Tipo


- Você foi professora da Keila, tô sabendo. Ela falou que você escreve muito. Sério?

- Um pouco. E escrevo de brincadeira também.

- Mas é tipo escritora?

- É. Pode ser.

- Mas você escreve, tipo, poesia de amor?

- Você sabe que não?

- Tipo é escritora ou num é?

- Um tipo.

- E, tipo, você escreve tipo, de amor ?

- Difícil.

- Acho mór difícil escrever de amor.

- Eu também acho.

- Mas sei lá, você escreve e tal. Você gosta de ler, tipo, poesia de amor ?

- Depende. Tem umas bacanas, outras nem tanto.

- Tipo Caio de Abreu, tá ligada?

- Acho que ele não faz poesias. Só acho, não conheço muito.

- Tipo, não sei se é poesia mas tem mulher que gosta muito.

- Estou sabendo.

- Eu acho o cara meio enrolão.

- Pode ser. Como eu disse, não li muitos livros dele.

Silêncio

- Se você, tipo, escrevesse poesia de amor, ia pedir pra escrever tipo um tuíte pra mim.

- Hummm… está querendo impressionar alguém.

- Tipo fazer um Caio, né.

Risos

- Essa pessoa que você quer impressionar gosta do Caio ?

- Ela gosta de ler, meu, a mulher lê o tempo todo, tipo vício.

- Quando a pessoa gosta vira um vício mesmo.

- Aí, ficar com um cara tipo eu é embaçado, né? Meu negócio é outro. De boa, detesto livro, não tenho paciência. Tipo nem ver.

- É, aí fica difícil. Mas vem cá, um tuíte também não é solução. Mesmo que ela ficasse impressionada ia acabar descobrindo que não foi você quem escreveu.

- Tinha que ser tipo uma coisa pra ela, com o nome dela e tal. Depois que ela apaixonar já era.

- Mas como é que seria isso? Vamos fazer de conta que você mandou e ela gostou. E depois?

- Tem que ser mortal. Tem umas coisas que as mina escreve direto no feicebuque. Eu joguei lá no uatizapi.

- E aí ?

- Ela mandou tipo assim: isso aí é do Caio sei-lá-o-quê de Abreu.

- Ela conhece.

- Ela sabe um monte. Manda uns tuíte mor legal.

- Mas então você mandava uma mensagem mortal para ela e aí?

- Ai ela falava : valeu, tipo assim. Daí eu mandava tipo umas flor lá no trampo dela.

- Tinha que escrever alguma outra coisa no cartão também…

- Mandava tipo delivery, só com meu nome lá. hehehe.

- E daí ?

- Daí ela dava mole, eu chamava ela pra um rolê, tipo cinema. As mina que gosta de livro, gosta de cinema.

- Plausível. É bem provável.

- Tipo você é escritora mesmo. Manda umas palavra tipo difícil.

- É que eu gosto de ler.

- Ela também gosta. Tipo muito.

Silêncio

- Tipo tem algum livro, assim, pra pessoa que não gosta de ler, aprender e tal ?

- Queria saber o que foi que te obrigaram a ler pra você pegar essa bronca de livro.

- Meu, não lembro. Acho que eu sou burro porque não gosto de ler notícia, nem nada. Ideia assim, tipo complicada, não gosto.

- Nem sobre futebol ?

- Tipo aí não vale, né, aí eu gosto.

- Tá valendo. Espera aí que eu vou escrever o nome de um livro. Este eu acho que você vai gostar.

- Belê.

Silêncio

-Mas é tipo, de amor?

- Não, não é.

- Ah, bom. Se não é embaçado.

- Eu sei. Está aqui o nome, tenta.

- Belê.

- Mas olha, fica difícil você ganhar uma menina dessas sem gostar de ler um pouquinho.

- Minha velha falou a mesma coisa. Eu sei lá se gosto dela, ela nem é, tipo, linda, é que eu não paro de pensar nela, meu, é tipo, fissura, tá ligada ?

- Sei como é. Tipo vício.

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“Mas o que eu quero é te dizer que a coisa aqui tá preta”


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Ano passado, minha crônica de fim de ano no blog caiu em primeiro de janeiro. Escrevi um texto chamado “Acabou o champanhe”, fazendo um balanço pessoal e um das manifestações de 2013. Agora, minha última crônica do ano será esta, pois que entro em período de férias e só devo voltar a escrever em janeiro. Repetirei a proposta do ano passado e farei agora um balanço.

Terminamos o ano com a revogação dos habeas corpus da Sininho, da Moa e do Igor. As duas primeiras estão foragidas, o último, preso em Bangu 9. É meio inevitável lembrar que o também AI-5 foi decretado em um dezembro (tenho plena consciência do exagero da comparação). Mais uma repetição da história como farsa? Tudo que essas pessoas fizeram foi peitar a máfia do PMDB do estado do Rio de Janeiro, máfia essa que enriquece a partir da degradação de vida da população, se recusando, por exemplo, a abrir a caixa preta dos transportes na cidade. Preferem entregar o controle da mobilidade urbana para bandidos e deixar a população desassistida, sofrendo com atrasos, longas horas de viagem, precariedade, ineficiência e custos de passagens altos. Todos os processos contra manifestantes seguem marcados por gritantes irregularidades. Não foi à toa que eles caíram no colo do Flávio Itabaiana, um juiz pertencente a clã de notórios apoiadores de ditaduras dentro do poder judiciário.

Terminamos o ano com novas declarações estúpidas do ilustre deputado Jair Bolsonaro, dessa vez “decretando” que não estupraria uma colega de parlamento, porque “ela não merece”. Infelizmente, as repercussões negativas  da declaração nos meios progressistas da sociedade não chegam a esconder a dura realidade por trás deste episodio: o Brasil é um dos países mais machistas do mundo, e tais declarações são recebidas com aclamação por muitos ainda. Desde que comecei a escrever neste blog, já sofri todo tipo de ameaça, represálias e que tais, mas acho perturbador o fato de que o texto que mais me trouxe aborrecimentos pessoais foi o de adesão à campanha do  “Eu não mereço ser estuporada”. Quando o publiquei, além das ameaças de morte de praxe, tentaram invadir meu e-mail, meu facebook e etc. Isso diz muito sobre o país em que vivemos e sobre como deve ser ser mulher sob o patriarcalismo. Só posso me solidarizar a elas, pois jamais saberei inteiramente o que representa esse drama, e dizer que homens que não partilham dos códigos de conduta e da moralidade comuns também  sofrem por isso.

Neste fim de ano, o PT conseguiu decepcionar até quem não esperava nada dele mesmo. Não digo isso pela nomeação daquela ruralista para o ministério da agricultura:  o modelo de crescimento baseado no endividamento e no agronegócio  (equilíbrio da balança comercial via exportação de produtos primários  como soja, p. ex.) não é novidade, e não seria modificado por nenhum dos três principais candidatos das últimas eleições (Dilma mais Aécio e Marina Silva). O destino da Amazônia, na mão dessas pessoas, e se tornar um parque temático com reserva ambiental, lá pelo ano de 2050. Também  consterna, sem no entanto surpreender, a nomeação do Garotinho para a vice-presidência do Banco do Brasil. Isso está em conformidade com a política de amplas e nefastas alianças que o partido vem pondo em prática desde antes de chegar ao poder. O que surpreendeu, e muito consternou, foi a  nomeação de um banqueiro para o ministério da fazenda, o que contraria promessas de campanha e muda os rumos do governo para direções ainda mais conservadoras, ou seja, podemos esperar cortes de gastos em qualquer setor, para qualquer momento. Essas medidas são contradistributivas e podem até mesmo reverter os ganhos sociais inegáveis no campo da distribuição de renda obtidos pelo PT.

A nova onda de privatizações vai a pleno vapor. Não se fazem mais privatizações como antigamente, com grandes leilões e venda de patrimônio público para grupos de acionistas japoneses. Privatiza-se safadamente a gestão. A Comlurb no Rio, por exemplo, está sendo de fatia em fatia passada para iniciativa privada (mais especificamente, para o Eike Batista e para a Odebrecht).  A limpeza urbana é a terceira maior despesa da prefeitura. É muito dinheiro, e ele está sendo passado para a iniciativa privada com sutileza e com prejuízo para a população. O empresário quer lucros, e esse lucro será obtido ou reduzindo a qualidade dos serviços ou aumentando-se o preço que se paga por eles. Ou seja, alguém, de alguma forma, vai pagar por isso.

A boa notícia é que hoje, puxados pelos que estão na linha de frente da luta por uma cidade dos seres humanos contra a cidade do capital, vários setores vão se reunir na Candelária (professores, por exemplo) para se juntar à pauta deles, que é justamente contra a privatização da Comlurb e contra as demissões dos grevistas. Este ato também está sendo convocado em amplo apoio aos presos políticos e contra o estado de exceção em que cada vez mais vivemos.

E o ano, na verdade, ainda não acabou. Há diversas mobilizações marcadas para dezembro. Já há diversos indícios de que novas greves estarão literalmente iniciando o ano que vem. E, quanto aos presos, como muito se tem dito hoje, “ninguém fica para trás”.

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A regra da exceção


 

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Dizem que toda regra tem sua exceção, o que transforma o postulado em um paradoxo sem fim. Pela predileção aos oxímoros, nossos podres poderes tomam como verdade absoluta qualquer versão e fazem diversões diversas bastante perversas para que brotem dos falsos os fatos. Em especial, aqueles que formem autos que condenam, aqueles que geram ordens que calam. A democracia brasileira usa todas as suas ferramentas para atar cidadãos às amarras da iniquidade.

Acusações e mandados saltitam nos fóruns como pipocas na quentura da panela. Esquentam o clima, derretem direitos, ateiam fogo às vestes da liberdade. Senhor K parece hoje ter companhia. Kafka por certo teria um desagradável misto de orgulho e terror ao ver suas linhas encenadas no teatro real da (in)Justiça brasileira. Moça cega, forte, mas de duvidosas tendências persecutórias.

E assim, o país ganha inimigos públicos. Alçam ao posto de ameaças à ordem nacional alguns poucos jovens, cujos crimes resumem-se a seus gritos por liberdade. Cometeram o imperdoável delito de posicionarem-se ao lado dos trabalhadores, dos necessitados, dos invisíveis. Tornam-se passíveis de punição por exigirem o que a mentira eleitoral propagandeia como verdade.

Enquanto os que defendem os direitos da população são perseguidos e encarcerados por um governo que se diz socialmente comprometido, passeiam por outras avenidas os discursos de ódio, de divisão, de retrocesso. Aos que gritam pelo golpe, em favor da tortura e da repressão, as páginas dos jornais e o apoio dos setores fascistas da sociedade. Aos que lutam por uma sociedade mais justa, o cárcere.

A presidenta concentra-se tão somente em um conluio sombrio de alianças para salvar a imagem de uma ética inexistente. Seus inimigos conservadores e fascistas ganham tratamento mais leve por talvez fazerem parte de um folclore que o PT julgue menos perigoso que a crítica real, nascida do seio explorado da sociedade, que tomou as ruas, ganhou corações e mentes para apontar que o caminho do lado esquerdo havia sido esquecido.

Mas (e por isso mesmo) são esses os perniciosos. Aqueles que podem perceber além da “matrix” que se tenta encenar no país. Regras e mais regras, leis sobre leis, tudo para garantir fidedignamente o não cumprimento de nada daquilo que não seja a vontade plena do capital. Proíbem-se máscaras nas ruas, enquanto o Congresso recusa-se a retirar quaisquer das muitas que usa.

E é assim, nas regras tortas de uma democracia torcida que se extraem as exceções. Um estado inteiro de exceção. Que transforma gritos e protestos em delitos. Jovens idealistas em criminosos. Condena-se assim o próprio passado de quem nos governa, rejeitado como se não fosse admirável. Saudades de quando se acreditava que lutar era possível. E de quando não se escondia que lutar nunca foi crime. Não pode ser que seja o que não era agora… “não é o que não pode ser”.

Como operários da fábrica de legalidades, as togas pintam de “data-vênia” a série de injustiças que se cometem. Vândalos da moralidade. Bárbaros da decência. Selvagens da honestidade. Este vilipêndio da dignidade nacional não pode passar como algo corriqueiro, banal. É gravíssimo: há presos políticos em um “Estado Democrático”. Uma exceção à regra democrática, mas que soa como regra dentro da democracia de exceção em que vivemos.

Liberdade já. Necessária para o contraditório, para a democracia, para a vida. Liberdade hoje. Que se dobrem os sinos e que as fadas nos abençoem a todos com suas rebeldias. Ainda há tempo de se fazer as pazes com o bom senso. Liberdade, ainda que tardia. Pois foram os rebeldes aqueles que entraram para a história como salvadores e mártires de todos os povos. Atrevimento e ousadia para um mundo melhor.

Que sejamos livres. Sem exceção. Nas ruas, nos parques, na vida. Liberdade não é conceito que se submete ao metal. Mas que ele não falte. Como não nos falte a água e o alimento. E a liberdade, que mata a fome de nossa alma. Que possamos ouvir todas as vozes. Que as grades da cadeia não sirvam a calar as vozes dissonantes. Que esta noite iniquisitória seja breve. E que raie um dia claro, de um sorridente sol. A liberdade, por fim, é azul. E, por isso, a regra é ser livre. E feliz. Sem exceções.

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Ser ou não ser feminista não é a questão


Neste mundo demeudeus com datas marcadas para dar e vender, li na quarta feira que a de hoje marcava a luta dos homens pelo fim da violência contra a mulher. Hoje fui olhar o calendário oficial do país e acho que caí numa pegadinha. Resolvi manter a pauta. Não vai haver menos assassinatos de mulheres por seus companheiros por falta de efeméride e a polêmica sobre um professor universitário e sua correspondência privada com leitoras de seu blog bem o justificam.

Avisei no meu mural do face a data e também um relato de uma moça, que embora nada tivesse a ver com a tal polêmica, narrava fatos que em tudo tinham a ver com ela. Curiosamente não recebi nenhum “grato”, “valeu,  “flws” ou comentário de amigos do sexo masculino. Tentei não julgar o que isto poderia significar. No tempo da minha avó seria fácil concluir que quem cala consente. Mas os tempos são outros e os consensos se desmancham no ar como bolhas de sabão. O homem que não se manifesta pelo fim da violência contra a mulher consente marcar posição a favor desta luta? Ou consente em alguma violência contra a mulher? Não dá pra saber ao certo.

De certo e garantido, até onde a minha vista presbíope alcança, muita gente anda carente . Navegamos sobre ondas altas quase sem bússolas, em quase todos os campos da vida, individual ou coletiva, privada ou pública. Sofremos abalos diários em nossas certezas para o bem e para o mal – sem sequer saber ao certo onde estão as fronteiras do bem e do mal. E assim temos ido, cercados de angústia na vida prática de todo dia onde agimos e produzimos realidades, estejamos certos ou não. Esta angústia é privilégio apenas dos que pensam, é claro, e pensando se perguntam quais os paradigmas morais e éticos valem mesmo a pena defender com unhas e dentes neste momento nada solene da História.

Pois seria mesmo estes pensantes que eu gostaria de seduzir para a luta do feminismo contra o patriarcado. Defendo sempre e o fiz também aqui no Transversos ( https://transversos.wordpress.com/2014/04/03/ja-fui-machista-eu-sei/) que machismo e feminismo são palavras que de tão usadas chegaram ao ponto de produzir mais ruído que clareza. Mas a palavra patriarcado que lhes deu origem e mantém acesa a guerra dos sexos, não por acaso, permanece oculta e bem protegida. Por isso tenho insistido que paremos ao menos por uns instantes de falar dos seus efeitos, o machismo e o feminismo, e tenhamos coragem de trazer ao centro da discussão a verdadeira questão.

Comecemos pela definição. Patriarcado é o sistema que definiu o Homem do sexo masculino como a autoridade máxima da sociedade e que tudo devia ser organizado e hierarquizado a partir disto. O patriarcado é uma construção histórica e foi ao longo desta construção que se forjaram as demais organizações e valores da sociedade. O patriarcado é uma ideologia e, como tal, domina todos os campos da existência, das instituições privadas às públicas, da esfera particular a todo o modo de existir no coletivo. A ideia começou simples. No topo, o líder com poder sobre toda atividade no território do pagus, a aldeia e sob seu comando os demais homens que, por semelhança e interesse na mesma função detinham o mando daquilo que o líder não alcançava: os escravos, as mulheres e as crianças. Simplifico grosseiramente, está certo, mas no fundo é isso. O patriarcado organiza politicamente a vida pública e privada há milênios segundo esta rígida pirâmide. A divisão social do trabalho, como os sujos e pesados para os escravos e cuidados de alimentação para as mulheres, não alteram nada. As exceções históricas não desmentem a regra e nem abalam seu poder . Mulheres protagonistas da política na Idade Média, não por acaso, se disfarçavam de homens. Mulheres intelectuais no Renascimento – nada inocentes – adotaram pseudônimos masculinos. Mulheres foram admitidas à alta esfera do círculo do poder a partir do século XIV mas mesmo grandes líderes, como Elizabeth, cujo reinado promoveu uma verdadeira revolução social do Império Britânico, não alteraram o lugar ordinário da mulher na sociedade. Porque antes de ser mulher eram representantes do Patriarcado, algo que nesta altura parecia tão natural e certo quanto a Terra estar assentada sobre as costas de 4 tartarugas gigantes. Tão naturalizado quanto a crença de que os poderes e privilégios dos Reis e suas famílias vinham da graça e por desíginio de Deus.

O Patriarcado foi e é o que define que homens e mulheres devem ser submetidas ao domínio da ideologia do patriarcado e o devem reproduzir. Foi assim, desde sempre – é o que o patriarcado diz – e assim deve continuar. O patriarcado não acabou, nem se enfraqueceu ao ponto de dizermos que está próximo seu fim. Tudo que ele perdeu de poder sobre os corpos e consciências femininas foi o que o Feminismo arrancou dele. O Feminismo é, portanto, a mais longa história de desconstrução do poder de um ser humano sobre o outro. É uma saga ainda incompleta da luta de libertação de uma categoria de seres humanos e da transformação dos limites possíveis de suas funções sociais. O Feminismo é uma luta de libertação e merece respeito.

O Feminismo, sendo uma luta contra o patriarcado, está sujeita a todos os movimentos dele. Não devia surpreender que em meio à percepção desta enorme crise que a ideologia patriarcal produziu sobre o planeta também o feminismo seja arrastado à confusão e à desordem. Surpresa, para mim, é algumas pessoas bastante inteligentes e razoáveis acusarem alguma feministas de radicais. Entendam, meus amigos e amigas, elas não podem nem poderão nunca ser menos que radicais se quiserem transformar algo tão profundo como uma ideologia autoritária, violenta, discriminatória e hierarquizada como é a do patriarcado. Não se pode exigir que feministas se comportem de maneira uniforme e se movam como um exército organizado, controlado e hierarquizado sem que elas se tornem iguaia ao que elas mesmas combatem. Por isso, não se enganem. Enquanto as feministas estiverem errando por excesso de radicalismo estarão avançando.

Penso que homens não precisam se declarar feministas ou cerrar fileiras com organizações feministas para compreender benefícios potenciais de suas vitórias. Basta ter honestidade intelectual e avaliar os legados do Patriarcado e pensar se ainda vale a pena se bater por sustentá-lo.

Para encerrar, aproveito para recomendar um dos textos que me são mais caros quando o assunto é feminismo “ Um teto todo seu” de Virgínia Wolf. Escrito originalmente como palestra para um clube de senhoras, embora ampliado para a publicação é curto e ótima introdução ao “ Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir.

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Coração não é tão simples quanto pensa…


Oracao

Hoje não vou abordar questões políticas nem sociais, não vou tratar de exclusão nem de possíveis esclarecimentos entre direita e esquerda.

Sei que as questões urgem. Andei atarefada demais no trabalho e isso me sequestrou um pouco do mundo. Mas confesso que ler hoje matéria em O Globo sobre o Ocupa Estelita me deixou com vontade de arrepio. Pelo feito e pela qualidade da publicação, estando onde está.

Sentir arrepio é uma das manifestações físicas que me faz sentir viva, que me dá a alegria de perceber que uma dimensão não necessariamente ligada à racionalidade toma conta de mim involuntariamente e me deixa simplesmente… feliz.

Dezembro me trouxe o frescor dessa sensação, apesar do calor sufocante do Rio de Janeiro. Comecei a semana assistindo a três trabalhos simplesmente maravilhosos apresentados por meus alunos de Graduação. A seriedade com que eles elaboraram e apresentaram os seminários na minha disciplina que, dentro da área de formação específica deles costuma ser considerada algo menor, me deixou bastante satisfeita. Alguns me pediram para tirar uma foto junto. Coisa rara! Lembrança para a posteridade!

Ainda pude me deleitar ouvindo duas músicas que me enchem o peito de alegria.  Está bem. Podem achar coisa meio besta. Que seja. O fato é que a música é algo bastante significativo para mim, pois tem a capacidade de me dissipar algumas angústias pelo mero prazer de escutá-las. E aí, desculpem-me, estou ficando Velha e Louca e amo isso. “E nem vem tirar meu riso frouxo com algum conselho, que hoje eu passei batom vermelho”. Na sequência, “Coração não é tão simples quanto pensa. Nele cabe o que não cabe na despensa”.

Para arrematar os arrepios da semana, ao chegar em casa ontem à noite, me deparo com presente de amiga acompanhado de um cartão, que me valeram muitas lágrimas de alegria.

Foram muitas boas emoções ligadas a áreas que me tocam profundamente: o trabalho, a música, a amizade. Boas compensações depois do cancelamento do show do Beirut, pelo qual eu esperava ansiosamente.

Semana boa, intensa, perfeita!  Que 2015 entre assim para todos e todas, repleto de pequenas delícias subjetivas, que nos façam sentir vivos!

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Viação ladeira a baixo


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Hoje demos mais um passo gigantesco na direção do Estado de exceção. Novas prisões estão sendo realizadas pela Delegacia de Crimes Imaginários e, além disso, as demissos dos garis grevistas seguem a pleno vapor. O infeliz do PT deu mais uma virada para a direita, dessa vez sem ligar a seta, com a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda. Vão fazer o que prometeram não fazer, e que seria na verdade o seu grande diferencial na última campanha: sacrificar o trabalhador. Não dá para contar com o PT para nada.
Hoje não haverá texto propriamente, até porque não estou em condições mentais de escrever sobre nada. Só colocarei estas convocatórias, para a assembleia de hoje contra as prisões, para a marcha dia 10 e a divulgação do cadastro que estamos fazendo dos garis demitidos, que seguem a baixo:

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Dia Nacional do Samba!


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Samba nos Arcos da Lapa – Heitor dos Prazeres

COMO TUDO COMEÇOU…

2 de dezembro é o Dia Nacional do Samba!

E como não sou ruim da cabeça ou doente do pé, vim fazer minha homenagem…

Ao contrário do que grandes poetas desse gênero musical disseram, o samba não nasceu, exclusivamente, na Bahia… Eu sei, eu sei… Já tem gente quicando e aos berros! Muita hora nessa calma! Eu explico…

Em termos de registro histórico escrito, uma das primeiras referências encontradas por pesquisadores e folcloristas da palavra samba, foi na edição de fevereiro de 1838 da revista pernambucana O Carapuceiro. Um texto do Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama falando contra o que ele chamava de “samba d’almocreve”. Mas daí pensar que o samba nasceu a partir de um registro escrito… Não, certamente que não!

Rugendas-Lundu-Umbigada

Umbigada – Pintura de Rugendas

O fato é que no século XIX, samba definia vários tipos de músicas e danças ensinadas e praticadas pelos escravos, desde o Maranhão até São Paulo. Para entender melhor, basta que você imagine que o samba era o sobrenome de uma família de manifestações culturais, entre elas: o tambor de mina e o tambor de crioula do Maranhão; o milidô do Piauí; o bambelô do Rio Grande do Norte; o samba de roda e o bate-baú da Bahia; o jongo do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro; o samba rural e o samba de lenço de São Paulo; o partido alto e o lundu do Rio de Janeiro. Conclusão? Nesse período não há uma definição clara, como gênero musical, do que era samba propriamente dito. Mas havia entre essas manifestações muitas coisas em comum como, por exemplo, o uso da palavra semba que é a umbigada  que se dá naquele que vai lhe substituir no centro da roda e apresentar sua dança. A tal umbigada veio das rodas de batuque de Luanda e outros distritos de Angola. Para os estudiosos está claro que a palavra samba é uma corruptela do termo semba, e se definiu como gênero musical urbano, herdeiro do lundu e da modinha e imbuído dos ritmos africanos, no início do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente na Cidade Nova e no Estácio (cariocas podem festejar! Rsrs).

Mas o que é da Bahia está guardado e, até o fim desse texto, dar-lhe-ei tal reconhecimento.

Mas antes de falar do Rio de Janeiro, vale uma observação… A palavra samba tem origem em Angola, mas para muitos estudiosos do tema é difícil estabelecer um consenso quando se trata de seu significado. No idioma umbundo, língua banta falada pelos ovibundos, semba é uma dança onde os bailarinos se aproximam e se afastam; em quimbundo, língua banta falada pelos ambundos, é a umbigada da qual já tratamos.

Voltando ao anos de 1900 e pouquinho…

Em 1913, Alfredo Carlos Brício gravou o samba, “Em casa de baiana” e em 1914, Baiano gravou “A viola está magoada”, este último, tornou-se versador da Deixa Falar alguns anos mais tarde. Porém ambas as gravações não fizeram sucesso. Então, em 1917, nos pagodes da casa da Tia Ciata, antiga rua Visconde de Itaúna nº 117, na Praça Onze , surgiu o samba “Pelo Telefone”, reconhecido como o primeiro samba gravado em disco. Você deve estar se perguntando: mas se não foi o primeiro, como pode ter tal reconhecimento? Acontece que “Pelo Telefone” foi justamente o marco que definiu samba como gênero musical urbano. Daí vem a tamanha importância dessa composição!

Além disso, a composição tem em suas raízes uma polêmica quanto a sua autoria…

O tema de “Pelo Telefone” foi baseado numa campanha criada pelo jornalista Irineu Marinho em 1913, através do jornal A Noite, contra o chefe de polícia do Distrito Federal, que na época era o Rio de Janeiro. A campanha acusava a polícia de ser conivente com os jogos ilegais que eram praticados em cassinos e nas esquinas de um certo subúrbio. As confusões e discussões por conta da campanha ganharam as ruas e terminaram se tornando tema de partido-alto na casa de Tia Ciata. A nata do samba frequentava os pagodes da Tia Ciata: João da Baiana, Pixinguinha, Caninha, Hilário Jovino, Sinhô e outros. Em 1916, Donga mudou a letra com a ajuda de Mauro de Almeida, o Peru dos pés frios, e registrou a propriedade intelectual do samba, através de sua partitura para piano, na Biblioteca Nacional. E então se deu a confusão, e uma cisão entre os bambas foi inevitável! Entre um acusa daqui e outro reclama de lá, o samba chegou a ter várias paródias…

A confusão entre eles tomou várias proporções…

Sinhô em 1918 compôs o samba “Quem são eles”, numa provocação aos baianos que frequentavam a casa da Tia Ciata…

Mas recebeu o troco… Donga compôs “Fica calmo que aparece” como resposta. Hilário Jovino compôs “Não és tão falado assim”, mas a resposta mais famosa foi a de Pixinguinha com “Já te digo”.

Apesar de ser reconhecido como primeiro samba, “Pelo Telefone” era ainda um samba amaxixado, muito adequado para salões, mas essa qualidade de samba não atendia bem a necessidade processional dos blocos e cordões que desfilavam nos carnavais. Ismael Silva, muitos anos mais tarde, definiu muito bem esse contexto:

O samba da época não permitia aos grupos populares caminhar pela rua, de acordo com o que se vê hoje em dia. O estilo não dava para caminhar e dançar o samba. Eu comecei a notar que havia essa coisa. O samba era assim: “tan tan tantan tan tan tantan”. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Então nós começamos a fazer um samba assim: “bum bumpaticubumprogurundum”

Mas Sinhô, o Rei do Samba, não gostou nadinha dessa história de modernidade e deu um depoimento em 1930 sobre a evolução do samba com muita indignação:

A evolução do samba? Com franqueza, não sei se o que ora se observa devemos chamar de evolução. Reparem bem nas músicas deste ano. Os seus autores, querendo introduzir lhes novidades, ou embelezá-las, fogem por completo do ritmo do samba. O samba, meu caro amigo, tem sua toada e não se pode fugir dela. Os modernistas, porém, escrevem umas coisas muito parecidas com a marcha e dizem que é samba. E lá vem sempre a mesma coisa: “Mulher, Mulher, Nossa Senhora da Penha, Nosso Senhor do Bonfim, Vou deixar, A malandragem eu deixei.” Enfim não fogem disso.

DEIXA FALAR

Nos anos 20, o cenário do carnaval carioca era composto pelo desfile das Grandes Sociedades Carnavalescas compostas pela elite carioca com desfiles na Av. Rio Branco; pelos Ranchos, que eram compostos por membros das camadas populares e desfilavam, ao som da marcha-rancho, como “Abre-alas” e “Bandeira Branca”; e pelos Cordões. Os dois últimos desfilavam pelas ruas dos bairros cariocas e na Praça Onze.

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Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Armando Marçal

Em 1928, surgiu a Deixa Falar, primeira escola de samba do Rio de Janeiro, apesar de nunca ter chegado a ser uma escola de samba como concebemos hoje. Ela se autointitulava escola porque ficava perto de uma escola pública do bairro e também porque Ismael Silva achava que seu grupo formaria professores do samba. O nome “Deixa falar” vinha de uma frase que ele gostava e repetia: “Deixa falar, nós também somos mestres. Somos uma escola de samba!”. Deixa falar foi primeiramente um bloco e depois passou a rancho, mas, quatro carnavais depois de seu surgimento, foi extinto. Em 1931, se fundiu a outro bloco, também extinto, o União da Cores, formando a União do Estácio de Sá.

Apesar de um fim triste, de ter participado apenas de quatro carnavais e de nunca ter sido uma escola de samba de fato, o Deixa Falar é reconhecido, tanto por sambistas quanto por pesquisadores do tema, como a primeira escola de samba. E é muito justo que seja assim, já que foram seus membros que inventaram essa designação, como eu já disse, que criaram o surdo (quem inventou o instrumento foi Bide, um dos fundadores do Deixa Falar, com latas de manteiga encouradas), que servia como marcação para o fim da apresentação do versador (um solista que improvisava numa segunda parte do samba) e a volta do coro durante o desfile, além de introduzirem a cuíca no samba.

Bom, mas e a Bahia?

Você se lembra do pagode na casa da Tia Ciata? Pois bem, um dos frequentadores era Hilário Jovino que esteve envolvido no entrevero sobre a autoria da composição de “Pelo Telefone”. Além disso, Hilário, que uns dizem ser pernambucano mas passou a vida na Bahia, e outros dizem que era baiano mesmo, quando chegou ao Rio foi participar de um rancho que saía no Dia de Reis no Morro da Conceição, mas logo se desentendeu com a turma que organizava. Resolveu fundar seu próprio rancho, mas optou por fazer algo diferente… Seu rancho foi o primeiro a sair no carnaval! O Rei de Ouros! Essa história mudou o cenário do carnaval carioca e é precursora da história das escolas de samba. Acho que podemos dizer que cariocas e baianos estiveram presente no nascimento do samba como gênero musical urbano, não é mesmo?

Outro dado importante: o Dia Internacional do Samba foi criado por iniciativa de um vereador baiano, Luis Monteiro da Costa, para homenagear Ary Barroso, que já havia composto “Na Baixa do Sapateiro”, mas nunca havia visitado o estado. Dia 2 de dezembro de 1940, foi a primeira vez que o compositor visitou Salvador.

Graças a Bahia, a comemoração e homenagem ao Samba se espalhou pelo país!

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Olho por olho


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As notícias sucedem-se com relatos de mortes e agressões aos “agentes da lei”. No território sitiado, um jovem militar perde a vida estupidamente, vítima da violência que ajudava a propagar. Vozes se levantarão a perguntar por onde andam os “direitos humanos” – assim mesmo, como se o conceito fosse, em verdade, um órgão ligado a qualquer poder instituído. Outras vozes, ainda mais raivosas, clamarão por vingança. É hora de passar o rodo nos vagabundos.

Discursos como esse são como ratos correndo nas rodas de suas gaiolas, em um exercício que não leva a lugar algum. Voltam à superfície do debate o conceito das pessoas de bem, os ditados que afirmam ser “bandido bom, bandido morto”, entre outras imbecilidades que, em absolutamente nada, resolvem o problema cujas consequências assistimos nos telejornais.

Morrem policiais e militares em ações e ocupações. Comoção. Justa, por sinal. Igualmente morrem dezenas de negros e pardos sem farda todas as semanas. Silêncio. Existe aí uma invisibilidade atroz que beira à aceitação social de seu extermínio premeditado. Não que – de forma alguma! – uma coisa justifique a outra, pois ambas as mortes não possuem qualquer defesa, e a causa que as gera vai muito além da superficialidade que o senso comum costuma apontar.

Morrem fardados e esfarrapados, culpados e inocentes, jovens e velhos, mulheres e crianças não por conta de seus atos. Passa longe a razão de que tais mortes ocorram por conta da criminalidade. Suas premissas são bem anteriores à própria delinquência localizada nos bolsões pobres da cidade e que é tomada como exclusiva da região.

Morre-se por conta de uma estúpida guerra declarada pela incompetência. E todos que tomam parte dela são responsáveis por suas consequências. Não há necessidade de guerra alguma. A criminalidade não é caso de militarização, não se resume a ser “nós” contra “eles”. Somos todos nós. Ao se militarizar o combate, ao utilizarem-se táticas de guerra, ao se “ocupar” um “território”, cria-se o cenário para a violência, com todas as suas condições objetivas, enfim: combater a violência com a violência traz como fruto compulsório, e óbvio, a própria violência.

Propõe-se a guerra para disfarçar a falta de atuação do Estado no que deveria ser sua obrigação básica. É como se determinadas regiões não fizessem parte da cidade e devessem ser vigiadas, como consequências indesejáveis da má divisão do capital. Assim, enquanto os bairros da cidade precisam de policiamento – algo comum a qualquer lugar – as “comunidades” precisam de uma Unidade de Polícia Pacificadora.

Por que a favela deve ser tratada como uma região de guerra, alheia ao resto da cidade? O desafio é o oposto: fazer com que tais regiões sejam parte da cidade e que a elas seja dispensado o mesmo tratamento do conjunto. Não há necessidade de polícia especial, pois não há cidadãos “especiais” naquela região, mas cidadãos. Com os mesmos direitos e deveres que todos nós. Simples assim.

Mas não é de simplicidades assim que se vive e como se vende a imagem. A culpa pela violência tem endereço. Tem cor de pele. Tem classe social. A truculência e a brutalidade das operações vêm como uma resposta midiática ao problema que é contado de maneira a ficar isolado às comunidades, como se o tráfico de drogas fosse uma questão restrita. Ora, o consumo das drogas passeia sorridente pela orla. A cocaína veste Prada e viaja para a ilha de Caras.

Ninguém é ingênuo de imaginar que são os jovens traficantes das favelas (sim, jovens porque, nesta guerra, não se fica velho) que negociam com cartéis internacionais de drogas. Que são eles que encomendam armas israelenses e russas. Ora, a guerra produz o comércio da guerra. Há desde os grandes – que jamais tomarão uma “dura” nas ruas – à corrupção das forças da lei para fornecer matéria-prima à combatida “bandidagem”.

É preciso, portanto, acabar com a guerra. Desmilitarizar. Não serão fuzis que trarão a paz. Será que vários soldados armados nos salões das festas da alta sociedade fluminense traria a paz e a certeza de que aquelas pessoas não consumiriam drogas? É fundamental fazer com que a cidade seja uma só. E visível para todos.

Isso significa apenas que a inteligência é a melhor forma de combater a violência. A solução que é dada ao problema desde sua gênese até hoje mostra-se ineficaz, ineficiente e desastrosa. Há anos investe-se cada vez mais na guerra e os resultados não são positivos. A sensação de insegurança continua. As mortes banalizam-se. Insistir na solução que não soluciona é o maior retrato da estupidez.

A mídia, por sua vez, cria mitos e alimenta o processo, na defesa de seus próprios interesses comerciais. Comunidades inteiras e suas vítimas tornam-se invisíveis, quando não são mostradas como vilãs, como bandidas, independentemente de qualquer investigação. A miséria é negra e o negro, o codinome do invisível. Assim, é fácil que sejam mostrados invariavelmente como bandidos, que sejam indesejáveis na sociedade.

E, como exemplo: causa espanto a mendiga branca. Ela é bonita e é mendiga. Porque a pobreza é negra. Porque não há beleza nos rostos negros. Porque a mídia tem lado. E é responsável pelo preconceito que assume forma de raça, de lugar, de classe social. E isso tudo justifica a guerra. Justifica a ocupação do espaço onde todos são bandidos ou cúmplices. Fundamenta as mortes. E as baixas em ambos os lados viram notícia. Viram audiência. Rendem milhões.

Um circo vicioso e cíclico. Picadeiro montado de ilusões e vidas perdidas. Uma lona que cobre atos e corpos. E gera o ódio. E traz violência. E propaga o preconceito. E mostra a face da morte. E expõe nossa miséria. E mata nossa humanidade. E nos torna menos. E propõe sua solução: vingança. Passar o rodo. Banhar de sangue. Faca na caveira. Olho por olho. E, assim, acabaremos todos cegos.*

* A citação é atribuída a Mahatma Gandhi

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Nós, a Voz e Eles


Foi uma semana dura para quem gosta de acompanhar a política nacional. Meu feed de notícias do facebook começou, tímido, repicando a indicação da Katia Abreu para o Ministério da Agricultura mas em questão de horas não tinha outro assunto. De um lado, choro, ranger de dentes, protestos, indignação. Do outro, compartilhamento dos cronistas preferidos da direita nacional. É sempre assim. A cada derrota da pauta de esquerda, tirando os petistas, toda a esquerda se alevanta protestante, como dizia um poeta popular. A direita nem sempre. Se a derrota for obra de um dos seus, ficam exultantes e comemoram. Mas se for por obra e graça do governo federal ou algum de seus aliados apenas noticiam, discretos, para não atrapalhar o figurino de odiadores do PT. Acha que vão confessar que foi o PT que colocou a azeitona sem caroço na sua empada? O PT pode jogar todos os mendigos nos canais de Recife, baixar um decreto revogando a Lei Áurea e os Direitos Trabalhistas que eles vão dizer que foi obra do outro governo ou vão alegar que está faltando pelourinho. Elogiar ? Jamais.

Vai daí que nem bem terminava de me perguntar se alguém estaria assim tão surpreso e descubro que sequer se tratava de notícia oficial. Quequéisso? Pensei. Se não é notícia oficial é vazamento. Ou é pura pressão do ladodelá encampada pela brazuca midiazona, este concentrado de propriedades cruzadas e relações familiares entre tvs, jornalões e revistinhas. Fui ler. Quem disse que achei a opinião dos índios, do MST, dos ambientalistas ? Tudo normal, né ? Por acaso a função deles é informar ? Promover o esclarecimento ? A manifestação dos pensamentos divergentes e a promoção do debate democrático constam entre seus objetivos? Eles são a Voz, ora bolas, a Voz que dita o que deve pensar o povo da feirinha, como diz Seu Fulano, meu amigo. A Voz escolhe os fatos que são importantes falar, as pessoas que são importantes ouvir, quem deve opinar e quem deve calar. E com isso cria fatos. Como dizia Nelson Rodrigues com sua fina sintonia para capturar o ethus brasileiro “ Se os fatos estão contra mim, pior para os fatos”. Mas qual é a novidade? O tamanho da bancada de deputados eleitos, representantes ou eles mesmos latifundiários, o número de representantes da indústria do armamento, ativos ao ponto de já se estarem mobilizando pra aquecer os negócios colocando ( mais) gente armada nas ruas, por acaso indicavam um caminho fácil até nossa pautas mais progressistas ? Que lindo seria, né. Colocava-se o Leonardo Boff de Ministro da Agricultura, no dia seguinte ele fazia a reforma agrária ( esse projeto que está só um século e meio, mais ou menos, atrasado) e pronto. Paravam de matar seringueiros, a chacina do um milhão de índios sobreviventes da mortandade que os latifundiários promovem há 5 séculos acabava e pronto. Era só sentar e esperar o Papai Noel.

Essa é a parte chata da Política. É complicada. Tem gente que nunca perdeu nem meio dia estudando a natureza do sistema representativo de nossa República, não gastou nem um diazinho estudando as estrutura dos Poderes – legislativo, executivo e judiciário- brasileiros, não fez nem um cursinho de dois anos sobre História Geral mas, ó, parece um oráculo de sapiência e opinião. Dá vontade de colocar a pessoa sentada na cadeira da presidência só uma semana pra observar o que ela faz. Com os poderes reais que a presidência tem, não com os ilimitados poderes que ela imagina, bem entendido. Alteridade já ajudava. Uma olhadinha sobre o estado do mundo também.

O “eles” do título acima aliás, refere o resto do mundo. Gente, eu estou preocupada. Vocês estão acompanhando o cenário internacional? Não o que diz a Voz mas veículos mais ou menos sérios da UE e dos EUA, algum blog independente? Sou só eu que estou achando que este estado permanente de guerra pode degringolar em coisa pior muito em breve ? Se for, me perdoem. Para ficar só nas questões mais recentes, estão vendo o estado que ficou a Síria? O que está acontecendo na Ucrânia ? Estão acompanhando o bate boca entre diplomacia americana e russa ? Assustador. Ouvi falar que há mais de 30 conflitos armados de grande escala, hoje, ao redor do planetinha. Ok, ouvir falar não é o suficiente nem pra começar uma conversa. Além disso, o que eu sei sobre geopolítica dá pra encher uma xícara de café. Acompanho muito bem os raciocínios e análises mas daí a produzi-las… Bem, sobre o que não se pode falar, deve-se calar, disse o sábio.

Eu só quis mesmo desabafar e lembrar aos meus companheiros de luta que o mundo é um lugar perigoso. É preciso ter cuidado ao escolher os amigos e mais ainda, os inimigos.

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Direita e esquerda de leiga para leigos (introdução)*


canhoto

Pois é… Ainda hoje, é difícil ser de esquerda.

Para começo de conversa, você, que muito provavelmente escreve com a mão direita, é uma pessoa destra. De destro, temos a derivação destreza, habilidade de realizar algo. A maioria das pessoas é destra.

Se você escreve com a mão esquerda, lá vem todo um contexto bastante significativo. Você não é uma pessoa destra. É canhota. O canhoto é o tinhoso, o ardiloso, o fomentador de disputas, o cão. Em séculos passados, era comum que se tentasse forçar um canhoto a ser destro. Amarravam-lhe a mão dominante para aprender a desempenhar as atividades com a outra.

Observa-se, então, que no simples ato de escrever ou desempenhar quaisquer outras atividades manuais, havia não só uma predominância do uso da direita como também a tentativa de normatização, uma imposição sobre os corpos dissonantes.

Migrando para termos políticos, gostaria de traçar em linhas gerais o que, a meu ver, diferenciaria a direita da esquerda. Entenda-se que, como no caso das habilidades manuais, há uma predominância de determinado uso ou conduta naturalizada. A direita não só é maioria como tenta até hoje, de muitas formas, forçar a esquerda a “endireitar-se”. A esquerda continua sendo vista como representante do mal a ser evitado.

O que mais caracteriza a diferença de posicionamento entre a direita e a esquerda é a forma como enxerga o papel do Estado em relação às pessoas. Utopicamente, a direita acredita num Estado gerador de oportunidades acessíveis àqueles que lutam por ela. Utopicamente, a esquerda acredita num Estado garantidor de direitos fundamentais a todos os que fazem parte dele.

A partir dessas premissas, todo um conjunto de ideias vai se articulando com maior ou menor coesão, mas sempre estreitamente relacionado. Assim, a direita acredita no self-made man, admira figuras que possam ser tidas como ícones da ascensão social por meio de trabalho árduo e/ou da criatividade. Elogia o senso de oportunidade, de flexibilidade e de resiliência. Já a esquerda observa criticamente essa forma de ver o mundo, por considerar que não há igualdade de oportunidades em uma sociedade bastante demarcada por questões de ordem social, étnica e de gênero, entre outras.

A direita enxerga liberdade no capitalismo; a esquerda põe os óculos e só continua vendo opressão. A direita busca normatizar comportamentos. Daí, por exemplo, a tentativa de conceituar família como um núcleo baseado na “complementação biológica” entre homem e mulher, possivelmente gerando herdeiros, advindo daí a negação dos direitos a gays, lébicas entre outrxs.  A esquerda busca respeitar as diferenças. Para ela, há várias famílias constituídas com suas diferentes formações, bem como devem ser respeitadas as orientações afetivo-sexuais.

Para a direita, coadunada  com a mentalidade do self-made man, sucesso e fracasso são decorrentes de aproveitamento ou não aproveitamento de oportunidades, ambas ações de cunho estritamente individual, não sendo postas em discussão possíveis variáveis que  influam nos resultados. O sucesso é o elogio do excepcional. A esquerda com seus omatídeos enxerga na configuração do todo explicações para a situação vigente. Reconhece conquistas individuais. Questiona, no entanto, a legitimação social da exceção. Quer uma boa regra aplicável a todos.

Nesse bojo, várias discussões são travadas: descriminalização do uso de drogas, redução da maioridade penal, flexibilização das leis trabalhistas, política de remoções. Basta observar que tomada de posição menos leva em conta os pobres e estaremos diante de uma visão de direita. Não exatamente porque toda a direita seja rica. Muito pelo contrário. Mas, para legitimar as políticas de direita, são necessárias muitas pessoas pobres economicamente e/ou culturalmente.

A direita é direita desde criancinha. A esquerda se propõe à reeducação. A direita valida seus argumentos em senso comum. A esquerda busca análise histórica, dados comprovados, validação das hipóteses.

A direita é muito pouco contraditória. Expõe seus preconceitos, busca teses nas teorias religiosas dominantes. Pode dormir sossegada. A esquerda expõe-se a conflitos íntimos. Crescida numa sociedade predominantemente de direita, vê-se acachapada por questões de cunho moralizante em alguns lapsos. Toma conta de si mesma para não resvalar para aquilo a que combate. É um trabalho difícil. É colocar o intelecto acima dos instintos diuturnamente. É escrever canhotamente num mundo de destros.

* Não me considero especialista no assunto, mas senti necessidade de escrever algo que soasse esclarecedor diante de algumas perguntas que me fazem. Considero a possibilidade de continuar com o tema, explorando as várias discussões a que me referi no texto.

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