O ouro é dela e ninguém tasca


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Nesses primeiros dias de jogos olímpicos no Rio de Janeiro, uma mulher, negra, da Cidade de Deus e gay assumida conquistou a primeira medalha de ouro do país nesta edição dos jogos. Um feito, sem dúvida. Mas a sequencia de eventos foi por demais desconcertante. Surpreendente foi ver as mais variadas nuances políticas e ideológicas se apropriarem, para os seus devidos fins, da linda vitória de Rafaela Silva no judô. Foi curioso, e ao mesmo tempo constrangedor, ver até mesmo discípulos do Bolsonaro se apropriarem da vitória de Rafaela para venderem a sua, muito entre aspas, “ideologia”. Mas, se pensarmos bem, de certa forma, nada de novo.

Esportes, assim como tudo mais na vida, não têm nada de neutro. Os seus (bons) resultados podem ser arrastados de um lado para outro para justificar praticamente tudo. Hitler tentou usá-los para demonstrar a supremacia ariana. Esbarrou nos negros atletas americanos iniciando a sua organização política para se emancipar do sistema apartheidista das leis Jim Crow e se deu muito mal (30 anos depois, os Panteras Negras viriam a brilhar em olimpíadas, de uma maneira ainda mais política, organizada e emocionante, mas no mesmo sentido).

Como dizia a alta malandragem das escolas cariocas da década de 1980, agora parece que querem “tarrar” a medalha da Rafaela, atribuindo-a ao Brasil, às Forças Aramadas, à meritocracia, ou a qualquer outra coisa. Mas, de todas as apropriações estapafúrdias, a pior foi a feita pelo discurso da meritocracia. Entre memes equivocados de facebook e observações do Galvão Bueno sobre a “capacidade de inclusão social do esporte”, todos fingem ignorar que igualdade de condições não existe. Ayn Rand é um produto da cultura anglo-saxã que por lá mesmo pouco se aplica. Aqui, serve menos ainda. A mobilidade social, via esporte ou qualquer outra via, é uma ilusão de vitrine do capitalismo. É uma porta estreita pela qual poucos passam. Ainda assim, não faltaram comentários sobre como a moça, coitada, não necessitou de incentivos do Estado, esse Leviatã, para lavar para casa o seu ouro.

Vi postes lembrando que Rafaela foi militar da Marinha, entre as várias coisas que ela, como qualquer ser humano, em sua vida multifacetada, foi. E praticamente atribuindo a sua vitória aos supostos incentivos que ela teria recebido dessa Instituição. É sério isso? A Marinha sempre foi a mais aristocrática e racista das Forças Armadas. Não é à toa que foi de lá que veio a maior insurreição militar da história do Brasil, a Revolta da Chibata.

Porém, e isso é o mais perturbador, as loas acabaram quando veio a público que ela, além de gay, sustenta uma relação afetiva com uma menina há três anos. Aí os seus problemas começaram. De heroína da Marinha e da livre iniciativa, os bolsocomentários das redes sociais adquiriram contornos de uma agressividade singular. Claro. Esperável. Infeliz e contraditório como só o Brasil consegue ser. Pobre? Ok, se a pessoa ganha uma medalha nas olimpíadas. Negra? Ainda vai, se isso servir ao discurso de que com esforço pessoal chegaremos lá. Lésbica? Aí já é demais! Manda a mina rápido para a crucificação antes que ela sirva de exemplo para outras mulheres. De heroína nacional a “Geni e o Zepelim” em menos de 24 horas. Isso deve ser um recorde olímpico.

 

Rafaela Silva já pode processar todo mundo (inclusive a mim) pelo sequestro moral da sua história, se é que isso existe. As lições mais importantes de Rafaela têm pouco a ver com judô. Elas nos mostram o quanto ainda temos que evoluir como sociedade. O quanto somos racistas, machistas e homofóbicos.

 

O duvidoso legado para a cidade

 

Meu problema com essas olimpíadas em si não se diferencia em nada do problema com a copa do mundo. Além das remoções que muito sofrimento já trouxeram para a população, o que vai ficar para a cidade? Até agora ganhamos a inflação mais galopante do país e dos últimos tempos. Também, recebemos uma imensidade de obras superfaturadas e coladas a cuspe (tanto que muitas despencaram antes da estreia). Elas servirão para alguma coisa? O prognóstico não é animador. Vi recentemente uma série de fotos mostrando o abandono de estádios e estruturas de cidades olímpicas em outros países. São chocantes as imagens de Pequim e Atenas, por exemplo, em que você vê estádios majestosos e vilas olímpicas completamente abandonados. Parques aquáticos imensos e vazios (no Rio, imagino aquelas piscinas se tornando repositórios de mosquitos – a dengue agradece). Eram estruturas faraônicas demais, ou então redundantes, de manutenção cara para estruturas desnecessárias, e que portanto não foram incorporadas à vida orgânica das cidades onde estão instaladas. Sua construção só pode ser justificada pela corrupção e/ou beneficiamento do setor de construção e do capital (até agora, o único que saiu de fato vitorioso dessa história toda).

No mais, vejo muitos amigos se divertindo acompanhando os jogos. Por vocação e formação, tenho poucas inclinações para policiamentos. Como se diz por aí, “Boa noite pra quem é de boa noite, e bom dia pra quem é de bom dia”. Divirtam-se. Eu não consigo. A alegria do militante é o futuro.

 

 

 

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Homens que entendem de prostituição


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Aviso, de antemão, que o texto é pesado. Se você quer continuar em um jardim cor de rosas, melhor pular para o próximo post, abrir uma foto de gatinhos ou qualquer coisa que o valha. Este último mês uma acalorada discussão em torno do projeto de lei que regulamentaria a profissão de prostituta (conhecido como Gabriela Leite) tomou conta de redes e fóruns dos movimentos sociais e, acredito, não sem razão. O projeto levantou uma discussão que há muito deve ser levantada sim, e levantou na paralela muitas outras problemáticas. Acho um tanto desconfortável escrever sobre este tema. Abordar o assunto prostituição sem cair em moralismos ou respostas estereotipadas não é nada fácil, mas vamos em frente.

Gostaria de começar me colocando no lugar da minha geração: a de homens beneficiários da revolução sexual e, especialmente, da liberação sexual feminina. Nunca paguei por sexo na vida. Não precisei e nunca me interessei. Mas, mesmo assim, a prostituição me “atravessou o caminho” muitas vezes. E nem sempre de maneira suave. Morei muitos anos nas imediações da Lapa, e só de lá eu teria umas boas centenas de histórias para contar. Mas vou me reter em duas, por demais exemplares, e de fora da minha Lapa querida. Ambas, como se verá, serão centrais para a argumentação a respeito do PL Gabriela Leite.

A primeira deu-se há mais ou menos 20 anos. Eu ia às vezes beber uma cerveja em um bar na Praça Mauá (eu faço todo o meu planejamento em botequim). Ele era daqueles bares antigos, com bancos estilo tamborete, altos, de frente para um balcão. Como estávamos na Mauá, área de marinheiros, havia uma tosca folha de caderno com uma cotação “Real – Dólar – Euro” escrita à mão colada na parede. Eu, jovem e tolo, achava esse ambiente divertido até que uma noite, algo aconteceu para mudar a minha opinião. Estava eu em um desses tamboretes, dois ou três lugares depois, havia uma outra alma dessas também afeitas à solidão. O cara devia ter uns dez anos a mais do que eu e também só estava tomando a sua cerveja sozinho em paz, quando de repente ouvimos gritos e algazarra vindos da rua. Em frente ao bar, um homem enorme estava espancando uma prostituta. Eu me levantei e me dirigi para fora. Para minha surpresa, o meu involuntário companheiro tomou a mesma medida. Para surpresa maior ainda, quase de imediato todos os garçons, umas poucas prostitutas que estavam lá dentro também e uma velhinhas com cara de moradoras da Gamboa se atiraram em cima da gente, bloqueando nosso caminho, dizendo coisas do tipo “não façam nada / ele é o dono da rua / ele vai matar vocês”. Com a confusão, o cara percebeu o movimento dentro do bar, tirou uma arma e direcionou-a mais ou menos na minha direção. Saí para beber uma cerveja e terminei testemunhando um espancamento, com duas velhotas cada uma agarrada em um dos meus braços implorando para eu não me envolver e uma arma apontada, ainda que um tanto vagamente, para a minha cara. Pelo menos, com a confusão, o espancamento parou e a prostituta fugiu. Ninguém precisou falar nada: só pelo corte de cabelo dava para perceber que o agressor era um policial.

Cena dois. Dez anos atrás. Ilha do Algodoal. Eu fiz uma viagem a trabalho pelo norte e aproveitei um fim de semana livre para ir conhecer a tal ilha. Muito bem recomendada. Me disseram ser um paraíso. Até era. Mas, à noite, a região mudou muito de figura. Tomando uma cerveja no único bar local (eu estava viajando sozinho) me aparece uma senhora me oferecendo a filha, que não podia ter mais do que 11 anos de jeito nenhum. Além de ter sido colocado naquela criança uma espécie de vestidinho, ao que tudo indica com o objetivo de torná-la sedutora, ela havia sido pesadamente maquiada (e muito mal maquiada), o que só acrescentava ainda mais horror à cena geral. Eu ia começar a fazer um discurso, mas lembrei de onde eu estava. Lembrei que estava sozinho, em uma terra cujos códigos desconheço, à beira do Atlântico e à margem do Amazonas. Lembrei que não havia avisado que eu iria a Algodoal, e que, portanto, ninguém no mundo sabia que eu estava ali. Naquela terra de pistoleiros, não consegui imaginar situação melhor para uma pessoa “ser desaparecida”. Então, limitei-me a declinar da oferta de cara feia e não fiz nada. Acho que um pouco da minha covardia se explica, nesse caso, pelo que estava acontecendo no Pará naquele exato momento. Isso não tem nada a ver com o tema prostituição, mas creio que vale lembrar uma outra história. Resumindo muito, como disse, estava viajando a trabalho. Comecei meu périplo por Boa Vista, em Roraima, e lá, fiquei sabendo que em Belém, uma menina, por uma contravenção estúpida qualquer, havia sido colocada em uma cela com vários homens. É claro que ela foi muito estuprada. Eu via os noticiários de televisão e jornal, e nada do episódio ser noticiado. Na etapa seguinte da viagem, segui para Manaus, me perguntando se essa notícia terrível chegaria ao sudeste. Quando fui para Belém, a notícia estava finalmente circulando em cadeia nacional, passando inclusive no JN. Eu estava em Belém, pouco antes de embarcar para a Ilha do Algodoal, quando até o Arnaldo Jabour falava sobre o assunto em suas croniquetas. Na época, perguntei para os professores paraenses com quem estava trabalhando o que eles achavam daquilo, e normalmente a resposta era algo do tipo: “ah, esse tipo de coisa acontece aqui o tempo todo!”, ou então, “ah, aqui acontece coisa muito pior!” (não tive coragem de perguntar o que poderia ser pior). Enfim, todo o episódio reforçou  a percepção de que eu estava em uma terra de ninguém.

Como falar sobre o assunto sem essas bases? O auge da discussão acerca do PL se deu em um debate, tenso do início ao fim, na Fiocruz. Neste, duas palestrantes se posicionaram a favor do PL, e duas contra. A fala de Eloisa Samy, vinculada ao grupo das feministas radicais, foi a mais esclarecedora sobre as limitações do projeto. Trata-se de uma lei exígua (não são nem dez artigos) e vaga, que não estabelece por exemplo quem garantiria e qual o regime dos direitos trabalhistas dessas profissionais (CLT, autônomo, temporário?). Não se trata em absoluto de deslegitimar um projeto elaborado pelas próprias prostitutas. Muito pelo contrário. Por mim, não há um único senador ou deputado federal que eu não trocaria, feliz, por uma profissional do sexo. Troque o nosso Congresso Nacional por uma Convenção das Putas e nós, de certeza, estaríamos todos melhor arranjados. Elas sabem mais do que eles do que o país precisa. Trata-se apenas de criticar as deficiências do projeto.

Uma lei sobre prostituição que não crie mecanismos de punição para policiais proxenetas  e abusadores é uma lei sem dentes. Uma lei sobre prostituição que não encare o fato de que a maioria das pessoas entra na profissão ainda menor de idade, e não crie nenhum mecanismo para evitar o tipo de cena que presenciei no Pará, é uma lei sem alma. Ignorar isso é brigar com a realidade, e quem briga com a realidade sempre perde. Eu já odiei muito aquela mãe. Por anos, eu a condenei a penas severas em tribunais imaginários. Hoje, ao lembrar dessa história, eu só vejo dor. Para chegar a esse ponto, aquela pessoa deve ter provado cada uma das misérias dessa terra e experimentado todos os sofrimentos dessa vida (o mesmo, infelizmente, diga-se da sua filha). Enquanto houver a pressão da fome, fica um pouco deslocado falar em prostituição como empoderamento do feminino.

A lei também não lida com diversas outras questões levantadas pela realidade, por exemplo, a da violência sexual. A maioria das pessoas, creio, nem sequer entende que uma prostitua pode, sim, ser estuprada. Assim como não entendem prostitutas também se apaixonam, têm sentimentos românticos, depositam grandes expectativas em projetos de casamento e de maternidade, assim como a maioria das mulheres deposita,  uma vez que no patriarcado tais projeções são fortemente inoculadas nelas desde pequenas. Da mesma maneira, estão elas sujeitas a todas as formas de violência a que qualquer mulher está.

Para concluir, eu diria que qualquer projeto de regulamentação da prostituição enfrentaria tremenda resistência de um Congresso avassaladoramente hipócrita e conservador (se é que a justaposição desses adjetivos não é uma redundância). Então, por que se desgastar para aprovar uma lei ruim que não resolve nada ao invés de lutar por uma lei que, ao menos, funcione?

Eloisa enfrentou o tema com destreza e escapou das armadilhas do moralismo, sempre a espreita quando o assunto é prostituição. Ela limitou sua argumentação aos aspectos jurídicos e demonstrou de maneira convincente que o PL não atende às necessidades reais das principais interessadas, não importando de onde tenha vindo o projeto. Por isso, está sofrendo agora, entre outros ataques, acusações de ser transfóbica. Acho sempre lamentável ver alguém ser desqualificado em um debate com acusações aviltantes, seja por razões políticas ou meras picuinhas pessoais. Já passei por isso e, neste ponto, me solidarizo inteiramente com ela.

 

 

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Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra


Acabei de assistir a um vídeo no Youtube que me deixou bastante impressionada, pois se propunha a esclarecer rapidamente o que seria a ideologia de gênero. Bem realizado do ponto de vista da atratividade a ser exercida sobre o público, o material, no entanto, degringola a emitir falsos conceitos sobre o que seria a chamada ideologia de gênero. Nesse contexto, quem aceita os pressupostos por ele defendidos como verdade, tenderia imediatamente a rechaçar a ideologia, julgando já conhecê-la o suficiente para isso. Em linhas gerais, a produção afirmava que, ao levar tal teoria para a escola, meninos e meninas seriam despojados de sua identidade, tornando-se seres confusos em relação a si mesmos, ocasionando o fim da família.

O que pretendo aqui é expor didaticamente quais seriam as bases que alicerçam a ideologia de gênero, segundo entendimento que tenho acompanhado de seus defensores.

Estariam os seres humanos submetidos, quanto à questão dos gêneros, a quatro norteadores: sexo biológico, orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero.

O sexo biológico, como muitos já sabem, é definido no momento da fecundação. Todo óvulo possui um cromossomo X. Os espermatozoides podem conter cromossomos X ou Y. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo X, o bebê será XX, do sexo feminino. Se o óvulo for fecundado por um espermatozoide do tipo Y, o bebê será XY, do sexo masculino. A partir de então, cada um deles formará seu aparelho genital. Palmas para quem diz que nascemos homem e mulher. Faz sentido.

Mas os seres humanos são complexos e há muito mais a definir e identificar as pessoas do que ter nascido com piupiu ou com perereca. Quanto à orientação sexual não se trata puramente de uma escolha, mas de uma inclinação motivada pelo desejo sexual e pelo bem-estar, o que envolve questões de ordem afetiva e sexual.  Temos aí pessoas homossexuais, heterossexuais, bissexuais. O que se traz entre as pernas não é suficiente para determinar a atração por outras pessoas.

A identidade sexual e a identidade de gênero se mesclam para mim e têm a ver com a maneira como as pessoas veem a si mesmas e na maneira como a sociedade as encara. Na parte da autoimagem, está incluída a capacidade de as pessoas reconhecerem-se pertencentes a determinado grupo, com determinadas características. As pessoas podem ser cisgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero são correlacionadas ao sexo do nascimento), transgênero (quando a expressão social ou identidade de gênero não são correlacionadas ao sexo do nascimento). O que pode causar certo estranhamento é entender que o transgênero não é necessariamente homossexual. Apelemos para a ficção: que tal assistir a Tudo sobre minha mãe, de Pedro Almodóvar? Travestis podem sentir-se como homens ou como mulheres, tratando-se, para el@s, de uma questão variável. Os transexuais identificam-se com o gênero oposto ao do sexo com que nasceram e, na maioria dos relatos, consideram-se no corpo errado. Para entender melhor a questão, que tal assistir ao documentário “Meu Eu Secreto – Histórias de Crianças Trans“? Já @ cartunista Laerte defende que a ideologia de gênero mesmo é a que se pratica amplamente nas escolas hoje, confundindo as pessoas e acirrando diferenças, no momento em que se baseia em um binarismo que não dá conta da complexidade da existência humana (veja entrevista).

Já quanto à forma como a sociedade enxerga as pessoas, definindo-lhes previamente papéis e comportamentos sociais, impondo expectativas e limitações, isso sim tem a ver com construção social.  Salve Simone de Beauvoir, tão citada quanto incompreendida! Quando se espera, por exemplo, que uma menina seja sempre delicada, goste de rosa, não seja aplicada aos esportes e goste de brincar de bonecas, ou quando se espera que o menino seja grosseiro, deteste rosa, seja bom esportista e goste de brincar de carrinhos, tudo isso está envolvido na questão da identidade de gênero, que é por demais limitadora, enquadrando as pessoas em papéis, sem que elas se deem conta das múltiplas possibilidades de realização. Rumando à vida adulta, a concepção de que a mulher precisa se dar o respeito, falar baixo, resguardar-se sexualmente, chorar, e a de que o homem precisa ser espeitado apenas por ser homem, falar alto, aproveitar as oportunidades sexuais que se lhe apresentam Aqui não se está falando de sexualidade, ok, mas de expectativas geradas por parcelas consideráveis da sociedade por conta da identidade. Para entender de forma bem simples, sugiro o anúncio intitulado “Corra como uma menina”.

Não tenho talento para desenhar, mas alguém já o fez por mim. Que bom! Está aqui o resumo de todo esse papo aqui de cima.

Para continuar clique em Não sei nada sobre ideologia de gênero, mas sou contra, publicado originalmente no blogue Feminagem.

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É possível organizar esta cesta de ideias ?


 

“(…)tal  é  a brutalidade da luta de classes básica em nosso país, a dos proprietários contra os sem nada. Por aqui mexeu na propriedade homem vira bicho. “ Paulo Arantes

– Sempre foi assim. Gente pobre e gente rica, sempre vai ter. Quem nasce pobre tem mais é que trabalhar. Se pode trabalhar não pode ser vagabundo, vai viver como ? Vai roubar? Vai viver de esmola? Nas costas dos outros? Só mesmo quando a pessoa dá muito azar, porque a desgraça pode acontecer com qualquer um, isso a gente sabe. Porque a desgraça às vezes pega a pessoa sem ela merecer. Se bem que Deus escreve certo por linhas tortas. A gente não sabe de nada, vai saber o que a pessoa fez na outra encarnação. Às vezes você vê uma pessoa muito pobre que tudo dá errado para ela e a gente pensa, coitado. Mas pode estar certo que alguma coisa tem de errado ali. Por que se a pessoa firmar no trabalho Deus ajuda, se a pessoa tiver vontade de trabalhar, sempre arranja algum meio de se virar. Pode não ficar rico mas passar fome? Só vagabundo passa fome por aqui. Está cheio de empresário precisando de empregado bom, bom mesmo, de confiança e olha, difícil encontrar, hem, não é fácil não. Olha que eu conheço muita gente rica que sempre está ajudando as pessoas. Tem a Igreja, tem essas pessoas ricas que ajudam, até na TV tem um monte de programa de TV que ajuda quem merece. Quer dizer, a pessoa é rica, não precisa ajudar ninguém mas ajuda. Se é rico é porque trabalhou. É rico porque conseguiu chegar lá, tem talento, se esforçou. Ou então deu  sorte, tem um pai e um que avô trabalharam para isso. Fizeram sacrifício para isso mesmo, para o filho, o neto, o bisneto terem do bom e do melhor. Quem não quer o mesmo para a sua família? Eu faço tudo pela minha família. Se eu ficasse rico, quer dizer, quando eu ficar rico – a gente não sabe, né?-eu fazia a mesma coisa. Não vou dar tudo para minha família? Claro que vou. Minha filha ia viver como princesa, meu filho como rei, para minha mãe dava uma casa, arrumava a vida dos meus irmãos. Mansão, carrão, fazenda, iate, helicóptero, até avião se for dinheiro grande mesmo, se o cara ganhar sozinho da Mega Sena, quem não quer? Se bem que diz que isso aí é tudo roubado, viu aquele caso do fulano de tal, ganhou não sei quantas vezes na loteria, eu não acredito em loteria, não acredito. É tudo uma roubalheira. Só jogo de vez em quando. Vai que aquele lá de cima resolve olhar pra mim e fala, deixa eu ajudar aquele lá que está merecendo. Porque eu trabalho duro, viu, trabalho para valer, trabalho desde os 14 anos de idade. Aprendi tudo na faculdade da vida. Ninguém me engana. O quê? Tomei muita paulada mas aprendi porque eu não sou burro, né ? Eu- ninguém engana. Tem gente que vai em conversa de pastor, de político, professor, essa gente gosta é de falar muito mas fazer, faz pouco. Esses políticos, aí, tudo mentiroso, um bando de mentiroso salafrário. Ganham um dinheirão para fazer o quê? Nada. Um monte de imposto que a gente paga para  quê ? As escolas são uma porcaria. Hospital não tem, a gente é obrigado a pagar plano de saúde porque não tem nada.Toda hora aparece na televisão aquele monte de gente morrendo no corredor do SUS. Graças a Deus eu tenho saúde, não vou no médico nunca mas, vai saber, de repente dá um piripaque aí. Nessas horas se não tiver plano de saúde vai fazer o quê? É caro mas com saúde não se brinca. Já pensou um filho precisar de um médico e morrer na portado hospital como aquela moça que no mês passado, Deus me livre, um absurdo, a mulher grávida gritando, barrigão desse tamanho e ninguém pra atender. Não viu ? Passou na TV. Eu vejo pouca TV, mais o jornal e o futebol mesmo. A patroa gosta de ver novela, eu também assisto mas não presto muita atenção. Vejo de vez em quando, campeonato assim,  vou assistir o jogo com os amigos no bar. Não sou de beber, não, todo dia, isso não, só uma cervejinha de vez em quando, quando tem almoço da família lá em casa ou na casa dos meus irmãos, quando tem folga.  A minha vida é de casa para o trabalho, do trabalho para casa, a gente chega cansado, comprei uma dessas tvs grandes aí, a gente assiste o jornal, eu gosto de ver jornal enquanto a patroa faz a janta. Mas nem sempre porque é tanta desgraça no mundo, é tanta mentira, tanta roubalheira. Olha o que aconteceu com a Petrobras. Falida. Como é que pode, gente. Diz que era a maior do mundo mas o PT tanto roubou que acabou com tudo. Não tem jeito, não tem mais jeito, esse Brasil não tem jeito. Alguém tinha que pegar uma metralhadora, uma granada, uma bomba, jogar em Brasília e matar tudo. Não sobrar ninguém, fazer uma limpa. Por que é que não aparece alguém para fazer esse favor para o Brasil ? Ia virar herói. Brasileiro é muito bunda mole, isso é que é a verdade. Pode fazer qualquer coisa com ele que não se revolta. Pensa que lá fora é assim? Nada. O povo luta, o povo vai para a rua, briga e coloca político para correr. Aqui, não. Aqui quando vão para rua quebram lixeira, espalham lixo pela rua, quebram vidro de banco, vitrine de agência de carro, aqui só vai baderneiro. Por isso que eu não me meto com política. Não quero mais saber. O negócio é a gente ir levando, cuidar do que é da gente e deixar essas coisas para lá. Nesse negócio ninguém presta, ninguém da política presta. Eu votei, sempre votei porque eu acreditava que uma hora ia aparecer um homem de verdade para acabar com essa bagunça. Teve o Lula, no começo ele até que foi bom, fez umas coisas mas você, viu ? Meteu a mão como todo mundo. É tudo igual. Depois puseram aquela mulher lá então. Não pode. Mulher não tem condição de tomar conta de um país desse tamanho. O Brasil é muito grande. Mulher é a melhor coisa que tem, sem mulher não existe nada mas para certas coisas não dá. Se bem que ela, dizem, né, que nem é mulher. Eu até pensei que tirando ela ia melhorar mas até agora nada. E o desemprego está aumentando, viu. O meu filho mesmo, está por aí procurando vaga e nada. Falei para ele, não apavora, faz uns cursos, que agora se a pessoa não estuda não consegue nada, faz uns bicos, vai se virando, eu trabalho, a mãe dele me ajuda, a gente vai levando. Depois não é culpa dele. É culpa desses fdp dos políticos. Melhor nem falar nisso, cortaram uns dez lá no serviço. Eu não porque não dou problema, nunca dei problema, não vou atrás de sindicato, não entro em baderna. O país nessa crise e tem cara ainda querendo reclamar do salário. Se o empresário não ganha, como é que vai pagar ? É uma gente muito burra. Eu faço o meu serviço, não dou razão, fico na minha e trabalho. Também se mandarem embora pego meu fundo de garantia e abro um negócio, uma oficina, sei lá, Deus é que sabe. Tem colega desesperado porque paga aluguel, tem dívida, sabe como é, cada um com seus problemas, fazer o quê. Eu não tenho medo de trabalho então enquanto tiver saúde não passo necessidade. Tenho meu apartamento, tenho meu carro, vamos ver no que é que vai dar. Roubaram o outro, roubaram um mas consegui comprar outro, graças a Deus. Levaram na mão grande, sabe como é? Enfiaram o revólver na minha cara, graças a Deus não me furaram, achei que ia morrer. O que acaba com o Brasil é a ladroeira. Corrupção e ladroagem. Tinha que pegar o ladrão e fazer como lá fora, cortar a mão. Roubou de novo ? Corta a outra. Ou então matar logo de uma vez para não ter que sustentar vagabundo. Fica essa gente aí dos direito dos manos falando que não é para matar esses pivetes. A polícia tem mais é que matar mesmo, você já viu cada coisa que esses moleques fazem? Acha que eu vou defender quem vai roubar meu carro, arrombar minha casa, roubar minhas coisas, matar minha família? Tanta coisa acontecendo que parece o fim do mundo. Já viu o programa do Datena? Assiste para você ver.  Eu quero que eles morram mesmo. Deixa a PM trabalhar. Se eu tivesse um revólver, bandido nenhum levava meu carro. Dava um tiro na cara do vagabundo na hora. Alguém tem que parar essa bagunça. O povo brasileiro está cansado. A gente só quer viver em paz.

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Curtas


 

Aí nesse papo de polivalência no mercado profissional, você descobre que o cerne não é valorizar as suas muitas habilidades, e sim fazer você trabalhar desempenhando as funções de muitas pessoas.

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Aí vc está olhando as publicações da rede social e aparece a foto de um homem bonito na barra lateral direita, com os dizeres “Quero namorar”. Desconcentra, gente. Onde é que posso escrever “Problema seu”.

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Aí na notícia que fala do pastor acusado de abusar sexualmente do enteado de 5 anos, alguns comentários tratam de acusar a mulher de exposição da intimidade da família; outros, o defendem, chamando a atenção para a tendência pecadora de todo ser humano. Como diria uma grande amiga: na moral, pecado de cu é rola!

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Aí o discurso do lado-de-lá: O Rio está em crise blá-blá-blá, os servidores têm de ser compreensivos blá-blá-blá, os professores têm de retornar às salas sem salário blá-blá-blá, a justiça considerou a greve abusiva. Aí o discurso do lado-de-cá: sem segurança, sem limpeza, sem merenda, os terceirizados não recebem há cinco meses, sem blá-blá-blá.

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Aí eu conversava com um representante de determinado sindicato. Não tenho nada contra sindicatos – registre-se. Aí eu discordava dele e da forma como empurraram o fim da greve para a base sem consulta prévia em assembleia. Aí ele se tornava mais verborrágico e dizia que, como representante da classe, ele estava autorizado a tomar certas decisões e assumia as consequências dela, inclusive de ser considerado pelego. Aí eu disse que ele não estava autorizado não, que aquilo era um modelo antiquado de gestão, em que não se supõe a real participação dos representados, muito típico dos nossos políticos, por exemplo, que se acham donos das cidades, dos estados, da federação. Aí ele já tinha me chamado de meu amor umas três vezes. Aí eu disse meu amor não. Meu nome é Aline.

 

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Imagem do site Efetividade

 

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Mais amor


Já faz tempo, eu sei. Não foi por desinteresse nem falta do que dizer. Só sei que parti numa viagem para dentro. Precisava disso. E nesses mergulhos profundos, cada vez mais percebo a necessidade de respeitar o outro. Te parece clichê? Antes fosse só isso. Respeitar o outro é, em alguma medida, respeitar a si mesmo também.

Não consigo achar graça de vídeos exaustivamente compartilhados nas redes sociais em que as pessoas têm suas imagens reproduzidas a serviço da ridicularização.

Não entendo a excessiva preocupação com a roupa, o cabelo, o corpo e a sexualidade alheias. Tanta energia gasta na vida e nas redes sociais para criticar o comprimento das saias, os cortes de cabelo e suas multicores, as tatuagens. Para tomar conta do desejo e do gozo do outro. Para enquadrar as pessoas em clausuras nas quais elas não querem nem devem ficar. Para nos padronizar.

Certas opiniões deveriam ser guardadas apenas para seus próprios pensadores até que elas se reformulassem em algo mais complexo e mais digno de serem comunicadas. Dizer que prefere chocolate amargo a chocolate ao leite eu diria que é um comentário inocente. Não ofende ninguém. Fazer galhofas sobre a forma como outras pessoas se vestem, entre outras questões, não é inocente. É perverso, é rude, é a tentativa de hierarquizar a partir de si mesmo como referência. É arrogante. Não se trata de simples questão de gosto, como alguns querem fazer crer.

Da risadinha sarcástica ao comentário jocoso, o que se faz, muitas vezes sem perceber, é legitimar a estratificação das pessoas, separando-as em seres aceitáveis e seres não aceitáveis. A partir daí, toda sorte de violência pode ter origem. Aos aceitáveis, carinho e admiração. Aos inaceitáveis, que Baumann trata por “ambivalentes”, o escárnio, a ofensa, a agressão, o assassinato. É assim que se dá risada do idoso negro sem dentes dançando bêbado. É assim que se jogam pedras em praticantes de religiões de matriz africana. É assim que se espancam prostitutas. É assim que se pratica estupro corretivo contra lésbicas. É assim que se assassinam estudantes gays e nordestinos.

A ideia de que tudo não passa de mera piada consolida um pensamento separatista em que se ri do outro por ele ser diferente de mim. Se nos entendêssemos parte de uma coletividade, veríamos que não haveria espaço para nos pensar separados uns dos outros, mesmo daqueles que são – ainda bem! – diferentes de nós. Mais amor, por favor.

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Imagem extraída do site Bons Pensamentos.

 

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Uma postagem à brasileira


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Olá, eu sou o Brasil. Fui desafiado a postar quinze fatos sobre mim que talvez vocês não conheçam. Aliás, mesmo depois que eu conte, vai sempre ter muita gente sem acreditar que são verdades. Mas, assim sou eu mesmo. Talvez um dia, quem sabe caia a ficha? Mas, vamos lá: Continuar lendo

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O evangelho segundo Michel Temer


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A minha desvinculação do PT é muito antiga. Antes da eleição de Lula para presidente, eu (e muitos outros) já víamos que aquele projeto, naqueles moldes, estava dando água. Foi uma mistura de alianças indefensáveis (como a chapa Garotinho com Benedita da Silva para governo do Rio de Janeiro) e concessões (consolidadas na forma da carta ao povo brasileiro) que me levaram, precocemente, a enxergar os limites da capacidade de transformação da sociedade daquele projeto.

No entanto, apesar de ter mantido distanciamentos e críticas todos esses anos, eu nunca tive dúvidas acerca de um ponto: a única saída aceitável para o impasse em que fomos metidos seria pela esquerda. Qualquer retorno da “velha elite Justo Veríssimo” significaria um retrocesso enorme. E devido a essa certeza, assim como a uma grande irritação conta a histeria conservadora de direita que assola o país há quase uma década, quantas vezes não me flagrei defendendo um governo que na verdade eu sou contra… É hora, no entanto, de admitir: a realidade do governo Temer está se mostrando aquém do além das minhas previsões mais pessimistas. E sinistras.

Corrupto, esse governo é de cima a baixo, e possivelmente muito pior do que o PT jamais poderia ser. Mas não precisava deixar isso tão claro, montando o ministério mais criminoso que se tem notícia na história republicana (sete indicados na lava jato, e o próprio presidente agora é inelegível). A extinção da Controladoria Geral da União é a garantia de roubalheiras em níveis nunca vistos (e que, aliás, não serão vistas, sem o órgão e com a conivência silenciosa da imprensa). Todo o espetáculo armado não passou de um circo, tanto de mídia quanto de judiciário. Isso nunca teve nada a ver com corrupção. E isso não podia estar mais claro do que está agora. Depois da extinção, pelo Temer, da CGU, para você que bateu panela, só resta fazer o disse meu amigo Ernesto Xavier: “Encaminhe-se até a cozinha lentamente de cabeça baixa. Pegue a panela e a acolher de pau. Peça desculpas a elas”.

A política externa do José Serra é uma repetição quase automática da PEB nos tempos de FHC. Abandonamos a prioridade às relações sul-sul, viramos as costas mais uma vez para a América Latina em busca de acordos de livre comércio com países que se industrializaram 150 anos antes da gente, com um olho cobiçoso por uma entrada na OCDE. Isso é bom? Vejam o que aconteceu com o México depois da entrada na Nafta e no clube dos ricos e tirem as suas próprias conclusões. Voltaremos  a ser o gigante bobo do continente, seguindo a observação perspicaz de uma diplomata venezuelana.

A ponte para o futuro não passa de um programa de ajuste recessivo, como qualquer estudante de economia de segundo período sabe. Vai baixar a inflação, mas ao custo de um desemprego brutal, e como os cortes de gastos são direcionados criteriosamente na direção dos mais pobres (para juiz não faltou aumento, é evidente), ao invés da política de distribuição de renda, como a que vinha sendo realizada, mesmo entre erros e acertos, teremos uma política antidistributiva, do tipo que retira dinheiro da saúde, da educação e dos programas sociais em benefício do rentismo. Com a alta dos juros, que, eu presumo, se seguirá, isso significará dinheiro saindo da população em geral e migrando para o sistema financeiro. É bom para os bancos, portanto, ruim para as pessoas. Seus efeitos já se fazem sentir por todos os lados. Na UnB, onde dou aula, muitos  alunos já estão trancando seus cursos. Sem as bolsas e os programas de assistência, eles não têm dinheiro para pagar passagem para ir à faculdade. Simples assim. É muito triste de se ver. E não adianta me dizer que a Dilma estava fazendo a mesma coisa. Ajuste capitaneado por um governo do PMDB, assim como pelo PSDB, dói muito mais. Podem escrever o que estou dizendo. O PT, apesar de tudo, ainda depende de alguma base sindical e tem que prestar contas em alguma medida. Ou pelo menos negociar. Já esses outros caras, eles não têm compromisso nenhum com classe trabalhadora. A ponte para o futuro: algo me diz que eu vou dormir embaixo dela.

A escolha de Fátima Pelaes para a Secretaria de Políticas para Mulheres ultrapassa os limites do escárnio. Afogada em denúncias de corrupção, não consigo imaginar mulher menos de acordo com as atuais pautas feministas: além de evangélica, é contra o aborto mesmo em casos de estupro. Uma catástrofe! Essa indicação, como já veremos, só pode estar de acordo com o projeto de recuo em todas as frentes do campo social. A propalada reforma e extinção de ministérios e secretarias, essa, não se realizará. Não é da natureza do Michel Temer extinguir cargos. Não é quem ele é. E tampouco está no DNA do PMDB atitudes de enxague da máquina pública. Só serão extintos os que não se coadunarem a pauta ultraconservadora que se está implementando (como a Secadi, que acabou de ir para o saco). Os cortes são amparados, no plano discursivo, pela justificativa do equilíbrio das contas públicas, mas, na prática, o que se corta obedece a uma lógica que nada tem de contábil, mas sim de uma opção política.

A influência da religião neste governo levou o jornal El Pais a falar em “República evangélica”. É claro que a bancada evangélica cresceu em espaço e atuação também nos governos petistas, chegando ao ponto de um pastor, e um dos mais medíocres, assumir a presidência da comissão de direitos humanos da Câmara, em choque frontal com as reivindicações dos movimentos sociais. Mas, agora, a situação está rumando para um redimensionamento inaceitável. Além de Pelaes, Temer quase entregou o Ministério da Ciência para um pastor da universal, homem de confiança do bispo Edir Macedo, Marcos Pereira. Diante da reação negativa, recuou, e o bispo teve “que se contentar” com o Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior. A bancada faturou ainda o Ministério do Trabalho e a liderança do governo na Câmara. Isso é o ovo da serpente.

Pessoas que tomam decisões irracionais baseadas em um livro preconceituoso e idiota escrito há quase dois mil anos não podem ter o poder político de definir como os habitantes do século XXI devem viver as suas vidas. Eu moro confortavelmente no século XXI, eu quero fazer aborto, usar drogas e dar a bunda e não quero nenhum pastor vigarista e que não paga imposto, de uma religião opressora e completamente retardada,  no centro do poder criando leis e tomando decisões para encher o saco. Mas, infelizmente, este movimento está em perfeita sincronia com a grande ofensiva conservadora que surgiu no lastro do PT.

A nossa elite política e econômica é patriarcal, branca e escravocrata. Ela só transita bem em um mundo de negros subservientes que abrem portas e mulheres que conhecem o seu lugar. Qualquer cenário diferente desse lhe é hostil e alienígena, e os cortes criteriosos de secretarias e ministérios voltados para o empoderamento de minorias são a prova irrefutável de qual projeto para o país está sendo desenhado. O pior de todos: o de sempre. Aquele que fez aniversário de 500 anos há pouco tempo.

É claro que muitas dessas desgraças devem-se a atuação do próprio PT. É impossível ver o partido recosturar alianças com PMDB, de olho nas eleições municipais, e não pensar: “bem-feito. Mereceram”. Ou ainda: “não aprenderam nem entenderam nada”. Eu não acredito mais em política parlamentar. Nunca acreditei muito, na verdade. Via-a no máximo como uma arena a ser disputada,  mas sem prioridade. Mas agora acredito menos ainda. Acredito muito mais no Black Bloc que protege um manifestante com seu escudo. Acredito na molecada que está ocupando as escolas, dando aula para muito professor. Acredito nos movimente sociais autônomos. Acredito nas mulheres. Acredito nos negros. Acredito nos índios. É daí que virá a força motora das transformações mais profundas e significativas que precisamos, que queremos. E que, depois de 500 anos, merecemos.

 

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O que aconteceria se…


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Já passava das dez da noite. Peguei o maço de cigarros que estava no braço do sofá. Vazio. Passo a mão no controle remoto, pressiono o botão para pausar o filme. Um suspiro. Decido ir lá fora comprar cigarros.

Resignado, não me importo com a roupa que trajava, calço apenas os sapatos, recolho a carteira e as chaves. Em poucos instantes ganho a rua. Caminho pelas calçadas escuras, devido a falhas na iluminação pública. O bar que vende os cigarros fica a duas ruas de casa.

Corto caminho por uma pequena viela que liga ambas as vias. Na esquina, um grupo de rapazes compartilham um cigarro de maconha. Passo por eles, sem que nenhum nem sequer olhe para mim.

Um homem de barba espessa caminha em direção contrária a minha naquela pequena viela. Parece carregar uma garrafa que lembra alguma de cerveja, mas não dá para saber ao certo na penumbra que cai sobre o local. Continuo no mesmo passo, na mesma calçada. O homem que cruza meu caminho passa por mim sem me notar.

Viro a esquina, avisto o bar ao longe. Um boteco daqueles mais ordinários, típicos das esquinas da cidade. Algumas mesas na calçada mostram sorrisos e produzem certa gritaria que rompe o silêncio da noite. Uma churrasqueira metálica cria uma atmosfera nebulosa que brinda um ar misterioso ao botequim.

Subo o degrau de mármore que dá acesso ao bar, de azulejos até o teto. No centro da parede, de frente para a entrada, uma imagem de São Jorge em um pequeno altar iluminado por luzes de néon. O balcão, repleto de garrafas e copos, é ocupado por inúmeros homens.

Toco de leve o ombro de um deles, ele olha para mim. Faço um gesto de positivo, levantando o polegar com a mão direita fechada. Ele acena com a cabeça, chega para o lado e abre um espaço para que eu possa chegar ao balcão. Depois disso, volta-se aos amigos e continua sua conversa.

Chamo o balconista e lhe peço a marca dos cigarros. Em breves instantes, ele coloca o maço diante de mim e recolhe a nota de dez que deixei sobre o tampo de vidro. Recebo algumas moedas de troco, agradeço, viro as costas, vou embora.

No caminho de volta, passo por vários senhores que se reuniam para fechar a conta do bar. Peço licença a um deles para que eu possa passar e prontamente sou atendido, com um breve pedido de desculpas. Aceno com a cabeça e sigo meu caminho.

Abro o pacote de cigarros, retiro um deles e levo à boca. Um homem surge em minha frente e impede-me a passagem. Levanto meu olhar, o sujeito mostra-me um cigarro. Pergunta-me se tenho fogo. Tiro meu isqueiro, acendo-lhe o cigarro, aproveito e acendo o meu. Ele me agradece, balanço a cabeça positivamente em resposta, sigo novamente pelo caminho.

Cruzo com alguns catadores de latinhas que se aproximavam do bar. Eles baixam a cabeça, param em torno de um poste com uma lata de lixo e recolhem algumas latas que havia no chão. Sou invisível a eles. Dobro a esquina de minha rua.

Um homem com a camisa repousada no ombro vem atrás de mim. Parece mais rápido. Vou chegando ao portão de minha casa. O homem continua andando em passos firmes e ligeiros. Abro o portão. Ele passa por mim, mexendo em seu celular, sem prestar qualquer atenção à minha existência. Abro a porta de casa, sento-me no sofá. Aperto o botão do controle remoto e termino de ver o filme.

Essa história não tem conflito. Não tem clímax. Não tem preocupação com a indumentária dos personagens. Não tem medo. Não tem desconfiança dos transeuntes. Não tem assédio. Não tem violência. Não tem culpa, nem tem vítima. Mas essa história só é assim porque sou homem.

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Mais um dia para sentir vergonha de ser homem


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Escrever às vezes é tudo que nos resta quando a noite fica longa demais, amarga demais. Eu queria, egoisticamente, não ter sabido o que eu soube. Não ter lido o que eu li. Ver, eu não vi (acredito no relato das companheiras). Acho que ninguém deveria ver. O horror, o velho horror, mais uma vez, chega-nos pelas portas e pelas janelas, forçando as frestas, afrouxando as dobradiças. É da natureza do horror entrar assim…

Não tenho muitas palavras para falar sobre as notícias da última barbárie vinda, dessa vez, do Rio de Janeiro (poderia ser de qualquer lugar). Uma revolta absoluta, a náusea até o enjoo? Tudo isso é pouco. Só consigo pensar em formas de mandar solidariedade a essa pobre menina. O certo a fazer, nesse caso, antes de tudo, é o que a família pediu: não divulgar o vídeo (não consigo imaginar o que levaria alguém a fazer isso, mas enfim…), não divulgar dados a respeito dela (nome, moradia etc.). Na verdade, a não ser que você seja alguém que tenha algo de concreto para contribuir com o andamento da investigação ou para o acompanhamento e apoio da vítima, você não tem nada que saber essas coisas mesmo.

Para além de uma certa curiosidade mórbida, que eu não consigo entender, embora saiba que é comum, tenho visto variadas reações ao ocorrido na internet. É verdade que esse tipo de violência extrema tem a capacidade de abalar até as nossas convicções mais profundas. Mas, por exemplo, a despeito de todo o ódio que sinto neste momento, continuo sendo contra a pena de morte, antes de tudo por ser uma medida que, no nosso país, só ia aumentar o número de negros e pobres mortos (ou alguém tem alguma dúvida sobre quem seriam os condenados a essa pena?). O código penal francês, muito mais draconiano que o nosso (só para começar, eles têm prisão perpétua), em um caso como esse, daria 20 anos de prisão para os envolvidos (estupro é 15 anos, com agravantes – no caso, por ser coletivo – vai para 20). Mas o endurecimento das penas nos remeteria ao mesmo problema já apontado: quem seriam os punidos por sentenças mais duras? Para quem acha exagero, basta lembrar do filho do Eike Batista, livre, leve, solto e de Ferrari por aí. Não. Penas mais duras não são solução para nada, pelo menos não enquanto tivermos uma justiça não cega para as cores (e menos ainda para diferenças econômicas).

O que tem que mudar é a cultura do estupro. Porque sim, estupro não é doença, é cultura. Vivemos em uma sociedade doente, na qual o estupro é relativizado, suavizado, justificado, quando não incentivado. As formas pelas quais essa desgraça se dá são as mais variadas. Essa semana tivemos, por exemplo, a recepção do sr. Alexandre Frota no ministério da educação para debater “propostas” para o ensino. Mais do que pela sua carreira cinematográfica, Alexandre atingiu projeção nacional por confessar, em um programa televisivo de mau gosto (diz-se: politicamente incorreto; leia-se: divulgador de discriminação contra minorias), ter estuprado uma mãe de santo. Ora, que mensagem poderia ser mais nociva para a sociedade do que essa: o marginal confessa um crime em cadeia nacional, fica por isso mesmo (“foi só uma brincadeirinha”, ele justificou) e, pasmem, essa pessoa é chamada para discutir educação em nível ministerial! Além de não ter credencial nenhuma para discutir educação (ou o que quer que seja), trata-se de um criminoso confesso e um estuprador convicto. O lugar dele é na prisão, junto com os trinta monstros que imolaram a menina essa semana, no mesmo dia em que esse crápula era recebido com pompas no ministério.

Sim, essa semana, parecemos ter descido a profundidades inéditas do fundo do poço. Sim, nós vivemos no inferno, tão enterrados nele que a maior parte do tempo nem nos damos mais conta. No entanto, as formas básicas de se mudar essa cultura não são tão difíceis de se imaginar quanto pode parecer: basta ouvir as principais interessadas, ou seja, as mulheres – explicando assim parece fácil, né?, então por que não fazemos todos? Quem sofre isso tudo na pele, todos os dias, é quem sabe onde o calo aperta: é necessário deixar bem claro que a culpa nunca, em nenhuma hipótese ou circunstância,  é da vítima; é necessário não se omitir em casos de violência, e denunciar sempre nos canais adequados; é necessário combater todas as manifestações de discriminação e inferiorização, mesmo as pequenas e aparentemente “inofensivas” (como se alguma coisa no mundo fosse isso), como piadinhas e etc.; é necessário educar os homens para o respeito, para a empatia e para que não se tornem criminosos.

Há muitas outras. A lista de proposições e de reclamações vindas dos movimentos sociais legítimos de representação das mulheres é, com toda justeza, interminável. Basta procurar. E é um sinal grave e profundo da doença dessa sociedade ter que lembrar de coisas tão óbvias. Ter que fazer campanhas inacreditáveis como “eu não mereço ser estuprada” ou ensinar as pessoas que não é legal puxar mulher pelo braço no carnaval. Em algum lugar, falhamos miseravelmente enquanto espécie para chegarmos a esse ponto.

Propostas para acabar com a cultura do estupro:

– Antes de tudo, como já dito, é só seguir as recomendações das próprias mulheres, como por exemplo, educar os homens a não estuprar, ao invés de educar a mulher a como se comportar (o que, convenhamos, faz todo sentido).

– Fechar todos os templos onde se propaga a misoginia, a homofobia ou qualquer discurso discriminatório: liberdade religiosa não pode ser confundida com discurso do ódio. Nenhum líder, de nenhuma religião, tem o direito de ser um elemento deseducador para a sociedade.

– Prisão imediata para todos que fazem ou já fizeram apologia do estupro. Isso inclui Jair Bolsonaro, Rafinha Bastos, Danilo Gentili, o não menos odioso Alexandre Frota e merdas quejandas.

– Prisão imediata também para todos os homens que curtiram, comentaram, compartilharam e ou ridicularizaram, apoiaram ou de qualquer forma que seja se locupletaram com o vídeo postado no Twitter.

Também já há um protesto marcado para essa semana. O que posso fazer, à distância, é ajudar na divulgação: https://www.facebook.com/events/1752031391678244/

 

Termino, neste dia cheio de dor, manifestando minha solidariedade à vítima, à família e a todas as outras mulheres de todas as outras histórias que já aconteceram e que, infelizmente, tornarão a acontecer. Vi, entre as várias manifestações emocionantes de solidariedade, uma militante feminista pedindo para que orássemos por essa menina. Não sou pessoa de crenças e de religião. Mas na minha impotência, na frustração, na revolta, termino citando um dos trechos mais belos e fortes da literatura brasileira:

 

“Mas se me viesse de noite uma mulher. Se ela segurasse no colo o filho. E dissesse: cure meu filho. Eu diria: como é que se faz? Ela responderia: cure meu filho. Eu diria: também não sei. Ela responderia: cure meu filho. Então – então porque não sei fazer nada e porque não me lembro de nada e porque é de noite – então estendo a mão e salvo uma criança. Porque é de noite, porque estou sozinha na noite de outra pessoa, porque este silêncio é muito grande para mim, porque tenho duas mãos para sacrificar a melhor delas e porque não tenho escolha.”

– Clarice Lispector, do conto Legião Estrangeira.

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