Estou pouco me lixando para a Petrobras


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E lá vamos nós falar de corrupção e PT, mais uma vez. Mais uma vez, um escândalo é o centro dos noticiários de todo o país por meses a fio, batendo na mesma tecla com a insistência de um chimpanzé recém presenteado com uma maquina de datilografia. O clima de histeria conservadora e golpista não dá sinais de ceder. Na verdade, está tão alto que nos nossos pobres dias de hoje não basta ser contra o PT, você tem que ser contra o PT nos moldes da direita e seguindo as críticas à direita (aquelas que dizem que o problema do país é a corrupção – que, sem o PT, ao que tudo indica, não existiria –, o “bolsa miséria” e blá e blá e blá). Senão, você, evidentemente, também é um “petralha”. Tenho dito há muito tempo que o problema central não esse, e que as minhas críticas ao PT são à esquerda. É claro que o PT mergulhou fundo as mãos nesses esquemas, justificando-os a partir do discurso da governabilidade (eles têm justificativas melhores, mas nem vem ao caso).

Para mim, no entanto, o que mais tem me surpreendido é perceber que o mundo “descobriu” que se paga propina para fazer negócios com a Petrobras, ou que as empreiteiras estão imersas em negociatas escusas para conseguir as suculentas licitações com o governo. Pergunto-me em que planeta essas pessoas viviam nos anos FHC, Collor, Sarney, ditadura e, segundo alguns, remontando até o JK. Só falta agora descobrirem que existe superfaturamento em obras, aí vão todos se tornar uns doutores especialistas em Brasil. Não que isso seja desculpa. Desde a sua fundação, o PT se construiu sobre a base do socialismo, e sobre o discurso da diferença (aquele partido que viria precisamente para mudar tudo isso).

Porém, no dia de hoje, o poder judiciário e a imprensa denuncista perderam qualquer resquício de credibilidade que ainda lhes restasse: o novo herói do momento, o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, arquivou o pedido de abertura de inquérito contra o senador Aécio Neves (PSDB). Isso mesmo, aquele senador ex-candidato à presidência da república, que já tinha tido a sua cara livrada escandalosamente do caso do helicóptero de cocaína e do caso do aeroporto de Cláudio, foi citado na fase das denúncias da atual investigação, a já tão famosa Operação Lava Jato, vindas por meio da delação premiada, mas não será (de novo) investigado. E mais, como até agora o processo estava correndo em segredo de justiça, nós sequer saberemos o teor das denúncias contra o sujeito. Mas o fato é que o Aécio Neves é um petralha do petrolhão. Ou melhor, é um tucanalha do petrolão: se fosse petralha seria investigado. Mais uma vez: não se trata de inocentar o PT, até porque quem tem que fazer isso não sou eu, é o poder judiciário e a história (declaro, no entanto, que confio bem mais no discernimento da segunda do que no do primeiro).

Como disse, minhas prioridades de críticas são outras. Por exemplo, mesmo antes da primeira eleição de Dilma, os observadores mais atentos já sabiam que tempos ainda mais nebulosos do que os do governo Lula viriam para índios e florestas, pois sabia-se que ela era ainda mais obstinada e obtusamente limitada por uma ideia ultrapassada e século-vintista de desenvolvimentismo, segundo a qual bom é massificar o modelo do automóvel próprio (foram 2.700.000 novos licenciamentos de veículos só ano passado), em detrimento do transporte público, e que cada árvore em pé é um obstáculo ao progresso a ser ultrapassado à motosserra. Todas essas coisas devem ter parecido razoáveis nos inícios do século XX, nos EUA dos tempos do Ford, mas hoje em dia, quando estamos à beira do colapso planetário a olhos vistos, elas soam mais como as trombetas do apocalipse do que loas triunfais ao progresso humano.

Outro modelo, o da soja, foi uma construção de décadas, mas floresceu como nunca durante os governos do PT. Começou no regime militar, com Programa para o Desenvolvimento do Cerrado (Prodecer, que na verdade condenou o cerrado à extinção). O programa foi financiado por capitais japoneses, altamente interessados em garantir a sua segurança alimentar (o Japão é um arquipélago cercado por países que o odeiam devido às atrocidades do imperialismo nipônico da primeira metade do século XX), pois trazer uma planta do clima temperado para o centro-oeste brasileiro requereu adaptações e anos de pesquisa da Embrapa. A segunda etapa mais importante foi a liberação dos transgênicos, dada embrulhada em pacote de presente com direito a fitinha por FHC (aquele que não tem culpa de nada, ou de tudo, dependendo do seu interlocutor) para a Monsanto. E o resultado está aí: o maior especialista do mundo em cerrado declarou que o bioma já está morto, e a motosserra da soja voltou-se com ímpeto na direção da Amazônia. E dá-lhe jornal comemorando safra recorde no agrobusiness.

Como já disse, esse é um tema recorrente por aqui. Não vou me alongar mais nas críticas. Já fiz muitas e elas não mudaram. Só vou lembrar por alto que o modelo de abertura para o capital especulativo e de endividamento constante é muito mais prejudicial (e dá mais prejuízo) para o país do que qualquer escândalo de corrupção. Também não vou repetir minha ojeriza aos métodos fascistoides com que os novos movimentos sociais foram enfrentados pela Dilma, com pesadas infiltrações, prisões forjadas e etc. Aliás, cabe aqui dizer que em todos esses pontos o PT converge perfeitamente com a direita, e não é devido a nenhum deles, portanto, que o partido é tão odiado. Minha teoria é que os donos do poder, via a sua expressão raivosa midiática, detestam o PT pelo pouco que ele fez de bom, ou seja, o aumento da qualidade de vida das pessoas, via ganhos reais de valor do salário mínimo e políticas sociais distributivistas.

Porém, logo após a reeleição de Dilma, houve uma preocupante mudança nesse último cenário, com a adoção de medidas econômicas contracionistas. Tais medidas, como no fundo se sabe muito bem (embora ninguém admita), são boas para bancos e para o sistema financeiro, mas péssimas para o emprego e para as pessoas. São, em uma definição simples, medidas antidistributivas, ou seja, o contrário do que os sucessivos governos do PT vinham fazendo. E aqui é o ponto central da minha preocupação. Eu estou me lixando para a Petrobras. Nesse mundo insano que optou pela corrida acelerada na direção do precipício, uma empresa de petróleo não pode NUNCA passar por problemas de verdade, ou seja, problemas graves o suficiente para levá-la à falência (ainda mais montada em um pré-sal). A minha preocupação é que os ganhos sociais dos últimos anos sejam perdidos (o que, em termos bem práticos, representa a volta do desemprego, da fome etc.).

A Petrobras não é um monstro, e o que está acontecendo com ela não é nenhuma novidade dentro dos parâmetros usuais de desonestidade brasileira. A empresa não vai acabar, e o fato de George Soros, um dos maiores picaretas do mundo (mercado financeiro, como não poderia deixar de ser para alguém alcançar esse título), ter aproveitado a “promoção” e comprado horrores de ações da mesma (enquanto os bobos falavam bobices, como disse a Ana Souto, colega aqui do blog) da margem a toda sorte de teoria conspiratória.

Se toda essa indignação contra a corrupção na Petrobras tivesse por objetivo mudar o país para melhor, ainda que dentro evidentemente de um projeto reformista e sem ruptura com o capitalismo, até que seria bem-vinda. Mas não há nenhum movimento de reforma institucional (puxado por poder judiciário, legislativo, ou pela mídia) para acabar, por exemplo, com o privilégio de foro, medida sem a qual falar em acabar com a corrupção não pode passar de retórica barata. Assim, sem nenhuma medida de fundo, tudo se reduz a um espetáculo circense lamentável com muita pirotecnia e nenhuma chance de resultado. O único projeto por trás disso é a expectativa de alternância partidária, tirando o PT do centro decisório e recolocando no centro da distribuição das boquinhas do poder a burguesia tradicional, aquela mesma que conduz o projeto “Brasil país mais desigual do mundo” há tantos anos.

Enquanto isso, na dura realidade das ruas, ontem Igor Mendes fez três meses de prisão. Para ele, assim como para a maioria dos brasileiros, não tem colher de sopa. Não tem indulto de natal como o que José Genoino acabou de receber, e nem espera por julgamento em liberdade. Rafael Braga segue preso por andar na rua com uma garrafa de pinho sol. E vários ativistas continuam presos, estão foragidos ou estão sendo perseguidos.

Reportagem da Folha sobre Aécio, aquele maníaco por transportes aéreos.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1598024-procuradoria-rejeita-abrir-investigacao-contra-aecio-neves-na-lava-jato.shtml

Reportagem da Folha sobre o indulto do Genoino.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1598003-stf-extingue-pena-e-genoino-volta-a-ser-um-homem-livre.shtml

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A(u)to de resistência


Devido a ter retornado faz pouco do exterior, pensei em escrever exatamente sobre o tema, de forma a desconstruir aquela ideia de as coisas erradas acontecerem “só no Brasil” – opinião compartilhada por muitos brasileiros. Claro que a comparação teria ares de galhofa, já que visitei a Itália, considerada o Brasil da Europa. No entanto, este texto mais leve e até bem humorado não teve espaço na minha indignação diária ao voltar à terra brasilis.

Falaria sobre os problemas italianos, sobre a existência de pobreza em suas ruas, sobre os milhares de imigrantes do norte da África, sobre o clima tenso que aguarda ataques terroristas do Estado Islâmico, sobre a onipresença do primeiro-ministro Matteo Renzi na tevê – opinando desde política internacional à culinária, sobre a rejeição popular de Berlusconi, enfim, em tudo aquilo que a Itália teria muito de Brasil e vice-versa.

Mas, não coube no poema. Nenhum jornal de lá noticiou a morte de crianças pela polícia. Lá, estão em guerra contra o terrorismo. Aqui, ao chegar, descobri que também estamos em guerra. Contra nós mesmos. Os capitães-do-mato continuam a caçar os negros fugidos. Ou forros. Porque de há muito não são livres.

Queria falar de outra coisa, mas vi uma criança que brincava ser morta. Quando brincava. Porque brincava. Estava no lugar errado. E tinha a cor errada. Pobre, preto e correndo. Auto de resistência. De repente, a história dava conta de que eram traficantes. Assim, do nada, viraram bandidos na crônica policial. Negros perigosos. A farda causa repulsa. A mentira é a mãe da corporação. Condenados pelo tribunal imediato dos feitores. Executados pela mão estúpida do Estado. O braço da lei tem a frouxidão moral de seus dirigentes.

E tudo seria exatamente a farsa que se montou não fosse o fato de que a vítima do homicídio gravasse a própria morte. Quantos outros não tiveram a mesma “sorte”? Querem que alguém acredite mesmo que seja este um caso isolado? Há pouco falava-se da morte de uma menina, atingida dentro do seu carro por um projétil de fuzil, disparado por um policial em perseguição.

Não é caso para apenas prender os marginais de farda que, em lugar de proteger a população, são convencidos pela política de guerra a caçar negros nas comunidades carentes. É bem mais que isso. Fosse um país sério, o secretário de segurança teria, envergonhadamente, pedido para sair. Era caso para o governador pensar em renunciar. Sua polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

O sangue vermelho escorre pela pele preta nos guetos onde a guerra é declarada. O daltonismo social só enxerga a violência na cor branca de cachos dourados. Sem dúbios vestidos. Sem truques de imagem. Sem brilho. Só o que somos. Temos nas ruas uma corporação que é uma verdadeira fábrica de defuntos. Uma instituição que serve para matar pretos pobres. Temos feitores de farda fingindo-se de policiais.

Queria falar que não estamos tão distantes da Itália. De repente, a realidade colocou-se como um oceano que nos separa. Lá não estão matando suas crianças. Aqui estamos em guerra contra nós mesmos. Chega! É preciso um basta. A polícia militar é um anacronismo, um câncer para a sociedade. Parem com a guerra. Pois não estamos em guerra. Deitem-se as fardas. Chega do militarismo ceifador de vidas. Rio, São Paulo, Brasília. Chega de feitores. Estão matando crianças. Estão cobrando de garotos de 12 anos que “morram com dignidade”. Sem socorro. Sem justiça. São os policiais militares os próprios “vagabundos” que pensam combater.

Queria falar do aniversário da cidade. Dos 450 tons de exploração imobiliária. Do quase meio milênio de desrespeito à natureza, de predação e de vilipêndio às nossas riquezas. Queria falar de vigas que somem, do cinismo do prefeito, das obras superfaturadas, dos equívocos diários que fazem da cidade ser pior, mas que jamais abalam a alma do carioca. Contudo, a alma turvou-se. A polícia do Rio de Janeiro matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Em um país de judiciário falido e vendido, em que magistrados autodeificados prostituem-se tomando para si bens dos réus ricos em troca – quiçá – de penas leves; em um lugar em que a mídia esconde a corrupção de uns e alimenta a de outros; em um momento em que os defensores da democracia se organizam contra ela, em tentativa de terceiro turno; em meio a todas as crises econômicas, morais, éticas… Em meio a toda subserviência do poder ao capital, ao financismo, à especulação… Em meio às nossas chagas, a polícia matou uma criança que brincava. Quando brincava. Porque brincava.

Queria que fosse diferente. Sobra-me tão somente o ato de resistência de pôr a pena a serviço do fim da pena. Chega de autos de resistência. Chega de mortes estúpidas. Chega de polícia militar. Não consigo parar de pensar: mataram uma criança que brincava. Quando brincava. E porque brincava.

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Vida longa e próspera!


 

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O Senhor Spock morreu! Gerações crédulas em uma vida longa e próspera sem compreender. Leonard Nimoy morreu aos 83 anos de uma doença pulmonar crônica, agudizada por seus 30 anos de fumante.

Vulcanos em luto! Quiçá, romulanos!

Fazendo as vezes de Spock, Nimoy tornou-se o símbolo-mor de Startrek, suplantando mesmo o carismático comandante Kirk (William Shatner) e, com certeza, quaisquer outros personagens ou atores da, hoje, vasta franquia, a ótima Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise, o reboot da geração clássica. Mais do que sucessos lucrativos no cinema e na televisão, Star Trek tem toda uma série de contribuições já em curso amplo ou em desenvolvimento que a maioria das pessoas ignora. Spock é dos personagens mais conhecidos e transgeracionais do Ocidente, sem dúvida.

Na verdade, preciso confessar que prefiro a Nova Geração, com Picard, Data, La Forge, Worf, Tasha Yar, Riker e outros, aa Clássica. Contudo, reconheço a importância histórica dos personagens originais de Gene Roddenberry, da eterna Enterprise NCC-1701, a singrar o universo, indo, bravamente, onde nenhum homem antes foi. E as contribuições de Star Trek a nossas vidinhas nos séculos XX e XXI que quero dedicar este texto, simbolizado em Nimoy, o eterno Senhor Spock.

Antes de qualquer outra observação, situemos Star Trek, como A ficção científica cinematográfico-televisiva por excelência. Sua estética e conceitos influenciaram todo o resto. Inclusive, fora do universo do showbiz. Spock vai além do mundo nerd, com certeza. Ora, o próprio conceito de navegação aplicado ao espaço deve muito, não de sua formulação primeira, mas de sua grande difusão, aa série. A ideia de cruzar o espaço seria, em princípio mais associável a aviões, extensões destes e congêneres. Mas, hoje, a projetamos, metaforicamente, como naus (naves) interplanetárias. Pensamos em frotas e coisas do tipo. Curiosamente, o parâmetro a se desbravar o cosmo é da Marinha e não da Aeronáutica. Talvez seja herança do ímpeto de redição de colonialismo renascentista. Faz muito sentido que seja. Mas, de todo modo, não há como negar a influência de Star Trek, até em quem nunca viu um episódio da série ou longa metragem em tal concepção. Depois da navegação para designação de interação no espaço virtual, vem também a navegação intergaláctica, ampliando muito o campo de navegações.

Star Trek trouxe contribuições linguísticas. A língua klingon, criada para a série pelo linguista Marc Oakrand, é das línguas artificiais mais conhecidas no mundo, só superada pelo Esperanto. Hoje, a língua klingon continua a ser desenvolvida em clipes, canções, etc. Uma simples visita ao youtube dá noção disso. E há dicionários de klingon para línguas europeias. O português, infelizmente, ainda não é uma delas. Um dado interessantíssimo é que o klingon incorpora um dado que o Esperanto, o volapük, a interlíngua, como línguas artificiais não possuem: é o reflexo de uma cultura, como toda língua natural o é, afinal.

 Mas, passando a contribuições mais materiais, lembrando que a referência inicial são os anos 60, quando da série clássica, vejamos outras contribuições, aparentemente, incógnitas. O tradutor universal da Frota Estelar serviu de base a nossa atual tecnologia, ainda muito débil, de tradução simultânea/instantânea. A pistola de vacinação (a bendita vacina sem agulha!) também saiu da série pro nosso mundo. Os tablets atuais já foram idealizados nos PADDs (Personal Access Display Device) da Frota, exatamente como computadores de mão. Os feisers da tripulação são a inspiração, com mesmo funcionamento básico, das atuais armas de choque.

O que dizer então da atual tecnologia de teleconferências, totalmente herdada de Star Trek e disseminada aa exaustão em filmes, séries e desenhos? Isso sem falar em pesquisas em curso com resultados parciais, como visor para cegos (na verdade da “Nova Geração”, raios tratores, o alumínio transparente, teletransporte… Sim, em 2001,  se conseguiu projetar um fóton 1 segundo no futuro. Depois disso, se conseguiu “teletransportar” fótons a 16 km. É preciso esclarecer que, fisicamente, teletransportar (por isso as aspas) não necessariamente tem o mesmo sentido que intuímos. Na verdade, o teletransporte aí se refere aa informação do fóton  (o que em si é um conceito complicado) e não aa presença física dele em si.

Com certeza, a contribuição mais difundida nascida de Star Trek foi o telefone celular, cuja criação foi inspirada nos comunicadores da tripulação da Frota Estelar. É verdade que os celulares atuais já se afastaram bastante da funcionalidade de seus aparelhos de inspiração. De todo modo, da ficção aa nossa realidade cotidiana. O nome STARTAC de um dos primeiros celulares não foi em vão.

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E a tecnologia de dobra espacial?! Não, não estamos nem perto disso. Hoje, navegar no espaço teria este grande impeditivo. Ora, o Sol está a 8 minutos-luz de nós. Parece pouco, mas lembremos que não desenvolvemos nenhum sistema de propulsão que possa nos levar sequer a uma fração significativa da velocidade da luz. A 10% desta velocidade, levaríamos, cerca de 180 anos para chegar no próximo sistema solar. Ou seja, a velocidade de dobra e a quantidade de energia despendidas pra esse feito são, talvez, o objetivo maior do Star Trek way of life a se atingir. Há muita gente hoje teorizando e buscando atalhos pra isso. Os tais “buracos de minhoca”, teorizados por tanta gente séria- por Stephen Hawking, por exemplo- são buscas desse subterfúgio, fundamental aa exploração intergaláctica. Ora, pra alcançarmos, por exemplo, Kepler 186-f, anunciado exultantemente, como uma possível “Terra”, em termos das supostas condições geológicas e astronômicas, aa velocidade da luz plena, levaríamos 500 anos pra lá chegar. Aas velocidades de que dispomos hoje demoraria mais de 2,5 bilhões de anos. Chocante, não?!  Além disso, há inconvenientes práticos de contato, não trabalhados em Star Trek. Se em Kepler 186f, houver uma civilização inteligente e com tecnologia vastamente  desenvolvida que nos possa ver com um hipertelescópio, a única coisa que poderão ver serão as embarcações cruzando os oceanos e colonizando outros continentes. Isso significa, na prática, que nenhuma civilização a menos de 100 mil anos-luz (o tempo de existência do homo sapiens sapiens) conseguiria nos enxergar. E o contrário é plenamente verdadeiro. Como lidar com isso pros contatos e diplomacia intergaláctica nem o habilíssimo Comandante Kirk saberia responder. De todo modo, a ideia da hiperpropulsão intraespacial em navegação, tão usada em todo o mundo da ficção científica posterior nasceu de Star Trek.

Claro se pode contestar se a série criou tudo isso ou deu forma a reflexões científicas já existentes. Ainda assim, dar uma forma concreta aa reflexão tem um valor inestimável. E, no mais, entrar nessa discussão com rigor vai acabar se resumindo aa primazia do ovo ou da galinha.

Na história da série, em 2063, se realizou o primeiro voo de dobra, dentro da Terra (mostrado em Primeiro Contato- A Nova Geração), o que atrairia a atenção dos vulcanos, primeira civilização a travar contato com os terráqueos e germe da federação dos Planetas.

[A canção que tocava quando Zefram Cochrane, o primeiro humano a realizar um voo de dobra, em 2063, ouvia. Pra quem não ligou o nome aa pessoa, é a mesma banda de “Born to be wild”.]

A primeira nave de fator de dobra 5, capaz de cruzar parsecs em frações de segundo só se desenvolveria 90 anos depois. Mais 10 anos a frente, em 2163, seria criada a Federação dos Planetas. É toda uma história de desbravamento adiante, com seus heróis. Só pra se ter ideia, a Enterprise do Sr. Spock só cruzaria o espaço um século adiante.

Voltando a Nimoy, o ator, em sua jornada, viveu sentimentos diferentes com relação ao personagem Spock. Ele tem dois livros publicados que demonstram bem esse espírito: primeiro, “Eu não sou Spock” e, 20 anos aa frente, “Eu sou Spock”. Ele é um clássico exemplar daquilo que se apelidou “Síndrome de Kirk”, em ralação a seu companheiro William Shatner, com tantas dificuldades de viver outros papéis. Recentemente, a dupla protagonista de Arquivo X, David Duchovny e Gillian Anderson, foram apontados como acometidos do mesmo “mal”. Nimoy nunca conseguiu muito espaço pra deixar de ser Spock (mas, cá entre nós, isso o rendeu uma residência em Bel-Air, área nobilíssima de Los Angeles, num claro êxito, dentro dos padrões capitalistas, de resultados). Fez pouca coisa além de ser Spock e auferir seus royalties e lucros indiretos vastíssimos: antes de Star Trek, participou do clássico “Bonanza”,  foi diretor de dois longas de “Star Trek”, sua voz esteve presente no cultuado jogo “Civilization IV” e no autobot Prime, de “Transformers”. Além disso, teve uma participação recente bem marcante na série “Fringe” e fez toda uma série de pontas remetendo ao bom e velho Spock. Dá pra dizer que teve uma “vida longa e próspera”, afinal.

The Transporter Malfunction

Isso tudo afora sua jornada pouco conhecida como cantor…

[Há muitos outros vídeos associados pra matar a curiosidade]

Nimoy deixou um legado maior que ele mesmo. Minha enteada, de 9 aninhos faz o símbolo de “Vida Longa e Próspera” sem jamais ter assistido Star Trek, mas sabe que é um símbolo de acolhimento, saudação, bem-estar.

De certa forma, Nimoy “foi, bravamente, onde nenhum homem fora antes”. Como diria Spock, fascinante (sem exclamações, claro). Uma bela jornada!

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Rio, feliz 2016! 450 anos paespalhando desigualdade, agora com um presente de grego.


Todos sabemos que o “ano útil” acabou de começar ou começou a acabar… Difícil saber. De todo modo, 2015 não é um ano no sentido clássico, ao menos pra quem vive no Rio de Janeiro. É mais um parêntese, de 12 feriadões pelo menos, entre a Copa e as Olimpíadas. Ao menos, na prática, é assim que pensa a administração pública da cidade e do estado, bem como seu associado mercado imobiliário, o califado contemporâneo do séc. XXI, praticando preços de tornar castelos europeus casebres mal-ajambrados.

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Pra inglês ver mesmo!

Zuenir foi quem teve a ventura de decretar, sem publicação em Diário Oficial, o Rio a cidade partida. Hoje, partida, repartida, recortada, entrecortada, em seu dia a dia cada vez mais cortante, a quem não está estampado na cidade cartão postal.

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Já utilizei esta imagem aqui antes e a reedito, em homenagem a seu autor, o querido Arquimimo Novaes, que aniversariou nesta semana.

Para a maioria dos cariocas, a tal Cidade Maravilhosa é um rio que nunca passou em suas vidas. Estão a viver no desgosto dos esgotos, só não mais esgotados que as águas que, sejam de março, de abril, maio ou etcetera ano afora anunciam-se em falta, escassez a encharcar os noticiários. Afinal, como poderá Ipanema ficar sem água?! Não pode.

450 anos, mas, desde já, essa história precisa ser contada em outros 500… Pereira Passos, o prefeito-picareta, em todo o rol de acepções possíveis, deixou suas pegadas muito bem demarcadas nesta cidade, a hoje Olímpica & Imobiliária Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro S.A., herdada, capitania-hereditariamente, e administrada pelo imprefeito Guerra e Paes ®, a esquadrinhar e ladrilhar o sonho de Passos, pesadelo da maior parte da cidade: Rio, a Paris dos trópicos.

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Repetindo uma imagem já usada em texto meu.

Repetindo uma imagem já usada em texto meu.

 

 

 

 

 

Desde antes de Passos, na verdade, a cada um século, o Rio vive um aprofundamento de suas desigualdades, alargando ruas e exclusão: a surreal chegada da família real portuguesa, a reforma Passos, agora a preparação pra Copa/Olimpíadas. E pra celebrar 450 anos, vem um literal presente de grego pra cidade, afinal, foram eles que nos deixaram, da Antiguidade, as olimpíadas de legado, em sua versão moderna, primeiramente, disputadas em Atenas, em 1896, levadas a cabo pelo barão de Coubertin.

Em 2004, as Olimpíadas voltaram a Atenas. Deveria ter sido em 1996, no centenário, mas Atlanta, ou melhor, a Coca-Cola falou mais alto. Se na preparação das Olimpíadas aqui muitas obras foram paralisadas por esbarrarem em sítios históricos, imaginem em Atenas. O custo da competição lá, sem deixar grandes legados pra cidade, é apontado como uma das razões pra agudização da crise vivida hoje pela Grécia. Depois de tantos lucros imobiliários e especulativos, o Rio sobreviverá muito para além das margens do postal?

olímpiadas de 2012 e David Cameron, o Cavalo de Tróia inglês

Cavalo de Troia com muito upgrade vem aí.

525 dias pras olimpíadas, 205 países, 42 modalidades. Será um show de cobertura da Globo, a deixar um desclassificado, senão inclassificável, mundo de mazelas a descoberto. Adoro Olimpíadas, mesmo. Acho-as um barato, mas sei que sairão muito caras, emolduradas em tantas caras-de-pau aa Caras. E ainda conseguirão fazer desfaçatez também com as Paraolimpíadas (“Paralimpíadas” é o caralho! Desculpem o desabafo.). Enfim, as Olimpíadas de epicentro na Barra barrarão quantos milhões?

Desde já sabemos quem ficará fora desse pódio. Em estado de Pezão, a bunda é senha de saída. Para quem tá fora do mapa de lucros over cariocas, a competição instaurada é maratona, e com barreiras. Salto em altura?! Haja viadutos a superar… Além, claro, das estações suspensas da linha 2 do metrô que, simplesmente, não existem na linha 1; afinal, metrô suspenso, não escavado, é coisa de pobre. Já imaginaram o Flamengo, Botafogo, Copacabana com metrô suspenso?

Na Cidade Maravilhosa das empreiteiras, o sol brilha pra poucos; pra maioria aquece demais e faz suar em transportes hiperlotados. 450 anos, uma eternidade de histórias a refazer, compensar, evitar!

[Procurei MUITO um vídeo com esta música e uma visão crítica. Não encontrei.]

Claro que esta cidade, apesar de tudo isso, tem o que celebrar. Apesar do crescimento da lógica privada e privatista, ainda é das cidades com maior consciência pública no país. As mesas do boteco na rua, os Blocos de carnaval, a conversa, ainda que romantizada, na cadeirinha de praia, fora de casa, entre vizinhos no subúrbio nos lembram disso. Isso, dentre outras coisas óbvias, como o Mengão, por exemplo. Porém, é mais do que hora de se perguntar: o Rio de Janeiro continua sendo o quê?

 P.S.: a temática, infelizmente, não é nova aqui no blogue. Só de textos meus, já a tratei de alguma forma antes, dentre outros em: O direito de ir e rir, Malditos faveladosAnonimato post vitae, Dudu e o pé de feijoada.

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Revolução Tecnológica para quem?


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Com o discurso de que as novas tecnologias chegariam ao mercado de trabalho para melhorar a produção, poupar o trabalhador e facilitar a vida diária, o que percebo como resultante da Revolução Tecnológica são ganhos relativos, uma vez que apenas o primeiro dos objetivos elencados parece ter sido plenamente atingido.

Na prática, a ideia de que os avanços trariam qualidade de vida ao assalariado, por conta da possibilidade de produzir em menos tempo foi uma grande falácia, pois o que se verifica é o aumento exaustivo da carga de responsabilidade. Não só o tempo dedicado em horas ao trabalho permanece o mesmo, como além, do aumento da exigência relativa à produção, temos localizadores remotos: o celular corporativo, o notebook corporativo, o rádio. Bendita era a época do BIP.

Com toda a parafernália moderna, finalmente os empregados podem ser pagos para estarem sempre disponíveis e atentos. Como assim não compareceu à reunião das 8h de segunda-feira, que só foi comunicada por e-mail às 20h de sexta-feira? Por que não verificou a caixa de entrada nos dias de folga? Falta de responsabilidade, falta de compromisso na certa!

Acrescente-se a precariedade da mobilidade urbana nas grandes metrópoles e o que é ruim ainda pode piorar, prejudicando (e muito!) qualquer tentativa séria de pontualidade.

Nunca entendi muito bem essa obrigatoriedade de 8 horas diárias de trabalho. Cobram-se metas, planos, acompanhamento de resultados, avaliações. Mais uma vez, aumentaram as exigências, comprimiram-nas em 8 horas diárias e, sem nenhum resquício de humanidade, não permitem que as pessoas sejam isso aí, pessoas. Que têm dias bons, dias ruins, dor de barriga. Que são notívagas e não produzem nada pela manhã, mas à noite trabalham que é uma beleza. Que, muitas vezes, produziriam melhor no repouso de suas casas, sem trânsito, sem perda de tempo para se arrumar, escrevendo o relatório enquanto olha o filho brincar, e que a qualidade do trabalho talvez fosse alterada, sem dúvida, para melhor.

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Thor Batista e Igor Mendes: a justiça é cega mesmo


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Faz agora três anos que Thor Batista atropelou e matou o ciclista Wanderson Pereira dos Santos, na BR-040 na altura de Duque de Caxias. O valor do carro dirigido por ele (uma Mercedes-Benz modelo SLR McLaren, ano 2006), segundo estimativa da Revista Quatro Rodas, é de 2.700.000 R$ (dois milhões e setecentos mil reais). O preço do carro, de per si, já bastaria para explicar a vergonhosa absolvição do réu essa semana.

Rafael Braga, por outro lado, um catador de lixo, negro e pobre, foi condenado a cinco anos de prisão (está cumprindo em Bangu) por portar uma garrafa de desinfetante. A acusação que pesava contra ele era a de que o material poderia ser utilizado como bomba incendiária para ser atirada contra a polícia. A perícia, após longos meses de análise, concluiu que o conteúdo da garrafa de pinho sol era, afinal de contas, pinho sol, e que a substância não teria nem remotas chances de ser utilizada como um explosivo. Ninguém ligou, e ele foi preso do mesmo jeito. A justiça brasileira, diferentemente de certos animais, não é cega para as cores. Todo mundo sabe que no Brasil ela é dura com negros e pobres, e suave com brancos e ricos, mas assim já é demais. Eu teria vergonha de trabalhar para uma instituição tão enviesada.

É claro que nada disso custou barato. Apenas imagino a felicidade de juízes e personagens afins ao se darem conta de que eles tinham o destino do filho de Eike Batista nas mãos. Não devem ter sido poucos os regalos deixados ao longo dos longos trâmites judiciários. Isso fora um acordo secreto com a família da vítima que, dizem, chegou a custar um milhão (creio que esse valor seja exagerado). Tenho lembrado já há algum tempo e algumas vezes a origem da fortuna da família Batista. Não vou repetir histórias sobre minas de ouro, Vale do Rio Doce e as chaves do cofre do BNDES.

Porém, devo lembrar que a parte menos interessante disso tudo é que nós é que pagamos a conta da liberdade do filho do Eike. Ou pagamos, pelo menos, 50% do valor, uma vez que é mais ou menos essa a porcentagem de dinheiro público que foi “investido” em todas aquelas empresas com nomes ridículos com “X” – devido à numerologia, ou astrologia, sei lá.

A pena a que o nosso deus nórdico havia sido condenado era de prestação de serviços comunitários e dois anos de suspensão do direito de dirigir. Com essa absolvição vergonhosa, ele não passará nem por esses pequenos contratempos. Nem cesta básica ele vai distribuir (o castigo de rico por excelência no nosso país). A imprensa, tão seletivamente investigativa para alguns assuntos, nesse caso específico se limitou a “noticiar” acusações e absolvições, sem juízos de valor quanto à leniência da justiça em relação a um caso de homicídio no qual o réu foi absolvido apenas por ser rico. Claro, um dia pode ser o filho de algum diretor da Globo no lugar do Thor. Por que “pegar pesado” com o menino? Afinal, ele é só um garotão, quem nunca atropelou um pobre ou incendiou um mendigo (essas “loucuras” da juventude)?

Temos nesse momento no Rio de Janeiro um processo de perseguição explicitamente político contra diversos dos ativistas que estiveram à frente dos protestos do ano passado. Um deles, o Igor Mendes, já está há mais de dois meses em Bangu. Ele teve o seu habeas corpus revogado por participar de uma quermesse, ou coisa parecida. Duas outras militantes estão foragidas pelo mesmo motivo. No direito, quando direitos fundamentais conflitam, eles trabalham com a noção de “bem jurídico”. O direito à vida, por exemplo, é visto como um bem mais importante do que o direito à propriedade privada (ou, pelo menos, é esse o discurso que eles sustentam). Pelo visto, para a justiça, a liberdade de um playboy ridículo e assassino é um “bem jurídico” maior do que a liberdade de ativistas que lutam por todos nós.

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Quando a poesia morre, a vida se esvai…


Solidão

Esvaída…

DIAS AMARGOS

Tem dias que o melhor seria

que não levantássemos da cama…

Nem tanto os dias de Neruda,

nem laranjas, nem a morte,

mas o amargo da falta de sorte.

 

Preferia uma laranja azeda

do que o gosto amargo do jiló,

ou até a morte sobre a mesa

no velório de um homem só.

 

Preferia o azedo do amor mal resolvido,

ao amargo da solidão.

Preferia a paz que vem com a morte

a viver nessa dor de imensidão…

 

ESVAÍDA

Não tenho rosto.

Sou todos

e não sou nenhum…

 

Palidez dá o tom da pele.

A morte me veste

a veste que cala a voz…

 

Músculos enrijecidos,

nem azul, nem rubra,

a cor do meu vestido

é a cor da culpa.

 

Olhos arregalados

olham para o vazio.

Enfim tudo acabado!

Meu corpo é frio…

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Guiné Equatorial não é Guiné-Bissau! Nem ditador é flor que se cheire, muito menos que se beije!


E mais uma vez a Beija-Flor, coerente com sua estreita história, dá total vazão aa apoteose do absurdo, a peso de ouro, com 10 milhões de motivos, devidamente contabilizados, a homenagear (pasmem!) a ditadura de Obiang (não confundir com Obi-Wan, por favor!) aa frente de Guiné Equatorial desde 1979.

 

E como a questão levantada já disse respeito aa coerência, é realmente de todo coerente que no atual carnaval da Imobiliária Cidade do Rio de Janeiro S.A.,  cada vez mais privada e excludente, sob as rédeas do imprefeito Guerra & Paes ®, essa escola se sagre, vexatoriamente, campeã.

beija-flor

Renato Aroeira, em “O Dia”. 18/02/2015.

Antes de prosseguir, em atendimento aa própria urgência do título, esclareçamos que há três Guinés na África: Guiné, de língua oficial francesa, Guiné-Bissau, de idioma oficial português e Guiné Equatorial, com francês e espanhol como oficiais e, em processo de instauração do português como também oficial. Outrora suas denominações eram, respectivamente, Guiné Francesa, Guiné Portuguesa e Guiné Espanhola.

 

Three_Guineas

A história colonial de Guiné Equatorial é das mais conturbadas do continente africano. Tudo começou com os portugueses em 1471, com presença nos territórios hoje insulares do país. Nos dois séculos e meio seguintes, o Golfo da Guiné (justamente a parte da África que “encaixa” no Brasil, no “quebra-cabeça” da Pangeia) assistiu a uma sucessão de conflitos entre portugueses, holandeses, espanhóis e franceses pela presença nas ilhas que serviam de suporte avançado ao tráfico de escravos. A nação, em meio a isso, que maior presença consolidou no território, fora Portugal, até que, em 1777/78, assinou-se um tratado em que os portugueses cediam as ilhas do golfo aa Espanha, em troca de armistícios na América do Sul e a demarcação das fronteiras brasileiras, dentre outros itens de comércio envolvendo territórios africanos e americanos.

 

guine       [Guiné]

Guine-2

  [Guiné Equatorial]

guine-bissau                                                                                [Guiné-Bissau]

Hoje, Guiné Equatorial é o único país africano de língua oficial espanhola. Na verdade, a língua mais falada no país é o fang [uma língua da família bantu, uma das principais famílias linguísticas africanas, também falada em Camarões, São Tomé e Príncipe, no Congo e no Gabão]. Há, pelo menos mais dez línguas não oficiais, minoritárias, algumas delas faladas por não muito mais de mil pessoas, em franco processo de extinção cultural.

O francês, embora língua oficial, não é falado pela população, muito menos o português, ainda a ser implantado como oficial. Para se ter ideia, o recente e vergonhoso ingresso do país na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) foi anunciado no portal oficial do governo em espanhol, em francês, em inglês, mas não em português.

Aliás, a entrada do país na Comunidade foi muito criticada no conjunto dos países lusófonos, devido aa descarada e truculenta condução do Estado, sob a duríssima mão de ferro de Obiang. Tal ingresso foi o que determinou a artificial adoção do português como idioma. Há, em Guiné Equatorial, um vestígio linguístico da presença lusa: a língua Fá d’Ambô, um crioulo de base lexical portuguesa falado na Ilha de Ano Bom, por cerca de 9 mil pessoas.

[Crioulo ou, originalmente, criollo, é o termo linguístico para uma língua resultante do contato de colonização de uma língua europeia com uma nativa. A África é dos continentes mais profícuos em línguas crioulas, encontradas também em grande profusão na Oceania, América, especialmente Central, e mesmo na Ásia.]

Voltando ao ditatorialismo de mais de três décadas em Guiné Equatorial, seu presidente, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, detém plenos poderes: pode dissolver o Congresso, promulgar leis, convocar e afastar o primeiro-ministro. É mais um déspota do que um presidente. A oposição a seu governo não pode sequer existir, sendo aprisionada, caçada, assassinada. O país está no topo dos abusadores de direitos humanos no globo.

Isso tudo a título de uma concentração de riquezas sem igual no continente africano. Desde 1997, o país é um dos maiores produtores subsaarianos de petróleo, o 3º de todo o continente. Seu PIB, percapitamente, é um dos maiores do continente, sendo o dobro da média mundial, embora a população seja paupérrima, com o 144º IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, 78,6% de sua população de 722 mil habitantes é considerada na linha da pobreza, com 20% das crianças morrendo antes dos cinco anos de idade e 50 anos de expectativa de vida. Para se fazer uma comparação, o nível da pobreza da população do país é bem próxima a do Haiti, em vários indicadores socioeconômicos. Contudo, o Haiti tem uma renda per capita de 585 euros; já Guiné-Equatorial, quase 20 mil euros. Enquanto isso, segundo a revista Forbes, Obiang é o 8º governante mais rico do mundo, numa lista que possui chefes de Estado de países muito ricos, reis, rainhas, califas, etc…  Ou seja, os 10 milhões pra Beija-Pés & Lambe-Botas não é nada. O senado norte-americano conduziu, em 2004, uma investigação em que se descobriu que Obiang recebia generosos repasses regulares de gigantes do mercado petrolífero estadunidense, como a Exxon, por exemplo.

 

EquatorialGuinea[Uma das mais desiguais distribuições de renda do globo.]

Como quem vive e convive, muito cotidianamente, em estudos e trabalho, com o conceito de lusofonia, é bem entristecedor ver o ingresso de Guiné Equatorial na CPLP, constatar, embora não surpreso, a sobreposição dos valores econômicos aos culturais e de firme cooperação internacional, no seio da entidade. Como quem crê na bandeira da lusofonia, ainda que noutra configuração, dá vergonha ver Guiné Equatorial na CPLP. Da mesma maneira, como brasileiro e carioca, envergonha saber da homenagem custeada pelo sofrer do povo equatorial guineense. Também bate indignação com a indignidade da escola de samba em questão. Não é seu primeiro ato grotesco. Sua constituição advém de mídia, bajulação e exaltação aos podres poderes (aa diatadura, especialmente) e muito, muito dinheiro. Quero crer que algo assim não ocorreria nas escolas verdadeiramente tradicionais, Mangueira, Portela, Salgueiro, Vila… Inclusive, na Vila, não ocorreria mesmo, porque Martinho- que muita gente não sabe, mas é um militante ardoroso da causa lusófona- não deixaria.

obiang

A tal escolinha de samba não cantou a africanidade. Em Guiné Equatorial, a africanidade está, brutalmente, massacrada, humilhada, coagida e açoitada. Hoje, nesse país, há muita dor e pouco que remeta a flor.

Quem sabe bem proximamente, já pro ano que vem, a vexaminosa escola não possa comemorar os 70 anos do bombardeio de Hiroshima e de Nagasaki? Bem, não faltam tragédias humanas brutalizadas, infelizmente. E quanto mais elas são esquecidas, escondidas, camufladas, pintadas de outras cores e tons, tanto mais proliferam!

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A verdadeira beija-víbora.

SHORT MEMORY (James Moginie, Martin Rotsey, Robert Hirst, Peter Gifford, Peter Garrett)

Conquistador of Mexico
The Zulu and the Navaho
The Belgians in the Congo
Plantation in Virginia
The Raj in British India
The deadline in South Africa

The story of El Salvador
The silence of Hiroshima
Destruction of Cambodia

Short memory, must have a short memory

The sight of hotels by the Nile
The designated Hilton style
With running water specially bought

A smallish man Afghanistan
A watch dog in a nervous land
They’re only there to lend a hand
The friendly five a dusty smile
Wake up in a sweat at dead of night
And in the tents new rifles, hey, short memory

Short memory, must have a short memory

 

P.S.: Guiné-Bissau é fundador da CPLP, em 1996. É, claramente, um país muito pobre, com grandes índices de desigualdade, como ocorre em todo o mundo capitalista e muitíssimo mais na África subsaariana. Contudo, sua desigualdade social não é no nível além da imaginação da observada em seu xará, dito equatorial. Dos cinco países africanos de língua oficial portuguesa, foi o primeiro a se tornar independente, ao contrário dos demais, em 1973, antes da Revolução dos Cravos, em Portugal, pela mobilização da organização transnacional PAICG (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Sua população, grosso modo, é bilíngue, falando português e, principalmente, o crioulo guineense de base portuguesa.

 

P.S2: A Linha do Equador não corta Guiné Equatorial, embora passe muito próxima.

 

P.S3: Ainda há na Oceania, Papua-Nova Guiné, de colonização, primeiro portuguesa e, depois, inglesa.

 

P.S4: Há muitas teorias sobre a etimologia do nome “Guiné”. Uma das mais referidas é aa palavra “aguinaoui”, em língua bérbere, “negro”, “preto”. Mas é só uma de tantas.

 

P.S 5: E ainda me dizem que o Midnight Oil é “surf music”. Haja paciência…

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Lembrando da Brasil que me pariu


A pátria me pariu menina, olhos cor de ouro negro, carnuda, preciosas maçãs de rosto, rumor de água até sair pelas orelhas, colo vasto, pernas longas, curvas de praias a perder de vista, umbigo de estrelas, roubada aos pais, estuprada pelos padrastos, menina. Pariu muitos mais no mesmo ano. Milhares na lama, na roça, no mangue, em pocilgas que Pasteur e médico nenhum visitou, que Niemeyer não viu, que Segall não pintou, que Presidente não cuidou, que madame nunca ouviu falar, que antropólogo não estudou e que Deus não abençoou. Não eu que a mim deu a luz entre lençóis limpos, berço preparado, nome escolhido a dedo, tratado a esmalte os utensílios, louças de porcelana, vestidos de cambraia. Outros milhares vieram em molambos, trapos limpos por mães preta caprichosas, sabão de banha que o de caixa era luxo e quem vive debaixo de bota, para encher o bucho já tem tarefa bastante. Mas nem sempre tem emprego, quase nunca tinha emprego. Tem biscate, doutor ? Diziam a qualquer bunda mole, trocando trabalho duro por alguma ração no prato. E as moedas de troco ajudam o preto, menina, ajudam, Deus lhe pague. Menina tinha vergonha de dar. Dava pedindo desculpas enquanto andava por ali às tontas, intrigada, espantada, sem conseguir desvendar mistérios. Porque a latinha do homem que a mãe enchia de comida no portão era latinha igual à do cachorro ? Porque o filho da Dita que suava na faxina, engraxava sapato na praça ao invés de ira à escola ? Porque o homem do saco que recolhia garrafa, tinha o sapato furado na ponta e, atrás, remendado ? Cala a boca, diacho, ô menina perguntadeira. Essa não puxou à mãe pátria que era de pergunta pouca pra esse gênero de problema. Essa pátria é boa pra esperteza, menina. É excelente para os negócios, ótima para militares burros, fácil pros violentos e pros ilícitos e seus sócios, nem se fala, não me fale! Se souber ficar calado Brasil é pátria fecunda, dá sorte, dá vida e fortuna! Sabedoria dos velhos. Abriu-se a última fronteira, acabou-se aquele desperdício de Amazônia , agora vai de retalhada, esperto é quem comprar um pedaço. Seu Toninho por uma banana, não digo, mas um cacho , comprou terras para os lados de Rondônia, ele é bobo, por acaso ? Vai enricar no macio, só vendendo madeira nobre. E o Henrique, sabe não ? Ganhou uma mina de cobre ! Isso é que é dote que preste, viva a filha do General!

Minha mãe pátria abortava, como abortava aquela menina. Todo ano morriam mirrados milhares de anjinhos surrados pela sede e pela fome. Uma vez, meninos, eu vi ! Uma procissão de gente, gente magra e muito escura em fila, atravessando um brejo com água pela cintura. Levavam um caixãozinho bem acima das cabeças e o protegiam da lama como coisa preciosa. Menina perguntadeira. Quem são esses? Pra onde vão ? Vão ali no cemitério, levar a que morreu, tão cedo, a pobrezinha. Onde os carros, os enfeites, as rendas, fieira de cores, aquele cheiro de flores e os homens vestidos de preto? É gente pobre minha filha, tem modo próprio de sentir dores. Modo próprio era apelido. Que gente mais esquisita, que suportava calada a grossa dureza da lida e ouvia de cabeça baixa muito e tanto desaforo. Assim que é a vida menina, acostuma e não reclama.

O bolo, dizia o gordo, era pouco, e bobo era quem não punha no prato farinha farta e seu pirão primeiro. Os grileiros se fartavam do corpo da minha pátria menina. Nos peitos cheios mamavam e os agricultores expulsavam para irem ao raio que os parta! O raio das tempestades da minha pátria tinha vício de cair sempre e sempre no mesmo lugar.

Tinha sabiá laranjeira, tinha fruta no pé, tinha de um tudo pra uns e quase nada para os outros, tinha avenidas novas, tinha estradas vazias, que carro era artigo de luxo. Tinha babás que ficavam até menino criar bigode, tinha homens de bigode que fiavam e teciam essa história rota, cheio de esgotos, cheia de males e mosquitos que mulheres agora lavam, costuram e bordam pra ver se fica mais bonita.

A menina pátria que me pariu era feia, me desculpem os sem olhos de ver, os sem miolos na cabeça, os sem conhecimento de História, os sem vergonha e os sem entendimento da política. Era triste e abortava, abortava, abortava…

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Dois pesos


Respeito

A unanimidade da abjeção ao crime de estupro une pessoas de diferentes ideologias num misto entre choro represado e punhos cerrados. Mulheres de diferentes condições econômicas e em diferentes contextos e faixas etárias são vitimadas, muitas vezes, com a cumplicidade de quem lhes deveria garantir proteção e com a falta de apoio que lhes deveriam destinar as autoridades competentes. Há ainda um silenciamento midiático com o qual nunca deveremos nos acostumar, quando a violência é cometida no nosso país e atinge a camada mais pobre. Não querem desconstruir o mito do país não violento, mas que ocupa o 7º lugar no ranking do homicídio de mulheres em comparação a outros 84 países, segundo dados do Mapa da Violência 2012. tabela A seletividade da notícia traz a diferença nas abordagens. Sabe-se, por exemplo, que, a Índia é um lugar perigoso para as mulheres, embora não conste da tabela anterior. Em termos de estupro coletivo, vários são os casos que nos vêm à lembrança: em 30 de dezembro de 2012, a jovem estudante Jyoti Singh Pandey sofre a violência num ônibus coletivo em Nova Déli; em outubro de 2013, uma adolescente de 16 anos sofre dois estupros coletivos, o segundo como retaliação por ter ido à delegacia denunciar o primeiro; após isso, ateia fogo em si mesma, tendo queimado até a morte, em Madhyagram; em Bengala, 23 de janeiro de 2014, uma mulher de 20 anos sofre pena de estupro coletivo por ter-se envolvido afetivamente com homem de outra aldeia. Isso fora horrores semelhantes sofridos por estrangeiras.

O que se sabe sobre essa prática no Brasil? O caso de Aída Curi, nos final dos anos 50, emblemático por conta da luta extenuante travada com seus três agressores, que depois a jogaram do 12º andar sem terem consumado o ato, ocasionando sua morte? Naquela época, o crime de estupro coletivo era popularmente conhecido como “curra”.

Sobre os casos noticiados mais recentemente, temos o da vítima de 13 anos agredida por, pelo menos, 9 homens na cidade de Osasco, São Paulo, neste final de semana de carnaval, além dos casos de Queimadas (PB, 2012) e Itapirapuã (GO, 2014).

O primeiro dos citados, por exemplo, publicado na terça-feira, 16/02/2015, na maioria dos sites virtuais de notícia só encontrou espaço para publicação em O Globo na quarta-feira de cinzas, às 16h30min. Seria para não macular “o maior espetáculo da Terra”, transmitido em rede nacional com exclusividade pela Todo-poderosa (ou seria asquerosa?) emissora?

Em Goiás, menina de 12 anos foi abordada por dois homens armados, levada para lugar onde mais três a esperavam, dopada e violentada. Além de mais algumas circunstâncias que envolvem o crime, nada mais se noticiou sobre o assunto, como se as investigações ocorressem em sigilo e não fosse necessária nenhuma satisfação sobre o andamento delas à sociedade.

O caso de Queimadas apresenta requintes de premeditação, ainda que não o possa negar nos outros casos. Amigos combinam uma festa de aniversário para um deles, sendo o estupro de todas as moças presentes à festa, com exceção das esposas dos organizadores da festa e donos da casa, o grande presente, não apenas para o aniversariante. Dez homens violentaram cinco mulheres. Duas delas, Isabela Pajuçara Frazão Monteiro e Michelle Domingues da Silva, conseguiram desvendar os olhos, reconheceram seus agressores e foram assassinadas. O mentor do crime Eduardo dos Santos Pereira, irmão do aniversariante, foi condenado pelo assassinato das duas moças, pelo estupro das cinco, por cárcere privado, lesão corporal, formação de quadrilha, porte ilegal de armas e corrupção de menores a penas que somam 106 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado. Além disso, ainda há a pena de 1 ano e 10 meses de detenção pelo crime de lesão corporal de um dos jovens envolvidos no crime, o que aumenta a pena para 108 anos e 2 meses. Não se encontra qualquer notícia em relação aos outros criminosos participantes.

Ao se buscar informações sobre as pesquisas realizadas sobre estupro, causa estranhamento saber que não existe nenhuma base de dados sobre o assunto. Como subsidiar políticas públicas sem a dimensão real do problema? Causa estranhamento, também, e aí já entro no mérito dos crimes coletivos, o destaque dado às matérias sobre ocorrências na Índia. E entendam-me bem. Todo o destaque ainda é pouco. Mas aflige-me que em situações análogas ocorridas no Brasil, haja certo esmaecimento das imagens e, junto com elas, dos crimes e das vítimas, como naquela tática cruel de incitação ao esquecimento. Não existe o que não é pronunciado.

Encerro com um “não” aos inúmeros casos de violência marcados pelo feminicídio, em que o patriarcado se esforçou para mantê-los impunes ou silenciados. Mônica Granuzzo presente! Aída Curi presente! Aracelli presente! Cláudia Lessin presente! Isabela Monteiro presente! Michelle da Silva presente! Jyoti Pandey presente! Para mais leituras feitas por mim a respeito do tema, sugiro “Estupro: de quem é a culpa?” e “Vozes autorizadas: o poder que cala“.

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