“Eu acuso”


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Incompetência é um perigo mesmo. Nos últimos dias, revelações estarrecedoras da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), informalmente conhecida como Delegacia de Repressão a Crimes Imaginários (DRCImg), apresentaram ao público provas sólidas (são as palavras deles) para incriminar as lideranças (também nas palavras deles) das manifestações violentas (idem) que perturbaram a ordem no Rio de Janeiro ao longo do último ano. As provas consistem em relatos de testemunhas desconhecidas (para proteção delas, dizem), em conversas telefônicas grampeadas autorizadas pela justiça e em bombas, materiais explosivos (gasolina, pólvora etc.), facas e uma arma de fogo apreendidos nas casas dos manifestantes presos há quase duas semanas. Os mandados de prisão foram expedidos segundo a firme convicção das autoridades de que os elementos criminosos realizariam ações violentas na final da Copa do mundo. Não esquecendo que entre as apreensões, constaram livros, bandeiras, cartazes e material de panfletagem de maneira geral.

Após a apreensão desse material, resta a pergunta: onde explodiram todas essas bombas? Quantas vítimas elas fizeram? Quem faz bombas, afinal de contas, tem alvos e uma agenda (fabricação de bombas por hobby, eu nunca ouvi falar). Era de se esperar que, uma quadrilha tão bem organizada como a que foi apresentada pelas reportagens da rede Globbels, com níveis hierárquicos definidos e distribuição clara de tarefas, já tivesse ao menos um atentado bem-sucedido no currículo, nem que fosse apenas explodir bancas de jornal, como já foi moda por aqui. Porém, não há. Nunca houve atentados a policiais com bombas de fabricação caseira nas manifestações, a não ser em casos claramente plantados pela própria polícia. Houve, também, o caso do cinegrafista, que terminou em morte e com prisão de dois manifestantes (em uma história ainda muito mal contada e com os dedos sujos da Globo por todos os lados). De resto, de concreto, umas poucas explosões sem maiores consequências, e o fato é que os manifestantes sempre saem perdendo. Já são mais de dez mortos desde que tudo começou, um sem número de feridos, alguns com lesões permanentes, e muitas prisões. Os ataques a policiais, que se suspeita serem praticados muitas vezes por provocadores infiltrados, foram realizados com rojões e artefatos do gênero, não com bombas.

Então, por que as perseguições a tantos ativistas ligados aos protestos iniciados no ano passado? No começo de tudo, a grande mídia apoiou os protestos, quando ela ainda cultivava a esperança de transformar tudo em um “fora Collor” muito ampliado e antipetista. Mas quando a direita organizada foi expulsa dos atos e os conservadores de maneira geral pularam fora da disputa pelo controle das manifestações que se seguiu, quem permaneceu nas ruas foram militantes de esquerda mais radicalizados, e o movimento evoluiu para greves trabalhistas e reivindicações coerentes e organizadas de movimentos sociais. Daí, a coisa mudou de figura, e a criminalização por parte da imprensa e do judiciário entrou em pleno vapor (a polícia, clarividentemente, já havia começado antes destes últimos). Os ativistas passaram a ser tratados como criminosos de alta periculosidade. E então todas as armas para desqualificar a voz das ruas passaram a ser válidas (e a serem empregadas). A escolha de Sininho para essa função demonstra essa mudança. Primeiramente, ela foi colocada para dar um ar de inconsequência juvenil e de pequena burguesia revoltada para as manifestações (a globbels chegou a chamá-la de “patricinha hipócrita” duas vezes). Na edição dessa segunda do jornaleco do grupo Marinho, ela foi apresentada como uma perigosa terrorista no topo de uma organização criminosa (editoria, por favor, decida-se). No dia seguinte, foi a vez de atacar os sindicatos que vieram de uma longa sequencia de greves (professores, petroleiros, garis) ligando-os a uma suposta rede de financiamento da violência em manifestações (em uma matéria envergonhante, intitulada “Conexão sindical”). Hoje, foi a vez do PSOL. A conveniência disso tudo é clara.

Ao contrário do que até mesmo pessoas de esquerda têm sustentado, não foram as táticas Black Bloc que, como previsto, serviram de instrumento para a direita criminalizar os movimentos sociais. A violência, como já disse aqui várias vezes, parte quase invariavelmente da polícia. Foi a polícia que esvaziou as manifestações, e ela o fez na base da porrada. A maioria das pessoas (não me refiro a leitores do Globo e da Veja) ainda apoia as manifestações, mas tem medo de continuar participando. A transformação das “lideranças” (vocês não sabem como é incrivelmente ridículo escrever esta palavra aqui) em terroristas é estratégia na verdade já batida, e usada aqui e acolá pelo mundo inteiro, sempre para desacreditar quem luta por mudanças sociais (fizeram o mesmo para desarticular o Occupy Wall Street): trata-se da transformação dos militantes em inimigos do povo, pelos verdadeiros inimigos do povo, via difamação programada. É evidente que essas prisões foram políticas, como a própria apreensão de livros não deixa de apontar.

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

Protestos de junho do ano passado: precisaram de muita bomba de gaz lacrimogêneo para mandar todo mundo de volta para casa

O que é realmente apavorante para as classes dominantes nos manifestantes hoje presos e perseguidos é que, assim como os seus apoiadores, eles estão sobredeterminados na construção do socialismo, e na hora em que isso se transformou em alianças com setores mais amplos, como garis, professores e rodoviários, e foi-se desdobrando em ações práticas e diretas, como greves e a tentativa de abrir a caixa preta do transporte público na cidade, por exemplo, a repressão reapareceu na sua brutalidade mais crua. As pessoas estão sendo presas com base em declarações de testemunhas invisíveis, por crimes que não ocorreram e pela construção de bombas que não existem. As conversas das escutas transcritas para ilustrar as matérias do Globbels são constrangedoras por não provarem absolutamente nada. São conversas entre namorados, pai e filha, muitas vezes regadas à exageração juvenil dos próprios feitos. Há também, alega-se, uma interceptação de conversa em que um membro da FIP diz que “mataria um policial”. Bem, depois de ver, com meus próprios olhos, agentes do choque atirarem bala de borracha em mulher grávida, ameaçarem estuprar uma jovem da Aldeia Maracanã, abrirem a cabeça de uma amiga minha com cassetete entre centenas de outras proezas, eu poderia dizer que eu mataria TODOS os policiais do choque (caros poderes públicos, eu estou apenas ilustrando um ponto, não se emprenhem demais em mostrar que eu tenho razão, por favor).

O título “Eu acuso” vem da carta intitulada “J’accuse”, escrita por Émile Zola e publicada pelo jornal Aurore, em 1898, em defesa do oficial do exercito Frances de origem judia, Alfred Dreyfus, acusado de traição e responsabilizado pela derrota da França na guerra franco-prussiana (1870-1871). O caso Dreyfus foi uma armação grosseira de um governo corrupto e incompetente para justiçar uma derrota militar humilhante do começo ao fim. Na carta, integralmente publicada na primeira página do jornal, Zola acusa nominalmente os generais e membros do governo responsáveis pela farsa. Mas o que o caso nos ensina, é que uma imprensa de fato coerente, ética e independente pode ser o melhor aliado para derrotar uma injustiça cometida contra um indivíduo (e, claro, contra toda a sociedade). Não gozamos no entanto desse privilégio no Brasil, onde a grande imprensa (salvo honrosas exceções) é venal, corrupta, aliada aos poderosos e fortemente dependente do Estado (mesmo que ela critique um partido governista específico) via verba de publicidade, isenções, sonegações e diversos tipos de maracutaia e, portanto, está sempre contra os interesses do povo.

Diferentemente do Aurore, a nossa gloriosa imprensa cria as vítimas e as dá de bandeja aos governos, para que eles as usem para desmantelar as reivindicações da sociedade, venham elas de categorias profissionais, como professores, venham elas de movimentos sociais organizados, tradicionais ou não. Enquanto isso, as luzes se apagam à nossa volta. Escreve isso enquanto ainda posso, enquanto não é proibido, e esperando que os companheiros nos cárceres do capital estejam bem, e os foragidos, bem escondidos.

Da série “perguntas que não querem calar”:
1) Se o processo corre em segredo de justiça, a ponto de nem os advogados terem acesso a ele, como a Rede Globbels obteve, como ela mesma declarou, acesso exclusivo a ele?
2) Quem foi o imbecil que autorizou a Globbels a tornar públicas as gravações das escutas telefônicas SIGILOSAS de pessoas que ainda não foram julgadas e de pessoas contra as quais sequer há processo aberto?

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Bestiality Report — A nova lei


 

 

 

 

Shooting in Tottenham Hale

 

 

 

 

 

Patrimônio público?

Em agosto de 2013, um gigantesco protesto tomou a Cinelândia. Milhares de pessoas estavam revoltadas com a manobra política do prefeito e do Governador em relação à CPI dos ônibus. A comissão parlamentar era constituída apenas por vereadores da base governista. Nasceu morta e terminou morta.

Naquele dia senti que a população queria ver a Câmara dos Vereadores arder em chamas. Se o prédio fosse reduzido a cinzas, para a justiça do povo não haveria crime contra o patrimônio público, pois a Gaiola não representava um bem público. Não era ― como não é ― um bem de uso comum do povo. Aquele edifício cometia a ignomínia de representar interesses privados de forma descarada diante de uma população que se rebelava contra a degradação da mobilidade urbana. Nesse sentido, a Câmara dos Vereadores não simbolizava naquele instante o patrimônio público, pois não era um conjunto de bens e direitos que deviam pertencer a todos. Encarnava uma entidade que representava o interesse de determinados grupos privados.

 

Organizações Globo ontem e hoje

“O Ato Institucional número 5 está sendo tratado por alguns como caso de perseguição política. Balela. As forças armadas estão apenas cumprindo seu dever de salvar o país do comunismo.”

“A prisão da militante Sininho e outras pessoas (…) está sendo tratada como ato de repressão política. Balela, pois a prisão resulta de investigação policial, feita dentro da lei. O Estado apenas cumpre sua função de defender a sociedade de grupos violentos, sejam ou não movidos por ideário político-ideológico”.

 

Bestiality Report — A nova lei

A Delegacia de Repressão a Crimes Hipotéticos e Sonhados conseguiu rasgar a Constituição e instituir seu mundo totalitário. Nesse setor da polícia o futuro é visualizado antecipadamente por paranormais, os precops, e o manifestante é punido antes de sair às ruas.
O chefe de Polícia Civil do Rio, Fernando Veloso, o delegado Alessandro Thiers e o juiz Flávio Nicolau são os três precops que só trabalham juntos e flutuam conectados num tanque de fluido nutriente. Quando eles têm uma visão, o nome do manifestante aparece escrito numa pequena esfera. Também surgem imagens do protesto e a hora exata em que acontecerá.
Estas informações são fornecidas a uma elite midiática, que tenta denegrir a imagem das vítimas com a arte da manipulação. Mas há um dilema: se alguém é preso antes de se manifestar pode esta pessoa ser acusada de alguma coisa? Como poderia haver punição se o motivo da sua prisão nunca aconteceu?

 

Estado Policialesco

O Senado do Auriverde Pendão aprovou estatuto que garante porte de arma de fogo e poder de polícia a guardas municipais. Somente a Cidade Espetaculosa ostenta um efetivo de 8000 guardas civis que têm como maior recreação o espancamento de camelô. Dar pistola para quem atua na segurança patrimonial é mais uma ação concreta no caminho de um Estado Policial. Enquanto a população clama pela desmilitarização da PM e manifestantes sofrem prisões arbitrárias, nossos maganos do parlamento querem infestar o país de mais gente armada que encara o povo como inimigo.

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João Ubaldo e o Grão-tucano


joão ubaldo

João Ubaldo era escritor de fôlego romanesco. Suas crônicas nos jornais pareciam esboços de um romance. Escrevia aos domingos no jornal O Globo, na mesma página em que o conciso Veríssimo tece suas linhas de mestre no gênero. As crônicas velozes deste faziam com que os parágrafos daquele fossem longorosos , arrantados, prolixos por princípio e vocação.

Nada disso diminui o romancista que já era um dos gigantes da literatura brasileira.

Entrando nos bastidores da Academia, João Ubaldo participou de um caso que pode ser contado a partir do ponto de vista da influência do poder político e econômico nas eleições dos acadêmicos.

Após a morte de Lord Marinho, em 2003, a viúva Lily manifestou o desejo de que FHC tomasse posse da cadeira do falecido. O Senhor Privataria agradeceu e disse que não disputaria a indicação. A verdadeira motivação para isso estava num artigo do escritor baiano, cujo final fez adiar o sonho de imortalidade do pai do neoliberalismo do Auriverde Pendão.

“… E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.”

Foi preciso o autor de Sargento Getúlio criar animosidades com o PT e ter a saúde fragilizada para os acadêmicos fazerem seu conchavo para dar imortalidade a FHC.

Enquanto os convidados Vips ouviam o discurso do debutante, centenas de soldados da Tropa de Choque isolavam o quarteirão da ABL, criando uma barreira militar entre manifestantes e o tradicional Túmulo das letras.

Ao passar sua obra em revista, FHC recordou que seus “primeiros trabalhos sociológicos foram sobre a condição da vida dos negros e sobre o preconceito racial”. Falava, especificamente, de seu livro de estreia, Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, de 1960. Momentos depois, quando os convidados se aglomeravam numa fila improvisada para cumprimentar o novo acadêmico, Gilberto Gil teceu um breve comentário: “Pois é. Também pensei nisso quando ele citou o livro. Eu era o único preto na plateia. Mas é sempre assim, em todos os lugares de elite no Brasil.”

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100 dias nas Filipinas – Parte I


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por Andressa Maxnuck

Preâmbulo: este texto é a conclusão da trilogia do tempo, que teve início com “2.800 minutos em Bangkoke que foi continuada por “50 horas em Hong Kong. Por razões metodológicas e afetivas – as Filipinas são a nação asiática em que permaneci por mais tempo, de modo que é significativamente maior o volume de relatos e de memórias carinhosamente acumuladas -, dividirei a narrativa em duas publicações; segue-se, a esta, uma Parte II.

MAPA-MUNDI

As Filipinas são um arquipélago no Sudeste Asiático composto de mais de 7.000 ilhas, localizado entre o Mar das Filipinas e o Mar da China Meridional. Esse território nada contíguo é dividido em três grupos principais de ilhas: Luzon (no norte), Visayas (no centro) e Mindanao (no sul). Eu morei por alguns meses na capital, Manila, uma das cidades mais populosas do mundo (as Filipinas têm quase 100 milhões de habitantes), dividindo-me entre a vizinhança de Makati City, onde residia (aka o Leblon de Manoel Carlos filipino), e a de Quezon City (aka Madureira pinay – adjetivo que se refere a quem tem ascendência filipina), ambas na grande região de Metro Manila.

LÍNGUA

As Filipinas estiveram sob a influência espanhola por quase 4 séculos e foram um território estadunidense por 50 anos. Assim, pode-se concluir que todos os habitantes falam espanhol correntemente, certo? Não: os filipinos são fluentes em inglês e do espanhol herdaram apenas os nomes próprios, as placas de ruas e as denominações de alguns objetos. O tagalog (ou filipino) e o inglês são as duas línguas oficiais do país (dentre cerca de 80 idiomas falados no arquipélago).

Percebi que um dos indicadores sociais por lá era, justamente, o sotaque do inglês: quanto maior a verossimilhança com o acento norte-americano, maior a possibilidade de a pessoa pertencer a uma classe econômica privilegiada. Desse modo, desenvolvi (de início, de forma inconsciente; depois, ao me dar conta, voluntariamente) o meu próprio sotaque de inglês – algo próximo do acento do Borat – o que provavelmente deixava os pilipinos imaginando que eu vinha de um lugar muito underground.

 

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

Jeepney, o meio de transporte mais conhecido no país – uma criação filipina

COMIDA

Eu sempre fui fã da gastronomia como esporte radical; assim, não me assustei com a imersão na cozinha asiática. A comida filipina, em especial, não é das mais saborosas – me lembrou muito meus elaborados jantares, preparados sob a égide de receitas de Paulo Tiefenthaler, do Larica Total (“cozinha de guerrilha”). Mas, estando cercada de tantas boas cuisines internationales, me diverti muito: fui a restaurante indiano, cingapurense, persa, tailandês, japonês. Muitas vezes pedia a comida sem fazer ideia do que vinha, de propósito, só pra ter a surpresa.

No entanto, confesso que de vez em quando era brabo. Um dia recebi peixe frito com arroz para o meu café da manhã e, em outro, pensei ter pedido uma simples salada de manga com caranguejo desfiado e foi-me servido um primo do sarapatel. Quando descobri um fast food francês quase chorei de emoção por poder comer uma salada pela primeira vez, após um mês.

Além disso, sempre achei que não tinha frescura de comer qualquer bicho esquisito, legume exótico ou comida folclórica. Até o dia em que fui conhecer Binondo, a primeira Chinatown do mundo (localizada em Manila), quando encontrei a fronteira que separa homens de crianças. E bati em retirada para o McDonald’s.

A propósito, a primeira comida estragada na Ásia a gente nunca esquece.

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Lechon kawali: um dos pratos da cozinha filipina, de influência espanhola.

BEBIDA

Na linha das experiências gustativas, tive a oportunidade de tomar o pior refrigerante do mundo: Sarsi. Feito de salsaparrilha e vendido apenas no Sudeste Asiático, sua fábrica foi comprada pela Coca-Cola – evidentemente que toda essa informação eu só obtive após ter ingerido 10ml da gasosa, buscando no Wikipedia, instigada por saber de que era feito aquele líquido repugnante.

VESTUÁRIO

A despeito da larga influência ocidental, em um aspecto os filipinos mantêm tanto a sua tradição quanto a coerência com o clima dos trópicos: quando se trata de vestimenta formal. Nada de terno calorento, à la inglesa – nos compromissos oficiais os homens filipinos usam o barong tagalog. Homens pinoy sapateando – com louvor – na cabeça do macaquismo praticado pelos demais países periféricos.

foto 4 - esquerda

baralong tagalog masculino

foto 4 - direita

Binondo, a primeira Chinatown do mundo

 

ESPORTE

O esporte nacional é o basquete – o que me causou muita impressão, uma vez que a estatura média da população é de cerca de 1,55m. Há quadras de basquete por todos os lados (há a conveniência de elas serem menores e, assim, poderem ser mais numerosas e abrigarem mais filipinos, que são muitos). Segue-se, nessa preferência, o boxe inglês, certamente reflexo do soft power americano. De futebol, nem sinal.

Contemporaneamente, parece que os filipinos elegeram a corrida como atividade física preferida. Ao cair da noite (não sei se isso se relaciona com a obsessão nacional por uma pele clara, o que contarei posteriormente), saem pessoas de todos os cantos pra correr nas praças e calçadas.

RELIGIÃO

Os Filipinos são de uma religiosidade que nunca vi: sejam católicos (cerca de 80 por cento), sejam muçulmanos (aproximadamente 10 por cento), todos se dedicam com a maior honestidade de propósito à metafísica.

Certa vez, fazendo as unhas, em um dado momento todos no salão de beleza pararam suas atividades para fazer uma prece, acompanhados pela transmissão no rádio. No feriado da Páscoa – que lá começa naquinta-feira -, todo o comércio e serviços fecham as portas por 2 dias, período em que as pessoas se dirigem às igrejas ou às casas de seus familiares, no interior. Eu mesma me senti compelida a participar: fui à Penha local, Quiapo, e fiz a Visita Iglesia – uma peregrinação nas igrejas próximas. Pessoas acompanham em caravanas levando cruzes; outros se autoflagelam; uns poucos, mais radicais, se crucificam (ressalva: a prática é desencorajada pelo catolicismo e proibida a não-Filipinos). De impressionar a massa de católicos-não-praticantes brasileiros.

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

Decoração interior de um trycicle (triciclo)

RELATIVISMO CULTURAL

Sei que diferença cultural é algo a se respeitar. Mas confesso que não me senti confortável nas algumas oportunidades – até então inéditas na minha vida – em que me deparei com mulheres usando niqab, aquele pano preto que cobre as mulheres da cabeça aos pés, deixando, apenas, uma fenda para os olhos. Há um considerável fluxo de muçulmanos no país, seja de nacionais – as filipinas muçulmanas são mais adeptas do hijab, véu que cobre apenas os cabelos e pescoço -, seja de estrangeiros – o país tornou-se um inegável hub de turismo e de negócios no Sudeste Asiático. Imagino que seja a mesma consternação que a visão de uma mulata semi-nua sambando na Sapucaí deve causar aos mais conservadores visitando o Rio. Mas, ainda assim, sinto-me bem mais à vontade com popozudas de shortinho, habitués aqui do purgatório da beleza e do caos.

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Filipina muçulmana usando hijab

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Moça, provavelmente estrangeira, usando niqab

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TRANSPORTE

Há muitos meios de transporte nas Filipinas. A grande dificuldade é conseguir circular no trânsito enlouquecedor. Sim, amigos: há congestionamentos piores do que os de São Paulo.

O meio de transporte mais conhecido – e exclusivo desse país – são os Jeepneys. Afora terem a tarifa mais barata dentre as demais opções, eles param em qualquer lugar para embarque e desembarque. Além disso, essa gambiarra automotiva – os jeepneys são os Jeeps usados pelas tropas americanas durante a II Guerra Mundial “alongados” – é um charme. Dentro dele cabem 20 passageiros filipinos – o correspondente a 8 brasileiros, no máximo.

Outro modal são os Trycicles (do gênero dos pedicabs ou rickshaws). Gente, esse é o melhor meio de transporte do mundo: quando eu descobri que eu poderia usá-los pra chegar no meu trabalho em Quezon City/Madureira (eles não circulam em Makati City), eu fiquei realizada!

Houve ainda um dia em que eu tomei outra condução em direção ao trabalho: uma carona na moto do MMDA officer – o correspondente ao nosso Guarda Municipal. Foi só emoção no transporte filipino, rs.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

Trycicles (triciclos): eles podem ser acoplados a uma moto ou bicicleta.

ESTRANHEZAS

É aquele lance da relatividade cultural: as coisas são certas ou erradas dependendo do lugar aonde você está. Aparentemente, nas Filipinas arroto e flatulência em público não só não são inadequados, como, às vezes pensava, são endossados. Por outro lado, percebi um certo desconforto com espreguiçamento ou bocejo na rua. Vai entender.

Banda cult filipina – Ang Bandang Shirley

 

Imagens de pinturas de Juan Luna, o herói das artes plásticas filipinas:

https://www.google.com.br/search?q=juan+luna+paintings&espv=2&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=WrPFU-v8IY7gsASExoGwAw&sqi=2&ved=0CBsQsAQ&biw=1366&bih=643

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Teve Copa


O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo aos estritamente futebolísticos

O fantasma de 50: ao que tudo indica, os fantasmas de 2014 são muito mais assustadores, e não estou me referindo apenas aos estritamente futebolísticos

“Este é o sertão. Uns querem que não seja.”
- Riobaldo – GSV

Domingo, dia da final da famigerada Copa das Remoções, o Estado e a sua polícia se excederam para além de qualquer medida do razoável. Contra um grupo de manifestantes que dificilmente ultrapassou quinhentas pessoas, um contingente de 2.000 policiais, contando choque e cavalaria (espadas em punho) foi designado para abortar um ato que iria da Saens Peña ao Maracanã, em protesto, como já é de praxe, contra os gastos com a Copa e etc. “Iria” em dois sentidos, uma vez que, graças aos corajosos homens da lei, o ato não conseguiu sair da praça, como também, graças às dezenove prisões arbitrárias do dia anterior, o foco do ato mudou completamente, do “não vai ter Copa” para “libertem os presos políticos”.

As prisões do dia 12 de julho estão sendo chamadas pelos advogados de “prisões mãe Dinah”, uma vez que, em um processo permeado pela clarividência do Poder Público, a polícia civil prendeu dezenove ativistas (nove ainda estão foragidos) baseada na pressuposição paranormal de que “os elementos” viriam a realizar atos de terrorismo e violência no dia seguinte.

O que vemos, e é preciso ser muito ingênuo para não entender isso, é que todos os movimentos em oposição aos governos (federal, estaduais e municipais) e contra os grandes eventos (leia-se, contra o grande capital) estão sendo massacrados. Há uma clara articulação entre as esferas de poder, as polícias e a grande mídia para reprimir e criminalizar a legítima indignação que vem sendo demonstrada nas ruas. As ordens vêm de cima e elas são rigorosamente observadas pelos subordinados. O que os poderes têm deixado bem claro, além disso, é que eles são os donos do campinho, e que as regras mudam em seu benefício, toda vez que necessário isso se fizer. O tal Estado de Direito só existe mesmo em favor da manutenção do status quo velho de guerra da sociedade. Quando confrontado por grupos dispostos à sua subversão, o Estado de Direito acaba, e entra em cena o contorcionismo policial e jurídico para justificar qualquer coisa, inclusive a prisão arbitrária e a prisão de menores, em um fim de semana (para tornar a reversão das prisões mais difícil), por um juiz que em tese sequer poderia pedir essas prisões.

Na praça, assistimos aterrados a mais um show de democracia do Estado brasileiro. Domingo teve violação dos direitos humanos, teve menina levando chute, fotógrafo levando chute na cara, policial afanando instrumento de trabalho de fotógrafo. Teve, enfim, um pouco de tudo que não deveria ter tido (inclusive, uma final de Copa do mundo). Para completar, houve o cercamento da praça, que deixou centenas de pessoas presas ali, à mercê da polícia, por mais de duas horas. Qual a justificativa para uma afronta dessas ao direito fundamental de ir e vir, consagrado na nossa dita Constituição Cidadã? As pessoas, pelo visto, “abusaram” desse direito e foram castigadas por causa disso. Deboche à parte, o medo de todos ali (inclusive o meu) era que se repetisse o episódio das escadarias da câmara dos vereadores, quando mais de cem foram presos apenas por estarem sentados ali, após um ato que foi reprimido com particular violência pela PM.

Ontem, tardiamente, os pedidos de habeas corpus de doze dos ativistas foram concedidos (como ainda há cinco presos e nove foragidos, é cedo para comemorar). Mais tardiamente ainda, quatro PMs foram presos, os envolvidos no roubo da câmera e o que quebrou o braço de um jornalista, salvo engano. A única providência capaz de impedir o abuso de poder por parte da polícia é a punição, mas esta só veio (não creio que por coincidência), no fim da Copa do mundo. Como consequência dessa impunidade, o que vimos até hoje foi a incansável repetição das cenas de violência policial que se tornaram o martírio do manifestante no Rio de Janeiro. A realidade é que não há o menor interesse do Estado em coibir esses abusos, desde os leves, como os praticados contra manifestantes, até os gravíssimos, cometidos contra os moradores das favelas. Faz parte daquilo que se chama manutenção da ordem.

O espaço para as ideias relativamente moderadas está se retraindo. É um erro crer nessa mitologia do “manifestante violento”. Violento é o Estado que lança o seu aparato repressivo com força para reprimir o descontentamento e a discordância.

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Em tempo: a nova sensação do país são os Yellow Blocs: os burguesinhos mal-educados que têm dinheiro para pagar a agora caríssima entrada dos estádios (isso não vai acabar com a Copa – os preços continuarão insanos e acabaram com a Geral no Maracanã), mas não entendem nada de futebol (não sabem nem a hora de gritar “olé”). Vaiam a presidente que trouxe a festa especialmente para eles, vaiam hino do país adversário e vaiam a própria seleção (ao invés de incentivar, praticamente eliminando a vantagem de jogar em casa). São os leitores formados pelos Arnaldos Jabutis e Brunos Postantinos da vida. Contra esses, não há repressão nem cerceamento da liberdade de expressão, do direito de ir e vir e de manifestação.

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Manifestação 13 de Julho de 2014


Encontrei rolando pelo facebook um vídeo atribuído a um tal Claudio convocando uma manifestação para ontem nas capitais de todo o Brasil, ” sem tolerância com blackblocs”, para protestar contra a ” corrupção, contra a manipulação, contra o Sistema”.

Como se sabe temos 3 poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário, nos níveis federal, estaduais e municipais, cada um deles com tarefas definidas e todos, de muitas formas, responsáveis por parte dos assuntos da cidadania. A quais deles dirigiríamos as reivindicações? Sua convocação não diz. Aliás, além de se declarar ” contra a humilhação que sofremos todos os dias” e fazer generalizações vazias do tipo queremos “educação, saúde, bla, bla, bla”, nada ouvi de consistente.

A coisa mais objetiva dita no vídeo: “é muito caro comprar carro no Brasil por que temos os maiores impostos do mundo “ – o que, para começar, é mentira.
E era pra ir de camisa do Brasil, avisava o garoto.
Devia ter optado ver um vídeo com bebês fofos que também ia pela time line, bem na hora. Mas já que tomei a decisão errada, aproveito para registrar dúvidas e impressões.

Claudinho,

Alguma coisa temos em comum. Sou contra a manipulação, inclusive a sua. Então vou pular esse o joguinho apelativo – já estou legal de apelação ao patriotismo, por esse mês.
Agora me diga: o que especificamente você reivindica para a Saúde? O fim dos planos de saúde ? O convite para que venham 200 mil médicos estrangeiros já que não temos médicos brasileiros formados em quantidade e qualidade suficiente para atender todo mundo? Quer abolir completamente a concessão de equipamentos públicos para as OS ? ( fala, que se for isso, vou lavar minha camiseta já).
E para a Educação ? Qual é o plano ? Federalização do ensino básico? Aumento geral dos professores? Os Governadores e Prefeitos cumprirem o piso salarial? Pararem de contratar professor por dez meses e dispensar por dois? Qual é o jogo, garoto ?

Outra coisa : qual é o Sistema que você é contra? Tenho uma péssima notícia pra você. Quem detesta o Sistema detesta seu fetiche maior, o carro particular esse objeto que faz tanta gente amar o Sistema. Pode pesquisar e vai ver que não minto. E a pior notícia de todas : não sei se alguém vai nessa sua onda mas a Corrupção, com certeza, não vai. Aliás, vou lhe chocar agora, a CORRUPÇÃO não existe – assim, como entidade, substantiva. Ela é verbo, meu bem, é ação. Ela está ao nosso lado, todos os dias, nos menores atos do cotidiano e em todas as instituições privadas e públicas. Ela é feita do pacto de corruptores e corruptos e eles não têm marcas de Caim na testa. A corrupção é um processo, meu bem. Qual é o seu plano pra defender as instituições desse prática ?

Essas imagens aí do seu vídeo tem mais é cara de propaganda eleitoral, Claudinho. Então me diga, vá, só aqui entre nós: qual é o teu negócio, o nome do teu sócio, confia em mim.

Enquanto isso, ativistas estão presos, Claudinho e você nem se lembrou de citá-los. Tem gente presa em SP, MG, RJ, neste momento, sob alegações esdrúxulas. Mas a TV mostra o que quer, muita gente acredita e finge não perceber que esta mesma polícia capaz de acusar de formação de quadrilha militantes pacíficos e pacifistas, não conseguiu nunca controlar uma dúzia de manifestantes que resolvia fazer quebra-quebra bem na frente dos agentes da lei, armados até os dentes. Será que você já refletiu sobre isso ? A propósito : qual é a sua opinião sobre termos uma polícia que recebe treinamento militar, quando sua função é promover a segurança de cidadãos civis?
Eu sou ferrenha defensora do direito de livre manifestação e atenderei qualquer convocação que traga claras reivindicações, desde que concorde com elas, é claro. Mas seus “argumentos” de militante político, têm a mesma consistência da seleção dessa Copa, meu conterrâneo, nem dá pra você usar a derrota do time como alavanca pra sua campanha. Sem falar que seus objetivos parecem mais nebulosos que os negócios da FIFA.
Política é assunto sério, Claudinho, vai estudar e responde essas perguntas, deixa de querer aparecer ou levar no bico a criançada.

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Inaceitável é professor ficar sem salário! (Sem Explicações! Sem Vergonha! Cem textos!)


Alemanha 7, Brasil 1! O placar dos placares na propalada Copa das Copas, como insistentemente nomeada pela Esquerda Padrão Fifa- apelido carinhoso e apropriado que vi usado mais de uma vez aa militância governista e pró-Dilma, em geral, embora nem toda ela seja, de fato, esquerda no sentido em que considero ser esquerda. Um placar na medida da arrogância, prepotência e ufanismo da torcida brasileira. Acreditem, quem não torce pela seleção de futebol sabe bem do que tô falando. Aliás, quem o faz é tratado, recorrentemente, aa esquerda e aa direita como um apátrida, um pária, uma aberração moral, inominável. Ora, respeito aas minorias, mas não aa minoria que não torce por seu país. Ora, ora, torço pelo país numa série de coisas, inclusive nalgumas pras quais sequer há competições formais, mas, com certeza, uma delas não é no futebol. Aliás, quem foi humilhado pela Alemanha numa aula de futebol- logo essa nação, nas palavras do porta-voz mor do ufanismo acéfalo Galvão Bueno, que “joga algo parecido com futebol”- não foi o Brasil, mas a seleção brasileira de futebol, instâncias distintas. O Brasil é ou deveria ser bem mais do que futebol. E o espírito do país não deveria estar em jogo nisso.

pais-do-futebol

Mas, enfim, a seleção brasileira de futebol, vulgo time da CBF se lascou de verde e amarelo. Chamaram a essa acachapante derrota de imponderável, sem explicações. Tá bom. Se eu, como professor, tiver alunos que apresentem resultados fragorosamente ruins tenho que apresentar explicações mil a um monte de gente de um tanto instâncias pedagógicas ou não diferentes. Mas, quem sou eu pra me comparar com os ídolos da bola do Brasil, né? Com nossos salários tão díspares. É a lei do mais forte, do mais rico, do mais importante.

E a tal Copa das Copas? Como se mede isso, hein?! A Copa de 1930, no Uruguai, a primeira terá sido a Copa das Copas? Isso se vê na beleza dos estádios? Em seu custo (alto ou baixo)? Na participação popular (como assim, nos estádios? Eventos da Copa?)? Sei que se for pelo critério do futebol em si, ok. Até porque esse vem sendo um bálsamo a nós que temos que viver de migalhas de futebol carcomido no Brasileirão Mas, isso não tem a ver com o governo Dilma, bem como, justiça seja feita, a peripatética eliminação brasileira também não. Nem louros aa Esquerda Padrão Fifa e muito menos palmas pra Direitalha babona dançar.

copas2

Por falar em estádios e custos, o que fazer agora com a Arena Pantanal, Arena Amazônia e outros? Espero que não virem palco de rodeios.

copa 2014- elefante branco

Ah… o futebol dessa Copa…  primeiro gol contra. Já era indício de que algo de diferente viria pela frente. E veio. Quantos ineditismos se sucederam. A Copa de tantos gols, afinal a finalidade-mor de se jogar futebol, não? A Copa que opôs em campo o japonês Okubo ao colombiano Cuadrado, em disputa épica pela redonda bola, num grupo que ainda contava com a nação mãe da geometria, a Grécia. Por falar nisso, viva Costa Rica! Vedete da Copa! 5ª colocada, saída dum grupo com 7 títulos mundiais acumulados e nenhum dela, historicamente pobre no futebol. Foi primeira de seu grupo, aa frente de Uruguai, Itália e Inglaterra e ainda foi eliminada da competição invicta!

Costa-Rica-está-surpreendendo-na-Copa-do-Mundo-2014

Foi a Copa do NÃO VAI TER BOLÃO!

Restará o tal legado da Copa, esperamos, para além dos elefantes brancos, desrespeito geral aa população, sobretudo mais pobre, remoções para obras da Copa e o tanto de sarrafo que se deitou em quem quis se manifestar. Sabemos que esse legado não será de hospitais, claro, como deixou bem claro Ronaldinho, superado por Klose nesta Copa (Uhu!). Ainda bem que Neymar não dependia de hospitais públicos, né?

Que fique principalmente a ideia de que a Fifa não é dona e senhora dos países em que aporta. Que vejamos em 2018, na Rússia, contestações aos mandos e desmandos da Dona Fifa. Quem sabe assim não (res)surgem os redblocks a tentar uma nova libertação da opressão capitalista? Toma, Putin!

[Matt Groening mitando e prevendo o futuro mais uma vez?! Acertou no episódio dos Simpsons na Copa do Mundo do Brasil, da 25ª temporada, em que previu tanto a contusão de Neymar quanto a derrota pra Alemanha.]

copa- simpsons

16º episódio da 25ª temporada. Aliás, passou na Fox, na véspera do jogo da Alemanha, como presságio.

Em meio a todo o clima de perplexidade sucessivo com a fratura de Neymar e depois com o sacode antológico que o Brasil ganhou da Alemanha, bom seria que a mesma perplexidade se demonstrasse também diante do descalabro de tantos professores do Rio de Janeiro estarem sem seus salários por terem feito greve! Isso é a contramão do que precisamos em termos de respeito ao profissional, ainda mais na educação pública que deveria ter condições de garantir criticidade aaqueles que não podem ou optam por não recorrer aa rede particular de ensino.

copa- professoresLutar tem que ser bonito fora dos gramados também. E precisa ser reconhecido assim. Ter que lutar pelo direito a lutar é um retrocesso preocupantíssimo. Isso deveria preocupar a Esquerda Padrão Fifa, que, em geral, põe todos os que emitem críticas ao governo Dilma no mesmo balaio. É uma análise do nível de profundidade das tantas análises de futebol que se têm visto por aí.

Agora, é assistir de camarote aas duas últimas partidas desta já saudosa, futebolisticamente, Copa. O Brasil, perigando um 4º lugar, o que saberemos daqui a pouco e que seria mesmo o justo, pelo que se viu das semis. E na finalíssima que opõe duas grandiosas seleções, ambas merecedoras de mais um mundial, há todo um clima deplorável antiargentino no ar. A melhor coisa que poderia acontecer pra completar o baque na cabeça da arrogante torcida brasileira e dos paleozoicos dirigentes de futebol e técnicos no país seria um título argentino in terra brasilis, o que, aliás, resultaria numa conformação muito mais equilibrada pra realidade do futebol sul-americano. Além disso, todo o clima antiargentino que é tão praticado é algo que, pra além de maxibairrismo tosco, beira o racismo, como bem deixam claras tantas falas que se referem aos caros hermanos como “Ô, raça…”.

argentina torcidaDepois de encerrada a Copa, restam as partidas do nosso Brasil real. Muitas torcidas a se ganhar em corações e mentes, disputas acirradíssimas. Já tá rolando a bola…

Por fim, este aqui é meu centésimo texto no Transversos. Tudo começou em 23 de fevereiro do ano passado. De lá pra cá, os temas têm sido os mais variados possíveis: poesia, música, quadrinhos, cinema, política, sociedade brasileira, comportamento, datas emblemáticas, fatos da atualidade, textos nonsense, etc. Muito bom poder compartilhar por 100 textos e pelos que virão ideias e ideais aqui nesse blogue! Obrigado a minha meia dúzia de três ou quatro leitores!

100 transversismos, transversões e transversusras!

100_posts

P.S.: Brasil e Alemanha eterno: http://brasilalemanhaeterno.com/

 

 

 

 

 

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Está chegando a hora… Ou vai-se a FIFA, fica o padrão JB (Justiça Brasileira)


E lá vou eu começando por notícia irrelevante só pra dar aquela salvada no ego nacional tanta vezes vilipendiado esta semana – como de costume, verdade seja dita. Os turistas gringos estão todo contentes conosco. Depois de descobrirem que somos ótimos anfitriões ( fora uma minoria de toscos que andou a frequentar as partidas da Copa) agora andam boquiabertos por termos escancarado as pilantragens da FIFA. Testemunhei e dou fé, escolhendo pra citar quase textualmente um depoimento da torcida dos que nos flagelaram em campo esta semana “ O Brasil, quem diria. Falhou da maneira que menos se esperava mas fez o que nunca dantes país algum conseguiu: escancarar essa máfia internacional” – me disse um alemão admirado. Ok, ele não disse “nunca dantes”, fiz versão livre só para provocar os nervos dos desafetos do Lula e para lembrar que não é só ele que acha que somos e seremos capazes de prodígios surpreendentes. Para o bem e para o mal, é claro.

Prodígio surpreendente para o bem, penso que o desenvolvimento do caso rumoroso da quadrilha de venda de ingressos da Copa dá prova.Tudo começou com a prisão do cidadão argelino Lamine Fofana que parecia ter o perfil sob medida para morrer, sozinho, com o mico na mão e todo o B.O. nas costas. Mas eis que, num lance original, Raymond Whelan, executivo próximo às altas esferas da FIFA, com direito a hotel de luxo e tudo, também vai parar no xilindró. Está certo que conseguiu alvará de soltura em questão de horas – e infelizmente não consegui apurar se por pagamento de fiança ou habeas corpus impetrado durante a madrugada – ah, a diligência dos nobres servidores da justiça com certos acu$ado$, que coisa comovente. Achei que a coisa ia parar por aí mas enganei-me de novo. Não é que na mesma semana, o MP do Rio de Janeiro decretou a prisão de 11 envolvidos, incluído o sr. Raymond que agora se encontra na situação de foragido? A continuar assim – e tenho motivos para acreditar que teremos capítulos eletrizantes como nunca dantes desta novela – em breve, o descortinamento completo das engrenagens desta máquina de produzir fortunas para poucos e lama para todos, vai fazer cair ilusões como bloquinhos de dominós enfileirados.

Infelizmente, o sistema judiciário continua a promover prodígios de vexame também. Refiro-me à vergonhosa detenção do militante pacífico e pacifista Hideki Hurano, o estudante e funcionário da Universidade de São Paulo. Apesar dos testemunhos abundantes – inclusive videográficos – de que não portava nenhum artefato de fogo ou arma branca e sequer participou de qualquer ação depredatória. Mesmo assim, plantaram evidências em sua mochila, o levaram para uma delegacia, o transferiram para uma prisão de segurança máxima no interior de São Paulo e, agora soubemos, foi transferido para uma cela coletiva. São 18 dias de prisão e humilhação para um jovem que não apresenta risco algum para a sociedade e que está sendo castigado por um único motivo: o de se importar com as questões da cidadania e exercer seu direito constitucional a manifestar isto em local público. E o MP paulista, até agora, nada.
Então vemos que, para variar, dois pesos e duas medidas na Justiça Brasileira é mato. A cada MP , conforme os desembargadores de ocasião. E por aí tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Reforma do Judiciário é uma das pautas urgentes, não é brincadeira, não é coisa supérflua. Mas sem demcratização da mídia, como informar, esclarecer, debater isto entre outras coisas com a sociedade brasileira ?
Para encerrar a croniqueta, conforme prometi comentar outro dia, digo agora por que achei que aquele slogan Hospitais padrão FIFA foi um tiro no pé – pelo menos daqueles que querem atendimento à SAÚDE e não bons negócios para a sua turma. Nós já temos muitos hospitais e até postos de saúde do tipo FIFA. São feitos com dinheiro público, recebem dinheiro de imposto federal, estadual e municipal mas são encampados pela iniciativa privada que os gere conforme sua veneta. Elas atendem pelo nome de OS e gastam o dinheiro público de modo muito independente, contratam médicos, fiscalizam o cumprimento de horas de trabalho e dão o padrão de atendimento que bem entendem. Só não movimentam um setor que traz divisas externas, como o turismo, e nem atendem o cidadão como se deve, mas isso é detalhe. No estado da arte da capitalista brasileira é assim. Tem muita gente posando de empresário, de benemérito, de empreendedor social gritando “ governo incompetente” mas empreender às suas próprias custas, ah, isso não. O negócio é privatizar os lucros e socializar os prejuízos.

Reivindicar escolas padrão FIFA, então, nem me fale. Sabem de nada, inocentes? Já viram o tamanho do interesse das fundações de ensino internacionais em comprar redes de Escolas de nível médio e superior no Brasil ? Só vou dar pista do tamanho do interesse, relatando o lucro do ano passado, da maior rede de faculdades do país: 5 bilhões de realetas. É ou não padrão FIFA? E tem mais essa, ,a lucrativa fifa educandária citada, manteve seu nome indígena, olha que fofa – pagar royalties para os indígenas, é claro, não faria o menor sentido. Está aí o Fuleco que não nos deixa mentir.

Mas vamo que vamo. O que está feito não está por fazer e o que falta a gente vai fazer e vai mesmo, não vai ter Copa ou máfia capaz de impedir.

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Fulecaram com a gente ou conta de mentiroso perfeita


fuleco

 

 

A rua silenciou.

Foi-se o carnaval bicolor, foi-se o acessório automotivo, a unha decorada.

Fulecaram com o sonho de toda a brava gente.

Não há isenção quando nos deparamos com a dor do irmão. Nesse momento, mesmo os avessos aos esportes levam-se pela comoção do amigo, do vizinho, dos colegas de trabalho.

Não há dicotomia entre esporte e política. A corrupção que os aproxima é a mesma que deve ser punida com rigores padrão FIFA(?). Agora já não sei se padrão FIFA, referindo-se a desvio é padrão superlativo de qualidade.

Usarão a derrota nos discursos de campanha. Também usariam a vitória. Tanto faz.

Programas de TV cercam-se de crianças lamentosas de nunca terem visto campeã a pátria de chuteiras. Não dão tanta visibilidade a elas pelos direitos que lhe são garantidos legalmente e diariamente usurpados.

Alguns vizinhos soltaram rojões para não desperdiçarem a compra.

Todo momento de crise leva a múltiplas refrações, indagações, reflexões.

Vó dizia que sete era conta de mentiroso. Mas no Dicionário de Símbolos, também é o número da perfeição.

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Pelo direito de falar asneira: “Pena que o povo não entende porra nenhuma” parte 2


Seria tão bom se o inferno existisse

Seria tão bom se o inferno existisse

Semana passada escrevi aqui no blog um texto propositalmente agressivo, quase um desabafo, motivado pela leitura de uma croniqueta particularmente infeliz saída em um desses jornalecos de direita de baixo profissionalismo e nenhum compromisso ético. Entre outras maravilhas, a tal croniqueta reclamava do racismo que os brancos sofrem, insultava o povo brasileiro (de onde vem a frase-título acima) e fazia toda a sorte de malabarismo para desqualificar os críticos à sociedade racista e elitista em que vivemos. Tratava-se na verdade de uma defesa da “elite branca”, tentando demonstrar que ela não existe (ou seja, que não há racismo nem luta de classes no Brasil). Como bem escreveu Charles Baudelaire, e lá se vão uns bons 150 anos, “o melhor truque do diabo é fingir que ele não existe”. E assim seguimos aturando repaginação em cima de repaginação do discurso da democracia racial e da sociedade supostamente igualitária em razão da sua “natural” benevolência e generosidade. “Conversa para boi dormir”, como se diz lá em Cruz Alta.

Talvez, uma das coisas que mais tenham me atingido, na croniqueta (além da infeliz coincidência de sua publicação com o quase linchamento de um professor negro), foi constatar que o seu autor, figura pública e não pouco desprezível, usasse para sustentar as suas posições argumentos que recorrentemente são usados para desqualificar muitos textos aqui do blog. Há, portanto, uma via de mão dupla aí. Esses “pensadores” de direita formam leitores histéricos e raivosos, que por suas próprias limitações intelectuais repetem seus argumentos, mas com mais ódio e menos compromisso ainda com fatos, dados, fontes, objetividade, imparcialidade e etc. No entanto, esses jornalistas e pseudojornalistas às vezes acabam eles mesmos apelando para os métodos dos seus leitores. Sim, irritei-me e dei uma resposta à altura e inflamada. Não me arrependo nem um pouco e juro fazer isso mais vezes.

Tanto pela minha militância de rua, quanto pelo que escrevo, passo por muitos aborrecimentos. Já sofri ameaça de morte, tentativas de invasão do computador, do facebook etc., recebo recorrentemente insultos de todo o tipo, no blog e fora dele (quando me envolvi na campanha do #nãomerecoserestuprada# foi o auge). Quem está na luta passa por isso. É inevitável, o que não torna, de forma alguma, agradável ter de ler comentários idiotas de leitores que parecem nem sequer ter lido os textos direito, sem compromisso nenhum em dialogar ao menos com o que de fato foi escrito, e menos ainda com a gramática.
Reitero todavia tudo o que escrevo. Vivemos um momento deprimente, em que de um lado há um governo em tese de esquerda, mas que beneficiou banqueiros e o capital internacional como poucos e que tem um projeto desenvolvimentista predatório e índiocida, e, de outro, uma elite de feições claramente plutocratas que resiste com ódio rábico aos mínimos avanços sociais promovidos por esse mesmo governo.

A realidade é que essas pessoas, representadas por intelectuais do naipe de Rodrigo Constatino et alii, estão apavoradas com a perda de privilégios que se desenha para os seus horizontes. Acostumados há décadas a terem acesso exclusivo aos melhores postos de trabalho e aos melhores benefícios sociais disponíveis, eles ficam completamente indignados com a repartição, no entanto mínima, desses privilégios (acesso à educação e à cultura e etc.), via programas sociais sejam de inclusão de minorias (como cotas) ou sejam de viés distributivo (como o bolsa família). Direitos são benefícios extensíveis a todos, ou que visem à correção de desequilíbrios e desigualdades, ou então são a contraparte de deveres. Direitos que não atendam a nenhuma dessas premissas não são direitos, são privilégios.
Infelizmente, em nosso país, uma das grandes forças estruturadoras desses privilégios é a universidade pública, que até hoje tem cursos quase exclusivamente cursados por ricos brancos (aqueles das elites brancas que não existem, segundo o raciocínio da croniqueta desinfeliz). O que realmente me consterna e me choca é ver pessoas que foram privilegiadas a vida inteira, se portarem com arrogância e prepotência, como se realizadores de grandes feitos fossem, ao ponto de se crerem no direito até de humilhar os outros. Eu me pergunto: será que essas pessoas não percebem que elas tiveram todas as facilidades? Que elas não têm nenhum mérito, pois sempre encontraram todas as portas abertas (portas estas hermeticamente fechadas para a maioria)? Talvez, o que tenha faltado falar no texto de semana passada é que eu também sou beneficiário desse sistema de “cotas invisíveis”. Não tive dificuldade nenhuma para conseguir o meu primeiro emprego em uma editora. Cheguei branco e com meu diploma da UFRJ, e o entrevistador não precisou de mais nada. “Está contratado”. Talvez seja esse o terrível racismo contra os brancos a que o autor da croniqueta se refira: a dificuldade de se tornar desempregado, para gozar do privilégio do Seguro Desemprego. Eu apenas não sou cínico o bastante para ignorar isso e tão pouco tenho a indelicadeza de me sentir superior a quem quer que seja, por causa disso.

E não me custa nada lembrar que o meu objetivo central, semana passada e agora, seja apontar esta realidade ridícula: os produtores do discurso ideológico contra cotas e contra programas sociais (assim como seus raivosos apoiadores) são, de regra, beneficiários de todos os privilégios, a começar do acesso ao ensino superior gratuito e de qualidade. Trata-se da luta mais egoística de todas: a que não quer abrir mão nem do menor dos anéis, mesmo correndo o risco de um dia perder todos os dedos. Não custa lembrar também que o ensino superior brasileiro foi em grande parte desenhado durante a ditadura militar, e carrega vários ranços disso até hoje, inclusive da meritocracia. O mais surpreendente é ver que ainda há quem defenda a não mudança, que luta para a manutenção de um sistema de acesso fora da realidade social do país, assim como contra qualquer tipo de avaliação da qualidade do que é produzido, mesmo que um simples esquema peers review. Não querem, pois só têm a perder, e nada a ganhar. A demofobia não cede, e o povo continua não chamado a pegar em armas.

Para finalizar, odiei também as críticas às asneiras que o Lula fala. Isso já é o cúmulo. Pessoas que falam em racismo contra brancos só podem estar de sacanagem. Elas querem que até o direito de falar merda se torne um privilégio? As próximas passeatas terão que fazer reivindicações muito esquisitas…

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