Preciso de ajuda


É por causa de um problema de saúde mas não vou pedir que façam “ vaquinha” ou partilhem fotos escatológicas. É um caso sério demais para que coisas como estas ajudem.

Trago de 2015 a vergonha de uma tarefa não cumprida. Como representante dos usuários de uma Unidade Básica de Saúde ( que alguns chamam de postinho) havia me proposto a fazer um blog de esclarecimentos sobre o SUS já que eu mesma demorei meses para entender a barafunda de siglas e problemas. Não consegui.

Agora, com a aproximação do Dia Mundial da Saúde, à vista do começo das movimentações de milhares (sim, somos centenas de milhares) de militantes do SUS, quero enviar à plenária de saúde da qual faço parte uma proposta de mobilização da sociedade civil para fazer frente à verdadeira campanha de desmoralização dele (o SUS).

Então pensei em uma coisa simples, uma espécie de resumo da questão que tornasse qualquer grupo ou coletivo capaz de começar a discutir o problema da Saúde brasileira e motivar mais gente a buscar informações sobre o SUS.

Meu pedido portanto é simples. Poderia ler estas poucas linhas e me dar sua opinião ?

Agradecida.

“O QUE É SAÚDE ?

Dizia um ditado antigo é “ mente sadia, corpo sadio” talvez porque é mesmo fácil perceber: a saúde um estado de bem estar que depende do corpo de da mente.

Por isso, basta pensar um pouquinho para entender que para ter saúde a pessoa precisa comer bem, dormir bem, ser cuidado quando adoece e estar bem consigo mesmo e com o seu meio-ambiente.

Saúde é vida. Saúde é tudo.

O QUE SERIA ENTÃO UM BOM PLANO DE SAÚDE ?

Qualquer Plano de SAÚDE tem que começar por prevenir as doenças do corpo e da mente, isto é PRESERVAR a saúde. E isto só é possível em uma Sociedade organizada de forma a propiciar a todas e todos cidadão as condições de vida mínimas para preservar a saúde. Não adianta você cuidar de sua saúde se seus vizinhos, parentes, colegas de trabalho, empregados não tiverem acesso aos cuidados de saúde. Quando muita gente está doente ao seu redor você também fica mais vulnerável a adoecer mental e fisicamente.

Por isso todo mundo precisa de um PLANO de saúde. E não dá para falar de um plano de saúde para um país enorme como o Brasil se ele não envolver as condições de moradia, alimentação, cultura e educação de todos os cidadãos e cidadãs do país.

Saúde é vida. Saúde é tudo.

PLANO DE SAÚDE É SUS . NÃO TEM OUTRO.

Quanto vale o SUS ?

O SUS foi criado para atender todos os cidadãos e cidadãs brasileiros sem distinção de sexo, cor, idade ou quaisquer outras.

O SUS é o PLANO DE SAÚDE UNIVERSAL QUE COBRE TODO O TERRITÓRIO NACIONAL cuidando de :

Prevenção

Segurança alimentar e de medicamentos ( Fiscalização de alimentos e remédios realizados pela Anvisa)

Controle de epidemias ( Vacinações, campanhas de conscientização )

Campanhas de conscientização ( como alertas para sinais e sintomas da diabetes, hanseníase, verminoses, doenças regionais, DST, distribuição de contraceptivos, etc.)

Atendimento a doenças

Consultas

Exames

Cirurgias ( inclusive de alta complexidade como transplantes)

Distribuição de remédios

Acidentados ( pesquise quantos atendimentos só no ano passado, inclusive “casos famosos” que, sem o SAMU e equipes de referência do SUS, não teriam sobrevivido)

Qual é o plano de atendimento privado de doença que dá esta cobertura ?

Nenhum

QUANTO CUSTA O SUS?

O investimento atual do SUS era de 25 reais por pessoa/ mês por cidadão em 2005. Pesquise quanto é atualmente.

O orçamento disponível para o SUS hoje em dia é menor que o de muitos países, mesmo alguns bem menos ricos que o Brasil: África do Sul, México, Argentina, Uruguai, etc.

Além disso, parte da verba do SUS é desviada para:

– pagamento de aposentadorias, dívidas,

– atendimento a conveniados de planos privados de atendimento a doenças – planos que cobram muito mas deixam o cidadão/cidadã desatendidos quando ele tem uma doença grave, envelhece ou se torna um “mau negócio”.

– corrupção : médicos contratados que não cumprem horários, OS ( organizações sociais) contratadas para gerenciar equipamentos públicos que desviam recursos para benefício de seus diretores ( como o caso recente dos donos de Haras no RJ) ou clínicas privadas.

– Fila dupla – gente que paga fortunas aos planos de saúde e furam a fila do SUS para usar hospitais de referência públicos, mantidos com verbas públicas.

-Judicialização – pessoas que pagam fortunas a “planos privados” mas quando precisam de remédios e procedimentos de alta complexidade processam o estado, com suas despesas recaindo sobre o SUS que assim, deixa de atender aos mais pobres, sem dinheiro para contratar serviços advocatícios.

 

Quanto custa um chamado plano “ de saúde” privado ?

O preço do atendimento à doença do cliente mais o lucro da empresa. Por isso ele não pode ser chamado de plano de saúde. A sua saúde é uma mercadoria que possa ser vendida e comprada na bolsa de valores? Não faz sentido. Gente doente não dá lucro para plano privado.

O QUE VOCÊ PODE FAZER PELA SUA SAÚDE E DA SUA FAMÍLIA ?

-Juntar-se à luta pelas melhorias do SUS para que ele possa se tornar eficiente e eficaz, realizando bem todas as tarefas para a qual foi criado.

– Juntar-se a uma grande mobilização para preparar o DIA MUNDIAL DA SAÚDE- dia 07 de abril.

Esta mobilização vai ser concluída com Marchas e Eventos em todo Brasil no dia 07 mas você pode ajudar na sua preparação.

COMO

Nas escolas, empresas, condomínios, grupo de amigos, clubes, etc. no dia 06 de abril (véspera da Marcha pelo DIA MUNDIAL DA SAÚDE) podemos realizar ações diversas – qualquer uma que se possa imaginar : uma manifestação artística, uma oficina de esclarecimento e fortalecimento do combate ao mosquito aedes egipty, etc. e postar nas redes sociais com a hash tag # PLANO DE SAÚDE É SUS, NÃO TEM OUTRO.

** A foto acima é da sala de espera de consultas de uma UBS do SUS em SP- capital.

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Filhos


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Estou com dois livros de literatura infantil escritos, e um terceiro a caminho. Este último, atendendo a milhares de pedidos, será baseado nas falas da minha própria filha, muitas que “viralizaram” na internet. Ainda não encontrei quem os publique, embora até mesmo os meus críticos mais severos (além de diversas pessoas da área, como ilustradores e etc.) tenham aprovado as redações finais dos dois já prontos e os tenham considerado muito bons. Como se diz por aí, na casa do ferreiro se morre empalado, ou qualquer coisa do gênero, pois mesmo trabalhando no mercado editorial desde os remotos tempos do Fernando Henrique Cardoso, de quem deus salve a memória, pois dos governos não sou eu que tenho saudades, não consigo arranjar cristão (ou muçulmano, ou judeu, ou hare hare) que os publique (embora o meu livro “para adultos”, que ainda está em processo, já tenha encontrado interessados em publicar – ironias).

Esse aspecto da literatura, a infantil, surgiu para mim bem por acaso, a partir da enorme realização que experimentei na paternidade. Antes disso, foi uma área pela qual eu nunca sofrera o menor interesse. Assim como nunca o sofrera pela própria paternidade. A paixão completamente irracional e devoradora que sinto pela minha pequena cria veio como uma surpresa para mim. A minha melhor surpresa, que não demorou nada a emergir: nunca esquecerei da ultrassonografia dos três meses, da qual já saí perdidamente apaixonado por aquele pequeno serzinho, que, por rolar de um lado para o outro do útero da mãe (que nesse ponto do desenvolvimento embrionário ainda é grande como um salão de baile), tornou o trabalho do médico quase impossível, pois que ele teve que “perseguir” a danada de um lado para outro da barriga. Parecia que ela estava, pilantrinha, de sacanagem com a gente, não querendo se deixar revelar. Foi a partir desse impulso, dessa realização, dessa “vibe pai” que escrevo o texto de hoje (que não é, de nenhuma maneira, para crianças). Vou deixar as desgraças do mundo descansarem em paz ao menos por uma semana e escrever sobre outro assunto que me cativa, ao mesmo tempo em que me apavora, que é o do amor absoluto. Vamos ao texto:

 

Filhos. Nós sempre os sabemos, da mesma maneira misteriosa como a galinha, clarissemente, sabe o ovo. Sem minha filha, eu seria uma pessoa muito desesperada e muito diferente. Diferente para pior. Os filhos são o nosso grande mistério. O assustador mistério do tempo. Filho não é para ter com qualquer um. Às vezes, é mais seguro ter a partir de um amor de uma noite. Melhor que ter com marido escroto que bate. Não a regras familiares tradicionais que excluem (a solteira, o gay, a lésbica)! Modelos só trazem infelicidades…

Como pequena obra minha para o mundo, crio-a para a independência, para ser livre. Eu e a mãe a fizemos para que ela seja o que quiser. Nós, juntos, a criamos para a potência. Me afastei de muita gente por causa da minha filha. Quando descobrimos que ela seria uma “ela”, ouvi de “amigos” a “piada” “vai passar de consumidor para fornecedor”. Nunca topei muito piadas machistas, mas essa, além do alto grau de deselegância, não consegue sequer ter um mínimo de graça. Graças a Darwin nunca mais vi essas pessoas. Não quero minha filha criada perto de gente assim. Quero minha filha criada no meu gueto, onde todo mundo é socialista, machismo é mal visto, racismo é inadmissível e onde amigos gays e de todos os tipos transitam com naturalidade.

Na verdade, sinto-me confortável por ter uma meninazinha. Nunca respondi muito ao estereotipo do homem brasileiro. Futebol me entedia mortalmente. A graça de assistir a uma corrida de Fórmula 1 permanece até hoje um grande mistério para mim. Aliás, carros de maneira geral nunca me interessaram. Não entendo nada de marcas, modelos e mecânicas (embora eu entenda um pouco a física envolvida) e voluntariamente abdiquei de dirigir. Sou formado em Letras, com o agravante da graduação ser em francês. Fiz canto coral por anos. Creio que todo o meu lado “matcho” foi despertado por uma grande paixão por boxe, que eu pratico e acompanho… Não sei como seria ter um menininho. Claro que iria amá-lo do mesmo jeito, mas não posso falar a priori de uma experiência que não tenho. Mas ele certamente treinaria boxe comigo, assim que a idade permitisse, assim como minha filha irá fazê-lo (nesse mundo ginocida, faria mais questão de treinar a menina em artes marciais do que o menino).

Filhos são surpresas o ano inteiro. Cada dia uma novidade. Um desenvolvimento novo, ao qual babamos por acompanhar, uma nova conquista, uma frase louca ou doce. A minha me encanta pela inteligência, pela sagacidade e pela capacidade de me zoar. Ficou famosa a história quando ela me disse que não estava me chamado de burro, “eu só estou dizendo que você não tem um cérebro muito bom, porque ele não vê grandes ideias”. Ou quando, ao comer uma banana, eu fui sacaneá-la perguntando “Tá boa essa bananinha, Bananinha?”, ao que ela, prontamente, respondeu, “Sim senhor, Senhor Bananinho”. Poucos dias depois encontrei uma amiga na rua, que lera a história na internet, e me chamou de “Sr. Bananinho”. Ganhou meu coração para sempre.

Conheço muitas mulheres que optaram por não ter filhos, o que é razoável e compreensível, embora na nossa sociedade patriarcal e machista isso seja mal visto, por mais que seja uma besteira. Homens com a mesma postura não sofrem a mesma discriminação (é incrível como homem pode tudo, não é mesmo?). Minha experiência pessoal, no entanto, me diz é sempre melhor tê-los. A minha filha me tornou melhor. Minha filha me tornou mais generoso só de a saber. Umedeceu-me a secura e me ensinou a querer o futuro. Tento ser o melhor para ela, e ela, sem dúvida, é o melhor de mim. Recomendo.

 

 

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Aninho de merda


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Hoje, aos 30 de dezembro de 2015, como já está se tornando uma tradição, lanço o meu balanço de fim de ano. Depois de lido o texto de hoje de Luiz Antonio Simas no Dia, difícil não concordar com as suas observações: embora os absolutismos das redes nos levem a crer no contrário, é claro que foi um ano de vitória e realizações, para alguns, e um aninho de merda, para outros. Infelizmente, me enquadro na segunda categoria. Na verdade, para todo mundo que participa de movimentos sociais, há pouco a comemorar.

O ano começou com a polícia do Beto Richa destruindo os professores no Paraná, e terminou com a polícia do Alckmin massacrando os estudantes em São Paulo. Embora o movimento dos secundaristas naquele estado já possa ser considerado vitorioso e um dos pontos altos do ano, com ocupações, organização horizontalizada, autogestão e a Ubes sendo posta para correr, as cenas de violência e de repressão deixaram claro que, como sempre, no Brasil, a população será tratada como inimiga pelos governos e elites, mesmo que esse povo no caso seja composto de estudantes reivindicando, ora bolas, o direito de ter escola e de estudar. Aqui não se aprende nada. Essa é a mensagem.

No Rio, a repressão aos movimentos oriundos de 2013 segue pela via da judicialização. Processos surrealistas pendem ainda contra mais de vinte ativistas na cidade. Na verdade, essas pessoas não estão sendo processadas por atos de vandalismo ou pela morte do cinegrafista: elas estão sendo processadas pois pressionaram, e muito, pela abertura da caixa preta do transporte público, na forma de movimentos como o Ocupa Câmara. Todo mundo sabe que, o dia em que essa caixa for aberta, a sujeirada que vai sair daí não poupará ninguém. A máfia dos transportes é a única explicação para o alto custo e a baixíssima eficiência desse serviço no nosso estado. Os longos períodos gastos com locomoção, os altos preços das passagens e as dificuldades de mobilidade são fatores que tornam a vida da população do Rio quase insuportável. Mudar esse quadro, tirando o controle sobre a mobilidade urbana das famílias Barata da vida, e devolvendo-o ao povo, seria um fato altamente transformador da dinâmica da cidade, no sentido de um imenso salto de qualidade de vida e na direção da construção de uma cidade para os seres humanos, e não uma cidade do capital.

Também pesa nesses processos o pavor que o poder público tem de que as Olimpíadas se tornem palco de protestos, como foi a Copa. Mais uma vez, a demofobia brasileira em ação. Os ativistas do Rio, enfim, não estão sendo processados pelos seus erros, mas sim pelos seus acertos, e o Poder Judiciário está se prestando ao pouco nobre papel de ser instrumentalizado pela repressão dos governos Cabral-Paes-Pezão (que apelidinho de bandido pé de chulé, o deste último!). A única coisa pior do que ver seus amigos angustiados respondendo a processos, sem muito exagero, kafkianos, é você ser um deles, e ser o seu que está na reta.

Sem nenhuma novidade, também, mas com muita tristeza, a polícia militar fluminense encerrou o seu ano com diversas matanças, inclusive matando uma criança no natal, na Cidade de Deus. Mas o crime mais chocante de 2015 foi, sem dúvida, o fuzilamento de cinco jovens em Madureira. Eles vinham da comemoração de primeiro salário de um deles, foram encurralados em um carro e fuzilados com mais de cem tiros. Não houve resistência. Não houve, na verdade, sequer abordagem por parte dos policiais. Eles simplesmente atiraram. Desnecessário dizer que todas as vítimas das histórias acima eram negras. E segue, no seu ritmo de sempre, o genocídio do negro no Brasil. Sem surpresa, mas com muita justa indignação.

O quadro amplo da política nacional não poderia estar mais desalentador. Assistimos ao espetáculo deprimente de ver um bandido psicopata como um Eduardo Cunha, o homem do Collor na Telerj e dono de contas milionárias na Suíça, além de ocupar o terceiro posto de maior relevo no comando do país, ser transformado em herói pelos ingênuos (e os nem tão ingênuos assim) do combate à corrupção. Eu não defendo o PT, por razões que já expus por aqui à exaustão, e não vou repetir. Mas acho ainda assim triste a ingenuidade com que muita gente boa cai no conto de fadas político-partidário eleitoreiro de que o PT é a causa e a fonte da corrupção e de todos os problemas do país. A mudança não virá de cima, nunca. Virá de baixo. Da organização popular, do horizontalismo e do empoderamento das pessoas comuns, que se sentem distantes e não representadas pelo esquemão. No mais, teimo ainda em dizer, as forças que se opõem ao PT no “grande quadro” são muito piores do que ele. Dizer isso não é elogiar o PT, é falar mal, e muito mal, do restante da classe dirigente do país, que sempre primou por uma completa indiferença social. Nada disso, todavia, me motiva o suficiente para participar de atos pró Dilma. Me motiva, no entanto, ainda menos a participação em atos “anti” (e a única chance de uma panela mudar alguma coisa é se você acertar ela bem forte na cabeça de alguém que mereça).

Para fechar, nós, militantes do Rio de Janeiro, perdemos nosso querido Presidente, neste dezembro. Morador de rua e militante onipresente (sempre me surpreendi como ele, com acesso zero à internet, sabia de tudo nestes tempos em que nada se marca off-line: não se deve subestimar a boa e velha circulação de informações boca a boca, presencial e precária), manifestante-símbolo de todas as ocupações, morreu, não apenas devido aos seus muitos e graves problemas de saúde. Morreu também devido ao descaso do serviço público, onde, por um erro de diagnóstico, deram-lhe uma injeção de glicose, achando que ele estava bêbado. Só que ele não bebia, por ser diabético. Muita tristeza. Mais indignação. Tive a honra de conhecer essa figura, grande, generosa, inusitada, um verdadeiro gentleman nas sarjetas, e não poderia terminar o meu ano sem registrar mais uma homenagem, além do seu enterro, que foi um ato lindo, e do Mais amor, menos capital, que foi igualmente lindo e a ele dedicado. Presidente, presente!!!!!! E foooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooda-se!!!!!!!

Bem, queridos, foi assim. Embora por convicções astronômicas eu nunca tenha entendido todo o reboliço devido à passagem do planeta por um ponto escolhido aleatoriamente do seu movimento de translação, desejo um bom ano novo para todos.

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Retrospectiva 2016


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JANEIRO

Crise na volta as aulas. Materiais escolares sobrem 35%.

Inflação acumulada do ano é a maior para o período desde 2014.

Chuvas deixam desabrigados no Sul do país.

Enchentes em São Paulo e Rio de Janeiro levam o caos às metrópoles.

Mais de dez mil casos registrados de dengue, zika e chycungunha no país.

Governo repassa verbas emergenciais para hopitais em crise.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo anuncia interesse em estrela de clube europeu.

 

FEVEREIRO

Carnaval da crise: saiba como reciclar a fantasia do ano passado.

Salgueiro contagia a Sapucaí. Beija-Flor e Mangueira estão na briga.

Ex-BBB mostra o que não deve na avenida.

Carnaval da Bahia ainda tem fôlego e dezoito trios desfilam até o final do mês.

Confusão na apuração do desfile das escolas de samba de SP deixa três feridos.

Chuvas deixam desabrigados e levam o caos ao Sul e Sudeste do País.

Escolas sem condições de funcionamento levam ao adiamento do início das aulas.

Governo estadual nega falta de verba para a educação.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Com goleada sobre Cabofriense, Flamengo embala na liderança do campeonato carioca.

 

MARÇO

Cunha nega manobra e Conselho de Ética tem de refazer parecer.

Aécio Neves afirma que Dilma não tem condições de governar.

Crise: dólar sobre e bolsas caem em clima de instabilidade política.

Cai consumo dos americanos e europeus. Mas isso não afeta o Brasil, dizem especialistas.

Morre cantor famoso em acidente. Fãs choram a perda: assista ao especial.

Professores da rede estadual entram em greve contra falta de condições de trabalho.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo dá adeus ao campeonato e se prepara para Brasileirão.

 

ABRIL

Câmara autoriza abertura de processo de impeachment contra Dilma.

PSDB propõe novas eleições.

PMDB chama oposição e propõe pacto pela governabilidade.

Apesar da crise, bolsas têm forte alta.

Senado rejeita abertura de impeachment.

PMDB diz que apoia governo até o final do mandato.

Crise: dólar sobe e incerteza agita os mercados.

Professores entram em confronto com a polícia. Dois policiais ficam feridos.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo tropeça na estreia, mas técnico vê evolução da equipe.

 

MAIO

STF retira Eduardo Cunha da presidência da Câmara

Eduardo Cunha é cassado pela Comissão de Ética da Câmara. Cabe recurso.

Ex-militar acusado de homofobia é inocentado pelo tribunal.

Professores presos em manifestação são condenados a seis anos e três meses.

Estados Unidos invade país do Oriente Médio contra o terrorismo.

Crise: comércio sofre com pior Dia das Mães desde 2014.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Manifestantes entram em confronto com a polícia.

 

JUNHO

Marcha pela família contra a corrupção reúne um zilhão de pessoas pelo Brasil.

Parlamentares apresentam novo pedido de impeachment da presidente.

Dólar cai e bolsas sobem depois de novo pedido de impeachment.

Lucro dos bancos é o maior dos últimos dez anos.

Crise: vendas do dia dos namorados teve recuo de 1,3% e é o pior da década.

Prefeito anuncia reajuste nas passagens de ônibus.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo vence três seguidas e sonha com Libertadores.

 

JULHO

Impostos impedem crescimento do país.

Crise: inflação dispara e é a maior desde o mês passado.

Ausência de chuvas é a vilã de crise hídrica em São Paulo. Governo nega racionamento.

Delator da Lava Jato insinua que Lula pode ter recebido alguma propina.

Parlamentares querem CPI da propina de Lula.

Ex-governador de Minas perde recurso e é condenado pela Justiça.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Demitido, técnico do Flamengo culpa diretoria pela crise.

 

AGOSTO

Crise: famílias reduzem consumo e setor de turismo amarga diminuição de vendas.

Delegações começam a chegar para as olimpíadas.

Votada isenção de impostos para banqueiros e empresários.

Esperança de medalhas, equipe de ginástica fala sobre superação.

Tabela de imposto de renda não sofre correção.

Brasil começa vencendo no torneio de futebol.

Aprovado aumento de impostos para a população mais pobre.

Brasil ganha a primeira medalha de ouro!

Terceirização é regulamentada no serviço público.

Heróis de esportes desconhecidos ganham medalhas para o Brasil.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Participação do Brasil é boa, mas medalhas ficam abaixo da meta.

 

SETEMBRO

Eleições para prefeito param agenda do Congresso.

Denúncia: prefeituras petistas envolvidas em escândalos de corrupção.

Prefeito de Bolinares do Norte, do PSDB, tem melhor avaliação entre os gestores.

PMDB afirma que eleições municipais não são prévias para 2018.

Debates esclarecem população em quem votar.

Crise: empresas fecham e desemprego atinge pior índice dos últimos dois anos.

Morre político famoso, ex-Arena, PFL e PP. “Um exemplo para todos nós”, diz Bolsonaro.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo e Corinthians fazem clássico para agitar o país.

 

OUTUBRO

Crise: o magro dia das crianças deixa presentes caros na prateleira.

Caetano defende direitos humanos e condena marcha “fascista”.

Constantino: Caetano é um idiota.

Denúncias de revista contra o PT podem alterar o rumo das eleições.

Colunistas criticam apoio de artistas a candidatos.

Atriz global sofre racismo na internet e ganha apoio de fãs e companheiros.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Veja quais as capitais terão segundo turno.

 

NOVEMBRO

PT em crise tem menor número de prefeituras desde os anos 90.

Conselho de ética investiga líder da bancada do PT.

Crise: crescimento baixo mostra cenário recessivo em 2017.

“Se economia não mudar o país quebra”, diz FHC em entrevista.

Guia de férias EUA 2017: o que comprar na Big Apple.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

Flamengo espanta o risco de rebaixamento.

 

DEZEMBRO

Crise: lojistas esperam pior natal dos últimos tempos.

Recesso no Legislativo suspende abertura de CPI contra tucanos.

Previsão dos economistas é de recessão para 2017.

Saiba como pagar dívidas usando seu 13º salário.

Shoppings lotam na véspera do Natal. Saiba o que funciona e o que fecha.

Adolescente negro morre em operação policial em favela do Rio.

América Mineiro entra no STJD por escalação irregular e pode mudar o campeonato.

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A noite mais amarga


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E o genocídio do negro no Brasil segue no seu ritmo de sempre.

Quando temos filhos, nós criamos ilusões. Passamos filmes inteiros em nossas mentes. Antecipamos a realização de todas as suas potencialidades. Vislumbramos para eles um destino pleno, doce e feliz. Quando a minha nasceu, por exemplo, meu sonho era que ela seria astrônoma. Postei várias fotos no finado Orkut de berçários de estrelas, como os Pilares da Criação, que ilustram este texto (o que também foi a minha forma de anunciar ao universo que a minha estrelinha havia nascido). Enfim, nós projetamos neles tudo que temos de melhor e as nossas esperanças em relação ao futuro. Filhos são a nossa ilusão de continuidade. Isso tudo foi tirado de cinco famílias, em mais uma chacina cometida pela polícia do Rio de Janeiro.

Ao que parece, os cinco jovens haviam saído para comemorar o primeiro salário de um deles. Eu lembro da minha comemoração de primeiro salário. Foi na Lapa, e eu voltei para casa vivo. Privilégios de ser branco no Brasil: voltar para casa vivo. Como disse o historiador Luiz Antonio Simas, “o problema da PM não é ter dado errado. É ter dado certo.” Eu sempre disse que a polícia do Rio de Janeiro não tem nada de despreparada. Ela é muito bem preparada para cumprir o seu papel: manter a estrutura de classes da sociedade mais desigual do planeta. É pelo medo dela, e só por isso, que as pessoas inclusive não estão agora, neste momento de extrema revolta, quebrando tudo. Porque a fuzilaria de cinco crianças indefesas e inocentes em um carro, com mais de cem tiros, era motivo legítimo, justo e razoável para uma revolta colocar essa cidade em chamas. Eu não aguento mais notícias de negros sendo mortos. Ninguém aguenta.

Nunca é demais lembrar que esse crime também é fruto de uma política de segurança centrada em uma guerra às drogas que só beneficia os traficantes. Não falo, evidentemente, do pobre coitado do varejista, que acaba, em regra, preso ou morto. Falo do Aécio Neves, por exemplo, que teve um helicóptero cheio de cocaína apreendido, mas sequer foi investigado. Ninguém prende os grandes traficantes desse país, assim como ninguém dá tiro no consumidor que mora no Alto Leblon. Os mortos a tiro, no Brasil, têm cor e endereço certos: são negros e periféricos (infelizmente, nos dois sentidos que a palavra tem, uma vez que são vistos como “desimportantes” pelo poder público).

Não eram criminosos, como a Globo, sendo a Globo, tentou caracterizar no Jornal Nacional. Eram jovens trabalhadores, cheios de sonhos e projetos. Eles tinham nome: Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo de Souza, os dois de apenas 16 anos, Cleiton Corrêa de Souza, Wilton Junior e Wesley Castro Rodrigues. Cinco famílias foram jogadas pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro na noite mais amarga. Cinco pais não abraçarão mais seus filhos. Cinco mães terão que viver para sempre com a dor que nunca passa. Isso não pode ficar assim. Esse crime não pode se tornar apenas mais uma estatística.

 

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Enquanto isso, em São Paulo, a polícia do Geraldo Alckmin bate em estudantes que querem o direito de estudar, em uma verdadeira aula de truculência e autoritarismo nazifascista.

 

 

 

 

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Paris vs. Mariana


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Sempre vi a atuação dos midiativistas (em um sentido amplo, que vai desde os responsáveis pelas mídias alternativas até os “pitacólogos” de facebook) como um certo trabalho de formiguinha. Lutamos contra uma grande mídia corporativa, que tem, já na largada, o acesso a uma porção da população infinitamente maior do que o nosso alcance individual (vai ver o que significa em termos práticos um mero ponto de audiência de um programa qualquer de televisão). Minha briga, portanto, não é contra os desinformados, mas contra os “desinformantes”. Pretendo, dentro dos limites muito estreitos do que é possível alcançar escrevendo em um blog, dar a contranota a todas as besteiras que vejo e leio nos grandes jornais. Não foi bem o que me aconteceu essa semana.

Fiquei bastante constrangido com o clima que se estabeleceu de cobranças em relação a quem, de uma maneira ou de outra, se solidarizou com os atentados em paris. Achei muito engraçado, para não dizer lamentável, que no meio da polêmica “defensores de Mariana” versus “defensores de Paris”, os atentados do Estado Islâmico, no mesmo dia, em Beirute, tenham passado completamente em branco.

Já fiz muitas análises por aqui sobre a situação no Oriente Médio, e vou acabar me repetindo, mas há um ponto central ao qual vou logo voltar: torcer pelo EI não é torcer pelos oprimidos contra os opressores, pela simples razão que o EI não luta pela emancipação de ninguém. O califado que eles defendem é uma sociedade conduzida por sultões e nababos, na qual mulher não pode ir à escola. Vamos ver mais ou menos o que isso significa.

Existe um lugar no mundo chamado Vaziristão. É uma província do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Lá, a Arábia Saudita instalou, décadas atrás, escolas para ensinar a versão fundamentalista tarada do Islã pregada pelo país, que é o wahabismo (é parte da política externa saudita a exportação da sua interpretação do Corão). Muitos afegãos, no período da invasão soviética, cruzaram a fronteira para se refugiar no Vaziristão, estudaram nessas escolas e voltaram loucos e radicais para o seu país de origem. Assim surgiu o Talibã (em língua pusthu, Talibã significa “estudante”). Coisa de dois anos atrás, nessa mesma província, agora semicontrolada por islamitas radicais, estes últimos proibiram as meninas da região de estudar. Elas frequentavam escolas separadas dos meninos, é claro. Mas nem isso era o bastante. Vários pais razoáveis ignoraram a proibição e continuaram mandando suas filhas para as escolas. Então, uma bomba foi colocada em uma delas. Resultado: 40 corpos de meninas entre 6 e 10 anos de idade, e as escolas depois disso fecharam porque ninguém quer mandar a sua filha para a morte, mesmo que isso signifique mantê-la ignorante em casa (eu postei essa história quando aconteceu). Além do Talibã, também foi daí que surgiu a Al Qaeda e, como desdobramento desta, o EI. E, para mim, terrorismo é isso. A imposição, aterrorizando a população civil, das suas próprias crenças, por mais insensatas que elas sejam.

Não há uma definição em leis internacionais clara do que seja terrorismo. Isso é útil para todos, pois é possível assim colocar mais ou menos quem você quiser debaixo desse tampo. Quando dos atentados de 11 de setembro, Putin estava às voltas com a primeira Guerra da Chechênia. Até então, ele era muito criticado internacionalmente pelas atrocidades cometidas pelo exército Russo na região. Depois dos atentados, ele pegou carona no discurso da “guerra contra o terror”, colocou-se como aliado do ocidente nessa luta, declarou que os chechenos eram os seus terroristas domésticos e voilà, nem mais uma palavra contra ele.

O que consterna, no entanto, é que os grupos em tela, além de formados intelectualmente no fundamentalismo saudita, como visto acima, foram treinados e armados (ao menos inicialmente) pelos EUA e aliados ocidentais. A função do Talibã no Afeganistão, como todos sabem, era promover o “Vietnam Soviético”. E para isso foram regiamente financiados pelos governos Reagan. A função atual dos radicais, na Síria, era derrubar o regime do Assad. Assad, um xiita, governa um país de maioria sunita, e é um dos poucos aliados que Rússia e Irã têm no mundo. Há nessa guerra um forte componente de intervenção ocidental na disputa por influência na região, no caso, antes de tudo, para enfraquecer a Rússia, impedir que ela tenha acesso ao porto de Tartus naquele país e isolá-la (e ao Irã) ainda mais no cenário internacional.

Por outro lado, é claro que, além dos atentados, a reação francesa está sendo a pior possível. François Hollande é um presidente fraco que foi presenteado com uma crise internacional aguda, para a qual ele está dando uma resposta militar fácil. Qualquer semelhança com o Bush Filho não é mera coincidência. Ele vai usar esses atentados e a “necessidade” de defesa para mostrar algum serviço e ter alguma chance de se reeleger no futuro. Agora é tarde. A estupidez virá de todos os nortes. A França, assim como os EUA, tem esse sistema de uma única recondução, para o cargo de presidente da república, há muito mais tempo do que o Brasil. Mesmo assim, poucos não se reelegem (de memória, só lembro do Lionel Jospin, na quinta república, a não se reeleger, e o Bush Pai, nos EUA).

Porém, acima de tudo, o que interessa saber sobre o Estado Islâmico é que o mundo que eles pretendem construir é um pesadelo também para a maioria dos muçulmanos. Difícil imaginar que a maioria dos árabes do norte de África, que moram em países em geral razoavelmente secularizados, não sintam um desconforto tremendo ao pensar em retornar a uma sociedade quase sem a participação da mulher na vida pública. Se é impossível ignorar a influência da intervenção estrangeira ocidental na região, ao custo de fazer uma análise ruim, também é impossível ignorar isso: os atentados do EI não têm nada a ver com as lutas, digamos, anticoloniais dos argelinos contra a França. Eles têm um forte componente de rejeição ao que a França representa de melhor, e não de pior, por exemplo, liberdade religiosa e direitos das mulheres.

Voltando ao Brasil, o que aconteceu em Mariana, evidentemente, não tem nada a ver com terrorismo. Tem a ver apenas com capitalismo, em sua forma plena. Foi apenas mais um caso de “teoria da firma”. A firma busca maximizar o lucro. O lucro é a receita menos a despesa. Ou você minimiza a despesa ou máxima o lucro, reza a boa lição de microeconomia. Estou sendo irônico, é claro, mas é nessa brecha que acontecem muitos dos piores desastres do capitalismo.

Minha briga é com os meios de comunicação, porque estes sim sofrem de sensibilidade seletiva. Essa seletividade normalmente reflete grandes interesses por trás, mas, às vezes, é fruto apenas do simples racismo, o que leva, de fato, a que eventos na África não tenham nunca a repercussão do que se passa na Europa. Quanto às pessoas, meu objetivo é preencher estas lacunas, romper este cerco, e não recriminá-las por colocar uma bandeira da França no perfil. Ou por nunca terem ouvido falar do Vaziristão.

 

 

 

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Valeu, Zumbi!


transversos

Xangô

Perspectiva diacrônica

Estima-se que 35 mil pessoas habitavam o mais conhecido dos quilombos, o de Palmares, nos limites de Alagoas e Pernambuco, entre 1624 e 1654.  Abrigava mais de 10 comunidades de diversas etnias, protegidas por estratégias militares sofisticadas que chegaram a evitar por mais de 100 anos a invasão colonizadora, tanto portuguesa quanto holandesa. Constituía-se em espaço de resistência, reverenciando a cultura ancestral, organizando-se socialmente, abrigando negros fugidos, negros libertos e brancos pobres foragidos da justiça.

Seu primeiro líder, Ganga Zumba,  tornou-se notório por ter assinado um tratado de paz com o governador-geral da capitania de Pernambuco Pedro de Almeida. Há mudanças na visão dos historiadores quanto ao papel do líder negro nos quilombos: de manipulado ou traidor a conciliador, que buscava no tratado uma forma de garantir a preservação das comunidades.  O tratado prometia “união, bom tratamento e terra”.

Uma das condições do acordo era a de…

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Civilização e barbárie


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O mundo anda dividido e todo mundo dividindo-se ainda mais enquanto anda. As divisões ora servem para afirmar uma posição, ora revelam desejos de pura segregação. Nosso tempo nos revela menos humanos, menos capazes de uma empatia que, natural e saudavelmente, fizesse-nos ver no outro um pouco do que somos e, com ele, compartilhar seus sentimentos.

O século XXI surge com a cara do XVI. A sucessão de ocorrências bélicas e econômicas, ambas violentas e gananciosas, assustam tanto quanto a reação dos indivíduos que formam a sociedade. Porque, no final, é disso que tudo se trata. De gente.

Civilização é algo que só pode ser definido a partir da sociedade, a partir da admissão de que somos gregários, a partir do entendimento de que precisamos viver em conjunto. O tal “estado complexo de desenvolvimento da sociedade humana” deve ser ressignificado quando se percebe que a objetividade permite ao bárbaro passar-se por civilizado.

Civilização parece ter sido tomado como conceito particular, destinado a designar todo aquele me é igual e excluir, pela barbárie, tudo o que me é diferente.  Nessa visão, tudo o que é ocidental, portanto, é civilizado; o que lhe é diferente, rejeitado sob o rótulo do bárbaro. É símbolo da barbárie aquele que ousa não ser eu. Ou, pelo menos, que não tente esforçadamente o ser.

Os recentes ataques a Paris – terríveis, por sinal – colocam posições extremadas nas manchetes e nas redes sociais. Aliás, as redes sociais revelam o tamanho de nossa estupidez enquanto espécie, algo que desconhecíamos em um passado bem próximo.

Houve quem dissesse, de forma a legitimar qualquer ação de resposta ao ataque, que era a luta entre a barbárie e a civilização. Por outro lado, igualmente absurdo, houve quem comemorasse por conta do intervencionismo francês, de sua história imperialista e de seu “povo antipático”.

Além disso, surge uma verdadeira competição pela compaixão certa e apropriada, única válida e aceitável empatia:  compaixão nacional, compaixão racial, compaixão social. Não se pode mais nem sequer se compadecer sem arranjar uma meia dúzia de inimigos. Exclusões, sempre elas.

E é na exclusão que se encontra o exato senso da civilização. Não aquele de excluir quem nos é diferente, mas de conisderar bárbaro precisamente aquele que impede ou quer impedir a existência do outro. A civilização depende da sociedade e, assim, depende da heterogeneidade, da diversidade, da convivência. Civilidade exige certo grau de tolerância.

Tomado assim, percebemos que não é a condição social ou mesmo a educação formal que define os civilizados. O nazismo, por exemplo, surgiu na civilizada pátria de tantos filósofos, a Alemanha. Há tantos outros por aqui por perto, possuidores de diplomas e dinheiro, que pregam o direito que dizem ter em exigir que o outro não exista. E muitos deles são os mesmos que fazem as leis.

Neste sentido, não há como caracterizar os atendados a Paris como outra coisa senão bárbaros. Não há sequer espaço para, de alguma forma, buscar a explicação de que as ações imperialistas francesas causaram os ataques como reação a seu intervencionismo assassino.

Sem entrar na discussão sobre a validade do método do terrorismo como forma de ativismo, há de se diferenciar o estouro das bombas. Não houve a reação do oprimido contra o opressor, como se pode enxergar em ações na Palestina, na Irlanda, País Basco ou em incontáveis outros atos terroristas.

O Estado Islâmico não representa o oprimido, pelo contrário, é igualmente opressor. E mais violento. Subjuga populações que considera inferiores, sequestra e escraviza mulheres, executa cruelmente aqueles que não são fiéis à sua interpretação fundamentalista da religião.

Isso faz do grupo uma ameça enorme a todos nós que estamos excluídos de seu califado. Daí a necessária empatia com as vítimas de seus atos, seja na França, seja no Quênia, seja em Beirute. Ou mesmo em atos e palavras semelhantes que passeiam por nossas terras.

Pregar a não existência do outro é que define o bárbaro. Não nos faltam exemplos dessa barbárie aqui no país. Esse sentido amplo do conceito é necessário para que exercitemos nossa empatia com as vítimas mudas de várias partes do globo, inclusive do Brasil.

Por isso não há contradição alguma em solidarizar-se concomitantemente às vítimas francesas e mineiras por conta de tragédias diferentes. A Vale do Rio Doce não é bárbara a ponto de pregar o extermínio das populações vizinhas à sua operação. Mas, sem dúvida, participa, pela ganância que caracteriza sua atuação, de um sistema que preconiza a exclusão econômica de milhões de indivíduos.

O capitalismo é a “soft” barbárie, que coloca o lucro como preocupação exclusiva e ignora as consequências de sua obtenção. Tudo muito bem costurado socialmente, repleto de freios e contrapesos que distribuem migalhas como forma de manter a exclusão em um nível “aceitável”. É necessária a empatia aí também.

Empatia essa que não se constrói pela vítima negra da favela, pelo pobre que perde tudo na enxurrada de lama. E, é claro, a mídia contribui decisivamente para isso. É ela quem decide o tamanho da tragédia e faz com que mortos na França sejam mais importantes que mortos em uma universidade do Quênia. Ainda que o agente seja exatamente o mesmo.

A mídia, lembremos, não é bárbara. A palavra apropriada é outra. A mídia é canalha. São coisas distintas e não devem ser confundidas. O que não se deve, de forma alguma, é cair no maniqueísmo provocado pela indignação contra os detentores da informação: não ser solidário aos franceses para ser solidário aos quenianos ou às vítimas da Vale do Rio Doce.

Não podemos cair na disputa exclusivista de que só podemos ser solidários a uns. Este é o anverso da canalhice que estampa as folhas dos jornais! Como culpar o indivíduo que é bombardeado apenas pela mídia tradicional por sua empatia pelas vítimas de um grave – e sim, bárbaro – atentado terrorista?

Não precisamos de menos empatia, ao contrário: necessitamos de mais empatia. Carecemos ser solidários com aqueles que são vítimas da perseguição pela não existência. Quer vítimas do capital, quer vítimas do judiciário – como os companheiros perseguidos há muito em processos kafkianos, que lhe excluem a voz da sociedade ou que lhes mantém presos por porte de desinfetantes –, quer vítimas de grupos terroristas, fundamentalistas ou fascistas.

Não nos fechemos para nossa humanidade. Sejamos civilizados a ponto de ver no outro a necessária existência para nosso mundo. E rechacemos veementemente todo e qualquer pensamento que não permita nossa diversidade. Não façamos nossa própria barbárie para defender aquilo que só nós vemos como civilização.

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“Oitenta por cento de ferro nas almas”


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Minas: tua desgraça e tua vocação vêm no teu nome. Acidentes acontecem. No mundo industrial do capitalismo financeiro, a tragédia de Mariana será apenas mais uma no rol dos grandes acidentes industriais da história, junto com as usinas de Chernobyl e Fukushima, o desastre de Bhopal (vazamento de gases tóxicos de uma usina da Union Carbide) e o vazamento de petróleo da Deepwater Horizon no golfo do México. Uns dirão que a culpa é do PT (aquele partido que inventou a corrupção e tudo que há de ruim, lembram?), outros, que é do PSDB (afinal, quem privatizou a Vale a preço de banana foi o FHC, não é mesmo?). Os mais atentos, mas igualmente errados, dirão que a culpa é do PMDB, partido que, segundo dizem, é o que manda de fato no país, e controla, na figura de Edson Lobão, o ministério responsável por esse tipo de concessão e fiscalização, a saber, o das Minas e Energia. Estão todos certos e errados ao mesmo tempo.

Samarco é o caralho, meu nome é Vale do Rio Doce, porra!

Uma empresa que mata o rio que lhe dá o nome é uma alegoria perfeita para um sistema que destrói o único planeta habitável disponível enquanto permanecermos fora do reino da ficção científica. Jogar a culpa desse desastre em um suposto tremor é para fazer japonês rir, e é muita má vontade para com a nossa posição de centro de placa tectônica. Mais ridículo ainda é a campanha do abafa feita pela imprensa, que está, a olhos vistos, aliviando a Vale, que é uma das maiores anunciantes de qualquer jornal e revista de grande circulação, e jogando a culpa na Samarco (que nada mais é do que uma sociedade da Vale com uma mineradora gringa). É claro que a investigação mal começou, mas já passou da hora de colocar todas as empresas envolvidas sob severo escrutínio, e a Vale do Rio Doce não tem bons antecedentes. A mineradora foi eleita em 2013 a pior empresa do mundo, em uma votação realizada pelo Public Eye Awards, por provocar danos aos seres humanos e ao meio ambiente em 36 países, bem como por acusações de evasão fiscal bilionária (ela superou até mesmo a Tepco, que administrava Fukushima). Trata-se, em termos de lógica policial, de um suspeito evidente. A imprensa só não está caindo de pau em cima da Vale porque ela não é mais uma empresa pública. A imprensa brasileira não fiscaliza grandes empresas. Ela só fiscaliza governos e, ainda assim, de maneira parcial e descaradamente enviesada.

Na verdade, a apuração de responsabilidades é importante para saber quem vai pagar por isso tudo. Mas como é o próprio modelo que está errado, isso não passa de um remendo (que não trará de volta os mortos nem recuperará os danos ambientais que, segundo alguns especialistas, demorarão cem anos para serem sanados). Temos neste momento no congresso a tramitação da PEC 215, que leva para o congresso a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas, e um projeto de código de mineração que, entre outras coisas, permite a extração mineral também em terras indígenas. A primeira, evidentemente, é de interesse da bancada ruralista, capitaneada na sua atual encarnação pela Kátia Abreu. O segundo é de interesse direto da Vale e demais mineradoras. Enquanto TODOS os grandes partidos, assim como a quase totalidade dos pequenos, continuarem a dar sustentação para esse modelo capitalista e primário exportador suicida, e enquanto mineradoras, assim como empreiteiras, encharcarem qualquer eleição com dinheiro, tudo isso permanecerá igual. E não são multas e indenizações que vão mudar isso.

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:

esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

– Carlos Drummond de Andrade

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Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente


Da primeira vez,  eu devia ter uns 7, 8 anos. Ele, uns 17. Trabalhava no bar frequentado pelo meu pai. Tínhamos uma conta lá e eu precisava comprar muitas coisas fiado. Vivia me elogiando, dizendo o quanto eu era bonita e que iria se casar comigo. Eu dizia: mas eu não quero casar com você. Ele insistia. Dizia que o que importava era o que ele queria, que ia casar e ponto. Falava isso na frente de muita gente. Falava isso na frente do meu pai. Eu chorava. As pessoas em redor me chamavam de boba. Ele só estava brincando.

Aos 9, 10, o marido de uma tia tentou me beijar. Eu estava sentada no sofá da minha casa vendo sessão de desenho animado. Algum tempo depois contei para a minha avó. Ela implorou silêncio. Disse que meu pai matava um.

Episódios pontuais antes dos 13. Um homem num carro se aproximou. Pensei que queria informação. Estava se masturbando. Vi algo brilhar no banco do carona. Corri. Até hoje não sei se era uma arma, uma faca. Outra rua, outra história? Um homem num carro se aproximou. Pediu informação. Depois ofereceu carona, insistiu de novo, falou uma terceira. Corri. Com o tempo, isso se tornou um hábito quando carros paravam.

Na época da faculdade, voltei do shopping de táxi com alguns amigos e amigas. Rachando a conta, valia a pena. Eu ficaria por último. Achei pedante ficar no banco de trás. Fiquei ao lado do motorista. Ele perguntou se eu não queria fazer um programa com ele. Gelei. Me infantilizei: que isso, moço? Sou disso não. Ele insistiu. Perguntou minha idade. Menti: 17. Ah, tá. Dimenor. Dimenor dá problema. Antes de sair aos prantos, ouvi: viu como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Dava aula em Acari de manhã muito cedo. Seguia a R. Costa Lobo para pegar o metrô em Triagem. Rua deserta. Um cara passou a mão no meu peito. Não reagi.  Tive medo de apanhar.

E as cantadas grosseiras? As línguas obscenas antes da menarca, numa época em que tomar sorvete de casquinha era deixar o doce escorrer pelos dedos. Puxões de cabelo na balada, beliscões nos braços. Os comentários sobre meus seios, minha boca, minha bunda, minha vulva. A coragem de andar sozinha substituída pelo medo de andar no escuro.

Aos 9 anos, ouvi que era muito madura para minha idade. Aos 10, que era muito madura para minha idade. Aos 11, 12, 13, muito madura. Aos 14, muito…

No carro do amigo de uma amiga, acompanhado dela e do namorado, o cara passou a mão na minha perna quando trocava de marcha. Falei: não te dei essa intimidade. Que isso, benzinho? Não gostou?  Tinha aceitado a carona por insistência da amiga. Iríamos a uma festa de rua em Pilares ou Del Castilho. Ele estava desviando o caminho: Rodovia Washington Luís. A amiga aos beijos com o namorado. Ocupada demais para perceber. Falei com ela, reclamei com ele, que resolveu voltar. Eu estava sem grana. Na altura de Quintino, ela resolve descer para dormir na casa do namorado. Paralisei. Segui com ele. Me senti sem escolha. Na Marechal Rondon, imbicou o carro para um motel. Tentei abrir a porta e o vidro. Tudo travado. Gritei, esperneei. Ele deu meia volta e me levou para uma rua deserta. Eu chorava, gritava, dizia que queria ir embora. E ele continuava tentando me convencer a mudar de ideia. Por fim, me deixou em casa. Ouvi uma frase já conhecida: tá vendo como sou um cavalheiro? Nem fiz nada.

Fonte: Nem fiz nada: como os assédios nos roubam de nós mesmas diariamente , no blogue FeminAGEM.

Categorias: Cultura, Reflexões, Sociedade

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