O PT nunca me decepcionou.


Agora, com publicações mais esparsas, decorrentes duma vida profissional e acadêmica, por ora, mais turbulenta, acrescida dum pontual resguardo pós-operatório que me obriga aa privação quase completa duma série de atividades que incluam mínimos esforços físicos, me resta, deitado, ler e escrever, o que faço agora, felizmente, aqui no blogue.

Quando se passa a escrever menos, naturalmente, o número de assuntos no cabide se amplia. Em meio aa morte de Eduardo Campos e a ressurreição retumbante e sorridente da direita conservadoríssima (sim, Aécio é direita ortodoxa, mas liberal), via Marina Silva, me bateu afã de me posicionar, muito claramente, quanto a este contexto, o que passa, invariavelmente, por botar pingos nos is da Dilma e de seu partido, em meio a tudo isso.

marina silvaSem o blablabla vazio de que Campos era um democrata, um “republicano” (sabe-se lá o significado disso) ou ainda sem o cretino endeusamento post mortem e mesmo sem considerar que compunha a mesma esquerda (em sentido lato, por favor) padrão fifa em que se enquadra o próprio PT, num governo de todo neoliberal, de jogo duríssimo com o funcionalismo, etc, o fato é que, após a sua fatídica morte, tá se processando uma clara inflexão conservadora na movimentação de campanha. Isso numa campanha que já não tem, decidida e sacramentadamente pelos poderes oficiais e oficiosos, por horizonte de massas nenhuma perspectiva, ainda que pífia, de contestação ao modelo neoliberal aí instaurado e patinando a longas pernadas. Não bastasse, isso ocorre em sincronia com o recrudescimento de ações coercitivas no país, seja aos trabalhadores organizados em seu movimento sindical, seja aos trabalhadores em favelas, periferias e situações de moradia precarizada- aí incluídos, claro, os que foram vítimas de remoções recentes pra Copa, seja aos que protestam contra a truculência, o status quo…

Em todo esse contexto, o que mais quer a militância apoiadora-insistente de Dilma é configurá-la como a contraposição possível e, segundo eles, óbvia a todo esse quadro. Fazem isso de forma reducionista (“é o Brasil da Senzala contra o da Casa Grande”, por exemplo), arrogantemente desqualificadora (ignorando mesmo candidaturas do campo democrático-popular), chantagista (imputando/cobrando a responsabilidade pela derrota da direita clássica no apoio de peito aberto aa candidatura petista). É muito pingo pra pouco i.

Se há, defronte a este texto, um leitor antipetista raivoso, sinto dizer que se decepcionará. Pretendo ser mais sério e profundo aqui do que a fanfarronice tresloucada e esquizofrênica, quando não sórdida e cínica, no fundo, da direita mais asquerosa que há, de que “a culpa é da Dilma/ do PT”. Este blogue tem cérebros.

dilma petralha

Petralha maldita.

Vamos começar por esclarecer que o título deste texto não é irônico, mesmo. Desde os sorrisos e empolgação despojada de 1989, nunca esperei do PT algo de transformador. Em 89, eu não votava, mas votaria, se pudesse, convicto em Brizola. Nas campanhas seguintes, sempre compreendi que o PT era tão somente, quando muito, reformista. Suas proposições centrais, formuladas seguidamente por sua direção nacional, não colidem frontalmente com o que se tem visto. Talvez haja, isso sim, confronto entre a expectativa criada por tantos militantes e a concretização do governo petista. Contudo, isso tá muito mais no campo dum simbólico construído ao longo das décadas, pelo legítimo desejo e sonho dessa militância, embora nunca verdadeiramente respaldado institucionalmente por seu partido. O PT nasceu pra não ser transformador, pra, no estilo mais clássico da histórica social-democracia aa europeia, gerir o capital, sem lhe eriçar sequer dois fios de cabelo que fossem. De revolucionário, o PT sempre teve no máximo as leituras de parte de sua militância. Seu nível de institucionalização e de apego a todo o parelho institucional de que pudesse dispor, rifando movimento em prol de máquina no pior aprendizado do legado do Leste Europeu, sempre foi a tônica da direção nacional aa maioria das tendências.

PT Decadente - Em todo o Brasil

Lembro duma reunião política, pré-2º turno das eleições de 2002 de que participei, já com a expectativa da eleição de Lula e duma avaliação que fiz dizendo que não esperava dum governo Lula nada mais do que um governo Sarney melhorado. Essa afirmação rendeu alguns olhares de estranhamento ou mesmo de “que viagem!”. Ora, o que se esperava: a ruptura com o neoliberalismo?! Vinda do PT?!

Mesmo a forma como o PT lida com o restante do campo democrático-popular hoje não é novidade alguma. O hegemonismo arrogante tá no DNA petista desde o ABC, desde as discussões da formação da CUT. De chapa a grêmio estudantil aa presidência da república esse é o modus operandis deles.

Assim, muito sinceramente, não guardo qualquer decepção com qualquer governo petista. Tá tudo na conta da gestão do capital, índole muito anterior aa vitória de Lula em 2002. Da reforma da previdência aa repressão/coação- sem falar, claro, na cooptação- dos movimentos sociais tudo se inscreve nessa lógica. A quem tenta atribuir aos governos Lula-Dilma a legitimidade popular dum governo Chávez, por exemplo, taí uma diferença crucial. Este não emparedou os trabalhadores, pra afagar as camadas médias. O PT tenta, até obstinadamente, se demonstrar dócil ao capital, mas, pairam setores neuróticos, em permanente e militante desconfiança e detratação, como a maior parte da mídia oficialesca e a posição “de recalque de classe” da classe média brasileira. Aliás, esses são os setores que, com sua histeria, mais justificam o rebaixamento da discussão a um nível “Casa Grande x Senzala”, o que só despolitiza o processo. A população trabalhadora, aí incluída a “subtrabalhadora” tão incensada no discurso petista, não está sendo organizada pra construção dum projeto seu. Ao invés disso, resta um paternalismo assistencialista, talvez duma dimensão histórica equivalente a de Vargas, que, intencionalmente, não organiza. E, justiça seja feita, Getúlio, do alto de seu autoritarismo, perseguição e paternalismo, criou instrumentos que até hoje servem aa organização dos trabalhadores, em termos formais. Nem Orçamento Participativo- ainda que instrumento cheio de limitações que era- em prefeitura petista existe mais. E, sinceramente, isso também não é contraditório ou decepcionante. Óbvio que esse tão propalado instrumento, num dado período da história do PT, cumpria um papel que fazia sentido aa lógica de oposição em construção acumulando forças a voos mais altos.

lula_chavez_293O pior do PT, em seu trajeto de gestor do capital no Estado brasileiro, não é todo o conjunto de atitudes que lhe soam contraditórias, insisto, apenas no campo simbólico que lhe foi construído ao redor. Malufs, Sarney, Collors, Cabrais e todo o restante é repugnante, medonho e fétido. Mas, muito, mas muito mesmo, pior do que isso é ser o bom gestor do sistema financeiro, acolhedor aos bancos, ao mercado especulativo e tudo que lhe é implicado. E ainda me vem o Santander roer a corda da campanha da Dilma?! É muita ingratidão, chega a ser filhadaputice. O Santander Brasil chegou a ser responsável por 1/4 do faturamento do banco no mundo. Isso no período mais crítico da crise na Espanha. Isso é pagar com traição a quem lhe deu a mão.

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Considerando tudo isso, creio fortemente que a campanha petista vai mais pra direita junto com todo o resto. Não seria a primeira vez que isso ocorreria. O nível de institucionalização petista, agora, é o máximo. A reprodução dessa máquina, em si, é um objetivo a se cumprir. E, com objetivos, sinceramente, reformistas. Não é questão de sacanagem ou não. É no que o Partido, infelizmente nomeado, dos Trabalhadores, crê, desde sempre.

É claro que se pode objetar a todo este texto que, ainda que no plano simbólico, o governo PT cumpre um papel que se reflete nas medidas pró-população mais desfavorecida implementadas pelo governo petista central. Mais do que isso, pode-se argumentar que ele eleve, ou, pelo menos, paute com mais centralidade contradições sistêmicas. É verdade. O simbólico tá no plano do ideológico e, de forma alguma, é desprezível. E é isso e tão somente isso que me faz considerar qualquer possibilidade de voto numa candidatura Dilma num 2º turno que, espero, exista. É por esse motivo que não posso aceitar que, por exemplo, na disputa em meu estado, o RJ, se diga que Garotinho Ou Pezão (o vice do desgovernador Cabral) sejam a mesma coisa que Lindberg Farias, que, aliás, tá aa esquerda da Dilma- não que isso tenha grande impacto institucional efetivo.

Feita esta análise, pondo pingos nos possíveis is, era isto: deixar claro que o PT nunca teve o poder de me decepcionar. Pra quem se importa com o trabalhador organizado, lidar com esse governo e suas candidaturas envolve um nível de dialética cotidiana que precisa ser praticada com muita atenção e seriedade. Eu tento lidar com a bestialização antipetista dum lado e com o petismo no poder, desta forma, sem culpas, e sem expectativas.

Há, no campo histórico democrático-popular, opções outras, Luciana Genro (PSOL), Mauro Iasi (PCB), Zé Maria (PSTU), Rui Pimenta (PCO). Essas opções também existem, para além do jogo institucional-midiático de cartas marcadas, nas ruas, no dia a dia. Ou, pelo menos, deveriam existir. Não é eleição que muda a vida.

 

 

 

 

 

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Uma das vias escorregadias da militância feminista


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Você já percebeu quantas frentes de militância integra sem se dar conta? Não tem a ver com filiação, nem sindicalização, muito menos partidarismo, mas, certamente, tem e muito a ver com política no sentido menos estrito do termo, embora não se possa supor ingenuamente a inexistência de linhas ideológicas bem demarcadas a cada defesa de ponto de vista.

Múltiplas são as formas de militar por uma causa, sendo a atitude e a motivação norteados pela defesa do que se julga o justo, o bom e o adequado para o melhor funcionamento das engrenagens desse vasto mundo cão, certamente no afã de torná-lo menos rapino.

O que me chama a atenção nessa constelação de possibilidades é certa falta de coerência que muitas vezes parece acompanhar escolhas aparentemente contraditórias. Não estou falando da pizza com guaraná diet, mas do discurso ambíguo que prega o desmerecimento sistemático do outro ao mesmo tempo em que reivindica para si respeito e legitimidade. Estou falando do discurso que denuncia a mercantilização da figura feminina, mas associa a manifestação do grito das oprimidas à liberação visual dos mamilos. E nesse bojo, ainda tenho questões ainda não resolvidas sobre a prostituição, assunto sobre o qual espero me debruçar com mais critério para elaboração textual futura .

Li recentemente em página feminista a pregação do ódio ao macho, o falo opressor hegemônico, responsável por todos os tipos de atrocidades já cometidas e ainda por se cometer na face da Terra. Preciso dizer que sou contra a dominação machista, com estrutura de repetição ancestral entre homens, mulheres e demais gêneros, mas nada tenho em especial contra os homens. Embora sejam parte do terreno sufocante que trilhamos na conquista sempre árdua de direitos, não podem ser responsabilizados  individual e coletivamente por todo o tipo de violência de gênero.

Não há absolvição na lógica que pretendo desenvolver, mas sim o combate à culpabilização prévia. Somos todos parte de um tecido engelhado de rupturas e muito ainda precisa ser discutido sobre as transformações necessárias para a promoção da igualdade.

Um dos caminhos talvez seja analisar de que forma todos contribuímos para reforçar os nós que prendem as minorias a um espaço de confinamento ideológico, restringindo-lhes a fala, a atitude, a expressão do pensamento ao mesmo tempo em que se ensaia uma liberação momentânea e transgressora, praticamente uma catarse, restrita a marchas (não nego a importância delas, ok?) . Papo para outra semana.

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Iraque: feliz aniversário, EUA


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Este mês, a primeira guerra do golfo fez 24 anos (2 de agosto de 1990). É o mesmo que dizer que os EUA bombardeiam o Iraque há 24 anos. Não sei se exatamente em comemoração à data, mas o Obama anunciou esta semana uma nova rodada de bombardeios ao país. Isso já virou uma tradição política americana. A justificativa (ou será a desculpa?) é ameaça humanitária que o avanço do Isis (sigla em inglês de Islamic State in Iraq and Syria) representa para as minorias curda e yazidi. Diz-se que o novo grupo fundamentalista islâmico promoverá um massacre a estas minorias no seu caminho para Bagdá. Mas o que é o Isis e qual, se é que alguma, ameaça real este estado nômade representa? É fato que a versão do islã apregoada pelo Isis é a wahabita, subdivisão sunita das mais ensandecidas (é a mesma da Arábia saudita, ou seja, é muito obscurantista), o que, por si só, não é boa notícia, a não ser que você seja favorável à pena de morte para homossexuais e pense que a mulher tem que andar sempre três passos atrás do homem pelas ruas.

O Isis surgiu da união de grupos armados em combate na Síria, contra o Al-Assad, e em combate no Iraque, contra o governo xiita instituído pelas forças de ocupação americanas (1). Seu objetivo é a formação de um estado islâmico unido dos dois países, sob a égide da sharia e do islã puro, com pretensões a expansões subsequentes, envolvendo, quem sabe, ao menos uma boa parte dos países árabes. Tornou-se por isso o novo inimigo público número um de Israel e dos EUA, que veem no grupo um novo fator de desestabilização no Oriente Médio.

Para quem conhece um pouco da história dos povos árabes, a primeira coisa que saltou aos olhos em relação ao Isis foi a autoproclamação do líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi (após a autoproclamação, ele mudou de nome para Califa Ibrahim ibn Awwad), como o novo califa. Califa é um título que significa “líder de todos os muçulmanos”, e o regime dos califados começou logo após a morte de Maomé (o primeiro califa foi o seu sogro). Após vários séculos de deterioração, dividido em três (havia um califa em Bagdá, um no Cairo, e um em Cádiz, na Espanha), o regime do califado foi encerrado pela ascensão do Império Otomano, que se autoproclamou “protetor da fé islâmica”. Ora, alguém, nos dias de hoje, que se reivindique este título é mais ou menos o equivalente muçulmano ao Napoleão de hospício. Para se ter ideia, a Al Queda também defende a reinstalação do califado, mas nem Osama Bin Laden em auge de carreira ousou se proclamar o novo califa.

Como era de se esperar, tal declaração não rendeu os dividendos imaginados pelo novo “califa”. Um título deste porte deveria ser reconhecido por todos os muçulmanos, do Marrocos à Indonésia, o que, por certo, não se deu, e até agora tudo que o grupo conseguiu com a pretensão foi uma guerra declarada com a Al Qaeda e a perda de apoio por parte de governos e outros grupos da região. Há grupos sírios, inclusive, que acusam o Isis de ser um fator de divisionismo para a causa sunita, que no fundo é o que está em questão dos dois lados da fronteira.

Grupos como o Isis não são defensáveis. Há acusações de todos os lados contra atrocidades cometidas por eles, e os curdos, povo acostumado a massacres e perseguições, têm toda a razão de temer pela própria segurança. Mas ao que tudo indica, o grupo já se tornou mais uma ameaça superestimada, boa para a máquina de propaganda israelense e americana justificar suas ações. A verdadeira fonte de desestabilização no Oriente Médio são justamente os EUA e Israel, e a única coisa que a existência do Isis prova é a completa falência da política americana para a região, pautada pela invasão de países com base em mentiras, na imposição de regimes estranhos às suas populações e na ganância por recursos energéticos. Esperem por mais explosões.

(1) Na verdade, era para ser um governo representando sunitas, xiitas e curdos, principais grupos religiosos-étnicos do país e com longa tradição de intolerância recíproca. Era para ser uma boa ideia, mas como ela foi elaborada em Washington, não deu certo quando confrontada com a realidade in loco, e a facção xiita governou em desconsideração para com as outras partes, o que lançou o país novamente em convulsões internas.

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O dia em que descobri que não posso ser professora


Vinha acordando todos os dias com saudades da sala de aula. Acontece que sou professora bissexta e explico o motivo. Minha profissão principal talvez seja mudar de ofício de tempos em tempos, na crença insana de que vale a pena trabalhar apenas e tão somente onde posso colocar o máximo empenho, inclusive afetivo. Todas as vezes que me peguei com preguiça ou aborrecimento de preparar uma aula ou ir à escola dei um tempo. Isto, quando o mundo deixa, é a maneira idealizada por todo mundo de ser consumido, me dizem alguns. Mas há também os que sorriem com uma ponta de compaixão por tanta idiossincrasia, em tempos de consensos tais como “a especialização profissional é a única garantia de excelência ! ”. Não contesto mas não me alinho, fazer o quê? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como reza a velha canção.
Cada um com suas crenças, sou das que acredita que é mesmo necessário haver algo de missionário na identidade de um professor. Mediar a relação de habitantes do tempo presente – cheio de máquinas que executam ordens, sem que seus amos tenham a mais pequena ideia de como elas o fazem – com o patrimônio de conhecimento acumulado por ancestrais que deram duro, durante séculos, para produzir nossas vidas tais como são, me parece em tudo com uma tarefa sagrada.
Ocorre também que a palavra “ sagrado” vem do latim “ sacer” que significa “ dedicado a” e a docência, me parece, das profissões que menos permitem qualquer falta na dedicação ao seu exercício. Também a vejo, de certa maneira, como o trabalho do ator. Qualquer passo falso em cena, qualquer erro na execução de sua arte, pode levá-lo a perder a atenção do espectador – e fazer fracassar a obra- tornando tudo irrelevante. E, como se sabe, o ator é um sucessor laico do sacerdote ritualístico, tendo o teatro em suas origens gregas valor pedagógico tão profundo que, ainda hoje, muito se pode aprender com sua dramaturgia. Além disso, “ profiteri” (aquele que fala à frente, que faz declaração pública) que dá origem à palavra “professor” soa pouco diferente do grego prophetés “ aquele que fala pelos deuses”.
E agora me digam se não é interessante pensar , a partir deste pequeno devaneio lírico- etimológico, sobre as tantas queixas a respeito do grau de autoridade e prestígio que a profissão teve ou deveria ter? O que eu quero dizer é que identificar-se como professor já significou, aqui mesmo nesta geografia, a garantia de um púlpito privilegiado e muitos ouvidos atentos, um amplificador para sua voz sempre ligado, uma credencial de autoridade quase inconteste.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Creio que só eu e meus contemporâneos da era pré internet e seus mecanismos de buscas sabemos o quanto custava obter uma informação qualquer, ainda que se tivesse dinheiro para adquirir uma Enciclopédia e suas atualizações ou uma boa biblioteca na escola. Só nós, os que tivemos professores dedicados o suficiente a nos instruir – e não apenas nos informar- e, sobretudo, nos ensinar como operar relações entre diferentes campos do conhecimento e aplicá-los ao nosso cotidiano e à vida, sabemos a diferença que pode fazer um profiteri que não desiste de você, por mais que sua estupidez o irrite.
Tive a imensa sorte de contar com dezenas deles pelo caminho e talvez, também por isso, tenha tanto respeito e gratidão por eles quanto tenho por quem me gerou e protegeu enquanto não pude fazê-lo com autonomia.
Daí que, no começo do ano, avistando um concurso para professores da rede pública em cidade da região da grande São Paulo, resolvi me inscrever e prestei o exame. Tantas coisas aconteceram desde então que acabei me esquecendo do assunto. Por isso, foi com surpresa que recebi o telegrama convocando aos exames médicos de admissão e , animada, fui verificar na internet quais seriam as condições de trabalho e os possíveis locais de atuação. Estava quase eufórica, ao ponto de visualizar em fantasia aqueles pares de olhinhos brilhantes, aquelas dezenas de bocas infernalmente falantes, aquelas orelhinhas desatentas que eu teria de seduzir, custasse o que custasse. Mas o problema de custo se apresentou muito antes do esperado. Com o pagamento da hora-aula de nove reais e cinquenta centavos, sem a garantia de carga horária ou duração do contrato, com um vale alimentação que me obrigaria a uma dieta pouco saudável, somando ao preço do transporte até o local de trabalho e a duração dos deslocamentos computados, concluí: sou muito pobre para poder me dar ao luxo de ser professora. Talvez não seja mesmo tão competente ou indispensável aos alunos que teria quanto foram meus mestres para mim- e com isso me consolei.
Mas convenhamos. Até mesmo missionários têm seu sustento garantido pelas igrejas que os abrigam. Nem falo dos que, inclusive, têm acesso a uma existência repleta de luxos.
No fundo, me senti envergonhada. Sem coragem de divulgar o nome da cidade por respeito aos valorosos profissionais que lá estão trabalhando. Mas que os gestores públicos e os munícipes daquela cidade perderam muito do respeito que poderia ter por eles, não nego.

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Pelo amor de deus, tragam de volta a URSS


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Há uma lenda, cuja veracidade nunca consegui apurar, de que Picasso teria respondido a militares alemães a pergunta “foi você que fez esse quadro?” com a seguinte negativa: “não, foram vocês que fizeram”. Como se sabe, a obra aqui reproduzida (Guernica) representa o bombardeio aéreo sofrido pela cidade homônima durante a Guerra Civil Espanhola por aviões alemães, apoiadores de Franco. Em uma interpretação usual da obra, a lampadinha no centro ao alto da pintura representa a luz da razão abandonando o quadro geral da civilização. Difícil não pensar nisso hoje, quando o número de palestinos mortos na nova edição do ataque à gaza chega perto dos 2.000. A luz parece, definitivamente, ter fugido do cenário.

Muito se tem falado sobre o genocídio cometido contra o povo palestino, em nome da segurança do Estado de Israel. Segurança é uma espécie de palavra mágica que justifica, tanto aqui como lá, toda sorte de excessos e atrocidades. Leis de segurança nacional invariavelmente servem para cancelar direitos daqueles caros à democracia burguesa desde John Locke. Vide a nossa própria experiência recente, tanto dos anos de ditadura militar, quanto na reedição pelo congresso deste ano, para fortalecer a repressão ao povo nas ruas que luta por maior participação política na condução do país. Para muitos israelenses, dá-se exatamente o mesmo. De mãos dadas com o genocídio palestino, há leis severíssimas para conter a oposição interna às políticas ultradireitistas do Likud. É o caso por exemplo de Mordechai Vanunu, técnico nuclear israelense que passou anos preso, em regime de incomunicabilidade, por ter aberto o jogo em relação ao programa nuclear do seu país (Israel até hoje não nega nem confirma ter a posse da bomba nuclear). Pessoas que se recusem a prestar o longo serviço militar do país também amargam anos de cadeia (objeção de consciência não é um conceito muito valorizado por lá), e opositores de esquerda à guerra são sistematicamente perseguidos.

Talvez alguém se pergunte qual a razão de se ressaltar sofrimentos israelenses nesse momento, mas creio que temos de ter sempre em mente a diferenciação entre o Estado fascista de Israel e a questão dos judeus, até para nos diferenciarmos do antissemitismo que, mais uma vez, está crescendo no mundo. Antes mesmo da nova ofensiva israelense, os judeus franceses já haviam iniciado uma imigração do país, devido à ascensão do ultranacionalismo (Front National, agora dirigido pela horrível Marine Le Pen) e pelo recrudescimento dos ataques a símbolos e locais do judaísmo (sinagogas, escolas judias, cemitérios etc.). Em um país como a França, com uma longa e deplorável tradição de perseguição aos judeus, e em um continente que perpetrou o que até hoje é de longe o maior genocídio da história, isso são péssimas notícias. O ponto central de toda a forma é: não são apenas os humanistas do mundo e os judeus mundo à fora que se opõem à nova versão de atrocidades israelenses, mas a própria população de Israel está longe de apoiar unissonamente a violência que tem caracterizado a relação com os palestinos.
Para piorar, há ainda uma grande hipocrisia do mundo árabe de maneira geral em relação à questão da palestina. Países de governantes da região usam o discurso pró-palestina muitas vezes em benefício das próprias agendas, sem nenhuma consideração real para com a sorte desse povo. Uma solução, que seria uma péssima solução, pois um povo inteiro não deve ser removido da sua terra natal, seria assimilar os palestinos a algum país vizinho. Afinal são todos árabes, são todos mais ou menos da mesma religião e falam mais ou menos a mesma língua. É de se esperar que essa assimilação não seria assim tão traumática, e terras há de sobra (muito mais do que na reduzida área de Israel, pelo menos). Porém, ninguém nunca se prontificou. Desde a guerra de independência (como ela é conhecida nos manuais escolares de Israel) em 1948, os palestinos foram sendo continuamente expulsos do seu território, que cada vez encolhe mais. E se tornaram, a partir de então, um povo de campos de refugiados. O primeiro país a recebê-los em massa foi a Jordânia, que jamais no entanto os assimilou. Viveram segregados e em péssimas condições, até que os conflitos decorrentes disso se tornaram insustentáveis, e o rei Hussein mandou seu exercito massacrá-los. Esse episódio ficou conhecido no mundo árabe como Setembro Negro (daí que veio o nome do grupo terrorista palestino que atacou a delegação de Israel nos jogos de Munique). Foram então mandados para o Líbano, onde encontraram mais campos de refugiados e mais massacres – campos de Sabra e Chatila, quando os maronitas (cristãos árabes) que deveriam proteger esses campos viraram para o lado e fingiram que não estavam vendo enquanto o exercito israelense perpetrava o massacre.

O Hamas, pelo seu lado, também é um grupo terrorista e indefensável. Diferentemente da antiga OLP, que era uma frente da qual vários grupos faziam parte, a maioria dos quais eram laicos (havia nacionalistas, marxistas e etc., todos com o programa comum da independência de Israel), trata-se de um grupo de forte orientação religiosa e que tem poucos pudores em prejudicar os próprios palestinos na consecução dos seus objetivos (Hamas é uma sigla que significa em árabe “palestina livre do mar ao Jordão”, o que implica na anulação dos judeus do Estado de Israel). Porém, ao que tudo indica, no momento eles perceberam o que Arafat e a OLP perceberam há 20 anos: que Israel é militarmente invencível naquele território. Ao que parece, eles estão com predisposições a retornar à mesa de negociação, mas como Israel não atende nenhuma das suas reivindicações, todas razoáveis, eles optaram por retornar a “política dos mísseis” (ao final, listo essas reivindicações).

Não parece haver saída para cenário tão lúgubre. No curto prazo, pelo menos, não creio que de fato haja. A população palestina no entrementes segue submetida a sofrimentos indescritíveis e em escalada. A solução não virá de estados árabes desinteressados, pois eles simplesmente não existem. Afora isso, mesmo que quisessem, não é do ponto de vista político, e menos ainda do militar, que eles poderiam vencer Israel. No entanto, essa política genocida e burra está plantando a destruição no longo prazo daquele país. Além de ter se tornado um Estado francamente fascista, é um país que depende fortemente do poder militar e das costas quentes junto aos EUA para sobreviver. Manter-se em uma posição de ponta do desenvolvimento e do investimento em tecnologia é uma incerteza. E poder militar passa, a hegemonia americana também. Nesse dia, entregue à própria sorte, como poderá Israel sobreviver sem apoio internacional nenhum e cercado por uma vizinhança agora com todas as razões do mundo para odiar o país? É um raciocínio curto-prazista e equivocado, equivalente àquele que nos leva a dormir tranquilos à noite ignorando que o apocalipse já começou e que o mundo está à beira do colapso.

Há muito o cenário no território de Israel foi desenhado pela ultradireita do país e pelo fanatismo religioso dos ortodoxos e a sua insistência em avançar os assentamentos em áreas palestinas como um verdadeiro apartheid, com uma população oprimida, morando em enclaves, com menos direitos e fortemente segregada. Semana passada, como provocação, escrevi que era hora do mundo iniciar boicotes e retaliações, como as que conduziram com muito sucesso à ruína do regime da segregação sul-africano (sem desconsiderar a oposição interna da população negra guerreira e organizada, que também implodiu o sistema por dentro). Penso, porém, que a mesma solução não se aplica assim tão fácil à Palestina. O regime da apartheid havia deixado de ser interessante para o ocidente havia tempo, quando ele caiu (como a expulsão do país da Commonwealth deixou bem claro). Enquanto os EUA mantiverem a sua política de controle (direto ou indireto) de todas as fontes de recursos energéticas do planeta, Israel será um mal necessário. O preço que o país pagará, no entanto, será caro. O pior quinhão, é evidente, fica com os palestinos. E eu temo que eles se tornem mais um povo desaparecido da história, como os babilônicos, os fenícios ou os etruscos.

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Eu nunca imaginei que em minha vida fosse assistir à reedição de tantas desgraças de um passado que, acreditava eu, estivesse superado. Judeus fugindo de uma Europa em crise e cada vez mais intolerante, relações Israel x mundo Árabe voltando à estaca zero e, no nosso glorioso Brasil, a reestruturação do Centro de Informações do Exército para cuidar do “problema” dos movimentos sociais. Tragam de volta, por favor, a União Soviética.
Minha honesta pergunta aos entendidos, pois eu realmente não tenho uma resposta para isso: o SNI foi extinto pelo Collor. O Fernando Henrique acabou com os ministérios do exército, da marinha e da aeronáutica. Esse processo se chamou de “desmilitarização das forças de segurança”. Por que CARALHOS o CIE está sendo reestruturado durante o governo Dilma?

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Para conhecer cidades


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A primeira medida para conhecer a cidade é sair do veículo próprio, quando se tem um. Fechar-se na máquina-propriedade acompanhado/a da irritação com o sinal vermelho, do carro lento na pista errada, do pedestre incauto atravessando a via geram uma autofelação constante, em que o falo simbolizado pela marcha e pelo carro que adentra as vias cria a ilusão do desbravamento corajoso aliado à ideia de que suas necessidades são mais importantes que a dos outros.

Convido, então, ao passeio. A pé, de ônibus, de trem, de metrô. É importante variar os meios, atento aos trajetos e aos transeuntes, num caminhar ambíguo, porque simula distração, mas se concentra nos pormenores e nas impressões dos sentidos.

Só é possível conhecer os espaços, considerando os aromas nem sempre agradáveis das vias, as matizes nem sempre policromáticas dos ambientes, os sons nem sempre harmônicos que integram vozes, músicas, buzinas, britadeiras, tiros, o clima com o arrepio da pele causado pelo vento gelado nas sombras de inverno.

É importante um olhar omatídeo, como o dos insetos que enxergam simultaneamente em várias direções. Não exatamente para proteger a bolsa, mas para se dar conta das vidas pulsantes ou dormentes que nos cercam. É possível supor histórias marcadas nos rostos de quem vai, de quem vem e de quem se queda sentado no meio-fio ou deitado, fazendo da rua a casa, do céu o teto, do chão a cama.

É preciso sofrer encontrão, ouvir desculpas, não ouvir desculpas, pisar na imundície, irritar-se, limpar-se, sentir fome, saciar-se ou não. É preciso observar as cores, os odores, os amores. É preciso agir como um turista de si mesmo para abrir-se ao olhar tão tomado do hábito, para enxergar com mais vida as vidas passantes, para trocar a automatização e o enclausuramento pela individuação não individualista, pelo reconhecimento da humanidade em si e no outro, para conhecer a cidade e um pouco de todos que nela habitam. 

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É dia de salvar as aparências da democracia (convocação para o ato de hoje da Cinelândia) – e uma notinha inevitável sobre a Palestina


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Como todos sabem, vivemos em novo estado de exceção no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, decorrente da reação violenta por parte do Estado desde o início das mobilizações populares que tomaram o país a partir do ano passado. Tal processo de acirramento das lutas conheceu seu novo auge com a prisão, há umas três semanas, de diversos manifestantes apontados como “lideranças anarquistas” (você não leu errado, é isso mesmo), em um processo criminal que já entrou com louvores para a história das farsas jurídicas.

Ninguém com um mínimo de inteligência e de pensamento crítico ignora que a maioria da população brasileira vive em eterno estado de exceção, nas favelas, nas aldeias indígenas, nas periferias e demais “zonas especiais de exclusão da democracia” do capitalismo periférico. Todos os movimentos sociais que encamparam a luta das ruas, desde o ano passado, têm aguda consciência disso. E têm, na medida de suas possibilidades, tentando combater essa ditadura cotidiana seletiva a que a maioria das pessoas é submetida: seja na insistência da campanha “cadê o Amarildo”, que traz a questão dos desaparecidos da democracia; seja lutando contra as remoções, o aspecto mais nefasto da realização dos chamados “grandes eventos” (grandes farras do capital, isso sim); seja na militância cotidiana voltada à denúncia dessas condições, à assistência jurídica dos atingidos pela violência do Estado e etc.

No entanto, a prisão de uns poucos, como veremos, está encetando a perseguição de muitos. Surpreendentemente, o Instituto de Defensores dos Direitos Humanos, rede de advogados ativistas que defende manifestantes, foi taxado pela Polícia Civil de “nave mãe” dos inacreditáveis 80 grupos investigados no inquérito (mando a lista ao fim), e teve, sob essa desculpa, seus telefones grampeados pela polícia. O perturbador é que o IDDH defende, além de manifestantes, vítimas da violência do Estado em favelas (são os responsáveis pelo acompanhamento da família do Amarildo, por exemplo), ou seja, a polícia está grampeando o escritório de advocacia do pessoal que investiga e denuncia assassinatos cometidos pela polícia. Desnecessário dizer que isso é gravíssimo. Isso põe a vida de testemunhas em risco, por exemplo, um escândalo que, é claro, não recebe a menor menção nas páginas dos jornalecos porta-vozes da direita histérica, como o Globbels. Perigosas são a Eloisa Samy e a Sininho, a polícia é doce e inofensiva. É evidente que as manifestações estão sendo usadas, mais uma vez, para justificar o aumento da repressão em áreas que não têm rigorosamente nada a ver com elas.

O número e a qualidade das organizações e entidades criminalizadas nesse inquérito (sob o beneplácito da “nave mãe”) tornaria-o risível, se não fosse o estrago bastante sério que essa palhaçada está causando na vida de muitos. Observem que, além dos grupos e dos sindicatos que estão à frente das manifestações e/ou greves dos últimos meses (ano), há dezenas de grupos culturais ligados a favelas, de advogados ligados à defesa dos direitos humanos da população dessas áreas, fora o Complexo do Alemão (sic) que aparece como um todo. Criminalizaram a própria carência e todos os grupos que lutam pela defesa e a inclusão dos moradores das áreas mais pobres da cidade. Há uma tendência igualmente inexplicável para perseguição a grupos feministas e de defesa dos direitos da mulher, como a Marcha Mundial das Mulheres.

A outra péssima notícia da semana é a reorganização do infamante Centro de Informações do Exército (CIE). Proposto ao Castelo Branco pelo Costa e Silva, o projeto foi engavetado, pois o primeiro general presidente da ditadura militar considerou-o gorilesco demais. Quando Costa e Silva, personagem ligado à linha dura dentro do golpe, assumiu a presidência em 1967, uma das suas primeiras medidas foi o estabelecimento do CIE, para realizar os seus sonhos de policial tarado. Daí em diante, a ficha corrida do Centro é bem conhecida: infiltrações, tortura, troca de informações e de presos com ditaduras vizinhas, contato com a CIA, censura política, censura aos meios de comunicação e formação de um grupo terrorista de direita em seu seio (o chamado grupo secreto). Não sou daqueles que crê em um golpe militar no horizonte próximo. Diferentemente de 1964, o capital internacional não está em risco no país. Naquela época, João Goulart tentava a aprovação de uma Lei de Remessa de Lucros no congresso, o que limitaria a evasão de capital do país. Hoje, no dizer orgulhoso de certos economistas e na visão do sistema financeiro internacional, o Brasil é o “aluno aplicado”, que fez a lição de casa e “respeita os seus compromissos internacionais” (leia-se, paga horrores de juros para banqueiros e não interfere no caminho de entrada ou de saída do capital especulativo). No entanto, essa reorganização do CIE somada à reativação da Quarta Frota da marinha americana, em 2008, pelos EUA (a que “cuidava” do Atlântico Sul e que viria em socorro aos golpitas de 1964, caso houvesse problemas – operação “Brother San”) não podem trazer boas lembranças para ninguém.

Por fim, nossos companheiros ainda não estão seguros de maneira nenhuma. Ontem, o Ministério Público recorreu contra a concessão dos Habeas Corpus, como foi anunciado pelos jornais. Vindo da Globo, isso cheira a comemoração antecipada. Fora isso, devemos lembrar de que todos ainda respondem a um processo criminal, e devemos todos reivindicar o seu arquivamento. Chegamos ao ponto em que a “democracia”, dando uma de general João Figueiredo, prende e arrebenta para garantir… a própria democracia. O ato de hoje, portanto, é essencial para não darmos mais passos atrás do que já temos dado. Ele foi organizado pelo Comitê Popular Contra o Estado de Exceção, que reúne atualmente mais de cem entidades, entre organizações, sindicatos, coletivos, partidos e todos os que se opõem ao autoritarismo e ao crime institucional. O Comitê funciona em plenária, o que significa que todas as decisões sendo tomadas em assembleia e sem direção. É aberto a todos e as reuniões acontecem normalmente às segundas no Sindsprev (a próxima é na segunda após o ato, em 4 de agosto). Para os interessados em agregar, segue o link:

https://www.facebook.com/events/790846367613875/?ref_newsfeed_story_type=regular

Uma notinha inevitável sobre a Palestina

Recentemente, Yigal Palmor, o porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel, se referiu ao Brasil como “anão diplomático”, além de utilizar diversos outros insultos nada diplomáticos, diga-se de passagem, devido ao fato de o país ter chamado o seu embaixador para consultas (trata-se de uma ameaça velada de ruptura de relações, o que, em todo caso, não vai acontecer). Muito burrinho esse porta-voz. Além de péssimo diplomata, não sabe nada sobre o Brasil. No lugar dele, eu mandaria o país parar com o genocídio dos seus índios, da sua população negra, dos seus homossexuais, das suas mulheres e dos seus transgêneros antes de ir aborrecer o genocídio dos outros. Aliás, dia 22 de agosto há justamente uma convocação para a Marcha Nacional Contra o Genocídio do Povo Negro:

https://www.facebook.com/ReajaOuSeraMortoReajaOuSeraMorta?fref=photo.

No entanto, vale ressaltar, não se trata aqui de três adolescentes israelenses mortos por um foguete do Hamas. Trata-se da pura e simples aniquilação dos palestinos enquanto povo. Se você observar bem o mapa da Cisjordânia, aqueles pontilhados encravados no território de Israel não ficam nada a dever aos bantustões da África do Sul do apartheid – enclaves onde a população negra era obrigada a residir, de onde só poderia sair para trabalhar, nas áreas brancas, e com a apresentação de um documento equivalente a um passaporte interno, passando por verdadeiras fronteiras guarnecidas. É assim que os palestinos vivem, na Cisjordânia, hoje. A faixa de Gaza, onde ao menos há continuidade territorial, está fechada há oito anos, recebendo comida e medicamentos apenas passando pelo crivo de Israel, e passa agora por uma nova onde de bombardeios que matam basicamente civis não relacionados ao Hamas. Vamos lembrar que a pressão internacional contra a África do Sul na década de 1980 rendeu resultados até mesmo muito acima do esperado. Artistas, turistas, promotores de grandes eventos internacionais, presidentes que gostam de passear de avião, pessoas que vendem armas e etc. comecem pelo amor de deus a boicotar Israel.

A lista das organizações “terroristas”:

01) FIP Frente Independente Popular;
02) FIST -Frente Internacionalista dos Sem Teto;
03) FNT e Frente Nacional dos Torcedores;
04) GLP – Grupo de Lute dos Petroleiros;
05) MEPR Movimento Estudantil Popular Revolucionário;
06) MFP – Movimento Feminin@ Popular;
07) MRP – Movimento de Resistência Popular;
08) OAT L Organização Anarquista Terra e
Liberdade;
09) Oposição de Resistência Classista (ORC);
10) RECC » Rede Estudantil Classista e Combativa;
11) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
12) Universidade Indígena Aldeia Maracanã;
13) UV Unidade Vermelha;
14) Dia do Basta’,
15) Ocupa LAPA;
16) Ocupa Câmara; 1
17) Ocupa Cabral;
18) Anonymous Rio;
19) Black Bloc RJ;
20) Mídia Ninja;
21) Coletivo Mariachi;
22) Coletivo Calisto;
23) Coletivo Rebaixada;
24) Coletivo Tempo de Resistência;
25) Coletivo Desentorpecendo a Razão;
26) Coletivo Rosa dos Ventos;
27) Coletivo Vinhetando;
28) Coletivo Projetação;
29) Coletivo Margaridas Urbanas
30) Coletivo SUBURBAGEM;
31) Coletivo Das Lutas;
32) Coletivo SerHurbano;
33) Coletivo Inimigos do Rei;
34) Coletivo VÖ Pixá Pelada;
35) Coletivo PACAL;
36) Coletivo PaguFunk;
37) Instituto Raízes em Movimento;
38) Alemão de Noticias;
39) Complexo do Alemão;
40) Jornal Voz
das Comunidades;
41) Mulheres de Atitude – AMA;
42) Barraco #55;
43) Descolando Ideias;
44)APAFUNK;
45) Porque ou
46) Favela não Se Cala;
47) Fórum Social de Manguinhos;
48) Fórum Rode da Juventude
49) Favela em Foco
50) Norte Comum;
51) Observatório de Favelas;
52) Observatório de Conflitos Urbanos;
53) Fala Roça;
54) Marcha Mundial das Mulheres – MMM;
55) Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência;
56) Rio Na Rua;
57) Grupo Teatro da Laje
58) Surbanitas;
59) Núcleo Socialista da Tijuca;
60) Linhas de Fuga;
61) Fórum Popular de Apoio Mútuo;
62) Movimento Direito pra quem DPQ;
63) Arteiras;
64) Rede de Instituições do Borel;
65) Ocupa Borel;
66) Fora do Eixo (criador da Mídia Ninja);
67) Mídia Independente Coletiva MIC;
68) Tem Morador;
69) Suburbano da Depressão;
70) Movimentos Cidades Invisíveis;
72) Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia,
73) Favela não se cala
78) Sindsprev
79) Sindpetro
80) SEPE

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100 dias nas Filipinas – Parte II


por Andressa Maxnuck

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Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkok e que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividi a narrativa em duas publicações: previamente a esta foi publicada uma Parte I.

OCIDENTE/ORIENTE

De fato a globalização fez milagres no sentido da homogeneização de hábitos e de gostos entre povos. Mas ser uma brasileira na Europa é bastante diferente de ser uma sul-americana no Sudeste Asiático. Pra começar, eu era a mulher mais alta do país – do topo dos meus reles 1,67m (era frequentemente indagada se no Brasil todo mundo era alto como eu – adorava!). Em segundo lugar, o português é absolutamente estranho aos ouvidos filipinos: certa vez me perguntaram em um café se eu era italiana. Ao responder que era brasileira, a moça, quase tendo descoberto a roda, disse: “ah, então isso que você tá falando é espanhol!” Na verdade, fiquei até feliz com o reconhecimento aproximado – em geral, as pessoas me ouviam falando e me miravam com o olhar mais exótico do mundo (pra quem acha absurdo/improvável que não se possa confundir português com italiano ou com espanhol, experimente distinguir tagalog de coreano ou de mandarim).

Outra questão é que, visualmente, você é ocidental. Peruanos, noruegueses, franceses: todos estão no mesmo saco. Se você não é oriental, você é ocidental – e, por tabela, rico. Em Manila, não tinha quase qualquer problema em ter “a cara da riqueza” – ao contrário, os filipinos são dos melhores povos que já conheci e sempre me tratavam de forma carinhosa, educada, cooperativa. Mas, quando ia pro circuito turístico, virava praticamente representante do Fundo Monetário Internacional: preço dobrado, assédio, gorjeta. Eu, que sempre fui turista-de-terceiro-mundo, não gostei muito dessa valorização repentina.

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Propaganda de creme clareador

PADRÕES ESTÉTICOS

Nas Filipinas – e, no Sudeste Asiático em geral, segundo descobri – há uma obsessão por clareamento da pele (penso que na mesma proporção da fissura sul-americana por pele bronzeada): são hidratantes, sabonetes, cremes para o rosto, sessões em salões de beleza. Conforme observei quanto à língua (que a verossimilhança com acento do inglês norte-americano tendia a ter implicações de classe econômica), há uma aparente divisão entre tom de pele e estrato social: os de pele mais clara costumam ser mais privilegiados, os de pele mais escura, menos – como sói ser, aliás, em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. Atores, modelos, apresentadores costumam ter a pele mais branca, ditando o padrão de beleza. Achava inusitado, porque penso que a pele mestiça é o que torna os filipinos – e também os tailandeses – mais bonitos aos meus olhos em comparação com outros asiáticos, mas, enfim: devo ter lido muito sobre o Mito das Três Raças, do Darcy.

Para evitar a exposição aos raios solares usa-se, corriqueiramente, guarda-chuva nas atividades ao ar livre. Tentei comprar um guarda-sol oriental, pra ficar com pinta de local, mas não encontrei em lugar nenhum: talvez se trate de uma invenção ocidental para a nossa ideia romântica de Oriente. No mais, sem renegar minhas origens, quando ia à praia/piscina investia, como de costume, na melanina, e ficava estatelada qual uma cobra sob o sol do meio dia – enquanto na areia/clube ficava todo mundo embaixo da barraca, de manga comprida e de sundown.

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Os filipinos se protegem sob a sombra de um guarda-chuva

SALÃO DE BELEZA

Passados poucos dias no país, achei que já era tempo de recobrar a dignidade e decidi realizar atos de higiene e de estética. Cheguei ao salão filipino e encontrei no cardápio de depilação: Brazilian Wax. Que se tratava, nada mais, nada menos, de deixar a bichinha 100% calva. Dá um especial sentimento de patriotismo ser nacional de um país que é conhecido internacionalmente por design de virilha.

A manicure/pedicure pinoy (*filipina) tem algumas diferenças, quais sejam: – elas não fazem as “mãos” e os “pés” por etapas (primeiro cutícula, depois base, depois esmalte dos dois membros, em cada uma das etapas): elas fazem uma mão inteira, depois a outra mão inteira, o pé direito inteiro, depois o esquerdo inteiro; – elas não usam pauzinho de laranjeira: as manicures têm as unhas dos dedos polegares maiores pra fazer a limpeza do excesso de esmalte!!; – rola uma massagem e um estalar de dedos no processo (maravilhoso).

MASSAGEM

Definitivamente a melhor coisa da Ásia é o acesso – seja em termos de possibilidade econômica, seja em termos de disponibilidade a cada esquina – à massagem. Isso é muito, muito maravilhoso. Me sentia totalmente Akeem (Eddie Murphy) em Um Príncipe em Nova York (“Coming to America”, em inglês – meu filme preferido, aliás, conquanto eu ame muito o Kubrick e o Truffaut), como uma monarca cercada de cuidados. Milhares de lojas de massagem pela cidade inteira. Massagem com óleo, sem óleo, sueca, tailandesa, corpo inteiro, só os pés. Tudo isso pela bagatela de 250 pesos filipinos (o correspondente a R$12, mais ou menos). Eu ia toda semana e ficava mais feliz ainda ao pensar que acabara de me proporcionar o nirvana ao custo de uma garrafa de meio litro de Skol. Deus não é brasileiro coisíssima nenhuma: Deus é filipino, tem olhos puxados e fala tagalog.

SERVIÇOS

Nunca fui tão bem tratada na vida. Como mencionei acima, os filipinos são muito queridos, muito amáveis. Quando há uma relação de consumo então, essa educação e solicitude se exacerbam. Até São Paulo virou paradigma baixo nível.

Eram situações como: 1) adentrava a padaria de manhã e era saudada com um “bom dia” sorridente pelo padeiro, pelo caixa, pelo faxineiro, pelo segurança; 2) passava na porta do restaurante aonde havia almoçado dez horas antes e era saudada pelos garçons; 3) saía do banheiro público e ouvia um “obrigada, senhora, volte sempre!”; 4) tomei um capuccino na cafeteria e a atendente me perguntou “senhora, esse vai ser seu pedido nas próximas vezes, pra eu memorizar?”. Isso é inimaginável no Rio de Janeiro, aonde você tem de implorar de joelhos por um chopp para aqueles tradicionais garçons mal-humorados – o que costumamos achar a marca da descontração carioca.

CINEMA

A indústria cinematográfica norte-americana é dominante nas Filipinas: os filmes, com áudio inglês, não costumam ter legenda em tagalog. O cardápio costuma ter aqueles roteiros com explosão de Casa Branca, drones, 7a Frota, silos nucleares e o diabo-a-quatro. Um sexo-drogas-porrada-no-México do Oliver Stone é o máximo de indie movie que consegui encontrar. Tentei ver um filme filipino, mas ele não tinha legendas em inglês.

Diante da velha história de mexicanos, negros, vietnamitas, árabes and so on retratados no cinema como vilões, achei que, estando no Sudeste Asiático, testemunharia um sentimento de solidariedade filipina ao verem, mais uma vez, orientais como terroristas. Pois, não: no filme pirotécnico a que assisti, a plateia vibrava a cada virada do governo norte-americano – especialmente quando o agente estado-unidense virava-se pro norte-coreano e o coagia com um “speak English, man!”. Realmente não entendi nada. Quer dizer, entendi uma coisa: ganham os EUA quatro vezes – com a renda do cinema, com a reafirmação do hegemon, com o marketing do terror e com a cooptação de mais aliados.

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Filmes em cartaz nas salas do cinema Glorietta

SEGURANÇA

Me sentia muito segura em Manila – e não só no Leblon, Makati, onde morava, mas também em Madureira, Quezon City, onde trabalhava. Aliás, é muito raro eu não me sentir segura fora do Rio.

Mas algumas situações me chamavam a atenção. Primeiramente, não era comum eu vislumbrar agentes de segurança pública: via-se muito segurança privada. Além disso, o tamanho dos trabucos que os seguranças carregavam era de impressionar o dono-do-morro – sobretudo em um contexto, ao menos visual, de paz (penso que isso tem muito a ver com o soft power americano no país, e com a decorrente incorporação do sentimento de “estamos sendo atacados” estado-unidense).

Outra coisa curiosa era a revista na entrada de qualquer centro comercial ou shopping center: detectores de metal e abertura de bolsas. Juro que nunca me passou pela cabeça alguma ameaça de ataque terrorista – mas eles devem lá saber o que fazem. Não me opunha a abrir a minha bolsa para conferência, mas era, com frequência, dispensada pelo segurança. Devia ser a minha cara de ocidental.

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Revista na entrada do Mall of Asia, o maior shopping da Asia

De tudo o que vivi e relatei, pude me certificar de que mudar de país não é apenas fazer uma transferência geográfica e apertar a tecla SAP. É reaprender a viver. Aprender a cortar com garfo e colher. Descobrir qual o caminho do metrô. Aonde consertam sapato. Como se chama água oxigenada.

É viver intensamente momentos que, normalmente, são automatizados: a ida pro trabalho, pro supermercado, a leitura do cardápio. É se impressionar com a pobreza alheia, depois de ter-se acostumado com a miséria na porta da sua casa, na sua própria cidade.

É receber estímulos visuais e psicológicos 24 horas por dia, 7 dias por semana.

metro manila

Produção cinematográfica filipino-britânica: Metro Manila, de Sean Ellis.

ilo ilo

Embora seja uma produção cingapurense, Ilo Ilo (nome de uma província das Filipinas) retrata uma situação muito comum, a das filipinas que migram para trabalhar como empregadas domésticas em outros países

 

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Major Caveirão, Rodriguinho e Lady Vingança


 

lady vingança

 

 

Rodrigo Bethlem, apaniguado e partidário de Dudu e Cabral, enviava mensalmente pra ex-mulher 20 mil em notinhas de garoupa. A ex sabia que de onde vinha aquela grana tinha muito mais. Não gostou da mendigaria do ex e colocou a boca no trombone, no trompete e chupou cana ao mesmo tempo. Gravou as conversas do magano e saíram da cartola conta na Suíça, propina de 85 mil por mês, caixa dois de campanha, envolvimento com milícia e outras traquinagens que o coelho ainda esconde na cartola.
Rodriguinho era conhecido como Xerife do Rio por mandar a Guarda Municipal descer a porrada em camelô no Choque de Ordem. Tinha também como diversão acompanhar a correria dos usuários de crack pelos subúrbios do Rio e submetê-los à internação compulsória. Foi nessa onda de terror que ele se uniu ao major PM Sérgio Magalhães, miliciano manjadíssimo na Zona Oeste, conhecido como Xerife de Magalhães Bastos. Um dos matadores mais aguerridos da honorífica puliçada militar da cidade de São Sebastião. Os dois xerifes transformaram a Secretaria de Assistência Social em tetas mamadas e sugadas. O major caveirão carregou 42 cadáveres durante os bons serviços prestados nas fileiras da corporação militar. Muitos deles com balas na cabeça e no peito. Os ovos de ouro estavam nos contratos da prefeitura com a Casa Espírita Tesloo, criada pelo major para internar os dependentes químicos que Rodriguinho caçava nas ruas. As pilantragens sem licitação giram na bitola de 80 milhões.
Lady Vingança conhecia a galinha que chocava essa dinheirama. Quero ver investigarem as raposas que tomavam conta desses galinheiros chamados Palácio Guanabara e Palácio Laranjeiras.

 

 

A gaiola privada

 

Em agosto de 2013, um gigantesco protesto tomou a Cinelândia. Milhares de pessoas estavam revoltadas com a manobra política do prefeito e do Governador em relação à CPI dos ônibus. A comissão parlamentar era constituída apenas por vereadores da base governista. Nasceu morta e terminou morta.
Naquele dia senti que a população queria ver a Câmara dos Vereadores arder em chamas. Se o prédio fosse reduzido a cinzas, para a justiça do povo não haveria crime contra o patrimônio público, pois a Gaiola não representava um bem público. Não era ― como não é ― um bem de uso comum do povo. Aquele edifício cometia a ignomínia de representar interesses privados de forma descarada diante de uma população que se rebelava contra a degradação da mobilidade urbana. Nesse sentido, a Câmara dos Vereadores não simbolizava o patrimônio público, pois não era um conjunto de bens e direitos que deviam pertencer a todos. Encarnava uma entidade que representava o interesse de determinados grupos privados.

 

 

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Imagina em agosto… (Ou Fujam pras colinas, Sininho tá aa solta! Ou será a Dilma?)


Que julho brabeira! Uma ruptura com a aura de lirismo que, habitualmente, cerca esse mês. Mas, caso você seu natalício seja em julho, não boicote este texto. Nada pessoal. Tampouco se você é fruto do mês cuja rima -convenhamos, paupérrima- é com desgosto, segundo o dito popularesco.

Mas, voltando ao tal julho, tá fácil não: mortes em série  na literatura brasileira (a Feira Literária do Céu deve estar fervendo), prisões de todo descabidas num brutal ato de intimidação antiprotestos no mais assustador estilo órfão-nostálgico da Ditadura, o massacre genocida em Gaza que já ceifou mais de oito centenas de vidas numa reedição grotescamente irônica de ódio belicosamente racista, justamente por parte de quem já foi Davi, mas hoje se faz Golias inclemente.

palestina

Este julho decididamente não tá fácil!

Há aqueles que tresloucadamente ainda incluiriam o “Mineiraço” (na tentativa de analogia com o termo Maracanazo, com o perdão aa língua alemã). Mas, claro que nem levo isso a sério, afinal, como já disse alhures, não me chateei nem um pouquinho com o 7 a 1. Muito menos vou fazer como certo caso de acefalia funcional que comparou o resultado futebolístico ao ataque dos aviões ao World Trade Center.

Tampouco, hei de incluir nas tragédias de julho a colocação do Mengão no Brasileirão, já que é meramente episódica. Agora, a volta do Brasileirão em si, bem que podia ser contabilizado aí. Depressão pós-Copa!

Ainda houve, neste mesmo julho, o ingresso da ditadura sangrenta de Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o que mancha essa iniciativa. Desnecessário, economicista, forçoso, deprimente! Como amante da causa lusófona, me envergonho profundamente.

sininho

A sanguinária Sininho livre! Todo cuidado é pouco!

E o avião derrubado, apinhado de especialistas em HIV?! Por muito menos, a 1ª Guerra Mundial se iniciou. Ao que parece, Vladimir, czar da próxima Copa do Mundo de futebol, está Putin mesmo. Há quem tenha acusado a Dilma por isso, já outros suspeitaram de Elisa Quadros, a Sininho, a mais perigosa e famigerada terrorista-anarco-satanista da história da América Latina. Quem garante são as fontes confiabilíssimas da Globo, juizado e promotoria autoinstituída do Estado do Rio de Janeiro, com acesso irrestrito a todos os segredos de justiça: um bebum que ficou sem saideira por causa dos black blocs, um primo do vizinho do porteiro do transeunte que passava pela Saens Peña no ato da final da Copa, um X9 delator maldito miserento anônimo com dor de corno e a mais respeitável das testemunhas, então anônimas, o presidente norte-americano Obama , com seu arborizadíssimo esquema de escutas que só não dá ouvidos aos gritos palestinos.

cachorrinhos

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O grande desastre aéreo de ontem (Jorge de Lima) [por falar em verdadeiros imortais]

Para Cândido Portinari

Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

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Na verdade, não há sequer provas concretas de que Dilma e Sininho sejam pessoas diferentes. O mais possível é que sejam, afinal Dilma & Sininho, ou vice-versa. O fato é que as duas jamais foram vistas juntas e, ao que tudo indica, são as grandes responsáveis por tudo o que há de mal. é só ver. Sarney, base de sustentação do governo Dilma, não morre, debochando de seus colegas literatos, imortais só em conotação. O mesmo Sarney é autor da emblemática obra da literatura brasileira intitulada “Marimbondos de Fogo”, uma vinculação óbvia aos planos malévolos de Sininho para pôr fim aa democracia e aa própria civilização ocidental.

Dentre tantos tormentos, atormentações e tormentas de julho, ao menos um fato salutar: os 75 anos duma das maiores inspirações contemporâneas. Um paladino de justiça e superação, em prol do bem comum. Um arguto combatente do Mal. 75 anos de Batman, sempre ao lado do povo!

batman- protestos

batman 75

Cidadão de bem, nada temamos! Estamos do lado direito (e como!). Nem Dilma nem Sininho, Deus é mais! Pela família! Contra o comunismo satanista-gayzista!

Mas, se for o Deus tal qual Suassuna o concebeu, danou-se pr’ocês, hein?! Ave, Suassuna! Do Sertão pra eternidade!

sininho dilmaDilma, inclusive, cínica e bizarramente, finge conivência com todas as ações arbitrárias perpetradas contra seu alter-ego Sininho e seus comparsas só pra não dar na pinta.

[Agradecimentos ao Luiz Constantino e ao Cláudio Barçante pela ideia conjunta de "fuga pras colinas" com o vídeo do Iron Maiden.]

P.S.: o perigosíssimo outro lado da moeda:

http://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,traicao-amorosa-ajuda-policia-a-investigar-manifestantes-no-rio,1533578

P.S.2: muita vergonha alheia e desprezo, pela justiça e pela mídia. O sujeito em si, pra além de delator maldito, talvez seja um perturbado apenas: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-24/ex-lider-da-fip-e-a-principal-testemunha-em-inquerito-contra-ativistas.html

[Há um vídeo de pedido de perdão e declaração de amor aa Sininho rolando no youtube, mas me recuso a postá-lo aqui. É deprimente demais.]

P.S.3: Vale ler sobre isto, a quem desejar mais informações sobre o deprimente ingresso de Guiné Equatorial na CPLP: http://www.publico.pt/politica/noticia/a-memoria-deles-pode-ser-curta-a-minha-nao-1663865

 

 

 

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