Descarrilamento de nada


Publicado originalmente em transversos:

Diz que fui por aí…

Deserto-me de palavras. Um-qualquer-coisa-dentro mexe sem forma sem conteúdo. Busco a expressão fugidia que me surge de relance e se lança no abismo nevoento de meus erros. Hoje nada de críticas mordazes, verazes, velozes. Nada de política, nada de mortes, nada de vidas. Nadifico dores e conquistas. Relativizo. Nada.

Submersa sem fôlego, anseio a superfície, nado contra a corrente de mim mesma. Arrasto-me em desvario, cansada, trôpega. Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer. Sumo na neblina, sumo na tempestade. Sumo. Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí.

Hoje estou assim nem alegre nem triste. O governador caloteia em nome dos royalties, o novo Papa é hermano, Yoani já foi embora, foi-não-foi-foi-não-foi? Pouco me importa. A lua me chama e eu tenho de ir pra rua. Por hoje, só por hoje, sou um ensimesmamento bípede descerebrado.

Calo por fora. Dentro…

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O enigma inverso da esfinge


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Naquela manhã, levantou-se como um velho. Olhou-se no espelho e viu as múltiplas e profundas rugas a marcar-lhe a face, emoldurada por cabelos brancos. O retrato repetia-se no ânimo: sentia-se fraco e cansado. Pegou o jornal e as manchetes lhe contavam sobre perda de direitos trabalhistas, aumento de impostos. Sacrifícios necessários, segundo o governo.

Por outro lado, enxergava a crítica daqueles que seu tempo já lhe ensinara a não confiar. Diziam que tudo estava errado, apesar de prometerem o mesmo, sem que jamais houvesse dado certo. As articulações doíam-lhe e, mesmo diante de toda a sorte de ataques, manteve-se passivo. Não fez esforço para fechar os olhos, meu tempo já passou, balançou a cabeça, buscou ignorar quem havia a seu lado.

E nada fez.

Na hora do almoço, a comida foi tragada com pressa. Havia ainda algumas reuniões a fazer, papéis a assinar, relatórios a produzir. Casado com o trabalho, aquele homem, agora de meia idade, sabia que precisava sustentar a casa. Recolhia impostos e deixava para depois pensar sobre o que se faziam com eles.

Não era exatamente um dependente do Estado – como tantos que existem por aí –, tinha o mérito de fazer-se independente e gozar dos serviços que o suor de seu rosto podia proporcionar a si e aos seus. Mesmo reconhecendo a importância de algumas questões para outros, o dia não podia parar. Aqueles que não tinham casa lhe davam pena, pena não ter tempo para lhes ajudar.

Assim, deixou para o dia seguinte.

O fim de tarde aproximava-se – ah! O evening inglês! – e sua agora juventude florescia em vigor para ser a diferença. Imaginou que todos deveriam estar juntos. Não era possível que não vissem quantos ataques sofríamos. Mais que isso, não era possível que a história fosse ignorada e cordões marchassem bovinamente pedindo algo que não lhes era direito, nem direita.

Viu panelas em colisão que lhe diziam que o medo venceu a esperança, pois o verde já havia sido vendido como vermelho, mas desbotou-se tão violentamente que cor alguma lhe sobrara. Restaram os daltônicos que viam diferenças entre os iguais. Como se a oposição fosse melhor que a anterior. Como se não fossem a mesma moeda. E como se não estivessem ambos apenas em busca de mais moedas.

Impetuosamente impotente, nada conseguiu.

A noite caiu como um avião em desastre. Agitada, a criança buscava aproveitar cada segundo do fim do dia e do iminente fim da recreação. Junto dos seus, era igual, independentemente do lugar onde moravam ou mesmo do que possuíam. Eram crianças e, segundo este código, eram iguais na brincadeira a cujas regras submetiam-se por terem-nas estabelecido em acordo.

Corre-corre, risos, vitórias e derrotas. Nenhuma mágoa guardada. Deu a hora. Uma despedida simples de quem tem certeza no amanhã. Os olhos voltados para frente, pois o porvir é o que importa. Banho, janta, cama. Não lhe passa na cabeça que há outros sem o mesmo. Ouviu dizer que havia. Jurou que era mentira, não era possível. Como deixam? Quando fosse grande, não permitiria que acontecesse.

Dormiu.

E, na madrugada, como um bebê, sonhou com um mundo melhor.

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E o troféu Patife-Mariola vai para…


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Equilíbrio de Nash

O termo vem da Teoria dos Jogos. Representa uma situação em que, num jogo envolvendo dois ou mais participantes, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente.
Na terra onde canta o sabiá, esse equilíbrio esportivo tem como modelo exemplar as grandes empreiteiras, que supostamente concorrendo, cada uma teria o interesse de conquistar o máximo. Só que não. Quando estão disputando o mesmo mercado, a conquista do máximo é impossível para todas. E foi assim que os maganos criaram o Clube da Propina, uma mamadeira gigante cheia de petróleo. Os consórcios da quadrilha seguiram e operam o mesmo jogo sujo nas obras da Copa e das Olimpíadas.

Demônios do Capital

No sétimo portal dos infernos, empresários fazem seguro de vida de funcionários, tendo como beneficiária… a própria empresa. Essa vilania do Grão-tinhoso começou com as grandes corporações norte-americanas que compravam apólices de vida dos principais executivos. Por serem funcionários fundamentais e caros, eles eram vistos como ativos da companhia. A partir dos anos 80, a criatividade dos mafarros expandiu-se e chegou ao chão das fábricas. Ganhou apelidos de “seguro do zelador” ou “seguro do caipira morto”.

A morte do funcionário da Wal-Mart, Michael Rice, de 48 anos, trouxe à luz o mundo das trevas. A Wal-Morte tinha feito um seguro de cerca de US$ 300 mil para o falecido. O dinheiro ficou pra quem? Para os anjos caídos da Hell-Mart!!
Enquanto isso a viúva do ex-trabalhador da empresa sofria com o luto e a luta pela sobrevivência. Depois do ritual macabro, a gigante varejista confessou seus atos demoníacos de ter feito esse tipo de seguro para milhares de empregados.

No pé do ouvido

 Você aí que não larga o diabo do celular nem quando está dirigindo. Não disfarça não! É com você mesmo que estou falando. Seu tarado! Fica dirigindo, fofocando com o aparelho do cão no pé do ouvido e enviando zap zap pro sétimo portal dos infernos. Quer morrer? Então vara o Palácio Guanabara, veloz e furioso, a 200 por hora. E leva junto com você a tranqueira do sub-troço do Pezão. Ou então anda de jumento, porque dois asnos sempre se entendem.

E o troféu Patife-Mariola vai para…

Posso garantir que não tem ninguém mais machucado do que eu. Falo com muita franqueza e com muita sinceridade. Eu sofro na alma, fui atingido na alma pelo que está acontecendo. O mais machucado de tudo isso foi eu”.

Beto Richa, o mártir injustiçado

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Dia das Mães de Maio


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2006. Às vésperas do Dia das Mães, tem início um final de semana de guerra urbana sem precedentes na  história brasileira, mais precisamente em São Paulo capital.

A facção criminosa PCC seria responsável pela rebelião nos presídios do estado como retaliação à transferência de 765 presos, entre eles as principais lideranças da facção, para a penitenciária 2 de Presidente Venceslau, segundo versão oficial dos altos dirigentes da Segurança Pública.

Dos ataques assumidos pela facção, aos quais foi dedicado destaque na imprensa em rede nacional, resultaram 46 mortos e 78 feridos – todos representantes do braço armado do Estado. Eram policiais civis, militares, guardas municipais, até bombeiros. Ao todo, foram 280 ataques, que incluíram também depredação de agências bancárias e queimas de ônibus.

A história sangrenta que parecia terminar aqui apresenta, no entanto, acontecimentos que antecedem e que sucedem a narrativa dos três dias de terror, alargando o enquadramento reflexivo.

Entre 12 e 21/05/2006, 437 corpos de civis deram entrada no IML de São Paulo. Repito: 437 corpos de civis, dentre os quais 400 jovens pardos ou negros e pobres. A maior matança de jovens de que se tem notícia no Brasil.

Por temer incorreções nos laudos, que poderiam ocasionar distorções nos processos investigativos, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CRM/SP) acompanhou de perto todo o trabalho desenvolvido. De acordo com informações do Dr. Henrique Carlos Gonçalves (CRM/SP), os laudos periciais registraram que em 90% dos casos os tiros atingiram a região da cabeça e do tórax.

Em resposta ao documentário São Paulo sob Ataque, que apresentava na sua maior parte uma visão extremamente maniqueísta entre os mocinhos (policiais) e os vilões (integrantes de facção), surge em 2011 o relatório São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006 – uma iniciativa de pesquisadores da Justiça Global e da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard.

Nele, em busca de esclarecimentos sobre a resposta e a responsabilidade do Estado, são documentados 122 casos de homicídio, em que há indícios da participação de agentes públicos. Os estudos pautaram-se em entrevistas com autoridades e testemunhas, análise de dados oficiais e peças de inquéritos policiais e autos processuais, visitas a centros de detenção e extrapolam o mero maniqueísmo para apontar a existência de crime organizado tanto dentro como fora da esfera estatal. Aponta, assim, a corrupção sistêmica como o maior dos fatores desencadeantes dos problemas de segurança pública. Quando representantes da segurança pública organizados encobrem as ações das facções criminosas como forma de obtenção de recursos, a proteção a elas surge acompanhada da extorsão, principalmente, mediante sequestro de familiares. São as organizações corruptas infiltradas na segurança pública que matam os jovens da periferia e, indiretamente, também apertam o gatilho contra os próprios colegas de farda.

Débora Maria da Silva, mãe de um dos jovens assassinados Edson Rogério da Silva, foi figura importantíssima para que as atrocidades cometidas não caíssem no esquecimento, tendo fundado junto a outras mães que partilhavam do mesmo sofrimento o movimento Mães de Maio. Na luta por justiça, o abaixo-assinado contra o fim do registro de auto de resistência configurou-se em 2012 como marco na articulação de forças entre movimentos sociais e coletivos formados por familiares de vítimas de violência do Estado.

A notícia mais recente que se tem a respeito de tudo isso é que, após apelações a todas as instâncias brasileiras para apuração dos crimes cometidos, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo recorreu a um órgão internacional, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento apresentado aponta a participação de policiais em serviço e grupos de extermínio (não que sejam necessariamente excludentes entre si) como os responsáveis pelos assassinatos de centenas de pessoas em todo o Estado.

Após análise da documentação, a Comissão da OEA, sediada em Washington (EUA), deve enviar denúncia ao Itamaraty e muito provavelmente determinar que o Brasil cumpra medidas para solucionar o problema.

Não se sabe o que se pode esperar de um Estado que sequer esforça-se em punir os torturadores da época da ditadura civil-militar. Muito mais do que resquícios da violência, da impunidade e da corrupção continuam presentes na vida de quem habita a periferia. Democracia de papel.

A despeito de toda a negligência investigativa das autoridades, o movimento Mães de Maio foi condecorado em 2011 com o Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos; em 2013, com a Medalha Chico Mendes de Resistência e com o Prêmio de Direitos Humanos, a mais alta condecoração concedida pelo governo brasileiro.

Mães da Praça de Maio são aquelas que se reúnem em Buenos Aires, exigindo notícias de seus filhos, sequestrados por militares durante a ditadura na Argentina.  (1976-1983). Mães de Acari são aquelas que, há quase 25 anos, buscam notícias de seus 11 filhos, levados de um sítio em Magé por homens que se identificaram como policiais em 26/07/1990. Mães de Maio são aquelas que lutam por justiça contra os crimes cometidos em 2006 e conquistaram um dia oficial no calendário de São Paulo: dia 12/05.

Feliz Dia das Mães! Por um Estado brasileiro que deixe de ser fabricante de Mães de Maio. Por um 12/05 em que lembrar não é reviver, mas impedir que se apaguem a história de quem partiu e a história de quem luta.

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Maioridade penal: vamos falar sério; já há MUITA violência!


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Fonte: blogue Acid Black Nerd.

 

O tema MAIORIDADE PENAL tem sido discutido de forma constante e apaixonada no país; afinal, envolve, muito diretamente o bem-estar de todos e sua sensação de segurança, interferindo na própria autonomia do ir e vir, tantas vezes. É preciso conseguir romper a barreira das paixões e discutir o tema lucidamente.

Então, sem palhaçadinha, vamos começar por reconhecer que os níveis de violência, em nossa sociedade são preocupantes a todos, e sem indícios palpáveis de redução no horizonte. E a violência, em última instância, instaura a ruptura total da perspectiva futura, tornando os níveis de previsibilidade deste futuro desesperadoramente baixos. Isso se traduz em angústias e paranoias de alcance social muito amplo, o que leva uma sociedade ao enlouquecimento, fácil, fácil.

Logo, a discussão mais do que séria, definidora de, no mínimo, toda uma geração de país, não pode ficar aa sorte dos ventos de afetados arroubos ideológicos, de todo parciais.

É de evidência cristalina o quanto a criminalidade se capilariza e finca raízes em nossa juventude. Onde há mais ausência do Estado tal processo configura-se, reativamente a essa desassistência, endêmico. De fato, falta perspectiva de forma tal que qualquer efêmero protagonismo pode soar atraente. Mas, estruturalmente, as perspectivas de violência direta e indireta, afetam as mais distintas camadas e classes sociais. No caso mais destacado de arregimentação, o tráfico, suas perspectivas de lucro rápido e “fácil” cooptam jovens de cima a baixo, não se justificando, verdadeiramente, distinções tendenciosas midiáticas quanto a pobres e de classe média, envolvidos com a atividade.

Óbvio que isso tudo é um grande, enorme resumo de uma situação pra lá de complexa. O fato é que o quantitativo de juventude comprometida já é certamente mais do que a sensação de tolerável. Não tem qualquer mínimo cabimento, por bom senso básico e necessário, que criemos condições para que todo esse quadro se agrave ainda mais, empurrando o problema pra baixo do tapete. Não cabe encobri-lo ainda mais com cortinas de fumaça espessa. É preciso ter coragem de dissipar toda a densa neblina e botar todos os dedos necessários nas feridas mais do que expostas.

Não podemos nos cegar ao tanto de jovens entre 16 e 18 já total e umbilicalmente comprometidos com o crime, em seus muitos formatos. Como também de outras faixas de idade. Esse número, até como reflexo da sociedade em que vivemos, é mais do que chamativo. Precisamos de medidas que revertam isso, contundentemente, não que remendem ainda mais, não enxergando o quadro caótico que já há aí.

Portanto, já passa da hora de dizer, em alto e bom tom, NÃO aa redução da maioridade penal, porque, ao contrário do que diria aquele grande pensador contemporâneo, pior do que está pode ficar sim. Se nossa resposta como sociedade a todo este quadro for aumentar as taxas de encarceramento e, consequentemente, o aprofundamento no crime de parcelas ainda maiores da sociedade, com enfoque especial aas punições de camadas mais pobres, isso não poderá trazer quaisquer ganhos.

O Estado não pode fazer as vezes do vingador justiceiro. Não se pode nivelar a indignação individual de quem é vitimizado pela violência, em que nível for, aí incluída qualquer reação mesmo as compreensíveis e justificáveis em âmbito pessoal ao papel do Estado.

É fácil. Se tivesse talento pra isto, desenharia. Mas, na impossibilidade do desenvolvimento parapictórico, é simplesinho de entender. As cadeias são, em regra, abaixo de qualquer nível mínimo de humanidade. “Ah! sem esse papinho de diretos humanos pra bandido…”. Direitos humanos são para a sociedade e para o Estado, para que não se façam, a si mesmos, bandidos. O princípio generalizado de punir e castigar, ao invés de regenerar e ressocializar, só pode piorar tudo. Não adianta discutir superficialmente a situação com base em idealizações de nossa sociedade. Quem sai da prisão tende a sair pior, mais profissionalizado ainda no crime. As prisões neste país são máquinas de triturar gente. O que está em jogo é simplesmente se aumentamos o contingente de matéria-prima nessas fábricas ou, se reconhecendo a gravidade da atual situação, tiramos a máscara da hipocrisia e lidamos com isso com medidas de longo prazo, porém eficazes, longe do imediatismo sensacionalista midiático e social que reinam.

As prisões não têm perspectiva de melhora. Preso não vota. E boa parte de seus familiares, oriundos que são de setores discriminados socialmente, não tem sequer reconhecimento real de cidadania. As prisões são como são como reflexo do desprezo humano e da negativa prévia de reversão da situação criminal em si.

maioridade penal

Pronto. Nem precisa mais desenhar.

Em outras palavras, você que vociferante e babão dono da verdade enche o peito pra defender a redução da maioridade penal saiba que isso, inevitavelmente, aumentará ainda mais sua aflição paranoica com violência, até o ponto do autoenjaulamento, como condição de bem-estar. Reduzir a idade penal, em nosso contexto, é necessariamente precocizar a entrada no mundo da criminalidade para muitos.

Não há opções fáceis. Viver em sociedade implica reconhecer tal sociedade ao seu redor, com seu vasto conjunto de especificidades e vicissitudes. Não imponha seu tacanho egocentrismo como punição a toda a sociedade. Enfim, o que tô a dizer afeta o “cidadão de bem”, o cidadão de mal” e, sobretudo, quem sequer sabe o que seja cidadania…

Ao invés de cogitar reduzir a idade penal, deveríamos estar a discutir como fazer para que as instituições para menores infratores não sejam mais pré-vestibulares do crime, como assistir de Estado quem hoje está aa margem deste, como reduzir o fosso social brasileiro. Mas isso tudo não interessa, né? Não é problema seu, certo? É muita pequenez em torno do tema da maioridade.

O debate sobre a maioridade penal não pode se converter distorcidamente em minoridade social.

 

 

 

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Questão de História e Literatura Dramática


Colégio Brasil

(Classes A, B, C, D e E do 12º ano)

Um dramaturgo está esboçando duas peças teatrais com as mesmas personagens. Um dos textos irá se passar em 1995 e a outro em 2015. Sabendo disso e usando canetas de cores diferentes para identificar cada uma das peças faça o seguinte exercício:

  1. Desenhe uma linha ligando as frases aos seus personagens corretos. (Há frases para os diálogos, outras são expressão dos pensamentos das personagens, para serem usadas em cena com o recurso do à parte, para a plateia).
  2. Marque um O na frente dos heróis e um X nos vilões.
  3. Organize as personagens em grupos e indique sua característica dramatúrgica: personagens típicas (quando pertence a um grupo social, profissional, religioso, etc.); caricatas(quando suas características são exageradas) e individuais (quando suas características são próprias, incomuns).
“Índio bom é índio morto”

Juiz

“A corrupção é o câncer do Brasil”

Empresário de obras públicas

“Você sabe com quem está falando?”

Grileiro e latifundiário

“Os meus direitos e vou fazer valer”

Deputado

“(…) logo eles, que estão na posição mais baixa da escala social (…) ”

“Tudo começa na família”

“Querem destruir a nossa família”

Pesquisador

Travesti

Bispo

“Farinha pouca, meu pirão primeiro”

“O Comando é que manda”

Jovem estudante rico e branco

      Menor de idade pobre e negro

“Não pode passar, aí é a entrada social”

Porteiro

“Sou eu o culpado, sou eu ! ”

Pessoa torturada

“Foda-se. se. Uma banana pra ele”

Comediante de TV

“Me revolta pagar impostos para sustentar vagabundos”

“Essa preta vagabunda, feia e morta de fome”

“Essa ladra, vaca, essa filha da puta que vai tomar no cu ”

“O comando é que manda ”

Socialite

Prostituta

Cliente de Prostíbulo

Policial

“ O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”

Economista

“Esse politicamente correto é uma merda”

Ator de teatro

“O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”

Ministro de Estado

“Não vou usar por enquanto. Estou comprando para investir”

Especulador imobiliário

“Moro na favela, tenho vergonha mas o salário não dá”

Empregada doméstica

“Me dá uma esmola, tia”

Criança no farol

“Mulher que é estuprada é porque merece”

Ministro de Estado

“A pessoa tem que saber o seu lugar, respeitar os outros”

Homofóbico

“Eu posso não saber porque eu estou batendo mas ela sabe porque está apanhando”

Psicopata

“Tem que matar esses vagabundos todos”

Lider político

“Eu acho que não dá, também, só o bombardeio, porque o bombardeio não  leva a consequências de paz”

Líder política

“ Gente, democracia não é quando todo mundo pensa como a gente… mas quando as outras pessoas tem o direito de pensar e expor suas piores ideias sem nem pensar em nos impedir de pensar e expor as nossas.
ninguém é bonitinho na democracia (isso é desenho de ursinhos carinhosos). a humanidade é esquisita e, casualmente, somos humanos”*

                     Professor de História

A prova deve ser respondida individualmente, mas, sua correção será feita coletivamente pelo feicibuco.

 

                                                                                                                             BOA PROVA!

* Miguel Marcarian

 

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Vladimir Safatle, se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria um paraíso!


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O mesmo vale para o Português… Informe-se e compre um dicionário!

Essa semana, deparei com uma publicação no Facebook com o título “Vladimir Safatle: Governo Alckmin é autista”. Doeu na alma! O título do texto do douto em Filosofia, além de lamentável, é triste e revoltante porque retrata a ignorância e falta de empatia por pessoas que precisam brigar todos os dias por mais respeito, contra o preconceito e a discriminação!

Pra quem não sabe, sou militante da causa autista e tenho um filho autista. O uso da palavra autista no sentido pejorativo ou mesmo com a intenção de ofender vem se espalhando como erva daninha na mídia, na política e entre os ditos intelectuais.

Só para que o leitor tenha alguma noção, elenquei alguns dos tristes episódios e seus autores:

  • Em 2000, sob o título ‘Autismo’, um editorial destaca a fala do então advogado-geral da União, Gilmar Mendes: “Os juízes estão anestesiados; o autismo é um mal complicado do Poder Judiciário.”. (Jornal da Tarde, 12/7/2000).
  • Em 2005, o título “Governo e Congresso têm comportamento autista, afirma Lessa”, trouxe uma longa entrevista concedida por Renato Lessa, na época professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).(Rafael Cariello, Folha de S.Paulo, 15/5/2005).
  • Em 2011, “Para sociólogo, Ana de Hollanda é “meio autista“. O sociólogo é Emir Sader que estava prestes a presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa e Ana de Hollanda era a ministra. (manchete para Ilustríssima, Folha de S.Paulo, 27/2/2011, p.1)
  • Em 2011, o colunista Leonardo Attuch, criticando Emir Sader diz que o sociólogo “poderia ser enquadrado na categoria” de autista e mais adiante diz que Emir, por não perceber a nova realidade, dá sinal de ter autismo. (Leonardo Attuch, IstoÉ, ano 35, n. 2156, 9/3/2011, p.47).
  • Em 2013, o título do editorial do jornal O Globo era “O autismo da política de comércio exterior”. (Editorial O Globo, 26/02/2013)
  • Em 2014, o diplomata Paulo Roberto de Almeida publica em seu blog “Um governo autista, que acha que o mundo está errado, só ele está certo… – Mansueto Almeida” e em seguida “Existe alguma novidade econômica, ou de simples pensamento econômico, vindo do governo. O governo, ou a governanta, é autista, autossuficiente e satisfeito consigo mesmo. Tem o contentamento dos beatos, dos simples, dos ingênuos, dos ignorantes…” (Diplomatizzando – 07/07/2014)
  • Em 2014, o senador Roberto Requião, pmdbista candidato ao governo do Paraná, numa tentativa de desqualificar Beto Richa, afirmou que o psdbista era autista e conduzia um governo autista durante um debate na RPV TV (repetidora da Globo) (30/09/2014)
  • Em 2015, Clei Moraes, Analista, Articulista e Redator, Consultor em Comunicação e Relações Governamentais, Assessor Parlamentar como ele se apresenta, publica com o seguinte título “Cleptocracia autista: O governo Dilma acabou”. (OPublikador, 08/02/2015)
  • Em 2015, o senador (PSB-AP) João Capiberibe dá uma entrevista a Veja onde afirma “Se o povo bater às portas do Congresso, aí todo mundo atua. Se não bater, vai ficar no autismo de hoje.” (site Veja , O Brasil vive uma cleptocracia – 17/03/2015)
  • Em 2015, Vladimir Safatle, filósofo e professor livre-docente da Universidade de São Paulo, colunista da Folha de São Paulo e do site Carta Capital, publica um texto de crítica ao governador de São Paulo Geraldo Alckmin com o título “Governo autista”. (Folha de São Paulo – 28/04/2015)

Chamar alguém ou um governo de autista com a intenção de dizer que ele está alheio a realidade ou que só vê o que quer ou que está ensimesmado é de uma ignorância gritante, e só traz mais angústia e sofrimento pra quem vive as dificuldades da inclusão no país das injustiças sociais. Quando a intenção é o insulto ou o escárnio, a revolta é inevitável!

Para princípio de conversa, o ensimesmamento não é o único sintoma do autismo, há outros muito significativos que só, e somente só, em conjunto, caracterizam a necessidade de investigação para diagnóstico de autismo. Além disso, autismo é um transtorno de espectro muito amplo e que não determina a personalidade, ou seja, cada autista é único, como qualquer outro indivíduo, mesmo que tenham os mesmos sintomas ou reajam da mesma forma numa ou noutra situação. Autistas não são robôs ou robotizados, não são formatados, como muitos pensam!

Mas o que é o autismo?

É uma forma particular de se situar no mundo e, portanto, de se construir uma realidade para si mesmo.

A partir do último Manual de Saúde Mental – DSM-5, todos os distúrbios do autismo, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA.

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Uma das características do autismo bastante marcante é não conseguir mentir, ao contrário, o autista é muito sincero. A mentira depende do entendimento da subjetividade, e como autistas têm dificuldade em lidar com subjetividade, não mentem! Além disso, não entende duplos sentidos e entende as coisas ao “pé da letra”. Essa sinceridade, por vezes extremada, em geral, está relacionada ao fato dele não entender certas convenções sociais ditadas pela sociedade neurotípica. O fato de não entender duplos sentidos, por exemplo, faz com que frequentemente seja vítima de bullying e nem perceba, ao ponto de rir junto com quem está debochando dele mesmo.

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Pelos menos 3 mitos sobre o autismo corroboram para o uso pejorativo do termo autista.

  • Autistas não interagem e não se comunicam com outras pessoas.
  • Autistas vivem num mundo particular.
  • Autistas não são capazes de demonstrar emoções.

Isso não está nem perto da verdade! Autistas, mesmo os clássicos, quando amados, acompanhados e sob tratamento, conseguem interagir socialmente. São capazes de se comunicar, ainda que sejam autistas não-verbais. E são capazes de demonstrar emoções. A questão é que a forma como o fazem pode não ser a convencional.

É daí que vem o título! Se Safatle soubesse o que é autismo, saberia que se o governo Alckmin fosse autista, São Paulo seria governado por alguém incapaz de mentir, incapaz de desonestidade, incapaz de jogar sujo e capaz de ser extremamente sincero! Seria o paraíso!

Assim como Safatle, Clei Moraes, no blog O Publikador, comete a infelicidade de dizer que o governo Dilma é uma cleptocracia autista! O sujeito qualifica o governo, que ele chama de cleptocracia (segundo ele, estado governado por ladrões), como autista! Ignorância! Vergonha Alheia! Duas coisas não poderiam ser mais antagônicas que um ladrão e um autista! Sr. Clei Moraes pediu desculpas nos comentários do seu texto com a justificativa de que o uso foi “licença retórica e gramatical”, ou seja, a liberdade de expressar criativamente sua ideia convicta! O que pra mim quer dizer que ele escreveu porque quis e que se danem os autistas! Safatle e Clei Moraes são capacitistas, assim como todos os outros citados nesse texto, ofenderam, de uma só vez, dois milhões de brasileiros autistas. Triste! Como eu gostaria que o Brasil fosse governado por alguém incapaz de mentir, de ludibriar…

O uso pejorativo do termo autista só reforça o capacitismo arraigado na nossa sociedade, ou seja, ela (a sociedade) se orienta pelo dominante, aquele que tem capacidade, relegando aos deficientes o plano da inferioridade. E essa orientação está nas teorias, nas práticas, nas ações do dia a dia, de forma preconceituosa e na contramão da inclusão social.

Para, além disso, tratar o autismo como uma deficiência e incapacidade é de um reducionismo absurdo! É ignorar que possa haver outra forma de ver o mundo! Para muitos, inclusive médicos, o autismo é exatamente isso, e o tratamento não só passa por ajudar o autista a se comunicar conosco, os neurotípicos, como também entender sua forma de ver as coisas, entender seu mundo particular. O tratamento ideal para um autista seria então a troca! Mas numa sociedade preconceituosa e injusta, um autista só encontra sofrimento, angústia e ansiedade, o que lhe faz cada vez menos aceitar o contato.

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O leitor um pouco mais situado sobre a causa autista deve estar se perguntando por que uso o termo autista e não pessoa com autismo, principalmente por estar criticando capacitistas. Tenho lido muitos textos sobre capacitismo e sobre defesa da reapropriação linguística de termos definidores de minorias. É o que estou fazendo nesse texto! Estou me reapropriando do termo para reforçá-lo como característica de um ser humano e não como sua deficiência. Enquanto nós, autistas e familiares, continuarmos a ver e sentir o termo autista como algo negativo, estaremos reforçando essa ideia na sociedade. Precisamos nos reapropriar da palavra para redefinir o que é ser autista, porque ninguém está autista. A reapropriação amplia, na sociedade, a discussão e corrobora para seu esclarecimento. E uma sociedade consciente da necessidade de inclusão, é uma sociedade preparada para lidar com nossos anjos azuis!

Dedico esse texto ao meu Anjo Azul, que nesses dias, ao conseguir entender o que era luto e o motivo pelo qual professores de sua escola estavam de preto, fez o seguinte comentário num tom de revolta, porém cheio de inocência:

– Tem que respeitar os professores! Educação é uma coisa boa. Vamos falar com o governador do Paraná. Temos que dizer pra ele não bater nos professores. Bater é errado.

Meu filho, tenho muito orgulho de você!

 

Para saber mais sobre autismo:

Os autismos

O autismo em tradução

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Sangue e giz


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Eu sou professor.

Não moro no Paraná. Não estive na manifestação.

Mas aquelas bombas explodiram em minha sala de aula. Aquelas balas de borracha atingiram-me o coração. O gás de pimenta ainda me deixa sem fôlego.

Esse não foi um caso isolado, mas a representação em guerra do que se transformou não só a educação, mas as relações de trabalho no Brasil. Existe uma censura prática ao que se pode ou não dizer, a quem, onde e quando falar (por que falar? Emudecer é a ordem). A mídia se cala para o que não lhe interessa e fomenta o ódio. Estamos em uma terra sem lei, onde o poder em qualquer esfera torna-se absoluto e coloca-se a serviço dos interesses pessoais dos pequenos imperadores que se sentam nas correspondentes cadeiras.

Estes impérios individuais reproduzem-se aos montes e apossam-se de vozes que dizem representar. O judiciário solta empresários, mas mantém presos quem foi às ruas protestar contra o poder. O desinfetante na mão do indigente é razão suficiente para encarcerá-lo por toda a vida. Só se vê o que se quer e quando quer.

Do outro lado, multidões patrocinadas pedem intervenções de violência. Em paz, é claro. O apoio à truculência, a mentira e o eufemismo tomam conta das manchetes e de comentários. Chamam massacres de confronto. Buscam razões para a barbárie. Como se qualquer coisa que se inventasse pudesse justificar o uso das bombas contra as pessoas mais valiosas de uma sociedade.

Lendo tais ficções em forma de notícia, penso que são os professores paranaenses os seres mais corajosos de que já tive notícia: desarmados, em condições desfavoráveis e desorganizados, resolveram atacar uma treinada guarnição policial equipada com bombas, pistolas, fuzis, escudos, capacetes, cassetetes, balas de borracha, carros blindados… Só os produtos de uma educação sucateada como a nossa poderiam acreditar em algo assim descrito no noticiário da tevê.

Os black blocs tornam-se a desculpa esfarrapada da hora, ainda que não se tenha notícia de nenhum integrante do movimento entre os presos ou mesmo nas imagens da selvageria. Culpados, não importa a verdade, importa acusar alguém. Ou diluir a notícia. A mídia, quando percebe alguma comoção, inventa heróis improváveis, como os policiais que se recusaram a participar da carnificina e foram presos. Seus nomes, onde estão presos e outras questões são mistérios. É a tentativa de desviar o foco pulverizando assuntos.

As greves da educação são reiteradamente ignoradas pela imprensa. Mais que isso, a própria educação é ignorada solenemente neste país. Tomem-se campanhas como voluntariados e televisores no lugar de professores como exemplos de como alguns meios de comunicação dão “importância” ao tema. Pensa-se em educação como uma sala de aula abarrotada de crianças, onde “sacerdotes do ensino”, abnegados e filantropos do saber, ensinar-lhes-ão tudo o que é necessário para que a sociedade funcione exatamente do jeito como está.

Professor não é sacerdote! Escola não é depósito de crianças! Um basta ao modelo educacional que não ensina, não forma e permite, inclusive, que pessoas que um dia foram seres humanos, tornem-se policiais, agentes da violência contra quem lhes educa os filhos.

Precisamos de uma escola que deixe de ensinar somente respostas prontas e servis, mas a formular perguntas desafiantes e engrandecedoras. Ainda que o preço hoje cobrado a quem questione seja altíssimo, pago em sangue e em lágrimas como provou o ato de Curitiba. Entretanto, não há dúvidas de que é esse o caminho.

Nota zero para Richa e sua corja de apoiadores. Esse é mais um daqueles casos em que devem cair secretário de segurança, comandante da polícia e enseja ao governador a reflexão sobre sua renúncia. Mais violência, menos atenção: ainda que variem em quantidade, é o tratamento dado aos professores em greve hoje não só no Paraná, mas em São Paulo, Santa Catarina, Pará e Pernambuco. Movimentos que não ganham, na mídia, um décimo do espaço que qualquer coxinhaço sem sentido recebem na cobertura jornalística. Mais professores, menos coxinhas, por favor.

Valorizar o professor e a educação é um discurso repetido por políticos e por boa parte da sociedade. Chega de slogans, é hora de exigir de fato um investimento real na área. Não dá para reclamar do tamanho do Estado, quando faltam professores em sala, quando se paga uma miséria para o profissional mais importante da sociedade ou quando se vê a total falta de infraestrutura das escolas brasileiras.

O país gasta 978 bilhões de reais pagando o serviço da dívida, enquanto aplica 80 bi na educação. São doze vezes mais dinheiro para juro que para futuro! A conta é simples para entender que o banqueiro é mais importante que a educação de nossos filhos. E, se alguém se levanta contra isso ou parte disso, porrada. Bombas e balas de borracha que custam mais que o que é pago ao próprio professor que é vítima desse paradoxo estúpido.

O agravante da situação é que os professores paranaenses manifestavam-se não para receber mais – o que seria algo perfeitamente cabível –, mas para não perder direitos. O apetite do poder jogou trabalhadores nas cordas, onde não se luta para ganhar, mas para evitar maiores derrotas. A vitória de hoje é sair com ferimentos leves – tanto na carreira quanto no corpo.

Quebraram o nosso giz. Destruíram nossa lousa. Castigaram nossos corpos. Mas não mataram nossos sonhos. Não há força que nos faça parar. Lecionaremos, não como sacerdócio, mas como a afirmação de uma profissão indispensável que deve ter sua relevância reconhecida. Temos orgulho do que somos e do que podemos construir. Estamos de luto. Estamos em luta. Passam por nós todos os médicos, engenheiros, economistas e jornalistas da nação. Mas nossos inimigos não passarão.

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Dia do trabalhador: aproveite enquanto ainda dá…


No Brasil, ainda fará sentido, em algum tempo, celebrar o 1º de maio como Dia do Trabalhador?! Afinal, podemos vir a regredir quase um século na legislação trabalhista no país. Um pouco mais de recuo nas leis e no tempo, alcançamos a escravidão… Então, ser trabalhador com uma jornada de trabalho minimamente decente será considerado luxo, assim como férias remuneradas, 13º trabalho, recolhimento de FGTS e, claro, dignidade.

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1º de maio é uma data que abrange todo o planeta Terra. E não por acaso. Ano de 1886, greve geral no aa época forte movimento sindical norte-americano, iniciada em 1º de maio. Em Chicago, coração do operariado do país, dezenas e dezenas de milhares protestaram, reivindicando condições de trabalho mais dignas, o que incluía redução da jornada de trabalho. Em 03 de maio, a polícia já matara três manifestantes. No dia seguinte, num 4 de maio, como continuidade das lutas iniciadas em 1º de maio e contra os assassinatos e repressão dos dias anteriores, seguiu-se um protesto ainda maior. Foi um movimento vigorosíssimo.  Então, no epicentro operário norte-americano a polícia, em defesa dos interesses do poderoso patronato, abriu fogo. Dezenas e dezenas e dezenas de feridos, mais de dez mortos. Os oito tomados por líderes do movimento presos. Destes, cinco foram condenados aa morte e outros três aa prisão perpétua. Três anos depois, no Congresso na 2ª Internacional Socialista, em Paris, se iniciaria a jornada de lutas pelo reconhecimento do 1º de maio como dia internacional de luta dos trabalhadores, em referência aaquele início de jornadas de lutas, em Chicago.

os-martires-de-chicago-1 Até hoje, tal data é ignorada oficialmente nos EUA (também no Canadá), sendo o Labour Day lembrado na primeira segunda-feira de setembro.

E é sempre bom e necessário lembrar: o dia é do Trabalhador; não do trabalho!

É impressionante que, mais de um século após esses acontecimentos, no Brasil, ponto nevrálgico do capitalismo na América Latina, estejamos aas voltas com o fantasma da terceirização em larga escala como parâmetro de organização do mundo do trabalho brasileiro para o séc. XXI. Não deve ser aa toa que, por vezes, na Europa, relações de precarização de trabalho são chamadas de “brasileiração”. Já não é fácil ser trabalhador neste país. O PL 4330/04, atualmente, no Senado,  PLC 30/2015, pode tornar ser trabalhador, mesmo da forma que hoje conhecemos, situação de privilégio.

É o sanguinário neoliberalismo, versão mais selvagem e ainda menos escrupulosa do velho e nada bom liberalismo, a revogar suas concessões de tempos de Guerra Fria, num mundo hoje, infelizmente, sem contraponto socialista. É hora de retomar os anéis que ficaram esquecidos por aí, pensa o velho capital.

Coincidente e ironicamente, o 1º de maio aqui é o dia seguinte ao limite da declaração de imposto de “renda”, afinal, no Brasil, trabalhador tem renda e não vencimentos. Muito menos salário, coisa do Império Romulano (descendentes que são dos mal humorados vulcanos); sim, porque salário é coisa doutro mundo, em que pese o leão a remeter aa antiga Roma e seus coliseus, permanente metáfora dos que assistem a injustiças e opressões como cúmplices, em silêncio ou intoxicados de pão e circo.

Sou um homem de grande fé, convicta e resoluta. A historicidade é minha fé! Me choca cotidianamente que as pessoas não se deem conta que, não fossem as lutas dos trabalhadores viveríamos num mundo ainda mais infernal, sem qualquer direito, a não ser o de, no dia seguinte, trabalharmos (semi)escravizados para enriquecer alguém que nos daria migalhas defectíveis. Me espanta que a maioria não se dê conta de que o capitalismo existe cotidianamente em concretude muito dura e árdua. Ele existe nos patrões, nas legislações, no judiciário, nas “verdades” que pairam (aí, obviamente, incluída a mídia). Existe em nós! De tanta mais-valia, cada vez, menos valemos.

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Foto de Lewis Hine.

 

“Os quebradores de pedras (II)”, por Gustave Courbet: a arte naturalista há mais de um século retratava a precariedade do mundo do trabalho.

 

Claro que, em meio aa sanha de revogação de direitos do mundo do capital, a repressão há de ser enérgica, afinal, aí o capitalismo existe tenazmente, nu, cru e cruel. Por isso, não me sinto surpreso, embora me sinta chocado, com o nível de truculência aos trabalhadores em educação do Paraná, nesta semana, sob o comando do governador do PSDB Beto Richa, senão Hitler. As imagens falam mais do que é possível dizer por palavras. Centenas de feridos. Agora, no Paraná. Em 2013, no Rio de Janeiro. Recentemente, em São Paulo, em Pernambuco… Nos espaços em que for necessário, pra garantir a violência do roubo de direitos dos trabalhadores, haverá a violência que se fizer necessária. Não tenhamos ilusões. Isso sem falar no fato de que, no fim das contas, são reles professores. Quem liga?!

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Desculpo-me com os retratados pela divulgação não autorizada, mas necessária, de suas imagens.

Discurso padrão de nossa mídia "oficial".

Discurso padrão de nossa mídia “oficial”. Não é necessário explicar mais, né?

No fim das contas, ainda se trata da mesma questão e das mesmas atitudes de maio de 1886. É preciso enxergar com historicidade.

Em que pesem todos os muitos pesares, VIVA OS TRABALHADORES! E VIVAM OS TRABALHADORES!

 

Não há vagas (Ferreira Gullar)

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

 

P.S.: enquanto isso, o 1º de maio ontem em Havana. Que ditadura é essa, hein?!

P GRANMA

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Iêmen: afinal, que país é esse?  


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Uma nova catástrofe humanitária se desenha no horizonte. O Iêmen é o mais pobre dos países árabes. Além de não ter sido agraciado pela geologia do planeta com uma única gota de petróleo, o país não tem nenhum porto importante de escoamento do produto, nem está providencialmente no caminho de nenhum oleoduto (o PIB da Jordânia, dizem, depende 30% de royalties do petróleo, mesmo sem também ter petróleo algum, por essa razão).

Nem sempre foi assim. Até os idos do século XVI, o então reino participava do rico comércio de cabotagem da bacia do Índico. O mar do Iêmen, no qual havia grandes quantidades de ostras, exportava pérolas, especialmente para a Índia. Este comércio foi desmantelado pelos portugueses já na expedição do Vasco da Gama, que ainda por cima saqueou diversas cidades da região e as inseriu em um pesado esquema de tributos. Pode-se, dizer, então, que o Iêmen foi uma das vítimas de primeira hora do ciclo de expansão marítima europeia. Claro que de lá para cá, muita ponte passou por cima dessa água…

Hoje, a minoria xiita houthi está sendo responsabilizada por levar o país a uma guerra civil, com os dedos de Teerã por trás de tudo, como sempre. Que há uma guerra em andamento, não há dúvidas, mas de perto talvez não seja bem assim. Antes de tudo, o movimento houthi buscava maior reconhecimento político. Sua luta era contra um governo corrupto e que deixava combatentes estrangeiros da Al Qaeda, instalados no país, atacá-los de forma sistemática (a Al Qaeda é um grupo terrorista sunita, e sua guerra religiosa se estende também ao Irã e ao xiismo de maneira geral). Porém, além dos conflitos em terra, o que mais aflige a população iemenita são os bombardeios promovidos por uma aliança liderada pela Arábia Saudita (supostamente para deter o avanço da influência iraniana na península arábica) com o apoio logístico dos EUA (e não é que, curiosamente, este último país e a Al Qaeda se veem subitamente do mesmo lado, de novo!).

O Iêmen, como dito, é o mais pobre país árabe, e dos mais pobres do mundo. A Arábia Saudita é o país árabe mais rico, e os EUA, o mais rico do mundo, o que torna este bombardeio um dos mais constrangedores e difíceis de justificar do planeta. Segundo a OMS, já morreram mais de 1.000 pessoas desde março, quando o conflito se agravou. Mas o pior está por vir. No Iêmen, menos da metade da população tem acesso a luxos como eletricidade e água potável. Os índices de mortalidade infantil são de padrão saariano e a expectativa de vida está entre as mais baixas do mundo, segundo dados da ONU e do Banco Mundial. A estrutura médico-hospitalar do país que já era, desnecessário dizer, precária, está agora cedendo sob a pressão da quantidade crescente de feridos e do desabastecimento. Já faltam remédios e material até mesmo dos mais básicos e essenciais. Como os bombardeios estão minando a pouca infraestrutura do país, atingindo estradas, portos, aeroportos, usinas, fábricas, o preço dos alimentos quadruplicou na semana passada, e a quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar (i.e., pessoas que não têm a menor garantia de ter comida no dia seguinte), que já era elevada, chegou a 12 milhões. Ou seja, uma crise de proporções bíblicas se aproxima, e as agências da ONU para refugiados já se preparam para o pior.

Tudo isso devido à nova geopilítica saudita, cujo pilar agora é, segundo eles mesmos, a proteção do estado árabe, mesmo que isso signifique bombardear um país estrangeiro sob um falso pretexto. Isso ja foi visto antes. Aprenderam bem a lição dos seus protetores.

XXXXXXXXX

Falando do Iêmen, mas, hoje, vergonha, teu nome é Curitiba

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