E tudo vai acabar em pó


Fila da sopa, durante a crise de 29

Fila da sopa, durante a crise de 29

A bolsa de valores da China sofreu essa semana uma queda de níveis de crise de 29. Terminamos o mês com mercados em pânico e, infelizmente, até nós que não temos nada a ver com isso (pois não temos dinheiro em bolsa nem inclinação para investimentos no mercado financeiro) também temos razões para temer. Estima-se que entre 3 e 5 trilhões de dólares viraram pó da noite para o dia (nessas crises de mercado financeiro, eu sempre me pergunto aonde vai parar essa grana que evapora: não existe lei de Lavoisier para dinheiro?).

Crises financeiras frequentemente afetam a economia real, ou seja, o meu e o seu emprego. Verdade que da bolsa da China é pequena, principalmente se comparada à enormidade do seu PIB e ao dinamismo da sua economia (hoje a segunda do mundo), o que talvez signifique que não haja razão para todo esse pânico, mas tendo em vista a história das crises econômicas, de qualquer forma a perspectiva não é animadora. Durante a crise de 29, após sinais de ligeira recuperação, lá pelo meio da década de 1930, veio um segundo tombo, que dizem ter sido ainda pior do que o primeiro. Foi a partir daí que começaram as famigeradas marchas da fome, nos EUA. Por hora, não há razão para dormir tranquilo…

Por aqui, continuamos naufragando, tanto economicamente quanto no mar de bobagens do nosso Fla x Flu político. Gregório Duvivier causou espécie entre os petistas recentemente escrevendo um texto criticando o governo (“Por que odiar o PT”, publicado na Folha). Foi chamado de esquerda caviar, entre outras coisas. O texto de Gregório estava, na realidade, até bem informado. Tive até a impressão que ele andou lendo artigos de camaradas aqui no Transversos. Ele reclamou, por exemplo, da catástrofe ambiental dos governos do PT, que só fazem flexibilizar legislação ambiental, enfraquecer a Funai e o Ibama. Se reclamar do pior governo para povos indígenas desde a ditadura militar é ser esquerda caviar, então eu sou isso também, e com orgulho. No mais, esse modelo agrário exportador fortemente dependente das exportações de soja e de minério de ferro para se sustentar (com destruição do cerrado e da Amazônia e atropelamento de terras indígenas), além de ser uma catástrofe ambiental irrecuperável é também responsável, em grande medida, pela encrenca econômica em que estamos. Países com “vocação agrícola” são tomadores de preço no mercado mundial e suscetíveis às suas variações. Se a economia chinesa despenca, nós despencamos junto. Simples assim. Faltou acrescentar, ao texto de Gregório, a pesada cooptação aos movimentos sociais, e a pesada repressão aos recalcitrantes, como podemos ver no Rio de Janeiro, onde Rafael Braga continua preso, sem ter feito absolutamente nada, 23 ativistas continuam enfrentando processos e um sem número de militantes segue investigados pela DRCI.

E, sim, pode piorar. A tal da Agenda Brasil proposta por ninguém mais, ninguém menos, do que o Renan “rouba mais devolve” Calheiros deveria ser logo alcunhada de Agenda “afunda” Brasil. Ou Agenda “mata índio”. Ou Agenda “f…” aposentado. Continuo, mesmo a despeito de todos, sustentando que o PT ainda é um mal menor do que o PSDB (e afins). Mesmo em ambiente de ajuste fiscal, acreditem, saco de maldades da direita assumida ainda é pior do que maldades de esquerda meia-boca. Explicando a diferença entre o ruim e o pior: proposta do governo para conter a crise – redução de até 15% dos salários dos trabalhadores (isso é ruim) – emenda do Aécio Neves – ampliar a redução até 30% (isso é ainda pior). Mesmo assim, como já disse por aqui antes, para um partido como o PT, que se legitimou nos últimos anos pelo aumento do bem-estar da população, com aumento de renda e consumo (via ganhos reais do salário mínimo e programas de transferência de renda), esse ajuste é um tiro no próprio pé. Se os ganhos dos trabalhadores nos últimos anos foram inegáveis, é muito de se estranhar que isso seja posto em risco por decisões econômicas desse mesmo partido. Ao que tudo indica, com ou sem Aécio, tudo vai acabar em pó.

A solução, sem dúvida não vem daí. Não vem de reformas políticas etéreas que nunca vão dar certo, uma vez que os únicos que têm o poder de realiza-las são os próprios interessados em que tudo permaneça do jeito que está. A solução vem das ruas, da organização por bairros, por círculos, por ação direta. Da construção, enfim, de alternativas que sejam, de fato, alternativas, e não mais do mesmo.

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O implacável chifre de Rutherford


quimica

Quando eu morava em Vila Isabel, assim que chegava do trabalho fazia hora extra no bar do Costa antes de ir pra casa. O pós-expediente com cerva e bate-papo é o esquema tático que nos leva à prorrogação na partida contra a dona foice.
De quando em vez aparecia um sujeito que bebia sozinho na última mesa da calçada. Oito brahmas eram o número sibilino do camarada. Depois da quarta gelada, ele resmungava hieróglifos. Na sexta, a boca torta dava umas travadas de catraca. Virava o derradeiro copo e saía puto como se fosse tomar resolução de quem pensa e repensa. (Pagava a conta adiantado já pra sair de supetão)
Não passavam três dias, os hieróglifos e as catracas voltavam ao bar. Após semanas nessa tranqueira de serrote, perguntei pro garçom Silas a identidade do pobre homem. Era um professor de química que diziam estar desgostoso da vida depois de se separar da mulher.
Como na época já tinha sólido conhecimento sobre o assunto, fui lá prestar solidariedade etílica ao desafortunado da hora. Cheguei, me apresentei, puxei assunto. Ele apenas me olhava. Fixo. Sem graça, ia me preparando pra cair fora. Então ele destravou:
― Rutherford descobriu que os elementos podem ser transmutados. Estipulou as bases para a interpretação da estrutura atômica. Pouco depois, Bohr finalizou a teoria atômica. Estes e outros avanços criaram muitos ramos distintos na química, que incluem a bioquímica, química nuclear, engenharia química e química orgânica. Rutherford dizia que um verdadeiro físico-químico sopra suas vidrarias e resolve suas próprias equações. Sabe o que penso de tudo isso? Eu quero que os dois vão pra puta que pariu. Que enfiem suas teorias no centro do olho do cu gordo deles. Devem ter sido dois cornos como eu. E o chifre é o único elemento químico que sobrou na minha tabela periódica de cornudo. Agora você vai pra casa do caralho e me deixa em paz.

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Sancta Simplicitas!


sancta simplicitas

Jan Hus era um teólogo do Sacro Império Romano, na virada do séc. XIV. Como reformador é considerado um dos precursores da Reforma Protestante.  Pregava contra a corrupção na Igreja e a ostentação no alto clero. Sua principal conclusão era baseada em Cristo como o líder da Igreja e não o papa e os cardeais. Este papel foi fundamental para o despertar da Igreja Protestante.

O papado não gostava daquelas ideias de Hus. Deram logo um jeito de condená-lo por heresia.  Em 06 de julho de 1415, meteram-no na fogueira e, antes de arder em chamas, uma inocente senhora, sem mesmo entender seus motivos, colocou mais um pedaço de madeira embaixo do mártir.

Foi então que ele disse: ― Sancta simplicitas! (Santa ingenuidade!)

Seiscentos anos depois, o Papa Francisco realizou uma “liturgia de reconciliação” para marcar a morte de Jan Hus, em conjunto com representantes da Igreja Hussite da Checoslováquia .  Disse o papa: “A morte de Jan Hus feriu gravemente toda a Igreja Católica e se deveria pedir desculpas por isso”

Há alguns anos, um garoto furtou um celular no bairro onde eu morava. Os moradores capturaram o rapaz. Enquanto muitos davam socos e pontapés, um senhor, já com idade avançada, saiu de casa com uma garrafa de álcool na mão. Aquele velhinho, que tinha por hábito varrer a calçada todas as manhãs, queria atear fogo num ser humano pelo fato deste ter furtado um celular. Morreria um ladrão, nasceria um assassino.

Nas manifestações de ontem contra o governo, entre tantas bisonhices, dois cartazes me chamaram atenção em especial. Tanto pela mensagem insana quanto por quem sustentava os dizeres.  O primeiro vomitava: “Por que não mataram todos em 1964?”; o segundo seguia o horror: “Dilma, pena que não te enforcaram no DOI/CODI”. Além do conteúdo bizarro da tortura e execução, outro fato em comum é que os cartazes eram suavemente segurados por duas senhoras com carinha de vovó simpática daquelas que fazem propaganda na televisão.  Certamente essas senhoras orgulham-se por terem criado e educado cidadãos de bem, assim como fazem um belo almoço de domingo para reunir a família à mesa. Amam seus netos e netas e fazem de tudo para agradar a todos. Qual seria a razão se serem incapazes de  julgamentos morais e defenderem o extermínio de seres humanos? Elas não podem ser olhadas como monstros, mas como mães zelosas, ainda que incapazes de resistir ao ódio. Um ódio que nunca tiveram, nem alimentaram. Mesmo sem conhecê-las, veríamos que não possuem histórico ou traços fascistas. Também não apresentariam caráter distorcido ou doentio. Agem segundo o que acreditam ser o seu dever, movidas pelo desejo de participar do processo político? Cumprem ordens internas sem questioná-las, com o maior zelo e eficiência, sem refletir sobre o bem ou o mal que podem causar?

A trivialização do extermínio corresponde ao vazio do pensamento onde a serpente faz seu ninho.

Para o jovem morto no linchamento fiz esse poema. Para aquelas senhoras ainda não tenho palavras.

sancta simplicitas

passa veloz

na gralhada do dia.

furta-se e foge

o suposto maldito.

na praça de cores extintas,

vasto presídio.

entoando benditos

olhares piedosos

praticam o caloroso

arbítrio das contas em dia:

delícias do necrológio popular.

adesões, participações,

fiel assistência.

um benefício de fêmures cruzados.

abrindo caminho,

mãos que rezam

ateiam fogo

num ato de boa-fé.

o manequim vergado

lança um surdo gasnar.

logo o encobre a assepsia

de um sudário em chamas.

antes de seguirem para seus lares,

cumpre fazer o pelo-sinal.

no chão,

mingau vermelho esmaltado.

no termo da jornada,

centenas de igrejas

tocam a Ave Maria.

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Macunaímas


Paulo José em "Macunaíma", filme de Joaquim Pedro de Andrade baseado na obra de outro Andrade, o Mário.

Paulo José em “Macunaíma”, filme de Joaquim Pedro de Andrade baseado na obra de outro Andrade, o Mário.

Ver com olhos livres.

Ah, Oswald… Teu Pau-Brasil tinha a utopia da alforria, da libertação da colonização.

Os olhos que não são livres passeiam pelas ruas, gritando bordões nacionalistas, verdamarelos, classistamente xenófobos. Uma escola de antas.

As lentes colonizadoras não deixam escapar a oportunidade dos oportunistas.

É legítimo o fora qualquer um.

É hipócrita bradar contra a corrupção só de uns.

É desvio do dinheiro público fazer com que ele não chegue aos cofres públicos. Mas como ser contra a média da classe?

Querer mudar tudo sem mudar nada. Indecisos cordões. Não sabemos o que queremos, apenas o que não queremos. Mas queremos tudo igual.

O paradoxo caminha no domingo vestido com a camisa da CBF pelas ruas onde só se desfila de automóvel durante a semana.

Macunaímas anti-heróis, malandros do jeitinho de só olharem para si. Mas nunca foram negros. Nunca foram índios. Jiglê, cadê você, irmão? Ai, que preguiça.

Da crise vem o berro. Nem. O contra não vê a conta paga pelos trabalhadores e excluídos. O contra quer apenas a garantia de seus privilégios.

Crise pros outros. La leche buena toda em minha cara. E só. Caretas.

Fora Dilma é boa palavra de ordem. Mas nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Matemática é proparoxítona que não rima com política.

Trocar o caminho por onde vai o (des)governo que aí está é necessidade. Mas mais do mesmo não mais. Vire à esquerda por favor, motorista. Do uber. Ou taxista? Melhor ir de ônibus. O coletivo de todos é maior que a coletividade individualista de uma classe.

Porque todo texto tem seus alinhamentos. Alguns justificados.

AMOR

FAVOR

POR FAVOR

Auriverde pendão da minha terra, antes tivessem-na roto na batalha… Castradores. E alvos. Muda tudo, para nada mudar. Ódio, ódio, ódio.

Quero meu aeroporto de volta, não essa rodoviária. Quem pode tem o próprio na família. O dólar tá alto. E como faz para manter o salto? O que importa é o que se importa, claro. Sem parar na alfândega.

É a maior de todas as crises: consciência.

A decência, assim como o respeito, acabou.

Juiz Moro num país tropical. E Janot é meu pastor. Também pastor é senador. E deputado além. Abençoados por deus. Que beleza.

Vamos para as ruas. Enquanto as panelas ficam na senzala cozendo o almoço pelas mãos dos serviçais. Uma sociedade em que isso fique claro e de olhos azuis.

Caboclos querendo ser ingleses. Do jeito que está não dá mais. Não dá para diferenciar quem é quem.

A classe e o leite C. A gente nata nessa classe. Mas a nata da society vê o coalho ter acesso às compras. Vandalismo social. Mais-valia não ter capital.

Por isso que nada disso é conquista real. Todos endividados. Para a felicidade do financista. A crise. O maior lucro bancário da história. Mas tem gente que acredita nas histórias do Merval…

Receita federal

45 xícaras de trigo
45 xícaras de leite
13 caldos de galinha
1/2 colher de margarina, porque a seco dói demais.

Bata tudo nas panelas.

Leve ao fogo alto para queimar qualquer pessoa de vermelho.

Molde a massa no formato de coxinha.

Sirva nas ruas.

E na antropofagia político-modernista, só sobrará a indigestão. Não há nada a fazer.

Vamos dançar um tango argentino.

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A quantas perdas você sobreviveu?


Os amigos de infância já não o são, os da adolescência a vida distanciou. Na maturidade, sobram grupos por quem se nutre imenso carinho, mas são demais as angústias dessa vida. Rastros revelam diferenças. No fundo, o caminho é solitário, único e inescapável.

Por quantas separações você já passou? Dor dilacerante, insônia, medo. A impressão de ter esquecido a porta aberta. Era preciso se proteger. Era preciso ter certeza de que estava seguro. Ninguém está. Nunca está. Nem com as trancas a postos.

A mãe doente, o pai doente, o hospital constante. Vai-não-vai-foi. Nem tempo de adeus. Teriam aprendido a conviver melhor se eles estivessem aqui. Mais uma ficção das relações. Mais uma forma de tentar exercitar o controle sobre o que não se controla.

O filho perdido, a dor, o vazio, os sonhos desfeitos. O filho nascido, o prazer e a dor, os sonhos… desfeitos? Trajetória ímpar. Pessoa única. Qualquer previsão será falha. Você amaria seu filho ou sua filha da mesma maneira se ele não torcesse para o seu time do coração, não gostasse do mesmo estilo musical que você, se ele subvertesse o que você concebe como ordem, se ele fosse dependente químico?

No fundo, em cada uma dessas situações, há um projeto não concluído, mas um projeto idealizado para a vida e também para a morte do outro. No segundo caso, o projeto é adiar tanto quanto impossível.

Tenho aprendido a renomear perdas. Se todas as transformações por que passamos ao longo da vida forem entendidas como perdas, seremos apenas portadores de um buraco jamais preenchido, fadados a uma vida de tristezas profundas.

Prefiro ficar com o verso camoniano adaptado do poema Sete anos de pastor: Mais faria se não fosse para tão longos amores tão curta a vida.

transformacao

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Crise! Crise! Crise!


crise

Os relatos da atualidade soam aterradores. Andando pelas ruas, vê-se o comércio vazio, empresas fechando, a pobreza multiplicando-se como um câncer em metástase. Um cenário apocalíptico vendido com o o rótulo da crise. É a crise. E o comentário basta-se a si mesmo, sem justificativas ou maiores aprofundamentos.

Mais que tudo isso, a crise, na visão estreita dos repetidores automáticos, é solitária, é única e faz do Brasil uma verdadeira ilha de problemas em um oceano de bonança. O problema, portanto, é só a comandante, ela e seu staff são os únicos responsáveis pela desgraça atroz que vitimiza toda a população.

Tais reflexões não duram uma centelha de tempo diante dos fatos. Seja pela imprecisão, pelo reducionismo ou mesmo pela ignorância. Isso não significa dizer, de forma alguma, que a economia vai bem e que a população vive os melhores dias da história do país. Longe disso.

O Brasil não está em crise. Ou melhor, está, mas não é dono do conceito. A crise é do capital e possibilita a confusão entre oportunismos políticos diversos e uma real discussão e solução dos problemas para quem realmente interessa.

O capital está em crise há algum tempo. Os Estados Unidos passaram há poucos anos por sua fase mais aguda, a Europa ainda não conseguiu fazer com que sua receita de austeridade devolva vigor à Zona do Euro.

Em Nova Iorque, há mais moradores de rua hoje do que na Crise de 1929. Talvez os indicadores econômicos não demonstrem as consequências sociais das políticas para aquecer a economia – apesar de que o Banco Central estadunidense venha reiteradamente diminuindo as previsões de crescimento e sinalizando aumentos de juros de sua taxa básica –, mas a realidade evidencia bolsões de pobreza e uma tensão sócio-racial alarmante.

Na Europa, a Alemanha tem a maior desigualdade desde sua reunificação. O desemprego em alta na Zona do Euro continua aumentando e já deixa mais de 26 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho. Na Grécia e na Espanha, 27% da população ativa não têm emprego. A crise engessa países que, não tendo como desvalorizar a moeda, sofrem com o sufocamento de suas economias.

Quando o capital está em crise, quem sente verdadeiramente são os trabalhadores. Os empresários, para manter seus lucros demitem e cortam custos, com a anuência do governo que flexibiliza direitos trabalhistas para garantir o ganho dos donos dos meios de produção. Em recente entrevista, o presidente do Carrefour minimizou a crise econômica brasileira e apresentou lucros bem acima daqueles esperados pela mídia e obtidos na matriz francesa.

Basta procurar a expressão “apesar da crise” em um buscador de internet, para encontrar uma série de exemplos de quem não está perdendo com o momento econômico. Os bancos, por sua vez, anunciaram crescimento nos lucros de mais de 10%… Bilhões e mais bilhões. É crise.

Toda a série de medidas adotadas pelo governo petista tem a clara intenção de salvaguardar os ganhos do capital no país. O remédio amargo vem para os trabalhadores, situação que possibilita o oportunismo político de quem tem sede de poder. A tresloucada gente que não superou as eleições compra imagens ridículas da crise pintadas em cores fauvistas: a classe média não pode mais jantar fora, não pode mais viajar para o exterior, é maior crise de todos os tempos. Uma afronta a qualquer bom senso.

E assim, filhos de uma direita raivosa aliam-se a Eduardo Cunha em seu projeto pessoal. A irresponsabilidade parlamentar quer, a todo custo, maximizar uma crise política e gerar o caos na governabilidade. Corruptos! Nunca houve tanta corrupção! Esquecem-se de que a corrupção é inerente ao sistema e é a mesma que nos assola desde o tempo de Colônia. Passe-se a limpo as coroas, os uniformes verde-oliva, os ternos bem cortados ou os vestidos vermelhos e veremos que estão todos operando um mesmo esquema.

E é por isso que soa idiota a solução de trocar a raposa que toma conta das galinhas pelas raposas que querem tomar conta das mesmas galinhas. Um discurso tão vazio e tão perigoso que a própria Rede Globo e os empresários já resolveram cair fora do barco. Afinal, o governo que aí está já realiza todas as medidas para proteger a propriedade e o lucro de quem lhes interessa. Uma crise institucional geraria mais prejuízos ao bolso dos poderosos.

Os peixes pequenos vociferam nas redes sociais, culpam o Estado pela crise e exigem sua deposição. Falta-lhes coerência, já que criticavam toda a ação do Estado em auxiliar grupos sociais, defendendo o mérito e o esforço individual. A crise, segundo a história liberal, é o momento de oportunidade. Portanto, não lhes cabe falar mal do governo, mas se esforçar individualmente para ter méritos e vencer as dificuldades.

Diante do quadro, fica evidente que a questão não se resolve mudando a sigla no poder. O problema está no próprio sistema. Se a crise é do capital, há de se buscar uma solução contra a sua real causa. PT, PSDB, PMDB, DEM e outros são representantes de uma institucionalidade que serve apenas à defesa de seu próprio poder.

Unificar a luta de trabalhadores em uma frente de esquerda responsável contra a direita petista e os fascistas de ocasião. Este é o único benefício que o momento pode proporcionar. Sejamos responsáveis para construir um campo de oposição forte, mas que não de espaços para que aventureiros de discurso fácil tomem o país para seus ideias tortos. Olhemos bem para quem anda a nossos lados nas ruas. Nem todo inimigo do meu inimigo é necessariamente meu amigo. Esquecer isso é arriscar-se a mais uma crise: de consciência.

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Bariátrico


grotesco

Corria nos sonhos montado em seu ódio contra a própria genética. Rancores estupefatos da herança hereditária materna. Neurastenia calculada dividindo-se o peso pelo quadrado da altura. Comorbidades, diabetes, hipertensão, uma vida reduzida à escolha de técnicas bariátricas: banda gástrica ajustável, gastrectomia vertical e derivação bileopancreática. A depender do quadro mórbido pendurado na parede do quarto.

Nervosismo, insônia, aumento da pressão sanguínea, batimentos cardíacos acelerados, boca seca, intestino preso. A dependência química ainda é um refrigério. O rigor medicamentoso e as restrições alimentares causam-lhe fastio e repugnância.

Lembranças de amores represados, do sexo interdito. Sarcasmo dos colegas da escola, bulling diário.

Por que não comprar armas e vingar-se de todos? Por que não praticar a arte da destruição? Kandinsky mortífero! Predador Dali!

Poderia ser Raskólnikov sem culpa, sem angústia de fazer algo importante. Dividir os indivíduos em ordinários e extraordinários. Planejar e concretizar, livrando-se da luta com sua consciência, a máquina horrenda. Sem ver o tamanho do crime, mas as pessoas que possam saber e desconfiar do ocorrido. Mostrar que faz parte do grupo dos extraordinários, indivíduos capazes de cometer qualquer delito, ou infringir regras sem culpa alguma.

Por que não?

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Da série ” Tantas vidas vivendo por aí”


Voltava para casa no trem vespertino, experiência desconhecida até ontem. Vinha do fim da linha e observava os trabalhadores se amontoando pouco a pouco, tentando imaginar quem eram, de onde vinham e para onde iam. Pensava quantos ali se submetiam a esta rotina de trens superlotados se arrastando a 10 km por hora em muitos trechos, tentando me lembrar de alguma coisa lida sobre bitolas de trilhos e tecnologia superadas quando se anuncia a minha estação de destino.

Levanto e tento chegar à porta, onde se espreme uma grande massa de corpos e rostos ansiosos voltados para fora. Menos mal, penso, me posicionando atrás de um moço que declara intenção de desembarcar. As portas se abrem e outra massa de corpos jovens se lança de fora para dentro, bloqueando a saída. Um homem consegue se soltar, vazar, saltar sobre a plataforma, depois dele dois, mais um e é tudo. A massa se imobiliza. Os de dentro gritam  “ descer, descer” enquanto os de fora fazem coro como uma falange guerreira “ ôooooooo” e forçam seus corpos impedindo que mais alguém saia. À minha frente corpos se inclinam e tentam avançar . O bloco tem alguns jovens mas também homens maduros, velhos e mulheres, corpos quase todos, talhados nos serviços pesados. Parece um jogo de rugby sem bola. Os de fora vencem, as portas se fecham e o trem parte com os que ficaram protestando aos gritos e os vencedores rindo, divertidos, debochados. Examino os rostos. Há desolação em muitos, constrangimento em alguns, risos gaiatos em uns poucos.

Daí acontece o inesperado. A mulher de meia idade, gordinha, bem vestida e um pouco mais alta que a média, levanta a voz. Mansa, a princípio, grandiloquente em seguida, pregadora, ao final. Parece tomada por um sentimento de paixão despropositada. Mira o fundo dos olhos de um dos gaiatos mais salientes e o confronta. Pede contas de seus atos, do seu direito de atrasar a vida de todo mundo, questiona que sentimento é este que o anima. Ele e os colegas riem, zombam, lançam seu grito de guerra, ôoooooo. Ela continua. Ele zomba, ordena que ela desça na próxima estação. Ela responde, como se lhe devesse satisfação, para onde vai, explica que precisa conexão com o metrô e pergunta quantos mais há na mesma situação ali. Tímidas vozes concordam. Ela começa a explicar, em voz alta e compassada, o que fizeram. Que estão nos obrigando a ir até o final da linha, ocupando o lugar de outros que irão se atrasar para escola, para buscar o filho, sabe-se lá para o quê mais. Quer saber se isto os faz feliz. Sóbria, em voz alta o suficiente para ser ouvida, mas calma. Tímidos, alguns passageiros que não desembarcaram se declaram prejudicados, ela advoga suas causas. O grupo organizado ao modo de falange invasora começa a se desmanchar, o coro enfraquece. Agora são apenas 4 ou 5 sorrisos. A mulher prega como um pastor de praça e aprofunda o sermão com voz firme. Fala como se fossem seus filhos, alunos ou iguais. Fala como se confiasse na capacidade deles compreenderem que estão se comportando mal. que estão tentando se divertir fora de hora e lugar, pede depoimentos ao redor. Declara ter certeza de que ao menos dois deles parecem capazes de pensar sobre seu comportamento. Fala, fala e fala sem desviar dos olhos do mais resistente, sem se importar com seu ar de deboche. Pouco a pouco se torna mais petulante que ele, arriscando-se a adivinhar alguns dos seus sofrimentos secretos, sua sensação de impotência, seus sonhos de melhor condição de vida, seus desejos de respeito e dignidade. Confronta-o com sua impotência que ele tenta disfarçar com arrogância quando não passa de covardia. Quer saber se ele sabe o que é impotência, o que quer dizer a palavra impotência. Até que também ele se cala, cabeça baixa, mirando os próprios joelhos, sério. A viagem prossegue em silêncio.  A mulher venceu a disputa verbal mas não comemora, apenas se cala e o encara, com o semblante grave, como a se certificar que ele não tem mais nada a dizer. O trem chega à última parada, todos se preparam para sair. O time que instaurou o tumulto se confunde agora com todos os outros seres deslizando no mar de gente, impacientes mas sem brutalidade.

A mulher era eu, encarnando a palhaça Pastora da Civilidade. Não sei o que me deu, nem tudo que disse. Acho que baixou um espírito da pátria educadora em mim e pegou nos garotos. Todos eles aparentavam ter idade superior à da emancipação, acho que foi isso. Emancipação é complicado.

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Do inferno nuclear à indústria do medo, e eis que surge o Irã como um novo cavaleiro do apocalipse


guerra_nuclear

Após anos de tensão, ameaças e uma campanha midiática internacional terrorista, eis que europeus, americanos e iranianos chegaram a um acordo em relação ao programa nuclear destes últimos. A reação conservadora e histérica não se fez esperar, com as previsões cataclismáticas dos suspeitos de sempre: Israel, monarquias do golfo, congresso republicano e que-tais. Mas quem ganha e quem perde com esse acordo? E com o medo?

O acordo em si não faz mais do que garantir um rigoroso e altamente intrusivo sistema de monitoramento das instalações nucleares e militares iranianas, de maneira geral, em troca da retirada das sanções econômicas impostas ao país há décadas. Até aí, nada que a diplomacia brasileira já não viesse há tempos propondo: a formação de um sistema de confiança para retirar o Irã do isolamento e reinseri-lo na sociedade internacional, em troca de que o país abrisse mão da capacidade de se tornar a nona potência nuclear do planeta.

Então, como se dizia na década de 80, qual é o pó? O que vejo faltar em todas as diversas análises que tenho lido, é ressaltar a grande vitória da diplomacia iraniana representada pelo acordo, que soube com habilidade se aproveitar de um desencontro, segundo todas as probabilidades temporário, entre as agendas de Washington e Tel Aviv. O novo desafio às potências ocidentais representado pelo EI reordenou as prioridades dos EUA na região, sem afetar, contudo, as de Israel, para quem o Irã nuclear continua sendo o pior pesadelo. Foi explorando essa brecha, sobretudo, que o Irã conseguiu, de uma vez, realizar dois grandes objetivos da sua política externa: retirar as sanções dos embargos internacionais que estavam sufocando sua economia e sua sociedade, e dar um passo gigantesco na direção da sua afirmação como potência regional.

Mas, ainda assim, haveria de fato algo há se temer da ascensão nuclear iraniana? Uma das profissões mais perigosas do planeta já foi ser cientista nuclear iraniano. Pelo menos quatro cientistas do país morreram em circunstâncias suspeitíssimas e, supostamente, foram assassinados pelo Mossad. Israel e EUA têm capacidade para vaporizar coisa de uns quatro milhões e meio de “irãs” do mapa com facilidade, e os iranianos sabem disso. De novo, os suspeitos de sempre: o medo do Irã justifica gastos militares, o que dá a chance para políticos e militares dos quatro cantos do Oriente Médio se sentarem à frente de polpudos orçamentos de defesa. Sem esse bicho-papão, talvez o likudismo se encontre com menos meios de justificar para o seu povo, e para o mundo, a violência crescente na palestina.

Outra potência bastante insatisfeita com a nova situação é a Arábia Saudita. A diplomacia e a atuação regional (assim como os gastos militares) desse país se pautaram nos últimos anos fortemente pela justificativa da contenção da influência iraniana no mundo árabe. Os sauditas saem visivelmente enfraquecidos desse processo, não apenas pela simples ascensão do Irã como potência concorrente, mas também pelo retorno deste último à Opep e pela entrada de milhões de novos barris de petróleo no mercado mundial, ambas consequências do fim das sanções. Acredito que os EUA, inclusive, tenham colocado isso no balanço, na hora da decisão final sobre o acordo, talvez cansados das ambiguidades sauditas que, mesmo aliados na “guerra contra o terror”, mesmo sendo o país árabe há mais tempo aliado ao ocidente (quando essa aliança começou, ainda era a Inglaterra que mandava no mundo), ainda assim financiam o fanatismo religioso mundo afora, de onde surgiu diretamente, no mínimo, o Talibã no Afeganistão.

Há um círculo de análises particularmente otimista que vê no acordo o início de um tipo de aposta, por parte dos EUA,  em uma maneira mais construtiva de lidar com as relações internacionais. A acreditar no formulador dessa nova política, o próprio Obama, a estratégia estaria inserida na mesma lógica de descongelar as relações com países que os próprios EUA mandaram para o isolamento internacional há décadas, como Cuba e Mianmar. Diz, ainda, o próprio, que soluções negociadas e procura por interesses em comum são mais produtivas do que sanções intermináveis. Talvez Obama tenha resolvido na saída fazer juz aquele Nobel da Paz que ganhou ainda antes de tomar posse, há coisa de 8 anos.

 

Mas, afinal, o acordo é bom?

 

Considerando que Bush havia formalmente colocado o Irã na lista de países “invadíveis” (o eixo do mal), considerando as disposições dos falcões de Washington e a história dos EUA, que raramente passam dez anos sem entrar em alguma guerra ou invadir algum país, este acordo pode ser considerado sim uma vitória da pomba branca (pelo menos temporária), uma vez que adiou o problema por pelo menos dez, e uma derrota para a ala mais militarista do partido republicano, que já está esperneando por causa do acordo. Porém, por outro lado, ele em si não significa de maneira nenhuma a panacéia para os problemas da região, como os mais entusiastas parecem acreditar.

Ele não significa, por exemplo, o abandono do compromisso americano com a manutenção do estado apartheidista de Israel. O próprio Obama se comprometeu publicamente em não deixar Israel perder a ampla vantagem militar que possui em relação ao restante da região (garantida em grande parte por financiamento militar americano).

A abertura do regime iraniano também não é um subproduto garantido do acordo, como seus elaboradores anunciam. Se o Irã, por um lado, é vítima de muita propaganda negativa (desde a Revolução Verde), por outro, ele de fato não é um país bonito. É um dos seis países do mundo nos quais há pena de morte para homossexualismo. As execuções são bárbaras (mulheres adúlteras, por exemplo, são mortas por apedrejamento – que falta que não faz um cadafalso ou uma boa guilhotina). Para piorar, em ternos per capita, é o país que mais executa a pena capital no mundo (em termos absolutos, o país que mais a executa é a China).

No entanto, vejo ao menos um ganho evidente. Para além das teorias, tenho tentado desenvolver análises que coloquem o sofrimento humano no centro. Trata-se de, em um situação específica, tentar entender de que maneira as pessoas sofreriam menos. Neste caso, o fim das sanções trarão alívio imediato para o povo iraniano (nunca são os manganos dos palácios que sofrem com as sanções econômicas aplicadas internacionalmente a torto e a direito, mas sim as pessoas comuns, para quem falta sabonete, fralda descartável, pasta de dentes…).

O pragmatismo sempre vence

Além das críticas conservadoras esperadas, o governo Obama tem sido muito elogiado pelo acordo, nas bases do que está sendo chamado de Smart Power, ou seja, a capacidade do governo de agir por procuração e de manipular adversários para que eles ocupem os lugares que os americanos querem que eles ocupem no tabuleiro (o que tornaria Obama, nesse caso, um enxadrista exemplar). Isso se traduziria na necessidade americana de lançar mão das forças xiitas iraquianas e iranianas já em campo e em conflito direto contra o Estado Islâmico no Iraque. O que eles esperam, presumivelmente, no fundo, é manipular o Irã para que ele cumpra um papel militar na guerra contra o EI, que Obama não está disposto a cumprir, qual seja, o envio de tropas para as muitas batalhas que ainda virão. Isso tudo não deixa ter a sua dose de ironia, quando lembramos que foi a invasão da embaixada americana em Teerã, em 1979, que alimentou muito a então falsa percepção dos EUA como uma potência declinante…

Contudo, ainda é cedo para abrir o champanhe (ou comprar as passagens para o próximo voo tripulado para a lua, dependendo da sua perspectiva). O acordo ainda tem que ser ratificado pelo conservador congresso americano (onde o lobby pró-israelense é forte) e por diversas e sortidas instâncias de poder no Irã, como o congresso, o conselho de guardiões e, é evidente, pelo seu líder supremo, Ali Khamenei (o sistema político iraniano é uma loucura – dia ainda escrevo sobre ele). Estas três últimas instâncias já manifestaram um relativo descontentamento com os termos do acordo, considerado muito intrusivo – em especial na área militar, sempre muito sensível. Eu não veria com muita surpresa o congresso dos EUA ratificarem o acordo e ser o Irã, no fim das contas, a recusá-lo.

Seja como for, talvez os EUA estejam esquecendo rápido demais que o hino revolucionário do Irã, até hoje, carrega em seu refrão o lema “Morte à América”. Seus objetivos quase confessos, ou seja, de não abrir mão da capacidade de intervenção imperialista quando e onde necessário, mas de delegação pontual de poder, ainda que para um inimigo histórico, no fundo têm tudo para dar errado. Vide Sadan Hussein, Talibã, Al-Quaeda, Iraque e etc.

 

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Iniciação


supermercado

Eu nada seria não fossem aquelas senhoras do Supermercado Guanabara. Há cinco anos fui iniciado por elas na arte e segredos das boas compras. Após breve período como auxiliar de uma veterana na condução de suas compras, foi possível adquirir  iniciação nos mistérios das seções e categorias. Foi usado um sistema de graus para identificar minha evolução como aprendiz. A seção de Frutas e Verduras foi a primeira etapa. Depois Material de Limpeza e Higiene. Na sequência: Cereais, Frios, Enlatados e Laticínios. A seção de Carnes e a de Peixes seguiu um ritual hermético e doloroso. O setor de Bebidas demandou menos tempo em razão da minha experiência de vidas passadas. O domínio das promoções, a cilada das gôndolas, o xamanismo diet e light, a prestidigitação das frutas e verduras, as distinções druídicas da alcatra e do contrafilé, a lista sagrada, a cabala dos frios e laticínios…

Após mais algumas tarefas e rituais particulares, compreendi o significado da ascensão de um nível de existência para outro nível superior. Fui orientado no caminho do equilíbrio financeiro e da plenitude do carrinho de compras.

Ontem, estavam todas em frente ao mercado com seus maridos. Fui apresentado como a esperança do vale machista das sombras. Os esposos foram chamados de “vermes pestilentos” e “abominações repugnantes”. Entretanto aquela reunião não teve apenas o objetivo de esculachar a macharada pinguça. Era uma despedida. Meu aprendizado havia chegado ao fim. Eu devia me fortalecer com o isolamento, sobreviver em outro supermercado, estar preparado para as dificuldades das compras sozinho. Eu chorei, solucei, esperneei. Levei um esporro das espartanas.

― Componha-se! Seja homem e largue nossas saias! Nós o ensinamos a não ser um idiota como nossos maridos! Vá embora e não volte mais a este mercado. Não olhe para trás.

As palavras duras não escondiam os olhos marejados. Virei-me e segui a ordem. Da profunda tristeza, logo sobreveio o contentamento e o orgulho. Tornei-me um homem de verdade.

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