Da série ” Tantas vidas vivendo por aí”


Voltava para casa no trem vespertino, experiência desconhecida até ontem. Vinha do fim da linha e observava os trabalhadores se amontoando pouco a pouco, tentando imaginar quem eram, de onde vinham e para onde iam. Pensava quantos ali se submetiam a esta rotina de trens superlotados se arrastando a 10 km por hora em muitos trechos, tentando me lembrar de alguma coisa lida sobre bitolas de trilhos e tecnologia superadas quando se anuncia a minha estação de destino.

Levanto e tento chegar à porta, onde se espreme uma grande massa de corpos e rostos ansiosos voltados para fora. Menos mal, penso, me posicionando atrás de um moço que declara intenção de desembarcar. As portas se abrem e outra massa de corpos jovens se lança de fora para dentro, bloqueando a saída. Um homem consegue se soltar, vazar, saltar sobre a plataforma, depois dele dois, mais um e é tudo. A massa se imobiliza. Os de dentro gritam  “ descer, descer” enquanto os de fora fazem coro como uma falange guerreira “ ôooooooo” e forçam seus corpos impedindo que mais alguém saia. À minha frente corpos se inclinam e tentam avançar . O bloco tem alguns jovens mas também homens maduros, velhos e mulheres, corpos quase todos, talhados nos serviços pesados. Parece um jogo de rugby sem bola. Os de fora vencem, as portas se fecham e o trem parte com os que ficaram protestando aos gritos e os vencedores rindo, divertidos, debochados. Examino os rostos. Há desolação em muitos, constrangimento em alguns, risos gaiatos em uns poucos.

Daí acontece o inesperado. A mulher de meia idade, gordinha, bem vestida e um pouco mais alta que a média, levanta a voz. Mansa, a princípio, grandiloquente em seguida, pregadora, ao final. Parece tomada por um sentimento de paixão despropositada. Mira o fundo dos olhos de um dos gaiatos mais salientes e o confronta. Pede contas de seus atos, do seu direito de atrasar a vida de todo mundo, questiona que sentimento é este que o anima. Ele e os colegas riem, zombam, lançam seu grito de guerra, ôoooooo. Ela continua. Ele zomba, ordena que ela desça na próxima estação. Ela responde, como se lhe devesse satisfação, para onde vai, explica que precisa conexão com o metrô e pergunta quantos mais há na mesma situação ali. Tímidas vozes concordam. Ela começa a explicar, em voz alta e compassada, o que fizeram. Que estão nos obrigando a ir até o final da linha, ocupando o lugar de outros que irão se atrasar para escola, para buscar o filho, sabe-se lá para o quê mais. Quer saber se isto os faz feliz. Sóbria, em voz alta o suficiente para ser ouvida, mas calma. Tímidos, alguns passageiros que não desembarcaram se declaram prejudicados, ela advoga suas causas. O grupo organizado ao modo de falange invasora começa a se desmanchar, o coro enfraquece. Agora são apenas 4 ou 5 sorrisos. A mulher prega como um pastor de praça e aprofunda o sermão com voz firme. Fala como se fossem seus filhos, alunos ou iguais. Fala como se confiasse na capacidade deles compreenderem que estão se comportando mal. que estão tentando se divertir fora de hora e lugar, pede depoimentos ao redor. Declara ter certeza de que ao menos dois deles parecem capazes de pensar sobre seu comportamento. Fala, fala e fala sem desviar dos olhos do mais resistente, sem se importar com seu ar de deboche. Pouco a pouco se torna mais petulante que ele, arriscando-se a adivinhar alguns dos seus sofrimentos secretos, sua sensação de impotência, seus sonhos de melhor condição de vida, seus desejos de respeito e dignidade. Confronta-o com sua impotência que ele tenta disfarçar com arrogância quando não passa de covardia. Quer saber se ele sabe o que é impotência, o que quer dizer a palavra impotência. Até que também ele se cala, cabeça baixa, mirando os próprios joelhos, sério. A viagem prossegue em silêncio.  A mulher venceu a disputa verbal mas não comemora, apenas se cala e o encara, com o semblante grave, como a se certificar que ele não tem mais nada a dizer. O trem chega à última parada, todos se preparam para sair. O time que instaurou o tumulto se confunde agora com todos os outros seres deslizando no mar de gente, impacientes mas sem brutalidade.

A mulher era eu, encarnando a palhaça Pastora da Civilidade. Não sei o que me deu, nem tudo que disse. Acho que baixou um espírito da pátria educadora em mim e pegou nos garotos. Todos eles aparentavam ter idade superior à da emancipação, acho que foi isso. Emancipação é complicado.

Categorias: Sociedade | 1 Comentário

Do inferno nuclear à indústria do medo, e eis que surge o Irã como um novo cavaleiro do apocalipse


guerra_nuclear

Após anos de tensão, ameaças e uma campanha midiática internacional terrorista, eis que europeus, americanos e iranianos chegaram a um acordo em relação ao programa nuclear destes últimos. A reação conservadora e histérica não se fez esperar, com as previsões cataclismáticas dos suspeitos de sempre: Israel, monarquias do golfo, congresso republicano e que-tais. Mas quem ganha e quem perde com esse acordo? E com o medo?

O acordo em si não faz mais do que garantir um rigoroso e altamente intrusivo sistema de monitoramento das instalações nucleares e militares iranianas, de maneira geral, em troca da retirada das sanções econômicas impostas ao país há décadas. Até aí, nada que a diplomacia brasileira já não viesse há tempos propondo: a formação de um sistema de confiança para retirar o Irã do isolamento e reinseri-lo na sociedade internacional, em troca de que o país abrisse mão da capacidade de se tornar a nona potência nuclear do planeta.

Então, como se dizia na década de 80, qual é o pó? O que vejo faltar em todas as diversas análises que tenho lido, é ressaltar a grande vitória da diplomacia iraniana representada pelo acordo, que soube com habilidade se aproveitar de um desencontro, segundo todas as probabilidades temporário, entre as agendas de Washington e Tel Aviv. O novo desafio às potências ocidentais representado pelo EI reordenou as prioridades dos EUA na região, sem afetar, contudo, as de Israel, para quem o Irã nuclear continua sendo o pior pesadelo. Foi explorando essa brecha, sobretudo, que o Irã conseguiu, de uma vez, realizar dois grandes objetivos da sua política externa: retirar as sanções dos embargos internacionais que estavam sufocando sua economia e sua sociedade, e dar um passo gigantesco na direção da sua afirmação como potência regional.

Mas, ainda assim, haveria de fato algo há se temer da ascensão nuclear iraniana? Uma das profissões mais perigosas do planeta já foi ser cientista nuclear iraniano. Pelo menos quatro cientistas do país morreram em circunstâncias suspeitíssimas e, supostamente, foram assassinados pelo Mossad. Israel e EUA têm capacidade para vaporizar coisa de uns quatro milhões e meio de “irãs” do mapa com facilidade, e os iranianos sabem disso. De novo, os suspeitos de sempre: o medo do Irã justifica gastos militares, o que dá a chance para políticos e militares dos quatro cantos do Oriente Médio se sentarem à frente de polpudos orçamentos de defesa. Sem esse bicho-papão, talvez o likudismo se encontre com menos meios de justificar para o seu povo, e para o mundo, a violência crescente na palestina.

Outra potência bastante insatisfeita com a nova situação é a Arábia Saudita. A diplomacia e a atuação regional (assim como os gastos militares) desse país se pautaram nos últimos anos fortemente pela justificativa da contenção da influência iraniana no mundo árabe. Os sauditas saem visivelmente enfraquecidos desse processo, não apenas pela simples ascensão do Irã como potência concorrente, mas também pelo retorno deste último à Opep e pela entrada de milhões de novos barris de petróleo no mercado mundial, ambas consequências do fim das sanções. Acredito que os EUA, inclusive, tenham colocado isso no balanço, na hora da decisão final sobre o acordo, talvez cansados das ambiguidades sauditas que, mesmo aliados na “guerra contra o terror”, mesmo sendo o país árabe há mais tempo aliado ao ocidente (quando essa aliança começou, ainda era a Inglaterra que mandava no mundo), ainda assim financiam o fanatismo religioso mundo afora, de onde surgiu diretamente, no mínimo, o Talibã no Afeganistão.

Há um círculo de análises particularmente otimista que vê no acordo o início de um tipo de aposta, por parte dos EUA,  em uma maneira mais construtiva de lidar com as relações internacionais. A acreditar no formulador dessa nova política, o próprio Obama, a estratégia estaria inserida na mesma lógica de descongelar as relações com países que os próprios EUA mandaram para o isolamento internacional há décadas, como Cuba e Mianmar. Diz, ainda, o próprio, que soluções negociadas e procura por interesses em comum são mais produtivas do que sanções intermináveis. Talvez Obama tenha resolvido na saída fazer juz aquele Nobel da Paz que ganhou ainda antes de tomar posse, há coisa de 8 anos.

 

Mas, afinal, o acordo é bom?

 

Considerando que Bush havia formalmente colocado o Irã na lista de países “invadíveis” (o eixo do mal), considerando as disposições dos falcões de Washington e a história dos EUA, que raramente passam dez anos sem entrar em alguma guerra ou invadir algum país, este acordo pode ser considerado sim uma vitória da pomba branca (pelo menos temporária), uma vez que adiou o problema por pelo menos dez, e uma derrota para a ala mais militarista do partido republicano, que já está esperneando por causa do acordo. Porém, por outro lado, ele em si não significa de maneira nenhuma a panacéia para os problemas da região, como os mais entusiastas parecem acreditar.

Ele não significa, por exemplo, o abandono do compromisso americano com a manutenção do estado apartheidista de Israel. O próprio Obama se comprometeu publicamente em não deixar Israel perder a ampla vantagem militar que possui em relação ao restante da região (garantida em grande parte por financiamento militar americano).

A abertura do regime iraniano também não é um subproduto garantido do acordo, como seus elaboradores anunciam. Se o Irã, por um lado, é vítima de muita propaganda negativa (desde a Revolução Verde), por outro, ele de fato não é um país bonito. É um dos seis países do mundo nos quais há pena de morte para homossexualismo. As execuções são bárbaras (mulheres adúlteras, por exemplo, são mortas por apedrejamento – que falta que não faz um cadafalso ou uma boa guilhotina). Para piorar, em ternos per capita, é o país que mais executa a pena capital no mundo (em termos absolutos, o país que mais a executa é a China).

No entanto, vejo ao menos um ganho evidente. Para além das teorias, tenho tentado desenvolver análises que coloquem o sofrimento humano no centro. Trata-se de, em um situação específica, tentar entender de que maneira as pessoas sofreriam menos. Neste caso, o fim das sanções trarão alívio imediato para o povo iraniano (nunca são os manganos dos palácios que sofrem com as sanções econômicas aplicadas internacionalmente a torto e a direito, mas sim as pessoas comuns, para quem falta sabonete, fralda descartável, pasta de dentes…).

O pragmatismo sempre vence

Além das críticas conservadoras esperadas, o governo Obama tem sido muito elogiado pelo acordo, nas bases do que está sendo chamado de Smart Power, ou seja, a capacidade do governo de agir por procuração e de manipular adversários para que eles ocupem os lugares que os americanos querem que eles ocupem no tabuleiro (o que tornaria Obama, nesse caso, um enxadrista exemplar). Isso se traduziria na necessidade americana de lançar mão das forças xiitas iraquianas e iranianas já em campo e em conflito direto contra o Estado Islâmico no Iraque. O que eles esperam, presumivelmente, no fundo, é manipular o Irã para que ele cumpra um papel militar na guerra contra o EI, que Obama não está disposto a cumprir, qual seja, o envio de tropas para as muitas batalhas que ainda virão. Isso tudo não deixa ter a sua dose de ironia, quando lembramos que foi a invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, que alimentou muito a então falsa percepção dos EUA como uma potência declinante…

Contudo, ainda é cedo para abrir o champanhe (ou comprar as passagens para o próximo voo tripulado para a lua, dependendo da sua perspectiva). O acordo ainda tem que ser ratificado pelo conservador congresso americano (onde o lobby pró-israelense é forte) e por diversas e sortidas instâncias de poder no Irã, como o congresso, o conselho de guardiões e, é evidente, pelo seu líder supremo, Ali Khamenei (o sistema político iraniano é uma loucura – dia ainda escrevo sobre ele). Estas três últimas instâncias já manifestaram um relativo descontentamento com os termos do acordo, considerado muito intrusivo – em especial na área militar, sempre muito sensível. Eu não veria com muita surpresa o congresso dos EUA ratificarem o acordo e ser o Irã, no fim das contas, a recusá-lo.

Seja como for, talvez os EUA estejam esquecendo rápido demais que o hino revolucionário do Irã, até hoje, carrega em seu refrão o lema “Morte à América”. Seus objetivos quase confessos, ou seja, de não abrir mão da capacidade de intervenção imperialista quando e onde necessário, mas de delegação pontual de poder, ainda que para um inimigo histórico, no fundo têm tudo para dar errado. Vide Sadan Hussein, Talibã, Al-Quaeda, Iraque e etc.

 

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Iniciação


supermercado

Eu nada seria não fossem aquelas senhoras do Supermercado Guanabara. Há cinco anos fui iniciado por elas na arte e segredos das boas compras. Após breve período como auxiliar de uma veterana na condução de suas compras, foi possível adquirir  iniciação nos mistérios das seções e categorias. Foi usado um sistema de graus para identificar minha evolução como aprendiz. A seção de Frutas e Verduras foi a primeira etapa. Depois Material de Limpeza e Higiene. Na sequência: Cereais, Frios, Enlatados e Laticínios. A seção de Carnes e a de Peixes seguiu um ritual hermético e doloroso. O setor de Bebidas demandou menos tempo em razão da minha experiência de vidas passadas. O domínio das promoções, a cilada das gôndolas, o xamanismo diet e light, a prestidigitação das frutas e verduras, as distinções druídicas da alcatra e do contrafilé, a lista sagrada, a cabala dos frios e laticínios…

Após mais algumas tarefas e rituais particulares, compreendi o significado da ascensão de um nível de existência para outro nível superior. Fui orientado no caminho do equilíbrio financeiro e da plenitude do carrinho de compras.

Ontem, estavam todas em frente ao mercado com seus maridos. Fui apresentado como a esperança do vale machista das sombras. Os esposos foram chamados de “vermes pestilentos” e “abominações repugnantes”. Entretanto aquela reunião não teve apenas o objetivo de esculachar a macharada pinguça. Era uma despedida. Meu aprendizado havia chegado ao fim. Eu devia me fortalecer com o isolamento, sobreviver em outro supermercado, estar preparado para as dificuldades das compras sozinho. Eu chorei, solucei, esperneei. Levei um esporro das espartanas.

― Componha-se! Seja homem e largue nossas saias! Nós o ensinamos a não ser um idiota como nossos maridos! Vá embora e não volte mais a este mercado. Não olhe para trás.

As palavras duras não escondiam os olhos marejados. Virei-me e segui a ordem. Da profunda tristeza, logo sobreveio o contentamento e o orgulho. Tornei-me um homem de verdade.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Da comédia humana meu tempo é quando


Eu acho que toda vez que alguém dissesse  “tempo é dinheiro” devíamos comer a pessoa. À moda tupinambá. Digo isso porque banqueiros não costumam circular por aí falando essas coisas então dá para ter certeza que é alguém com algum poder especial. E os tupinambás devoravam as pessoas para incorporar suas qualidades.

Agora vamos à crônica pândega. Comprei um fogão. Simplão. Primeiro que não sou de luxo. Segundo porque apaixonei por um exemplar de 3 bocas com um queimador daqueles grandões que aquecem uma chaleira em segundos. Fetiche de tempo. O fogão chegou rápido. Tão súbito que eu nem tinha organizado a instalação. Algumas horas depois, colocado fora da caixa, a surpresa. A famosa mesa de trabalho, que eu, ignorante, chamava de “ a parte de cima” veio toda amassada. Ligo para o SAC da Loja de Cacarecos e sem surpresa. Gravação, burocracia, o de sempre – em que posso ajuda-la, vamos estar transferindo, protocolo, etc.etc. – mas, enfim, mais surpresa. Não podiam repor a mercadoria porque esgotada. Escolhesse outro, claro: eventual diferença de preço, por sua conta, senhora. Flws, vlws, bora engolir a sacanagem senão a vida não anda! Mas olha só, no site não tem mais nenhum modelo magro com um queimador grandão daqueles. É, diz a moça, então a senhora vai ter de ligar na fábrica para ver se assistência técnica troca a peça. Claro, eu concordo, comprei direto da fábrica então nada mais justo reclamar lá. Peço desculpas pela dúvida: mas e a tal garantia de troca? A senhora comprou nosso “ garantia de troca” à parte ? Lamento não ter comprado mas e o nosso “direito do consumidor” embutido? Não tem este acessório no script. Então ela recita devagar: as opções que eu tenho senhora, são: volte ao site, ou então escolha outro, se for mais caro… repete. Coloco meu chapéu de burra e, ainda movida pela paixão ao queimador e pelo amor à Humanidade, ligo para a fábrica a milhares de km. Me dão outro número de telefone na cidade. Ligo. De volta à fábrica. De novo à loja. Ok, vou resumir. Cerca de 8 emails, fotos do cacareco, 6 telefonemas para a loja, outros tantos para a fábrica, suas assistências técnicas e quase dois meses depois, apesar de pagar pela reposição da peça na esperança de abreviar o calvário, descubro que o acendedor do forno também está avariado e veja a que ponto chegamos. O de dividir com vocês meu mico-experiência de consumo mesmo sabendo que, tirando eu ser otária nível ninja , não é tão extraordinário assim.

Pra quê falar disso? Bem, seis semanas é bastante tempo, ainda mais com uma caixa de fogão no meio da casa, conversas por telefone e e-mails surreais, encaminhamentos deste para aquele outro, descrições e fotos do óbvio, respostas sem sentido, cópias de códigos, tolices sem fim, até que eu finalmente me tocasse: eles não querem resolver, querem que eu desista. Ocorre que infelizmente herdei uma maldição, digo, um conselho da avó : “ Só perde quem desiste e se perdeu não perca a lição”. Deveria desistir? Ou o que deveria aprender com esta oportunidade educativa? Pensei, pensei, pensei e concluí. Organização. Esta é grande lição que me ofereceram. Como são bem organizadas estas empresas. Economizam na estocagem, no treinamento e na contratação de funcionários, podem entregar sucatas, prestar serviços medonhos e ainda assim nos chantagear a trabalhar para elas de graça para ajudar a economia do país crescer. Fiz as contas. Pelos meus cálculos, entre telefonar, escrever email, tempo gasto e comida fora de casa, fiz girar a roda da fortuna nacional em valor monetário superior ao preço do fogão. Sensacional. Parabéns a todos os envolvidos. Que pessoa gênia esta que bolou esse jeito de usar meu tempo para papar seus lucros. Se pudesse, comê-la-ia.

Agradeço também pela oportunidade de pensar outras situações que o atraso leva ao lucro. Há pouco tempo me contaram que havia treinamento em “habilidades negociais” para compradores de supermercados que incluía esta recomendação: servir chá de cadeira ao fornecedor para aumentar sua insegurança e flexibilidade negocial. Vejo que não é coisa nova, apenas foi incorporada às práticas de atendimento do consumidor final. Tem gente que diz que nada disto acontecia se vivêssemos em uma sociedade capitalista fofa de verdade. Reza a lenda que numa dessas, a livre concorrência levaria a loja de cacarecos à máxima preocupação com minha satisfação consumidora por medo de ver meus pixulés ir parar no caixa do concorrente. Neste capitalismo de fadas cancelar a autorização do meu cartão de crédito seria fácil como dar dois cliques no mouse para encomendar o produto. Minha indenização cobriria o tempo de reclamar no Procon, não exigiria meu deslocamento, impressão de documento, formulário, enfrentar fila e os advogados desapareceriam. Além disso, em país com 210 milhões de habitantes haveria mais que meia dúzia de empresas loteando o mercado e nenhuma suspeita de acordos por debaixo dos panos para manter a oferta, o preço e as condições do jeitinho que é melhor para elas. Se houvesse possibilidade do livre mercado existir, talvez se pudesse castigar cartéis de empresas malfeitoras importando tudo sem impostos, sem quebrar a balança comercial e sem provocar desemprego no país. O que me leva a concluir que é melhor eu perder a esperança de ver a rede de cacarecos que me enganou esmagada por alguma corporação gigante internacional, falida, destruída, arrasada, justiçada amarrada num poste, me vingando do fogão amassado. Que pena.

Pelo menos não estou num país socialista –bolivarianista-cubano-norte coreano por isso a minha liberdade é gloriosa. Lá eu não teria opção de escolher o modelo que mais me agradasse, talvez tivesse que esperar dois meses por um simples fogão, funcionários públicos, má organização e um incompetente chefe do Partido Comunista, safado, vivendo no luxo, nos obrigaria todos a trabalhar para ele, que horror, ainda bem que não. Então, mesmo que o telefone seja caro e apenas 4 conglomerados tenham loteado as bocas, olhos e orelha nacionais, prestem idêntico serviço ruim e que, por isto mesmo, nos deixem sem rede à vontade e ir ao Procon seja correlato a obrigar a espancada participar da reconstituição do crime de espancamento e mesmo que tudo isto coincida com qualquer outro eventual desastre em minha vida, posso usar aquela camiseta escrita freedom e gozo da orgástica liberdade de xingar qualquer empresa ou governo à vontade sem que nada aconteça. Nada mesmo. Com eles, claro, que sequer sabem o que acontece comigo bem debaixo dos seus altos negócios. Eles lidam com números e os números acusam lucro. Há altos lucros e quando há altos lucros, está tudo bem. O que não estiver vai ficar, pedimos desculpas pelo atraso.

O curioso é que num país que a maioria vive de vender suas horas de trabalho, o atraso não torne esta maioria rica. O serviço atrasado significa mais horas vendidas para fazer o trabalho, não? Lógico que não. Mas suspeito que pelas contas da Loja de Cacarecos a economia da área de estoque, a contratação de funcionários a baixos salários, a falta de planejamento eficiente de transporte, a embalagem ruim das mercadorias, a falta de treinamento e os obstáculos às reclamações possam gerar lucros. Já que o fato dos cacarecos não durarem nada ou quebrarem à toa, como sabemos, são a alma do lucro da sociedade de consumo.

Parênteses. Na minha particularíssima experiência há evidência de alguma desinteligência extra pois um acidente daqueles com o produto embalado deixaria marcas na caixa. Como não havia, é razoável supor que alguém, para não ter de responder pela avaria, meteu-o numa caixa nova atrasando a minha percepção do logro. A funcionária da Loja não tem esta hipótese no seu script, alguém dentro da empresa transportadora teria dado esse jeitinho caso o acidente acontecesse lá? Seria o caso de alguma das empresas ter funcionários insuficientes para seu bom funcionamento mas exigir que o funcionário pague por algum acidente destes? Não importa. A fábrica lucrou, a transportadora lucrou, a loja lucrou. E, como se sabe, os lucros chegam pontualmente aos donos dos lucros. O atraso da minha vida é o lucro deles.

O atraso de muitos adianta bem o lado de alguns. E gera quase paradoxos.

Vejamos o caso da redução penal. Atrasaram qualquer discussão séria sobre a delinquência juvenil e as razões de seu recrutamento para o tráfico de drogas num caso claro de atraso que adianta. Adianta o quê e para quem? Adianta o lado dos ricos senhores de terno e gravata que na TV ou no rádio, no jornal ou no púlpito, na escola ou no parlamento fabricam sua vara de pescar dinheiro público. Sabe quanto se pode pescar dentro de um cofre público por cada cabeça de preso em uma penitenciária privatizada? Ou seja, quanto dinheiro do Estado se pode recolher para virar patrão de uma empresa que explora encarcerados? Dois mil e setecentos reais em média. E sabe como são os contratos de destas empresas com os governos ? O governo se compromete a manter 90% das vagas ocupadas, pagando por elas. Que tal hem? Abre uma pastelaria e tenta fazer a vizinhança assinar um contrato de que vão comprar 90% dos seus pastéis, chova ou faça sol. Difícil, eu sei. Mas para se tornar dono, patrão e senhor deste grande negócio de encarceramento, não . Basta convencer gente cheia de medo ou raiva que há uma solução fácil, rápida e indolor para o problema da criminalidade que as assusta ou atinge. E fazê-las papagaios de sua publicidade. Para isso não precisa muito mais que reproduzir ideias atrasadas que os atrasados não têm dificuldade de falar nem entender. Atrasada a discussão do que adiantaria pra valer, atrasa-se a solução verdadeira, aquela que podia enfrentar e até reverter o atraso. Mas como é que ficariam os lucros sem o atraso?

Há muitas formas de usar, fomentar, sistematizar o atraso e colher lucros.

O Presidente da Câmara, se apressou a propor a reforma política à moda do cunha para quê? Para o processo eleitoral permanecer para sempre esse atraso da vida democrática que é financiamento privado de campanha.

Os ônibus atrasam por quê? Quanto mais cabeças dentro do mesmo transporte coletivo mais lucro por viagem para os donos das empresas.

O trânsito nas grandes cidades está congestionado por quê ? Porque há um atraso no aumento de linhas transporte coletivo para preservar os lucros das empresas, então as pessoas tentam adiantar seu lado no conforto de um carro particular e assim saem todas com máquinas de dois mil kilos com um ser de oitenta kilos dentro e todo mundo atrasa todo mundo.

No metrô de São Paulo, cada km de obra entregue atrasada sustenta o lucro de famílias que não usam, usaram ou pretendem usar nosso transporte coletivo. Adendos e mais adendos em contratos. Lucro para os consórcios.

O atraso em consertar as tubulações da Sabesp apressou o esvaziamento da Cantareira e justificou obras emergenciais. Nós pagamos com impostos as obras e a conta da água mais cara mas acionistas e empreiteiros colherão lucros do atraso.

O atraso é tão coisa nossa que a gente nem repara quando reproduz. Serviços e empresas terceirizadas, um prodígio do atraso trabalhista, são ótimos para demonstrar. No mundo de Oz dizem que é o pé no acelerador, eficiência, fim do atraso trabalhista. Mas no mundo real o que produzem é atraso de vida para os trabalhadores pior remunerados. Organizações Sociais pagam altos salários a diretores, espremem gerentes e arroxam funcionários da base e os contratam como temporários. Colocam os manos todos na correria, todos precarizados, sem garantias ou horizonte à vista. Empresas se abrem e fecham num piscar de olhos. Donos que somem com capital de giro e deixam o capital humano à deriva num mar de necessidades, prontos a abraçar qualquer tronco. E, dadas as condições, jovens trabalhadores inseguros ao ponto de criarem pouco apego ao trabalho. Ou sem parar de procurar uma colocação mais segura e uns cobres a mais, pulando de galho em galho. Desculpaí o atraso, chefe. Desculpo nada, vai pra rua. Quem se importa ? E com estas moças presas 8 horas nas baias do telemarketing sem poder trocar o absorvente higiênico porque ganham por produtividade mas não levam bônus por infecções urinárias, quem se importa ? Se a infecção for grave o INSS paga os dias parados. INSS é aquele Instituto de Segurança Social cujo desconto em folha parece feito sob medida para provocar insultos à nossa inteligência: a culpa da mixaria que os patrões pagam aos empregados é dele, viu? Vagas de trabalho se abrem por mérito dos empresários, uns heróis, tem uns que posam de mártires. Mas quando eles despedem, está provado, a culpa é do governo. Se não tivesse salário desemprego queria ver quantos iam recusar trabalhar a troco de comida. Culpa do governo. Não aquela parte do governo que é dono de latifúndios, de Tvs, Rádios, empresas e vive sacando dinheiro na boca do caixa do governo. Culpa daquela outra parte do governo querendo dar aos miseráveis o dinheiro que só os empresários deviam ter direito a retirar dos cofres públicos. E os esquerdistas, então, querendo aumentar o imposto dos ricos? Só porque os pobres pagam mais que eles? Uns populistas. Que fique tudo como sempre foi, no atraso.

Neste estado que já foi chamado locomotiva do Brasil a Educação Pública anda em marcha ré, naturalmente. Como é natural que durante dois meses ao ano os professores estaduais hibernem, já que não recebem salários. E sem greve ou cara feia. Que peguem um bico a qualquer remuneração, como faziam os escravos de antigamente tentando juntar dinheiro para a alforria. Nós atrasamos o relógio de São Paulo só um pouco e vejam como privar de dois salários ao ano cada cabeça de professor dá lucro.

Afinal estou entendendo melhor como o atraso é lucrativo. Valeu vó. Não é bom negócio para mim, claro, que só tenho de meu a dívida contraída por nascer, pagando juros de contratos que nunca assinei, mesmo sem vínculo ou segurança trabalhista, sem colher lucros de ações de empresas privadas ou dos títulos públicos . Ao contrário dos banqueiros, ah, estes sim, verdadeiros campeões que adoram o atraso porque gera lucro, os melhores em fazer lucro gerar lucro, encomendando programas de computadores que substituem trabalhadores e crescendo. Atrasando a vida de muitos com a extinção de postos de trabalho e lucrando.

Paciência. Se o lucro está acima de todas as coisas, por ele devemos sacrificar a vida. Devemos, se necessário, permuta-los pela vida. E se, ao fim e ao cabo, o atraso gera mais lucro, então mais lucro = mais vida!

O que me leva a confirmar uma percepção recorrente. A vida de quem, de um jeito ou de outro, está em luta constante contra o atraso é muito dura. Para lucrar é muito mais negócio reproduzir o atraso, qualquer atraso ao seu alcance, como bem sabe a elite da minha pátria.

Afinal fantasio: fosse da elite ou, ao menos, cúmplice dela podia viver com muito mais conforto e ainda encher a boca pra falar: que- nojo- da- corrupção. Deliro que se tivesse capital ou vocação empresarial podia abrir uma empresa ou uma OS, pegar uma concessão pública contratar uns terceirizados e até coloca-los a gritar: País de bosta! Fora Dilma! Ui. Estou quase me sentindo o Rastignac em pessoa, olhando Paris do alto e declarando: Agora é com nós dois! Posso até me ver no mirante do alto de Santana, de binóculos, mirando gotham city, a planejar em quem aplicar minha piada mortal. A que ponto cheguei.

Mas é muito tarde para me converter ao culto ou ao consórcio do atraso. Apagado o fogo da fúria tenho de admitir que não vejo saída para o atraso e seus cultuadores. Afinal, quando um Papa sai andando pelo mundo empenhado em dizer o que um mundo em que o lucro está acima de tudo não é viável, tal qual o Cristo, chicote em punho denunciando os fariseus, se o Armagedom não estiver próximo, pelo menos não deve andar longe. Brincadeira. Mas que o Sistemão não se aguenta mais nas pernas é fato. Muitas análises já chegaram a esta conclusão: o Sistema Financeiro Mundial desapegou da economia real faz tempo e seus operadores não estão nem aí se estão destruindo a capacidade humana de trabalhar e trabalhando resolver seus problemas. O objetivo deles é manter uma minoria, de boas, vivendo no luxo e que o poder político continue sob domínio dos mais ricos conglomerados empresariais legais e ilegais do Planeta. Quase nada de novo sob o sol, além do elemento complicador : o poderio bélico nuclear. Estamos no bico do corvo mas nutrimos grandes esperanças, parodiando o amado poeta Drummond.

Mas enquanto o teatro geopolítico mundial segue seu curso cada um de nós e cada país vai tocando a sua vida como pode. Ouvi dizer que a Presidente vai pisar no acelerador de investimentos em infraestrutura, os juros bancários vão cair e a torneira do dinheiro fácil vai secar. Somada a esta devassa promovida pela PF e pelo MP não vai haver revolução mas pode ser um golpe e tanto na organização desta velha colônia que há séculos funciona como aquela Paris que corrompeu Rastignac. Se este ciclo Dilma de governo conseguir desarmar ao menos parte da máquina de exploração e corrupção, inaugurando nossa primeira República com povo e com letra maiúscula, a nação já estará no lucro. Não sei se será possível mas se a Dilma conseguir essa proeza, durmam de botina. Estes nossos B.O.s de consumidores vão parecer picolé de chocolate. Os trutas locais que sempre dormiram à sombra das laranjeiras em berço esplêndido vão sacudir a árvore feito criança mal educada no supermercado, derrubando a prateleira quando a mãe diz que hoje não vai ter todinho. Oremos. Ubuntu. Namastê. Axé. Shabat Shalom. Amém.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Paradoxo ortodoxo


orla privada

Sob nova direção

As praias do Nordeste estão sendo lagostizadas. O padrão lagosta afasta os pobres de um dos últimos espaços públicos na terra onde cantava o sabiá. Em Porto Seguro, os restaurantes no calçadão criaram uma barreira que impede completamente a vista do mar. A coisa é tão descarada que há até estacionamento para os clientes na faixa de areia da praia. Nas barracas gourmetizadas de Arraial d’Ajuda e Trancoso só é permitido sentar nas cadeiras com farpela mínima de 50 dinheirinhos por candango. Algumas fingem dar uma arregada, mas obrigam o turista cara de bobo a fazer a refeição na barraca. A cerva é uma amargura de 11, 12 contos.

As praias do litoral sul do Ceará seguem a lagostização. Na Praia do Futuro, naquelas barraquinhas rústicas de pescadores, comia-se caranguejo e bebia-se caipirinha o dia todo sem levar um susto. Hoje, a orla foi completamente privatizada. Os grupos econômicos construíram complexos de lazer que parecem com os condomínios fechados da Barra da Tijuca, no Rio. Piscinas pras crianças, lojas, shows de humor, bandas de música, bares, sorveteria, lan house, banco 24h, restaurante à la carte, buffet, espaço vip, spa, sauna, segurança privada… No Complexo Crocobeach, 400g de tilápia lasca o bolso do incauto em 90 pratas.
A partir de 17h acontece um fenômeno empresarial nas areias nordestinas. As praias fecham. Os empregados mal pagos recolhem as mesas e cadeiras. Tudo acaba de repente. Quando o sol se põe, não há mais um sirizinho como testemunha. Muito estranho.
Já dizia meu amigo Severino, irmão do finado Zacarias, lá de São José da Caatinga: dinheiro é bicho que não tem quem amanse. Basta mesmo é mais carga pro burro entender.

Cinepraga

O laboratório do mercado cinematográfico está sempre atento ao inconsciente coletivo da população mundial. O gênero Tiro, Porrada e Bomba é pior do que as Dez Pragas do Egito. Mais torturante que as Sete Pragas do Apocalipse somente o cine-catástrofe. A legião de vampiros e zumbis deu cria nas nauseantes séries de televisão. Os diretores junguianos de Hollywood anteviram o grande vazio existencial da humanidade e lançaram a onda de filmes de super-heróis. Os Vingadores já salvaram a humanidade duas vezes. Dos quadrinhos do Besouro Verde pulamos para o pastelão de efeitos especiais do Homem Formiga, que chegou este mês aos cinemas de todo o mundo para salvar a humanidade, desta vez, com a ajuda dos insetos. Se os seres humanos não conseguirem a redenção de si mesmos, o cinema americano logo criará o Homem Bactéria.

Paradoxo ortodoxo

Parlamentares corruptos acusam o governo de corrupção. Fazem barricada contra Dilma justamente por esta não impedir que eles sejam investigados por malandragem. Exigem proteção da presidente por seus atos corruptos e, em retaliação, ameaçam com o impeachment.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

A velha novela dos bobos


bobodacorte

Eduardo Cunha não é o maior vilão do Brasil. Tampouco se aproxima de herói. Nem mesmo Dilma pode ocupar quaisquer desses espaços sem uma boa dose de má intenção para qualquer interpretação. O cenário político brasileiro atual é composto por tantas marionetes, por tantos títeres que não sabemos quem manipulas os condões e interesses de um enredo tão mal escrito.

A canalhice toma conta das páginas de jornal que vendem uma esquizofrenia ideológica à população. A Operação Lava Jato vem sendo o grande sucesso da imprensa há vários meses, com suas fases sucedendo-se como capítulos de uma novela empolgante e emocionante.

Vilões são necessários a uma boa trama rocambolesca. Petralhas! Bradará a audiência. Denúncias de corrupção escorrem pelas linhas dos periódicos a uma velocidade impressionante. E vão fazendo vítimas. Deputado citado. Senador envolvido. Ex-ministro denunciado. O Juiz Moro é o xerife que vai limpar a cidade. O país. O arauto de nosso combate contra a corrupção.

Denunciados se entreolham e as câmeras agem com pistolas que lhes ameaçam qualquer direito possível à defesa. A opinião pública já lhes condenou. Corruptos! Queremos o sangue dos políticos. Contradenúncias! O delator é um indivíduo sem moral para fazer acusações aos outros. Seguem-se falácias que aumentam a audiência e o bafafá dos capítulos.

De repente uma leva de empresários visita a cadeia. Suspense. A história ganha ares de dramaticidade. E então, articuladamente, alguém faz a revelação que serve de chamada ao enredo inteiro: “se eu contar tudo o que sei, não sobrará ninguém em Brasília”.

A claque se deleita. Revistas estampam ilações como verdades, insinuam-se ligações entre o governo, o fulano, o PT, o paraíso fiscal e qualquer outra coisa que equivalha. E tome imagem, perseguição aos condenados, ops, acusados, machetes, reportagens. Ah, que delícia de Ibope.

As outras operações que fujam do enredo são deixadas de lado. Não merecem o horário nobre. Vamos fazer sangrar a presidência, vamos vilanizar o PT. A delação premiada deveria consistir em infratores de menor grau denunciarem aqueles de maior importância no esquema, mas torna-se aqui outras vontades: é o grande corruptor, preso, que recebe vantagem se acusar algum político.

E, como em um erro de gravação, como em um furo do roteiro, o endeusado presidente da Câmara dos deputados, alçado a protagonista da luta contra o PT – apoiado midiaticamente por um sem número de maus roteiristas de imprensa tupiniquim – cai na mesma armadilha criada para pegar as moscas do Governo Federal.

Daí, o discurso fica louco. Chegou-se a falar que Lava-Jato havia sido orquestrada pelo Governo Federal para pegar Eduardo Cunha! Impressionante como subiu à cabeça do rapaz o pseudoprotagonismo que a mídia lhe deu.

Por outro lado, em um contra-ataque tão louco quanto cômico, a turma do PT passa dar crédito ao até então desacreditado delator. Ou simplesmente perceberam que dá para não cair sozinhos e fazer um bom estrago consigo.

A revista de ficção semanal tenta ainda salvar seu herói de momento, mas Cunha é indefensável. Não por suas acusações, essas são tão sérias e graves quanto todas as outras, ainda que possam repercutir menos, mas pelo papel de bufão que sobrou ao presidente da Câmara: um demagogo de ocasião que trazia consigo a mídia para apoiar causas “populares”, como na questão da maioridade penal; e outras bem particulares – contra as mesmas pesquisas de opinião – como no financiamento privado de campanha, necessário à manutenção dos cordões que lhe dão a vida no Congresso.

De forma atrasada, águas de março vão fechando um verão de acusações. Collor e seus automóveis, Cunha e suas doações, o PT e seus esquemas. Uma novela mal-feita, sem heróis e repleta de vítimas: o contribuinte, a população e a imbecilidade dos que acusam apenas um lado de corrupção. Ratos de partidos de “oposição” se escondem e torcem para que não haja divulgação nem de outras operações – encabeçadas por eles –, nem de outros depoimentos – vai que… –, ou sobre relações com governos anteriores – cruzes, nem pensar!

É o fundo do poço, é o fim do caminho. O bobo da corte está nu. Mas estava crente (com trocadilho, por favor) que seria ele a fazer isso com o rei. Não faz. Esbraveja como se fosse o protagonista. Não passa de um coadjuvante ocasional que ganhou algumas falas a mais.

Eis uma história onde só há vilões. Magos em sumir com dinheiro público. E um bando de trouxas que acredita apenas em partes de fatos. De coração fechado. Prego, pé, estepe. Águas imundas que inundam.

É a lama, é a lama.

Categorias: Política | 5 Comentários

Estelionato à grega, ou, oxi é oxi


"Olha a cobra! É mentira"

“Olha a cobra! É mentira”

Em Atenas, neste exato momento, em bom português, o pau está comendo. Oxi é oxi, diz o povo grego perante a capitulação do Syriza. Que seja ouvido.

O retumbante fracasso da política fiscal de metas de austeridade na Grécia é prova científica mais do que o suficiente de que a tal política não funciona (como se não houvesse antecessores o bastante para já haver deixado isso claro, Argentina e México que o digam). Negar isso significa ou fazer parte da plutocracia que lucra com ela, ou ser um bobo que acredita no discurso muito mal disfarçadamente ideológico escondido por trás do “tecnicismo” neoliberal. Austeridade, não custa repetir, não é o remédio amargo que salva o doente: austeridade é bom para bancos. O problema a que a adoção dessas medidas se propunha a resolver, o pagamento das dívidas, não se resolveu. Pelo contrário, se agravou, e o pacote de austeridade gerou um empobrecimento e uma perda de bem-estar da população sem precedentes e mergulhou o país na pior crise econômica da sua história. Se isso não é um fracasso absoluto, alguém precisa redefinir com urgência essa expressão.

Quanto às mudanças de direção do Syriza, para  Habermas, por enquanto não é seguro afirmar em que medida elas de devem a constrangimentos políticos, inexperiência ou incompetência. Se o referendo foi uma tática do Alexis Tsipras para voltar fortalecido à mesa de negociações com a troika, deu errado. As medidas se tornaram ainda mais duras. Se foi uma espécie de tentativa de agradar o público doméstico, mostrando iniciativa, e ao mesmo tempo agradar a troika, terminando por ceder, o resultado foi uma catástrofe (taí um governo para o qual eu não vejo muito futuro). Tendo a seguir mais a análise do Partido Comunista Grego (linko no fim).

Após o anúncio do novo pacote, os índices de bolsas de valores ao redor do mundo, mas especialmente na Europa, é claro, começaram a subir. São os mercados abrindo champanhe indecentemente às custas do sofrimento de todo um país, na sequência de uma capitulação que o capitalismo claramente vê como vitória. Vitória de mais um exemplo de estelionato eleitoral, semelhante ao que o PT fez aqui no Brasil, quando adotou a política econômica do pior adversário, quando a sua campanha havia sido fortemente construida em cima da negação e do medo da implementação dessa política.

Sou contra o governo Dilma por diversas razões, embora sem histeria e sempre pela esquerda. Sou contra devido à forte cooptação / infiltração / repressão aos movimentos sociais, à política de crescimento com endividamento via entrada de capitais especulativos e do grande incentivo ao setor primário-exportador, leia-se soja e ferro, com as consequentes destruições do Cerrado e da Amazônia, do atropelamento das terras indígenas e etc. (lucra-se agora, no imediatismo, mas se pagará um preço incalculável por isso no futuro). Já disse tudo isso por aqui dezenas de vezes. Não sou contra, por outro lado, programas sociais que garantem condições mínimas de sobrevivência para quem não tinha nem isso. Mas que estamos indo para o fundo do poço, isso estamos, pois os efeitos do ajuste do PT ainda mal se fizeram sentir.

 

XXXXXXX

Transversos também é cultura culinária: o arroz à grega, que rendeu o trocadilho na origem deste artigo, não tem nada de grego. Parece na verdade um desses muitos pratos que surgiram da necessidade do aproveitamento de sobras. Um grego ficaria muito surpreso se o apresentassem como representando a sua cultura.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Parem as máquinas!


maxresdefault-2

Tudo está fora do lugar. O noticiário está louco – ou louco é quem ainda vê com credulidade os noticiários? – e, se nada acontece, é porque tudo pode acontecer.

Qualquer movimento do Juiz Moro e da milionésima fase da Lava Jato vira manchete – não que não seja importante – e as denúncias requentadas tomam ar de novidade. Outras investigações, condutas e pessoas já não são mais tão importantes de serem investigados. Acho que deve faltar tempo para falar de todo mundo. Dinheiro na Suíça e esquema de anulação de dívidas de grandes empresas não devem dar Ibope. Ou não podem, sei lá.

O importante é assustar o cidadão. É recessão, é inflação, é demissão e qualquer outra palavra que termine em “ão” para dar a ideia de que morreremos de fome antes do anoitecer. A indústria não consegue mais vender um milhão de carros por ano, apenas setecentos mil. Demitam-se os funcionários. Como assim diminuir lucros de quem produz? Os bancos precisam dos juros. Eu juro. Nós é que somos culpados pela miséria que chegará como peste em pouco tempo e acabará com a nossa economia (não a dos banqueiros, é claro). O fantasma é feio e mostrado como filme de terror pelos comentaristas do caos. A crise é tão grande na tevê que hoje mesmo decidi não comprar o pão, para poder economizar alguns centavos que farão falta nestes dias sombrios.

Também é bom não sair de casa. Ir à rua por qualquer motivo significa ser assaltado, violentado, esfaqueado e sabe-se lá mais o quê. Por um menor, é claro. De qualquer idade, diga-se de passagem. Independentemente de que identificação, a notícia dava que era um menor. E drogado. Então era, pronto. Ainda bem que existe gente séria na Câmara disposta a resolver essa questão. Direitos humanos para os humanos direitos. Se está com pena, leva pra casa. Mas, se não tem pena, deixa passar no Datena.

No Nordeste, uma visita rápida à Idade Média, onde se amarra o condenado – um menor de 29 anos, no caso – a um poste e dele se servem os defensores da moral. Espancamento brutal. Até a morte. A dignidade está salva. Esse não rouba mais. Amém, dirão aqueles com saudades da inquisição.

E a voz do povo é ouvida no Congresso de surdez seletiva. Não há como ignorar a vontade da população em diminuir a maioridade penal. Nem importam os meios de como fazer isso. A família brasileira está em risco, vamos armá-la e lutar contra o gayzismo que assola nossa moral, é isso que as pessoas de bem (ou bens?) esperam de seus representantes. Mas, a gente brasileira também declarou em pesquisa que é contra o financiamento privado de campanhas. Calma, aí é diferente. É porque não entenderam direito a proposta. Nesse caso, o sensato é ignorar a vontade popular. No fundo, é isso que o povo quer.

A culpa do que é ruim já nem é mais da Dilma. Já se procuram mais vilões e comparsas para o seriado. A mídia já conseguiu fazer da presidenta o ser mais odiado do país – obviamente, ela e seu partido têm dado uma substancial contribuição para isso – e já não há mais nenhuma vergonha na cara de assumir o paradoxo vital da economia brasileira: a oposição critica o governo por cada medida que ela mesma tomaria se estivesse no poder.

Entretanto, entendedores nunca são bem-vindos no cenário nacional. Próximo ponto, por favor.

Talvez por essa crença na suprema imbecilidade do público, a crise na Grécia torne-se culpa do Lula. Malditos petistas, mal posso ver seus movimentos! Sim, o PT aconselhou o Tsipras a rebelar-se contra a Troika. Mesmo que, sem sentido algum, o Partido dos Trabalhadores aplique no Brasil todas as medidas de austeridade que levam o povo grego à penúria. Deve ser alguma tática de desvio de atenção combinada no Foro de São Paulo para trilhar o caminho da revolução comunista lulobolivariana em curso no Brasil.

E tome infográfico para convencer explicar que a Grécia vai falir. Então, didaticamente aprendemos que Alemanha foi generosa ao emprestar dinheiro para viabilizar o projeto de espalhar a fome no país vizinho. Em involuntária (?) homenagem à civilização antiga, transformam todo o país em ruínas. Deve ser o reinado de Hades. E a culpa, do PT. Do daqui ou do de lá.

Na Bolívia, o papa ganha um crucifixo em forma de foice e martelo. A imprensa não tarda a crucificar o ato. E outros dizem “o papa é comunista!” Talvez não, talvez o papa seja apenas cristão. O que já quer dizer muito em termos de olhar seu semelhante com outros olhos. Ou os comunistas estão amolecendo o coração, ou os cristãos esqueceram-se das lições de seu mestre: pensar em uma vida melhor para os pobres virou vandalismo de esquerda.

Alguém não entendeu nada do que foi escrito há sei-lá-quantos-mil-anos nem do que foi noticiado na semana passada.

Mas, já não importa a história, senão o jeito de contá-la. Há mais de quinhentos anos, aqui no Brasil, dá pena da pena que a escreve. Parem as máquinas, por favor, parem as máquinas.

Categorias: Política | 1 Comentário

Oxi, ou, está na hora dos bancos fazerem sacrifícios, e não os povos


e36a512fe5b90101a88ae780e05256f8_XL

Vi esses dias com minha filha o desenho “Bob esponja, um herói fora d’água”. Logo no começo do mesmo, há uma cena muito interessante e ilustrativa da situação da Grécia, e dos endividados de maneira geral. Resumindo a cena: Bob Esponja abre uma barraca de soprar bolas de sabão (ao preço módico de 25 centavos a soprada). Patrick quer soprar uma bola, mas não tem dinheiro. Bob Esponja empresta os 25 centavos. Patrick pega o empréstimo e paga a Bob Esponja, retornando a ele a exata mesma moeda que recebera. Patrick não consegue fazer a bola de sabão. Bob oferece então um curso para aprender a fazer bolas de sabão, ao custo dos mesmos 25 centavos. Patrick pega emprestado e paga pelo curso, e então a mesma moeda volta a circular de Bob a Patrick e uma vez mais a Bob. Patrick, agora, deve 50 centavos a Bob Esponja e não tem nada nas mãos além da lembrança do doce momento em que soprou uma bolha de sabão (a própria imagem da efemeridade).

Mesmo para um desenho afeito aos subtextos como Bob Esponja (referências à literatura são constantes, Allan Poe e Joseph Conrad são “convidados” frequentes), mesmo com todas as piadas inteligentes referenciadas na biologia marinha (a lagosta halterofilista, o plâncton com delírio de grandeza, ou uma simples conversa de uma esponja, uma estrela-do-mar e uma lula – três animais invertebrados – sobre rotação pélvica), deve parecer exagero julgar que essa cena seja uma referência implícita à situação da Grécia, ou mesmo que, mais modestamente, seja uma ilustração da Lei de Say (aquela que diz que a oferta gera a sua própria demanda), mas é claro que, ainda que involuntariamente, o quadro econômico atual do capitalismo altamente financeirizado ficou bem caracterizado.

O que se passa na Grécia, no momento, é exatamente isso: querem que o povo grego pague, na base de (mais) sacrifícios intoleráveis, por uma dívida não feita por eles, da qual eles pouco ou nada se beneficiaram, em benefício dos plutocratas de sempre do sistema financeiro internacional. Teme-se, agora, pelo destino do projeto europeu, consolidado pelo Tratado de Maastricht (1992), que deveria construir uma Europa próspera, solidária e, principalmente, tendo em vista o histórico do continente, pacífica. Essa prosperidade seria garantida, entre outros dispositivos, pela presença de fundos de convergência, por meio dos quais dinheiro dos países mais ricos era canalizado na forma de investimentos para os países mais pobres. Tudo isso, para além de objetivos humanitários, sempre conteve meio disfarcadamente o intuito de deter a migração interna do continente, que levava trabalhadores desses países mais pobres a tentarem a sorte em visinhos menos desafortunados (Portugal sempre foi um grande receptor desses fundos). Funcionou bem ao ponto de alguém, bem espertamente, propor a mesma estratégia para desenvolver os países das antigas colônias europeias, detendo assim também a migração transcontinental, mas, infelizmente, este último objetivo recebeu bem menos atenção do que poderia (afinal, quem migra para a Europa foge da miséria, da guerra civil e etc., e caso os seus países não fossem confrontados por essas situações, ficaria na sua própria casa).

O problema é que, se o projeto europeu é um projeto de solidariedade – ao menos para os próprios europeus – o projeto da zona do euro nunca o foi. Para além das dívidas perdoadas pela Grécia no passado, e hoje tão relembradas no facebook, vale lembrar que a união monetária favoreceu e muito os produtos da poderosa indústria alemã, que sem as diferenças de câmbio em relação ao marco alemão, passaram a ser comerciados nos países ZE a preços competitivos. As regras de austeridade fiscal, prevendo limites estreitos de gasto público e endividamento – aquelas que agora todos enchem a boca para lembrar que a Grécia nunca cumpriu – também foram inobservadas tradicionalmente pela própria Alemanha, nos momentos em que assim lhe conveio. O projeto da ZE do euro é um projeto de austeridade, ou seja, um projeto de conveniência para banqueiros e sistemas financeiros.

Os esforços tanto da primeira quanto da segunda guerra mundiais foram realizados a custa de alto endividamento, assim como os esforços para reconstrução, pagos com os recursos do plano Marshall, também. Boa parte da prosperidade posterior da Europa deve-se ao perdão de dívidas, ou a reescalonamentos generosos para o pagamento das mesmas (no caso, “generosos” significa sem maiores traumas para a população). Ou como disse Piketty recentemente, “a Europa foi fundada na ideia de que o perdão das dívidas é um investimento no futuro”, e que, portanto, é “hipocrisia” a insistência alemã em escorchar a Grécia, ainda mais quando um estudo do próprio FMI divulgado semana passada admitiu que a dívida grega é impagável, indiferentemente ao grau de sofrimento extra a ser imposto ao conjunto da sua população.

O default grego está muito longe de se tornar o epicentro de alguma (nova) crise global. A economia grega é muito pequena e muito marginal para colocar qualquer sistema em risco, mesmo o europeu, e, a despeito de todo esse estardalhaço, na verdade o Siriza se guia por uma agenda quase centrista, eu diria. A pauta deles é um simples reescalonamento da dívida, com prazos maiores, juros menores, e sem mais sacrifícios para o povo grego. É muita vela para pouco defunto.

O que, então, motiva todo esse terrorismo (termo muito bem escolhido por Yanis Varoufakis para definir o que a Troika está fazendo)? Na visão deles, será necessário um castigo exemplar, para desincentivar outros devedores a seguirem o mesmo caminho. Vão colocar muito abutre a roer aquele fígado, e já vislumbro futuras campanhas internacionais de solidariedade aos gregos. A Grécia e o povo grego pagarão um preço alto pelo seu heroísmo digno de Homero: o sistema financeiro internacional, concretizado na figura da Troica, não deixará isso barato, e sendo a moeda do país impressa fora dele, a capacidade de fustigar é muito elevada. A generosidade, ou “generosidade”, faz parte de um passado cada vez mais distante.

Quando o assunto é Grécia, eu sempre digo que se alguém se endividou irresponsavelmente, é porque alguém emprestou irresponsavelmente. Os bancos americanos sabem para quem (e quanto) os bancos ingleses estão emprestando, que sabem, por sua, vez para quem os bancos alemães estão emprestando, os bancos franceses…, e por aí vai. O mundo se tornou uma verdadeira promiscuidade bancária planetária. E mais. Ninguém nesse mundo é besta. Todos os credores que agora do alto da sua superioridade moral criticam a corrupção e a ineficiência dos governos gregos (principalmente os do partido da Nova Democracia) são os mesmos que financiaram estes mesmos governos, dando a sustentação em cima da qual essa ineficiência se perpetuou. Por que, então, emprestaram, em primeiro lugar?

A resposta para tudo isso é simples: dívida é o melhor negócio. Sangrar lentamente um país por anos torna esse país uma verdadeira galinha dos ovos de ouro para o sistema, e ninguém quer que a Grécia pague: querem que ela sangre. Uma das citações mais surradas da nossa época é aquela ao poema de Charles Baudelaire que diz que o maior truque do diabo e fingir que ele não existe. No processo de desregulamentação global do capitalismo posto em operação nos últimos 30 anos (Reagan nos EUA, Thatcher no RU, consenso de Washington e Basileia II foram os instrumentos mais importantes desse processo, e já falei muito deles por aqui), o discurso neoliberal fez a mágica de se travestir de um cientificismo e de uma objetividade que ele na verdade não tem. A partir do discurso do economês, transformou em “verdade” aquilo que é ideologia por definição: a visão e os objetivos de classe dos donos do capital internacional. E a UE do Euro, infelizmente, se tornou uma aliança de plutocratas e tecnocratas que vendem a sua procura por lucro como objetividade e metas de superávit primário.

Enquanto isso, em Pindorama…

Que príncipes, que raciocínios terão convencido Dilma a acorrentar o povo brasileiro ao mesmo rochedo ao qual os gregos, agora, alegremente, dão as costas? Não consigo entender como ela e o seu partido cederam a tal chantagem, e caíram em tal armadilha. Em breve, quando os efeitos desse ajuste se fizerem sentir em sua plenitude (desemprego, principalmente, que já está atingindo até o comércio popular), quando tudo desmoronar, veremos muito provavelmente o povo nas ruas. E a dita oposição (que nunca deixou de ser situação, na verdade), vai poder dar ares de legitimidade aos seus gritos histéricos de impeachment, abrindo o caminho para algum Aécio da vida. E Dilma terá merecido. Pena que o igual que virá depois será pior, pois esse igual virá reforçado e reforçando a pauta ultraconservadora do pior legislativo dos últimos trinta anos. Os projetos de Cunha, para depois da redução da maioridade penal, não ficam a dever a este último em termos de retrocesso medieval. Há projetos que vão desde aumento de penas para médicos que realizarem cirurgias de aborto até a definição clara, nos códigos competentes, de que casamento é entre um homem e uma mulher.

Essa estranha oposição que jamais deixou de ser situação vai acusar o governo (na verdade já acusa) por tudo de ruim que ela mesma pressionou para que acontecesse. O ridículo de creditar os problemas atuais da economia brasileira a uma suposta incompetência daquilo que eles chamam de “lulopetismo”, ignorando uma crise mundial que ainda está longe de ter acabado e as próprias dificuldades estruturais de corrigir uma desigualdade social histórica e profundamente anticidadã construída ao longo de séculos. Termino cedendo três links de textos que considerei os mais relevantes, de todas as análises que li essa semana sobre Grécia. Não fui nas revistas especializadas, pois cansei-me delas um pouco. Todavia, seguem:

Links: este artigo é do Zizek, como sempre brilhante, mas do qual discordo em parte aqui. Ele diminui a importância do medo do capitalismo de que o exemplo grego seja seguido por outros países à beira da insolvência (leia-se Itália, Espanha, Irlanda e até mesmo a França). Não consigo concordar com isso. As perdas com a Grécia serão sempre modestas, caso qualquer um desses outros países seguir o caminho, e para mim isso está no centro da explicação da inflexibilidade da Troika. http://analyzegreece.gr/topics/greece-europe/item/270-slavoj-zizek-on-greece-the-greeks-are-correct/

Esse artigo do Gardian também está muito bom. É uma visão bem britânica, e tem alguns equívocos na parte histórica, e exageros, mas as suas virtudes sobressaem-se com folga aos defeitos: http://www.theguardian.com/commentisfree/2015/jul/07/greece-financial-elite-democracy-liassez-faire-neoliberalism?CMP=share_btn_fb

Esse terceiro é o único em português e na verdade o melhor deles. Vai mais diretamente ao ponto, que tangencio apenas no meu artigo, da questão da plutocracia e da dissimulação da luta de classes: http://cartamaior.com.br/?%2FEditorial%2FO-golpe-em-marcha-mirem-se-no-exemplo-das-liderancas-de-Atenas-%2F33909

Observação final: duas semanas atrás, prometi passar a tratar de temas mais leves e que não me exigissem tanto, aqui no Transversos. Disse que passaria a escrever crônicas contando o meu cotidiano desinfeliz ou coisas que o valham. Como podem ver, falhei miseravelmente com as minhas promessas. Inclusive, ninguém sequer leu o compartilhou as pobres das croniquetas. Não sei se eu sou muito ruim nisso, ou se as pessoas que acompanham o blog já esperam de mim um outro tipo de texto. Seja como for, decidi manter os textos “sérios” por aqui, e procurar outra forma de expressar as minhas angustias existenciais, artísticas, criativas, ou o que seja. Sugestões?

Categorias: Sociedade | 3 Comentários

O príncipe


Nicolau Maquiavel, editor-chefe, presidente da Câmara, do Senado, deputado, senador e juiz de várias instâncias.

Nicolau Maquiavel, editor-chefe, presidente da Câmara, do Senado, deputado, senador e juiz.

O príncipe deseja o poder. E quanto maior seu desejo, maior os desvios de caminho que está disposto a tomar. Mais ainda: nem mesmo enxerga que haja qualquer desvio, pois traça-o de maneira reta, como a via mais curta para seu objetivo. Pouco lhe importa o como, assim como pouco lhe afeta a crítica ou a reprovação.

Ainda assim, o príncipe faz do absurdo uma bandeira agitada pelos muitos. Sabe que tem a seu lado uma máquina de produzir concordâncias, um leviatã em forma de mídia. E, não mais que de repente, a democracia vira a ditadura da maioria.

Vox populi, vox Dei. Dane-se que o estado seja laico, a democracia é, senão, divina. Pensar na média do que todos pensam é, de alguma forma, não pensar. Um senso comum sem qualquer bom senso. A aceitação das verdades, das versões e das posições que um deus qualquer anuncia por manchetes de jornal ou por chamadas televisivas submete o pensar aos subterrâneos da dominação.

O príncipe sabe da necessidade de estar ao lado da vontade do povo, por isso mesmo trabalha para que os interesses da nação estejam sempre de acordo com aquilo que ele mesmo quer. E é dessa maneira que surgem as máscaras de legalidade, interpretações regimentais e outros equilibrismos legalistas para justificar quaisquer práticas. No fundo, sabe o príncipe e seus aduladores que tudo aquilo era, de fato, desnecessário: os fins já fundamentam quaisquer meios.

E Goebbels age livremente. Outros tantos já foram adorados por milhões, não seria mais difícil aqui que em qualquer outro lugar. Heróis e vilões são feitos pelo lado da pena que escreve a história. A sociedade, sentindo-se atendida em sua necessidade imposta, aplaude e agradece.

É desta triste forma que acabará nos próximos meses o governo petista. Não por ser vítima de um plano maléfico, mas por tentar fazer parte dele e comandá-lo. Os espertos sempre acabam derrotados pelos mais espertos.

Maquiavel avisava que “os príncipes inteligentes tiveram cuidado de não reduzir a nobreza ao desespero, nem o povo ao descontentamento”. Lição ignorada no Planalto. A princesa, isolada, tornou-se nobre da mesma forma que sua corte há mais de uma década: traindo suas origens de plebeia. Pois bem, perdeu o lugar de onde veio, sem conseguir ser aceita naquele em que pretendia. A elite sempre foi elitista na escolha de suas companhias. É o epílogo: ei-la princesa sem reino, sem súditos, reduzida apenas àquilo que construiu enquanto teve a coroa: nada.

É impossível agradar a todos, já diriam alguns. Mas a nobreza encastelada em suas próprias estrelas provam que é possível desagradar ao conjunto completo de uma só vez. E é por conta disso, revestido com toda a legalidade fornecida pelo TCE, TSE e por tantos outros T – essa nobreza descuidada permitiu que toda sorte de saques fossem realizadas à dignidade do Estado –  que 2016 raiará com um príncipe diferente, tenham certeza. E nada mudará, apesar de que as manchetes dirão o contrário.

Por tudo isso, os príncipes pelejam entre si para ter suas imagens eternizadas. Uns brigarão por novas eleições, outros por herdar a faixa. Tudo dentro da legalidade, um tecido elástico que se estica até caber as vontades de quem o manipula.

O combustível do ódio injetado excessivamente na sociedade justificará tiranias democráticas e democracias tiranas. Mas, como a cólera não se controla (coincidentemente, o coléra também não e ambos matam rapidamente os mais pobres), o rancor se espalha em onda por todos os laços sociais. A Idade Média nos surge à frente como futuro promissor.

Persigam-se os diferentes. Recolham-se os miseráveis. Prendam-se as ameaças. Os apupos da massa mostram que o círculo completou-se e que tudo é permitido. Em nome do bem. Em nome de quem? Saqueadores da moral podem colocar-se como benfeitores da ética: “os preconceitos têm mais raízes que os princípios”, como em outro trecho confidenciou-nos Maquiavel.

Mesmo que haja o perigo de tanto ódio voltar-se contra os seus, os candidatos a príncipe e seus apoiadores minimizam a possibilidade. O poder é tanto e tamanho que o prejuízo vira lucro. A moça do tempo do novo todo-poderoso clero midiático foi vítima do ódio. Camisas e hashtags, vamos defendê-la. Não mexam com nossos negros!

É interessante notar que a mesma organização que escala negros em papéis secundários em sua programação e que propaga a cultura do ódio para dividir a população em seus telejornais, repudia a ação patrocinada por si quando dela torna-se vítima. É a “patroa” defendendo a criada da casa, já quase da família. Tanto que é a única a não ter nome completo entre os “jornalistas sérios” (tive dúvidas se punha as aspas em sérios ou em jornalistas) da emissora. A ela, basta ser Maju.

Conspirações à parte, o ódio venceu. A rainha está nua e à mercê da rua. O partido partiu-se e partirá. Fez por merecer, é certo, mas o problema é que cairá pelas mãos dos que imporão a austeridade grega ao exótico Pindorama. Poucos governando para bem poucos, mas aplaudido por muitos. O que importa? “ A ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela.” Maquiavel adverte e o príncipe leva em conta tais ensinamentos. Talvez por isso – e por tudo o mais – reinará ao final.

Para a desgraça de tudo, mas felicidade geral da nação.

Categorias: Política | 1 Comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. O tema Adventure Journal.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.681 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: