Marinaram as eleições


Neca de pitibiriba que terá meu voto. Mas, parece que muita gente tá caindo no canto da improvável sereia. Eleições esquentando em banho-marina. “Vocês me abrem os seus braços e a gente desfaz um país”.

[Totalmente fugaz]

Aécio Neves já míngua na campanha, lançado com pelo menos 4 anos de atraso, vem se demonstrando incapaz de unificar mesmo a base que o sustenta e parece ter um teto de voo bem baixo, como o dos helicópteros supercarregados que cruzam os céus de Minas.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

E o verdadeiro e derradeiro tráfico de drogas, engravatado, continua impune e quase sem comentários.

Aas vésperas de Aécio Neves ser rifado em praça pública por R$ 1,99, já há uma super-reserva de contingência e de mercado (com trocadilho e tudo) pro seu eleitorado: Dona Marina Silva. Renegando seu passado- inclusive desconhecendo desrespeitosamente Chico Mendes- Marina junta numa candidatura o pior do PT e o pior do PSDB. E como se já não bastasse “pior” nessa história, o pior de tudo é que ela tem muito menos contas a prestar por tudo isso do que os citados. E já demonstra isso claramente. Esse papinho, pra acalentar o sono de bovinos castrados, de que o governo FHC teve muitos pontos positivos, assim como o governo Lula, é um pega bobo que leva muita gente na lábia barata.

Marina_Silva-580x384

Em trocadilho reverso com o precocemente esquecido passado, hoje a “cara de pau”.

Marina já está a se tornar o ancoradouro da raiva babona antipetista, aa direita e aa esquerda. A velha história da candidatura salvadora de última hora. Já incensada, vista como alternativa de equilíbrio pela mídia hegemônica. A tal “nova política”. Já vimos essa invenção de roda com Collor! E por sobre a enxurrada, lá vem Marina, a tábua de salvação do “novo” Brasil.

Hoje, a candidatura Marina é tão errática e ao fluir das marés que sequer no campo em que historicamente ela se construiu, o da militância ambiental e ecológica, se sabe qual, afinal, será seu direcionamento. Isso até porque não se sabe ainda qual será o cômputo final do balaio de interesses que a terá alavancado até o final da contenda eleitoral. Já se sabe de cara do apoio desinteressado da família Setúbal, esses pobres diabos a viver de contar os caraminguás que o Itaú lhes reserva em sucessivos recordes de faturamento . Em troca só a autonomia do Banco Central… Mas, justiça seja feita, as três candidaturas midiáticas, hoje, disputam aa foice o apoio do capital financeiro brasileiro. Ao que tudo indica, Aécio tá ficando na pista, enquanto Dilma, depois de tudo que seu partido fez por este setor (mais do que o governo FHC), assiste a essas ingratas defecções de suas hostes neoliberais. Sim, até porque as três candidaturas disputam isso: a gerência neoliberal no país. Claro que há nuances, o que me impede de todo de falar que as três candidaturas sejam iguais, embora eu não vá convictamente votar em nenhuma delas. Pelo menos não no 1º turno. Talvez no 2º turno, dependendo de sua configuração.

marina rede

Realmente, uma imagem diz mais que mil palavras.

Marina é o resoluto liberalismo econômico pleno com conservadorismo moralista e social num forçoso e dissimulado balcão de negócios político, este último aspecto no mesmo plano que de seus adversários Dilma e Aécio. Eu, como disse em meu texto da última semana, sinceramente acho que todo esse contexto muito mais leva a campanha Dilma pra direita do que a uma caracterização que gere polarização com o neofenômeno Marina, em termos político-econômicos. Mas, insisto, Marina é o pior dos possíveis mundos. Ruim com Dilma, pior com Marina!

Pela família, com Deus e com Marina! Não tardam os rodrigo-constantinismos, olavismos e congêneres mais ou menos raivosos e tresloucados laudatórios aa Marina. E fogos e rojões pras pesquisas!

E, agora, Dilma é vitral e tudo é pedra. Algumas pedradas justíssimas, mas a maioria pela direita mais descarada que há. E lá vem o PIBinho e muito mais, com ou sem sentido. Repito, não sou eleitor da Dilma, tampouco apoio ou tenho expectativas positivas quanto a seu governo. Contudo, compreendo que o 2º turno que vem por aí pode significar, como tem significado nas últimas eleições, optar pelo governo que proporcione as melhores (se preferirem, chamam de “menos piores”, afinal, é puro jogo de palavras sem mudança de sentido) condições de se fazer oposição. Semana passada, findei meu texto dizendo “Não é eleição que muda a vida.”. Muda sim, pra melhor. Se você é empreiteiro, agiota legalizado (banqueiro), dono da mídia, esse povo da pobre e quase inexistente elite brasileira com a qual Marina se compadece. Pro restante, resta a luta no cotidiano.

 [Nem que o canto fosse esse!]

 

 

Categorias: Política | Tags: , , , | 6 Comentários

O pouco com Deus é muito


Difícil, de qualquer maneira, mas consola os espíritos simples. Me refiro à campanha eleitoral em curso, claro. Salvo engano ou polianice da minha parte, já não estamos mais sujeitos a sermos arrastados por enxurrada de insultos e campanhas de ódio da internet que se pretendem opinião. Eles ( os insultos e campanhas de ódio) estão lá, é fato, porque a vida é mesmo muito diversa e educação não é uma coisa que nasce no campo ou se compra no shopping da esquina. Me refiro à educação para a política, para a definição dos tópicos mais importantes da política, para o debate e para o desenvolvimento de argumentos, lógico.

Aliás, como se viu no debate entre presidenciáveis esta semana, nem mesmo ser membro de um partido político e candidato ao cargo máximo da hierarquia institucional garante que a pessoa seja capaz de manter alguma coerência e coesão no discurso. Falo de coisas básicas como respeitar o tema abordado pela questão ao responder uma pergunta. Ou dar qualquer razão ou satisfação porque vai tergiversar ( e qual a % de eleitores, me pergunto, saberiam o que significa esta palavra). Fiquei com um bocado de saudades da verve intrépida de um Brizola, da frontalidade de um Plínio e até do deboche combativo de um Ciro, cujas performances podiam inspirar amor ou ódio, indiferença nunca.

Salvo um ou outro posicionamento mais contundente, restrito à proposição de temas que a nossa democracia branda ameaçava tornar tabus, achei o debate para lá de burocrático. A responsabilidade maior disto não está com os candidatos, verdade seja dita, mas no próprio formato da coisa. Talvez fosse melhor escancararem logo de uma vez a superficialidade da proposta, colocando um botão em cada púlpito e lançando perguntas que, a cada rodada, responderia o candidato que fosse mais ágil no soar a campainha. Nem falar do nível de partidarização dos atores-jornalistas presentes. Tive a impressão que a qualquer momento iam arrancar paletós e camisas, revelando uma camiseta com o logo de seu candidato e cantar seu jingle – e de mãos dadas, os populistas.

Diga-se de passagem: tudo somado, penso que as assessorias fizeram bem o seu papel. Nos limites das regras do jogo os candidatos parecem todos cientes que seu discurso tem de falar diretamente aos problemas concretos de maneira curta e pragmática. Mesmo que sejam problemas imaginários – como os que a grande imprensa inventa para o candidato dela poder resolver. Mas como? Alguém poderá perguntar. Mas e o fenômeno da vez, a candidata Marina, que chegou a propor o impossível- pinçar de diferentes partidos os “ melhores”, para fazer o inútil – acabar com a disputa polarizada entre dois dos majoritários : PT e PSDB?

Bem, meus caros, admito que a práxis do discurso raso de promessas prossegue mas, vejam bem, melhorou um bocadinho. A política, finalmente, na sua dimensão simbólica, vista como o próprio mecanismo de produção de realidades entrou em cena. Não ainda como ela é : palco de disputas eternas, troca de ideias e barganha de diferenças, arena de convencimento pela palavra para que não sejam necessários os porretes e balas. Entrou disfarçadinha, tímida, com uma certa tendência a  jurar que é capaz de levar a mensagem cristã de “paz na terra aos homens de boa vontade” e o ” a cada um segundo as suas obras ” à implementação em toda a sua plenitude. Mesmo na imediação dos cofres. Não se promete mais cisternas para acabar com a seca do Nordeste. Mesmo porque a seca agora é em São Paulo, aquele Estado que está praticamente sobre o aquífero Guarani e não ia fazer muito sentido. Se promete o congraçamento dos diferentes. Se promete o apagamento das diferenças sociais : elite é todo mundo. Aquele ali faz parte da tropa de elite da ética e da moralidade : não é fato que puxa uma carrocinha carregada de lixo para reciclar, chova ou faça sol, esteja ou não doente, mora em um barraco de teto furado e mesmo assim, nunca deixou de pagar todos os seus impostos? E olha que o imposto é religiosamente cobrado no arroz, feijão, leite e ovos que entra em casa ou na cachacinha do fim do dia – e olha que eles levam quase metade de tudo que ganha ! E quem diz que ele reclama ou sonega? Aquela ali é da tropa de elite do bom gosto – até abriu uma outlet no shopping mais chique da cidade e praticamente usa todo seu pro-labore em viagens a Miami, sempre pela American Airlines, sempre carregando um iphone ou um tablet – tão mais barato!- e assim subsidiando com provas, que os impostos brasileiros são mesmo escorchantes e fazendo sua parte na politização do debate. Aquele ali ( dizem!) “vende” seu voto por um simples ajutório pra alimentação da criançada e nada sabe sobre Reforma Política. A outra ali ( dizem!) investe os milhões necessário à campanha de fazer-conhecido um candidato a deputado – para colocar o primo dela perto da boca do caixa – e nada quer saber de Reforma Política. Mas todos têm na ponta da língua um só nojo: corrupção! Somos todos elite, no fundo. O que precisamos é tomar consciência de que cada um tem de fazer a sua parte. Com eficiência e visão estratégica.

A estratégia está correta, meus amigos. Em tempos de consumismo, muito eleitor-consumidor procura um candidato que valha o custo/benefício. Para isso ele consulta a caixa de recomendações do site, pega indicações com os amigos e parentes e procura novidades no campo do design ( e ouviu dizer que o retrô está em alta !) – porque não ? Ou alguém aí gosta de ler manual de instruções, vai querer saber como é que o produto foi fabricado ou está preocupado se seu uso vai causar malefícios à saúde DOS OUTROS antes de comprar ?

Pragmática, meus caros. Bem vindos, ao deserto da pragmática. É o que tem pra hoje. É pouco mas o pouco etc.

 

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

As razões pelas quais eu jamais votaria em Marina Silva


images

Na verdade, este texto inteiro poderia se limitar a duas palavras: Neca Setúbal. E, além disso, creio que posso intrometidamente afirmar que estas duas palavras também deveriam levar você a não votar em hipótese alguma nessa pessoa. Mas não reduzirei o meu argumento a esse ponto, mesmo que ele seja autossuficiente. Vamos lá e explico.

Marina Silva vem se apresentando, de uma forma marqueteira e um tanto presunçosa, como a “renovação” da política nacional. Muito curioso vindo da parte de alguém que me apresenta um programa econômico que poderia ter saído da mesa de qualquer burocrata do FMI e professa crenças fundamentalistas cristãs que satisfariam, digamos, o Papa Urbano VIII (aquele da pinimba com o Galileu). Alguém que participa de manifestações públicas contra o aborto e é contra experiências com células-tronco não é exatamente uma forte candidata ao título de “crente bullshit free” do ano.

Não vindo toda essa inovação da área econômica e nem da área confessional, que as pessoas deveriam de preferência ter o bom-senso de deixar em casa, talvez a razão que a torne a candidata novidadeira do momento seja a abordagem da questão ecológica, uma vez que esta está indissociável da própria persona política de Marina. Todavia, o seu vice, Beto Albuquerque, parece desmentir descaradamente o seu próprio histórico. Ligado ao agronegócio e à bancada ruralista, é dessa fonte que ele tira a maior parte do seu financiamento de campanha. Gostaria de lembrar que o PT demorou coisa de uns 15 anos para desconfigurar o seu próprio programa de partido ao ponto de torná-lo “politicamente aceitável”. Marina Silva, me parece, e isso é apenas uma opinião, está fazendo o mesmo em um ritmo de não fazer feio na frente de nenhum Antonio Palocci.

Na verdade, como disse uma amiga minha ligada à área indígena, “Marina há muito tempo traiu a luta dos povos da floresta e dos rios”. Não vejo nenhuma razão para acreditar que ela vá romper com o modelo da monocultura agrário-exportadora da soja, que introduz nos circuitos mais avançados do capitalismo mundializado a região de maior biodiversidade do planeta e com diversos povos indígenas, com perdas evidentes para estes últimos. Como já venho dizendo há certo tempo, derrubar a Amazônia, matar todos os índios e comprometer de lambuja o futuro do planeta como um todo para vender soja a menos de 400 dólares à tonelada é, como diriam os melhores pesquisadores do círculo científico, uma puta de uma cagada.

Mas voltemos à educadora que foi Neca Setúbal. Talvez o Magistério não se ressinta da perda dessa mulher tanto quanto o sistema financeiro do dia de amanhã (que, espero, não virá). É ela neste momento a grande coordenadora da campanha de Marina Silva e a maior defensora da “autonomia do Banco Central” (essa Marina, sempre inovando!). Vamos entender do que se trata isso na prática, da maneira mais sucinta e com menos “papo técnico” possível. Desde os pouco saudosos tempos do FH, o Brasil, para pagar as suas contas, tornou-se dependente da entrada de capitais estrangeiros (muitas vezes especulativos). A forma de atrair esses capitais é manter uma das taxas de juro mais elevadas do mundo. Essa taxa, conhecida como taxa Selic, nada mais é do que o juro que o governo paga pelo dinheiro que ele pega emprestado para se sustentar. A Selic, também, serve de referência para todo o resto da economia nacional (daí o seu apelido de “taxa básica”).

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema

Gráfico que até o Rodrigo Constantino entenderia. O gráfico é tosco e eu não tenho a fonte, mas dá uma ideia geral do tamanho do problema. Obs.: esses dados não são fiáveis, isso está aqui apenas de brincadeira

Os juros que são pagos mundo afora são muito inferiores aos pagos no Brasil (para se ter uma ideia, depois da crise de 2008, a equivalente americana da Selic caiu abaixo de 1%, enquanto no Brasil, em média, ela ficou em torno de 12%). Ora, os grandes captadores do dinheiro que financia o governo são os bancos nacionais. Eles captam “dinheiro barato” no exterior e emprestam para o governo a juros absurdamente altos. O lucro deles é essa diferença (chamada de spread bancário). Levando-se em consideração que a Selic chegou, nos dourados anos FH, por exemplo, a inacreditáveis 45% (ou seja, a níveis de altitude de balão meteorológico), não é de se estranhar que todo ano seja ano de lucro recorde para os bancos brasileiros. Agora, sabem quem fixa a taxa Selic? O Banco Central, que Marina Silva parece pronta a entregar para… a dona do Itaú (ela mesma, Neca Setúbal), um dos maiores e mais agressivos bancos do mundo, segundo qualquer critério de avaliação.

Em termos práticos, por trás dessa proposta tão encantadora para liberais ouvidos de autonomia do Banco Central (por significar “menos governo”), encontra-se na verdade “mais sistema financeiro”, e a capacidade da Neca, e dos mandarins dos outros bancos em conluio com ela, de fixarem O SEU PRÓPRIO LUCRO, uma vez que isso significa que “o mercado” (essa mistura de fantasia e fetiche liberal) terá um controle muito maior do que ele já tem de fixar o quanto o governo paga de juros para o próprio “mercado”. É mais ou menos um equivalente ao direito mais singelo que os deputados federais têm de fixar o seu próprio aumento.

(Um parêntese saindo um pouco do tom de galhofa deste texto. O prejuízo dessa brincadeira toda para o país e para o povo brasileiro é enorme. Este ano, o governo calcula que pagará 99 bilhões de reais, o equivalente a 1,9% do PIB, só em juros de dívidas (http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/02/20/governo-anuncia-corte-de-r-no-orcamento-de-2014.htm). Isso é apenas a ponta do iceberg, uma vez que o principal da dívida – as amortizações – não estão nessa conta. Só para usar uma metáfora que até o Rodrigo Constantino seria capaz de entender, quando aquele assessor infeliz foi pego com dinheiro nas cuecas – parte do escândalo do mensalão – ele carregava 100.000 reais. Dividindo-se o que se planeja gastar só em juros, só em superávit primário, só este ano, seriam necessárias quase um milhão de cuecas para carregar esse dinheiro todo, que vai, todavia, para os ativos dos bancos nacionais e internacionais e para remunerar o capital especulativo, e você não verá nunca a imprensa tocar nesse assunto. Para mim, pessoalmente, não romper com esse modelo foi um dos dois piores aspectos do governo do PT – o outro, é a política mata-índio de desenvolvimento a qualquer custo – mas, verdade seja dita, calcula-se que em média esses juros na era FH rondaram os 20%, em Lula, os 15%, e com Dilma, os 10%. No entanto, os juros brasileiros seguem há 16 anos entre os mais altos do planeta, o que significa que o PT realmente não alterou essa política, apenas tirou os juros da estratosfera e da companhia dos balões em que o governo FHC os fixou – a redução do governo Dilma inclusive é bem relativa, uma vez que os juros internacionais despencaram com a crise financeira, o que abriu espaço para uma redução doméstica. Em termos de reduzir as perdas para o país, é alguma coisa, mas longe do suficiente. Fim do parêntese).

Ainda em política econômica, Marina ressuscitou dois nomes ligados ao Plano Real e ao FH: Eduardo Giannetti e André Lara Rezende. Ambos estão por trás do sucesso do Plano Real e das políticas de contenção de gastos públicos, que se concretizaram na forma de privatarias, de corte de gastos sociais, no sufocamento da universidade pública e etc. O segundo, inclusive, após tornar-se bilionário graças ao tráfico de influência foi morar na Inglaterra para curtir a vida adoidado e cuidar dos seus dois hobbies, a criação de cavalos puro-sangue e os carros de luxo. Marina, por alguma razão que eu não vou conseguir entender nunca, resolveu tirar esse rapaz do seu merecido sossego e trazê-lo de volta ao Brasil para trabalhar no governo.

Resumindo que estou com sono e é hora de ir dormir: Marina Silva apresenta uma política econômica baseada no clássico tripé liberal de metas de inflação (o que significa juros altos), câmbio flutuante e superávit primário (cortes de gastos do governo e/ou aumento de arrecadação – mais impostos). Uma coleção de compromissos ecológicos e sociais que parecem cada vez mais enterrados no seu passado, junto com o Chio Mendes (perdoem-me, mas às duas da manhã o humor negro é o meu forte). E uma equipe de governo saída de um conto de fadas “só que não”. Me explica cadê a novidade disso.

Obs.: esse texto trata de política monetária, fundamentalmente. Essa política tem outros aspectos, e a própria Selic é usada como um instrumento de controle da inflação (a famosa política monetária contracionista, cara aos liberais). Porém, quis tratar aqui do aspecto posto em relevo pela presença de Neca na campanha, e do qual normalmente não se ouve falar nos jornais e na televisão: a relação entre alta de juros e os lucros extraordinários dos banqueiros e o aprisionamento do país ao sistema financeiro internacional pela via do endividamento público permanente.

Categorias: Política | 2 Comentários

O PT nunca me decepcionou.


Agora, com publicações mais esparsas, decorrentes duma vida profissional e acadêmica, por ora, mais turbulenta, acrescida dum pontual resguardo pós-operatório que me obriga aa privação quase completa duma série de atividades que incluam mínimos esforços físicos, me resta, deitado, ler e escrever, o que faço agora, felizmente, aqui no blogue.

Quando se passa a escrever menos, naturalmente, o número de assuntos no cabide se amplia. Em meio aa morte de Eduardo Campos e a ressurreição retumbante e sorridente da direita conservadoríssima (sim, Aécio é direita ortodoxa, mas liberal), via Marina Silva, me bateu afã de me posicionar, muito claramente, quanto a este contexto, o que passa, invariavelmente, por botar pingos nos is da Dilma e de seu partido, em meio a tudo isso.

marina silvaSem o blablabla vazio de que Campos era um democrata, um “republicano” (sabe-se lá o significado disso) ou ainda sem o cretino endeusamento post mortem e mesmo sem considerar que compunha a mesma esquerda (em sentido lato, por favor) padrão fifa em que se enquadra o próprio PT, num governo de todo neoliberal, de jogo duríssimo com o funcionalismo, etc, o fato é que, após a sua fatídica morte, tá se processando uma clara inflexão conservadora na movimentação de campanha. Isso numa campanha que já não tem, decidida e sacramentadamente pelos poderes oficiais e oficiosos, por horizonte de massas nenhuma perspectiva, ainda que pífia, de contestação ao modelo neoliberal aí instaurado e patinando a longas pernadas. Não bastasse, isso ocorre em sincronia com o recrudescimento de ações coercitivas no país, seja aos trabalhadores organizados em seu movimento sindical, seja aos trabalhadores em favelas, periferias e situações de moradia precarizada- aí incluídos, claro, os que foram vítimas de remoções recentes pra Copa, seja aos que protestam contra a truculência, o status quo…

Em todo esse contexto, o que mais quer a militância apoiadora-insistente de Dilma é configurá-la como a contraposição possível e, segundo eles, óbvia a todo esse quadro. Fazem isso de forma reducionista (“é o Brasil da Senzala contra o da Casa Grande”, por exemplo), arrogantemente desqualificadora (ignorando mesmo candidaturas do campo democrático-popular), chantagista (imputando/cobrando a responsabilidade pela derrota da direita clássica no apoio de peito aberto aa candidatura petista). É muito pingo pra pouco i.

Se há, defronte a este texto, um leitor antipetista raivoso, sinto dizer que se decepcionará. Pretendo ser mais sério e profundo aqui do que a fanfarronice tresloucada e esquizofrênica, quando não sórdida e cínica, no fundo, da direita mais asquerosa que há, de que “a culpa é da Dilma/ do PT”. Este blogue tem cérebros.

dilma petralha

Petralha maldita.

Vamos começar por esclarecer que o título deste texto não é irônico, mesmo. Desde os sorrisos e empolgação despojada de 1989, nunca esperei do PT algo de transformador. Em 89, eu não votava, mas votaria, se pudesse, convicto em Brizola. Nas campanhas seguintes, sempre compreendi que o PT era tão somente, quando muito, reformista. Suas proposições centrais, formuladas seguidamente por sua direção nacional, não colidem frontalmente com o que se tem visto. Talvez haja, isso sim, confronto entre a expectativa criada por tantos militantes e a concretização do governo petista. Contudo, isso tá muito mais no campo dum simbólico construído ao longo das décadas, pelo legítimo desejo e sonho dessa militância, embora nunca verdadeiramente respaldado institucionalmente por seu partido. O PT nasceu pra não ser transformador, pra, no estilo mais clássico da histórica social-democracia aa europeia, gerir o capital, sem lhe eriçar sequer dois fios de cabelo que fossem. De revolucionário, o PT sempre teve no máximo as leituras de parte de sua militância. Seu nível de institucionalização e de apego a todo o parelho institucional de que pudesse dispor, rifando movimento em prol de máquina no pior aprendizado do legado do Leste Europeu, sempre foi a tônica da direção nacional aa maioria das tendências.

PT Decadente - Em todo o Brasil

Lembro duma reunião política, pré-2º turno das eleições de 2002 de que participei, já com a expectativa da eleição de Lula e duma avaliação que fiz dizendo que não esperava dum governo Lula nada mais do que um governo Sarney melhorado. Essa afirmação rendeu alguns olhares de estranhamento ou mesmo de “que viagem!”. Ora, o que se esperava: a ruptura com o neoliberalismo?! Vinda do PT?!

Mesmo a forma como o PT lida com o restante do campo democrático-popular hoje não é novidade alguma. O hegemonismo arrogante tá no DNA petista desde o ABC, desde as discussões da formação da CUT. De chapa a grêmio estudantil aa presidência da república esse é o modus operandis deles.

Assim, muito sinceramente, não guardo qualquer decepção com qualquer governo petista. Tá tudo na conta da gestão do capital, índole muito anterior aa vitória de Lula em 2002. Da reforma da previdência aa repressão/coação- sem falar, claro, na cooptação- dos movimentos sociais tudo se inscreve nessa lógica. A quem tenta atribuir aos governos Lula-Dilma a legitimidade popular dum governo Chávez, por exemplo, taí uma diferença crucial. Este não emparedou os trabalhadores, pra afagar as camadas médias. O PT tenta, até obstinadamente, se demonstrar dócil ao capital, mas, pairam setores neuróticos, em permanente e militante desconfiança e detratação, como a maior parte da mídia oficialesca e a posição “de recalque de classe” da classe média brasileira. Aliás, esses são os setores que, com sua histeria, mais justificam o rebaixamento da discussão a um nível “Casa Grande x Senzala”, o que só despolitiza o processo. A população trabalhadora, aí incluída a “subtrabalhadora” tão incensada no discurso petista, não está sendo organizada pra construção dum projeto seu. Ao invés disso, resta um paternalismo assistencialista, talvez duma dimensão histórica equivalente a de Vargas, que, intencionalmente, não organiza. E, justiça seja feita, Getúlio, do alto de seu autoritarismo, perseguição e paternalismo, criou instrumentos que até hoje servem aa organização dos trabalhadores, em termos formais. Nem Orçamento Participativo- ainda que instrumento cheio de limitações que era- em prefeitura petista existe mais. E, sinceramente, isso também não é contraditório ou decepcionante. Óbvio que esse tão propalado instrumento, num dado período da história do PT, cumpria um papel que fazia sentido aa lógica de oposição em construção acumulando forças a voos mais altos.

lula_chavez_293O pior do PT, em seu trajeto de gestor do capital no Estado brasileiro, não é todo o conjunto de atitudes que lhe soam contraditórias, insisto, apenas no campo simbólico que lhe foi construído ao redor. Malufs, Sarney, Collors, Cabrais e todo o restante é repugnante, medonho e fétido. Mas, muito, mas muito mesmo, pior do que isso é ser o bom gestor do sistema financeiro, acolhedor aos bancos, ao mercado especulativo e tudo que lhe é implicado. E ainda me vem o Santander roer a corda da campanha da Dilma?! É muita ingratidão, chega a ser filhadaputice. O Santander Brasil chegou a ser responsável por 1/4 do faturamento do banco no mundo. Isso no período mais crítico da crise na Espanha. Isso é pagar com traição a quem lhe deu a mão.

Santander-2

Considerando tudo isso, creio fortemente que a campanha petista vai mais pra direita junto com todo o resto. Não seria a primeira vez que isso ocorreria. O nível de institucionalização petista, agora, é o máximo. A reprodução dessa máquina, em si, é um objetivo a se cumprir. E, com objetivos, sinceramente, reformistas. Não é questão de sacanagem ou não. É no que o Partido, infelizmente nomeado, dos Trabalhadores, crê, desde sempre.

É claro que se pode objetar a todo este texto que, ainda que no plano simbólico, o governo PT cumpre um papel que se reflete nas medidas pró-população mais desfavorecida implementadas pelo governo petista central. Mais do que isso, pode-se argumentar que ele eleve, ou, pelo menos, paute com mais centralidade contradições sistêmicas. É verdade. O simbólico tá no plano do ideológico e, de forma alguma, é desprezível. E é isso e tão somente isso que me faz considerar qualquer possibilidade de voto numa candidatura Dilma num 2º turno que, espero, exista. É por esse motivo que não posso aceitar que, por exemplo, na disputa em meu estado, o RJ, se diga que Garotinho Ou Pezão (o vice do desgovernador Cabral) sejam a mesma coisa que Lindberg Farias, que, aliás, tá aa esquerda da Dilma- não que isso tenha grande impacto institucional efetivo.

Feita esta análise, pondo pingos nos possíveis is, era isto: deixar claro que o PT nunca teve o poder de me decepcionar. Pra quem se importa com o trabalhador organizado, lidar com esse governo e suas candidaturas envolve um nível de dialética cotidiana que precisa ser praticada com muita atenção e seriedade. Eu tento lidar com a bestialização antipetista dum lado e com o petismo no poder, desta forma, sem culpas, e sem expectativas.

Há, no campo histórico democrático-popular, opções outras, Luciana Genro (PSOL), Mauro Iasi (PCB), Zé Maria (PSTU), Rui Pimenta (PCO). Essas opções também existem, para além do jogo institucional-midiático de cartas marcadas, nas ruas, no dia a dia. Ou, pelo menos, deveriam existir. Não é eleição que muda a vida.

 

 

 

 

 

Categorias: Política | Tags: , , , , , , , , , , | 5 Comentários

Uma das vias escorregadias da militância feminista


ser-mulher-e-feminista

Você já percebeu quantas frentes de militância integra sem se dar conta? Não tem a ver com filiação, nem sindicalização, muito menos partidarismo, mas, certamente, tem e muito a ver com política no sentido menos estrito do termo, embora não se possa supor ingenuamente a inexistência de linhas ideológicas bem demarcadas a cada defesa de ponto de vista.

Múltiplas são as formas de militar por uma causa, sendo a atitude e a motivação norteados pela defesa do que se julga o justo, o bom e o adequado para o melhor funcionamento das engrenagens desse vasto mundo cão, certamente no afã de torná-lo menos rapino.

O que me chama a atenção nessa constelação de possibilidades é certa falta de coerência que muitas vezes parece acompanhar escolhas aparentemente contraditórias. Não estou falando da pizza com guaraná diet, mas do discurso ambíguo que prega o desmerecimento sistemático do outro ao mesmo tempo em que reivindica para si respeito e legitimidade. Estou falando do discurso que denuncia a mercantilização da figura feminina, mas associa a manifestação do grito das oprimidas à liberação visual dos mamilos. E nesse bojo, ainda tenho questões ainda não resolvidas sobre a prostituição, assunto sobre o qual espero me debruçar com mais critério para elaboração textual futura .

Li recentemente em página feminista a pregação do ódio ao macho, o falo opressor hegemônico, responsável por todos os tipos de atrocidades já cometidas e ainda por se cometer na face da Terra. Preciso dizer que sou contra a dominação machista, com estrutura de repetição ancestral entre homens, mulheres e demais gêneros, mas nada tenho em especial contra os homens. Embora sejam parte do terreno sufocante que trilhamos na conquista sempre árdua de direitos, não podem ser responsabilizados  individual e coletivamente por todo o tipo de violência de gênero.

Não há absolvição na lógica que pretendo desenvolver, mas sim o combate à culpabilização prévia. Somos todos parte de um tecido engelhado de rupturas e muito ainda precisa ser discutido sobre as transformações necessárias para a promoção da igualdade.

Um dos caminhos talvez seja analisar de que forma todos contribuímos para reforçar os nós que prendem as minorias a um espaço de confinamento ideológico, restringindo-lhes a fala, a atitude, a expressão do pensamento ao mesmo tempo em que se ensaia uma liberação momentânea e transgressora, praticamente uma catarse, restrita a marchas (não nego a importância delas, ok?) . Papo para outra semana.

feminista1

Categorias: Sociedade | 2 Comentários

Iraque: feliz aniversário, EUA


isis-iraq

Este mês, a primeira guerra do golfo fez 24 anos (2 de agosto de 1990). É o mesmo que dizer que os EUA bombardeiam o Iraque há 24 anos. Não sei se exatamente em comemoração à data, mas o Obama anunciou esta semana uma nova rodada de bombardeios ao país. Isso já virou uma tradição política americana. A justificativa (ou será a desculpa?) é ameaça humanitária que o avanço do Isis (sigla em inglês de Islamic State in Iraq and Syria) representa para as minorias curda e yazidi. Diz-se que o novo grupo fundamentalista islâmico promoverá um massacre a estas minorias no seu caminho para Bagdá. Mas o que é o Isis e qual, se é que alguma, ameaça real este estado nômade representa? É fato que a versão do islã apregoada pelo Isis é a wahabita, subdivisão sunita das mais ensandecidas (é a mesma da Arábia saudita, ou seja, é muito obscurantista), o que, por si só, não é boa notícia, a não ser que você seja favorável à pena de morte para homossexuais e pense que a mulher tem que andar sempre três passos atrás do homem pelas ruas.

O Isis surgiu da união de grupos armados em combate na Síria, contra o Al-Assad, e em combate no Iraque, contra o governo xiita instituído pelas forças de ocupação americanas (1). Seu objetivo é a formação de um estado islâmico unido dos dois países, sob a égide da sharia e do islã puro, com pretensões a expansões subsequentes, envolvendo, quem sabe, ao menos uma boa parte dos países árabes. Tornou-se por isso o novo inimigo público número um de Israel e dos EUA, que veem no grupo um novo fator de desestabilização no Oriente Médio.

Para quem conhece um pouco da história dos povos árabes, a primeira coisa que saltou aos olhos em relação ao Isis foi a autoproclamação do líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi (após a autoproclamação, ele mudou de nome para Califa Ibrahim ibn Awwad), como o novo califa. Califa é um título que significa “líder de todos os muçulmanos”, e o regime dos califados começou logo após a morte de Maomé (o primeiro califa foi o seu sogro). Após vários séculos de deterioração, dividido em três (havia um califa em Bagdá, um no Cairo, e um em Cádiz, na Espanha), o regime do califado foi encerrado pela ascensão do Império Otomano, que se autoproclamou “protetor da fé islâmica”. Ora, alguém, nos dias de hoje, que se reivindique este título é mais ou menos o equivalente muçulmano ao Napoleão de hospício. Para se ter ideia, a Al Queda também defende a reinstalação do califado, mas nem Osama Bin Laden em auge de carreira ousou se proclamar o novo califa.

Como era de se esperar, tal declaração não rendeu os dividendos imaginados pelo novo “califa”. Um título deste porte deveria ser reconhecido por todos os muçulmanos, do Marrocos à Indonésia, o que, por certo, não se deu, e até agora tudo que o grupo conseguiu com a pretensão foi uma guerra declarada com a Al Qaeda e a perda de apoio por parte de governos e outros grupos da região. Há grupos sírios, inclusive, que acusam o Isis de ser um fator de divisionismo para a causa sunita, que no fundo é o que está em questão dos dois lados da fronteira.

Grupos como o Isis não são defensáveis. Há acusações de todos os lados contra atrocidades cometidas por eles, e os curdos, povo acostumado a massacres e perseguições, têm toda a razão de temer pela própria segurança. Mas ao que tudo indica, o grupo já se tornou mais uma ameaça superestimada, boa para a máquina de propaganda israelense e americana justificar suas ações. A verdadeira fonte de desestabilização no Oriente Médio são justamente os EUA e Israel, e a única coisa que a existência do Isis prova é a completa falência da política americana para a região, pautada pela invasão de países com base em mentiras, na imposição de regimes estranhos às suas populações e na ganância por recursos energéticos. Esperem por mais explosões.

(1) Na verdade, era para ser um governo representando sunitas, xiitas e curdos, principais grupos religiosos-étnicos do país e com longa tradição de intolerância recíproca. Era para ser uma boa ideia, mas como ela foi elaborada em Washington, não deu certo quando confrontada com a realidade in loco, e a facção xiita governou em desconsideração para com as outras partes, o que lançou o país novamente em convulsões internas.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

O dia em que descobri que não posso ser professora


Vinha acordando todos os dias com saudades da sala de aula. Acontece que sou professora bissexta e explico o motivo. Minha profissão principal talvez seja mudar de ofício de tempos em tempos, na crença insana de que vale a pena trabalhar apenas e tão somente onde posso colocar o máximo empenho, inclusive afetivo. Todas as vezes que me peguei com preguiça ou aborrecimento de preparar uma aula ou ir à escola dei um tempo. Isto, quando o mundo deixa, é a maneira idealizada por todo mundo de ser consumido, me dizem alguns. Mas há também os que sorriem com uma ponta de compaixão por tanta idiossincrasia, em tempos de consensos tais como “a especialização profissional é a única garantia de excelência ! ”. Não contesto mas não me alinho, fazer o quê? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como reza a velha canção.
Cada um com suas crenças, sou das que acredita que é mesmo necessário haver algo de missionário na identidade de um professor. Mediar a relação de habitantes do tempo presente – cheio de máquinas que executam ordens, sem que seus amos tenham a mais pequena ideia de como elas o fazem – com o patrimônio de conhecimento acumulado por ancestrais que deram duro, durante séculos, para produzir nossas vidas tais como são, me parece em tudo com uma tarefa sagrada.
Ocorre também que a palavra “ sagrado” vem do latim “ sacer” que significa “ dedicado a” e a docência, me parece, das profissões que menos permitem qualquer falta na dedicação ao seu exercício. Também a vejo, de certa maneira, como o trabalho do ator. Qualquer passo falso em cena, qualquer erro na execução de sua arte, pode levá-lo a perder a atenção do espectador – e fazer fracassar a obra- tornando tudo irrelevante. E, como se sabe, o ator é um sucessor laico do sacerdote ritualístico, tendo o teatro em suas origens gregas valor pedagógico tão profundo que, ainda hoje, muito se pode aprender com sua dramaturgia. Além disso, “ profiteri” (aquele que fala à frente, que faz declaração pública) que dá origem à palavra “professor” soa pouco diferente do grego prophetés “ aquele que fala pelos deuses”.
E agora me digam se não é interessante pensar , a partir deste pequeno devaneio lírico- etimológico, sobre as tantas queixas a respeito do grau de autoridade e prestígio que a profissão teve ou deveria ter? O que eu quero dizer é que identificar-se como professor já significou, aqui mesmo nesta geografia, a garantia de um púlpito privilegiado e muitos ouvidos atentos, um amplificador para sua voz sempre ligado, uma credencial de autoridade quase inconteste.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Creio que só eu e meus contemporâneos da era pré internet e seus mecanismos de buscas sabemos o quanto custava obter uma informação qualquer, ainda que se tivesse dinheiro para adquirir uma Enciclopédia e suas atualizações ou uma boa biblioteca na escola. Só nós, os que tivemos professores dedicados o suficiente a nos instruir – e não apenas nos informar- e, sobretudo, nos ensinar como operar relações entre diferentes campos do conhecimento e aplicá-los ao nosso cotidiano e à vida, sabemos a diferença que pode fazer um profiteri que não desiste de você, por mais que sua estupidez o irrite.
Tive a imensa sorte de contar com dezenas deles pelo caminho e talvez, também por isso, tenha tanto respeito e gratidão por eles quanto tenho por quem me gerou e protegeu enquanto não pude fazê-lo com autonomia.
Daí que, no começo do ano, avistando um concurso para professores da rede pública em cidade da região da grande São Paulo, resolvi me inscrever e prestei o exame. Tantas coisas aconteceram desde então que acabei me esquecendo do assunto. Por isso, foi com surpresa que recebi o telegrama convocando aos exames médicos de admissão e , animada, fui verificar na internet quais seriam as condições de trabalho e os possíveis locais de atuação. Estava quase eufórica, ao ponto de visualizar em fantasia aqueles pares de olhinhos brilhantes, aquelas dezenas de bocas infernalmente falantes, aquelas orelhinhas desatentas que eu teria de seduzir, custasse o que custasse. Mas o problema de custo se apresentou muito antes do esperado. Com o pagamento da hora-aula de nove reais e cinquenta centavos, sem a garantia de carga horária ou duração do contrato, com um vale alimentação que me obrigaria a uma dieta pouco saudável, somando ao preço do transporte até o local de trabalho e a duração dos deslocamentos computados, concluí: sou muito pobre para poder me dar ao luxo de ser professora. Talvez não seja mesmo tão competente ou indispensável aos alunos que teria quanto foram meus mestres para mim- e com isso me consolei.
Mas convenhamos. Até mesmo missionários têm seu sustento garantido pelas igrejas que os abrigam. Nem falo dos que, inclusive, têm acesso a uma existência repleta de luxos.
No fundo, me senti envergonhada. Sem coragem de divulgar o nome da cidade por respeito aos valorosos profissionais que lá estão trabalhando. Mas que os gestores públicos e os munícipes daquela cidade perderam muito do respeito que poderia ter por eles, não nego.

Categorias: Sociedade | 1 Comentário

Pelo amor de deus, tragam de volta a URSS


guernica 3

Há uma lenda, cuja veracidade nunca consegui apurar, de que Picasso teria respondido a militares alemães a pergunta “foi você que fez esse quadro?” com a seguinte negativa: “não, foram vocês que fizeram”. Como se sabe, a obra aqui reproduzida (Guernica) representa o bombardeio aéreo sofrido pela cidade homônima durante a Guerra Civil Espanhola por aviões alemães, apoiadores de Franco. Em uma interpretação usual da obra, a lampadinha no centro ao alto da pintura representa a luz da razão abandonando o quadro geral da civilização. Difícil não pensar nisso hoje, quando o número de palestinos mortos na nova edição do ataque à gaza chega perto dos 2.000. A luz parece, definitivamente, ter fugido do cenário.

Muito se tem falado sobre o genocídio cometido contra o povo palestino, em nome da segurança do Estado de Israel. Segurança é uma espécie de palavra mágica que justifica, tanto aqui como lá, toda sorte de excessos e atrocidades. Leis de segurança nacional invariavelmente servem para cancelar direitos daqueles caros à democracia burguesa desde John Locke. Vide a nossa própria experiência recente, tanto dos anos de ditadura militar, quanto na reedição pelo congresso deste ano, para fortalecer a repressão ao povo nas ruas que luta por maior participação política na condução do país. Para muitos israelenses, dá-se exatamente o mesmo. De mãos dadas com o genocídio palestino, há leis severíssimas para conter a oposição interna às políticas ultradireitistas do Likud. É o caso por exemplo de Mordechai Vanunu, técnico nuclear israelense que passou anos preso, em regime de incomunicabilidade, por ter aberto o jogo em relação ao programa nuclear do seu país (Israel até hoje não nega nem confirma ter a posse da bomba nuclear). Pessoas que se recusem a prestar o longo serviço militar do país também amargam anos de cadeia (objeção de consciência não é um conceito muito valorizado por lá), e opositores de esquerda à guerra são sistematicamente perseguidos.

Talvez alguém se pergunte qual a razão de se ressaltar sofrimentos israelenses nesse momento, mas creio que temos de ter sempre em mente a diferenciação entre o Estado fascista de Israel e a questão dos judeus, até para nos diferenciarmos do antissemitismo que, mais uma vez, está crescendo no mundo. Antes mesmo da nova ofensiva israelense, os judeus franceses já haviam iniciado uma imigração do país, devido à ascensão do ultranacionalismo (Front National, agora dirigido pela horrível Marine Le Pen) e pelo recrudescimento dos ataques a símbolos e locais do judaísmo (sinagogas, escolas judias, cemitérios etc.). Em um país como a França, com uma longa e deplorável tradição de perseguição aos judeus, e em um continente que perpetrou o que até hoje é de longe o maior genocídio da história, isso são péssimas notícias. O ponto central de toda a forma é: não são apenas os humanistas do mundo e os judeus mundo à fora que se opõem à nova versão de atrocidades israelenses, mas a própria população de Israel está longe de apoiar unissonamente a violência que tem caracterizado a relação com os palestinos.
Para piorar, há ainda uma grande hipocrisia do mundo árabe de maneira geral em relação à questão da palestina. Países de governantes da região usam o discurso pró-palestina muitas vezes em benefício das próprias agendas, sem nenhuma consideração real para com a sorte desse povo. Uma solução, que seria uma péssima solução, pois um povo inteiro não deve ser removido da sua terra natal, seria assimilar os palestinos a algum país vizinho. Afinal são todos árabes, são todos mais ou menos da mesma religião e falam mais ou menos a mesma língua. É de se esperar que essa assimilação não seria assim tão traumática, e terras há de sobra (muito mais do que na reduzida área de Israel, pelo menos). Porém, ninguém nunca se prontificou. Desde a guerra de independência (como ela é conhecida nos manuais escolares de Israel) em 1948, os palestinos foram sendo continuamente expulsos do seu território, que cada vez encolhe mais. E se tornaram, a partir de então, um povo de campos de refugiados. O primeiro país a recebê-los em massa foi a Jordânia, que jamais no entanto os assimilou. Viveram segregados e em péssimas condições, até que os conflitos decorrentes disso se tornaram insustentáveis, e o rei Hussein mandou seu exercito massacrá-los. Esse episódio ficou conhecido no mundo árabe como Setembro Negro (daí que veio o nome do grupo terrorista palestino que atacou a delegação de Israel nos jogos de Munique). Foram então mandados para o Líbano, onde encontraram mais campos de refugiados e mais massacres – campos de Sabra e Chatila, quando os maronitas (cristãos árabes) que deveriam proteger esses campos viraram para o lado e fingiram que não estavam vendo enquanto o exercito israelense perpetrava o massacre.

O Hamas, pelo seu lado, também é um grupo terrorista e indefensável. Diferentemente da antiga OLP, que era uma frente da qual vários grupos faziam parte, a maioria dos quais eram laicos (havia nacionalistas, marxistas e etc., todos com o programa comum da independência de Israel), trata-se de um grupo de forte orientação religiosa e que tem poucos pudores em prejudicar os próprios palestinos na consecução dos seus objetivos (Hamas é uma sigla que significa em árabe “palestina livre do mar ao Jordão”, o que implica na anulação dos judeus do Estado de Israel). Porém, ao que tudo indica, no momento eles perceberam o que Arafat e a OLP perceberam há 20 anos: que Israel é militarmente invencível naquele território. Ao que parece, eles estão com predisposições a retornar à mesa de negociação, mas como Israel não atende nenhuma das suas reivindicações, todas razoáveis, eles optaram por retornar a “política dos mísseis” (ao final, listo essas reivindicações).

Não parece haver saída para cenário tão lúgubre. No curto prazo, pelo menos, não creio que de fato haja. A população palestina no entrementes segue submetida a sofrimentos indescritíveis e em escalada. A solução não virá de estados árabes desinteressados, pois eles simplesmente não existem. Afora isso, mesmo que quisessem, não é do ponto de vista político, e menos ainda do militar, que eles poderiam vencer Israel. No entanto, essa política genocida e burra está plantando a destruição no longo prazo daquele país. Além de ter se tornado um Estado francamente fascista, é um país que depende fortemente do poder militar e das costas quentes junto aos EUA para sobreviver. Manter-se em uma posição de ponta do desenvolvimento e do investimento em tecnologia é uma incerteza. E poder militar passa, a hegemonia americana também. Nesse dia, entregue à própria sorte, como poderá Israel sobreviver sem apoio internacional nenhum e cercado por uma vizinhança agora com todas as razões do mundo para odiar o país? É um raciocínio curto-prazista e equivocado, equivalente àquele que nos leva a dormir tranquilos à noite ignorando que o apocalipse já começou e que o mundo está à beira do colapso.

Há muito o cenário no território de Israel foi desenhado pela ultradireita do país e pelo fanatismo religioso dos ortodoxos e a sua insistência em avançar os assentamentos em áreas palestinas como um verdadeiro apartheid, com uma população oprimida, morando em enclaves, com menos direitos e fortemente segregada. Semana passada, como provocação, escrevi que era hora do mundo iniciar boicotes e retaliações, como as que conduziram com muito sucesso à ruína do regime da segregação sul-africano (sem desconsiderar a oposição interna da população negra guerreira e organizada, que também implodiu o sistema por dentro). Penso, porém, que a mesma solução não se aplica assim tão fácil à Palestina. O regime da apartheid havia deixado de ser interessante para o ocidente havia tempo, quando ele caiu (como a expulsão do país da Commonwealth deixou bem claro). Enquanto os EUA mantiverem a sua política de controle (direto ou indireto) de todas as fontes de recursos energéticas do planeta, Israel será um mal necessário. O preço que o país pagará, no entanto, será caro. O pior quinhão, é evidente, fica com os palestinos. E eu temo que eles se tornem mais um povo desaparecido da história, como os babilônicos, os fenícios ou os etruscos.

XXXXXXXXX

Eu nunca imaginei que em minha vida fosse assistir à reedição de tantas desgraças de um passado que, acreditava eu, estivesse superado. Judeus fugindo de uma Europa em crise e cada vez mais intolerante, relações Israel x mundo Árabe voltando à estaca zero e, no nosso glorioso Brasil, a reestruturação do Centro de Informações do Exército para cuidar do “problema” dos movimentos sociais. Tragam de volta, por favor, a União Soviética.
Minha honesta pergunta aos entendidos, pois eu realmente não tenho uma resposta para isso: o SNI foi extinto pelo Collor. O Fernando Henrique acabou com os ministérios do exército, da marinha e da aeronáutica. Esse processo se chamou de “desmilitarização das forças de segurança”. Por que CARALHOS o CIE está sendo reestruturado durante o governo Dilma?

Categorias: Política | Deixe um comentário

Para conhecer cidades


selaron

A primeira medida para conhecer a cidade é sair do veículo próprio, quando se tem um. Fechar-se na máquina-propriedade acompanhado/a da irritação com o sinal vermelho, do carro lento na pista errada, do pedestre incauto atravessando a via geram uma autofelação constante, em que o falo simbolizado pela marcha e pelo carro que adentra as vias cria a ilusão do desbravamento corajoso aliado à ideia de que suas necessidades são mais importantes que a dos outros.

Convido, então, ao passeio. A pé, de ônibus, de trem, de metrô. É importante variar os meios, atento aos trajetos e aos transeuntes, num caminhar ambíguo, porque simula distração, mas se concentra nos pormenores e nas impressões dos sentidos.

Só é possível conhecer os espaços, considerando os aromas nem sempre agradáveis das vias, as matizes nem sempre policromáticas dos ambientes, os sons nem sempre harmônicos que integram vozes, músicas, buzinas, britadeiras, tiros, o clima com o arrepio da pele causado pelo vento gelado nas sombras de inverno.

É importante um olhar omatídeo, como o dos insetos que enxergam simultaneamente em várias direções. Não exatamente para proteger a bolsa, mas para se dar conta das vidas pulsantes ou dormentes que nos cercam. É possível supor histórias marcadas nos rostos de quem vai, de quem vem e de quem se queda sentado no meio-fio ou deitado, fazendo da rua a casa, do céu o teto, do chão a cama.

É preciso sofrer encontrão, ouvir desculpas, não ouvir desculpas, pisar na imundície, irritar-se, limpar-se, sentir fome, saciar-se ou não. É preciso observar as cores, os odores, os amores. É preciso agir como um turista de si mesmo para abrir-se ao olhar tão tomado do hábito, para enxergar com mais vida as vidas passantes, para trocar a automatização e o enclausuramento pela individuação não individualista, pelo reconhecimento da humanidade em si e no outro, para conhecer a cidade e um pouco de todos que nela habitam. 

selaron3

 

Categorias: Reflexões, Verso & Prosa | Tags: | Deixe um comentário

É dia de salvar as aparências da democracia (convocação para o ato de hoje da Cinelândia) – e uma notinha inevitável sobre a Palestina


5312_1455142258082398_765078029722809050_n

Como todos sabem, vivemos em novo estado de exceção no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, decorrente da reação violenta por parte do Estado desde o início das mobilizações populares que tomaram o país a partir do ano passado. Tal processo de acirramento das lutas conheceu seu novo auge com a prisão, há umas três semanas, de diversos manifestantes apontados como “lideranças anarquistas” (você não leu errado, é isso mesmo), em um processo criminal que já entrou com louvores para a história das farsas jurídicas.

Ninguém com um mínimo de inteligência e de pensamento crítico ignora que a maioria da população brasileira vive em eterno estado de exceção, nas favelas, nas aldeias indígenas, nas periferias e demais “zonas especiais de exclusão da democracia” do capitalismo periférico. Todos os movimentos sociais que encamparam a luta das ruas, desde o ano passado, têm aguda consciência disso. E têm, na medida de suas possibilidades, tentando combater essa ditadura cotidiana seletiva a que a maioria das pessoas é submetida: seja na insistência da campanha “cadê o Amarildo”, que traz a questão dos desaparecidos da democracia; seja lutando contra as remoções, o aspecto mais nefasto da realização dos chamados “grandes eventos” (grandes farras do capital, isso sim); seja na militância cotidiana voltada à denúncia dessas condições, à assistência jurídica dos atingidos pela violência do Estado e etc.

No entanto, a prisão de uns poucos, como veremos, está encetando a perseguição de muitos. Surpreendentemente, o Instituto de Defensores dos Direitos Humanos, rede de advogados ativistas que defende manifestantes, foi taxado pela Polícia Civil de “nave mãe” dos inacreditáveis 80 grupos investigados no inquérito (mando a lista ao fim), e teve, sob essa desculpa, seus telefones grampeados pela polícia. O perturbador é que o IDDH defende, além de manifestantes, vítimas da violência do Estado em favelas (são os responsáveis pelo acompanhamento da família do Amarildo, por exemplo), ou seja, a polícia está grampeando o escritório de advocacia do pessoal que investiga e denuncia assassinatos cometidos pela polícia. Desnecessário dizer que isso é gravíssimo. Isso põe a vida de testemunhas em risco, por exemplo, um escândalo que, é claro, não recebe a menor menção nas páginas dos jornalecos porta-vozes da direita histérica, como o Globbels. Perigosas são a Eloisa Samy e a Sininho, a polícia é doce e inofensiva. É evidente que as manifestações estão sendo usadas, mais uma vez, para justificar o aumento da repressão em áreas que não têm rigorosamente nada a ver com elas.

O número e a qualidade das organizações e entidades criminalizadas nesse inquérito (sob o beneplácito da “nave mãe”) tornaria-o risível, se não fosse o estrago bastante sério que essa palhaçada está causando na vida de muitos. Observem que, além dos grupos e dos sindicatos que estão à frente das manifestações e/ou greves dos últimos meses (ano), há dezenas de grupos culturais ligados a favelas, de advogados ligados à defesa dos direitos humanos da população dessas áreas, fora o Complexo do Alemão (sic) que aparece como um todo. Criminalizaram a própria carência e todos os grupos que lutam pela defesa e a inclusão dos moradores das áreas mais pobres da cidade. Há uma tendência igualmente inexplicável para perseguição a grupos feministas e de defesa dos direitos da mulher, como a Marcha Mundial das Mulheres.

A outra péssima notícia da semana é a reorganização do infamante Centro de Informações do Exército (CIE). Proposto ao Castelo Branco pelo Costa e Silva, o projeto foi engavetado, pois o primeiro general presidente da ditadura militar considerou-o gorilesco demais. Quando Costa e Silva, personagem ligado à linha dura dentro do golpe, assumiu a presidência em 1967, uma das suas primeiras medidas foi o estabelecimento do CIE, para realizar os seus sonhos de policial tarado. Daí em diante, a ficha corrida do Centro é bem conhecida: infiltrações, tortura, troca de informações e de presos com ditaduras vizinhas, contato com a CIA, censura política, censura aos meios de comunicação e formação de um grupo terrorista de direita em seu seio (o chamado grupo secreto). Não sou daqueles que crê em um golpe militar no horizonte próximo. Diferentemente de 1964, o capital internacional não está em risco no país. Naquela época, João Goulart tentava a aprovação de uma Lei de Remessa de Lucros no congresso, o que limitaria a evasão de capital do país. Hoje, no dizer orgulhoso de certos economistas e na visão do sistema financeiro internacional, o Brasil é o “aluno aplicado”, que fez a lição de casa e “respeita os seus compromissos internacionais” (leia-se, paga horrores de juros para banqueiros e não interfere no caminho de entrada ou de saída do capital especulativo). No entanto, essa reorganização do CIE somada à reativação da Quarta Frota da marinha americana, em 2008, pelos EUA (a que “cuidava” do Atlântico Sul e que viria em socorro aos golpitas de 1964, caso houvesse problemas – operação “Brother San”) não podem trazer boas lembranças para ninguém.

Por fim, nossos companheiros ainda não estão seguros de maneira nenhuma. Ontem, o Ministério Público recorreu contra a concessão dos Habeas Corpus, como foi anunciado pelos jornais. Vindo da Globo, isso cheira a comemoração antecipada. Fora isso, devemos lembrar de que todos ainda respondem a um processo criminal, e devemos todos reivindicar o seu arquivamento. Chegamos ao ponto em que a “democracia”, dando uma de general João Figueiredo, prende e arrebenta para garantir… a própria democracia. O ato de hoje, portanto, é essencial para não darmos mais passos atrás do que já temos dado. Ele foi organizado pelo Comitê Popular Contra o Estado de Exceção, que reúne atualmente mais de cem entidades, entre organizações, sindicatos, coletivos, partidos e todos os que se opõem ao autoritarismo e ao crime institucional. O Comitê funciona em plenária, o que significa que todas as decisões sendo tomadas em assembleia e sem direção. É aberto a todos e as reuniões acontecem normalmente às segundas no Sindsprev (a próxima é na segunda após o ato, em 4 de agosto). Para os interessados em agregar, segue o link:

https://www.facebook.com/events/790846367613875/?ref_newsfeed_story_type=regular

Uma notinha inevitável sobre a Palestina

Recentemente, Yigal Palmor, o porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel, se referiu ao Brasil como “anão diplomático”, além de utilizar diversos outros insultos nada diplomáticos, diga-se de passagem, devido ao fato de o país ter chamado o seu embaixador para consultas (trata-se de uma ameaça velada de ruptura de relações, o que, em todo caso, não vai acontecer). Muito burrinho esse porta-voz. Além de péssimo diplomata, não sabe nada sobre o Brasil. No lugar dele, eu mandaria o país parar com o genocídio dos seus índios, da sua população negra, dos seus homossexuais, das suas mulheres e dos seus transgêneros antes de ir aborrecer o genocídio dos outros. Aliás, dia 22 de agosto há justamente uma convocação para a Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro:

https://www.facebook.com/ReajaOuSeraMortoReajaOuSeraMorta?fref=photo.

No entanto, vale ressaltar, não se trata aqui de três adolescentes israelenses mortos por um foguete do Hamas. Trata-se da pura e simples aniquilação dos palestinos enquanto povo. Se você observar bem o mapa da Cisjordânia, aqueles pontilhados encravados no território de Israel não ficam nada a dever aos bantustões da África do Sul do apartheid – enclaves onde a população negra era obrigada a residir, de onde só poderia sair para trabalhar, nas áreas brancas, e com a apresentação de um documento equivalente a um passaporte interno, passando por verdadeiras fronteiras guarnecidas. É assim que os palestinos vivem, na Cisjordânia, hoje. A faixa de Gaza, onde ao menos há continuidade territorial, está fechada há oito anos, recebendo comida e medicamentos apenas passando pelo crivo de Israel, e passa agora por uma nova onde de bombardeios que matam basicamente civis não relacionados ao Hamas. Vamos lembrar que a pressão internacional contra a África do Sul na década de 1980 rendeu resultados até mesmo muito acima do esperado. Artistas, turistas, promotores de grandes eventos internacionais, presidentes que gostam de passear de avião, pessoas que vendem armas e etc. comecem pelo amor de deus a boicotar Israel.

A lista das organizações “terroristas”:

01) FIP Frente Independente Popular;
02) FIST -Frente Internacionalista dos Sem Teto;
03) FNT e Frente Nacional dos Torcedores;
04) GLP – Grupo de Lute dos Petroleiros;
05) MEPR Movimento Estudantil Popular Revolucionário;
06) MFP – Movimento Feminin@ Popular;
07) MRP – Movimento de Resistência Popular;
08) OAT L Organização Anarquista Terra e
Liberdade;
09) Oposição de Resistência Classista (ORC);
10) RECC » Rede Estudantil Classista e Combativa;
11) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
12) Universidade Indígena Aldeia Maracanã;
13) UV Unidade Vermelha;
14) Dia do Basta’,
15) Ocupa LAPA;
16) Ocupa Câmara; 1
17) Ocupa Cabral;
18) Anonymous Rio;
19) Black Bloc RJ;
20) Mídia Ninja;
21) Coletivo Mariachi;
22) Coletivo Calisto;
23) Coletivo Rebaixada;
24) Coletivo Tempo de Resistência;
25) Coletivo Desentorpecendo a Razão;
26) Coletivo Rosa dos Ventos;
27) Coletivo Vinhetando;
28) Coletivo Projetação;
29) Coletivo Margaridas Urbanas
30) Coletivo SUBURBAGEM;
31) Coletivo Das Lutas;
32) Coletivo SerHurbano;
33) Coletivo Inimigos do Rei;
34) Coletivo VÖ Pixá Pelada;
35) Coletivo PACAL;
36) Coletivo PaguFunk;
37) Instituto Raízes em Movimento;
38) Alemão de Noticias;
39) Complexo do Alemão;
40) Jornal Voz
das Comunidades;
41) Mulheres de Atitude – AMA;
42) Barraco #55;
43) Descolando Ideias;
44)APAFUNK;
45) Porque ou
46) Favela não Se Cala;
47) Fórum Social de Manguinhos;
48) Fórum Rode da Juventude
49) Favela em Foco
50) Norte Comum;
51) Observatório de Favelas;
52) Observatório de Conflitos Urbanos;
53) Fala Roça;
54) Marcha Mundial das Mulheres – MMM;
55) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
56) Rio Na Rua;
57) Grupo Teatro da Laje
58) Surbanitas;
59) Núcleo Socialista da Tijuca;
60) Linhas de Fuga;
61) Fórum Popular de Apoio Mútuo;
62) Movimento Direito pra quem DPQ;
63) Arteiras;
64) Rede de Instituições do Borel;
65) Ocupa Borel;
66) Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja);
67) Mídia Independente Coletiva MIC;
68) Tem Morador;
69) Suburbano da Depressão;
70) Movimentos Cidades Invisíveis;
72) Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia,
73) Favela não se cala
78) Sindsprev
79) Sindpetro
80) SEPE

Categorias: Política | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. O tema Adventure Journal.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.280 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: