easy rider


Abdala é forte como rocha mas é bicho-

homem de sobrancelhas genéticas

com as quais línguas maledicentes

fantasiam um lobisomem

Abdala, mais que bicho, é homem e

ronda à noite com seu carrinho de feira

pela floresta de asfalto, concreto e lata

a escolher do mais fino e a recolher

o que possa negociar em qualquer moeda

O que importa, ele diz,

São os trinta dinheiros do hotel

E o pão nosso de cada dia

religiosamente integral,

que não como do outro, ele avisa.

Abdala já foi menino bicho,

Criança a quem faltou tudo

menos pão, teto, alguma educação

e proteção à carne que era frágil,

Abdala, bicho jovem ágil,

Aprendeu depressa

aqui quem tem filho é rico,

do pobre eles só querem escravos,

perdeu irmão para o crime,

a mãe para a doença,

a família na desavença,

e as mulheres

que às vezes riem

das suas grandes orelhas,

sua prosódia ou ideias raras

a depender de quem são elas

Assim segue Abdala com

seu trabalho modesto

de recolher os restos

daqueles que têm muito

e acumulam vorazes

além do que podem gozar.

Homem ímpar, este Abdala,

que ao olhar distraído

parece um sem nome a mais

em um mundo de invisíveis

Abdala prefere a dignidade das margens

desta sociedade hipócrita e violenta, ele diz

Não tenho patrão,

Não devo satisfação,

Não pago imposto

Pagarei quando ganhar na loteria, declara e ri.

(e olhando seu rosto sereno

Tenho pena e não revelo

Que paga sim e paga mais

Que estes tais que

Para satisfazer seus vazios

Enchem as calçadas

De roupas quase novas e

Homens muito usados)

Abdala não é lobo do homem,

não é cordeiro de deus,

Só deseja

andar de cabeça erguida,

como bicho que não se entrega

nem à coleira, nem ao matadouro,

sentir que é um homem rico

porque tem saúde

no corpo e na mente.

E alguém me prove que não.

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Era uma coisa tão fácil*


Publicado originalmente em FeminAGEM:

Coração partido Imagem extraída do site Pintura que Fala.

Na primeira vez em que aquilo aconteceu, ela estava só. A notícia veio fria, pesada. O coração não bate mais. Um arrepio lhe percorreu todo o corpo. Em casa, exausta das lágrimas, mal teve tempo de ir ao banheiro. Jatos lhe saíam do estômago.

Levava uma vida normal. Trabalhava, estudava, flanava. Culpou-se por esforços excessivos que julgou ter feito. Buscava pistas que não a eximissem da responsabilidade. Cobrou-se, puniu-se. Sentiu vergonha. Era uma coisa tão fácil.

Agora aquele não mais ser jazia dentro dela. Confusão dos sentidos. Queria acordar disso tudo; na verdade, nem dormia. Os médicos disseram para levar uma vida normal. O corpo reagiria. Como interromper a mão que afaga a barriga oca? Sem dores físicas, restava esperar. Não havia esperança. Alma em frangalhos.

Foi assistida na rede pública. Ficou no andar das mulheres que viviam em risco. Risco de…

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Vivendo e não aprendendo


A bandeira do arco-íris, como vista pelo Bolsonaro

A bandeira do arco-íris, como vista pelo Bolsonaro

 

 

Essa semana, excepcionalmente, haveria no Brasil e no mundo o que se comemorar. Mas, no entanto, a direita conservadora e alucinada desenvolveu avançadas técnicas de frustrar as pessoas mesmo nos momentos que deveriam ser seus apogeus.

Primeiro, refiro-me a aprovação do casamento gay pelo Supremo americano. Em segundo, pela derrota do Projeto de Emenda Constitucional da redução da maioridade penal no Congresso do nosso pobre país.

No caso do casamento, entre outras manifestações de repúdio, fomos brindados com a internet sendo inundada de fotos de crianças famélicas, com dizeres do tipo “para isso ninguém liga”, como se união homoafetiva e fome no mundo fossem por alguma razão temas excludentes. E tudo isso, é claro, vindo de hipócritas que nunca ligaram a mínima para criança nenhuma passando fome em lugar nenhum. Também muito enriquecedor foi o argumento de que isso seria comemoração de algo imperialista, por vir dos Estados Unidos, e de que não deveríamos copiar besta e subservientemente modelos vindos dos EUA. Este tipo de argumento sempre foi utilizado contra as políticas de ação afirmativa, portanto, repito os meus próprios contra-argumentos em defesa de políticas de cota: copiar o modelo econômico, o estilo de vida consumista que está acabando com o planeta e a alimentação ruim baseada em macdonalds, ok, tudo bem. Copiar cotas e respeito à diferença, por outro lado, é sinal de fraqueza em relação aos nossos belos princípios de construir a sociedade mais mesquinha, feia, desigual e anticidadã da história: aí não pode. Linda lógica.

Na Casa Máxima da Representação do Povo Brasileiro, mesmo com uma montanha de deputados votando a favor, a PEC da redução foi derrubada pela bagatela de 5 votos (mudar a Constituição não é assim tão fácil). O Eduardo Cunha já anunciou que vai encrencar tudo o que possa para aprovar a redução ainda assim. Lorde Cunha, realmente, se tornou uma espécie de versão parlamentar do Darth Vader. Para quem passou os últimos 40 anos vivendo em um experimento do tipo zoológico humano, Darth Vader é aquele vilão do Guerra nas Estrelas que matou o próprio mestre, matava corriqueiramente subordinados que não atingissem as suas metas de produção, decepou a mão do próprio filho, torturou a própria filha e ainda destruiu um planeta inteiro, com todos os seus desafortunados habitantes dentro, só de sacanagem. Por meio de manobras regimentais, nosso legislador-mor já avisou que outro texto com a mesma finalidade pode voltar à plenária já na semana que vem, ou no segundo semestre, transformando, para continuar na seara das metáforas a partir de filmes divertidos, essa PEC em uma verdadeira PEC-Jason: quando você pensa que ela está queimando no inferno, ela volta de facão em punho para fazer novas vítimas.

A distribuição de senhas para que os reles mortais acompanhassem a votação nas galerias também não poderia ter sido menos simbólica: representantes de partidos, UNE e Ubes foram contemplados, mas movimentos autônomos, como o Meninos Negros das Periferias, foram deixados do lado de fora da porta, seguindo a contento os sacros preceitos da antiga tradição brasileira de tomar decisões de camarilha deixando os verdadeiros interessados às margens do processo.

Quanto a mim, nada disso muito surpreende, apenas consterna. Sou um pleno adepto da ditadura gay-nazy lésbico-niilista. Nada me diverte mais do que o argumento “feminista é mulher que odeia homem”, como se isso fosse um insulto. Talvez porque tenha chegado à idade de Dumas quando escreveu o Conde de Monte Cristo, ou talvez porque, por alguma razão misteriosa, as pessoas simplesmente confiem em mim, o fato é que conheço histórias de violência contra mulher suficientes para encher a lata até o tampo (que vão desde abusos “leves” até casos de estupro que por muito pouco não se tornaram homicídios). Talvez por isso, não me cause nenhuma estranheza mulher odiar homem (quando esse for de fato o caso). Acho também que todo o homem heterossexual deveria beijar uma rola ao menos uma vez por mês, para deixar de frescura e ficar esperto (o Ricardo Boechat poderia começar para dar o exemplo).

A humanidade sofre do mal de uma adolescência tardia e interminável, que já se tornou um quadro mórbido de mania por controle (no caso, controle do cu alheio) e completo desrespeito pelas liberdades individuais mais indiscutíveis. A ditadura que vivemos é a ditadura do conservadorismo hipócrita, na qual, por exemplo, um congresso composto essencialmente por velhos brancos quer determinar a prisão de jovens negros (essa PEC, se aprovada, será uma fábrica de choro de mães da periferia); na qual heterossexuais (ou que pelo menos fingem muito bem serem heterossexuais) em posições de poder (com e sem trocadilho) querem determinar como pessoas de orientações diferentes devem viver suas vidas; na qual falsos moralistas e traficantes de drogas disfarçados de deputados (ou seja, quem lucra com a proibição das drogas) querem legislar sobre o direito ao uso de drogas; na qual um bando de primitivos sem um mínimo de conhecimento técnico ou científico sobre o que quer que seja se acha no direito de estabelecer os limites para a medicina e a ciência (aborto, células-tronco, apenas para ficar nos exemplos mais fáceis); enfim, na qual uma falocracia ultrapassada, reacionária e insensível tem o poder de jogar crianças no sistema prisional reconhecidamente mais desumano do planeta.

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Refração e reflexões


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Newton refletindo sobre a refração: seria um raio boticarizador?

A refração é um fenômeno físico que ocorre quando a luz se propaga para um meio diferente, alterando sua velocidade de propagação, decompondo-se em raios com comprimentos diferentes e percebidos como cores distintas. Além deste efeito físico, a refração tem como consequência provocar a reflexão.

A bandeira colorida, em remissão ao arco-íris, é símbolo da luta dos homossexuais pela igualdade de direitos civis, mas suas cores têm revelado o cinza de toda uma sociedade.

As reações diversas a uma simples campanha de manifestação de apoio por meio de um filtro que colore a foto do perfil do indivíduo na rede social demonstra claramente o quanto o pensamento crítico ainda engatinha em solo brasileiro.

Já disse em outra ocasião que o ódio está na moda e continua. A ingenuidade do pensar médio do senso comum nacional consegue apenas enxergar disputas e lados em qualquer circunstância. São sempre “eles contra nós” e vice-versa. É assim que opera a estupidez: o ódio tem nacionalidade, tem cor e tem orientação sexual. O ódio se faz com certo e errado e nada há entre um e outro.

Percebamos que não é nova essa ideia de adereçar-se física ou virtualmente em apoio a qualquer causa. Há diversas fitas coloridas de luta contra doenças graves, colocamos fitas vermelhas nos automóveis em apoio à greve de bombeiros, vestimos preto em solidariedade aos professores, saiu-se às ruas com a camisa da CBF para apoiar a investigação contra o PT, colocam-se bandeiras brasileiras em apoio à seleção de futebol, criam-se hashtags e camisas em suporte a estrelas do futebol vítimas de bananas arremessadas em campo, entre outras incontáveis manifestações similares.

Sobram críticas, como sempre sobraram. Mas, o que preocupa é que críticas são essas, pois, por muitas vezes, são discursos de ódio e de construção falaciosa que quer apenas salvaguardar um pensamento que não se tem coragem de assumir, buscando ridicularizar aqueles que, engajadamente ou não, declaram seu posicionamento.

A primeira crítica conservadora idiota é afirmar que uma campanha é estúpida por ser modinha. Ora, a sociedade de consumo que o conservadorismo-liberal defende é a sociedade das modinhas!

Moda é um conceito matemático aplicado aos estudos estatísticos que indica o elemento mais frequente em um conjunto, daí sua extensão aos outros ramos da vida.  Usar a internet, o Facebook, vestir-se com calça jeans e tênis, comer feijão com arroz,  assistir às novelas da Globo, ler a Veja, tudo isso está na moda em nossa sociedade. Criticar algo porque “virou moda” é principalmente estúpido quando se defende o meio de produção que depende da moda – a frequência de consumo – para existir.

Depois, o absurdo de comparar lutas diferentes tomadas como excludentes, típico do pensamento maniqueísta, em que só há dois lados: se você é a favor dos gays, logo é contra a luta pela fome. De onde as pessoas tiram isso? Como se consegue um raciocínio tão burro depois de milhões de anos de evolução da espécie?

O pior não é a falácia que se propõe, mas o fato de que é o próprio conservadorismo o primeiro a criticar qualquer ação contra a fome! Bolsa-Família? “Tem de ensinar a pescar, não dar o peixe”. É o conservadorismo que chama os famintos de vagabundos, que lhes culpa pela pobreza na medida em que têm muitos filhos e por aí vai. Argumentar desta forma revela apenas mau-caratismo.

Há aqueles que, por viés contrário, mas ainda na mesma modinha – aquela canção típica que se repete para a diversão –, vão criticar a manifestação porque é uma demonstração de submissão ao imperialismo ianque. “O Brasil já permite a união homossexual desde 2013 e ninguém falou nada!”

Como assim ninguém falou nada? Houve comemorações, textos, apoios, passeatas e casamentos conjuntos. Agora o “Ministério da Verdade” de Orwell quer alterar o passado e dizer que por aqui passou despercebido o fato? Inclusive as reações foram violentas, como o incêndio em um Centro de Tradições Gaúchas onde haveria uma celebração coletiva de união entre casais do mesmo sexo.

Novamente, a divisão é o que marca esse duplipensar. Não comemorou a decisão daqui, não pode comemorar a decisão lá fora. Ainda mais quando é algo dos Estados Unidos! É interessante a contradição de se perceber que não fazia uma semana, falar que os EUA eram um exemplo de democracia, que o preço do automóvel lá é mais baixo, que lá a justiça funciona, entre um monte de outras coisas era absolutamente válido. Mas agora não pode mais. Tá anotado.

Por outro lado, há aqueles que, insistindo na divisão rasa que enxerga apenas inimigo em qualquer outro lado, vão falar da submissão aos interesses imperialistas. São os “anti-EUA”. Como se os gays, os negros, os pobres e os trabalhadores estadunidenses, fossem nossos inimigos. O ódio divide. A liberdade unifica.

Não foram os homossexuais que conseguiram um direito. Fomos todos nós que ganhamos o direito a ser menos estúpidos, menos intolerantes, menos divisionistas. Não quero mais direitos para os gays, para os negros ou para quem quer que seja. Quero direitos para todos. Não tê-los iguais nos revela o quanto estamos ainda na era da imbecilidade.

Que o mundo tenha todas as cores, que não tenha fome, que não tenha países, que não tenha religião. Que as pessoas possam discutir com honestidade, que possam se assumir por conta do que pensam, que possam ir além de mudar suas fotos – não adianta colorir a foto e continuar fazendo a piada que ridiculariza o gay, né? – e que as contradições sejam construtivas.

Enfim, que refração das cores nos permita a reflexão, que nada mais é do que o fato de a luz voltar ao meio do qual proveio. Assim, refletir é olhar para nós mesmos e ver que temos o ruim que tanto acusamos no outro. Vociferamos contra tudo, queremos que tudo mude. Passemos à necessária reflexão inicial sobre mudar a nós mesmos, só assim daremos outras cores ao mundo. Ainda que isso já saibamos de cor.

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Hoje eu não quero falar


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Hoje eu não quero falar de facas. Nem de fardas. Quero a alegria fumegante do café fresquinho com dedos de prosa. Bolo saindo do forno, flores e visita.

Não quero falar de Roger Waters, nem de Gil e Caetano. Quero a coerência e a incoerência, que nos mostra humanos, supremos, mesquinhos.

Não quero falar de Cristiano Araújo nem da boliviana Maribel Laura Tancara Nina. Muito menos dos valores atribuídos às vidas, bem como às mortes e suas notícias pela grande mídia.

Não quero falar de Boechat, Malafaia, rolas. Quero o sangue correndo nas veias, aquecendo o corpo, as bocas em brasa, o sexo

Não quero falar dos livros que já li e dos que pretendo ler. Quero a brisa no rosto, as mãos dadas no parque.

Não quero falar de aquisições e perdas, compras e roubos. Quero ouvir mais sobre o crescimento da intimidade entre as pessoas. E da cumplicidade, e da solidariedade.

Não quero falar sobre os abusos cometidos sob efeito de drogas. Quero a viagem maneira, o alargar de horizontes, a transcendência possível, a socialização feliz.

Não quero falar de abandono, nem de supressão de direitos, crimes ou redução da maioridade penal. Quero olhar o menino na esquina e imaginá-lo saudável, amado e amoroso, capaz de grandes feitos. Queria de volta o dia 26 de maio, onde as meninas do Piauí eram só meninas no Piauí.

Não quero falar de nada que me tire a paz. Que sei tênue, que sei transitória, mas, que, no momento, me inunda com força insuspeita.

 

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Fact Check


A legenda diz, em tradução bem livre,

A legenda diz, em tradução bem livre, “É só um conto de fadas, para de fazer verificações”

Caros colegas de blog e eventuais leitores. Tenho estado bem distante das minhas atividades virtuais, por diversos motivos. Tenho tido tanta dificuldade de tempo e acesso à internet (aquelas coisas que só acontecem com uma em cada 100 milhões de pessoas têm uma tendência sobrenatural a acontecer sempre comigo) que, além de não publicar, não tenho conseguido sequer ler ou compartilhar os textos dos colegas.

Tenho passado por uma série de problemas pessoais desagradáveis e, na verdade, desimportantes, e que, portanto, não vêm muito ao caso, que me impediram de continuar mais ativo na página. Não pretendo abandonar o  Transversos e espero normalizar a situação em breve (aposto que todos ansiosamente se perguntavam se isso iria acontecer, após tanta ausência).

Bem, na verdade, escrever no blog é algo que de maneira geral me exige muito. Talvez os resultados não demonstrem isso, mas raros são os textos que publico aqui que não me demandaram muita pesquisa, elaboração e, principalmente, fact check, o que é, nos nossos tempos da hiperinformação, a parte mais desgastante e chata na produção de qualquer texto do qual se espere um mínimo de respaldo.

Pretendo, portanto, relaxar um pouco da abordagem política, ao menos por um tempo, e passar a uma escrita mais descompromissada, tendendo à crônica talvez, pelo menos até eu reestruturar a minha vida (sempre fui dramático). Enfim, trocarei um pouco da seriedade por uma sorte de leveza beirando a futilidade. Começarei desde já, e vou contar aqui um pouco os desastres da minha semana, um pouco ao estilo daquelas redações de escola de tema “o que eu fiz nas minhas férias” (infelizmente, como não sei o que são férias de verdade ao menos desde 2001 a.d., não tenho nem como abordar esse tema específico). Então vamos à “semana do presidente” (na verdade, do revisor).

Passei esses últimos dias por todos tipos de aborrecimentos, que vão desde a falta de dinheiro para pagar o plano de saúde até coisas mais prosaicas, como o fim do papel higiênico em casa. Problemas banais para a maior parte das pessoas, mas que para quem como eu é pouco prático, mora sozinho há tempo demais, trabalha em casa há tempo demais, mora no alto de ladeira, já teve carro e não tem mais (nem pretendo voltar a ter – mas isso é tema para uma próxima crônica), são barreiras quase intransponíveis, a depender do meu estado de espírito, civil ou etílico. Tive também um pequeno piriquipaque que me levou ao hospital. Mas isso, espero, também poderá ser tema de algum texto no futuro (supondo que eu tenha um).

Moro em uma rua, e é uma ironia grande dizer isso (vocês entenderão por quê), com instalações antediluvianas. Isso significa que, por aqui, quando chove, fico frequentemente sem luz, sem internet e ainda agradeço quando a minha cozinha não alaga (ficar no escuro e desconectado já é ruim o bastante, mas ter de fazer barquinho de papel para chegar até o fogão é muitas vezes pior). Isto dito, esses dias chuvosos me concederam tempo de sobra para terminar de ler (aproveitando a luz natural, é claro) a tão falada biografia de Clarice Lispector, de Benjamin Moser. Ela me impressionou, embora não a ache tão incrível o quanto ela foi incensada no momento do seu lançamento no Brasil, há uns dois anos (acredito, e não vou fazer fact check disso).

A biografia foi muito decantada pela sua reconstituição histórica, concatenada à interpretação das obras da autora. Pois é no primeiro desses aspectos que ela contém alguns erros, sendo um, pelo menos, bem grosseiro. Surpreendentemente, em se tratando de um autor americano, não foi em história do Brasil que encontrei o problema mais grave – nesse campo, que não é o dele, o autor joga um play safe compreensível, ficando nas referências óbvias, como o Boris Fausto, ou em um gringo especialista em estudar a gente, como ele mesmo, o Thomas Skidmore (claro que há muito mais autores). É em história geral que o livro mais falhou. Nos capítulos iniciais, as descrições do que aconteceu na Ucrânia, durante os pogroms, não poderiam ter sido mais vagas. Até onde eu saiba, pogroms foram ataques às comunidades judaicas da Rússia czarista, na passagem do século XIX para o XX. Motivaram a partida em massa de judeus dessas áreas, devido à sua grande violência e à expropriação dos seus bens, tornando a situação deles insustentável, especialmente na região da Podólia, de onde fugiu a família de Clarice. Os pogroms foram, se não promovidos, pelo menos tolerados pelo Estado russo. Tudo muito horrível, mas tudo uma pálida sombra do que ainda estava por vir…

Bem, Moser, nessas passagens, não se dá muito ao trabalho de explicar melhor o que estava acontecendo. Ele situa os pogroms até 1920, ou seja, até depois da Revolução. Ora, insinua, mas sem afirmar, que o Exército Vermelho teria promovido pogroms, coisa da qual nunca ouvi falar (será que não faltou um fact check aí?). Pelo que verifiquei após a leitura (aviso que não fiz nenhuma pesquisa exaustiva), até houve pogroms nesse período (1918-1920), mas promovidos pelo Exército Branco. Mas como Moser não explicita, por exemplo, quem afinal estava matando os judeus naquele momento, fica tudo vago e praticamente indefenestrável para quem não conhece um mínimo sobre o assunto.

No mais, fora algumas pequenas bobagens como qualificar Gilberto Freire como dos maiores intelectuais brasileiros (não é considerado essa coca-cola toda há muito tempo – sua teoria da Democracia Racial não podia estar mais errada – e merecidamente surrada – do que está), é um livro muito bem escrito e cuidadosamente sensível o suficiente para comover sem ser piegas. Chegou a me motivar a ler alguns romances de CL que nunca li, como A Hora da Estrela.

Devo dizer que eu não sou um fã 100% de Clarice Lispector. Isso porque não sou grande apreciador dos seus romances. Aquele hermetismo todo me cansa um pouco, embora eu não a desmereça de maneira nenhuma por isso. Porém, quanto aos seus contos, a história é bem outra. Parte de sua literatura que ela mesma considerava mais simples (talvez eu seja uma pessoa mais simples), desde que li “Feliz aniversário” e “Legião estrangeira” não tive a menor dúvida de que eu estava diante da melhor contista brasileira, desde Machado de Assis (foi algo curioso e que, devo confessar, me encheu de orgulho, saber, a partir da leitura de Moser, que o Erico Verissimo disse exatamente isso para ela, após ler os seus contos). Aquela elegância, aquela sutileza, aquela precisão, aquela, enfim, perfeição, são características dificilmente igualáveis. Não há nada a retocar nesses textos, e até a mais simples vírgula de Clarice Lispector é mais expressiva do que obra completa de muito marmanjo por aí.

Talvez, ao invés de a Hora da estrela, eu releia Legião Estrangeira essa noite. Se não faltar luz.

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Rolas, pedras e perfumes: cruzes!


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Ódio. Essa é a palavra da moda. Sucedem-se demonstrações explícitas de ódio político, religioso, racial, sexual, clubístico, de gênero e tantos outros mais. Isso porque o ódio necessariamente tem nacionalidade, tem crença, tem cor, tem orientação sexual. O ódio torce por algum símbolo, o ódio tem órgão sexual reprimido. O ódio é parcial, tem distintivo. A solidariedade e o amor, não. Esses são universais. E falta universalidade na visão de quem enxerga pouco além do que a ponta do nariz.

E o ódio produz absurdos diante da compreensão do bom senso. Apedrejar uma criança é algo bizarro e que não possui nenhuma possibilidade de justificativa: seja por expressar um aspecto cultural, religioso ou mesmo se fosse um infrator que houvesse cometido o pior dos crimes. Apedrejamento parece-me ser algo um pouco diferente do ideal que se construiu ao longo dos séculos como “civilização”.

Aliás, a criança em questão é vítima de duas violências: a primeira, óbvia, advinda do grupo rival, punindo-a pela ousadia de professar a crença em um deus diferente. A segunda, mais sutil, é o próprio fato de um indivíduo em tão tenra idade já estar submetido aos dogmas de uma religião qualquer. No geral, a religião é uma droga ideológica que deveria ser administrada apenas aos maiores de idade (dezoito ou dezesseis, como queiram definir).

Sem capacidade de discernimento ou conhecimentos suficientes que lhe proporcionem autonomia, a infância é pressionada e obrigada a seguir ritos e preceitos que seus pais escolheram. Nada contra quem queira professar a fé no que quer que seja, mas que seja de forma consciente e responsável. O contrário disso, seja em qualquer religião, é uma violência contra as crianças.

E assim vão se sucedendo em filas os pequenos intolerantes. Que se tornam grandes. Que se tornam chefes de rebanhos diversos. Que criam suas regras e decidem impô-las a toda a sociedade. Religiões são intolerantes por natureza: em todas elas há alguma espécie de condenação por não seguir suas regras ou não crer em seus princípios.

E como se mata em nome de deus! Cruzadas, inquisições, perseguições, tudo é comum na história. Cristãos perseguidos por politeístas romanos e por judeus, judeus perseguidos por nazistas cristãos, muçulmanos perseguidos por cristãos e atacados por judeus, judeus e cristãos perseguidos por muçulmanos. Bruxas, ciganos, feiticeiros e mais um sem número de religiosos implacavelmente agredidos, mortos e martirizados por conta do amor religioso.

Quem chega até essa parte do texto já está me mandando ao inferno (mais uma das “tolerâncias” da misericórdia divina) e, antes que possa hostilizar-me ainda mais, é fundamental perceber que o problema não está na fé, mas exatamente no contrário. Religião – em especial aquelas de massa e que brigam pelo poder na sociedade – tem muito pouco a ver com fé.

Senão vejamos: se você acredita piamente na existência de um ser supremo, com poderes inimagináveis e que, por isso, deve seguir as regras prescritas por ele a qualquer humano que ele tenha escolhido como porta-voz, você pode ficar tranquilo quanto à não observância das suas regras no mundo.

Afinal, os pecadores em geral terão seu julgamento no dia do juízo. Por que querer adiantar a pena? Apedrejar a criança da outra religião ou agredir o homossexual só demonstra que você não acredita de verdade no que diz acreditar! Você não confia que deus fará um julgamento justo daquela pessoa ou mesmo não acredita que haverá julgamento! Falta fé a quem persegue.

Ainda que se busque justificar tal comportamento como “a vontade de deus”, basta tomar como exemplo a mitologia cristã: por diversas vezes cidades e civilizações foram destruídas por deus porque se comportaram mal. Deus encheu o planeta de água para acabar com sua criação que desviava-se do “caminho”. Portanto, irmão, fique tranquilo: se a sociedade chegar a um ponto de “degradação moral” que não agrade a deus, ele dará o jeito dele, tenha fé. Se ele precisa que um humano vestido de terno e gravata monte um exército para combater a conduta da sociedade, alguma coisa está errada… Você está dizendo, portanto, que ele não é tão poderoso assim.

Há séculos, Martinho Lutero protestava contra a conduta da Igreja Católica. Corrupção, desvios de comportamento… A igreja vendia a fé a seus fiéis. Séculos se passaram e os herdeiros do protestantismo repetem-se nos mesmos erros da igreja de Paulo. A liberdade respirada nos locais onde, naquela época, as ideias de Lutero prosperaram não existe mais. Paradoxalmente, é o papa quem se posiciona de maneira mais lúcida. Mas não se enganem: é o deus-mercado das almas agindo com sua mão invisível.

A ocupação na vida social dessas várias crenças coloca em risco direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. Só preciso me associar a alguma organização se eu quiser, não posso estar obrigado a seguir as regras dos clubes dos quais não quero fazer parte. Aliás, muitos direitos e poucos deveres: as igrejas gozam de liberdades e proteções para se intrometer nas próprias leis da nação; deviam, no mínimo, pagar impostos sobre a arrecadação milionária que têm.

E tudo isso enche o saco. É o perfume que apodrece o ar na condenação do amor entre as pessoas. Fé demais não cheira bem. Cruzes por todos os lados. Contudo, o instrumento romano de tortura e condenação não pode servir à arte quando o artista mostra-se dissonante com o gênero da carcaça que deus lhe deu. A reação religiosa é a confirmação exata da metáfora exibida em público.

Falta respeito? Claro que falta. Respeito à laicidade do Estado, falta respeito com o dinheiro dos fiéis, falta respeito na condenação diária do pensamento diferente. A cruz não é propriedade religiosa, mas parece que querem ser eles os únicos a ter o direito de crucificar alguém.

A preocupação com a moral alheia impede que sejam vistas as próprias mazelas éticas de que padecem. A imposição de sua visão do bem aos outros é de violência sem par. Bancadas no Congresso fazem de deus um parlamentar medieval, preconceituoso e preocupado em garantir apenas sua fatia de poder. Enquanto a saúde de verdade padece, pipocam propostas para curar os gays! Pela lógica de atuação desses parlamentares, se a cura gay vier pelo SUS, morrerão todos homossexuais.

Por isso a rola de Boechat é a catarse dos excluídos. Não que a rola seja cura para qualquer mal – a frase, tomada sem contexto é ícone machista –, mas serviu de ironia exata a quem prega o ódio, supondo esconder o desejo reprimido sobre o qual nos falava Freud. Assim, advém dos céus a rola salvadora, a que vai nos redimir – e, tal qual Geni, será sempre maldita –, não por ser falo, mas pelo dever de calar a falta de fé daqueles que falam em nome de qualquer deus.

Vejamo-nos como seres humanos. Brinquemos uns com os outros como os cães brincam, sem se importar com raça, cor ou latido. Deixe as condenações para quem você acredita que é poderoso para fazê-las. Chega de transformar crenças em negócios para ganhar mais adeptos. Chega de programas na televisão. Chega de olhar o cu alheio sem olhar o próprio coração.

Sorriam, alegrem-se, corram pelos campos, abracem-se, chorem, emocionem-se, perfumem-se, vivam de verdade. Em tempos de reforma ortográfica, altere-se a acentuação para ficar como lição no final: amem.

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Ensino ou preparação?


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No dia 28 de fevereiro de 2010, em outro blogue para o qual escrevia, publiquei o texto que se segue, refletindo sobre a questão do vestibular. Cinco anos depois, relendo-o (hoje é dia de vestibular da Uerj), percebi que a crítica ainda não envelheceu. O que me deixa, por certo, triste. Sempre sonhei que meus textos envelhecessem e fossem superados, mas ainda continuamos insistindo nos mesmos erros, suscitando as mesmas críticas. Segue, do túnel do tempo, a crítica comportada sobre a seleção de entrada nas universidades:

A relação entre o vestibular e o ensino é, sem dúvida, um dos maiores males da educação brasileira. Por um lado, o acesso à Educação Superior transforma-se em um tormento para os candidatos; por outro, o ensino perde seus objetivos principais.

A escola deveria preparar seus estudantes para enfrentar os problemas da vida cotidiana e habilitá-los à vida social, interação e resolução das dificuldades da comunidade da qual fazem parte. Contudo, há muito tempo esse objetivo foi trocado pela necessidade de preparar o aluno para as provas do vestibular.

Parece que há uma grande inversão de valores na relação entre escola e vestibular. Pela lógica, a prova de acesso deveria avaliar o aprendizado do aluno durante sua vida escolar, mas é o inverso que ocorre: o programa do vestibular estabelece o que é ensinado na escola.

Criamos alunos bons de prova, mas ruins de experiências de vida. Não raro são alunos que dominam a matemática, desde os cálculos simples às equações e relações mais complexas; contudo, quando adultos, não conseguem organizar, por exemplo, suas finanças.

Não é nem sequer o caso da qualidade da educação – um problema gravíssimo, certamente – que se discute aqui, mas a visão da educação que se quer impor, distante da realidade dos alunos que passam pela escola.

A escola deveria construir conhecimentos úteis à vida do cidadão, explorando os problemas comuns (e alguns desafios, claro), mostrando saídas e propondo novas soluções. Despertar a capacidade de crítica do estudante, a curiosidade e a proposição de questões deveriam fazer parte dos mecanismos de “avaliação” da escola. Entretanto, fazemos nossos alunos reproduzir respostas prontas para questões que, por muitas vezes, não possuem sentido para a vida futura do indivíduo.

As escolas optam por esse tipo de “educação” por várias razões, todas apoiadas pelo senso comum de que quantidade e dificuldade significam qualidade. Mas, a principal razão é, sem dúvida, o vestibular. Você já imaginou alguém matriculando seu filho em uma escola que assume que não está se importando em preparar o estudante para o vestibular?

A necessidade de mercado empurra as escolas a moldar suas aulas e programas ao que é imposto pelo vestibular. Assumiu-se o discurso – antigo, por sinal – de que a universidade é o único caminho para quem quer “ser alguém na vida” (nunca gostei desse conceito) e uma obrigação das classes média e alta.

Apesar do discurso corrente (e estimulado pelo governo) da quase “obrigatoriedade” do Ensino Superior, não há vagas para todos os estudantes, o que leva a uma escolha meritocrática burra, tendo em vista que a prova não seleciona o melhor estudante para o curso a que se candidata, mas o mais bem preparado no conjunto de conhecimentos aleatórios da gincana proposta pelo vestibular.

O candidato a medicina tem que saber calcular a área da pirâmide, montar e entender resistores, além de diferenciar os diversos tipos de vegetação brasileira. Em momento algum realmente sabemos se, dentro da universidade, este estudante terá as qualidades de um médico, ou melhor, dos médicos de que nossa sociedade necessita.

Apenas para ilustrar, vale o exemplo de Ivo Pitanguy, de quem se diz que tentou vestibular várias vezes, antes de ingressar na Faculdade de Medicina e tornar-se o ícone da cirurgia plástica que é hoje. Parece que o vestibular não é muito confiável como caçador de talentos…

Não se pode deixar de reconhecer que, nos últimos anos, o vestibular modificou sua estrutura, principalmente seus conteúdos e a forma de apresentação. A tentativa de cobrar maior raciocínio e compreensão é louvável, exige tempo e aceitação por parte de todos, mas não é suficiente. As grades e os conteúdos passam a ser lidos com objetividade e já se criam cursinhos especializados nos novos modelos. (NOTA DA ATUALIDADE: Hoje não faltam mesmo projetos e cursos destinados a ensinar “técnicas” para os vestibulares e Enem).

Mas se o modelo é baseado no raciocínio, isso poderia ser bom, não? Infelizmente não, porque não é a produção de conhecimento que vai estar no foco, mas o treinamento intensivo de determinadas metodologias de pensamento sem quaisquer ligações com sua utilização prática nos campos do saber.

Isto significa que treinaremos nossos alunos para fazer uma prova mais bem elaborada, mas sem que isso represente a possibilidade de que o mesmo use seu raciocínio na produção de novos saberes.

O vestibular é, sem dúvida o xis do problema. Resolve (em parte) o acesso, mas causa danos enormes à educação em geral. Faltam vagas para todos que querem entrar na universidade e esse é o grande problema.  A solução da meritocracia da prova de acesso é excludente e apenas aumenta as distorções, gerando novos problemas e reacendendo velhos preconceitos, como as cotas, por exemplo. Tudo isso causa um enorme estrago na educação, transformando o que era para ser ensino em mera preparação.

 

OBSERVAÇÃO DOS TEMPOS ATUAIS

Deixo, ao final, uma série de links interessantes que podem ajudar a pensar em uma resposta para a pergunta que muitos estão fazendo: então, como devia ser a escola? 

Quando sinto que já sei – https://www.youtube.com/watch?v=HX6P6P3x1Qg

A educação proibida – https://www.youtube.com/watch?v=-t60Gc00Bt8

O que a escola deveria aprender antes de ensinar? – https://www.youtube.com/watch?v=EigUj_d5n80

Especial José Pacheco: Escola da Ponte – https://www.youtube.com/watch?v=53bNtzTVix4

Conecta 2012: José Pacheco – https://www.youtube.com/watch?v=SsOnlNVjLKk

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Sobre discursos e ódios


Ontem um amigo muito querido, militante de esquerda das antigas, estava triste. Lamentando, meio cabisbaixo, as manifestações de ódio que pululam na sua linha do tempo do feice, narrando as que tem ouvido pelas ruas e botecos. “(…)mas onde estavam todos estes fascistas que agora andam por aí a destilar ódio? Como é que…” e permaneceu com o olhar perdido em algum ponto do asfalto ao longe.

Tentei consolá-lo do tombo como fazem as mães, passando mertiolate. É sempre bom evitar que os micróbios do ressentimento infectem alguma ferida recente. Pior que hematoma passageiro é ferida que gangrena, dizem as mães. Não todas, só as sábias. E o micróbio que vejo rondando as cabeças mais arejadas é a convicção de que foi a emergência de uma nova classe média , a relativa ascensão ao consumo das classes laboriosas e subalternas, como dizem os cientistas sociais, que provocou o rancor dessa gente má ( fascistas, racistas, machistas, homofóbicos, classistas, violentos e boca suja). Será ? Se não, vejamos.

Enquanto tem gente espantada com os chamados “ discursos de ódio”, inclusive na mais alta Câmara Legislativa do país, eu fico é espantada que se espantem. Eu é que pergunto:” onde é que vocês estavam que não perceberam, por aqui, qual a lei maior?”

“ De jeito nenhum! “ , muita gente diz, “ o povo brasileiro é amoroso, cordial!” .

Sei.

Isto já foi explicado por gente que faz isso melhor que eu mas há quem ainda insista, então vale repetir. “ O brasileiro é cordial”. Quando o Sergio Buarque de Holanda escreveu que o povo brasileiro era “ cordial”, ele não quis dizer que era gentil, polido, ora, ora. Pelo contexto do texto integral no “ Raízes do Brasil” dá para entender que ele pretendeu dizer que somos guiados pelo “ coração” e não pelo “ cérebro”. Que na peleja entre “razão” e “ emoção” torcemos em bloco pelas paixões. Temos má vontade para racionalizações, nós queremos é rosetar. Essa palavra ambígua que tanto já foi empregada com o sentido de aplicar as esporas, quanto o de transar.

Hoje é dia dos namorados então vou pegar leve para falar de amor. Só vou dar uma dica: “A cada dia, no Brasil, 11 mulheres são assassinadas. Setenta por cento (70%) por seu marido ou ex-marido, noivo ou ex-noivo, namorado ou ex-namorado .” ( Datasus). São dados de 2009. Este índice baixou?

Já li em algum lugar que aquela história de que índio trocou seu pau por espelhinho é cascata. De sangue. Estimaram por aí que os primeiros 30 anos da recém nascida nação brasileira formaram um rio de sangue de 5 milhões de indígenas. Paramos de matar os indígenas ?

Morte e vida Severina, de Cabral de Melo Neto e Vidas Secas de Graciliano Ramos é literatura fantástica ? Esta violência do clima contra o povo nordestino era um fenômeno natural ? É menos verdade. Foi provocada e permaneceu gerando natimortos e mortos e vivos por séculos e séculos, para preservar o sagrado direito dos colonizadores e seus descendentes extraírem, mesmo aqueles que já eram filhos da terra, todas as riquezas possíveis do chão. Os afetados por barragens, sítios de extração de minério, atividades agrícolas e pecuárias predatórias do meio ambiente e das populações originais do território, estão sendo melhor tratados ?

Nosso repertório humorístico envolvendo o tema do homossexualismo e personagens homossexuais é imenso. Repleto daquele tipo de piada que explora a inclinação humana para rir das falhas, defeitos e esquisitices do próprio ser humano. O mesmo tipo de piada que pretende zombar do personagem negro por ele ter a pele… negra ! Se, por algum motivo bizarro, todos os homossexuais brasileiros lessem “ 50 Tons de Cinza” e passassem a dizer que beijar na boca de quem os maltrata, espanca  e insulta é o máximo da aspiração erótica que qualquer um pode desejar, a aceitação deles, por parte dos leitores de ” 50 tons de cinza”,  passava a ser total ?

Alguns grupos sociais, sobretudo religiosos, defendem que os gays podem ser homossexuais à vontade… da porta para dentro de suas casas, sem que nenhum gesto, palavra ou intenção em suas vidas públicas, denunciem as práticas da sua vida privada. Por acaso já faltou, em algum momento da história brasileira, no senso comum desta nação que adora Deus e Deuses palavras de intimação e intimidação para quem não se interessa ou não cultua seu Deus ou deuses ? Dizer : aquela criança é do diabo ou ela não tem Deus no coração, é fala afetuosa e amorosa? Sequer é rara, pra quem não sabe.

O que acontece, eu disse ao meu amigo, é que a chapa esquentou e tudo virou pipoca. E veja, eu acrescentei, agora que sabemos o que certos indivíduos trazem por dentro, penso que o melhor é aproveitar para dar uma fiscalizada no nosso próprio rabo de palha. Você sabe, eu concluí, sou antiga e pra piorar adorava minha avó que me ensinou a argúcia e a paciência de esperar pela volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. Isso porque naquele tempo ela já tinha aposentado a cinta de couro. Que, segundo minha mãe, doía pra valer.

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Jesus, esse vândalo!


Aline Silva:

A atualidade desse texto publicado no ano passado me trouxe o desejo de republicá-lo. O sagrado para alguns pode ser relacionado à representação de seus mártires. Numa sociedade homofóbica, os assassinados por motivos de orientação sexual também tem o martírio no sangue jorrado. Representar a crucificação é forma de aproximar esse caráter divino das agruras e delícias diárias, é forma de escancarar a tortura a que são submetidos diariamente.

Publicado originalmente em transversos:

Mesmo com a redução de fiéis, o Brasil é o maior país católico do mundo: 64,6% da população, o que equivale a 123 milhões de pessoas.

Nas missas, fala-se insistentemente da mãe que perdeu seu filho condenado de forma terrível, do sofrimento que foi impingido a ele, das zombarias quando lhe deram vinagre em vez de água para lhe matar a sede, além da insistente proliferação de cenas da tortura, as chamadas estações da via sacra.

Imagem Via sacra: reprodução do trajeto seguido por Jesus carregando a cruz do Pretório ao Calvário

O menino recém-nascido foi colocado numa manjedoura, rodeado por animais. Sabe o que é manjedoura, né? Aquele cestinho bonitinho dos presépios? Não! Manjedoura vem do italiano mangiare. Era o recipiente onde era depositada a comida dos animais. Tivesse nascido hoje na cidade grande, a criança poderia ser aninhada num pote de ração para cães de grande porte. Isso…

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