A corrupção nossa de cada dia nos dai hoje


corrupção-3O Deus-mercado tem fome. De lucros. O Deus-mercado tem sede. De poder. E sua fome e sua sede condenam à miséria milhões de pessoas. Sua fome se alimenta da desnutrição de milhões. E sua sede deixa outras tantas milhões de bocas secas. O Deus-mercado tem pressa. Mas não tem pena.

Há uma vertente de estudos que considera as empresas como organismos vivos. Dentro desta metáfora, compreende-se que as organizações dependem de recursos vitais, como seres vivos. Alimentam-se dos lucros. Apresentam a necessidade de crescimento contínuo. São predadores naturais em um ambiente repleto de presas.

Obviamente, existem seus defensores, dentro da própria metáfora, que afirmam que a natureza vive em equilíbrio e que o mesmo ocorreria com o mercado. O famoso aforismo de que “o mercado se autorregula”. Eis o poço das ingenuidades em que vivem tantas boas mentes.

Na natureza um predador mata porque tem fome. E não mais. A natureza do capital não encontra limites. A fome é insaciável, o crescimento é um objetivo. Desta forma, não há qualquer freio, há apenas mercados em disputa, espaço a conquistar.

E, como se trata de sobrevivência, qualquer ação é válida. A luta por continuar vivo torna a ética um conceito maleável, quase descartável. E é assim que a corrupção toma parte no capitalismo. Não há como negá-la, pois faz parte da sua essência. É consequência natural de seu modo de organização produtiva.

Defender a liberdade de mercado como solução para enfrentar a corrupção é como defender a abolição de qualquer sistema judiciário para combater a violência. Empresas corrompem empresas, pessoas, mercados. A corrupção é uma das formas de sobrevivência do sistema, por isso é inerente e mesmo necessária a ele.

Quantos são os cartéis existentes aqui mesmo em nossas cidades? Dê um passeio pelos postos de gasolina de seu bairro e perceba que a “livre concorrência” não possui nem liberdade, nem concorrência. E o que dizer de trustes – que nada têm de confiáveis – que ganham chancela dos “órgãos de controle” e viram holdings que possuem quase a totalidade de seus mercados?

Quando algo incomoda, é o poder do suborno e a força de “mercado” que acabam com qualquer “concorrência”. A Coca-cola, quando se vê ameaçada por pequenas tubaínas, pratica claramente dumping e pressiona economicamente comerciantes locais a abandonarem a venda dos concorrentes. Assim, o “Abacatinho” em MG sumiu das prateleiras. Assim, o Guaraná Jesus virou um produto The Coca-Cola Company. O Deus-mercado agora tem seu filho entre nós.

A liberdade do mercado é a porta aberta à corrupção. Talvez por isso haja tantos órgãos de controle nos países com capitalismo desenvolvido. Mas, de nada adianta. Um relatório da Comissão Europeia revela uma “preocupação generalizada” com a corrupção, apontando custos de 120 bilhões de euros com condutas “irregulares” de empresas privadas e governos.

Nos Estados Unidos não é diferente. Sobram propinas, subornos, dumpings, cartéis, trustes nacionais e multinacionais. Raios privatizadores! Em prisões privadas estadunidenses – modelo defendido por muitos como fim do “abuso estatal” – ávidas por “clientes”, a consequência natural do capitalismo ocorre: juízes, agraciados com generosas contribuições empresariais voluntárias, condenaram cinco mil crianças, das quais duas mil foram submetias a internações e tratamentos, com administração de antidepressivos e outros medicamentos tão agressivos quanto aqueles usados em manicômios do século XIX.

No Brasil, a tropicalização existencial do capitalismo, com sua maior tolerância cultural, advinda de uma ética dúbia praticada em nossa sociedade, rende seus frutos escusos. Acusa-se o governo e a Petrobras de serem corruptos, quando, na verdade, a corrupção é parte integrante de todo o sistema. Incluindo o governo-defensor-do-capital e a Petrobras.

A “torcida” é que se prendam todos. Políticos corruptos, empresários e demais membros deste e de outros esquemas. Desde o início, por completo. Uma devassa é necessária. De maneira séria, não sobrariam mandatos na política nacional. Brasília, uma cidade-fantasma.

E, na defesa do indefensável, não é que surge exatamente o discurso do “agora se rouba menos”? Como se o fato de que alguém tivesse roubado mais inocentasse qualquer comportamento. “Ah, como está institucionalizado podemos administá-lo de modo aceitável.” Não, não é porque a corrupção é sistêmica que seus operadores não guardam responsabilidade.

Por isso o governo não está nem perto da inocência! É o governo que promove o cenário ideal para que isso ocorra. E é muito bem pago por isso, com doações de campanha que formam uma “corrupção legalizada”, na qual se compram diretamente o apoio e o programa de governo. Passando, claro, pela escolha de ministros e dirigentes de órgãos públicos.

Você não achou que votar na Dilma faria diferença na condução dos rumos do país, não é mesmo? Ah, achou? Puxa vida, esses dias devem estar sendo constrangedores para você…

O fato é que, quanto mais relações entre os interesses públicos e os privados, tanto maior será a corrupção. Licitações e controles pouco adiantam. Nem aqui, nem nos “paraísos” do capital. Claro que nossa impunidade ajuda a perpetuar o esquema, mas acabar com a corrupção é acabar com os interesses do capital. Decerto, pode haver corrpução também sem o capital. Contudo, não há capitalismo sem corrupção.

Relatório europeu sobre corrupção:

http://ec.europa.eu/news/justice/140206_pt.htm

Juiz que trocou crianças na cadeia por tostões:

http://bluenationreview.com/judge-sentenced-selling-kids-profit-prison/

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Valeu, Zumbi!


Xangô

Perspectiva diacrônica

Estima-se que 35 mil pessoas habitavam o mais conhecido dos quilombos, o de Palmares, nos limites de Alagoas e Pernambuco, entre 1624 e 1654.  Abrigava mais de 10 comunidades de diversas etnias, protegidas por estratégias militares sofisticadas que chegaram a evitar por mais de 100 anos a invasão colonizadora, tanto portuguesa quanto holandesa. Constituía-se em espaço de resistência, reverenciando a cultura ancestral, organizando-se socialmente, abrigando negros fugidos, negros libertos e brancos pobres foragidos da justiça.

Seu primeiro líder, Ganga Zumba,  tornou-se notório por ter assinado um tratado de paz com o governador-geral da capitania de Pernambuco Pedro de Almeida. Há mudanças na visão dos historiadores quanto ao papel do líder negro nos quilombos: de manipulado ou traidor a conciliador, que buscava no tratado uma forma de garantir a preservação das comunidades.  O tratado prometia “união, bom tratamento e terra”.

Uma das condições do acordo era a de que Ganga Zumba e seus partidários passassem a habitar a região de Cucaú, distante 32 km de Serinhaé.  Versão antiga para algo que já conhecemos, com um pouco mais de estratégia política da parte colonizadora, como manda o figurino dos acordos não cumpridos. Dava-se, então, uma espécie de “acordo de remoção”. Os habitantes das vilas próximas rejeitavam a presença dos novos moradores. O quilombo viu-se dividido entre os apoiadores e os críticos do líder, que foi envenenado e sucedido pelo sobrinho opositor Zumbi, que contava então com 23 anos de idade.

Zumbi, capturado ainda criança numa incursão colonizadora no quilombo, foi educado por um missionário, que lhe ensinou português e latim. Aos 15 anos, retorna a Palmares. Chefe do exército quilombola e opositor do tio por conta da assinatura do tratado, Zumbi é alçado líder do grupo e torna-se um dos ícones da resistência negra, em especial, por NUNCA ter aceito qualquer tipo de acordo com os opressores.

Diziam que sua imortalidade, ou seu corpo fechado, favoreciam o triunfo, impedindo a vitória dos inimigos. Para mostrar que isso não passava de lenda, à captura de Zumbi, após ferido mortalmente por um de seus homens de confiança, seguiram-se a sua morte e degola pelas tropas portuguesas. Em 20 de novembro de 1695, sua cabeça foi exposta na capital recifense, numa demonstração de barbárie tão cara às autoridades desta terra desde sempre.

O líder da expedição que destruiu o Quilombo dos Palmares em 1695 foi Domingos Jorge Velho, bandeirante conhecido por ser ladrão de gado, degolador de índios e negros e integrante de uma “força policial colonial” não oficial, uma espécie de milícia da época.

Perspectiva sincrônica

Pesquisas do Mapa da Violência e do IPEA revelam que 39 mil negros são assassinados todos os anos no Brasil. Partiu-se da realidade da escravidão para a de homicídios de afrodescendentes na atualidade. A observação mais apurada voltada para a necessidade de políticas públicas que contemplem a população atingida, evitando o extermínio, em especial, de parcela considerável da juventude negra, enseja o estudo da Teoria das Abordagens de Atividades Rotineiras1. Tal teoria propõe o estudo não das características dos criminosos, mas das circunstâncias em que os crimes ocorrem.Estabelece que se pode denominar “ato predatório” a convergência no tempo e no espaço de três elementos: ofensor motivado, alguém predisposto a cometer um crime por algum motivo; alvo disponível, pessoa ou objeto que possa ser atacado; ausência de guardiões, aqueles capazes de prevenir violações.

É alarmante a constatação que, em relação à população negra, não raras vezes aquele que deveria agir como guardião se identifica com o ofensor motivado. Estão aí os autos de resistência para quem quiser saber, mortes causadas pela polícia sob alegação de resistência à prisão, expediente criado nos tempos da ditadura para justificar toda sorte de violência cometida no período. Um dos muitos legados não apagados da nossa realidade cotidiana.

Para ilustrar a situação dos homicídios entre a população negra e a não negra, segue gráfico publicado na pesquisa do IPEA de 2013 “Vidas perdidas e Racismo no Brasil”. Levando-se em consideração que o último censo demográfico do IBGE (2010) aponta pouca diferença quantitativa no total da população negra (97 milhões, o que inclui pretos e pardos) e não negra (93 milhões), pode-se verificar que a dimensão dos assassinatos de determinada parcela da população é uma realidade incontestável e urgente de políticas públicas a fim de evitar extermínio.

mortes

O dia é de festa, mas a comemoração é de resistência. Fica aqui o compromisso de cantar com mais alegria as culturas que nos representam e são hostilizadas e perseguidas numa releitura da tentativa de dizimação.

Zumbi, valeu!

1) COHEN, Lawrence & FELSON, Marcus. (1979), “Social change and crime rate trends: a routine approach”.American Sociological Review, 44: 588-608

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Deus está morto


Deus-togado

Deus é brasileiro. Carioca. Anda de toga, transforma água em vinho, dirige e – dizem – joga búzios.

 

Nietzsche, ao decretar a morte da divindade, abriu-nos a oportunidade de criar novos e próprios valores, ofereceu-nos a liberdade para decisões próprias, baseadas em conceitos de justiça social e interesses coletivos. Enfim, independente da existência ou não do criador, deu-nos a chance de também sê-lo, de forma a recuperar a autoria de nossa própria vida.

Mas Nietzsche morreu. E sobreviveram os valores de divindades amorfas, mofadas e de privilégios sobre os outros mortais. Formaram-se panteões próprios, com suas próprias liturgias, em nome das quais tudo vale para o benefício dos seus eclesiásticos e de seu paraíso aqui mesmo nesta terra miserável.

E – permita-me, Augusto dos Anjos! – vivendo entre feras, os semideuses sentem necessidade igual de também ser fera. E nada como a bestialidade com poder. O Executivo transforma-se no operador de um jogo de salvação, no qual tudo é permitido em nome de sua religião partidária e de sua hegemonia dogmática.

Tal qual nos piores exemplos da crença televisiva-cristã (que pouquíssimo tem ligação com os ensinamentos do Rabi), enganam-se milhões de necessitados e aumentam-se avassaladoramente os dízimos. Santificam-se e beatificam-se heróis de guerras não travadas, cuja ética não é exemplo para ninguém.

Do outro lado da praça, o Legislativo em comunhão faz seus concílios buscando mais poder, mais influência, mais cargos. Santas negociatas. O pão nosso perde qualquer valor diante do pão deles mesmos. A família, sagrada, composta de homem e mulher, é conceito que só vale a pena ser protegido se for no interesse escuso das benesses do nepotismo. Inventam-se martírios para escandalizar a opinião pública e, até mesmo, em nome do deus cristão, propõe-se às escolas a paródia de Nietzsche: “Darwin está morto”.

Por fim, na praça dos podres poderes está a catedral desta seita politeísta, em que cada um é seu próprio deus permissivo às suas vontades. O Poder Judiciário tem a prerrogativa da justiça divina. Divinamente encarnada. Como nos “saudosos” tempos do absolutismo monárquico. Aliás, se as hordas fascistas que saem às ruas hoje tivessem qualquer conhecimento histórico, não duvido que sua tacanhez reivindicasse a volta do Feudalismo. Enquanto isso, todo poder ao Rei. Vivas.

E, como nas mais requintadas cortes – veja que o Judiciário ainda mantém até mesmo esta nomenclatura! –, desfila a nova-velha nobreza. Tupiniquim, por certo. Afinal, tudo por esta terra é antropofágico de alguma forma. Os barões, condes, viscondes e duques são títulos formalmente substituídos por promotores, juízes, magistrados, desembargadores e ministros. Uma renovação onomástica para preservar interesses oligárquicos.

Com um quinto de seus membros composto por indicações políticas, quase canonizantes, o Judiciário é o suprassumo dos interesses próprios. Julga-se quem quer, da forma como se quer, independentemente de seus “livros sagrados”. Tal qual a Bíblia, que permite a interpretação mais adequada aos interesses do reverendo, a Constituição e as leis em geral são lidas através da lente da proteção das conveniências idiossincráticas.

E assim, Nietzsche – coitado – morreu. Deus, por sua vez, desceu à terra natal, vestiu sua toga e resolveu passear pela cidade. Transformou água em vinho e deleitou-se. Pegou um automóvel dado por ele mesmo (era isso que dizia o adesivo) e ignorou a lei dos homens. Ninguém precisa de identidade para entrar no reino dos céus (mas precisa da carteira da Ordem para adentrar em qualquer tribunal, isto cá não é bagunça!).

Interpelado pelo mais reles mortal, teve de produzir prova de sua divindade. Ateus que guardam as leis sagradas mas querem aplicá-las aos isentos, aos brâmanes, aos da casta divinal. Ora, blasfêmia. Pecadora ignorante. Dizime-a. Se não fisicamente, imponha-lhe um dízimo. E que seja em todas as religiões, já que a mesma divindade já andou impondo as leis divinas nos jogos de Búzios.

Para isso existem os concílios e os conciliábulos. Ouvidos os santos, proclama-se a verdade contra Nietzsche: deus está vivo. E dirigindo alcoolizado. Atende pela alcunha de juiz de direito. Puna-se o descrente. Estes são nossos valores, nossas virtudes, nossas divindades terrenas. Dessa forma, nada melhor do que não se acostumar com a lama que espera a todos e seguir sendo ateu.

E que deus lhe pague.

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No meio do caminho tinha um buraco


Maria acordou mais cedo e, como sempre, com a agenda cheia. Hoje há o acréscimo de tarefas esquisitas. Há que reunir documentos e grampear papéis, fazer assinaturas e declarações, juntar monturos de registros inúteis, pagar pedágio às pedras, pedir passagem com humildade. Conferência obsessiva para evitar voltar atrás por causa de alguma vírgula. Sapatos confortáveis, transportes coletivos, não vá ficar presa no gargalo do Vale vendo o tempo escoar pela janela.Anda, anda, parada, parada, parada, salta, anda, crachá, elevador, ufa.

Por ora, declara a assessoria contábil, administrativa e rabular, está tudo certo. Então por que não aproveita e adianta aquela outra assinatura, livrando-se logo disso? Parece uma boa ideia. Envia email, telefona, mais um papel assinado que não pode ser digitalizado pois tem que estar de corpo presente antes de ser enterrado. Calcula : pelo corredor de ônibus faz um bate volta mais rápido que o tempo de localizar um motoboy. Parte em busca da última fronteira, a última flor do buquê para as traças. Parada, parada, parada, salta, anda, anda, crachá, sobe elevador, desce elevador, crachá, rua.

Toma um táxi de volta mas agora, na assessoria perguntam se recebeu o email. Não – ela diz – estava em trânsito. Muxoxo para o androide, essa porcaria não funciona, compra logo um aifone-número-sei-que-lá, minha senhora. Ok, aqui está o papel. A senhora não entendeu. O email era para avisar que os planos foram mudados então o funcionário avisou que é para ir pessoalmente. Eu mesma, a minha pessoa ? Sim, sim, a ordem é essa. Desce elevador, devolve crachá, anda, anda, pega crachá, sobe elevador. Bom dia. Aqui está a papelada, tudo certo ? Ah, só falta uma coisinha, o email, etc., etc.. Desce elevador, devolve crachá, busca documento, impressão, o diabo, anda, anda, elevador, crachá, elevador, crachá. Pronto. E agora, tudo certo? Por hora tudo certo, qualquer problema, avisamos !

Ir em frente ou dobrar à direita? O relógio não para, o almoço já era. A geometria ensina que a menor distância entre dois pontos é sempre reta. Exceto quando há guarda-corpos fazendo barreira para montagem do palco. É comum haver festa por ali mas o espaço é enorme, por que não deixaram uma passagem ? Homens- postes de preto, não perguntam e não respondem, só ordenam que se dê a volta. Sobe pelo jardim mas o muro continua até perder de vista, idiota subir o morro pra voltar ao ponto de partida, Volta atrás enquanto os dígitos do relógio avançam. Como é que se sai desse labirinto ?! Está bufando, está suando para a diversão dos homens de negro e walkie talkie. Mais de 100 pessoas já reclamaram, minha senhora, deviam mesmo ter colocado uma placa aí ensinando por onde ir. Não se mexem enquanto ela continua em marcha acelerada, contornando, saltando muros e enfiando o pé em buracos, até que um deles agarra seu pé com vontade. O garoto, de boné e músculos largos, não apoia, não ajuda mas tem boca pra gritar :

- Olha aí a dona Maria que quase caiu de boca !

E ri e ri com vontade.

Maria, sozinha no asfalto, sem cidadania pra se encostar, nua como bicho do mato, sem cavalo branco pra fugir a galope.

Maria, e agora.?

E se Maria gritasse, e se Maria chorasse e se a Maria chutasse todos os burocratas, seus homens-postes de preto e seus excelsos patrões, obrigando a provar toda hora que é uma simples Maria porque suspeitam que sua boca mente quando diz que ela é ela e pensam que suas declarações não são expressão de sinceridade. E se a Maria empilhasse todas as fotocópias de documentos, ao longo da longa vida e essa torre chegasse à altura do Edifício Itália ? E então, se ela fogo ateasse e  com força de ódio soprasse, desejando que as labaredas se alastrassem até incinerar todos esses facínoras?

E se a Maria xingasse ? Xingasse nomes cabeludos, de fazer caírem os dentes de quem criou estes ritos vazios?

Mas ela não xinga. Você é educada, Maria !

Sob a chuva fina, sem ter guarda-chuva, espera atrasada, o trem, o ônibus, o táxi – qualquer transporte – que a leve para longe. Aquele lugar que não existe.

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O brasileiro é tão acomodado…


A Coluna Moreira César chega ao Arraial

A Coluna Moreira César chega ao Arraial


No auge do sucesso do filme Tropa de Elite, quando policiais do BOPE eram aplaudidos pelas ruas devido ao seu talento em torturar e matar pobre, o Zé Celso apresentou no Rio a sua montagem dos Sertões, de Euclides da Cunha. Na representação da invasão do arraial do Antônio Conselheiro pelas forças do governo, ele colocou os invasores vestidos de fardas do BOPE. Emocionante e nada poderia representar melhor o que vivemos.
Quando eu estudava, era uma observação comum, vinda de estudantes latino-americanos, de que o brasileiro era muito acomodado. Em tempos de Fernando Henrique Cardoso, época de notórios recuos em termos de direitos e de cortes de gastos em saúde e educação, ouvi muito de um colega chileno, particularmente, que no Chile por muito menos todo mundo estaria nas ruas quebrando tudo. Há, no entanto, razões históricas que ajudam a compreender a origem deste tipo de comentário. Aqui, as pessoas foram colocadas à margem não só da riqueza, mas também do acesso à educação, à saúde e à cidadania mais elementar. Para manter uma estrutura tão desequilibrada e um projeto social deliberadamente excludente, a violência extrema, o assassinato, a chacina e a opressão se tornaram condições sine qua non da manutenção da “ordem”.
Esta ordem se mostrou dramaticamente no período regencial, com todos os massacres promovidos contra as revoltas populares. Uma das mais famosas, a Revolta dos Balaios, no Maranhão, deixou um saldo de 12.000 mortos e elevou o comandante da repressão ao título de Duque de Caxias (em referência à cidade do Maranhão onde a revolta foi por fim esmagada, dando mostra do humor negro e do cinismo que caracterizaria os donos do poder no país). E, com este currículo, é claro que Caxias se tornou herói nacional. Também é relevante o fato de que as revoltas do período, no norte e no nordeste, todas de origem popular, tenham sido reprimidas duramente deixando milhares de mortos. Já no caso da Guerra dos Farrapos no sul, conduzida por ricos estancieiros gaúchos, quando derrotados os rebeldes foram anistiados e ganharam postos no exército brasileiro.
Em canudos, nos estertores do século XIX, Euclides da Cunha teve trabalho para descrever a chegada da “Matadeira” ao arraial. Tratava-se de um canhão inglês, um Withworth 32 (uma geringonça de 1,7 toneladas). Nos Sertões, Euclides visivelmente briga para encontrar uma palavra para descrever o impacto de ver uma arma daquele tamanho, tecnologia de ponta da época, importada da Inglaterra, que atravessou o oceano de navio e precisou de uma junta de 20 bois para ser transportada até Canudos, atravessar o semiárido brasileiro para assassinar sertanejos analfabetos e esfomeados. Ele nunca encontrou a palavra, pois o termo que ele precisava ainda não havia sido inventado: a palavra de que ele necessitava era “surreal” (que só apareceria no vocabulário do mundo com as vanguardas européias, na década de 1910).

Olha a Mataderia aí gente!

Olha a Mataderia aí gente!


Um tanque de guerra na Maré constitui uma paisagem que na verdade é a mesma. Não há diferença entre a Matadeira e o Caveirão (como a genialidade do Zé Celso bem evidenciou). Duque de Caxias foi o Capitão Nascimento da Regência, e o povo brasileiro sabe nas entranhas que no Brasil quem mata pobre vira herói nacional, ganha Panteão e aparece em filme.
XXXXXX
Neste exato momento, a prefeitura de São Gonçalo está ameaçando despejar novecentas famílias da ocupação Zumbi dos Palmares, naquela cidade. Mais uma revivescência de Canudos. Mais um arraial que cairá? Dependemos da presença de todos, hoje, na ocupação, para tentar mudar essa história.
E, Dilma, exigimos a retirada imediata do exército da Maré.

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Síndrome de Estocolmo


Cena do filme venezuelano "Secuestro Express", de Jonathan Jakubowicz

Cena do filme venezuelano “Secuestro Express”, de Jonathan Jakubowicz

Passa a eleição, não passam rancores, mas passam novas-velhas notícias e aqueles fascistas… Ah… Aqueles não passarão. Depois de contados todos os votos das urnas, sobe a gasolina, elevam-se os juros, anunciam-se cortes nos investimentos e em gastos sociais. Depois de anunciados vencedores e vencidos do pleito, o noticiário mostra a penúria da seca em grandes cidades, a violência e corrupção policiais. A maquiagem eleitoral sempre acaba em novembro.

O interessante é perceber que a polarização eleitoreira é de tal forma incentivada, que há aqueles que se sentem ainda ofendidos com as ações do PT pós eleições: “e agora? Já se arrependem? Viu? Aumentos, restrições, um estelionato eleitoral”. Ora, mas não teriam esses críticos razão? Em parte sim, o que lhes desabona é a ‘honestidade finalística’ da fala: criticam-se exatamente as mesmas ações que o candidato derrotado tomaria, só se reclama pelo fato de não ser ele o autor da medida.

Isso demonstra que, em primeiro lugar, não há (nem nunca houve) uma preocupação sincera com qualquer tipo de programa ou medida “para sanear as contas nacionais”. Caso contrário, os opositores deveriam comemorar o fato de que Dilma percebeu que algumas “medidas impopulares” seriam necessárias.

Entretanto, o mais importante é a demonstração cabal de que PT e PSDB são tão-somente faces diferentes de uma mesma moeda. E que, como já afirmado em época de eleição por aqui, ambos estão a serviço de um mesmo programa, de um mesmo projeto, ainda que guardem diferenças na forma de apresentá-lo e nos atenuantes que acompanham suas ações.

Nesse sentido, a oposição “propositiva e permanente” é falsa, mas retroalimentada, pois, de alguma forma, os eleitores de um lado acharão que estão empurrando o governo a tomar as ações que eles defendiam. Mas, ao contrário de lisonjearem-se, continuarão a acusar o governo, como se houvesse roubou de ideias naquilo que já estava programado a ser feito desde sempre.

O que assusta é a síndrome de Estocolmo por que passam alguns militantes de esquerda. Depois de engajarem-se de corpo e alma na campanha petista, sob a alegação de “vencer um mal maior”, como se houvesse diferença de fundo entre as duas campanhas, adotam agora a defesa do projeto de governo!

Homessa! Aquilo que era apoio crítico perdeu, de repente, o crítico e virou defesa de um conjunto de medidas “necessárias”. Não é mais preciso “defender” o PT das críticas tucanas, ora. As eleições passaram e é hora de cobrar do governo que ele abandone a pauta do capital e volte-se às necessidades dos trabalhadores brasileiros. Entretanto, vê-se a covardia da defesa de cada vez mais concessões em nome de uma governabilidade e estabilidade que não são nossas, mas do puro interesse do capital.

Quando se veem governos “comunistas” pregando uma ‘revolução burguesa’ (como no caso maranhense) e gente defendendo que o PSDB é a ‘esquerda social-democrata’, percebe-se que chegamos ao fim dos tempos das significações das palavras. Elas foram sequestradas e sua apresentação semântica diferente serve àquilo que Foucault já denunciava como forma de dominação, em que o discurso permeia, torna-se verdadeiro e passa ser aceito e defendido por todos.

Mais Estocolmo. Reféns de sequestradores que consideramos salvadores. Os pais da seca são tidos como salvadores da seca. A culpa é dos céus. A falsa polarização esconde a chacina do Pará, as ocupações no Rio de Janeiro, a luta pela água em São Paulo. Os jornais repercutem uma minoria estúpida que pede intervenção militar e impeachment da presidenta. Tudo bem oportuno.

Assim, diante do fascismo crescente – em verdade, esse fascismo sempre existiu, apenas hoje sai à luz do dia –, das manifestações pela ditadura e pelos ataques contra a democracia que pedem um impeachment descabido, joga-se o movimento novamente para a defesa do governo. E o ciclo de Estocolmo recomeça.

Sejamos claros: a esquerda responsável é aquela que se posiciona contra qualquer manobra tucana de recontagem, impeachment ou golpe institucional. É aquela que rechaça indubitavelmente qualquer movimento fascista ou militar-golpista. Mas é a esquerda que denuncia o governo petista por suas omissões, remoções e violações. É aquela que é oposição ao programa do PSDB travestido de governabilidade petista, é aquela que não aceita qualquer aliança para governar, que não topa o toma lá dá cá no Congresso.

Chega de Estocolmo, libertemo-nos de nossos algozes. Não são eles os heróis. Enfim, continuemos na rua. Com certeza, não por vinte centavos. Mas pelos trinta dinheiros que essa gente parece ter recebido.

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Onde mora a sua mente ?


Leio que transtornos mentais afetam 30% dos paulistas e que este índice é resultado de uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas de Medicina da USP, publicada em Public Library Science na segunda semana de fevereiro de 2013. O que equivaleria dizer que se você estiver numa roda com cinco paulistas, um ou dois tem algum tipo de sofrimento mental. Pode ser você ?

Há uma disputa acontecendo do mundo, de que pouco se fala. Há uma crescente produção de remédios para aliviar o ” sofrimento mental” mas, na mesma proporção, crescem os questionamentos sobre os critérios que estabelecem e mensuram os chamados transtornos mentais. Minha tendência humanista é ficar ao lado de pessoas que declaram que só passaram a viver de verdade quando as drogas as livraram dos terríveis sintomas da esquizofrenia, da DDA, da depressão, e outros sofrimentos mentais resultantes de desequilíbrios bioquímicos cerebrais. Mas também não posso deixar de concordar com dezenas de especialistas que falam do abuso de prescrições e diagnósticos em pessoas cujos sintomas podem ser semelhantes mas cujas causas passam longe de qualquer disfunção química do seu cérebro .

No âmbito de uma pesquisa com lesionados cerebrais que participei, há muitos anos, recebi uma definição de “mente” do jovem N., da qual nunca me esqueci. Depois de um acidente de bicicleta, aos 17 anos, N. tinha distúrbios que costumam acompanhar os “frontalizados”, isto é, pessoas que sofreram lesões na região frontal do cérebro, região privilegiada das atividades cognitivas relativas à auto-censura e à compreensão de algumas figuras de linguagem como a metáfora. Minhas mais caras memórias deste trabalho incluem dois desenhos produzidos por ele, com intervalo de um ano que testemunham os efeitos de sua recuperação, bem como alguma empatia comigo, sempre recíproca. Por isso, não era raro mantermos conversas informais ao final das sessões de trabalho, em meio a um amplo gramado, enquanto não o vinham buscar. Num destes dias ele insistia em tentar listar quais eram as dificuldades específicas que o impediam de tornar a um bom aproveitamento escolar e apontava a cabeça: “ É que eu tenho problema no monitor, né?”. Fiquei intrigada. Afinal, não era comum que ele conseguisse produzir uma metáfora. Quis saber como é que ela tinha surgido. “ Alguém falou que você tem problema no monitor?” perguntei. Ele repetiu “ Ah, não mas você sabe, eu tenho problema no monitor do computador- disse apontando de novo a cabeça- por isso estou aqui”. Perguntei a ele se sabia como funcionava o computador. Me explicou : a gente escrevia no teclado as coisas que iam pra dentro da torre, depois a gente via tudo no monitor. Surpresa e satisfeita achei que podia corrigir um pequeno engano. “ Ah, bom” eu lhe disse “ então você quer dizer que está com problema na torre, certo?”. Não, ele insistiu, eu tenho problema no monitor. Fiz uma recapitulação dos termos insistindo que se ele estava falando de si mesmo como se fosse um computador, tinha de imaginar a si mesmo como um computador: havia as informações que entravam pelos olhos e ouvidos, como no teclado do computador, havia o que ele comunicava com palavras e gestos, que no computador correspondia ao monitor e aquilo que se passava “ dentro” dele, invisível para os outros, como no computador, aquilo que a “ torre” fazia. Então a mente só podia ser a torre – o HD do computador. Não, ele me disse, no computador, a mente é a torre mas com a gente é diferente. Achei que tinha apanhado o problema e seria capaz de levá-lo a retificar-se. “ Pois então, a mente não está dentro da sua cabeça? Então a sua cabeça é a torre”. Ele teimou. “Não, aqui é o monitor”. Sua convicção era tão forte quanto a minha mas tentei convencê-lo ainda uma vez “ Ok, mas então onde está a torre, a mente das pessoas?” . Ele sorriu satisfeito e, num gesto largo, apontando o espaço ao redor me respondeu, como se fosse o óbvio “ A mente está em toda a parte!”.

Na potência poética da sua declaração pensei que se poderia ler a definição de uma questão fundamental para as ciências cognitivas. A inteligência, a linguagem e toda a capacidade humana de simbolizar é um atributo de cada cérebro até que ponto ? Como dizia minha querida amiga e professora Dra. Edwiges Morato, o cérebro é individual mas a sua plena potência só se realiza entre outros, com os outros e para os outros. Não foi isso que N. tinha sintetizado em uma frase ?

Certa vez, na Amazônia, numa daquelas conversas que trocamos em viagens com quase desconhecidos que nunca mais veremos, um antropólogo me reportou haver uma tribo no extremo norte do Brasil – cujo nome esqueci, infelizmente – que não registravam a noção de corpo individual em sua língua. Não havia palavra para designá-lo. Me dizia como era curiosa também a maneira como esta tribo lidava com a doença. A pessoa, ao se sentir doente, era levada ou se dirigia ao pajé levando uma pedra que alguém ou ele próprio recolhera na mata. Reunida toda a tribo realizavam-se atos rituais por e para todos os membros .A ausência da palavra corpo não me pareceu tão estranha ouvindo o relato de tal radicalidade do sentimento solidário na doença. Até pergunto se haveria alguma necessidade da palavra solidariedade para tal tribo. Como me pergunto se 3 entre 7 paulistanos necessitaria de drogas para suportar o dia a dia, fosse outra a forma de organizarmos a nossa sociedade.

Penso na metáfora de meu jovem amigo e penso que se o nosso redor é espelho da nossa mente, não é de se admirar que muita gente esteja pirando. Mesmo sem ver, com seus próprios olhos, as centenas de rios e represas secas do estado, as áreas rurais extensas cobertas de cana de açúcar, monocultura que já provou no passado seus poderes de desertificação. Há gente, decerto, que nunca acreditaria que seu horror “ao outro”, seu racismo ou xenofobia, são espelho de cidades construídas e mantidas sob a lógica do apartheid onde, pobres e negros, nordestinos ou não, tiveram sempre seus espaços de moradia e lazer bem definidos – e distantes- dos olhos de brancos e ricos, paulistas ou não. Nunca acreditariam que sua insônia ou ansiedade, tem algo a ver com o fato de que para continuarem vivos a ordem é:” corra e vença a corrida- ou morra” mas, grande parte do tempo, a maioria está mesmo é estacionada em congestionamentos onde todos se acotovelam tentando fazer o mesmo.

Seja como for, eu, que não sou lesionada cerebral e não uso droga psicoativa alguma para dormir, acordar ou atravessar os dias, apenas sonho, de olhos abertos, com uma sociedade livre de tanto sofrimento mental. Embora no outro dia, isto tenha causado a suspeição de que sofro de transtornos mentais. Uma mulher me contava sobre suas dificuldades de sono e os pesadelos constantes e então eu lhe disse – mais para aliviar a barra da conversa- que raramente lembrava dos sonhos durante o sono mas acordada sonhava muito. E completei, sonho sobretudo com uma sociedade onde cada um dê segundo a sua capacidade e receba segundo a sua necessidade. Falar a verdade verdadeira, ela não apenas suspeitou que eu tivesse algum transtorno mental. Foi taxativa e cravou o diagnóstico sem vacilar : credo, você está louca !

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Sobre banhos e abraços


Por Juscelino Bezerra*

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Ando me sentindo limpo demais. O excesso de banhos com sabonetes e shampoos, os desodorantes, os hidratantes e as pastas de dente me fazem menos humano.   O perfume da moda nos deixa simetricamente inodoros, e vamos por aí, de desodor assinado, impersonalizadamente  com grife,  dentes branquíssimos  gritando, visual limpíssimo, excluindo aqueles que são os outros, sem falar daqueles mais outros ainda que nos são invisíveis, que já são, por vacuidade, ignorados.  Mas às ruas das cidades, estamos expostos demais. Nelas, existe um outro cheiro vindo de algum lugar, que sorrateiramente  vai nos agredindo, ao ponto de querer nos tocar. Com o olfato treinado por algoritmos higienizantes, tenho medo da aparência deturpada por esse meu olhar discriminatório. Noutro dia, numa padaria, um mendigo que vive pelas redondezas, sorridente e simpático, ao perceber o meu olhar sobre ele, lá da calçada me pediu comida. Voltei até o caixa para lhe comprar um salgado, sem ao menos perguntar o que gostaria de comer, quando ele adentrou a padaria dizendo que preferia pão com presunto e que isto sairia até mais barato que o salgado. Em meu conflito e apesar de disposto a interagir, minimamente, pedi a moça do caixa que trocasse uma nota de dez reais para oferecer ao pobre coitado a metade daquele valor, logo imaginando que aquela situação geraria um paradoxo: Como se aproximar e entregar o dinheiro sem ter que o tocar? A pele encardida, endurecida, escurecida, me induzia um mau cheiro que a drogaria, ao lado da padaria, me disse através da protagonista branca  de cabelos alisados na novela do canal top da  televisão, que aquele mau cheiro, eu não poderia suportar, e me disse também que não há decência em quem escolhe viver nas ruas a trabalhar dignamente para ser alguém e vencer na vida como ela venceu. Horas antes, quando matava o tempo percorrendo a timeline do facebook, tinha assistido, pela metade, um vídeo onde um homem aparentemente de classe média, talvez em São Paulo, numa calçada movimentada, abordava de forma tranquila os passantes que se dirigiam provavelmente aos seus trabalhos. Ele os abordava e  lhes pedia abraços, sendo piamente ignorado por pessoas aparentemente limpas e bem vestidas; em contraponto, ele  recebia  a recíproca demasiadamente humana de abraços afetuosos dos sem teto.

Éramos mais humanos quando não tomávamos banhos. Os macacos se abraçam mais do que nós, os outros bichos se tocam mais do que os seres ditos humanos. Os tais cosméticos que o tal programa de tv me convenceu a comprar vêm acompanhados de insipientes efeitos colaterais: somos impulsionados ao não contato com estranhos que não usam produtos  limpadores de corpo. Nessa sociedade camuflada de cheiros, de aparência limpa, as pessoas se esquivam da solidariedade e da coletividade, ao passo que constroem propositadamente os seres invisíveis, mas  estes seres, invisíveis,  não são inodoros, e o cheiro também tem mãos, tem boca e nos tateia.  Imagino agora uma cena: eu que não sou mendigo, nem morador de rua, e ando padronizado de alguma caricatura razoavelmente aceita, aceita até demais para um nordestino que mora no sudeste, esbarro, enquanto caminho distraído na larga calçada do Copacabana Palace, com Carla de Sousa e Santos, personagem do conto A bela e a fera ou A ferida grande demais, da Clarice Lispector. Carla, com sua pele trigueira e com seu marido “self made man” que através de muito trabalho ascendeu socialmente, ela, momentos antes de seu insight ao encontrar o mendigo da ferida grande demais,  saindo do salão de beleza, indo ao encontro do carro estacionado, chofer ao volante,  me vê recostado ao seu carro enquanto faço uma ligação pelo celular, tocando com o meu jeans sujo à pintura metalizada e encerada do seu carro que acabou de sair do lava jato. Ela desvia o itinerário e finge não ver o seu carro,  e,  por entre os dentes,   com uma vontade enorme de cuspir de nojo dessa criatura sem finesse  que sou eu, simplesmente porque o  meu tênis surrado caminha pelas ruas da cidade em que ela não pisa. Esta coisa de não caminhar pelas ruas da cidade não faz bem às pessoas. No último documentário do Silvio Tendler, “Privatizações: A distopia do Capital”, alguém comenta e eu concordo que moramos não apenas numa casa, vivemos e moramos nas cidades.  O bom seria se todos os contatos neste lugar que vivemos fosse uma forma de comunhão, e não que a maioria deles fosse um desvio de algo que pretendemos ignorar.  Vou fazer campanha para que a humanidade passe a tomar menos banho.

*Juscelino Bezerra:  alencarino  morando no Rio de Janeiro há quinze anos, professor de matemática, fotógrafo apaixonado por arquivos analógicos encontrados (photo trouvée),  e mais um par de coisas que ainda vou descobrir pelos próximos anos e outras encarnações. Mantenho um blog de fotografia, www.coisadeacender.blogspot.com com imagens que parecem reais e outras imagens.

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Da Imortalidade ao Infinito! E além… (ou Matematicalizando a vida! Parte I)


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Houve um tempo em que não existia o tempo. O tempo sabido, conhecido! Mas ele estava intrínseco no dia a dia de cada ser… A vida seguia um ciclo: todos os seres nasciam, cresciam, reproduziam-se e morriam; mas nenhum ser se importava com o início ou o fim das coisas. Nem mesmo havia percepção disso! A vida era só viver, e ponto! Um dia o homem contemplando a natureza ao seu redor, se distanciando da posição de existente e passando a um observador da existência, percebe que a morte, apesar de inerente à vida, é o ponto final, é a interrupção do processo. E que coisa alguma escapa desse fim… O medo invade seus pensamentos, pois nesse momento, quando deixa de ignorar a questão do tempo como vivente, ele sai da posição de observador e volta à condição de existente. E uma pergunta lhe atordoa, lhe angustia “Quanto tempo ainda tenho?”.

O homem, certo do limite de seu tempo, começa uma busca incessante por dar sentido a sua vida! Assim, encarando-a como concessão de uma divindade, surgem as crenças e mitos. O homem de fé! Mas também é daí que surge o pensamento científico. O homem cria, formula, reformula, e um pensamento, uma teorização vai completando, ou se sobrepondo, a outra, dando uma ideia de infinitude ao entendimento dos processos de transformação da natureza. E quanto mais o homem desperta para o conhecimento, mais há coisas inexplicáveis, que nesse, ou naquele tempo, não se aplicam à razão e suas teorias. Os milagres! É nesse ponto que o pensamento científico se reencontra com a fé! Inicia-se uma busca pelo eterno, pela imortalidade! Ainda que, essa imortalidade, esteja em suas descobertas, em suas aventuras, em suas conquistas, em seu legado e não na extensão do seu tempo de vida! A linguagem e a matemática, as questões filosóficas, as teorias físicas, tudo era o pensamento do homem se transformando e reescrevendo a vida conforme seu tempo. O pensamento é a única coisa, dentre todas as coisas no universo, que não tem fim, que vence a morte, que é infinito!

infinito

Infinito… Em que pensa o homem quando ouve esta palavra? Como concretizar o infinito? São números enormes, incalculáveis? Uma criança vai responder que é a quantidade de grãos de areia da praia. Um homem pode comparar o infinito a um céu imenso, que nunca termina… Cada um de nós pensará em algo diferente, pois não é possível conceituar o infinito com base em nenhuma experiência sensível. A matemática é a ciência que melhor consegue se aprofundar na conceituação do infinito. Não se sabe exatamente quando o homem iniciou sua tentativa de conceitua-lo, mas foram as especulações de pensadores gregos sobre a infinidade do espaço, sobre a multiplicidade dos mundos, que sustentaram o interesse por ele e colaboraram na história da evolução deste conceito. Zenão de Eleia, sec. V a.c., mostrou que se o conceito de contínuo e de infinita divisão for aplicado ao movimento de qualquer corpo, então o movimento não existe. Zenão expôs a sua argumentação com base em quatro situações hipotéticas, que foram chamadas de paradoxos de Zenão. Os paradoxos de Zenão foram tão desnorteantes para os gregos que a matemática na Grécia foi tomada pelo horror ao movimento e pelo horror ao infinito e, ambos, deveriam ser evitados sempre que possível. Os paradoxos de Zenão (O paradoxo do estádio, Aquiles e a tartaruga, A seta voadora e As fileiras em movimento) estavam intimamente relacionados com as teorias sobre a natureza do espaço e do tempo daquela época! Óbvio que Zenão sabia que Aquiles podia alcançar a tartaruga, que um corredor pode percorrer o estádio e que uma seta em voo se move, mas ele queria demonstrar as consequências paradoxais de encarar o tempo e o espaço como constituídos por uma sucessão infinita de pontos e instantes individuais consecutivos como as contas de um colar. Segundo Bertrand Russel (1872-1970), foi Georg Cantor (1845-1918) quem trouxe luz aos paradoxos de Zenão com a Teoria dos Conjuntos Infinitos, pois ele trata os conjuntos infinitos de pontos no espaço, assim como acontecimentos no tempo, como todos completos, e não simplesmente como coleções de pontos ou sucessões de instantes individuais.

A percepção do infinito é algo considerado extremamente difícil, justamente pela falta de experiência sensível, como já disse. A Matemática e as Artes se relacionam desde a Antiguidade, mas, sobre o infinito, um artista se sobressai: M.C. Escher (1898-1972). O trabalho desse artista pode ser dividido em três partes: ciclos sem fim, preenchimento de superfícies e limites. Por um ciclo entende-se que podemos sempre voltar ao início e fica implícita a noção de infinito.

Quadro - Queda de agua

Queda de agua (1961)

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Subindo e descendo (1960)

Por preenchimento de superfície entende-se que ocorreu um conflito entre duas e três dimensões, sugerindo um processo ilimitado.

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Mãos desenhando-se (1948)

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Répteis (1943)

Na fase que chamamos limites, Escher passa a considerar não apenas as translações isométricas, mas também as semelhanças, sucessivamente cada vez menores, para preencher o plano até o limite permitido pela sua visão.

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Cada vez mais pequeno (1956)

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Limite circular III (1959)

Nessas duas últimas gravuras, Escher tenta alcançar o limite do infinitamente pequeno e do infinitamente grande. Na prática, Escher chega ao fim das suas possibilidades, pois alguns fatores o limitam como: a fronteira física do papel, a agudeza do instrumento que usa, a segurança da sua mão e a capacidade visual.

Mas o que vemos pela geometria das gravuras de Escher é que a percepção de infinito está implícita no estudo dos objetos fractais, pois estes são obtidos no limite de um processo de construção que se repete sucessivamente e nos levam a intuir o infinito.

Ahh, o infinito e os fractais… Qual a relação entre eles? O que são fractais? Pra que servem?

Bom, você terá que ler meu texto da semana que vem pra saber… Até!

Esse texto é dedicado a minha amiga-irmã, Roberta Greco Rodrigues, com quem tantas vezes viajei pelo mundo do infinito, e com quem compartilho o amor à matemática!

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De quem é esse jegue?


jegue

É com muita satisfação que comunico a criação da nossa ONG “De quem é esse jegue?”.

A ideia da organização surgiu da preocupação ao vermos eleitores frustrados destilando ódio em vídeos tragicômicos nas redes sociais. Vimos pessoas se comportando de forma estranha. A tecer diferenças desatinadas entre jumento, mula, burro, jerico, jegue e asno. Diziam ser um jegue e não um jumento. O comportamento ficava mais agressivo à medida que liam os artigos da Veja. Tudo piorou quando Lobão passou a dizer que Reinaldo Azevedo era seu pai e Diogo Mainardi, sua mãe.
Antes que pudéssemos fazer uma intervenção, ele desapareceu. Dizem que foi visto lá em São José da Caatinga, oferecendo-se como animal de carga.
Nosso objetivo é prestar atendimento psicológico e psiquiátrico aos cidadãos que foram vítimas de sequelas e traumas causados pelo fracasso do PSDB na eleição presidencial.

Com menos de um mês de funcionamento já tivemos a percepção da dimensão devastadora dessas eleições. Já atendemos casos de deficiência cognitiva em razão da superexposição à revista Veja e casos de overdose por teledramaturgia global. Houve um paciente que dormia embaixo da cama por achar que comunistas iriam abduzi-lo. Após algumas sessões descobrimos que a causa dos delírios era a leitura da coluna do Arnaldo Jabor no jornal O Globo.
Para os que participaram da manifestação em São Paulo pedindo intervenção militar no Brasil, “De quem é esse jegue?” está distribuindo gratuitamente Aripiprazol, Bupropiona, Clorpromazina, Flufenazina e Topiramato.

Oligarquia autorrepresentativa

Em regime de urgência, os parlamentares do Auriverde Pendão elevaram seus vencimentos em 62,5%. A partir de janeiro, cada magano vai mamar R$ 26,7 mil. Noves fora os auxílios do paraíso da imoralidade.
Para provar a repulsa do controle dos cidadãos perante os representantes eleitos, cujo mandato se torna uma propriedade destes, a Câmara barrou o decreto do governo que estabelece a consulta a conselhos populares por órgãos do governo antes da implementação de políticas públicas. Seria um instrumento por meio do qual a sociedade poderia ter efetiva participação nas decisões da vida politica do país.
O “Plebiscito Constituinte” feito durante a semana da pátria por 477 organizações em todo o país contava com a pergunta: “Você é a favor de uma constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político?” Entre os que votaram, 97% foram favoráveis à proposta – cerca de 7,4 milhões de pessoas. De modo a escancarar o abismo entre o povo e o congresso, a maioria dos partidos já se mostrou contrária à proposta.
Está claro para todo mundo que o dispositivo eleitoral é mais do que uma farsa. Ele faz parte do aparelho repressivo contra os movimentos sociais, contra as novidades, contra as rupturas. A democracia representativa é patrocinada pelo poder econômico que se retroalimenta a cada eleição, sequestrando as esperanças emancipatórias do povo brasileiro.

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