Mais um dia para sentir vergonha de ser homem


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Escrever às vezes é tudo que nos resta quando a noite fica longa demais, amarga demais. Eu queria, egoisticamente, não ter sabido o que eu soube. Não ter lido o que eu li. Ver, eu não vi (acredito no relato das companheiras). Acho que ninguém deveria ver. O horror, o velho horror, mais uma vez, chega-nos pelas portas e pelas janelas, forçando as frestas, afrouxando as dobradiças. É da natureza do horror entrar assim…

Não tenho muitas palavras para falar sobre as notícias da última barbárie vinda, dessa vez, do Rio de Janeiro (poderia ser de qualquer lugar). Uma revolta absoluta, a náusea até o enjoo? Tudo isso é pouco. Só consigo pensar em formas de mandar solidariedade a essa pobre menina. O certo a fazer, nesse caso, antes de tudo, é o que a família pediu: não divulgar o vídeo (não consigo imaginar o que levaria alguém a fazer isso, mas enfim…), não divulgar dados a respeito dela (nome, moradia etc.). Na verdade, a não ser que você seja alguém que tenha algo de concreto para contribuir com o andamento da investigação ou para o acompanhamento e apoio da vítima, você não tem nada que saber essas coisas mesmo.

Para além de uma certa curiosidade mórbida, que eu não consigo entender, embora saiba que é comum, tenho visto variadas reações ao ocorrido na internet. É verdade que esse tipo de violência extrema tem a capacidade de abalar até as nossas convicções mais profundas. Mas, por exemplo, a despeito de todo o ódio que sinto neste momento, continuo sendo contra a pena de morte, antes de tudo por ser uma medida que, no nosso país, só ia aumentar o número de negros e pobres mortos (ou alguém tem alguma dúvida sobre quem seriam os condenados a essa pena?). O código penal francês, muito mais draconiano que o nosso (só para começar, eles têm prisão perpétua), em um caso como esse, daria 20 anos de prisão para os envolvidos (estupro é 15 anos, com agravantes – no caso, por ser coletivo – vai para 20). Mas o endurecimento das penas nos remeteria ao mesmo problema já apontado: quem seriam os punidos por sentenças mais duras? Para quem acha exagero, basta lembrar do filho do Eike Batista, livre, leve, solto e de Ferrari por aí. Não. Penas mais duras não são solução para nada, pelo menos não enquanto tivermos uma justiça não cega para as cores (e menos ainda para diferenças econômicas).

O que tem que mudar é a cultura do estupro. Porque sim, estupro não é doença, é cultura. Vivemos em uma sociedade doente, na qual o estupro é relativizado, suavizado, justificado, quando não incentivado. As formas pelas quais essa desgraça se dá são as mais variadas. Essa semana tivemos, por exemplo, a recepção do sr. Alexandre Frota no ministério da educação para debater “propostas” para o ensino. Mais do que pela sua carreira cinematográfica, Alexandre atingiu projeção nacional por confessar, em um programa televisivo de mau gosto (diz-se: politicamente incorreto; leia-se: divulgador de discriminação contra minorias), ter estuprado uma mãe de santo. Ora, que mensagem poderia ser mais nociva para a sociedade do que essa: o marginal confessa um crime em cadeia nacional, fica por isso mesmo (“foi só uma brincadeirinha”, ele justificou) e, pasmem, essa pessoa é chamada para discutir educação em nível ministerial! Além de não ter credencial nenhuma para discutir educação (ou o que quer que seja), trata-se de um criminoso confesso e um estuprador convicto. O lugar dele é na prisão, junto com os trinta monstros que imolaram a menina essa semana, no mesmo dia em que esse crápula era recebido com pompas no ministério.

Sim, essa semana, parecemos ter descido a profundidades inéditas do fundo do poço. Sim, nós vivemos no inferno, tão enterrados nele que a maior parte do tempo nem nos damos mais conta. No entanto, as formas básicas de se mudar essa cultura não são tão difíceis de se imaginar quanto pode parecer: basta ouvir as principais interessadas, ou seja, as mulheres – explicando assim parece fácil, né?, então por que não fazemos todos? Quem sofre isso tudo na pele, todos os dias, é quem sabe onde o calo aperta: é necessário deixar bem claro que a culpa nunca, em nenhuma hipótese ou circunstância,  é da vítima; é necessário não se omitir em casos de violência, e denunciar sempre nos canais adequados; é necessário combater todas as manifestações de discriminação e inferiorização, mesmo as pequenas e aparentemente “inofensivas” (como se alguma coisa no mundo fosse isso), como piadinhas e etc.; é necessário educar os homens para o respeito, para a empatia e para que não se tornem criminosos.

Há muitas outras. A lista de proposições e de reclamações vindas dos movimentos sociais legítimos de representação das mulheres é, com toda justeza, interminável. Basta procurar. E é um sinal grave e profundo da doença dessa sociedade ter que lembrar de coisas tão óbvias. Ter que fazer campanhas inacreditáveis como “eu não mereço ser estuprada” ou ensinar as pessoas que não é legal puxar mulher pelo braço no carnaval. Em algum lugar, falhamos miseravelmente enquanto espécie para chegarmos a esse ponto.

Propostas para acabar com a cultura do estupro:

– Antes de tudo, como já dito, é só seguir as recomendações das próprias mulheres, como por exemplo, educar os homens a não estuprar, ao invés de educar a mulher a como se comportar (o que, convenhamos, faz todo sentido).

– Fechar todos os templos onde se propaga a misoginia, a homofobia ou qualquer discurso discriminatório: liberdade religiosa não pode ser confundida com discurso do ódio. Nenhum líder, de nenhuma religião, tem o direito de ser um elemento deseducador para a sociedade.

– Prisão imediata para todos que fazem ou já fizeram apologia do estupro. Isso inclui Jair Bolsonaro, Rafinha Bastos, Danilo Gentili, o não menos odioso Alexandre Frota e merdas quejandas.

– Prisão imediata também para todos os homens que curtiram, comentaram, compartilharam e ou ridicularizaram, apoiaram ou de qualquer forma que seja se locupletaram com o vídeo postado no Twitter.

Também já há um protesto marcado para essa semana. O que posso fazer, à distância, é ajudar na divulgação: https://www.facebook.com/events/1752031391678244/

 

Termino, neste dia cheio de dor, manifestando minha solidariedade à vítima, à família e a todas as outras mulheres de todas as outras histórias que já aconteceram e que, infelizmente, tornarão a acontecer. Vi, entre as várias manifestações emocionantes de solidariedade, uma militante feminista pedindo para que orássemos por essa menina. Não sou pessoa de crenças e de religião. Mas na minha impotência, na frustração, na revolta, termino citando um dos trechos mais belos e fortes da literatura brasileira:

 

“Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria: como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo uma criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.”

– Clarice Lispector, do conto Legião Estrangeira.

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Maio, mês das lutas


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Desde o final do século XIX, quando uma greve em Chicago pelas oito horas de trabalho diário desdobrou-se em um massacre contra trabalhadores e consequentes prisões e perseguições de líderes sindicais, o primeiro de maio tornou-se símbolo da necessária luta do trabalhador contra a exploração constante a que somos submetidos até hoje.

Já se disse que a carne em nossa mesa não vem da benevolência do açougueiro, mas de seu desejo por lucro. O interesse individual, sem intromissão estatal, levaria toda a sociedade a um tempo de paz, abundância e felicidade. Ninguém foi mais contrariado pelos fatos que o pobre Adam Smith.

Sua mão invisível rapidamente permitiu a exploração sem precedentes de trabalhadores, escravizados em doze, catorze e até dezesseis horas de trabalho sem direitos e recebedores de miseráveis soldos. Permitiu a formação trustes, cartéis e práticas de dumping vistas até os dias de hoje. A tal mão é invisível porque na maioria das vezes não existe mesmo.

Fôssemos guiados tão somente pela força dos interesses individuais, dadas as enormes assimetrias que o sistema jamais foi capaz (e que nem sequer teve inteção) de combater, não teríamos férias, 13º salário, licenças-doença ou maternidade entre tantos outros direitos, conquistados à base de suor e sangue, muito sangue.

É assombroso constatar em um 1º de maio do século XXI que trabalhadores ainda defendam os mecanismos de sua própria exploração e embarquem em uma onda estúpido-crítica que coloca os interesses da Fiesp como guardiães das conquistas dos trabalhadores.

Há pouco os conglomerados de telefonia que operam no país anunciaram seu interesse em limitar o acesso à internet, tornando-o mais caro e aumentando as assimetrias sociais e de aquisição de conhecimento que a ferramenta tecnológica oferece. Pensando em si e em seus lucros, não há mesmo benevolência, nem interesse de haver carne na mesa de todos.

Nessa hora, uma enxurrada de pseudo-liberais clamou pela intervenção estatal. Entretanto, não cansamos de dizer, temos um Estado a serviço do capital e, por isso, não foi de estranhar que o posicionamento da Anatel ratificasse os interesses dos barões das telecomunicações.

Esse é um problema real para os trabalhadores. Ao longo da história, os Estados intervencionistas na economia jamais atuaram no interesse da coletividade, senão funcionando como uma enorme empresa, de braços longos e fortes, impondo sua visão individual e restritiva de liberdades a toda uma sociedade. Financiamentos a perder de vista para industriais e financistas, falta de serviços públicos básicos para a sociedade.

Em outros casos, também abundantes na história, a cooptação de setores trabalhistas em prol de governos de conciliação geraram apenas medidas demagógicas, populistas e que em pouco atingiam as questões de fundo da relação de exploração existente no sistema. Acreditar que o capital pode ser humanizado e que as estruturas de dominação podem ser modificadas pelos mecanismos que os próprios exploradores criaram é de uma ingenuidade angustiante.

É necessário que a luta dos trabalhadores promova justiça social sem perder o norte da coletividade. Sem concessões aos falsos discursos, sem dar ouvidos às críticas que colocam os ganhos da população como culpados de uma crise que rende bilhões a financistas.

Querem imputar a todos que movem o país a culpa por crises e desmandos. Não aceitaremos. Assim, como já está mais do que claro que não há de aceitarem-se migalhas. O preço da conciliação, tal qual o da traição é alto demais.

A incessante luta pelas migalhas nos tira a fome do pão. E somos nós que o produzimos, somos nós que temos o direito a comê-lo. Longe das benevolências e dos interesses individuais, unidos façamos uma terra sem amos. Trabalhadores, o futuro está em nossas mãos. Sejamos corajosos para construir nossas utopias.

E tenhamos um feliz dia de luta.

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A recatada do Jaburu


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Desligou o telefone e anunciou no escritório:

– Consegui!

Rapidamente os companheiros de escritório cercaram-lhe. Meireles foi incisivo:

– Batata?

– Batatíssima! Batatíssima! Pelo menos, eu acho. Quase tudo certo.

– Melhor tomar cuidado, fazia bom alvitre o amigo Moreira.

– Qual? Que nada! É perfeita demais, um colosso! E mais, o marido anda preocupado com outra. Na idade dele, não há de dar conta de tamanha formosura!

Todos se entreolharam, uns franziram a testa de inveja, outros fingiram pouca importância. Ainda que preocupados com a crise na empresa, achavam tempo para devaneios em braços jovens, mesmo que pertencessem a outro.

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Nos jardins e palácios era sempre cortejada. Alvo de olhares. Coisa de fotógrafo de celebridade, entende? Isso também não depunha contra ela. Bela era uma mulher discreta. Saía pouco pela vizinhança, mas quando saía… Sempre havia alguém para comentar algo da moça de maneira elogiosa. Especialmente as senhoras de plantão nas janelas do bairro.

– É muito moça.

– Moça mesmo.

– O marido não dá conta, já passou da idade.

– Já foi brasa, hoje não passa de cinzas.

– Um verdadeiro jaburu!

– Mas, pelo menos, ela é do lar.

– Melhor que tantas outras que acham que podem sair por aí fazendo o que querem!

– E como! Há quem diga que um dia elas vão querer mandar!

– Nunca! Por isso é que ela é um primor!

– Deus te ouça! Já vou, meu marido chegou.

– Tchau, querida!

Não que os vizinhos também não lhe reparassem os dotes:

– Austera!

– Deslumbrante!

– Dócil e mansa, não é mesmo?

– Calma lá. Pelos olhos é quietinha assim só da boca pra fora. Deve arder em labaredas de fogo na cama.

E por esses e tantos outros comentários, que Bela virou desejo no bairro, no mercado e, claro, no escritório. Frequentava as colunas sociais das gazetas. Até mesmo os folhetins ordinários. Ou recortes de revistas. Das mais lidas às mais vendidas.

Era mulher de gente graúda na firma. Diziam que seria o próximo chefe. Quem poderia ter certeza? Mas, isso em nada parecia mudar a veneta do Nascimento, o que era motivo de preocupação para os mais próximos:

– Rapaz, vou-lhe ser franco, tira isso da cabeça, repetia Moreira tentando pôr panos quentes em um escândalo que ainda não ocorrera.

Nascimento dava de ombros e não se constrangia:

– Como essa mulher me resiste, Fraga?

– Essa é diferente, rapaz, é do lar.

– Mas são dessas de que mais gosto! Essa é séria para chuchu e além disso é um colosso!

Finalmente, Nascimento teve resultados em seus flertes. Bela devolvia alguns sorrisos. Parecia ceder à tentação. Foi pelo telefone mesmo que o negócio aconteceu. No escritório quando desligou o telefone e anunciava o êxito descrito no começo deste conto.

Suspirava por entre as divisórias:

– Ah, aquele encanto! Uma sensação, um mimo! Colosso de mulher! E daquelas direitas, sabe? Bem direitas!

Meireles pregava moderação:

– Nascimento, abre teu olho. Mulher direita é família. Não trai.

– Você é besta, não sabe? São essas as que mais mudam de lado! E além do mais ela é a cara da mulher das notas de dinheiro!

– Cara da República? Nunca reparei…

Meireles olhava a nota e, subitamente, passou a sentir igual desejo. Era isso. Estava descoberto o segredo. Não havia de ser outra a razão! Todos a desejavam por isso. Talvez não fosse, mas é melhor ficar como se essa resposta fosse suficiente.

Nascimento, com ar vitorioso, comunicava o êxito obtido. Enfim marcara o encontro.

– Há de ser no final de semana. Nunca tem ninguém por aqui no final de semana.

Mas não naquele final de semana. Não sabia porque cargas d’água acontecera. Mas era questão de honra, já estava marcado, não havia como recuar.

A pequena sala era modesta, mas arrumada. Mulher direita não se leva a qualquer pocilga, pensava Nascimento. Era, por assim dizer, um gabinete. Ele arrumou-se, perfumou-se e tentou deixar tudo arrumado.

Antes do almoço, conforme o combinado, a campainha tocava. Era ela.

– Bela, Bela. Entre, entre.

Ela entrou. Segurou a bolsa contra o peito. Nascimento olhou para aquele espetáculo de formas. Viu tão somente as belas canelas torneadas, pois o vestido ia-lhe abaixo do joelho. De certa forma, ela parecia incomodada com algo.

– Nascimento, não sei…

– Ora, pequena, dúvidas agora?

– Não sei mesmo se é isso. Fico constrangida, nunca fiz isso.

– Não se culpe, estou para fazer tudo dar certo e sair com tranquilidade. Não há nada a temer. Confia, é batata.

– É que não nos falávamos por tanto tempo… Nossos lados…

– Esqueça lados, isso hoje já não importa mais.

Olhava a silhueta hipnotizante de Bela. Era como a figura na nota de dinheiro. O frescor da juventude tirava-lhe por completo qualquer sombra de culpa. Ela coloca a bolsa no sofá, fecha os olhos, como quem se entrega a um sacrifício e diz:

– Que seja rápido, pois meu marido está lá fora esperando.

– Que negócio é esse, mulher? Teu marido lá fora? Ele sabe? Isso pode vazar, melhor então não fazer… Melhor, entende? Não sei se quero mais.

Nascimento percebeu que era ela quem tinha muito a temer naquele momento.

Bela recolhe a bolsa, estende a mão, olha fulminantemente para Nascimento:

– O dinheiro, por favor. Meu marido sempre cobrou caro. Não se esqueça de, quando perguntado, dizer sim.

Bela virou-se, saiu pela porta, virou no corredor à direita e sua imagem sumiu enquanto a porta lentamente se fechava.

Nascimento prostrou-se no sofá. Chorou.

Mas, pela família brasileira, no momento crucial, ele disse sim.

 

FIM

 

Esta farsa em ato contínuo é inspirada livremente na produção de Nelson Rodrigues, gênio da literatura e da dramaturgia nacional (que votaria sim, que estaria ao lado da família, que diria boas da pátria, que seria machista, que constataria os vira-latas, mas que talvez assumisse na lata um ou outro golpe do qual se o acusasse).

Essa é uma obra de ficção, todos os personagens são falsos e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

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O insulto ao estrume


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Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

– A flor e a náusea

Escrevo, finalmente, após quase uma semana, sobre o show de horrores que foi a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Escrevo sob a ordem da náusea e do desespero, mais do que por qualquer outro motivo. Não, eu não sou do PT. Não, eu não voto no PT (aliás, votos são uma fortuna que a minha cornucópia distribui com cada vez mais parcimônia). E, principalmente, eu não tenho nenhum compromisso com o PT. Mas também não tenho estômago.

Não retiro nenhuma das críticas que já escrevi nesse blog, algumas com muito mais repercussão do que eu poderia imaginar que teriam. Eu não perdoo o PT pelas alianças com agronegócio em detrimento das populações indígenas, ribeirinhas, da floresta, da agricultura familiar, dos apelos de todo espectro progressista da sociedade etc. Eu não perdoo o PT por ter fechado os olhos (ou talvez até ter apoiado em algum gabinete) a enorme repressão aos movimentos sociais que se organizaram de dois a três anos para cá. Por não ter interferido, ou sequer se sensibilizado, com as prisões kafkianas de militantes na cidade do Rio de Janeiro (o suprassumo delas sendo a de Rafael Braga, que nem militante era, nem em manifestação estava, e ainda assim já está amargando para lá de dois anos de prisão – muito descaradamente, nesse caso, pelos “crimes” de ser preto e pobre). Em um gesto que só demonstra a má vontade desse governo de dialogar com a esquerda, para cúmulo da injúria Dilma, em pleno processo de impeachment, me sanciona aquela lei antiterrorismo que se tornará uma carta na manga de qualquer direita mais alucinada que o normal do país que venha a sucedê-la, com ou sem golpe.

Porém, eu tenho um órgão chamado estômago, e ele foi testado até o limite último domingo pelo espetáculo de hipocrisia e conservadorismo com que aquela velhacaria que chamamos constrangedoramente de câmara dos deputados realizou aquela “performance”. Não, não foi agora que o horror começou. Já está difícil de tolerar há pelo menos um mês. Tivemos aí no meio do caminho, talvez como show de abertura para o espetáculo principal, a apresentação “Jana e a serpente”, onde vimos uma advogada despejando impropérios em uma espécie de transe (ou seriam passos de uma dança meticulosamente estudada?). Essa também se lança como uma forte candidata a ovo de cobra (olha a ofidiometáfora aí de novo).

Eu quero acreditar que a baixa comemoração dos chamados “coxinhas” no próprio domingo deveu-se ao fato de que muitos apoiadores desse impeachment têm o mínimo suficiente de bom-senso para se constranger ante aquela cena. O que foi aquele desfile de corruptos velhos de guerra (por exemplo, Paulo Maluf, para ficar apenas no mais descarado) pregando a moralidade, a probidade administrativa e o respeito ao bem público? Em que planeta será que aquelas pessoas vivem? Será que elas pensam que ninguém leu nenhum jornal nos últimos 40 anos?

Mas a coisa só piora. Nunca vi tanta gente invocar o termo “família”. Tanto, que é forçoso abrir a reflexão sobre o que será que eles entendem por esse termo. E, para tanto, uma malfadada reportagem de uma pestilenta publicação cujo nome me recuso a reproduzir mais uma vez é de excelente ajuda. Na dita matéria (se é que aquilo ainda merece qualquer resquício de respeito jornalístico), a dita publicação se apressa a eleger a mulher de Michel Temer (hoje, pelo menos, ainda vice-presidente) como primeira-dama. O título da bizarria era “Bela, recatada e do lar”. Não há problema algum em ser isso, o problema é a imposição de um padrão, assim como não há nenhum exagero em localizar aí um contraste proposital entre a figura de Dilma, que não atende aos padrões de beleza que a própria revista cansa de estabelecer como únicos, que foi guerrilheira e que hoje é presidente, com um outro modelo de mulher, esse teoricamente o “certo”, representado pela menina.

A família que aquelas pessoas idealizam é a base dessa sociedade racista e escravocrata, que saiu da escravidão plena para o regime da precarização e do assalariamento aviltante. A família e a sociedade cujo saudosismo eles sentem é a patriarcal, com mulheres submetidas (que “sabem o seu lugar”, como a sra. Temer) e empregadas disponíveis para estupro em quartos dos fundos. Não há perdão para isso. Não tem arrego. Mas só fomos de mal a pior nesse domingo. Pela ordem da votação, estabelecida por mister Cunha, o Rio de Janeiro ficou entre os últimos estados a se manifestarem. Aí qualquer limite do razoável foi ultrapassado, quando da fala do sr. Jair Bolsonazi, em pleno congresso nacional (a esta altura, já podemos chamá-lo de congresso sem-nocional), fez uma elegia a um dos piores torturadores e assassinos que esse país já teve (e que, entre outros feitos, torturou a própria presidente da república). Não há contemporização possível com tortura (ou com a sua apologia, seja esta feita sob qualquer desculpa ou disfarce). Estamos diante de uma corja de assassinos. De covardes, porque espancar e estuprar pessoas amarradas e indefesas, são coisas que só os mais pusilânimes dos covardes podem fazer – não vou nem falar em termos de direitos humanos, que esses vermes simplesmente nem entendem essa linguagem. Quero insultá-los com algo que eles pelo menos reconheçam como um insulto! Sim, Bolsocorja, você e todos os seus apoiadores são um bando de frouxos e de covardes, que só atacam em maior número, que só batem com a ampla e irrestrita proteção do Estado, que espancam pessoas em cárceres ou amarradas em postes sem a menor capacidade de defesa. Chamar os apoiadores de Bolsonaro de “jumentos” é um insulto aos quadrúpedes. CHAMAR BOLSONARO DE “MERDA” É UM INSULTO AO ESTRUME. E, nesse ponto, eu dou todo o meu apoio e toda a minha solidariedade à Dilma. Tem que haver limites.

Mas tem mais. Sim, porque no Brasil de hoje, ao que tudo indica, o poço não tem fundo. Foi impressionante ver que a bancada evangélica votou em peso a favor do impeachment. Os deputados mais ausentes, mais processados, mais picaretas e mais bandidos de todos. Fora o aspecto evidentemente obscurantista da qualidade desse voto. É claro que a generalização é a prima-irmã do preconceito, e é tacanho e aviltante deduzir que todos os praticantes da religião evangélica são fanáticos prontos às maiores insanidades em nome das suas nomenclaturas (que são muitas). Mas também, por outro lado, é fato que nenhuma religião tem uma atuação tão organizada e nociva nos dias de hoje. São eles os principais opositores das pautas LGBT, de direitos humanos, da mulher entre outras. Eles são a grande caução do bloqueio a leis de aborto, pesquisas científicas, eutanásia e etc.

Fora isso, você não vê ninguém de outras religiões tacando pedra em criança do candomblé no meio da rua, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro. Você não vê católicos ou espíritas invadindo terreiros e depredando objetos de culto. Você não vê traficantes ateus expulsando terreiros e mães de santo de favelas. É claro que há alguma coisa errada com essas pessoas, e eu quero gente que apedreja crianças pelas ruas bem longe do poder. Isso sem falar na picaretagem e no enriquecimento imoral das lideranças dessas seitas. Nessas horas, tenho muita dó de ser ateu. Queria acreditar na existência do inferno, no qual esses loucos tanto falam, porque é para lá que eles iriam, sem escala e sem direito a sursis.

Ao que tudo indica, tudo que há de pior na Via Láctea se juntou, no congresso nacional, no dia 17 de abril do ano do nosso senhor de 2016, para derrubar Dilma Rousseff. Alguma coisa essa pessoa deve estar fazendo de certo. O ponto central aqui é que o governo do PT não está sendo empurrado ladeira abaixo por forças progressistas ou à esquerda dele. Ele está sendo empurrado pelos mesmos de sempre. E os mesmos de sempre são o que há de pior. Na verdade, o PT não está nem mesmo sendo empurrado por forças que vão, como tanto se promete, acabar com a corrupção desse país, e blá e blá e blá, a não ser que alguém seja ingênuo o suficiente para acreditar que um processo de impeachment puxado por um dos políticos mais medíocres que já passaram por aquela Casa e corrupto de longa data (leia-se desde os tempos do Fernando Collor) tem alguma boa intenção de fato. Trata-se, inquestionavelmente, de um recuo, e eu tenho muito medo do que pode aparecer nesse vácuo.

Não quero referendar o discurso do medo tão caro ao PT dos dias de hoje. Foi com a plataforma do medo em relação ao ajuste que Dilma se reelegeu. Uma vez que ela assumiu, a oposição já começou a cavar esse impeachment desde o primeiro segundo de governo, e os seus defensores, em reação, plantaram um discurso de medo de um golpe militar do qual, graças a Montesquieu, não vejo o menor sinal no horizonte. Estamos fartos de medo, mas não se trata definitivamente de comprar um pacote de discurso que não me convence ou comove (assim como não acredito no papo da “guinada à esquerda”, que não virá). Trata-se, apenas, da constatação, nauseada e realista, de que a escória da terra se reuniu para recuperar o que “é seu de direito”. Uma vez que alguma daquelas bundas sente naquela cadeira, só o pior vai acontecer.

O Brasil se tornou um país realmente “chato” para comediantes sem talento que não sabem fazer humor com inteligência, que só sabem repetir preconceitos ancestrais dos tempos das sesmarias. As pessoas não estão mais dispostas a aguentar serem humilhadas. E nem espancadas. E nem mortas. E isso, é claro, é um avanço. Será que os tão criticados ministérios – criticados sob a desculpa esfarrapada do gasto público – criados pelo PT para cuidar das questões de igualdade de raça e gênero não têm algo a ver com tal transformação? É claro que, antes de tudo, esses avanços se devem ao protagonismo dos próprios interessados e dos respectivos e legítimos movimentos sociais que os representam. Mas ainda acho que a reflexão é válida. Estamos à beira de um termidor sem revolução. A reação conservadora será horrível, e apontada para todos os lados. Lembrem-se quantos votos foram justificados na base da oposição ao “kit gay” (sic) e a um suposto incentivo do governo à mudança de sexo das crianças na escola (sic). Teve até um desinfeliz a usar o filósofo (sic) Olavo de Carvalho, o subintelectual mais medíocre desse país, para se justificar. Não façamos ilusões. Tempos difíceis se anunciam.

Para mim, a pauta mais importante ainda é a das ruas. Se eu estivesse no Rio de Janeiro, estaria vivendo e respirando a ocupação das escolas 24 horas por dia. Acho que é daí que vem um futuro. Melhor, espero, do que essa “merda fóssil de agora” (comecei com Drummond, encerro com Maiakovski). As verdadeiras transformações não virão do governo, mas muito menos desse congresso plutocrata, conservador, hipócrita e corrupto até a raiz da medula óssea. O PT não vai fazer uma guinada à esquerda (não é preciso muito mais do que ter ouvido o discurso do José Guimarães para saber isso). Espero, quando muito, que o PT tire algum proveito da dura lição que foram as traições, por exemplo, da bancada ruralista, e se desembeste, pelo menos, de algum dos seus aliados intoleráveis. Mas não boto fé. Entretanto, sou uma pessoa muito mais de dúvidas do que de certeza. Embora não me paute pela histeria do “antigolpe”, e muito menos pela histeria do jornal nacional, fico na dúvida se não é muito esquerdismo deixar ir tão fácil assim o poder de volta para o lugar de onde ele nunca saiu (acho que até Lênin ficaria perplexo se tivesse que analisar o Brasil de hoje).

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Ruim com ela, pior sem ela


Amanhã as flores voltarão a crescer

Amanhã as flores voltarão a crescer

O domingo nasce alvissareiro. Afinal, hoje termina a corrupção no Brasil. Ou, por outro lado, o país reafirmará seu compromisso irrestrito com a democracia. No mundo das farsas, o conto de fadas está na mente de milhões de incautos. Tudo com ampla cobertura da mídia imparcial e responsável. Como há gente desinteressadamente preocupada com a nação! Como há dias melhores no futuro deste país!

Em pleno domingo, aqueles que não trabalham nem às segundas, nem às sextas reúnem-se pela preocupação coletiva e tentam dar à república uma solução de seus insolúveis problemas. Esse forte compromisso social é representado pelo impedimento do mandato da presidenta Dilma Roussef. Às ruas escolher um lado! Vamos celebrar a estupidez institucional.

Não há a menor dúvida de que o processo de impeachment é de um mau-caratismo sem tamanho. Quem o propõe não tem a menor legitimidade para fazê-lo, constrangendo qualquer conceito de ética e moralidade que se possa estabelecer. Evidencia-se uma luta pelo poder político da forma mais suja que a institucionalidade permite, com interesses particulares – especialmente em preservar suas corrupções – à frente de qualquer noção coletiva que a política possa representar.

Como sabemos, a legalidade é mero fetiche nas mãos dos interesses burgueses e não há o menor compromisso com alguma denúncia consistente ou mesmo motivação real para se levar a cabo um processo como esse. Denuncia-se a má gestão, a crise e uma série de desgovernos como fatos para um processo que nasce marcado pela vergonha. Nem mesmo os grandes barões internacionais do capital conseguiram comprar e defender as razões do golpe paraguaio que se quer dar.

É de se esperar, inclusive, que, caso haja qualquer problema com as contas do processo, o presidente da casa, impoluto defensor da moralidade, suspenda a votação ou coloque-a indefinidas vezes para repetir-se, até que o resultado seja aquele de seu agrado. Cada movimento como esse torna tudo mais instável e transforma em circo aquilo que o mundo esperava ser feito com discrição.

É fato que o capital internacional preocupa-se com os caminhos que o Brasil toma. Parece que não há grupo ou setor no país que seja capaz de implementar as medidas restritivas à população sem que haja uma enorme convulsão social. Ainda que todos as forças políticas nacionais acenem para sua capacidade de cumprir tais programas, não há quem apareça com um pingo de legitimidade para impô-las com um mínimo de aceitação. É uma sinuca de bico em que o capital necessita retirar direitos e aumentar a “austeridade”, mas deve manter o país governável para não prejudicar sua inserção na ciranda econômica mundial.

Hoje, o golpe paraguaio brasileiro já não é mais bem visto internacionalmente. Enxergam que houve exagero nos temperos pelo modo como foi assado o pato. A imprensa nacional virou chacota dos meios de comunicação mundial e já não goza de qualquer respeito por ninguém entre seus pares. O concerto que reafinaria a orquestra, de repente, transformou-se em uma ópera bufa, carnavalizada, que expôs a narrativa de uma mulher vítima de ladrões e malfeitores que querem retirá-la do poder. Nada pior do que uma história em que traidores saem vencedores e na qual se vitimiza a protagonista.

Do outro lado, um desesperado partido que se apega às velhas práticas que outrora já condenara e que briga a todo custo para se manter no poder, reafirmando-se como ainda capaz de aplicar o mesmo remédio amargo que seus opostiores alegam serem os únicos com capacidade para fazê-lo.

Indubitavelmente, o PT mostra apenas que tentou tornar-se um dos outros e aplicou, quando teve oportunidade, a cartilha de interesses dos poderosos, seja na relação com os movimentos sociais, seja na condução da política econômica. A cada passo para a direita – e olha que foi quase uma maratona percorrida pelo partido da estrela nessa direção! – mais próximo ficava do beco sem saída em que acabou se metendo. O intruso da festa não poderia mais escolher a música que embalava o baile.

Em 2002,  a carta aos brasileiros já anunciava a guinada que o PT assumia para ter nas mãos a presidência. Boa parte da esquerda esqueceu-se de seus princípios de luta e ajudou a construir a farsa das migalhas sociais em troca de um requintado sistema de exploração. Aos que denunciavam ou protestavam, a mesma truculência que tantos outros dispensaram.

Se o PT hoje sofre com a traição de seus aliados, sabe bem dimensionar a dor que infligiu quando ele próprio traiu a classe trabalhadora. Quem escolheu o caminho dos conchavos foi o próprio partido, que hoje tenta encontrar nas ruas alguma legitimidade para a única coisa que considera democrática no país: o resultado das eleições.

E é nessa lógica tosca, de lutar para manter migalhas e de fingir que democracia resume-se ao apertar de uma tecla verde, que milhões vão para as ruas gritar que não vai ter golpe. Do outro lado, armados com panelas, os outros milhões de ingênuos que acham que a corrupção é coisa da estrela e que bradam contra a perda de seus privilégios.

Desde 2013, a rua é o caminho. A serventia da casa, por assim dizer. Não para defender a institucionalidade que nada tem a nos oferecer senão sofrimento e restrição. Não para bradar por um conto de fadas que serve apenas aos interesses dos poderosos.

A luta está em nosso cotidiano. Categorias em greve, escolas ocupadas. Falta cair a ficha de mais gente. Boa, por sinal. Precisamos de unidade em um compromisso realmente de esquerda, de defesa dos direitos dos trabalhadores. Devemos exigir o pão e não aceitar mais as migalhas. Preciamos de conquistas. E só há vitória para quem luta. Ainda que com toda a luta, a situação pareça piorar por enquanto.

Amanhã, as pessoas não se abraçarão e entoarão cânticos unidas para comemorar o fim da corrupção ou a lição da democracia. As flores não se abrirão por conta do voto pelo povo que darão os nobres representantes de si mesmos no Congresso. Independentemente do que ocorra hoje é a luta o único caminho, pois os dois lados seguirão os rumos que não nos interessam. Por isso, não devemos recuar: se está ruim com nossa luta, será pior sem ela.

 

* Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.

* Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.

* Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.

* Referendo popular para todas as nomeações do STF.

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Nosso jogo é outro


Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Assembleia de professores em Curitiba. Foto: Bruno Covello.

Democracia. Uma palavra repetida aos quatro cantos do país, por diversas correntes e com intenções completamente distintas. O “jogo democrático” que se desenrola na política nacional tem mais de jogo que de democrático, sem dúvidas. Por um lado, a tentativa espúria de um impeachment cujo objetivo é a ambição política pelo poder; por outro, a defesa insistente de uma legalidade insossa, que garante o vendido projeto de poder do governo.

Há muito pouco de democracia em nosso sistema político. Quase que se resume ao sazonal processo eleitoral, como se isso fosse realmente o ápice da participação. É, na verdade, um processo de representação distante, que coloca ideologias e programas de lado e força colaizões em nome de cargos e trocas de favores. As portas da corrupção – inerente ao próprio capital – escancaram-se diante do modelo republicano que se construiu. Mais ainda: esta é a forma necessária aos interesses do grande capital no país, não se tenha dúvida.

Por isso, há de se ir muito além da defesa de um sistema que não nos representa. Não há porque se defender a democracia representativa brasileira, que só serve de palavra de ordem quando nem mesmo seus idealizadores acreditam mais nela. As leis, não canso de afirmar, são mero fetiche para quem anseia o poder.

Porém, dentro da conjuntura atual, pode-se ir além nas palavras de ordem. É dever da esquerda a construção de um campo que se coloque como opção frente ao falso maniqueísmo que se apresenta. Sejamos claros: um lado quer o poder para aplicar um programa de derrotas aos trabalhadores apenas porque crê que o outro já não tem condições de fazê-lo, embora o PT sinalize a todo momento que quer a chance para aplicar este mesmo projeto.

Assim, não há lado para se escolher entre golpistas e estelionatários eleitorais. Se é para manter minimamente a cara republicana do país, há de se exigir muito mais. O mínimo seria uma lista como essa:

  1. Destituição de todos os cargos do Executivo federal, Legislativo federal e Supremo Tribunal Federal.
  2. Eleições gerais imediatas, com proibição de candidatura por aqueles que são detentores atualmente de mandato.
  3. Instalação de uma Assembleia Constituinte plebiscitária e com participação de conselhos populares.
  4. Referendo popular para todas as nomeações do STF.

Somente uma ampla reforma política e judiciária, cujo início se dê pelas propostas apresentadas, poderá transformar o que temos hoje em algo parecido com uma democracia. Precisamos preservar os direitos civis e humanos previstos na Carta de 88, mas devemos reorganizar a parte política e organizacional das instituições, além de retirar previlégios indevidos e excessivos (como a vitaliciedade dos juízes, por exemplo).

O fim dos cargos de vice no executivo, com previsão para novas eleições no caso de morte ou impedimento do mandatário, medidas que possibilitem o Executivo governar para evitar o presidencialismo de coalizão (o famoso “toma-lá-dá-cá) ou, se for essa a vontade popular, o empoderamento do Legislativo de vez, tornando o sistema mais próximo do parlamentarismo. A possibilidade de recall de governantes e legisladores e a previsão de plebiscitos e referendos para questões que afetem diretamente os direitos trabalhistas e as garantias individuais, esses são pontos mínimos que devem ser alvo de um amplo debate na sociedade.

Além disso, devem-se assegurar medidas contra a desigualdade econômica, com freios à acumulação excessiva de capitais na mão de poucos detentores dos meios de produção, limites para comprometimento das riquezas do país com o sistema financeiro, bem como a desoneração de produtos básicos de consumo da população.

Tudo isto deve estar em pauta nesse momento. Bem mais que a defesa do arremedo de sistema democrático que permite toda a sorte de arrochos e perseguições à classe trabalhadora. É necessário retomar as organizações sindicais e os movimentos sociais; desfazer seu aparelhamento e colocá-los na luta efetiva de conquista dos direitos, e não na defesa da manuteção da política de aparelhamento que nos levou a essa situação.

A briga pelas migalhas nos tira a fome do pão. E nossa briga tem de ser por mais, não por manter o que tem sido menos para todos. O impeachment é mera filigrana legal para a disputa insana de quem consegue nos prejudicar mais. Por isso, não há como compactuar com o jogo. Viremos o tabuleiro. Fora todo mundo! Eleições gerais sem participação de quem tenha mandato! Por uma Assembleia Constituinte popular e participativa!

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Não vai ser golpe


fiespuño

O governo do PT acabou. Ruiu sobre suas próprias bases e é uma simples questão de tempo o seu fim. Não há, contudo, motivo para comemorações: a crise política e econômica, aliadas ao discurso de “herança maldita”, abrirá portas para medidas sufocantes para a classe trabalhadora.

Por outro lado, sempre é bom ressaltar, não há motivo algum para lamentações: o PT cai por suas próprias pernas, por sua incompetência em implementar todas as medidas necessárias ao grande capital e por sua traição ao fazer tantas concessões para aplicá-las.

Enquanto a economia mundial crescia, as políticas petistas foram extremamente úteis ao capital, endividando os trabalhadores e a máquina pública, trazendo altíssimos lucros a financistas e industriais, cooptando as lideranças sindicais e desmobilizando a luta da classe trabalhadora. O PT aprisionou a luta de classes nas instituições.

Entretanto, todos sabíamos que tudo aquilo que se oferecia como ganho social tinha prazo de validade, meros paliativos que não alteravam qualquer estrutura do sistema de exploração. Então, esse período passou, a crise chegou e as políticas conciliatórias e populistas passaram a não atender mais aos anseios de quem sustentava o partido no poder.

Marcham pelas ruas indecisos cordões. De um lado, as vias enchem-se de uma pequena-burguesia acéfala que repete o que a mídia lhe diz. A corrupção é o mote escolhido para agrupar a ingenuidade de muitos na porta da Fiesp, a instituição que quer o fim da CLT. O pato lhes representa de forma autêntica.

De outro, manifestantes saem para defender a “democracia” diante de um golpe. Ora, companheiros, o Estado democrático burguês e suas instituições nada têm de autêntico. Os princípios democráticos burgueses são apenas um fetiche da própria burguesia. A institucionalidade é sempre defendida com muito mais afinco pelos reformistas do que pelos próprios burgueses.

Lula e o PT mais uma vez apostaram no caminho institucional, nas alianças e concessões – alguém esperava algo diferente? Dilma cometeu suicídio politico ao nomear Lula ministro, claramente para fugir da perseguição política imposta pelo juiz Sérgio Moro, o grampeador geral da república.

O grande capital não respeita instituições. Mais: utiliza-se delas para legitimar suas vontades. Assim, o judiciário brasileiro passa por cima de qualquer legalidade, espetacularizando suas ações e fazendo crer que, para destruir o PT, vale qualquer coisa. Os fins justificam os meios, dizem os olhos de ódio em verde e amarelo que desfilam por aí.

Com as instituições tomadas pela necessidade de derrubar o governo, a mídia cumpre o papel de acelerar o processo, julgar e definir a pauta do país. A articulação entre mídia, Legislativo e Judiciário, todos a serviço do grande capital, não deixa dúvida sobre os próximos capítulos da novela rocambolesca, sobre a republiqueta em que se transformou o Brasil.

O governo – e muita gente de valor embarca nessa – agarra-se no resultado eleitoral para garantir sua legitimidade. Ora, Collor também teve mais votos na urna que Lula em 89, mas não foi impedimento para que as bandeiras vermelhas fossem agitadas pelo impeachment à época. Fora qualquer um é direito legítimo de todos, lembremo-nos.

O fato é que o PT é minoria no Congresso e na sociedade. Suas constantes traições aos trabalhadores, sua postura de capitulação sucessiva afastou-lhe de sua própria base eleitoral. A política econômica austera, contrariando suas promessas eleitorais fez o PT órfão de si mesmo. Hoje, paga o pato (olha ele aí de novo) por suas opções e corrupções.

Um golpe só ocorre quando uma minoria derruba um governo representativo da maioria. Quando ocorre o contrário, a maioria toma o governo da minoria, há revolução. E, nesse caso, estejam certos, não há nenhum dos dois. O governo não é maioria e tampouco há no Congresso ou nas organizações partidárias nenhuma representação da vontade desta maioria.

O circo montado serve à manutenção do status quo, presta-se à abertura de um caminho mais livre e justificado para a subtração de direitos e garantias dos trabalhadores. Tudo com a cara democrática, via legalidade.

É risível pensar em uma comissão de impeachment repleta de acusados de corrupção. É emblemático ver Paulo Maluf no processo de julgamento da presidenta! Se isso serve para desabonar a comissão, nunca é demais lembrar que o deputado será um defensor de Dilma e votará contra o impeachment. Foi isso que o PT se tornou. A guerrilheira contra a ditadura precisa da ajuda do candidato a presidência daquela mesma ditadura. O poder é absolutamente paradoxal.

Só há uma saída para os trabalhadores: organização e luta. Derrubar as lideranças sindicais acomodadas e cooptadas pela luta institucional. Organizar a resistência contra os ataques que surgirão em nome da gestão da crise. União para desfazer o que já foi feito e o que há de vir.

Porque o golpe, companheiros, esse já foi dado. Foi dado pelo PT ao trair os trabalhadores, ao garantir o lucro dos rentistas, ao desmantelar as representações sindicais, ao aprovar a lei antiterrorismo, ao reprimir violentamente os movimentos sociais, ao implantar a política econômica de Levy e companhia, ao buscar de todo jeito vender sua alma para quem nem sequer a queria comprar.

As portas foram abertas pelo próprio PT. O golpe já foi dado. Agora, eles já entraram em nosso jardim. Nossas flores já foram pisadas. Não adianta o arrependimento, não soa bem a falsidade de buscar agora uma imagem de esquerda. Trabalhadores, resistamos! Contra as instituições, contra a hegemonia partidária, contra o capital. Precisamos refundar um país.

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A dança dos hipócritas


JDCOXINHA

A praça é do povo. O céu é do condor. E o momento, dos oportunistas. Dancinhas, slogans, panos verdes e amarelos, sorrisos de dentes brancos perfeitos que não escondem a espuma do ódio que lhes salta pelos cantos da boca. Tudo certo. No pensamento, o deserto. Tudo certo. Como dois e dois são cinco.

A oportunidade aos oportunistas foi dada pelo próprio PT. Que reage. Quer cair atirando. Como se já não estivesse tudo decidido, tudo formatado, sentenciado e acordado. Chora o PT sobre o leite que derramou. E acusa, como se isso lhe fizesse mais honesto. E grita, como se já não tivesse tido a oportunidade de fazer o que fala. E esperneia, movido apenas pelo medo de ser alijado do poder.

De fato tem razão quando diz que a justiça é parcial e persegue apenas alguns. Mas… Só agora, PT? E os 23 companheiros perseguidos há tanto tempo? Será que na década de noventa era diferente? Ou a prisão preventiva do Lula é mais absurda do que a prisão infinda do Rafael Braga?

Tem razão também quando diz que a Globo (metonímia disfêmica para mídia) é parcial e calhorda. Mas já não tinha sido em 89 contra o próprio PT? Não tem razão para reclamar. Afinal, foram os únicos a ter a oportunidade de modificar tal quadro. Porém, negaram-se. Estiveram ao lado da ordem, do capital e da possibilidade de eternização de um projeto de poder que nem próprio é.

Em nome disso, o PT assassinou a esquerda, roubando-nos a denominação e a imagem e deixando que a imprensa fizesse uma dicotomia que jamais existiu. Rá rá rá. Marx e Hegel. O Grouxo, talvez. De tanta estupidez – muitas vezes defendida por valorosos companheiros – fomos reduzidos a estereótipos pela propaganda oficial. Enterrados sobre o esterco dos discursos acéfalos. Isso sim é culpa do PT.

A política eterna de concessões ao capital e de contradições de si mesmo, aliadas à falta de vergonha na cara em negar o estereótipo “esquerdista” que lhe colavam, trouxeram a pior consequência de todas, aquela que hoje passeia com a camisa da CBF pelas ruas. O PT abriu as portas do tártaro ideológico e soltou um sem-número de bestas atávicas que gritam imbecilidades ao ar livre.

Não que não haja direitos da direita. Óbvio que há. A rua é para todos. Inclusive para a mais oportunista e assanhadinha cara da direita. Que, claro, não tem a menor vergonha em pegar carona com os amigos fascistas, intervencionistas ou quaisquer outros. A direita brasileira nunca teve caráter nem pudores.

E um batalhão da abobada classe média toma os espaços públicos para defender os interesses privados. Gritam contra a corrupção como um pano branco estendido sobre a lama. Como se a corrupção fosse exclusiva de um grupo ou partido. Como se sonegar impostos não fosse desviar dinheiro público da mesma forma. Como se realmente o problema fosse a corrupção.

Pois sim, não é a corrupção nosso mal! Não é apontar o dedo (sujo) para quem “roubou” que irá “limpar” o país. Isso justifica o surto idiota de “contra-ataque” petista: mostrar que Aécio e a tucanada são tão sujos quanto quaisquer outros. Ora, são todos tão porcos e encardidos quanto aqueles que chafurdam nas manifestações alopradas. Ou mesmo os que escrevem nos blogues, para não me excluir. Ou os que os leem, que seja.

Sim. A corrupção faz parte do sistema, seja lícita ou ilícita. 150% de juros bancários não é corrupção? Doação “legal” de milhões de reais para uma campanha política não é corrupção? A formação de um Congresso que só chega até ali por campanhas milionárias e comprometidas não é corrupção?

A falta de ética incomoda-me muito menos que a hipocrisia. Porque, entendendo tudo isso, posar como arauto da ética é vergonhoso, mesquinho, abjeto. A hipocrisia é mais odiável que qualquer outro defeito que tenham os que caminham sem rumo pelas ruas.

A festa da mídia está pronta. Os tolos já ocupam seus lugares estratégicos. Os oportunistas já manobram. Os ingênuos compartilham as idiotices. Os iludidos ainda defendem o indefensável. Correntes de cores diferentes prometem passear pelas ruas. Não pode haver simpatia com quaisquer delas.

O inimigo de meu inimigo não é necessariamente meu amigo, pelo contrário. Matemática não rima com política. Se o governo entreguista e corrupto é inimigo da classe trabalhadora, não serão os paneleiros a nos salvar. Olho vivo, pois eles venceram e o sinal está fechado para nós. Não podemos, em momento algum, imaginar que nas ruas estão os indignados, quando tão somente passeiam os indignos.

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Parem de me conduzir coercitivamente a querer o Lula lá de novo, por favor. Obrigada. De nada.


Foi começar esse rififi e blablablá dos últimos dias e fui atingida por um tsunami de memórias de infância. Todas ligadas aos meus primeiros contatos com temas políticos.

As mais remotas devidas à minha avó que me contava histórias de sua vida no tempo da ditadura Vargas. Só mais tarde vim a saber que ela entendia pouco ou nada da Política e parecia apenas ter prazer em dividir o espanto que sentia diante do mistério: o que animava os homens a toda esta brigaiada? Pelo quê brigavam eles? Porque não se juntavam todos pelo bem de todos ? Ótima contadora de histórias, suas narrativas fragmentadas faziam pouco sentido para uma menina recém alfabetizada mas inspiravam filmes imaginários na cabecinha de vento que sobrevivem até hoje.

Um deles: o racionamento da gasolina e o estoque clandestino (e ilegal) mantido por meu avô para fazer rodar os táxis de sua frota que iam a Minas Gerais levar ricaços da cidade para apostar nos cassinos durante a II Guerra Mundial.

Outro: Ela, com apenas 9 anos, tirando neve da calçada e varrendo toda a casa antes que os demais acordassem, sonâmbula, com sua camisola de feltro e mangas compridas.

O preferido: sua mãe, escondida no porão por uma semana fugindo da perseguição de sabe-se-lá-quem ( ela não sabia). Sabia que era operária da fábrica de tecidos e tinha havido uma greve, outra coisa misteriosa, sobre a qual só sabia me dar notícia de mulheres gritando e indo em grupos, com seus vestidos pretos, brigar com a polícia.

As histórias mais divertidas eram narradas em dupla com minha mãe e interrompidas pelas escaramuças entre as duas, sempre disputando alguma coisa, nem que fosse apenas as suas versões sobre modos e polidez.

“ – Sua mãe dava muito trabalho…

– Eu ?!

– Sua tia A., não, essa era boazinha.

– Eu não sou é sonsa.

– Não fala assim, olha a boca suja, olha a menina…

– Sonsa ??! Que é que tem, mãe ? A senhora também, viu.

– Não seja mal educada…

– Quem me educou foi a senhora, a culpa não é minha.

– Lavei sua boca com sabão quantas vezes ? Não adiantou porque você é teimosa.

– A senhora parece boba.

– Olha o respeito, olha a menina.

– Chega, mãe, não provoque”

Como se dizia naquele tempo, “ o gênio das duas não combinavam” e nunca viriam a combinar. Mas nos anais do tribunal materno constava uma punição injusta e desmedida que marcaram para sempre seu juízo sobre a mãe: arbitrária e castradora.

A versão do episódio pela minha mãe. Lá ia ela, menina, pela calçada, toda empoderada no domínio do alfabeto adquirido há pouco, lendo tudo que vinha pela frente, inclusive a pixação em letras vermelhas no muro branco: “ Votaram no Dutra? Come polenta seus filhos da pu..” e mais não leu porque seu pé falseou no meio fio, a perna inteira foi se esfolando na pedra até que rolou no calçamento mas nem teve tempo de chorar, colhida pelos tabefes de minha vó: “ Menina não fala palavrão! Limpa essa boca, menina, vai lavar com sabão!”.

A versão da minha avó: Tanto meus tios quanto meu avô usavam ternos de linho que ela tinha de lavar, passar e engomar – com ferro a carvão. Se saía de casa era por necessidade, um médico, buscar uma roupa na costureira, tomar uma injeção na farmácia, ir tratar de algum assunto na escola dos filhos. Não podia andar pela rua como tartaruga a esperar xeretice de menina. Minha mãe era muito xereta, custava a obedecer, modos de menina, menina boazinha, mesmo, daquelas que dá gosto à mãe nunca teve.

E daí ? Dizia a filha da minha avó. Não sou é sonsa !

Filmes antigos que só passam na minha cabeça feitos de outros que as duas, cada uma ao seu modo, tinha vivido.

Minha avó se foi há quase 40 anos e deixou em mim marcas de doçura, flexibilidade e resiliência. Minha mãe segue firme e forte a caminho das 8 décadas de vida, recordando e reinterpretando o que viveu, como convém a quem não está morto. Sempre ativa, sempre combativa.

Quem tem memória pode pensar e quem sai aos seus não degenera. Nunca fui “lulista” pela simples razão de não gostar do aspecto fulanizador da política. Eu gosto é da História, do embate diário, dos misteriosos caminhos pelos quais segue a Humanidade em eterno conflito com suas necessidades objetivas e subjetivas. Como animal político gosto de estudar e interpretar os grandes jogos que têm definido os destinos da Humanidade sobre a Terra. Guardo para mim e uns poucos amigos próximos minhas impressões sobre os atores políticos que conduzem a vida nacional porque entendo que é suficiente falarmos de suas ações na esfera pública e política para entender quais são seus valores éticos de base.

Estou tranquila e acho que está favorável para o Brasil dar um grande salto ético e político neste momento. Para isto penso que o melhor é Dilma continuar onde está. Mas é necessário também que o Judiciário se torne imparcial no encaminhamento desta que embora pareça “ a maior faxina da história de corrupção do país” não me faz esquecer que de “ operações” e “ caça aos corruptos” este inferno está cheio. Não é a primeira “faxina” que assisto e temo que não seja a última.

Até agora, sou sincera, a única mudança que conseguiram obter no meu espírito foi reavaliar minhas críticas ao ex-presidente Lula e a minha conclusão, bem, acho que todo mundo entendeu.

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Ainda uma vez PT


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Eu tinha jurado a mim mesmo não escrever mais sobre PT. Antes de tudo, porque fiquei farto de dialogar com a vesânia. Qualquer texto que você produza sobre o PT, contra ou a favor, será enxovalhado. Existe um limite para o que eu posso tolerar de insultos escritos com erros imperdoáveis de português. E, também, qualquer coisa que você escreva sobre o PT se tornará um “sucesso instantâneo”, pois será lido, compartilhado, debatido, insultado, aclamado… Creio que a segunda razão me cansou mais do que a primeira. Me recuso a obter os 15 minutos de fama que me cabem em cima de uma disputa da qual me sinto a cada dia mais distante (e justo eu, que sempre odiei aqueles “polemicistas” retardados e inúteis sem nada de importante para dizer, tipo Olavos, Mainardis e que-tais). Optei, com e sem trocadilho, pelo silêncio, já faz um tempo. Não é para menos.

No entanto, acompanhei com muita tristeza as comemorações, via jornais da Globo (coisa que também não fazia há muito), da direita histérica e alucinada em relação a tal prisão do Lula. O PT é indefensável, e eu esperei muito mais de um presidente vindo do movimento operário, mas os que querem tomar o lugar deles são muito piores. Comecei a escrever este texto na minha primeira sexta-feira em Brasília. A primeira sexta de uma vida indiscutivelmente nova. Não estava aqui nem há uma semana, mas parecia que uma década se passara. Foram dias de muitas intensidades. Enquanto William Waack se deleitava no Jornal da Globo, minha filha dormia no seu quarto. A mãe aproveitou que agora há um pai na cidade, me deixou cuidando da cria e foi a uma festa. Justo, após esses anos todos. Minha filha se encontrava no território dos sonhos. Sonhava, quem sabe, com algum personagem das historinhas que ela consome, com algum amiguinho da escola, ou com qualquer outra coisa mais etérea com que crianças de seis anos sonhem. Ela, pura e inocente, dormia o sono dos anjos e não desconfiava que o mundo estava desmoronando (em todos os sentidos). Pensei nela, olhei para o futuro e senti um ligeiro arrepio. Só as crianças e os tolos podem estar tranquilos em um momento como este. Olho para a frente e não vejo nada de bom saindo desse circo. E não demorou muito para que minhas expectativas ruins se concretizarem.

Previsivelmente, as viúvas de ditadura começaram a sair dos seus armários. Não que eu acredite que haja um golpe a vista. Quero crer que não há nenhum militar neste momento disposto a enlamear a própria farda em benefício do Aécio Neves. Mas é sempre preocupante, em um país com o nosso histórico, quando formadores de opinião começam a abertamente defender o imponderável.

No entanto, como poderia eu ir às ruas defender uma Dilma que se calou (no mínimo) frente ao arbítrio da polícia e dos desgovernos cariocas e fluminenses? Que deixou amigos meus (sim, amigos) sofrerem prisões completamente injustas e passar por processos farsescos à beira do kafkiano? Que conviveu (ou será “coniveu”) com as piores remoções desde os tempos em nada saudosos de ditadura? Que tipo de incentivo teria eu para defender tal governo, seja escrevendo, seja me manifestando? Reconhecer os avanços sociais não é defesa, por si só. Assim como reconhecer que a Lava a Jato foi uma operação política e partidariamente enviesada desde o seu começo, por valorizar certas delações em detrimento de outras, também não. A diferença de tratamento que o PT sofre por parte do judiciário e da imprensa é evidente para além de qualquer questionamento, o que só reforça o argumento clássico petista da perseguição política.

Apesar de avanços sociais inquestionáveis (a realidade nos traz dados, brigar com os dados é brigar com a realidade, e brigar com a realidade produz análises ruins), como disse Walace Cestari neste mesmo blog há poucos dias, em texto que assino embaixo e me deixou com pouco a acrescentar, essa luta já não é mais minha há muito tempo. Foi pela violência das suas polícias que fui arrastado, aos trancos e barrancos, para o lado da Vila Autódromo, da Aldeia Maracanã, da Favela da Telerj, da Favela do Metrô. Para o lado do Rafael Braga, da Sininho, da Eloisa Sammy e de tantos outros. Para o lado da Mariana Santos de cabeça quebrada por cassetetes (e de tantos outros e outras, midiativistas ou não) a mando imediato, é claro, do governo do estado, mas no mínimo com a conivência silenciosa de um governo federal para o qual não interessava em nada, naquela hora, o povo na rua. Então, não me culpem pela surdez em relação aos seus apelos. Culpem a si mesmos. Quem jogou a própria história no lixo foram vocês. Mas acreditar que o Brasil entrará para o reino da ética via Aécio Neves, ou que a faxina da corrupção virá do Eduardo Cunha, é acreditar que é possível limpar o chão com merda.

E aqui entramos no ponto nevrálgico do momento em que vivemos. Prefiro falar dele por meio de uma história na verdade muito triste. Um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros foi um veemente apoiador da ditadura militar: Nelson Rodrigues. Este é um fato que os seus biógrafos e admiradores tendem a minorar. Diz uma anedota da época que, uma vez, perguntaram ao Hélio Pellegrino se ele achava que Nelson aderiria aos militares, ao que ele teria respondido que seriam os próprios militares que adeririam ao Nelson Rodrigues, de tão reacionário que ele era. No entanto, a medida que o regime endureceu, o seu filho, Nelsinho, foi tomando uma direção bem diferente. Ele entrou para o MR-8 e, com o passar dos anos, foi subindo cada na hierarquia da organização, chegando a participar de uma ação em que um oficial do exército morreu. Nelson, por seu lado, começou a perceber os abusos do regime e passou a usar sua influência para ajudar pais a localizarem filhos. Também, às vezes, quando sabia da iminência da prisão de filho de algum conhecido, ligava para a família para avisar que aquela pessoa faria melhor em desaparecer (e rápido). Alguém, nesse período, chegou a se referir a ele como “agente duplo do bem”.

A acreditar na biografia de Ruy Castro, em um encontro com Médici (que também era um fanático por futebol e requisitara uma ida a um estádio com Nelson), Nelson pedira ao ditador que, caso seu filho (que àquela altura se tornara um “terrorista” conhecido e procurado) fosse preso, ele garantisse que os serviços de repressão “pegassem leve” com ele. O problema é que pouco depois Augusto Boal foi preso, e todo mundo soube que ele estava sendo barbaramente torturado no Dops de São Paulo. Nesse ponto, Nelson se indispôs com o regime, escrevendo em favor de Boal em um jornal carioca. E os militares não se esqueceram disso, assim como não esqueceram o oficial morto, quando capturaram Nelsinho em 1972. Justo Nelson, que ajudara a localizar os filhos de tantos, demorou mais de duas semanas para descobrir se o seu próprio estava vivo ou morto. Localizou-o em uma cela, em estado deplorável, com marcas evidentes de tortura, como os fêmures a mostra acima das canelas, de tantos chutes que levara. Mas o calvário estava mal começando. Depois disso, Nelson, cada vez mais velho e doente, só pode vê-lo em visitas a presídios, sempre diferentes, pois que ele era frequentemente transferido, parando inclusive em Ilha Grande. Foi condenado a mais de 70 anos de prisão (no fim, ficou “apenas” oito anos preso), e quando as discussões da Anistia, Nelsinho fez parte de um grupo de mais ou menos 20 presos políticos que o regime não queria liberar de jeito nenhum. Acabaram soltando-o, em um gesto de “generosidade” do regime, mais ou menos equivalente ao de Mussolini libertando um Gramsci doente e a poucos dias de morrer para que ele não falecesse no seu cárcere. Porém, tarde demais. A doença de Nelson evoluíra, e ele morreu no hospital delirando um dia após a libertação de Nelsinho. Nelson Rodrigues morria após quase vinte anos sem ver o filho em liberdade.

Moral da história: nunca apoie ditaduras, por mais reacionário e conservador que você seja, pois alguém sempre paga um preço alto por isso, e, às vezes, quem paga esse preço pode ser o seu próprio filho. Caro Merval Pereira, lembre-se do seu desafortunado colega antes de escrever a próxima coluna asneirenta no Globo sonhando acordado com golpes militares: ditaduras desenvolvem vida própria. Ditaduras não conhecem limites. E ditaduras bicam os olhos até mesmo dos seus mais fervorosos defensores.

Moral da história dois: precisamos de uma mudança de sistema, não de governo. A única maneira de me fazer ir a algum dos atos marcados para os próximos dias seria alguém colocar uma arma na cabeça da minha filha e dizer: “você tem que escolher: ou vai no ato contra a Dilma, ou no a favor da Dilma”. Nesse caso, eu me tornaria um fervoroso defensor da Dilma Rousseff, pois não gosto nem de estar no mesmo planeta que o pessoal do outro lado, quanto mais no mesmo ato. Como felizmente isso não vai acontecer, posso ir para a cozinha, passar meu café e acender meu cigarro com tranquilidade.

 

Fontes para Nelson:

O anjo pornográfico. Ruy Castro

Teatro do Pequeno Gesto. Folhetim especial Nelson Rodrigues. N. 29, 2010

A ditadura derrotada. O sacerdote e o feiticeiro. Elio Gaspari

 

 

 

 

 

 

Categorias: Política, Sociedade | 2 Comentários

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