Serial kids: o terror dos inocentes II


crianças2

A hora do mercado

Tenso e apressado, estava eu pilotando meu carrinho de compras no engarrafado Guanabara. Refletia distraidamente sobre o porquê de a Divina Providência não ter me predestinado ser herdeiro de uma família muito rica…
Eis que um traste atrevido, em altíssima velocidade, tromba com seu carrinho no meu calcanhar. O meliante tinha coisa de 1,30m, 10 ou 12 anos de pura maldade. Não prestou socorro e evadiu-se da cena do crime. Ainda que mortalmente ferido, parti em sua captura. Curvas radicais na seção de laticínios, retas velozes nos frios, um pit stop pro cafezinho 0800… Após uma caçada insana, lá estava o vândalo ardiloso, com seu cinismo petulante, escolhendo seu biscoito Trakinas favorito. Diante do flagrante delito, denunciei o terrorista à Veja e à Globo. No dia seguinte, sua careta dissimulada estava estampada na mídia escrita, falada e manipulada. Enfim, a justiça foi feita.

crianças1

Doce vingança

Mais de 2 horas esperando ser atendido por uma despreocupada dermatologista pra tratar as perebas de uma dermatite. A ortodoxia dos planos de saúde traz sob seus cuidados… a morte.

Uma fome medonha revirava minhas tripas. Foi quando eu vi aquele moleque ranhento comendo minha batatinha ruffles preferida. Quando a mãe dele entrou no consultório, iniciei minha batalha pela sobrevivência.
― Me dá uma batata?
― Não!
― Só uma!
― Não!
― Olha aqui, moleque, se tu não me der essa batata, eu vou tomar tudo.
― Mãeeeee!!!!
Me afastei um pouco e peguei uma daquelas revistas idiotas típicas de consultório médico para bater em retirada. Meu inimigo me encarava com fúria animalesca. O traste egoísta comia mais rápido para alimentar meu ódio. Devorou tudo e deixou o saco vazio no assento ao lado.
Súbito, peguei o elevador, saí do prédio e comprei dois sacos da mesma batata. Voltei rapidamente e fiquei de frente pro cramunhãozinho. Uma por uma, eu mastigava lentamente… As mãos do ressentimento vão temperando seu plano a fim de saborear a vingança, pacientemente, sem pressa ou vacilo.

Categorias: Sociedade, Verso & Prosa | Deixe um comentário

Plim-plim


O globo é bem mais do que fazem a gente acreditar

O globo é bem mais do que fazem a gente acreditar

As efusivas comemorações sucedem-se na metalinguagem vaidosa da emissora poderosa. Cinquenta anos! Que glória. E com audiência! Que bênção. E ainda há os que acreditam que não se pode enganar a muitos por muito tempo. Pobres iludidos. Cada vez mais pobres. Cada vez mais iludidos.

Não há o que tanto se celebrar na história da Rede Globo de Televisão, parte do sistema Globo de controle absoluto da mídia nacional. Um monopólio descarado que detém 60% das verbas de publicidade do país. Um controle quase absoluto em determinados locais, algo que seria proibido nos EUA ou Europa, lugares com leis de regulamentação de concentração de mídia. Uma empresa que sempre usou seu poderio econômico e suas relações promíscuas com o poder em favor de ampliar sua dominação e impor sua visão conservadora de sociedade.

A Globo tem lado definido, tem time, tem bancada. Mas isso não é o mais fundamental, pois nem é tão problemático que se defenda uma posição – algo relativamente comum nos meios de comunicação do mundo. O problema é que a opinião da Globo é transmitida como verdade. A rede falta com qualquer honestidade quando se vende (e como é vendida!) com a imagem da imparcialidade.

Na defesa de seus interesses, noticia versões como fatos consumados, parcialidades como retratos da realidade, colaborando tão somente com a desinformação e a alienação das milhões de vítimas de seu jornalismo fajuto. Seu talento em criar pautas e esconder lutas que não lhe interessam, fazem a agenda do país girar em torno de suas conveniências.

A Globo cria crises e escândalos – não que eles não existam, mas é ela quem determina quais devem ou não existir – que envolvem seus inimigos, abafando completamente quaisquer desvios daqueles que lhe sejam aliados. A verdade é o veredito da análise que faz: são vândalos em 2013, um perigo para a nação; e são cidadãos cívicos os de 2015, quando ela mesma ajudou a organizar o coxinhaço. Até seu jornalismo vive da dramaturgia.

Não é de hoje que o canal se presta ao papel de envergonhar a verdade. A estação fez mais do que apoiar a ditadura, “trabalhou silenciosamente” – segundo os documentos abertos do governo estadunidense – para evitar eleições em 1965 e para endurecer o regime. A Globo tem as mãos sujas do sangue de mulheres e de homens torturados nos porões da ditadura militar. O que fez foi mais que apoiar, mas sustentar e defender ideologicamente o regime, vendendo ilusões e ocultando qualquer informação contrária ao regime. Jornalismo vendido, publicidade em forma de noticiário.

Não é necessário muito esforço para lembrar como a Globo foi máquina de propaganda do regime militar, como, por exemplo, buscou esconder as Diretas Já, transformando comícios por eleições em comemorações oficiais. Manipulações grosseiras, como a edição do debate entre Collor e Lula, são frequentes na emissora, que revela não ter limites na imposição de suas vontades à sociedade. Não é com a verdade que a empresa tem compromissos.

Uma concessão pública questionada em seu nascedouro pela parceria com o grupo estrangeiro Time-Life, condenada pela CPI do Congresso em 65, mas arquivada posteriormente, talvez pelos serviços prestados ao governo militar. A Globo coleciona parcerias com caciques locais, como Sarney e Collor em suas afiliadas. Chegou a comprar a empresa NEC em uma tortuosa negociação que envolvia o então ministro das comunicações Antônio Carlos Magalhães – principal beneficiário da transação – e sua rede de tevê que, coincidentemente, logo após o acordo, passou transmitir o sinal da emissora de Roberto Marinho na Bahia – era uma retransmissora da extinta Rede Manchete – provocando o rompimento unilateral do contrato da Globo com sua então afiliada, a Tv Aratu.

O que dizer do escândalo da Proconsult, quando a Globo quis mudar o resultado das primeiras eleições do país depois do regime militar? Uma tentativa de impor uma derrota a Leonel Brizola – seu grande desafeto – a qualquer preço, mostrando que a falta de critério jornalístico é prima-irmã do mau-caratismo editorial que permeia a emissora.

Há tanto de escândalos e corrupções para se apontar na Rede Globo… Desde o golpe do Papa-Tudo, uma pirâmide financeira patrocinada pelos grandes artistas da Platinada, até a acusação, via Wikileaks, de desvios no repasse de doações do Criança Esperança para a Unesco, passando pelo uso de paraísos fiscais na compra de direitos de transmissão. A lama parece ser o lugar ideal para se procurar a credibilidade das ações da concessionária de tevê.

Talvez o mais impressionante seja a hipocrisia global. Ideologicamente, defende a economia de mercado, privatizações e mais uma série de medidas de flexibilização de direitos e ataques às conquistas trabalhistas. Entretanto, não convive bem com a concorrência de mercado, buscando acabar com atrações de sucesso em outras emissoras.

A Globo, por inúmeras vezes, contratou artistas da concorrência a peso de ouro para, simplesmente, encostá-los na famosa “geladeira”. Como uma criança mimada, quer para si tudo aquilo que não deseja que apareça em qualquer outro lugar.

Assim, compra a exclusividade de eventos que não possui interesse em transmitir, como o carnaval carioca e seu desfile das campeãs. Historicamente, a Globo apresentou Brizola como um Odorico na construção do Sambódromo, inclusive veiculando o boato de que a estrutura não era segura e apresentava riscos. Boicotou a transmissão do carnaval de 84 e amargou uma de suas piores derrotas. Hoje, altera horários de desfile, deixa de transmitir algumas escolas e detém a exclusividade do desfile das campeãs apenas para que nenhuma outra emissora transmita.

O mesmo se passa no futebol, com um monopólio condenado pelo Cade – que orientou o Clube dos 13 a negociar de maneira separada os direitos televisivos – no qual adianta cotas e endivida clubes, mantendo-os sob seu domínio, transmitindo apenas o que lhe interessa e alterando horários de jogos a seu bel-prazer. O torcedor passou a mero detalhe. Até no circo há o respeitável público, algo diferente do pensamento global, em que seus espectadores devem ser tratados como idiotas: a Globo transmite ao vivo a luta gravada.

E, dessa maneira, invade a vida da sociedade, influenciando seu comportamento e impondo sua visão de mundo em todas as áreas em que atua. As quase sete horas diárias de teledramaturgia privilegiam os estereótipos, os preconceitos e a superficialidade. Nordestinos e gays retratados como figuras curiosas e divertidas. Negros que mostram a humildade de sua raça perante o domínio branco.

Histórias maniqueístas, que promovem os valores dominantes, atuando firmemente na manutenção do status quo. Os núcleos pobres felizes, passivos, indicando o quanto é bom ser pobre e ficar longe dos conflitos de ganância e poder que envolvem outros núcleos. Lá, o bom burguês é cercado de serviçais e mostra como pode ser boa a relação de exploração. O pobre humilde de bom coração vencerá na vida, mostrando que o mérito é possível e acessível a todos, normalmente pela via de um bom casamento.

E segue la nave. Escondendo dívidas bilionárias com o fisco, manipulando opiniões e produzindo verdades. Não é à toa que Roberto Marinho teve lugar na Academia Brasileira de Letras tendo escrito apenas “Uma Trajetória Liberal”, obra que nada tem de literária: seu lugar se justifica pelo fato de que, como jornalista, foi o maior autor de ficção do país.

São cinquenta anos de interferência na vida do brasileiro. Meio século a serviço da exploração e contra os trabalhadores brasileiros. Ilusionista da falsa democracia nacional, monopolizadora de opiniões, dona das “verdades” que podem criar mitos ou destruir reputações. Cinquenta anos de Rede Globo, a principal feitora da escravidão intelectual e cultural imposta a todo um país. Que não haja mais cinquenta. Não sei se toda gente aguenta.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Fechando abril: Brasil descoberto & Tardios aromas de libertação


Desde que iniciei minha trajetória transversa no ano da graça de nosso Senhor de 2013 d.C., sempre me deixo arrebatar pelo mês de abril, como já deixei bem registrado em pelo menos quatro textos pregressos: Apertos, aberturas, abris…  e Perfumes de abril!, diretamente e 23 e Revoluções, Involuções, Florações…, indiretamente. Abril exala poesia! Há nele muitos afetos dispersos no ar. E suas datas datas, tantas efemérides que me são caras: a deusa Bastet (das únicas três divindades toleradas por meu ateísmo, junto com São Judas e Mestre Yoda), nascimento e morte de Shakespeare, morte de Cervantes, nascimento de Max Planck, a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho, o assassinato da camarada Olga Benário e, claro, a lírica Revolução dos Cravos.

É difícil continuar a escrever sobre este tema sem me fazer repetitivo. A começar por o nome abril remetendo aa abertura, já que fora um dia o mês de início do ano. Na realidade dura cotidiana, aberturas e fechamentos, vide o dia da mentira, ressignificado no Brasil como dia do início da ditadura militar maldita que perseguiu, assassinou, estuprou, mutilou, torturou… É uma pena que abril não abra cabeças, não literalmente, afinal, DE FORMA ALGUMA, considero a tortura como método. Isso cabe aos débeis mentais ou filhosdaputa apologistas de crimes que são e que reivindicam o ABSURDO!

Mas, tentando não ser repetitivo e seguindo, pelo faro poético, o rastro volátil dos aromas de abril, tratemos dos temas anunciados ao título. Comecemos pelo tal “descobrimento” do Brasil. Até onde sei, a própria expressão, hoje em dia, comumente, é problematizada nas aulas de História, segundo vários pontos de vista e gradações de criticidade: “a chegada dos portugueses”, “a ocupação…”, “a invasão do Brasil” (este eu sou bem contra. Só os índios têm legitimidade para usá-lo, e, como disse semana passada, o Brasil não tem direito de assumir a vitimização e martírio indígenas), etc, etc… A questão aí é desconstruir a ideia de que o Brasil seja uma descoberta da colonização, pelo fato de que aqui já havia civilizações. Claro que podemos reproblematizar isso, sem perder o viés crítico, ponderando que Brasil tal qual concebemos é um conceito que, de fato, só faz sentido após a chegada dos colonizadores portugueses aqui. Então se trataria, talvez, dalgo mais profundo, como uma “invenção” mesmo do que seja Brasil.

descobrimentoDa forma como vejo toda essa história, o Brasil tem tido sucessivas redescobrimentos e não falo aí de “descobrir” equivalente a “encontrar”, “achar”, mas sim de se desvelar o que antes estava “encoberto”. Nesse sentido, estamos inda a nos descobrir um tanto. Ao que tudo indica, o Brasil, nos últimos anos, foi, então, “descoberto” por uma parte do mundo, só que ainda há tanto Brasil e brasilidade a se descobrir. Tem um baita Brasilzão encoberto de todo, desconhecido e silenciado que sequer descobriu a si próprio, quanto mais que pode reivindicar status de país e ir além!

brasil descoberto

Nesse descobrimento por vir, uma das coisas, dentre tantas, que precisamos nos questionar é quem somos afinal e como queremos nos apresentar e definir ao mundo e a nós mesmos. Aqui passo a tratar duma questão que, na verdade, não é reflexão original minha, mas emprestada da cara professora doutora Vanise Medeiros, da UFF, com quem tive o prazer de estudar Análise do Discurso na Pós. Tal reflexão passa, decisivamente, por essa área em que não sou especialista, mas da qual gosto de muita coisa por tantos interessantismos que tem. E, afinal, este texto já vinha, em algum nível, tratando mesmo de Análise do Discurso. Claro que aqui não me valerei de nenhuma terminologia mais específica da área.

Ocorre que é muito curiosa a forma pela qual nos denominamos: “brasileiros”. Ora, há, na língua uma série de sufixos formadores dos chamados “adjetivos gentílicos”, aqueles que indicam origem, nacionalidade, regionalidade, etc. Os mais comuns, em língua portuguesa, são “-ano”, “-ês” e “-ense”, como em:

– haitiano, marciano, kryptoniano;

– finlandês, escocês, cantonês;

– niteroiense, parisiense, canadense;

Além destes, há outras formações muito comuns aos gentílicos em português:

– argentino, filipino, novaiorquino;

– germânico, babilônico,asiático;

– catalão, alemão, afegão;

– europeu, eritreu, hebreu;

– egípcio, coríntio, fenício.

A referência aa origem pode até ser feita ainda por redução vocabular ou pela manutenção da forma da palavra quando o país ou região apresenta forma de feição adjetiva, como, respectivamente, em:

–  belga, grego, árabe, persa, russo, cazaque, curdo, croata;

– tcheco, basco, bósnio, armênio.

Isso só pra falar dos principais processos de indicação de nacionalidade/origem. Ainda há os reduzidos: afro, braso, hispano, etc. Agora, origem com “-eiro” é algo pra lá de exótico! Esse sufixo forma, em geral,  ocupação, profissão, atividade. Há muitos outros gentílicos referentes ao Brasil quase desconhecidos das pessoas em geral: brasileiro, brasiliano, brasilense, brasílico, brasiliense, brasílio, brasilês, brasilista. Não confundir nenhum desses com “brasilianista”, aquele que estuda o Brasil. Muita gente também não sabe que boa parte desses nomes já designou nossa nacionalidade. No séc. XIX, quando, após a independência, essa discussão se tornou mais presente muitos foram os nomes usados pra designar o habitante/nascido aqui. Já fomos, por exemplo, brasilenses e brasilienses, muito antes de Brasília. Já fomos brasilianos. Essa discussão, com trocadilho e tudo, apaixonou setores da sociedade em tempos de Romantismo. Por fim, após a república especialmente, cada vez mais passou a prevalecer a forma “brasileiro”. Não há gentílicos em “-eiro”. “Mineiro”, de fato, é, antes, uma designação de afazer, de profissão, de ocupação, já que o nome do estado advém da designação de “Minas Gerais do Império” e, por metonímia, toda a circunvizinhança passou a ser assim denominada. “Brasileiro” vem de onde então? Vejam que curioso, “brasileiro” era a denominação do comerciante de pau-brasil. Ou seja, adotamos por nome de nossa nacionalidade a primeira e mais simbólica forma de exploração de nosso próprio país. Ainda damos prosseguimento aa colonização em nós mesmos. Carregamos decalcada e recalcadamente a expropriação. Em idiomas muito próximos, nosso sufixo de nacionalidade atribuído é o que corresponde ao português –ano. Brazilian e não Braziler, brasileño em vez de brasilero, brasilien no lugar de brasilieur.

Outro dia, em outro texto, falo da nossa bandeira, um episódio aa parte de nossa conturbada identidade.

 

Isso tudo passa por identidade, uma discussão na qual ainda temos muito o que “descobrir” sobre o Brasil. Tal debate de identidade começou, mais intensamente, há quase 200 anos e ainda tem muitos de seus aspectos encobertos. Imagine quem iniciou tal aventura há menos de meio século. Essa é a situação de nossos irmãos colonizados em língua portuguesa no resto do mundo. Este ano, Angola, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe celebram jovens 40 anos de independência. Guiné-Bissau não consta dessa lista por ter conquistado tal libertação em 1973, graças aas contundentes ações do PAICG (Partido Africano para Independência de Cabo Verde e Guiné-Bissau, tendo por uma de suas principais lideranças o poeta guineense-caboverdiano Amílcar Cabral, assassinado em 1973), embora Portugal só a tenha reconhecido em 1974, após os Cravos de abril. E o Timor Leste também não figura aí, mas por razões contrárias, tendo caído nas garras da Indonésia, logo após se libertar de Portugal, situação da qual só se livraria em 2002, após muitas mortes, torturas e prisões, inclusive de quem falasse português no país. Mas, de todo modo, isso tudo dá uma dimensão bem abrangente aa Revolução dos Cravos, com efeitos d’além mar.

40 anos de libertação 2

Da esquerda pra direita e de cima pra baixo: Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

 

O que levou todas esses povos aa libertação foi a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, pondo fim a décadas de tardio e persistente governo fascista em Portugal. Os ecos da Grândola percorreram quilômetros sem fim, exalando aromas de abril pelo mundo de língua portuguesa. É verdade que, nos países africanos, todo esse processo foi muito pouco lírico. Especialmente em Angola e Moçambique, seguiram-se guerras civis, pelo próprio controle e direção dos países, que, além de muito extensas, dizimaram brutalmente suas populações. Até hoje, Moçambique tem minas terrestres ativas, com uma das maiores populações de amputados do mundo, em termos absolutos e relativos. Em Moçambique, a profissão de sapador, (des)instalador de minas, ainda mobiliza muita gente. Uma tristeza total.

[Banda de roque angolana.]

Estes países estão a definir suas identidades como fizéramos antes. Poderíamos estar a contribuir muito mais com eles. Poderíamos a nos sentir muito mais próximos e identificados a eles. Poderíamos ser bons irmãos mais velhos, com as boas e más lições de nossa história. Espero que todos esses países, com dinâmicas societárias bem diversas e todos marcados pela diversidade cultural, o que inclui dezenas de outras línguas, além do português, não trilhem o caminho de extinção das culturas e línguas nativas que aqui singramos. Hoje, um importante cerne da discussão de diversidade cultural passa pelo continente africano, subsaariano especialmente, entre o cosmopolitismo das línguas europeias e a especificidade das expressões culturais nativas várias autênticas e genuínas. E o século XXI há de ser decisivo aa África em seu desenvolvimento social. Até metade deste século, por exemplo, Angola e Moçambique já serão nações de língua portuguesa majoritária. Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau vivem um concreto, real e dinâmico bilinguismo em seus cotidianos.

Identidades nacionais são duma complexidade vastíssima. Quase 200 anos após a independência, ainda temos tanto de Brasil a descobrir, em natural multiplicidade de sentidos. O que não dizer então desses jovens países lusofalantes? Espera-se que Portugal reconheça a enorme dívida histórico-social que tem com todas essas nações também e possa lhes oferecer parceria, com respeito aa sua diversidade. Que possamos nos irmanar e identificar com nossos países caçulas e revigorar aromas de abril, não só em cravos, mas em todo vigor do que flore em suas terras.

Celebração pela Revolução dos Cravos nas ruas de Luanda, capital de Angola. Só em números oficiais, após a Revolução dos Cravos, foram libertados 85 presos políticos em Angola.

Celebração pela Revolução dos Cravos nas ruas de Luanda, capital de Angola. Só em números oficiais, após a Revolução dos Cravos, foram libertados 85 presos políticos em Angola.

Independências:

  • Angola: 11/11/75
  • Cabo Verde: 05/07/75
  • Guiné-Bissau: 24/09/73
  • Moçambique: 25/06/75
  • São Tome e Príncipe: 12/07/75
  • Timor Leste: 28/11/75 (de Portugal), 20/05/2002 (fim da ocupação indonésia)
Categorias: Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , , , , , | 3 Comentários

Com as roupas e as armas


Acordou com os fogos. Reverenciou S. Jorge ainda deitada, virando e pedindo só mais cinco minutinhos.

Diariamente na luta-lida das batalhas, enfrenta o transporte, as investidas, a repetição, o assédio.

Tem consciência do trabalho alienado, da moral e do corpo assediados. De que adianta? Conhece colegas que nunca mais arrumaram emprego depois de processarem as empresas. E se cala com a boca de feijão.

Não há refeitório, precisa engolir às pressas de pé em qualquer canto. Precisa engolir, como engolem sua vida, seus sonhos e como engolirão a vida e os sonhos dos seus filhos, se os tiver um dia.

No filme que viu com Jennifer Lopez e Antonio Banderas, havia uma cidade onde as mulheres eram assassinadas e a população acreditava ser obra do diabo. Já sabia que o diabo vive entre nós, respira, caminha, nos aperta a mão e não é ser de outro mundo.

Caminha com as amigas para o baile. Tem pena da MC menina, funkando ostentação, incentivada pelo pai.

Caminha com as amigas para a escola. Não tem aula, não tem professor, governo não contratou, jornal bota a culpa na aposentadoria. Não se deixa enganar.

Sabe que o diabo tem sete peles e os inimigos são vários. Mas ela está vestida com as roupas e as armas de Jorge.

Ogum e S. Jorge

Imagem do blog Ilê de São João Menino

Categorias: Sociedade | 3 Comentários

Serial kids: o terror dos inocentes


órfã

Lilica Ripilica

Uma dessas coisas que acrescentam distração ao espírito atormentado de um ser grisalho é assistir a filmes de animação. Todos.
Uma pequena incompatibilidade com a plateia desse gênero cinematográfico tornou proibitiva minha ida aos cinemas. A reclusão é o efeito colateral de uma dose excessiva de criança. Digamos que a natureza é inversamente pródiga nas compensações: para cada alma dadivosa engendra um bando de pestinhas bagunceiros.
Na última vez que fui ao cinema deu-se o seguinte:
Terminada a sessão do Rei Leão, vi que não havia a fila maldita das pipocas gigantes. Só queria comprar um trident de hortelã. Mais rápida foi uma garotinha sardenta que se enfiou na minha frente como aqueles motoristas insolentes que ultrapassam pelo acostamento. Pediu dois baldes de pipoca, dois tanques de coca-cola e outras tralhas. Como não conseguia carregar o trambolho sozinha, ficava gritando pro palerma lesmento do pai ajudá-la. Ela gritava, gritava…
Eu só queria um trident.
Sob um olhar retrospectivo e privativo, bem que aquela menina poderia ter nascido na Islândia. E o pai na Sibéria. Seria um grande alívio para minha memória. Mas ela gritava, gritava… As sardas malignas tremulavam em meio aos esguichos lancinantes daquele obstáculo à minha breve felicidade.
Eu só queria um trident.
Não suportando mais aquele tormento, sussurrei no ouvido dela:
― Sabe o que acontece com o leão no filme?
― Não.
― ELE MORRE!!!
Parou de gritar. Chorava, chorava… Saiu correndo e chorando em direção ao pai:
― Eu não quero mais ver esse filme! O leão morre!!
Chorava, chorava…
Sinto-me bem fazendo uma boa ação, porém a prática daquela pequena vilania trouxe leveza ao meu espírito. A paz celestial cingiu-me com auréolas de nuvens douradas.
Eu só queria um trident. De hortelã.

os patos

Os patos

O bucolismo parnasiano dos jardins do Palácio do Catete contrasta com a trágica morte de seu dono. Seu Gegê não suportava mais as travessuras golpistas de Lacerdinha, o Corvinho da Guanabara. Escreveu uma carta, meteu um tiro no peito e entrou para a história.
Lagos, grutas, caminhos sinuosos e as árvores frondosas dão quietude e sossego. Os patos palacianos cantam seus mantras com tremas meditativos: qüém, qüém, qüém…
A paz celestial da minha leitura dominical nos jardins do Catete foi abruptamente interrompida por um ser de 12 ou 13 anos dedicados à perturbação do sossego alheio. O diabólico antibucólico espantava a patacoada Hare Krishna. Os bichos corriam e grasnavam impropérios contra o mafarrinho. E a mãe seguia sua caminhada indiferente à lambança do filho. A cumplicidade materna é avó de todos os males.
Cheguei-me pertinho dela e soletrei a solução em ficção:
― Minha senhora, seu filho está correndo perigo. Ontem, um pato arrancou um pedaço do dedo de um menino que estava brincando no gramado.
― Marcus Vinícius!!!! Esses animais mordem!!!
E a leniente saiu em carreira sem perceber que o rabioso raivento era o periculoso na narrativa criminal.
Enfim, o sanhudo retirado de cena, a paz foi restabelecida. A marrecada olhou pra mim como se estivesse agradecendo um ato heroico. Acenei e murmurei um duplo quém quém.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Brasileiros


A família, Tarsila do Amaral

A família, Tarsila do Amaral

Está tudo errado. Como sempre esteve. Talvez como sempre estará. Ainda que a vida esteja boa não estando. Nas ruas e nas casas há gritos e controvérsias. Contra tudo, contra todos. Contra todas. Em especial contra aqueles que são contra nós. Aqueles do contra.

O brasileiro é, antes de tudo, um paradoxo. E não se dá mal com isso. O brasileiro consegue ser um poço de contradições e ter total condição de apontar todos os erros que os outros cometem, cometendo-os igual. O brasileiro tem um espelho sujo e um dedo em riste.

Políticos são corruptos. Porque brasileiros são corruptos. Mas, no discurso do brasileiro, parece que os políticos são alienígenas que tomaram de assalto o Congresso. Porque brasileiros não gostam de corrupção. De outros brasileiros. As suas, o brasileiro não considera corrupção.

Brasileiros vão às ruas e pedem o fim da roubalheira. Porque o brasileiro diz ser absurdo o tanto que roubam, enquanto há brasileiros passando fome. Mas o brasileiro também é contra que se dê comida ou auxílio a esses brasileiros. Afinal, brasileiro é um vagabundo.

O brasileiro tem lado. E é fiel a ele. O que vem do outro lado é sempre errado. Mesmo se ele concordar. E o brasileiro adora um culpado. Então, o brasileiro acha que a terceirização só beneficia as empresas, mas é a favor do projeto, porque do jeito que está não dá. É obra dos outros brasileiros culpados.

E o brasileiro tem todas as suas culpas compreendidas em um sistema ético particular, que permite condenar a culpa alheia com a mesma facilidade que justifica que a sua culpa nem culpa é. Se é, é porque todo brasileiro faz. Brasileiro é assim mesmo.

Brasileiro acha que o Estado é incompetente. E não faz nada direito. Por isso, o Estado devia ser menor, gastar menos. Mas o brasileiro vive estudando para passar em um concurso público. Tem estabilidade, sabe? O brasileiro é trabalhador e sonha em ser servidor. Porque o brasileiro sabe que funcionário público brasileiro não trabalha.

O horror toma conta do brasileiro quando vê a fila no hospital público. Mas o brasileiro que mais reclama é aquele que jamais foi ao SUS. O brasileiro sonha em ter seu filho médico. Ou advogado. Mas não para cuidar de brasileiro pobre. Nunca para defender bandido. Brasileiro quer ser doutor. Mesmo sem doutorado.

O brasileiro defende que a educação é a solução para todos os problemas. E que o professor brasileiro ganha mal pacas. Mas o brasileiro finge que não vê a greve dos professores. E reclama. Porque brasileiro detesta vagabundo grevista. E greve atrapalha o trânsito. Brasileiro não gosta de engarrafamento. Por isso que o brasileiro anda no acostamento e enfia o carro onde der, brigando com outro motorista. Brasileiro detesta gente lesa. Mas se diz o brasileiro ser a gentileza em pessoa.

Brasileiros amam as mulheres. Mas as agridem em casa e fora dela. Brasileiros são moralistas e acham que roupa curta é coisa de puta. E brasileiros adoram cerveja, em especial aquelas dos comerciais com mulheres de roupa curta. Os brasileiros curtem as roupas curtas. Porque os brasileiros separam as brasileiras para casar das outras que estão sempre prontas para dar. Mesmo quando fingem não querer. O brasileiro sabe que elas sempre querem.

Brasileiros adoram futebol. E são os melhores do mundo. Mesmo que não sejam. Brasileiros são maiores em tudo. Quando não são vira-latas. Porque só no Brasil acontece o ruim. Ou o absurdo. Existem certas coisas só de brasileiros. Fosse no exterior seriam outras. Sempre melhores. Mas, aqui… são só brasileiros. Isso é Brasil. E segue lendo o texto enquanto baixa o .mp3 pirata.

O brasileiro trata bem a empregada, quase como da família. Mas se sente traído porque ela quis a carteira assinada. O brasileiro detesta imposto. E corrupção. Mas sonegar tá fora disso. O brasileiro sabe que assunto assim só é absurdo na mão do governante. Mas o brasileiro nunca elegeu quem o governa.

Há o brasileiro que reclama de como é difícil ser empresário no país. O brasileiro que dá desconto no serviço para encher mais o negócio. Desde que o desconto saia do bolso do sócio. Ou do empregado, que normalmente vive chorando miséria. Querendo aumento. O brasileiro é um ingrato. O brasileiro quer juro baixo e financiamento. Com alta taxa de retorno. E salário baixo. Dos outros, não o seu. O brasileiro tem ganância e quer o agora antes de qualquer depois.

O brasileiro acha que todo mundo deve ser tratado de maneira igual. Que pobreza não é desculpa. E que todo mundo tem oportunidades. O brasileiro acredita que basta o esforço. Por isso o brasileiro paga a escola particular pro filho. E a explicadora. E o cursinho. O brasileiro odeia cotas. Porque o brasileiro valoriza o mérito e o trabalho duro. Mas adora para si arrumar um jeitinho. O brasileiro tem amigos. E se amarra em um pistolão. Brasileiro bom é quem tem padrinho. Para não morrer pagão.

O brasileiro é mestiço. Mas é sempre branco. Ou moreno. Sempre mais claro do que é. Quer ser confundido com europeu. O brasileiro tem até amigos negros para mostrar que não é racista. Mas o brasileiro atravessa a rua se lhe vier um negro em sua direção. O brasileiro é tão bem humorado que conta piadas racistas só para mostrar que não tem racismo algum. E até acha que os negros riem.

Brasileiro adora criança. É o futuro da nação. Mas, se na rua, o brasileiro chama de pivete. E lugar de pivete é na cadeia. Até apodrecer. Mas dá seu jeito de burlar o que o filho faz de ilegal. Quem nunca fez besteira quando novo? O brasileiro aí é só uma criança. O brasileiro tem cor certa e cor errada. Direitos humanos só para brasileiros direitos. O brasileiro é gente de bens.

Mesmo assim, o brasileiro é cristão. Brasileiro tem deus até no seu dinheiro. E na Constituição. Mas a igreja não paga imposto. Porque o brasileiro acredita no deus misericordioso e que até é brasileiro também. Mas o brasileiro acha que bandido bom é bandido morto. Mas se choca com a violência. Por isso o brasileiro acha que tem mais é que passar o rodo em geral. Tá com pena? Leva o brasileiro pra casa.

O brasileiro, no final, não é nada disso que foi dito. Ou exatamente o contrário. E, ao mesmo tempo, é um pouquinho de cada coisa. O brasileiro é a mistura de suas próprias impossibilidades. O brasileiro é o improvável que mora entre o gênio e o estúpido. Poucos em um, muitos no outro extremo. O brasileiro é, na sua vida, a vida de todos os outros. Porque na dos outros vive-se a vida de cada um. É personagem de si mesmo. O brasileiro não sabe o que quer. Nem se quer. E se tiver, por que o quis. O brasileiro é orgulho e vergonha. É o responsável por tudo aquilo que reclama. Infelizmente, o brasileiro que são os outros somos nós mesmos.

Categorias: Reflexões | 7 Comentários

Índio não é gente!


19 de abril: Dia do Índio. E daí? Quem liga pra isso? Por que ainda tem índio neste país? Já não bastam todos os demais problemas sérios? Índio não é nada, não serve pra nada, é menos que bicho! Índio não é brasileiro, não é de lugar nenhum. Arranquem esses parasitas das terras onde se amontoam. Índio é um mal, uma vergonha nacional! Índio é lixo ambulante! Índio não é gente! Cuspam nos índios, limpem os pés neles, acabem logo com todos eles, em nome da decência, do bom senso, do progresso do país, da civilização, de Deus.

Ninguém liga pra índio! Essa é a mais crua verdade. O tal Dia do Índio foi instituído, vejam só, pelo populista e ditatorial governo Vargas. Ano após ano, homenagear essa data é caracterizar as crianças de patéticas caricaturas de supostos indígenas, a emitir uma vocalização entrecortada por palmadas na boca. Sequer está em jogo alguma etnia, cultura ou nação indígena em especial. Pra quê? Índio é tudo igual, tudo a mesma porcaria mesmo, afinal.

E assim segue o país saltando levemente de sua amnésia com relação aos indígenas uma vez por ano. No mais, sobra ainda um resquício de visão romântica dos habitantes originais da terra, visão construída em deletéria idealização pela arte brasileira do séc. XIX e ainda hoje persistente. Tal idealização só serviu pra afastar o índio verdadeiro ainda mais de qualquer perspectiva real de coexistência com o resto do país, que sequer os reconhece como brasileiros efetivamente, em ironia que atropela o intento idealizador romântico insistente.

 

Enquanto continuam a ser romantizados, idealizados, o genocídio sem fim de suas culturas e corpos segue incessante. Aliás, matar índio é um dos grandes elos de continuidade entre o Brasil colônia e o Brasil independente. Atribuir isso aos portugueses tão somente é ingênuo e dum cinismo calhorda.

Fonte: censo IBGE, 2010.

O Brasil, junto com os EUA, é o país do globo que mais exterminou sua população nativa. No início do séc. XVI, a população indígena estimada no país era de 5 milhões de pessoas. Hoje, segundo o censo mais recente do IBGE, são um pouquinho mais do que 800 mil. Um decréscimo de quase 7 vezes! Ao mesmo tempo, em fins do séc. XVI, a população geral do Brasil rondava por volta de 8 milhões. Hoje, esse número aumentou em 23 vezes, atingindo 191 milhões, segundo a mesma fonte. É uma chacina secular e com a mais ampla cumplicidade social possível. Muitas barbaridades da colonização e, depois dela também, foram perpetradas por portugueses, claro, mas também por brasileiros, por luso-brasileiros e braso-portugueses. A vitimização histórica em torno dos índios, reivindicando o martírio deles como de todo o país, não passa de dissimulado e enojante cinismo de um Estado e de uma população que os ignoram, de todo, como seres até hoje. Os dados sobre línguas nativas são alarmantes, num nível só comparável, de fato, ao visto nos EUA. No início da colonização, elas eram estimadas em mais de 500; hoje são cerca de 170; até o fim do século, podem ser metade. Segundo a Associação Internacional de Linguística (SIL)[1], dezenas de línguas brasileiras estão em extinção, com exíguas possibilidades de alcançarem o fim deste século. Muitas delas têm apenas poucas centenas de falantes, quando não menos de uma centena. Na comunidade linguística nacional e internacional paira a percepção velada, por vezes, explicitada de que é necessário descrever essas línguas o mais rápido possível, pois, em pouco tempo, esse será o único rastro humano e cultural de tantos povos. Muitos jovens índios têm vergonha de falar sua língua nativa, o que é o auge do processo de extinção cultural: de chorar! É muito triste e cruel!

dia do indio 3

No Brasil, o racismo anti-indígena é tão estrutural e enraizado que fez até do negro homem branco. Sim, racismo! Costumamos pensar nele só em relação aos negros, mas, quanto aos índios, ele é tão naturalizado que soa normal. É asqueroso!

“Eles vivem na floresta amazônica, sem contato com o homem branco…”

13/08/2013, Jornal “Hoje”, Rede Globo

Em pleno século XXI, ainda nos referimos aos índios como seres que se contrapõem ao homem branco. Que preço historicamente caro eles pagaram por não se “civilizarem”, até hoje.

A violência do preconceito racial anti-indígena é grotesca demais. Vejamos mais alguns exemplos:

dia do indio 2

É mal mesmo! A começar pela indistinção entre o adjetivo “mau” e o advérbio “mal”. Só o comentário linguístico seria indício de tendência preconceituosa. Além disso, por que associar os indígenas a isso, apontando pra perspectiva de ridicularização deles?

dia do indio

Enojante! Muito preconceito numa mensagem só: linguístico e racial anti-indígena! De onde se tirou que índios falem assim? Quais, de quais nações? Caso alguns falem português assim, o que há de ridículo nisso, a partir da língua nativa dos que o façam? Possivelmente há em sua língua motivações a isso. Mas, sobretudo, é curioso ver que os mesmos apatetados que, linguisticamente, consideram tal uso alvo de ridicularização falam coisas como “Deixa ela entrar”, tão fora da língua padrão, quanto o que criticam e pelo mesmo princípio geral, diga-se de passagem.

dia-do-indio_024

A proliferação da desinformação imbecil! Como assim não se deve  usar “para mim”. ÓBVIO que sim! Antes de verbo, inclusive. Aliás, pra mim explicar tudo isso está a ser bem constrangedor. É duro. O “pra mim” ali atrás é um adjunto adverbial o qual, em escrita rigorosa, deveria estar separado por vírgula, mas que pode aparecer sem ela, em formatos menos formais.

Será que a esta altura este texto já virou um… “programa de índio”?!

Agora, pense… já ouviu falar de crime de racismo contra índios?! Pois é… é que índio não é gente mesmo, no Brasil!

Se chegou a este ponto do texto, te convido aa leitura dum texto anterior meu sobre o tema: Amána.

Mas, voltando aa questão cultural, só pra desfazer o mito de que índio é tudo igual, abaixo um mapa de famílias linguísticas indígenas. Atenção! Não é de línguas não, mas de famílias linguísticas.

indigenas- familias linguisticas

Note que tupi-guarani não é uma língua, mas sim um grupo de línguas, ou seja, uma família linguística, assim como há a família latina, a germânica, etc…

[A canção, do Midnight Oil, é, originalmente, sobre indígenas australianos, mas vale para os de todo o globo. LInda montagem de imagens!]

Os livros de história, em geral, não tratam disto, mas a violência linguístico-cultural, fora a física, claro, empreendida sobre os povos nativos brasileiros é do nível da atrocidade mais bárbara possível. É comum em nossa história que índios tenham tido línguas (o órgão mesmo) cortadas, olhos furados, dentre outras formas de covardíssima tortura pelo simples fato de falarem sua língua. Desses, destaca-se o estupro de mulheres indígenas, prática das mais comuns na nossa história. Pasmem, até a primeira metade do século XX, tal conjunto de práticas ainda existiu. Ora, na mesma primeira metade desse século, minha avó materna, índia, foi aprisionada no interior de MG e feita escrava.

Muita gente desconhece, mas, até o século XVIII, o Brasil não falava português, aa exceção de uma pequena elite colonial. A língua, chamada inclusive de “geral”, era o NHENGATU, o qual teve seu uso tornado CRIME pelo famigerado decreto do Marquês de Pombal, no ano de 1757. A partir daí, o português se alastraria pelo país. Para maiores informações, sugiro, dentre tantas outras possibilidades: http://www.filologia.org.br/anais/anais%20iv/civ12_9.htm.

dia do indio 4Enfim, espero que este texto sirva pra convencer da existência de um brutal racismo anti-indígena e dissuadir da continuidade dessa prática vista como natural, mas que, na verdade, reforça toda uma lógica de genocídio físico e cultural colossal e sem igual em nossa história. É verdade que os índios são dizimados cotidianamente no país por disputa de terras, contra latifundiários, fazendeiros, com vista grossa dos governos seguidamente, mas também com o aval e anuência de todos que proliferam o círculo de segregação racial contra indígenas, por meio de valores, atos e falas. Tanta gente que se acha defensor da causa de minorias propagando racismo anti-indígena. Não seja racista!

[A canção, muito boa por sinal, é de uma banda indígena mexicana que canta em língua nativa, o tsotsil, falada principalmente na região de Chiapas. O México não trucidou seus nativos no mesmo nível que nós.]

indios 2

GENTE! Seres com o pleno direito humano de ser!

P.S.: está em pauta no Congresso uma PEC (Projeto de Emenda Constitucional), a 215, que transfere do Executivo para o Legislativo o poder de demarcação sobre terras indígenas. Várias nações indígenas têm protestado unificadamente quanto a isso, até porque sabem que, a partir daí, a demarcação de suas terras ficará a mercê de lobbies, interesses casuísticos e comprometimentos com financiadores privados de campanhas.

[1] Ver dados em http://www.ethnologue.com/country/BR/languages e http://www-01.sil.org/americas/brasil/SILling.html.

Categorias: Cultura, Reflexões, Sociedade | Tags: , , , , , , , , , | 2 Comentários

                Refugiados do Minha Casa  


bebeborrado

É, esses jornais não acertam uma dentro mesmo. Ontem a polícia realizou a expulsão dos ocupantes do prédio do Eike Batista, na avenida Rui Barbosa. O prédio, comprado pelo grupo de Eike, estava vazio há dois anos, e já caindo aos pedaços devido à deterioração ocorrida nesse período. A televisão e os jornais não puderam se furtar à comemoração do evento, lembrando em muito as comemorações pela prisão de negros fujões e destruição de quilombos no passado. O fato é que a ocupação e a expulsão da nova e indesejada vizinhança de uma das ruas mais nobre da zona sul não passou desapercebida de ninguém. Perderam assim os jornais a chance de fazer, para variar, uma crítica pertinente e muito bem fundamentada ao governo Dilma. Explico.

Estive umas noites atrás na ocupação e conversei bastante com alguns dos moradores. Ao contrário do veiculado pela mídia, eles não vieram majoritariamente de ocupações anteriores (embora, entre os 250 ocupantes, muitos tenham vindo sim). Eles são refugiados do Minha Casa, Minha Vida. Infelizmente, é cada vez mais comum que famílias beneficiadas pelo programa percam as suas casas (e tudo mais) para os milicianos das áreas onde as moradias do programa são construídas. Funciona assim: eles recebem os imóveis, se mudam para a casa nova e, depois de instalados, são expulsos pelos bandidos e obrigados a abandonar tudo, saindo com uma mão na frente e outra atrás daquilo que deveria ter sido a realização do sonho da casa própria.

Não que eles, ingenuamente, esperassem não ser expulsos de novo, e que fossem fixar residência em uma das áreas mais chiques da cidade. A reação dos moradores ao redor inclusive não poderia ter sido mais eloquente do que foi, em relação à presença da ocupação. Passavam em frente ao prédio insultando os ocupantes, chamando-os de “mendigos”, “vagabundos” e gritando mensagens do gênero “aqui não é o lugar de vocês”. Fora isso, todos tinham consciência de que o incidente lamentável do menino que foi acorrentado em um poste se dera a poucos metros dali, e um ataque de alguma gangue de playboys fascistas da Zona Sul era um temor mais ou menos difundido. A estratégia da ocupação era pressionar o poder público para a obtenção de moradia digna, que é, no fim das contas, o objetivo de todos os movimentos que lutam pela reforma urbana. Mas a aguda consciência de que não permaneceriam lá por muito tempo não os impediu de boas gargalhadas, pelo período em que lá se mantiveram, com piadas do tipo “Sou chique, estou em uma piscina em prédio do Flamengo, agora só falta a água”.

Segundo um estudo encomendado pelo Ministério das Cidades, o déficit habitacional global brasileiro (inclui desabrigados, quem “mora de favor”, quem mora em áreas de risco, entre outras situações) é estimado em 6,9 milhões de unidades residenciais, e só na cidade do Rio de Janeiro faltam 220.000 unidades de habitação. É mostra de incompetência e demagogia de um governo entregar moradias para pessoas em áreas de risco e não se importar com que venha a acontecer depois, como no caso dramático das expulsões por milicianos. Assim, essas famílias constam nos dados oficiais como um “problema resolvido”, quando, na verdade, estão na situação de desabrigados de novo. Taí uma ótima crítica à Dilma e a um programa social que deveria ser uma das estrelas do seu governo. Mas é claro que essa chance foi perdida. Nenhum jornalista da grande imprensa, como sempre, se dignou a dar alguma voz aos maiores interessados nisso tudo, a saber, os desabrigados em sua luta justa por moradia digna (se moradia é direito, ocupar é um dever). Respiraram todos aliviados, junto com a população da Rui Barbosa, pelo fim da presença inconveniente do produto da desigualdade social brasileira, que estava a bater em suas portas.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Poeta, novamente, convidado: a arte de Marco Dantas


É, mais uma vez, prazeroso publicar nosso velho conhecido Marquinho, de tantas lutas e jornadas. Pra quem quiser relembrar ou conhecer, é só clicar aqui.

 

marco 2

IDEIAS SUTIS

Ainda comungo daquelas ideias sutis:

Sentir o vento no rosto, rir e ser feliz

 

Reviso os livros sem deixar resquício

Ouço vozes que relembram o rebuliço

Para o passado não desconstruir o futuro,

Escrevo o presente e alço o que há de puro

Inconsciente ou não, sou amante da revolução

A arte eleva e me leva junto de seu coração

As palavras justas ecoam até o entardecer

Não quero repressão, nem permissão, quero você

 

Ainda comungo daquelas ideias sutis:

Sentir o vento no rosto, rir e ser feliz

 

marco 3

 

“Olá, moçada.

Sou Marco Dantas, carioca, funcionário público, bacharel em Letras, flamenguista e pai do Lucca.

Estou participando do II Concurso Literário Ler Uerj na categoria Poesia, com o poema “Ideias Sutis”.

A votação vai de 01/04 até 01/05 no site do Ler Uerj

https://leruerj.wordpress.com/concurso-literario/votacao/

Quem quiser e puder passar e votar em meu poema, ficarei super contente!

Estou usando o codinome M Devil.

Obrigado aos que já votaram e aos que votarão e um forte abraço!”

 

 

Categorias: Verso & Prosa | Deixe um comentário

Ching Ling e o descompasso do esquadro


maçonaria1

O descompasso do esquadro

Ontem, sem temer a fuzilaria dos raios solares, um grupo maçônico de Goiânia desfilou de terno preto, gravata e óculos escuros. Os MIBs marchavam pela Brotherly Love, Relief, Truth.
Em abril de 2014, os MIBs paulistas da Loja Maçônica Força, Lealdade e Perseverança sopraram as 50 velas pretas do golpe de 64, diante do pórtico de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro e Grão-mestre do esquadro e compasso.
Os desenquadrados e descompassados reverenciaram a ditadura e afirmaram que “A Revolução de 1964 será sempre uma ‘árvore boa’”.
Quando vejo candango em manifestação, com camisa da seleção comprada no ching ling e enrolado com a bandeira nacional-positivista, me vem a imagem da fruta na beira da estrada: tá bichada ou tem marimbondo na árvore ruim.

 

Bolação

Neguinho tá boladão com a putaria dos preço das cachanga. Lá no morro do Cabrito, tem malandro do asfalto especulando até mil conto de aluguel num barroco. No Vidigal, tem nego vendenu o chatô pra ir morar na casa do carai. Na cerva do buteco da dona Clotilde, lá no Tabajaras, caiu o raio gourmetizador. No morro da Babilônia, prato feito virou caviar.
O morro pede socorro!!

Au au do Ching Ling

Em uma pastelaria ching ling, em Parada de Lucas, foram encontrados cachorros congelados dentro de caixas de isopor. Os pobres caninos viram carne moída pra rechear seu pastel e outros salgados de carne de au au.
Ching ling fica de boa vendo candango colocando Ketchup em salgadinho que late, mas não morde.

Caixa dos Maganos

Os trabalhadores levaram anos para garantir, com muita luta e dedicação, um mínimo de direitos trabalhistas. O Congresso dos Mafarros precisou apenas de um dia para colocar tudo a perder.

Pandora abriu sua caixa, deixando escapar todos os males do mundo, menos a esperança. A Câmara dos Deputados e o Senado contêm todos os males do país, deixando sempre escapar a esperança.

Categorias: Sociedade | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com. O tema Adventure Journal.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 3.543 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: