Vândalos, baderneiros, assassinos e tragédias anunciadas

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E a barbárie com que o ano de 2014 se iniciou não mostra sinais de enfraquecimento. Depois de assistirmos a mais execuções em favelas, torturas em presídios medievais e muita “justiça” com as próprias mãos, iniciamos esta semana com a dolorosa e inaceitável morte de um cinegrafista que cobria as manifestações contra o novo (abusivo e imoral) aumento das passagens de ônibus. A culpa? Dos Black Blocs, claro, com a cumplicidade dos manifestantes vândalos, baderneiros e agora além de tudo assassinos, sempre contando com a impunidade que o poderoso lobby dos direitos humanos lhes confere.
Bem, não quero fazer troça diante da gravidade do assunto, da gravidade da situação, mas infelizmente a piada que a cobertura desse crime se tornou dificulta muito o emprego do tom mais solene que a morte reivindica. Não consigo crer que um veículo de comunicação que divulga fatos que foram “contados pelo estagiário do advogado para o delegado que disse que a Sininho disse que o Marcelo Freixo disse” ainda seja levado a sério por alguém. Isso é tudo, menos jornalismo.

Nada disso anula o fato de que quem cometeu esse crime, manifestante ou não, tem que ser encontrado e julgado, com justiça, pois o contrato social mais elementar solicita que as pessoas não se matem no meio da rua. O problema é que está na hora de o dito contrato começar a valer para todo mundo, a começar pela própria polícia. Não sei se é hora de relembrar a diferença de alcance e repercussão que esta última história teve em relação a tantas outras, de igual importância… relembrar massacres, execuções e amarildos que não receberam nem de perto a mesma atenção.

O corpo que “todos” queriam

Infelizmente, temos sim que ressaltar a conveniência dessa morte, que explica a sua superexposição. Não considero isso um ultraje nem desrespeito à dor da família. O que é ultrajante é a forma como isso tem sido usado pela mídia, pelo poder publico e por toda ordem de reacionário de plantão para jogar a população contra os movimentos que teimam em permanecer nas ruas. Tenho muita dificuldade em acreditar que gente bem-informada, progressista, de esquerda e que no mais em geral é crítica saia por aí repetindo que um Black Bloc soltou o rojão que matou o cinegrafista, quando a única fonte dessa informação foi um jornal televisivo sabidamente manipulador, que aliás não apresentou uma única prova para sustentar essa acusação além de um depoimento anônimo.

Muitos partidos tradicionais de esquerda, inclusive os governistas, tentaram encampar as manifestações no ano passado. Todos foram rechaçados, e agora todos as rechaçam (por mais incoerente que seja partidos que reivindicam a transformação social colocarem-se contra uma, quando ela se escancara na frente deles). Nesse sentido, é claro que uma morte provocada por um manifestante “veio a calhar”, pois o único apoio com o qual o movimento conta é o das ruas e da população, que recebeu com entusiasmo, por exemplo, o movimento Catraca Livre, que abriu as roletas da Central – onde muitos dos usuários deixam perto de ¼ da sua renda, em troca de um serviço de péssima qualidade. Essa história será manipulada, como tantas outras, até o enjoo no sentido de isolar os protestos da sociedade, sua única real apoiadora.

Responsabilidades (a culpa é de quem?)

Quando falo dos movimentos de rua dos últimos meses, sempre dou preferência a relatos de primeira mão. Há meses ouço jornalistas que cobrem tais eventos reclamarem que não recebem equipamentos de segurança adequados para realizarem o seu trabalho. Armas de baixa letalidade estão sendo sistematicamente empregadas de forma inadequada pela polícia, o que as torna de fato perigosas. Entre os jornalistas que conheço ou conheci, os que tinham equipagem adequada a haviam adquirido pagando do próprio bolso. Muitos, como trabalhadores que são, eram obrigados a estar ali sem ao menos um capacete. É forçoso perceber que o mais singelo capacete, desses de andar de bicicleta na rua, teria evitado essa tragédia. Evidentemente, há uma responsabilidade aí das empresas de comunicação que forçam seus empregados a se expor a situações de risco sem a devida proteção. Por que será que isso não é levantado?
A manifestação seguinte à fatídica, do 11 de fevereiro, correu na mais serena paz, uma vez que a polícia não atacou ninguém, não provocou, não tentou prender manifestantes de forma aleatória (bem, no finzinho eles tentaram prender um pouco, que ninguém é de ferro) e não atirou bombas de gás a torto e a direito. Que estranha coincidência, não? Quando a polícia se comporta, a manifestação transcorre sem maiores incidentes, como se num passe de mágica os vândalos, baderneiros e agora além de tudo assassinos se transformassem em cidadãos ordeiros e sensatos que só querem o direito de reivindicar melhores condições de vida – sim, chegamos ao ponto da metamanifestação, quando se reivindica o direito de ter o direito a se manifestar. Essa manifestação contou ainda com demonstrações de pesar e de apoio aos familiares do cinegrafista, na forma, entre outras, de cartazes de luto. Isso, é claro, a televisão não mostra, pois vai contra a versão da demonização completa dos manifestantes. Em vista disso, serão os movimentos sociais responsabilizáveis como um todo por atitudes claramente individuais?

Agora, em decorrência da morte, o Congresso apressa-se a aprovar uma lei antiterrorismo, que eles querem pôr em vigor antes da Copa. O texto está longe da consolidação, mas no momento ele é suficientemente vago e elástico para enquadrar até um grupo de chá de velhinhas vestidas de preto. No Brasil, os únicos grupos terroristas perigosos em atividade que explodem bomba, sequestram, extorquem e matam são a polícia e o Estado. No mais, como já é bem sabido, o Brasil não mudará com mais leis ou mudanças de lei. Basta que se cumpram as que já existem. Se estas fossem cumpridas, não haveria masmorras no Maranhão de empalidecer até as da Santa Inquisição. Não haveria o descalabro urbano dos transportes, todos teriam moradia, educação, assistência médica etc. Não haveria espoliação do patrimônio público, lucro irresponsável de bancos e tantas outras coisas com as quais infelizmente nos tornamos mais ou menos habituados a conviver.

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