o que vemos hoje é a prática da fornicação e da prostituição. Em defesa da família e dos bons costumes queremos coibir o avanço da sem-vergonhice neste país que já é tão profanado”.
O que vemos hoje é o charlatanismo praticado por vermes pestilentos travestidos de pastores. Em defesa do estado laico e da trepada libertária queremos coibir o avanço do fundamentalismo religioso neste país que já é tão avacalhado politicamente .
Essa cruzada homofóbica e moralista precisa deixar em paz o cu alheio.

 

Baú da Infelicidade

Dentre todo lixo reciclável em forma de jornalismo, novelas, filmes e programas de auditório talvez não se veja na televisão cena tão abjeta quanto Silvio Santos jogando gaivotas de cédula na sua plateia como quem joga ração para porcos. O velho pulha do Baú da Infelicidade Alheia subjuga o auditório feminino, que se estapeia no chão para alcançar as notas. Tudo arquitetado como se o único objetivo e sentido da vida daquelas mulheres fosse correr atrás da moeda lançada por um velhaco repugnante e asqueroso.

 

Zé Colmeia

Apesar da demora inexplicável, descobriu-se mais um crime da puliçada sobre o caso Amarildo. Um laudo de exame de voz identificou a ligação de um PM fingindo ser o traficante Catatau. A ideia do Zé Colmeia da puliça era colocar na conta do tráfico o desaparecimento do pedreiro, torturado e morto pelos meliantes da UPP da Rocinha.
A tortura e a morte são heranças dos porões da ditadura, sem as quais a PM brasileira perderia sua identidade orgânica.

 

Não existe amor no RJ.

Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Clarissa Garotinho, Wladimir Garotinho, Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral, Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jorge Picciani, Leonardo Picciani, Rafael Picciani.

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Antologia parapoética brasileira, comentada, 2ª parte


antologia 2

Novamente, a poesia instaura-se como clamor, em meio a todo o transversismo desenfreado, de tão árduas, sérias e urgentes pautas. Há cinco meses e meio atrás, em março, publiquei a parte inaugural deste texto, a Antologia parapoética brasileira, comentada. Originalmente, não imaginava demorar tanto para produzir sua continuação, mas, como todos sabem por própria vivência, essa vidinha é muito atropelante.

Bem, o objetivo aqui ainda é analisar pérolas do cancioneiro brasileiro, que transbordam lirismo e toda uma vasta rede de significação que, em geral, passam despercebidas. No fim das contas, é um texto que visa a corrigir injustiças que se vêm proliferando acerca das canções em questão.

Vamos ao lirismo que nos espera.

Comecemos por um já neoclássico, no sentido primeiro do termo, de João Lucas e Marcelo, este duo magnífico, desde já inscrito nas mais sublimes tradições da música brasileira, vulgos Tchu e Tcha.

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

É isso ai galera
Esse é o novo hit do João Lucas e Marcelo
Tchu tcha tcha

Cheguei na balada, doidinho pra biritar
A galera tá no clima, todo mundo quer dançar
Uma mina me chamou, e disse “faz um tchu tcha tcha”
Perguntei o que é isso, ela disse ” vou te ensinar”
É uma dança sensual, em Goiânia já pegou
Em Minas explodiu, em Santos já bombou
No nordeste as mina faz, no verão vai pegar
Então faz o tchu tcha tcha, o Brasil inteiro vai cantar

Com João Lucas e Marcelo

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Cheguei na balada, doidinho pra biritar
A galera tá no clima, todo mundo quer dançar
Uma mina me chamou, e disse “faz um tchu tcha tcha”
Perguntei o que é isso, ela disse ” eu vou te ensinar”
É uma dança sensual, em Goiânia já pegou
Em Minas explodiu, em Tocantins já bombou
No nordeste as mina faz, no verão vai pegar
Então faz o tchu tcha tcha, o Brasil inteiro vai cantar

Com João Lucas e Marcelo

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

Eu quero tchu, eu quero tcha
Eu quero tchu tcha tcha tchu tchu tcha
Tchu tcha tcha tchu tchu tcha

O que é isso? O metalinguístico questionamento presente na própria letra da canção ecoa em nossas mentes, mesmo depois de ouvi-la. Afinal, o que é isso? O eu lírico obtém de sua solícita interlocutora a resposta que, contudo, nos mantém em meio ao aflitivo enigma. O que se encobre por detrás da transgressão ortográfica “tchu tcha”? Por que, enfim, as pessoas aderiram ingenuamente e não esclarecidas a esse ritmo? As rimas contínuas entre “tcha” e “tcha” dão a tônica da musicalidade da letra, reforçadas pelas riquíssimas rimas com infinitivos verbais em “-ar”, “biritar”, “cantar”, “pegar”, “ensinar”, “dançar”, apenas interrompidas pelo bilionaríssimo duo rímico entre “bombou” e “pegou”, dada, claro, a enfática necessidade expressiva da letra da canção a romper o próprio esquema harmônico de rimas em “a”. A ênfase no verbo “pegar” não é gratuita ou pobreza de expressividade, como pode julgar algum incauto, mas sim uma metáfora interna aa própria letra que, ancorada no espírito da própria transgressão, representada na ousada insistência no som de “tch”, alusão subliminar ao revolucionário Guevara. Eis o sentido derradeiro da canção: uma pegação revolucionária ao ritmo de “tchu tcha tchu tcha”, sem parar, se é que me entendem…

 

E, por falar em ritmos revolucionários, vamos logo ao exemplar máximo da perspectiva de classes no cancioneiro nacional, o axé-marxismo de As meninas:

Analisando
Essa cadeia hereditária
Quero me livrar
Dessa situação precária…

Onde o rico cada vez
Fica mais rico
E o pobre cada vez
Fica mais pobre
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce…

Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!

Mas eu só quero
Educar meus filhos
Tornar um cidadão
Com muita dignidade
Eu quero viver bem
Quero me alimentar
Com a grana que eu ganho
Não dá nem prá melar
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce
E o motivo todo mundo
Já conhece
É que o de cima sobe
E o de baixo desce…

Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!
Bom xibom, xibom, bombom!

Bom bom, xibom bombom!
Bom bom, xibom bombom!

O clamor de libertação da letra da música é pungente. Poucos sabem disso, mas outrora, a vanguardista banda axé, chamara-se As Meninas de Marx, nome devidamente alterado para se evitar dum lado sectarismos, doutro, perseguições midiáticas. Ainda assim, as destemidas Meninas ousaram nesse canto proletário em que conclamam as massas dançantes a analisarem seu lugar no mundo e tomarem uma resoluta atitude quanto a isso, inequivocamente expressa em “Bom xibom, xibom, bombom!”. Mais uma vez, uma leitura ingênua conduzirá aa má interpretação. Ora, a insistência em sons bilabiais plosivos, marcadamente representados por “b”, dão aa tenaz convocatória todo um ar que nos aproxima de ritmos marciais, em tom de marcha, tão apropriados aa simbolização de lutas cruciais. Não, não se deixe enganar pela inocente aparência axé da música. É tudo parte duma engenhosa estratégias das Meninas de Marx para a disputa da hegemonia: travestir o mundo de axé para arrebanhar a massa a “se livrar dessa situação precária”.

Infelizmente, desde o advento do Bolsa-Família, As Meninas viram seu estratagema de todo desarticulado, comprovando, mais uma vez, toda a vilania do governo petista.

E, já que o mote passou aa desarticulação, tratemos dum aparente- apenas e tão somente aparente- exemplar desta. Estamos a falar de Djavan, dos mais prestigiados representantes de nossa MPB e considerado por muitos a versão contemporânea e cantante da mitológica Esfinge.

Solidão de manhã,
Poeira tomando assento
Rajada de vento,
Som de assombração,
Coração
Sangrando toda palavra sã

A paixão puro afã,
Místico clã de sereia
Castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si

Açaí, guardiã
Zum de besouro um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro um ímã
Branca é a tez da manhã

Para nos embrenharmos no movediço terreno djavânico, escolhemos a emblemática Açaí. Estampada a letra acima, parece-nos quase autoexplicativa, dispensando maiores aportes. Contudo, como é nosso objetivo elucidar, sigamos adiante. No canto em questão, o compositor alagoano parece revestir, não se sabe se autobiograficamente, seu eu lírico de palpitações e temores que passam, comumente, despercebidos, pois que são ocultados pelo ritmo ameno da instrumentação, estratégia de dissuasão interpretativa, genialmente construída. Tudo em torno do referido eu lírico é angústia. Não se deixem enganar pela melodia fofinha e suave. A chave inquestionável está no verso “Som de assombração”. Djavan pretende trazer ao conhecimento público grandes temores, fobias profundas, ordinariamente ignoradas. Aqui, o compositor trata da denúncia do estado de torpor a que pode ser levada uma frágil vítima de, combinadamente, eosofobia e entomofobia, respectivamente, medo mortal do amanhecer e temor desmedido por insetos. Vejamos. É em meio ao amanhecer que se instaura o som de assombração, logo após toda uma configuração trágica da doce brisa da manhã. Eis que surge o medonho “som de assombração” “sanguinolento” sem poupar sequer as palavras, pois que o eu lírico encontra-se sem elas em meio a seu torpor profundo. Não bastasse, surge o maldito e assustador besouro (Não! Nenhuma crítica do poeta das Alagoas aos meninos de Liverpool; é fobia mesmo), levando a uma desconexão quase total de ideias, como se vê nos versos circundantes. Temor magnetizante, tal qual um ímã de pavores. E a manhã, já medonha, torna-se branca, não o branco transfigurador do poeta Cruz e Sousa, mas um branco de palidez fantasmagórica perpétua, dum medo indescritível. Esse é o libelo conscientizador de Djavan sobre dois grandes males que tanto passam despercebidos. E você achando que era uma letrinha sem sentido ou um canto de lamentação por um amanhecer solitário, depois duma noite paixão, e que “branca” era a simbologia do vazio, hein?! Citando o poeta, “Sabe de nada, inocente!”.

Por fim, uma canção polemicíssima, “Ragatanga”, vulgarmente também conhecida por “Aserehe”, do Rouge, a banda apoteoticamente descoberta e construída pelo olhar de Midas de Sílvio Santos.

Olha lá quem vem virando a esquina!
Vem Diego com toda a alegria, festejando
Com a lua em seus olhos, roupa de água marinha
E seu jeito de malandro
E com magia e pura alma
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo “ragatanga”

E o DJ que já conhece
Toca o som da meia-noite pra Diego, a canção mais desejada
Ele dança, ele curte, ele canta

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Não é por acaso que eu o encontro todo dia
por donde voy caminando
Diego tem sua magia e esta alegria rastafari afrocigana
E com magia e pura alma!
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo “ragatanga”

Y el dijey que lo conoce toca el himno de las doce para Diego la canción más deseada
Y la baila, ele curte, y la canta

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi

A letra da música é uma adaptação do grupo argentino Las Ketchup, inclusive citadas e homenageadas tanto na letra da música em si quanto no clipe oficial das brasileiras, num gesto de irmanamento latino-americano de profundo significado, numa canção de pretensões internacionalistas. Muito, muito mesmo se falou sobre menções satânicas na letra dessa música, tomando o pobre coitado do Diego por um emissário de Lúcifer e as palavras do refrão por uma prece ao príncipe das horrendas trevas profundas. Basta digitar “Ragatanga + satanismo” no google e vêm links em cascata sobre o tema. Aliás, cascata é uma palavra bem apropriada, já que não passa disso.
Ora, esse é um caso muito simples de se analisar. Diego simplesmente tá na mão do palhaço, mais encachaçado do que tonel. O tal ritmo por que ele se encontra possuído não passa de seu visível desequilíbrio. Como bom bebum que é, o tal Diego chega crendo estar abafando, mas está, na verdade, trôpego. Inclusive, a coreografia da música demonstra esse trocar de pernas de Diego, aí sim, um pobre diabo. Diego, pudim de cachaça contumaz, a ponto do dj já saber qual a forma de lidar com o bêbedo rapaz e nem fazer caso de sua situação, pontual, à meia-noite. Lembremos que Diego e´”todo dia da semana” encontrado no mesmo estado. O refrão nada mais é do que a representação da fala irreconhecível do miserento Diego, naquele momento todo bêbado das declarações de amor e de carinho eterno, num claro alerta aa juventude, público-alvo das ragatangueiras moças sobre os riscos do álcool. Ou será, ao contrário, uma homenagem ritmada ao líquido d’álém e  a toda afetividade liberta neste momento? Pergunta de dificílima resposta. A experiência adversa de Diego, enfim, não é pra ser ouvida, mas pra ser vivenciada e sentida.
 
Por hoje, é só, pessoal!
No próximo capítulo da Antologia Parapoética, ainda este ano, MPB, com:
- Jorge Benjor,
- Luís Melodia e
- algumas outras surpresas.
 
 
P.S.: texto  especialmente dedicado ao Hugo Villa Maior e aa Tatiana Linhares, dois queridos especialistas em ragatanguismo e aserehice.

 

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Eleições na Transilvânia


Garotinho, o "novo" candidato ao governo do RJ

Garotinho, o “novo” candidato ao governo do RJ

O Rio de Janeiro é mundialmente conhecido como o pior lugar para se ter um titulo de eleitor. No entanto, a eleição deste ano ultrapassou todos os limites do aceitável. Uma disputa eleitoral em que em que os quatro principais candidatos são Garotinho (27%), Pezão (19%), Crivella (17%) e Lindbergh (11%) só pode ser um pesadelo. Garotinho já teve a oportunidade de governar o estado uma vez, e o resultado foi uma das piores crises pelas quais uma unidade federativa já passou. Pezão foi vice do Sérgio Cabral, aquele que implementou uma política de remoções como não se via desde o governo Negrão de Lima, na ditadura militar. Crivella é sobrinho do Edir Macedo e fez uma participação especial, anos atrás, em um vídeo constrangedor em que os dois dividiam sacos de dinheiro arrecadado dos fiéis. Lindbergh, sem dúvida, é o menos nocivo dos quatro, mas não menos o suficiente para que eu vote nele (embora eu não descarte um voto útil aí, contra a gangue do Garotinho ou contra a sua dissidência, o Pezão). Somando isso ao cenário da eleição presidencial, temos um resultado desalentador que torna até a perspectiva de morar na Ucrânia aceitável. Mas vamos conversar sobre Garotinho, o atual quase novamente governador.

Garotinho iniciou a sua vida política muito cedo (daí o apelido). Participou da fundação do PT em Campos, mas rapidamente passou para o PDT, que tinha um futuro bem mais promissor em terras fluminenses naquela época. Tornou-se governador do Rio de janeiro em 1998, a partir de uma aliança entre PT-PDT, que atropelou decisão da base do primeiro desses partidos em nome de uma chapa Lula-Brizola na eleição presidencial, e uma chapa Garotinho com Benedita da Silva como vice. Deu no que deu. A sucessão Garotinho, Benedita (assumiu quando ele se candidatou à presidência) e Rosinha faliu o estado do Rio de Janeiro de uma maneira jamais vista. Na verdade, essas pessoas todas são tão corruptas, incompetentes e desonestas que elas levariam até Vancouver à bancarrota. Fora a crise econômica, foi na área da segurança que essa incompetência ficou mais evidente.

Quando Garotinho foi secretário de segurança da sua esposa, o Estado do Rio de Janeiro enfrentou uma das piores crises de sua história em termos de violência e era corriqueiramente representado pela mídia nacional e internacional como uma espécie de Vietnam. Essa crise foi simbolizada de maneira triste e incisiva pela morte de Geísa Gonçalves, morta por um policial do Bope em uma ação completamente desastrada no episodio que entrou para a crônica de violência da cidade com o nome de “seqüestro do ônibus 174”, em junho de 2000 (rendeu filme e documentário). No seu próprio governo, ele havia demitido o seu coordenador de segurança, Luís Eduardo Soares, após este último ter denunciado um esquema de corrupção que envolvia a cúpula da Polícia Civil: ou seja, ele foi demitido por fazer o seu trabalho direito, em uma espécie de anúncio da tragédia que viria a se seguir.

A despeito disso tudo, chegou a ter 88% de aprovação, mas isso mediante o golpe de aumentar os salários das pessoas em véspera de eleição, que ele aprendeu bem com o Brizola. Também tem no seu currículo, é lógico, um longo histórico de troca de partido. Entrou para o PMDB após ser expulso do PSB, para o qual ele entrou após ser quase expulso do PDT. Atualmente, está no PR, aquela junção do Prona com o PL, ou seja, uma mistura de José de Alencar com Enéias Carneiro. Ao fim do seu reinado de terror, ele e sua mulher, a governadora Rosinha Garotinho, foram considerados inelegíveis pela justiça eleitoral, devido ao uso dos seus programas sociais como programas de compras de votos (velhos hábitos custam a morrer, não é mesmo?). Em protesto, Garotinho esperneou e chegou a fazer greve de fome na sede estadual do PMDB (provavelmente, um dos episódios mais bizantinos da política fluminense, e olha que esse título é bem disputado). Recentemente, foi procurado pelo pessoal do Pânico na TV, que perguntou para ele como era possível concorrer nestas eleições tendo 29 processos nas costas, ao que o ilustre candidato prontamente respondeu: “Não são 29, são 28” (puxa, agora eu fiquei mais tranqüilo).

Enfim, é um típico político brasileiro de direita, desses que ao invés de currículo tem ficha corrida. E essa pessoa está com 27% das intenções de voto (vai entender). Como tudo que é ruim pode piorar sempre (bem, pelo menos no Rio de Janeiro é assim que funciona), em 1995, após um grave acidente automobilístico, o candidato converteu-se à igreja presbiteriana. Isso nos leva ao segundo dos pontos que transformaram esta eleição num tipo de pesadelo: a perspectiva de ter um governador e uma presidente da república evangélicos.

Antes de tudo, vamos definir bem o alvo desta crítica. Não estou me referindo à população em geral que freqüenta as igrejas por se identificar de alguma maneira com a sua filosofia ou com o seu ideário, mas às cúpulas dessas igrejas. Preocupa-me também ver muita gente esclarecida fazer discursos política e teoricamente corretos contra a oposição à Marina e ao Garotinho baseada no fator religião. Sinto muito, mas isso não é uma questão se somenos importância. Só essa semana tivemos duas notícias estarrecedoras a corroborar isso. A primeira, sobre um uma mulher que foi fazer um aborto em uma clínica clandestina e desapareceu. A segunda, sobre um aluno de uma escola municipal que foi impedido de continuar freqüentando as aulas devido à sua iniciação no candomblé – quem adivinhar a religião da diretora da escola ganha um vale-isenção de dois meses do dizimo da igreja (links das matérias no fim).

O fato é que igrejas evangélicas se constroem em cima de um discurso do ódio e do medo. Os pastores dessas igrejas estigmatizam fortemente as outras religiões, especialmente as afro-brasileiras, tanto por proselitismo quanto para controlar a vida dos fiéis. Invasões e depredações de terreiros e espancamento de adeptos já são rotina há décadas na Baixada Fluminense, assim como já houve pelo menos um caso de, pasmem, expulsão de macumbeiros de uma favela por traficantes evangélicos. Esses movimentos neopentecostais também são famosos pela intolerância em relação à diferença de orientação sexual. Nada disso deve surpreender, pois a interpretação literal e tarada da Bíblia está na base do protestantismo e era uma das 95 teses que Martinho Lutero pregou na porta da igreja de Wittenberg, dando o ponta-pé inicial para a Reforma.

Ao lado desses problemas “teológicos”, ainda há a pura e simples picaretagem. Vou colocar aqui o depoimento de uma amiga, professora em Duque de Caxias há anos:

“Eu já falei várias vezes e repito sempre, o fundamentalismo evangélico levantou pela manhã e disse: `Vamos tomar as escolas, vamos tomar a educação’. JÁ ESTÃO SE METENDO NÃO SÓ COM OS DIREITOS LGBT, mas também dando pitaco em política educacional. Temos que nos levantar contra esta máfia do evangelho. Os amigos evangélicos que me conhecem sabem do que eu falo. Não falo contra pessoas dignas que conheço em vários locais, porém A RELAÇÃO DESTA MÁFIA DO EVANGELHO COM BANDIDOS, ASSASSINOS, CONTRAVENTORES, CORRUPTOS JÁ PASSOU PARA O ESPAÇO ESCOLAR HA MUITO TEMPO. VEREADORES MANDAM EM ESCOLAS NA BAIXADA. LOTEIAM CANTINAS, LUCRAM COM A MERENDA ESCOLAR E PROMOVEM GANHOS COM A CONFECÇÃO DO UNIFORME ESCOLAR.

As pessoas têm o direito de acreditar no que elas quiserem, mas eu tenho o direito de ser protegido de crenças alheias que não me dizem nada. E eu não me sinto nada protegido. Minha confiança na manutenção da laicidade no Estado brasileiro é tão pequena quanto a minha confiança nesse Estado democrático de direito que temos aí. As religiões não mudaram. O que mudou foram as sociedades que existem à sua volta. Michel Foucault, na História da loucura, nos relata como se passou a última execução de um homossexual na cidade de Paris. A reação popular a essa execução foi extremamente negativa. Jean-Jacques Rousseau escreveu um artigo atacando-a violentamente e, devido ao clima de quase revolta na cidade, este tipo de loucura parou. As fogueiras não foram apagadas devido a um honesto processo de autocrítica sacerdotal ou dos papas, mas porque a sociedade parou de tolerá-las. Hoje, no Brasil, parecemos estar trilhando o caminho contrário ao da Paris do século XVIII. Aqui, a ignorância e a estupidez estão ganhando terreno, e não cedendo terreno.

No plano federal, as duas principais opções neste momento são entre o Estado dilmocrático de direito, com as suas prisões arbitrárias, a ressurreição de órgãos repressivos do tempo da ditadura (CIE) e a pesada infiltração da polícia nos movimentos sociais, ou o Estado teocrático de direita, representado por Marina Silva e o seu entourage indefensável. Está difícil. É melhor o presidente do Uruguai repensar a sua política de concessão de asilos políticos, pois vamos precisar de muitos.

Observação final. Para todos esses pastores e/ou candidatos homofóbicos e picaretas, eu só digo o seguinte: pena que deus não exista e que não haja, portanto, nenhum plano, propósito ou justiça divina. Se existisse, vocês todos iriam queimar no inferno.

Barrado na escola:

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-09-02/aluno-barrado-por-usar-guias-de-candomble-muda-de-escola.html

A questão do aborto não é importante para você? É melhor ler isso: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09/mulher-sumida-apos-ser-levada-para-fazer-aborto-no-rio-pagou-45-mil.html

Assistir a este vídeo é uma experiência constrangedora: https://www.facebook.com/video.php?v=10202145903482226

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Marinaram as eleições


Neca de pitibiriba que terá meu voto. Mas, parece que muita gente tá caindo no canto da improvável sereia. Eleições esquentando em banho-marina. “Vocês me abrem os seus braços e a gente desfaz um país”.

[Totalmente fugaz]

Aécio Neves já míngua na campanha, lançado com pelo menos 4 anos de atraso, vem se demonstrando incapaz de unificar mesmo a base que o sustenta e parece ter um teto de voo bem baixo, como o dos helicópteros supercarregados que cruzam os céus de Minas.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

Aas vésperas de Aécio Neves ser rifado em praça pública por R$ 1,99, já há uma super-reserva de contingência e de mercado (com trocadilho e tudo) pro seu eleitorado: Dona Marina Silva. Renegando seu passado- inclusive desconhecendo desrespeitosamente Chico Mendes- Marina junta numa candidatura o pior do PT e o pior do PSDB. E como se já não bastasse “pior” nessa história, o pior de tudo é que ela tem muito menos contas a prestar por tudo isso do que os citados. E já demonstra isso claramente. Esse papinho, pra acalentar o sono de bovinos castrados, de que o governo FHC teve muitos pontos positivos, assim como o governo Lula, é um pega bobo que leva muita gente na lábia barata.

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Em trocadilho reverso com o precocemente esquecido passado, hoje a “cara de pau”.

Marina já está a se tornar o ancoradouro da raiva babona antipetista, aa direita e aa esquerda. A velha história da candidatura salvadora de última hora. Já incensada, vista como alternativa de equilíbrio pela mídia hegemônica. A tal “nova política”. Já vimos essa invenção de roda com Collor! E por sobre a enxurrada, lá vem Marina, a tábua de salvação do “novo” Brasil.

Hoje, a candidatura Marina é tão errática e ao fluir das marés que sequer no campo em que historicamente ela se construiu, o da militância ambiental e ecológica, se sabe qual, afinal, será seu direcionamento. Isso até porque não se sabe ainda qual será o cômputo final do balaio de interesses que a terá alavancado até o final da contenda eleitoral. Já se sabe de cara do apoio desinteressado da família Setúbal, esses pobres diabos a viver de contar os caraminguás que o Itaú lhes reserva em sucessivos recordes de faturamento . Em troca só a autonomia do Banco Central… Mas, justiça seja feita, as três candidaturas midiáticas, hoje, disputam aa foice o apoio do capital financeiro brasileiro. Ao que tudo indica, Aécio tá ficando na pista, enquanto Dilma, depois de tudo que seu partido fez por este setor (mais do que o governo FHC), assiste a essas ingratas defecções de suas hostes neoliberais. Sim, até porque as três candidaturas disputam isso: a gerência neoliberal no país. Claro que há nuances, o que me impede de todo de falar que as três candidaturas sejam iguais, embora eu não vá convictamente votar em nenhuma delas. Pelo menos não no 1º turno. Talvez no 2º turno, dependendo de sua configuração.

marina rede

Realmente, uma imagem diz mais que mil palavras.

Marina é o resoluto liberalismo econômico pleno com conservadorismo moralista e social num forçoso e dissimulado balcão de negócios político, este último aspecto no mesmo plano que de seus adversários Dilma e Aécio. Eu, como disse em meu texto da última semana, sinceramente acho que todo esse contexto muito mais leva a campanha Dilma pra direita do que a uma caracterização que gere polarização com o neofenômeno Marina, em termos político-econômicos. Mas, insisto, Marina é o pior dos possíveis mundos. Ruim com Dilma, pior com Marina!

Pela família, com Deus e com Marina! Não tardam os rodrigo-constantinismos, olavismos e congêneres mais ou menos raivosos e tresloucados laudatórios aa Marina. E fogos e rojões pras pesquisas!

E, agora, Dilma é vitral e tudo é pedra. Algumas pedradas justíssimas, mas a maioria pela direita mais descarada que há. E lá vem o PIBinho e muito mais, com ou sem sentido. Repito, não sou eleitor da Dilma, tampouco apoio ou tenho expectativas positivas quanto a seu governo. Contudo, compreendo que o 2º turno que vem por aí pode significar, como tem significado nas últimas eleições, optar pelo governo que proporcione as melhores (se preferirem, chamam de “menos piores”, afinal, é puro jogo de palavras sem mudança de sentido) condições de se fazer oposição. Semana passada, findei meu texto dizendo “Não é eleição que muda a vida.”. Muda sim, pra melhor. Se você é empreiteiro, agiota legalizado (banqueiro), dono da mídia, esse povo da pobre e quase inexistente elite brasileira com a qual Marina se compadece. Pro restante, resta a luta no cotidiano.

 [Nem que o canto fosse esse!]

 

 

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