A Educação e coisas que dão dinheiro


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Sexta feira, acordei lembrando do Transversos, mais abandonado que latifúndio improdutivo, e resolvi : vou lá carpir umas letras. Corre vai, corre vem, não fui, mas de hoje não passa ! eu prometi para o espelho no dia seguinte. Veio o sábado, o domingo e chegou outra sexta feira boa para procrastinação.

Aí o Universo, esse fanfarrão, conspirou. Encontro uma pessoa conhecida que nunca suspeitei frequentar minhas croniquetas e ela declara que notou a descontinuidade da publicação. Com tudo que anda acontecendo perdi a inspiração, respondi entre a vergonha e o orgulho de ter leitor saudoso. Tolice minha pretender saber o que ia na cabeça da pessoa. Esclareceu que nem gostou da literatura mas me acha “sabida”, perguntou se eu já tinha lido ” O Segredo”. Estava pesquisando, pretendia fazer um blog mas viu que não dá dinheiro. Ah, concordei, não dá mesmo, talvez para quem vende publicidade como se fosse notícia… Ele quis saber mais. O difícil é achar negócio bom que não precise de capital, né? suspirou o candidato a empreendedor.

Muitos são os mistérios da inspiração e aqui estou. De fato a conversa engraçada me lembrou outro assunto nem tão desconectado deste quanto pareça.

Trata-se do caso recente do administrador de uma organização educacional, gigante do setor. Tudo começou em evento público no qual o moço, esbanjando otimismo da melhor tradição do “storytelling”, declarou que tempos atrás, sem dinheiro para pagar consultorias, pedia projetos a vários consultores e aproveitava ideias das “amostras grátis”. Ninguém mais acredita em almoço grátis e a polêmica começou. Plantado o bafafá o moço veio à rede tentar corrigir o mal entendido Tinha sido infeliz na piada, claro que não fazia este tipo de coisa. E é claro que muita gente duvidou pelo simples fato de todos saberem ser esta uma prática recorrente. Mas tudo bem, insistiram os cínicos, o tempo de prospecção de clientes erá pago pelo próximo projeto contratado, simples lógica do mercado. Mas vamos supor, disseram os pragmáticos, que muitas empresas passem a fazer isto e a maioria dos consultores passem a fazer uso de estratégias tão heterodoxas quanto esta para assegurar sua competitividade. A espionagem empresarial, por exemplo, não seria uma dessas ervas daninhas que cresce muito em terreno que falta o adubo da ética? Em pouco tempo, um campo de trabalho para profissionais capacitados vendendo seus serviços para melhorar a competitividade das empresas não se tornaria terreno fértil para práticas imorais e aventureiros resistentes? A lei da oferta e da procura resolve isso tudo, confiantes debatedores garantiram. Ora, supostamente a demanda do mercado que criou os serviços de consultoria, viria da avidez por aconselhamentos técnicos que incrementem o lucro, sugestões confiáveis para vencer a concorrência. Como falar em concorrência quando a lei é a trapaça? Resumida a contenda, saí com a impressão que a terceirização do que seria parte da função dos quadros mais altos da empresa, fidelizados pela estabilidade ou coparticipação nos lucros, criou uma área cheia de predadores, gente ávida por trapacear e sujeita a ser trapaceada. Saí com a impressão que a trapaça é o único conselho infalível para vencer a concorrência.

Sem mimimi, vivemos sob a implacável lei da oferta e da procura ! Se apressam a declarar – quase sempre gritando- os defensores fanáticos do ” Mercado”, entusiastas do capitalismo acima de todas as coisas da terra, do céu e para sempre assim seja. Talvez pretendam enganar os distraídos. Ou será que algum deles não percebeu que este lema servia, até certo ponto, para a chamada ” sociedade industrial”? Não, meus caros, eu sussurraria para eventuais ingênuos, o mundo mudou. Faz tempo que passamos da sociedade industrial para a sociedade do consumo e nesta aqui a lei é criar necessidades para vender produtos. Naqueles setores da produção onde a procura é certa e a oferta define o preço não há mais espaço para a concorrência . As gigantescas corporações transnacionais compram concorrentes justamente para economizar esta chateação que é a concorrência. Financiam guerras para garantir que as riquezas naturais dos países passem todos para a esfera de sua administração. Dá a impressão que a Revolução Comunista Internacional, com a submissão de todo o planeta a uma planificação centralizada da produção foi expropriada pelos grandes capitalistas. Não se descuidam nem de declarar propósito quase idêntico ao dos comunas: destravar as amarras do Sistema para gerar a riqueza infinita – à qual está predestinada o Ser Humano que, assim, será feliz. E quem não acreditar ou se opuser pode muito bem ir viver em um Gulag qualquer.

Claro que eu estou brincando. Só os operadores do Sistema ou os muito ingênuos acreditam que este estado da arte do mundo pode levar à prosperidade e a felicidade. A promessa de que transitaríamos sem susto para uma ” Economia de Serviços” na qual todos os trabalhadores, dispensados das fábricas, bancos, oficinas, canteiro de obras e outros setores robotizados ou extintos, seriam absorvidos pela setor de ” serviços” gorou. A utopia do crescimento sem limites morreu, falta ” serviço” para empregar pessoas e sobram produtos e vida indigna para seres humanos . Neste mundo concreto onde seres humanos poderiam executar trabalhos úteis que tornariam o mundo um lugar melhor, a maioria dos trabalhadores é obrigada a cumprir jornadas exaustivas para produzir barato coisas fúteis e de utilidade restrita. Multiplicam-se trabalhos sem função social relevante, pelos quais trabalhadores infelizes recebem migalhas. A maior parte dos desempregados do mundo trabalham duro, de um jeito ou de outro, sem chegar a receber o suficiente para seu sustento ou desenvolvimento pessoal. Mas não há os que conseguem empregos ? Não há os que conseguem estudar e melhorar sua condição material ? Por acaso não há os que conseguem criar negócios que os fazem passar dos problemas da fome para os problemas da obesidade? Claro que há. Compõem uma minoria que mal sente o estômago cheio passa a desdenhar dos que remam e remam sem sair do lugar e lavam as mãos diante das fomes do mundo.

Sobram trabalhadores sem ocupação, faltam salários mas a produção não para. Produtos encalham pelo mundo afora. Ao redor do globo – dia e noite- alimentos são cultivados, processados industrialmente, caixas e caixas carregadas de lá para cá e afinal… Um quinto da humanidade passa fome. No Reino Unido, por exemplo, quase 50% dos alimentos vai direto das prateleiras para o lixo, sem nem sentir o gosto de uma boca humana. No Brasil, não faz meia década, tinha criança passando fome mas o desperdício continua girando em torno de 30% . Milhares de conteiners, toneladas de peixes, galpões cheios de aparelhos eletrônicos, automóveis, sapatos, tecidos, centenas de depósitos lotados de mercadorias até o teto vão estar prontos para a destruição antes que muitos prestadores de serviço, consigam encontrar seu próximo cliente ou patrão. Duvida ? Não estou rogando praga, é uma constatação.

O desemprego dos jovens, na Europa, patina em torno de 35 % há alguns anos. Milhões de jovens qualificados academicamente ou não estão desocupados, não estão inscritos em escolas ou trabalhos formais. Se viram como podem. Vivem de apoios sociais. Entram para a carreira do crime. Se drogam. Entram em depressão. Se suicidam. O aumento das taxas de suicídio de jovens em todo o mundo é um fato que poucos comentam, menos ainda se preocupam. Mas não é uma coisa intrigante que em um tempo repleto de prosperidade e maravilhas haja tantos jovens devolvendo seu bilhete de entrada, perdendo o interesse pelo espetáculo?

Na China ou na Rússia, na Ìndia ou nos USA, para todo lado, faltam as famosas “vagas de trabalho”. E não apenas para os 4 ou 5% de trabalhadores aptos e disponíveis que devem permanecer inativos para os empresários terem oportunidade de extrair lucro e pagar o menor salário possível propiciando consumidores para o mercado como um todo. Como eu gostava de ver este índice ser repetido toda vez que entrevistavam o presidente trabalhista da Holanda . Apenas 5% de desemprego, uau ! Já era. O sonho do paraíso do ganha-ganha, este tempo de “pleno” emprego e bem estar social faz parte do passado agora. Na India, apenas 150 milhões dos jovens de uma população de 1,2 bilhão de pessoas podem sonhar com o IIT , o instituto de tecnologia que abre a porta para uma vida de luxo, assim confiam os competidores pelas poucas vagas. Mas destes 150 milhões de concorrentes, apenas os pais de 30 mil jovens serão autorizados a pagar 70 mil dólares ao ano para que seus filhos tenham direito a tão preciosa educação. A mãe de um deles, em filme documentário, dizia sem qualquer emoção que é um investimento, como ações, como qualquer coisa. Uma das mais novas bíblias de mandamentos para o sucesso diz que são necessárias ao menos dez mil horas de prática em qualquer coisa que se queira ter excelência. Ao redor do mundo, centenas de milhares de jovens como estes vão passar 20 anos, no mínimo, recebendo a melhor formação acadêmica que o dinheiro pode comprar. Pode-se esperar muitos experts em pelo menos 4 ou 5 áreas do conhecimento vindos daí. Legiões de técnicos formados dentro de bolhas sociais treinados para o máximo desempenho em todas as áreas do conhecimento com pouco ou nenhum contato com a vida que vive fora delas.

Em todos os países da rica União Europeia, a maior parte dos cidadãos absorve dificuldades práticas e cotidianas como se, por fatalidade, o continente tivesse sido varrido por furacão, terremoto ou tsunami. Milhões de pessoas vão se adaptando a condições de escassez radical. São milhões e milhões de pobres agora, cercados da mais luxuosa abundância. Abundam lojas de luxo em todas as capitais do continente, campos de golfes ocupam léguas para uns poucos  milionários no sul da Península Ibérica. Criam uma mixaria de empregos. Enquanto isso filhos adultos de professores e outros seres humanos supérfluos para o sistema permanecem morando com os pais indefinidamente para não passarem privações. Aquecedores são desligados por falta de dinheiro para o combustível levando idosos, após 30 ou 40 anos de trabalho duro, a sofrerem os rigores do frio como se vivessem na Idade Média. Com a diferença que quase não se pode mais ir aos bosques cortar lenha, não podem tentar vencer suas dificuldades com trabalho ainda uma vez. Na Holanda, jovens se organizam para voltarem ao campo e praticar agricultura de subsistência enquanto sobram alimentos nas prateleiras dos supermercados. Apoios sociais ( que também pode ser chamados de bolsa família) garantem o básico e o elementar para famílias com crianças, da Suécia à Dinamarca, da Alemanha à França, salvando o agravamento dos índices de gente faminta, roubando ou crescendo mau educada no mundo . A fome infantil na África poderia ter acabado em 2009 porém continua firme e forte. Chegaram a precificar o custo para acabar com a fome naquele continente, custava menos que o montante doado pelos USA aos bancos em 2008, depois que o estelionato aplicado no Mercado durante anos fez água. Os USA tiveram de socorrer os Bancos, evitar que quebrassem porque estamos a um passo do triunfo do amado livre mercado dos neoliberais, mas quando o dinheiro acaba velhos e novos liberais correm para o colinho do Estado, como estamos cansados de saber. Não sobrou dinheiro para as crianças, coitadinhas. Para isso existe a caridade. Que agora não se limita a dar peixinhos mas insiste que todos devem pescar. Como se ninguém percebesse que a caridade, tantas vezes,  saca esmolas do dinheiro que foi ganho tomando a vara, privatizando o lago e envenenando com pesticida a terra e as águas dos pobres. Ou como se não percebêssemos que o terceiro setor , na maior parte das vezes, apenas reproduz a ineficácia e a ineficiência da caridade para acabar com a pobreza. Aliás o terceiro setor, no médio e no longo prazos, pode ser muito bom para agravá-la. E para dizer que não citei um caso emblemático. Um dos homens mais ricos do mundo, Mr. Gates resolveu levar uma “revolução verde” para África. Sua revolução pessoalmente concebida colocaria todos os agricultores a plantar, ganhar dinheiro e melhorar a sociedade que viviam. Oitenta por cento do dinheiro doado para a ação acabou ficando nos USA e UE e estes não ignoram a vantagem de se tornarem fornecedores de insumos ( sementes e químicos) para a África, estrangulando as iniciativas dos pobres locais. Se melhorarem a agricultura tradicional e avançarem para uma economia não dependente de tecnologias que não dominam, sustentável no longo prazo, onde os institutos de pesquisa e indústria química dos ricos vai sacar clientes? O pouco dinheiro que chegou aos países africanos produziu ainda o efeito colateral de acirramento da luta pela terra. Com agricultores pobres e miseráveis sendo mortos pela ambição de seus compatriotas que querem ser ricos como o Mr. Gates custe a vida de quem custar, renova-se a confiança no velho ditado que diz que de boas intenções o inferno está cheio.

Todos os dias ouço alguém dizer, “o que está acontecendo com o ser humano” ? Não tenho a presunção de saber a resposta. Vejo muitos culparem a política pela maior parte das mazelas do mundo e acho que devem ter razão. Que a Política seja culpada, o testemunham nossas desgraças. O número insuficiente de seres humanos à altura de fazê-la funcionar na sua melhor forma nos envergonha como espécie. Sua falha é mortal porque é a guardiã da nossa impotência. Sem ela avançamos para a guerra de todos contra todos. Quando ela falta não conseguimos nos organizar – com ou sem Estado. A Política triunfa como arte quando consegue harmonizar contrários, negociar palavras e ações e evitar que  o choque entre diferentes interesses no interior da sociedade cheguem ao ponto do conflito armado. Tudo que desejam aqueles seres humanos que renunciaram ao ódio atávico, à ferocidade trazida do nosso passado de besta fera entre bestas feras é que a Política triunfe, se torne arte de domínio público, com mais e melhores práticas, com mais e mais pessoas capazes de pensá-la. Qualquer pessoa bem alfabetizada sabe que a Política pode ser a arte de negociar consensos, firmar compromissos e evitar as guerras mas que também pode ser usada para promover o massacre dos fracos pelos fortes, a devoração dos menores pelos maiores, o incremento da doença, do ódio, da morte. Ela não tem nada a ver, na prática, com amor, amizade, liberdade, igualdade ou fraternidade. Mas a Política, qualquer humanista percebe, está sempre grávida disso tudo aí.

O que está acontecendo com os seres humanos? Temos congressos, parlamentos, poderes executivos, legislativos, câmaras mundiais para todos os assuntos, realizamos todos os dias centenas de milhares de congressos, colóquios, encontros científicos, técnicos, diplomáticos, comunitários . Trocamos bilhões de mensagens por minuto através de redes sociais, internéticas, globais, totais sobre nossas conquistas, derrotas, nossos trabalhos, nossos ócios. E parece que todos estes eventos de comunicação tem por único objetivo assegurar que falemos de tudo, menos do principal: o sistema capitalista tornado sistema financista matou a Política e transformou o planeta Terra em uma imensa praça de guerra. Sua mentalidade predatória se infiltrou em todas as esferas da vida humana. Da naturalidade com que dizemos ” ah, não vou fazer isso aí porque não dá dinheiro”, à irresponsabilidade com que pessoas  adultas e bem educadas aceitem que os governos ajam apenas em prol do interesse do lucro sem fim, infinito, sem qualquer limite. Será que é isso mesmo ? O interesse das corporações mundiais e seus vassalos locais venceu, e agora tudo se dá como se dinheiro e lucro fossem coisas tão naturais quanto o vento que sopra ou a chuva que cai?

Como pudemos, nós, os que podem escrever, ler, compreender e debater assuntos como estes,  permitir que o interesse de lucro de uns poucos tomassem as rédeas dos governos e, ocultos pelo cobertor do Estado, obrigassem os mais pobres a sustentar seus interesses? Por que é que a parcela mais educada da sociedade continua a agir como se não soubesse as consequências do desespero de milhões?

Estes fantasmas, atuando dentro da máquina do Estado, querem o lucro infinito mas perderam a capacidade de imaginar como criar empregos. O dinheiro gera dinheiro dormindo dentro dos cofres. Multipliquem-se os soldados treinados a  atacarem os mais pobres como inimigos da ” pátria” quando apenas reclamam falta de  educação, saúde, trabalho e pão. Estes fantasmas contratam vassalos em jornada integral nos sistemas de comunicação eletrônica e impressa ecoando sua voz, defendendo o indefensável. Este 1% que continua lucrando, não importa o que aconteça com o resto da sociedade, estão determinados a impedir que a grande multidão e o pequeno exército com potência de pensamento e ação, possam trabalhar para que que a sua rua, a cidade, o pais , o mundo se tornem um lugar melhor para a maioria.

Como podemos permanecer passivos e admitir que o interesse de um por cento de seres humanos sem compromisso algum com a Humanidade roubem as vidas de bilhões é, para mim, o grande e único Segredo.

Eles tem dinheiro e todos precisamos de dinheiro é a resposta mais óbvia em um tempo que o Sistema nos obriga gastar a maior parte do tempo de nossas vidas a correr atrás do dinheiro. Mas você conhece muita gente que saiba como ele é criado?

Tanta gente alfabetizada, capaz de escrever, ler e debater textos como este não sabe responder esta pergunta. Como o dinheiro é criado? Como é que os governos brasileiros se tornaram endividados através da História? Como se tornaram fiéis aos bancos ao ponto de escolherem pagar juros de dívida a invés de escola para crianças? Pagar juros ao invés de tratamento para os doentes? Por que é que os credores dos governos não querem ser pagos em dinheiro mas sim com novas promissórias de dívida? Porque o Brasil estaria ” quebrado” ao dever 64% do seu PIB e os EUA não estariam, agora que devem 104% do seu PIB?

Não há tempo para a maioria fazer estas perguntas que dirá respondê-las. Afinal, 100% dos brasileiros, podendo ou não  se ocupar disto está correndo atrás do ” que dá dinheiro”. Cerca de um milhão de pessoas do total de 210 milhões de brasileiros conhecem muito bem o segredo que dá dinheiro. Faz parte do trabalho deste 1 milhão de pessoas se ocupar de qualquer coisa desde que esteja garantido que o maior número possível de pessoas não saiba como o dinheiro é criado, o que determina o volume em circulação, como e quem determina isto. Que nunca a maioria saiba como se produzem as dívidas públicas e a quem elas interessam é fundamental para os que fazem fortuna com ela. O que quer dizer gasto e o que quer dizer investimento, quando se fala de finanças públicas, é uma ignorância fundamental para que as pessoas fiquem feito bobas, imaginando que o papel do governo na economia deva ser o mesmo que de um administrador doméstico assalariado.

Estava colocando o ponto final e o celular apita mais uma notícia. O Governo Federal cortou o Programa Nacional de Combate ao Analfabetismo. Faz sentido. Se duzentos e nove milhões de pessoas devem permanecer na ignorância para que este um milhão continue usufruindo dos saberes e privilégios que o dinheiro pode trazer, mais alguns milhões de analfabetos não vai fazer muita diferença.

Mas a sabedoria, como os endinheirados do Brasil demonstram, não é algo que o dinheiro consiga produzir ou comprar. Para os sábios do Brasil a oportunidade de fazerem diferença é esta.

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Cassandras


 

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Não vou falar sobre impeachment, Dilma e Temer. Já fiz isso muito e cansei. E agora, ao que tudo indica, é tarde. Avisei várias vezes neste mesmo blog que uma coisa é ter direitos duramente adquiridos atacados pelo PT e pela Dilma, mesmo com ela aderindo ao programa de austeridade, como tentou de última hora. O PMDB e o PSDB serão muito mais agressivos, tanto nos cortes do ajuste, como no cancelamento de direitos trabalhistas históricos, como as reformas da previdência e da CLT que se anunciam já deixam claro. Avisei isso como uma Cassandra, e fui chamado por uns de petralha, e por outros de governista, por causa disso. Mas, como disse, deixa, por enquanto pelo menos, para lá. Vou contar minha ida ao teatro recente, em Brasília, que, mesmo sendo menos importante, pelo menos foi mais divertida.

É impressionante como comigo até uma simples ida ao teatro se torna uma aventura extravagante. Fui ver uma peça do Festival Internacional de Teatro de Brasília. Um grupo de SC, que faz apresentações em espaços não convencionais, estava montando a história de Cassandra (sim, a mesma do parágrafo de abertura deste texto) em uma boate de strip-tease no centro da cidade. Como não tinha ingresso (claro), cheguei com duas horas de antecedência para conseguir um na fila de desistências. Como ainda sou relativamente novo por aqui, não dimensionei que o local, o tal do Setor Comercial Sul, é o coração da crackolândia da cidade. Sem exagero, não passei nem cinco minutos sem que alguém muito detonado não viesse me pedir algo (geralmente cigarro). A área era tão degradada, que até os cachorros pareciam usar crack (sem sacanagem, tinha um que estava muito doido, se masturbando em uma mureta dessas que dá em jardim). Fazia até os lugares mais inóspitos do centro do Rio parecerem a Avenida Champs-Élysées.

Claro que tinha como piorar. Quando faltava “só” uma hora para o começo do espetáculo, chegou um sujeito e se juntou a mim na fila de espera. Um desequilibrado que começou a despejar sobre mim as suas experiências de encontros com discos voadores. Ele me contou histórias mirabolantes de OVNIs que mergulhavam na água e besteiras quejandas. O auge foi quando ele me confessou achar muito estranho que, apesar de ter visto discos voadores dezenas de vezes, ele nunca conseguira avistar nenhum alienígena nas janelas das naves. Minha cara de desespero, de tedio e a minha digitação frenética no celular não o intimidaram, e eu passei 50 longos minutos ouvindo toda a sorte de baboseira. Quase disse uma hora que ele estava na fila errada, que aquela era a fila do teatro, que a fila do crack ficava na esquina seguinte. Na verdade, meu desespero era tamanho que se ele pedisse, eu ia lá comprar uma pedra para ele me deixar em paz. Mas não. O maluco queria ir ao teatro mesmo.

Depois disso tudo, eu já estava pensando: melhor essa peça valer muito a pena, porque depois de duas horas dando pinta na crackolândia e aturando papo furado de disco voador, só o que me faltava era encarar teatro ruim pela frente. Mas de cara já tive a primeira surpresa desagradável da noite: a apresentação foi realizada em inglês, e até agora não entendi o que o espetáculo ganhou com isso. E essa não foi a única opção equivocada tomada pelo grupo. Escolheram uma abordagem cômica para contar a história de Cassandra, o que, evidentemente, pode ser válido. Mas me soou um tanto estranho colocarem uma Cassandra apaixonada pelo seu estuprador (Agamenon), ainda mais vindo de uma companhia que na sua apresentação diz “tratar temas contemporâneos”. Em uma época com tantas iniciativas de denúncias coletivas de violência contra a mulher, certamente não seria esse o recorte que eu escolheria.

A peça teve seu ponto alto quando Cassandra começa a reclamar dos autores gregos, como Eurípedes, todos homens, que a chamam de maluca. Ela tira um livro da bolsa (anunciando ser “As Troianas”), finge que vai começar a ler e começa a recitar de “The Winner Takes It All” do Abba. Eu acharia mais genial se ela de fato introduzisse o texto grego nessa cena, para debochar que fosse, mas enfim, funcionou bem desse jeito também. Fora isso, a peça se sustentou em uma imensidão bastante previsível de piadas sobre sexo (nada contra, só acho que é possível diversificar) e no inglês macarrônico, que tirou boas risadas da plateia, mas que, para mim, esconde uma certa falta do que dizer. O perdeu definitivamente a montagem foi texto, fraco e preguiçoso, que desperdiçou a ótima ideia do cabaré o excelente material que é a história de Cassandra.

Porque Cassandra é uma poderosa metáfora, dessas que são fundadoras da cultura ocidental. Sua capacidade de ver as desgraças que se aproximam, conjugada à sua incapacidade de mudar o curso dos eventos, tornam-na a própria imagem da impotência. Os seus gritos e os lamentos das troianas ecoaram pelos corredores do tempo, sem exageros, da Antiguidade até os nossos dias. Temos o direito de modernizá-la, é claro, e de fazermos o que quisermos com ela. Como metáfora fundadora, ela pertence a todos, e é legítimo se apropriar das suas tragédias para levantar questões que na Grécia sequer eram cogitados. Mas essa história tão potente está acima da capacidade de manejo dos envolvidos nessa produção quase infeliz que assisti, na quarta, no dia do impeachment de Dilma Rousseff. Em suma, trataram-se de ambições demasiadamente grandes para a capacidade do autor do texto.

E é justamente daí que vem a minha última (juro) reclamação. É claro que não existe uma lei exigindo isso, mas é uma tradição que peças teatrais dialoguem com o momento histórico. É essa capacidade do teatro, de responder ao que acontece no exato instante, na rua, que o torna infinitamente superior a artes menores como o cinema (brincadeirinha). Raramente vi bons espetáculos que não inserissem algum comentário sobre os acontecimentos da ordem do dia. Não que eu esperasse ouvir um “fora Temer”, mas achei muito estranho um grupo de teatro deixar um momento histórico como o que vivemos passar em branco.

No mais, que semaninha…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A rede


 

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Extraído do site Seu Peixe na Web*

São tantos os assuntos para tratar, que acabo me perdendo no mar de possibilidades e o resultado disso é muita postagem em rede social e pouca produção no blog. Preciso repensar essa questão, já que tudo o que está nas redes é por demais efêmero e, por conta dessa constatação mais do que óbvia, resolvi essa semana trazer a miscelânea que me inquieta, fruto de vários acontecimentos recentes.

O que teriam em comum a entrega de casa popular pelo prefeito do Rio de Janeiro, o processo de impeachment da presidenta Dilma, o discurso nada laico da jurista do golpe, a morte de familiares seguida de suicídio cometidos tanto por um executivo na Barra da Tijuca (RJ) como por um motoboy na Barra Funda (SP)?

A rede que os articula é sutil, eficaz, resiliente e hegemônica. Vamos aos acontecimentos.

Cena 1: o prefeito do Rio de Janeiro em entrega de casa popular à moradora negra e pobre faz inúmeras “piadas” de cunho sexual, trazendo à tona não apenas seu desconhecimento sobre a representação da casa própria no imaginário brasileiro, uma vez que ele a considera como mero lugar para manter atividades sexuais, bem como reforça uma visão sexista, classista e machista num vídeo de menos de um minuto. A mídia brasileira insiste em chamar de “gafe” ou de “piada” algo que não passa de imensa falta de respeito. Para quem acredita que o prefeito é apenas um homem mal educado, pergunte-se se ele faria o mesmo se estivesse entregando apartamentos para mulheres de classe média alta na Barra da Tijuca? A “falta de educação” é seletiva.

Cena 2: ao longo da sessão de defesa da presidenta Dilma no Senado, ela se disse vítima de misoginia. Nenhuma explicação pode ser mais esclarecedora do que um dos trechos da fala dela. “Eu fui descrita como uma mulher dura, e sempre disse que era uma mulher dura no meio de homens meiguíssimos” […]. “Eu nunca vi ninguém acusar um homem de ser duro, e a gente sabe que eles são”.

Cena 3: a jurista do golpe, em mais uma de suas atuações pastelãs, comove-se, chora, pede perdão, afirma ter iniciado o pedido de impeachment pelos netos da presidenta. Vamos à análise: para contrapor-se à “força” de Dilma, a “sensibilidade” de Janaína; paralelo ao discurso de honra diante dos netos e compromisso com os brasileiros feito pela presidenta [não estou entrando no mérito das muitas falhas da presidenta eleita], Janaína me sai com um “Eu peço desculpas porque eu sei que, muito embora esse não fosse o meu objetivo, eu lhe causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma], um dia, entenda, que eu fiz isso pensando, também, nos netos dela”. De um lado, a razão; do outro, a emoção. Nos papéis culturalmente construídos por uma sociedade machista, qual deles caberia à mulher? Ao contrário do que pensam muitos detratores, sobra esperteza a essa jurista. Ela coaduna em si as referências do fã clube cristão do discurso veemente em praça pública, assemelhado ao tom dos pastores neopentecostais, e a fala de uma mulher frágil, sofrida, que se importa até com a família alheia. Para os menos preparados para lidar com essa versatilidade (e convenhamos que é a maior parte da nossa população), ela manda muito bem, obrigada, atinge seus objetivos. A que preço mesmo? Em tempo, gostaria de trazer à tona mais uma reflexão sobre a forma como tratam as mulheres no caso dessa moça: vamos parar de chamá-la de louca, desequilibrada ou outros adjetivos mais, igualmente pejorativos que nossa sociedade patriarcal costuma atribuir a mulheres. Dever de casa: critiquem-se forma e conteúdo, mas sem praticar o sexismo que execramos.

Cenas 4 e 5: Dia 29/07/16, 7h, Barra da Tijuca, zona “nobre” do Rio de Janeiro, executivo assassina a facadas esposa, atira pela janela os filhos de 7 e 10 anos e depois se suicida, deixando uma carta em que responsabiliza a queda do padrão econômico por tais atitudes. Em trecho, ele se afirma desgostoso por ter “falhado com tanta força”. No mesmo dia 29/07/2016, às 10h50min, Barra Funda, zona pobre de São Paulo, do alto do prédio do Fórum Trabalhista, motoboy pula  abraçado ao filho de 4 anos, causando a morte dos dois. No bolso um bilhete: “às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê”. Familiares afirmam que ele estava desempregado e passava por dificuldades financeiras. Fora as questões psicológicas das quais não vou tratar nem tenho competência para isso, ficam-me marcadas duas questões: o peso do papel socialmente construído de provedor, que arrasta também os homens para uma insatisfação absurda, e a forma como a mídia trata esse tipo de crime, quando cometido por homens. Além da pouca visibilidade dada à morte do motoboy, o discurso assumido pelos meios de comunicação traz um tom de “defesa” das atitudes dos homens. Observe-se que, recentemente, jovens foram encontradas mortas após tentativa de aborto no Rio de Janeiro, uma em julho, outra em agosto. Na mídia hegemônica, não se publicaram análises psicológicas que tentassem explicar o que se passa com uma mulher que opta pela prática do aborto. A condenação prévia escancara o tom das reportagens e os comentários dos leitores. Na mesma linha, uma jovem teve a filha assassinada a facadas pelo companheiro na casa em que viviam no Morro da Coroa, Santa Teresa (RJ), enquanto ela estava trabalhando. Os comentários da matéria, em sua maioria, culpavam a mulher por não se conter sexualmente e, assim, assumir o risco de colocar qualquer homem dentro de casa. Quase não se falava do assassino. Já no caso dos homicídios de familiares (aliás a palavra “homicídio” não é sequer mencionada), foram entrevistados psicólogos (todos homens num universo de maioria feminina, diga-se), que alinharam incrivelmente suas análises (logo, suprime-se a multiplicidade e, assim, induz-se à crença de que não há pensamentos dissonantes dos expostos). Nelas, tais assassinatos assumem o status de “proteção”.

E então? Os casos não apresentam uma conexão pautada na forma como a sociedade molda as figuras do homem e da mulher? É ou não necessário rever essa rede sutil, eficaz, resiliente e hegemônica que nos cerca e cerceia e oprime?

*Não tenho muita afinidade com a ideia de empreendedorismo (self made man). Fiz referência ao site, porque utilizei a imagem e precisava dar o crédito.

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O ouro é dela e ninguém tasca


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Nesses primeiros dias de jogos olímpicos no Rio de Janeiro, uma mulher, negra, da Cidade de Deus e gay assumida conquistou a primeira medalha de ouro do país nesta edição dos jogos. Um feito, sem dúvida. Mas a sequencia de eventos foi por demais desconcertante. Surpreendente foi ver as mais variadas nuances políticas e ideológicas se apropriarem, para os seus devidos fins, da linda vitória de Rafaela Silva no judô. Foi curioso, e ao mesmo tempo constrangedor, ver até mesmo discípulos do Bolsonaro se apropriarem da vitória de Rafaela para venderem a sua, muito entre aspas, “ideologia”. Mas, se pensarmos bem, de certa forma, nada de novo.

Esportes, assim como tudo mais na vida, não têm nada de neutro. Os seus (bons) resultados podem ser arrastados de um lado para outro para justificar praticamente tudo. Hitler tentou usá-los para demonstrar a supremacia ariana. Esbarrou nos negros atletas americanos iniciando a sua organização política para se emancipar do sistema apartheidista das leis Jim Crow e se deu muito mal (30 anos depois, os Panteras Negras viriam a brilhar em olimpíadas, de uma maneira ainda mais política, organizada e emocionante, mas no mesmo sentido).

Como dizia a alta malandragem das escolas cariocas da década de 1980, agora parece que querem “tarrar” a medalha da Rafaela, atribuindo-a ao Brasil, às Forças Aramadas, à meritocracia, ou a qualquer outra coisa. Mas, de todas as apropriações estapafúrdias, a pior foi a feita pelo discurso da meritocracia. Entre memes equivocados de facebook e observações do Galvão Bueno sobre a “capacidade de inclusão social do esporte”, todos fingem ignorar que igualdade de condições não existe. Ayn Rand é um produto da cultura anglo-saxã que por lá mesmo pouco se aplica. Aqui, serve menos ainda. A mobilidade social, via esporte ou qualquer outra via, é uma ilusão de vitrine do capitalismo. É uma porta estreita pela qual poucos passam. Ainda assim, não faltaram comentários sobre como a moça, coitada, não necessitou de incentivos do Estado, esse Leviatã, para lavar para casa o seu ouro.

Vi postes lembrando que Rafaela foi militar da Marinha, entre as várias coisas que ela, como qualquer ser humano, em sua vida multifacetada, foi. E praticamente atribuindo a sua vitória aos supostos incentivos que ela teria recebido dessa Instituição. É sério isso? A Marinha sempre foi a mais aristocrática e racista das Forças Armadas. Não é à toa que foi de lá que veio a maior insurreição militar da história do Brasil, a Revolta da Chibata.

Porém, e isso é o mais perturbador, as loas acabaram quando veio a público que ela, além de gay, sustenta uma relação afetiva com uma menina há três anos. Aí os seus problemas começaram. De heroína da Marinha e da livre iniciativa, os bolsocomentários das redes sociais adquiriram contornos de uma agressividade singular. Claro. Esperável. Infeliz e contraditório como só o Brasil consegue ser. Pobre? Ok, se a pessoa ganha uma medalha nas olimpíadas. Negra? Ainda vai, se isso servir ao discurso de que com esforço pessoal chegaremos lá. Lésbica? Aí já é demais! Manda a mina rápido para a crucificação antes que ela sirva de exemplo para outras mulheres. De heroína nacional a “Geni e o Zepelim” em menos de 24 horas. Isso deve ser um recorde olímpico.

 

Rafaela Silva já pode processar todo mundo (inclusive a mim) pelo sequestro moral da sua história, se é que isso existe. As lições mais importantes de Rafaela têm pouco a ver com judô. Elas nos mostram o quanto ainda temos que evoluir como sociedade. O quanto somos racistas, machistas e homofóbicos.

 

O duvidoso legado para a cidade

 

Meu problema com essas olimpíadas em si não se diferencia em nada do problema com a copa do mundo. Além das remoções que muito sofrimento já trouxeram para a população, o que vai ficar para a cidade? Até agora ganhamos a inflação mais galopante do país e dos últimos tempos. Também, recebemos uma imensidade de obras superfaturadas e coladas a cuspe (tanto que muitas despencaram antes da estreia). Elas servirão para alguma coisa? O prognóstico não é animador. Vi recentemente uma série de fotos mostrando o abandono de estádios e estruturas de cidades olímpicas em outros países. São chocantes as imagens de Pequim e Atenas, por exemplo, em que você vê estádios majestosos e vilas olímpicas completamente abandonados. Parques aquáticos imensos e vazios (no Rio, imagino aquelas piscinas se tornando repositórios de mosquitos – a dengue agradece). Eram estruturas faraônicas demais, ou então redundantes, de manutenção cara para estruturas desnecessárias, e que portanto não foram incorporadas à vida orgânica das cidades onde estão instaladas. Sua construção só pode ser justificada pela corrupção e/ou beneficiamento do setor de construção e do capital (até agora, o único que saiu de fato vitorioso dessa história toda).

No mais, vejo muitos amigos se divertindo acompanhando os jogos. Por vocação e formação, tenho poucas inclinações para policiamentos. Como se diz por aí, “Boa noite pra quem é de boa noite, e bom dia pra quem é de bom dia”. Divirtam-se. Eu não consigo. A alegria do militante é o futuro.

 

 

 

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Homens que entendem de prostituição


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Aviso, de antemão, que o texto é pesado. Se você quer continuar em um jardim cor de rosas, melhor pular para o próximo post, abrir uma foto de gatinhos ou qualquer coisa que o valha. Este último mês uma acalorada discussão em torno do projeto de lei que regulamentaria a profissão de prostituta (conhecido como Gabriela Leite) tomou conta de redes e fóruns dos movimentos sociais e, acredito, não sem razão. O projeto levantou uma discussão que há muito deve ser levantada sim, e levantou na paralela muitas outras problemáticas. Acho um tanto desconfortável escrever sobre este tema. Abordar o assunto prostituição sem cair em moralismos ou respostas estereotipadas não é nada fácil, mas vamos em frente.

Gostaria de começar me colocando no lugar da minha geração: a de homens beneficiários da revolução sexual e, especialmente, da liberação sexual feminina. Nunca paguei por sexo na vida. Não precisei e nunca me interessei. Mas, mesmo assim, a prostituição me “atravessou o caminho” muitas vezes. E nem sempre de maneira suave. Morei muitos anos nas imediações da Lapa, e só de lá eu teria umas boas centenas de histórias para contar. Mas vou me reter em duas, por demais exemplares, e de fora da minha Lapa querida. Ambas, como se verá, serão centrais para a argumentação a respeito do PL Gabriela Leite.

A primeira deu-se há mais ou menos 20 anos. Eu ia às vezes beber uma cerveja em um bar na Praça Mauá (eu faço todo o meu planejamento em botequim). Ele era daqueles bares antigos, com bancos estilo tamborete, altos, de frente para um balcão. Como estávamos na Mauá, área de marinheiros, havia uma tosca folha de caderno com uma cotação “Real – Dólar – Euro” escrita à mão colada na parede. Eu, jovem e tolo, achava esse ambiente divertido até que uma noite, algo aconteceu para mudar a minha opinião. Estava eu em um desses tamboretes, dois ou três lugares depois, havia uma outra alma dessas também afeitas à solidão. O cara devia ter uns dez anos a mais do que eu e também só estava tomando a sua cerveja sozinho em paz, quando de repente ouvimos gritos e algazarra vindos da rua. Em frente ao bar, um homem enorme estava espancando uma prostituta. Eu me levantei e me dirigi para fora. Para minha surpresa, o meu involuntário companheiro tomou a mesma medida. Para surpresa maior ainda, quase de imediato todos os garçons, umas poucas prostitutas que estavam lá dentro também e uma velhinhas com cara de moradoras da Gamboa se atiraram em cima da gente, bloqueando nosso caminho, dizendo coisas do tipo “não façam nada / ele é o dono da rua / ele vai matar vocês”. Com a confusão, o cara percebeu o movimento dentro do bar, tirou uma arma e direcionou-a mais ou menos na minha direção. Saí para beber uma cerveja e terminei testemunhando um espancamento, com duas velhotas cada uma agarrada em um dos meus braços implorando para eu não me envolver e uma arma apontada, ainda que um tanto vagamente, para a minha cara. Pelo menos, com a confusão, o espancamento parou e a prostituta fugiu. Ninguém precisou falar nada: só pelo corte de cabelo dava para perceber que o agressor era um policial.

Cena dois. Dez anos atrás. Ilha do Algodoal. Eu fiz uma viagem a trabalho pelo norte e aproveitei um fim de semana livre para ir conhecer a tal ilha. Muito bem recomendada. Me disseram ser um paraíso. Até era. Mas, à noite, a região mudou muito de figura. Tomando uma cerveja no único bar local (eu estava viajando sozinho) me aparece uma senhora me oferecendo a filha, que não podia ter mais do que 11 anos de jeito nenhum. Além de ter sido colocado naquela criança uma espécie de vestidinho, ao que tudo indica com o objetivo de torná-la sedutora, ela havia sido pesadamente maquiada (e muito mal maquiada), o que só acrescentava ainda mais horror à cena geral. Eu ia começar a fazer um discurso, mas lembrei de onde eu estava. Lembrei que estava sozinho, em uma terra cujos códigos desconheço, à beira do Atlântico e à margem do Amazonas. Lembrei que não havia avisado que eu iria a Algodoal, e que, portanto, ninguém no mundo sabia que eu estava ali. Naquela terra de pistoleiros, não consegui imaginar situação melhor para uma pessoa “ser desaparecida”. Então, limitei-me a declinar da oferta de cara feia e não fiz nada. Acho que um pouco da minha covardia se explica, nesse caso, pelo que estava acontecendo no Pará naquele exato momento. Isso não tem nada a ver com o tema prostituição, mas creio que vale lembrar uma outra história. Resumindo muito, como disse, estava viajando a trabalho. Comecei meu périplo por Boa Vista, em Roraima, e lá, fiquei sabendo que em Belém, uma menina, por uma contravenção estúpida qualquer, havia sido colocada em uma cela com vários homens. É claro que ela foi muito estuprada. Eu via os noticiários de televisão e jornal, e nada do episódio ser noticiado. Na etapa seguinte da viagem, segui para Manaus, me perguntando se essa notícia terrível chegaria ao sudeste. Quando fui para Belém, a notícia estava finalmente circulando em cadeia nacional, passando inclusive no JN. Eu estava em Belém, pouco antes de embarcar para a Ilha do Algodoal, quando até o Arnaldo Jabour falava sobre o assunto em suas croniquetas. Na época, perguntei para os professores paraenses com quem estava trabalhando o que eles achavam daquilo, e normalmente a resposta era algo do tipo: “ah, esse tipo de coisa acontece aqui o tempo todo!”, ou então, “ah, aqui acontece coisa muito pior!” (não tive coragem de perguntar o que poderia ser pior). Enfim, todo o episódio reforçou  a percepção de que eu estava em uma terra de ninguém.

Como falar sobre o assunto sem essas bases? O auge da discussão acerca do PL se deu em um debate, tenso do início ao fim, na Fiocruz. Neste, duas palestrantes se posicionaram a favor do PL, e duas contra. A fala de Eloisa Samy, vinculada ao grupo das feministas radicais, foi a mais esclarecedora sobre as limitações do projeto. Trata-se de uma lei exígua (não são nem dez artigos) e vaga, que não estabelece por exemplo quem garantiria e qual o regime dos direitos trabalhistas dessas profissionais (CLT, autônomo, temporário?). Não se trata em absoluto de deslegitimar um projeto elaborado pelas próprias prostitutas. Muito pelo contrário. Por mim, não há um único senador ou deputado federal que eu não trocaria, feliz, por uma profissional do sexo. Troque o nosso Congresso Nacional por uma Convenção das Putas e nós, de certeza, estaríamos todos melhor arranjados. Elas sabem mais do que eles do que o país precisa. Trata-se apenas de criticar as deficiências do projeto.

Uma lei sobre prostituição que não crie mecanismos de punição para policiais proxenetas  e abusadores é uma lei sem dentes. Uma lei sobre prostituição que não encare o fato de que a maioria das pessoas entra na profissão ainda menor de idade, e não crie nenhum mecanismo para evitar o tipo de cena que presenciei no Pará, é uma lei sem alma. Ignorar isso é brigar com a realidade, e quem briga com a realidade sempre perde. Eu já odiei muito aquela mãe. Por anos, eu a condenei a penas severas em tribunais imaginários. Hoje, ao lembrar dessa história, eu só vejo dor. Para chegar a esse ponto, aquela pessoa deve ter provado cada uma das misérias dessa terra e experimentado todos os sofrimentos dessa vida (o mesmo, infelizmente, diga-se da sua filha). Enquanto houver a pressão da fome, fica um pouco deslocado falar em prostituição como empoderamento do feminino.

A lei também não lida com diversas outras questões levantadas pela realidade, por exemplo, a da violência sexual. A maioria das pessoas, creio, nem sequer entende que uma prostitua pode, sim, ser estuprada. Assim como não entendem prostitutas também se apaixonam, têm sentimentos românticos, depositam grandes expectativas em projetos de casamento e de maternidade, assim como a maioria das mulheres deposita,  uma vez que no patriarcado tais projeções são fortemente inoculadas nelas desde pequenas. Da mesma maneira, estão elas sujeitas a todas as formas de violência a que qualquer mulher está.

Para concluir, eu diria que qualquer projeto de regulamentação da prostituição enfrentaria tremenda resistência de um Congresso avassaladoramente hipócrita e conservador (se é que a justaposição desses adjetivos não é uma redundância). Então, por que se desgastar para aprovar uma lei ruim que não resolve nada ao invés de lutar por uma lei que, ao menos, funcione?

Eloisa enfrentou o tema com destreza e escapou das armadilhas do moralismo, sempre a espreita quando o assunto é prostituição. Ela limitou sua argumentação aos aspectos jurídicos e demonstrou de maneira convincente que o PL não atende às necessidades reais das principais interessadas, não importando de onde tenha vindo o projeto. Por isso, está sofrendo agora, entre outros ataques, acusações de ser transfóbica. Acho sempre lamentável ver alguém ser desqualificado em um debate com acusações aviltantes, seja por razões políticas ou meras picuinhas pessoais. Já passei por isso e, neste ponto, me solidarizo inteiramente com ela.

 

 

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Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra


Acabei de assistir a um vídeo no Youtube que me deixou bastante impressionada, pois se propunha a esclarecer rapidamente o que seria a ideologia de gênero. Bem realizado do ponto de vista da atratividade a ser exercida sobre o público, o material, no entanto, degringola a emitir falsos conceitos sobre o que seria a chamada ideologia de gênero. Nesse contexto, quem aceita os pressupostos por ele defendidos como verdade, tenderia imediatamente a rechaçar a ideologia, julgando já conhecê-la o suficiente para isso. Em linhas gerais, a produção afirmava que, ao levar tal teoria para a escola, meninos e meninas seriam despojados de sua identidade, tornando-se seres confusos em relação a si mesmos, ocasionando o fim da família.

O que pretendo aqui é expor didaticamente quais seriam as bases que alicerçam a ideologia de gênero, segundo entendimento que tenho acompanhado de seus defensores.

Estariam os seres humanos submetidos, quanto à questão dos gêneros, a quatro norteadores: sexo biológico, orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero.

O sexo biológico, como muitos já sabem, é definido no momento da fecundação. Todo óvulo possui um cromossomo X. Os espermatozoides podem conter cromossomos X ou Y. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo X, o bebê será XX, do sexo feminino. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo Y, o bebê será XY, do sexo masculino. A partir de então, cada um deles formará seu aparelho genital. Palmas para quem diz que nascemos homem e mulher. Faz sentido.

Mas os seres humanos são complexos e há muito mais a definir e identificar as pessoas do que ter nascido com piupiu ou com perereca. Quanto à orientação sexual não se trata puramente de uma escolha, mas de uma inclinação motivada pelo desejo sexual e pelo bem-estar, o que envolve questões de ordem afetiva e sexual.  Temos aí pessoas homossexuais, heterossexuais, bissexuais. O que se traz entre as pernas não é suficiente para determinar a atração por outras pessoas.

A identidade sexual e a identidade de gênero se mesclam para mim e têm a ver com a maneira como as pessoas veem a si mesmas e na maneira como a sociedade as encara. Na parte da autoimagem, está incluída a capacidade de as pessoas reconhecerem-se pertencentes a determinado grupo, com determinadas características. As pessoas podem ser cisgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero são correlacionadas ao sexo do nascimento), transgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero não são correlacionadas ao sexo do nascimento). O que pode causar certo estranhamento é entender que o transgênero não é necessariamente homossexual. Apelemos para a ficção: que tal assistir a Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar? Travestis podem sentir-se como homens ou como mulheres, tratando-se, para el@s, de uma questão variável. Os transexuais identificam-se com o gênero oposto ao do sexo com que nasceram e, na maioria dos relatos, consideram-se no corpo errado. Para entender melhor a questão, que tal assistir ao documentário “Meu Eu Secreto – Histórias de Crianças Trans“? Já @ cartunista Laerte defende que a ideologia de gênero mesmo é a que se pratica amplamente nas escolas hoje, confundindo as pessoas e acirrando diferenças, no momento em que se baseia em um binarismo que não dá conta da complexidade da existência humana (veja entrevista).

Já quanto à forma como a sociedade enxerga as pessoas, definindo-lhes previamente papéis e comportamentos sociais, impondo expectativas e limitações, isso sim tem a ver com construção social.  Salve Simone de Beauvoir, tão citada quanto incompreendida! Quando se espera, por exemplo, que uma menina seja sempre delicada, goste de rosa, não seja aplicada aos esportes e goste de brincar de bonecas, ou quando se espera que o menino seja grosseiro, deteste rosa, seja bom esportista e goste de brincar de carrinhos, tudo isso está envolvido na questão da identidade de gênero, que é por demais limitadora, enquadrando as pessoas em papéis, sem que elas se deem conta das múltiplas possibilidades de realização. Rumando à vida adulta, a concepção de que a mulher precisa se dar o respeito, falar baixo, resguardar-se sexualmente, chorar, e a de que o homem precisa ser espeitado apenas por ser homem, falar alto, aproveitar as oportunidades sexuais que se lhe apresentam Aqui não se está falando de sexualidade, ok, mas de expectativas geradas por parcelas consideráveis da sociedade por conta da identidade. Para entender de forma bem simples, sugiro o anúncio intitulado “Corra como uma menina”.

Não tenho talento para desenhar, mas alguém já o fez por mim. Que bom! Está aqui o resumo de todo esse papo aqui de cima.

Para continuar clique em Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra, publicado originalmente no blogue Feminagem.

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É possível organizar esta cesta de ideias ?


 

“(…)tal  é  a brutalidade da luta de classes básica em nosso país, a dos proprietários contra os sem nada. Por aqui mexeu na propriedade homem vira bicho. “ Paulo Arantes

– Sempre foi assim. Gente pobre e gente rica, sempre vai ter. Quem nasce pobre tem mais é que trabalhar. Se pode trabalhar não pode ser vagabundo, vai viver como ? Vai roubar? Vai viver de esmola? Nas costas dos outros? Só mesmo quando a pessoa dá muito azar, porque a desgraça pode acontecer com qualquer um, isso a gente sabe. Porque a desgraça às vezes pega a pessoa sem ela merecer. Se bem que Deus escreve certo por linhas tortas. A gente não sabe de nada, vai saber o que a pessoa fez na outra encarnação. Às vezes você vê uma pessoa muito pobre que tudo dá errado para ela e a gente pensa, coitado. Mas pode estar certo que alguma coisa tem de errado ali. Por que se a pessoa firmar no trabalho Deus ajuda, se a pessoa tiver vontade de trabalhar, sempre arranja algum meio de se virar. Pode não ficar rico mas passar fome? Só vagabundo passa fome por aqui. Está cheio de empresário precisando de empregado bom, bom mesmo, de confiança e olha, difícil encontrar, hem, não é fácil não. Olha que eu conheço muita gente rica que sempre está ajudando as pessoas. Tem a Igreja, tem essas pessoas ricas que ajudam, até na TV tem um monte de programa de TV que ajuda quem merece. Quer dizer, a pessoa é rica, não precisa ajudar ninguém mas ajuda. Se é rico é porque trabalhou. É rico porque conseguiu chegar lá, tem talento, se esforçou. Ou então deu  sorte, tem um pai e um que avô trabalharam para isso. Fizeram sacrifício para isso mesmo, para o filho, o neto, o bisneto terem do bom e do melhor. Quem não quer o mesmo para a sua família? Eu faço tudo pela minha família. Se eu ficasse rico, quer dizer, quando eu ficar rico – a gente não sabe, né?-eu fazia a mesma coisa. Não vou dar tudo para minha família? Claro que vou. Minha filha ia viver como princesa, meu filho como rei, para minha mãe dava uma casa, arrumava a vida dos meus irmãos. Mansão, carrão, fazenda, iate, helicóptero, até avião se for dinheiro grande mesmo, se o cara ganhar sozinho da Mega Sena, quem não quer? Se bem que diz que isso aí é tudo roubado, viu aquele caso do fulano de tal, ganhou não sei quantas vezes na loteria, eu não acredito em loteria, não acredito. É tudo uma roubalheira. Só jogo de vez em quando. Vai que aquele lá de cima resolve olhar pra mim e fala, deixa eu ajudar aquele lá que está merecendo. Porque eu trabalho duro, viu, trabalho para valer, trabalho desde os 14 anos de idade. Aprendi tudo na faculdade da vida. Ninguém me engana. O quê? Tomei muita paulada mas aprendi porque eu não sou burro, né ? Eu- ninguém engana. Tem gente que vai em conversa de pastor, de político, professor, essa gente gosta é de falar muito mas fazer, faz pouco. Esses políticos, aí, tudo mentiroso, um bando de mentiroso salafrário. Ganham um dinheirão para fazer o quê? Nada. Um monte de imposto que a gente paga para  quê ? As escolas são uma porcaria. Hospital não tem, a gente é obrigado a pagar plano de saúde porque não tem nada.Toda hora aparece na televisão aquele monte de gente morrendo no corredor do SUS. Graças a Deus eu tenho saúde, não vou no médico nunca mas, vai saber, de repente dá um piripaque aí. Nessas horas se não tiver plano de saúde vai fazer o quê? É caro mas com saúde não se brinca. Já pensou um filho precisar de um médico e morrer na portado hospital como aquela moça que no mês passado, Deus me livre, um absurdo, a mulher grávida gritando, barrigão desse tamanho e ninguém pra atender. Não viu ? Passou na TV. Eu vejo pouca TV, mais o jornal e o futebol mesmo. A patroa gosta de ver novela, eu também assisto mas não presto muita atenção. Vejo de vez em quando, campeonato assim,  vou assistir o jogo com os amigos no bar. Não sou de beber, não, todo dia, isso não, só uma cervejinha de vez em quando, quando tem almoço da família lá em casa ou na casa dos meus irmãos, quando tem folga.  A minha vida é de casa para o trabalho, do trabalho para casa, a gente chega cansado, comprei uma dessas tvs grandes aí, a gente assiste o jornal, eu gosto de ver jornal enquanto a patroa faz a janta. Mas nem sempre porque é tanta desgraça no mundo, é tanta mentira, tanta roubalheira. Olha o que aconteceu com a Petrobras. Falida. Como é que pode, gente. Diz que era a maior do mundo mas o PT tanto roubou que acabou com tudo. Não tem jeito, não tem mais jeito, esse Brasil não tem jeito. Alguém tinha que pegar uma metralhadora, uma granada, uma bomba, jogar em Brasília e matar tudo. Não sobrar ninguém, fazer uma limpa. Por que é que não aparece alguém para fazer esse favor para o Brasil ? Ia virar herói. Brasileiro é muito bunda mole, isso é que é a verdade. Pode fazer qualquer coisa com ele que não se revolta. Pensa que lá fora é assim? Nada. O povo luta, o povo vai para a rua, briga e coloca político para correr. Aqui, não. Aqui quando vão para rua quebram lixeira, espalham lixo pela rua, quebram vidro de banco, vitrine de agência de carro, aqui só vai baderneiro. Por isso que eu não me meto com política. Não quero mais saber. O negócio é a gente ir levando, cuidar do que é da gente e deixar essas coisas para lá. Nesse negócio ninguém presta, ninguém da política presta. Eu votei, sempre votei porque eu acreditava que uma hora ia aparecer um homem de verdade para acabar com essa bagunça. Teve o Lula, no começo ele até que foi bom, fez umas coisas mas você, viu ? Meteu a mão como todo mundo. É tudo igual. Depois puseram aquela mulher lá então. Não pode. Mulher não tem condição de tomar conta de um país desse tamanho. O Brasil é muito grande. Mulher é a melhor coisa que tem, sem mulher não existe nada mas para certas coisas não dá. Se bem que ela, dizem, né, que nem é mulher. Eu até pensei que tirando ela ia melhorar mas até agora nada. E o desemprego está aumentando, viu. O meu filho mesmo, está por aí procurando vaga e nada. Falei para ele, não apavora, faz uns cursos, que agora se a pessoa não estuda não consegue nada, faz uns bicos, vai se virando, eu trabalho, a mãe dele me ajuda, a gente vai levando. Depois não é culpa dele. É culpa desses fdp dos políticos. Melhor nem falar nisso, cortaram uns dez lá no serviço. Eu não porque não dou problema, nunca dei problema, não vou atrás de sindicato, não entro em baderna. O país nessa crise e tem cara ainda querendo reclamar do salário. Se o empresário não ganha, como é que vai pagar ? É uma gente muito burra. Eu faço o meu serviço, não dou razão, fico na minha e trabalho. Também se mandarem embora pego meu fundo de garantia e abro um negócio, uma oficina, sei lá, Deus é que sabe. Tem colega desesperado porque paga aluguel, tem dívida, sabe como é, cada um com seus problemas, fazer o quê. Eu não tenho medo de trabalho então enquanto tiver saúde não passo necessidade. Tenho meu apartamento, tenho meu carro, vamos ver no que é que vai dar. Roubaram o outro, roubaram um mas consegui comprar outro, graças a Deus. Levaram na mão grande, sabe como é? Enfiaram o revólver na minha cara, graças a Deus não me furaram, achei que ia morrer. O que acaba com o Brasil é a ladroeira. Corrupção e ladroagem. Tinha que pegar o ladrão e fazer como lá fora, cortar a mão. Roubou de novo ? Corta a outra. Ou então matar logo de uma vez para não ter que sustentar vagabundo. Fica essa gente aí dos direito dos manos falando que não é para matar esses pivetes. A polícia tem mais é que matar mesmo, você já viu cada coisa que esses moleques fazem? Acha que eu vou defender quem vai roubar meu carro, arrombar minha casa, roubar minhas coisas, matar minha família? Tanta coisa acontecendo que parece o fim do mundo. Já viu o programa do Datena? Assiste para você ver.  Eu quero que eles morram mesmo. Deixa a PM trabalhar. Se eu tivesse um revólver, bandido nenhum levava meu carro. Dava um tiro na cara do vagabundo na hora. Alguém tem que parar essa bagunça. O povo brasileiro está cansado. A gente só quer viver em paz.

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Curtas


 

Aí nesse papo de polivalência no mercado profissional, você descobre que o cerne não é valorizar as suas muitas habilidades, e sim fazer você trabalhar desempenhando as funções de muitas pessoas.

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Aí vc está olhando as publicações da rede social e aparece a foto de um homem bonito na barra lateral direita, com os dizeres “Quero namorar”. Desconcentra, gente. Onde é que posso escrever “Problema seu”.

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Aí na notícia que fala do pastor acusado de abusar sexualmente do enteado de 5 anos, alguns comentários tratam de acusar a mulher de exposição da intimidade da família; outros, o defendem, chamando a atenção para a tendência pecadora de todo ser humano. Como diria uma grande amiga: na moral, pecado de cu é rola!

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Aí o discurso do lado-de-lá: O Rio está em crise blá-blá-blá, os servidores têm de ser compreensivos blá-blá-blá, os professores têm de retornar às salas sem salário blá-blá-blá, a justiça considerou a greve abusiva. Aí o discurso do lado-de-cá: sem segurança, sem limpeza, sem merenda, os terceirizados não recebem há cinco meses, sem blá-blá-blá.

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Aí eu conversava com um representante de determinado sindicato. Não tenho nada contra sindicatos – registre-se. Aí eu discordava dele e da forma como empurraram o fim da greve para a base sem consulta prévia em assembleia. Aí ele se tornava mais verborrágico e dizia que, como representante da classe, ele estava autorizado a tomar certas decisões e assumia as consequências dela, inclusive de ser considerado pelego. Aí eu disse que ele não estava autorizado não, que aquilo era um modelo antiquado de gestão, em que não se supõe a real participação dos representados, muito típico dos nossos políticos, por exemplo, que se acham donos das cidades, dos estados, da federação. Aí ele já tinha me chamado de meu amor umas três vezes. Aí eu disse meu amor não. Meu nome é Aline.

 

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Imagem do site Efetividade

 

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Mais amor


Já faz tempo, eu sei. Não foi por desinteresse nem falta do que dizer. Só sei que parti numa viagem para dentro. Precisava disso. E nesses mergulhos profundos, cada vez mais percebo a necessidade de respeitar o outro. Te parece clichê? Antes fosse só isso. Respeitar o outro é, em alguma medida, respeitar a si mesmo também.

Não consigo achar graça de vídeos exaustivamente compartilhados nas redes sociais em que as pessoas têm suas imagens reproduzidas a serviço da ridicularização.

Não entendo a excessiva preocupação com a roupa, o cabelo, o corpo e a sexualidade alheias. Tanta energia gasta na vida e nas redes sociais para criticar o comprimento das saias, os cortes de cabelo e suas multicores, as tatuagens. Para tomar conta do desejo e do gozo do outro. Para enquadrar as pessoas em clausuras nas quais elas não querem nem devem ficar. Para nos padronizar.

Certas opiniões deveriam ser guardadas apenas para seus próprios pensadores até que elas se reformulassem em algo mais complexo e mais digno de serem comunicadas. Dizer que prefere chocolate amargo a chocolate ao leite eu diria que é um comentário inocente. Não ofende ninguém. Fazer galhofas sobre a forma como outras pessoas se vestem, entre outras questões, não é inocente. É perverso, é rude, é a tentativa de hierarquizar a partir de si mesmo como referência. É arrogante. Não se trata de simples questão de gosto, como alguns querem fazer crer.

Da risadinha sarcástica ao comentário jocoso, o que se faz, muitas vezes sem perceber, é legitimar a estratificação das pessoas, separando-as em seres aceitáveis e seres não aceitáveis. A partir daí, toda sorte de violência pode ter origem. Aos aceitáveis, carinho e admiração. Aos inaceitáveis, que Baumann trata por “ambivalentes”, o escárnio, a ofensa, a agressão, o assassinato. É assim que se dá risada do idoso negro sem dentes dançando bêbado. É assim que se jogam pedras em praticantes de religiões de matriz africana. É assim que se espancam prostitutas. É assim que se pratica estupro corretivo contra lésbicas. É assim que se assassinam estudantes gays e nordestinos.

A ideia de que tudo não passa de mera piada consolida um pensamento separatista em que se ri do outro por ele ser diferente de mim. Se nos entendêssemos parte de uma coletividade, veríamos que não haveria espaço para nos pensar separados uns dos outros, mesmo daqueles que são – ainda bem! – diferentes de nós. Mais amor, por favor.

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Imagem extraída do site Bons Pensamentos.

 

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Uma postagem à brasileira


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Olá, eu sou o Brasil. Fui desafiado a postar quinze fatos sobre mim que talvez vocês não conheçam. Aliás, mesmo depois que eu conte, vai sempre ter muita gente sem acreditar que são verdades. Mas, assim sou eu mesmo. Talvez um dia, quem sabe caia a ficha? Mas, vamos lá: Continuar lendo

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